As boas mulheres da China – Xinran

capa de as boas mulheres da China de Xinran

Quem escreveu o livro?

      Xinran é uma jornalista nascida em Pequim, no ano de 1958, que se mudou para a Inglaterra no ano de 1997, devido à impossibilidade de publicar seus relatos na China. Atualmente ela é colunista do jornal The Guardian e professora na School of Oriental and African Studies, da Universidade de Londres. Em 2004 ela fundou uma ONG, chamada “The Mother’s Bridge of Love“, que intenta auxiliar jovens chineses órfãos a entender as diferenças entre a China e o Ocidente. É mãe de Pan Pan e casou-se com um inglês, chamado Toby

A jornalista chinesa Xinran.
A jornalista chinesa Xinran.

O que é interessante saber antes de ler?

     A primeira coisa que deve-se ter em mente ao realizar a leitura desse livro é que a China é um país muito grande, um dos mais populosos do mundo e uma das civilizações mais antigas, que por muito tempo baseou sua ordem exclusivamente na tradição. Isso faz com que a história chinesa seja repleta de revoltas e contra-revoltas, com períodos de repressão e outros de liberdade. 

   A leitura não pode ser realizada sem uma contextualização sobre a China e sem o devido relativismo necessário para a compreensão de que a realidade chinesa é bastante diferente da nossa. Com essa noção, fica mais fácil de embarcar nas histórias sem comparar com o que elas seriam caso fossem passadas em países como o Brasil. O interessante é pensá-las enquanto produtos da cultura e sociedade chinesa e, portanto, cabíveis apenas nela. Paralelos dessas histórias são possíveis na nossa realidade, claramente, mas a intenção do livro é mostrar para o Ocidente uma face da mulher chinesa que costuma ser reprimida e apagada. Por essas razões, se a leitura for embebida de preconceito gratuito perante a cultura chinesa, não será produtiva.

    É interessante também ter em mente que os relatos que compõem o livro foram colhidos por cerca de dez anos, até por volta de 1997. Dessa forma, muito provavelmente a realidade atual da China já seja outra e as histórias das mulheres que vivem lá hoje sejam um tanto diferentes. Outro ponto importante é atentar-se para a contextualização que Xinran realiza em cada uma das histórias, para que a gente não caia na besteira de conhecer e pensar no passado com os olhos da atualidade.

      Se lido com curiosidade respeitosa e anseio por conhecer as entranhas de uma realidade chinesa, o livro mostra-se bastante produtivo e uma obra prima.

Ok, mas sobre o que é esse livro afinal?

      Na década de 80 a jornalista Xinran conseguiu convencer sua produtora de rádio a permitir que ela realizasse um programa noturno diário que contasse ao povo chinês sobre as mulheres do país. Sua intenção era conversar ao vivo com ouvintes e expor as histórias mais interessantes. Além disso, algumas ouvintes deixavam recados em sua secretária eletrônica ou enviavam cartas e ela passava seus dias pesquisando e conversando com mulheres de diversas realidades, a fim de trazer discussões coerentes para o seu programa de rádio, que se chamava “Palavras na brisa noturna“.

Xinran no estúdio de
Xinran no estúdio de “Palavras da brisa Noturna”.

     As boas mulheres da China é, portanto, um conjunto de relatos colhidos durante a produção desse programa de rádio. Xinran não poderia publicá-los estando na China, podendo ser presa caso tentasse, por essa razão, o fez na Inglaterra. O livro conta com quinze relatos, sobre mulheres jovens, adultas, idosas, solteiras, casadas, crianças, modernas, tradicionais, divorciadas, viúvas, encarceradas em cadeias ou hospitais, e finaliza com um relato incrível sobre um grupo de mulheres que vivia em um povoado minúsculo.

     Em cada um dos relatos Xinran aparece como narradora principal e as histórias são contadas como forma de entrevistas, com vários trechos entre aspas. Em um dos capítulos, a jornalista explora um pouco da história de sua própria família e também a dela. No decorrer dos relatos, o leitor é levado a conhecer a China em diversos momentos históricos diferentes, sendo obrigado a conhecer um pouco mais de sua história, principalmente no que diz respeito à revolução comunista liderada pelo presidente Mao Tse Tung e a abertura cultural, mais recente. 

      A realidade dessas mulheres é muito dura, fazendo com que o livro seja bastante denso, apesar de não ter tantas páginas. São 288 no total, a tradução é de Manuel Paulo Ferreira e a edição é da Companhia das Letras. Compre o livro aqui e ajude o Ancoragem a se manter.

E o que você achou do livro?

     Como futura antropóloga, considero muito interessante saber sobre o máximo de culturas e povos diferentes que me for possível. Tenho muita curiosidade sobre a China desde que vi a abertura das olimpíadas em 2008. As coisas aumentaram quando me tornei melhor amiga de uma brasileira, descendente de chineses e que morou lá durante a maior parte de sua vida. Nos meses em que estive no Paquistão, acabei morando com quatro chineses. Em todo esse meu contato com as pessoas desse país e com a curiosidade crescente, a certeza que eu tinha – e ainda tenho – é de que a China é um país muito diverso, muito próprio e completamente diferente de tudo que eu já vi. 

      Essa minha impressão inicial ficou ainda mais forte durante o curso Why we Post, onde dois antropólogos trabalharam em campos diferentes na China. Um estava em uma cidade industrial e outro em uma cidade camponesa. O curso era sobre a forma como as pessoas usavam tecnologia ao redor do mundo – e o quanto a tecnologia tinha transformado essas pessoas e povos. Foi incrível ver que dentro do mesmo país as variações eram tão grandes, não apenas por eles usarem softwares produzidos pelos chineses e que só existem e fazem sucesso por lá, mas por terem um uso próprio de acordo com o local e etnia que estavam/pertenciam. Eu acho o povo chinês absurdamente incrível.

      Deparei-me com esse livro por acaso em 2015, em um sebo de Curitiba. Tudo que sabia sobre ele é que havia pertencido a uma “Judith“, como diz a contracapa. Recentemente algo em mim disse que havia chegado a hora de realizar a leitura e eu embarquei. E não me arrependi. Demorei mais de um mês no livro, por falta de tempo e problemas com meu óculos, mas isso apenas intensificou a minha relação com ele. As histórias ali contadas mexeram comigo a ponto de aparecerem em alguns dos meus sonhos e a densidade dessas realidades fez com que eu me sentisse mais próxima delas e conseguisse entender um pouco melhor alguns hábitos dos chineses e descendentes com quem eu tenho contato.

      A delicadeza, riqueza nos detalhes e capacidade contextual de Xinran deixou a leitura ainda mais informativa, brilhante e interessante e o livro se tornou uma ótima companhia para os meus momentos livres. Terminei a leitura satisfeita e contente por ter aprendido um pouco mais sobre as mulheres chinesas. A vontade de visitar o país para conhecer e, talvez, estudar, cresceu e desapareceu inúmeras vezes durante a leitura. As impressões se misturaram com os relatos da minha amiga, que está na China nesse momento, e sofrendo um choque cultural que ela não imaginava ser possível e tudo que minha cabeça consegue pensar no momento é que a China é um lugar monumental e mágico, que merece mais atenção e conhecimento por parte de nós, ditos Ocidentais.

Indicação de autor: Stieg Larsson

          Sabemos pouco sobre a Suécia. As notícias normalmente veiculadas são sobre como o país é ótimo para passar a velhice, ao mesmo tempo em que é o país que abarca uma das maiores potências da extrema direita atual. Também sabemos que Estocolmo é uma cidade fria e bonita, mas as pessoas que lá residem parecem introspectivas. Ou talvez isso seja apenas um pré-conceito meu.

          Quem gosta de seriados e filmes, certamente conhece alguns atores suecos que trabalham em Hollywood. O meu preferido deles, por exemplo, é o Alexander Skarsgard, que fez o Eric Northman em True Blood (seriado que falarei com mais detalhes em breve). Baseando-me nele, é possível ser bem bonito e sueco ao mesmo tempo.

          Em 2011, porém, fui apresentada a outro sueco. Dessa vez, um escritor. Comecei a ler sua trilogia principal, que foi a única coisa que encontrei traduzida dele aqui no Brasil. Trata-se de Stieg Larsson, o autor da série “Millennium“.

          Para quem desconhece esta série, tenho várias coisas a dizer sobre. A primeira é: vão agora comprar os livros e começar a ler, por favor. Em segundo lugar, é legal falar que a trilogia inteira baseou, respectivamente, três filmes suecos e, além deles, um hollywoodiano. Infelizmente, Larsson faleceu antes de escrever tudo que gostaria na série, que chegou a comentar a possibilidade de existirem dez livros. No entanto, antes de morrer ele enviou uma parte do manuscrito do quarto livro, que posteriormente foi editado e publicado como sendo o quarto volume da série.

          No Brasil, a série foi editada pela Companhia das Letras, que fez um ótimo trabalho. A trilogia é dividida entre “Os homens que não amavam as mulheres“, “A menina que brincava com o fogo” e “A rainha do castelo de ar“. Em 2015, a editora publicou o quarto volume da série, chamado “A garota na teia de aranha“, livro que carrega o nome de  seu finalizador, David Lagercrantz, como autor.

          A série é protagonizada por Lisbeth Salander, uma garota franzina, bastante tatuada, com vários piercings e penteados não convencionais no cabelo, que é bissexual, órfã e hacker. Ela é uma mulher overpower, extremamente empoderada e decidida, que consegue realizar as coisas mais incríveis possíveis, sem a adição de super poderes, para resolver seus problemas pessoais e familiares e ainda consegue fazer com que isso reflita na organização política e econômica da Suécia.

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Lisbeth Salander na versão cinematográfica de Hollywood e da Suécia.

Enquanto isso, há Mikael Blomkvist, um jornalista investigativo que foi acusado de fraude em uma grande reportagem e está fazendo de tudo para recuperar sua reputação, se depara com casos muito potentes para tal e ainda conhece Salander, que está disposta a ajudá-lo. Juntos, eles fazem com que a Millennium (uma revista investigativa fictícia) volte a ser uma das maiores revistas investigativas da Suécia, jogando na cara dos políticos e grandes empresários tudo aquilo que eles vivem tentando esconder.

          A narrativa é empolgante e, por mais que os livros sejam compridos, é impossível parar de ler. Uma vez que você embarca na história, quer terminá-la o mais rápido possível. Ao mesmo tempo, você não quer terminar, porque os personagens são  entusiasmantes o suficiente para te fazerem querer ficar preso eternamente àquela leitura maravilhosa.

          O mais legal de tudo, é saber que a série não é apenas originária de pensamentos de Stieg Larsson. Ele era um jornalista investigativo comunista que tentava desbancar a extrema direita de seu país, mesmo quando ela estava no auge. Ele se aproximou da causa das mulheres após presenciar um estupro coletivo na adolescência e não ter tido coragem de intervir, para manter a lealdade para com seus amigos. O peso na consciência pelo fato fez com que ele se tornasse um estudioso do tema e fizesse uma série de publicações denunciando injustiças praticadas contra as mulheres. Inclusive, ele chegou a lutar com um exército de amazonas na Eritreia. Essas e outras coisas, a gente descobre lendo a graphic novel “Stieg Larsson antes de Millennium“, do Guillaume Lebeau e do Frédéric Rébéna.

          O cara parecia ser autêntico e fiel aos seus ideais. O mais fantástico, a meu ver, é ter conseguido transportar tudo isso para uma obra de ficção tão completa, brilhante e maravilhosa. Por essas e outras eu reitero: leiam as coisas que o Larsson escreveu. O arrependimento é quase impossível.

The Game, Volume 1 – Ander de la Motte

          O livro foi escrito em 2010 e publicado no Brasil pela editora DarkSide em 2015. A história é uma trilogia e a editora lançou apenas os dois primeiros livros, por enquanto. A edição é muito bem trabalhada, o livro é capa dura e as folhas internas são de alta qualidade. A leitura é extremamente confortável de se realizar. Há notas de rodapé explicativas, escritas pelo editor, sobre todas as palavras estrangeiras ou siglas que se referem a coisas suecas, tornando a compreensão mais fácil.

          O livro é dividido em vinte e dois capítulos e tem 266 páginas. Conta a história de dois personagens principais: HP e Rebecca. Porém, ao contrário da maior parte dos livros que trabalha com duas narrativas em paralelo, este não separa um capítulo inteiro para cada narrativa. De forma que, no mesmo capítulo, há parágrafos referentes à história de HP e outros referentes à história de Becca. Não há, porém, algum indicativo de que a história irá ser diferente no próximo parágrafo, o que deixa a leitura inicialmente confusa, requerendo tempo e continuidade para se acostumar com este estilo e conseguir acompanhar a história integralmente.

          A história se passa na Suécia, país de nascimento do autor. HP é um jovem com cerca de trinta anos (ou um pouco menos, não é deixado claro), que tem passagem pela polícia e mora sozinho em Estocolmo. Trabalha em empregos secundários e é infeliz, tem um melhor amigo recém revertido ao islamismo, que é dono de uma loja de informática. Gosta muito de computadores, jogos e afins. E de repente se vê dentro do Jogo. Rebecca tem mais ou menos a mesma idade de HP e é policial. Também mora sozinha, na mesma cidade e foi aceita recentemente para o cargo de guarda-costas da polícia especial da Suécia, que pelo o que entendi é como o FBI. A ligação entre as duas histórias e os dois personagens é obtusa nas primeiras cem páginas do livro, mas depois é bem explicada e interessante, pois foge do padrão normal dessas histórias de narrativa dupla, onde geralmente as pessoas formam um par romântico. Inclusive, um dos pontos positivos, para mim, é que o livro não é romanticamente apelativo. Há conotação sexual e relacionamentos, mas nada muito romântico ou meloso, o que torna a história mais interessante de ser lida – a meu ver.

          Bom, o tal Jogo é a parte que achei um tanto complicada da história – e a razão para que eu queira terminar a trilogia. É impossível parar de jogar, uma vez que se está dentro, pois o jogo atende todas as necessidades comportamentais que você demonstra precisar. Inclusive, eles escolhem os jogadores baseando-se nisso. Por exemplo: se você é loucamente necessitado de atenção, gosta de aventuras e quer dinheiro fácil, é um bom alvo para o Mestre do Jogo, que provavelmente vai te recrutar. O Jogo consiste em realizar missões arriscadas e sem explicação. Coisas como colocar uma bomba no lugar x. Isso faria você ganhar 2000 pontos, o que se reverteria a 3000 reais na sua carteira. Você filma todas as suas missões e elas ficam disponíveis em uma plataforma online para que as pessoas acessem todos os Jogadores e teçam comentários a respeito da realização das missões, elegendo seus favoritos. Estar no primeiro lugar dessa competição acaba se tornando o anseio de todos os jogadores, o que torna as missões ainda mais eletrizantes. Mas há um problema: o tal do HP (e todos os outros jogadores) aceitam realizar as missões sem medir as consequências delas. Eles não pensam em porque têm que realizar aquela missão, naquele lugar e momento. Não se interessam em saber quem planeja as missões ou quais os objetivos dela. Só se interessam em cumprir e ganhar o dinheiro e status. E, bom, isso me incomodou horrores.

          No decorrer da história, esse caráter reflexivo começa a surgir, mas não é suficientemente desenrolado – pelo menos por enquanto. O Jogo acaba virando uma espécie de teoria da conspiração e é utilizado para explicar todos os desastres e crimes que acontecem no mundo inteiro, o que eu, particularmente, acho pouco crível. Por hora, o fundo explicativo apresentado é de que grandes corporações, empresários e afins encomendam essas missões a fim de conseguirem realizar coisas que desejavam. Não duvido da capacidade manipuladora dos grandes capitalistas, mas duvido da capacidade de pessoas necessitadas de dinheiro serem tão otárias àquele ponto. Então, em geral, essa ideia de Jogo ainda me incomoda um bocado.

          Logo que o Jogo me foi apresentado, lembrei-me de Clube da Luta, do Chuck Palahniuk. Neste livro, há uma missão secreta que visa destruir os prédios dos capitalistas, através de pequenas missões, realizadas por pessoas alienadas e focadas na causa. A causa em questão é bagunçar o sistema e gerar uma pane nele, então os participantes do Projeto vão aos poucos tentando fazer coisas que tirem o mundo da ordem natural e costumeira. Bom, essa ideia me parece muito mais crível, visto que as pessoas saberiam a razão para participarem do Projeto e teriam uma motivação para tal, embora também não pensassem sobre as consequências e afins. Seriam pessoas coerentes com elas mesmas e, no fundo, pessoas um tanto melhores do que as tais Jogadoras de The Game, visto que estas ligam apenas para o próprio umbigo, enquanto as de Clube da Luta querem é bagunçar geral.

          Outro fator que me incomodou na história foi a tentativa de se parecer com Millenium, a outra obra Sueca famosa, escrita por Stieg Larsson. As semelhanças não são tão claras, mas quem já leu a primeira série é capaz de enxergá-las. Não digo semelhanças em ordem da narrativa: a história não tem nada a ver. Mas na estrutura textual. A obra de Larsson também tem essa coisa de contar várias narrativas diferentes no mesmo capítulo, mudando o foco em cada parágrafo (porém a edição da Companha das Letras fez com que isso não ficasse confuso); também é um triller policial/de suspense, que te faz querer continuar a leitura para descobrir o que acontece no final; também tem uma mulher forte que é essencial para o desenrolar da história (embora a Rebecca ainda tenha que comer muito arroz e feijão para chegar no nível da Lisbeth); há um monte de “problemas paternos” e, o que mais me incomodou: o final do primeiro livro de Millenium (“Os Homens que Não amavam as Mulheres“) dá o mesmo desencadeamento para um dos personagens que ocorre em The Game. Ok, pode ser coincidência, estilo de escrita do país, não sei. Mas fiquei incomodada.

          Por fim, acho que a história tem bastante potencial, mas tenho uma leve impressão de que ele não será bem utilizado. De qualquer forma, continuarei a ler a trilogia para ter uma opinião mais concreta à respeito. Por hora, não recomendo a leitura, mas também não a proíbo veementemente, pois continua sendo um bom livro para passar o tempo, mas ainda não se demonstrou mais do que isso – o que me causou um pouco de decepção.

          Ademais, também falei sobre o livro neste vídeo: