Not Alone

Tenho acesso à internet desde muito nova, embora nos primeiros três anos ela tenha se resumido a jogar no site da Barbie (que acabei de visitar e descobrir ser bem diferente hoje em dia). Nesta época, a conexão era discada e o acesso complicado, pois usar a internet fazia com que o telefone da casa saísse do ar – e a minha família adora telefonar. Quem se dava bem era meu irmão, que já tinha seu próprio computador e aproveitava para ficar logado de madrugada, quando além de não incomodar o pessoal do telefone, conseguia uma conexão mais rápida.

Foi quando eu tinha onze anos e me mudei para Curitiba que tive meu primeiro acesso à internet banda larga. Na época, wi-fi era impensável, pois não havia dispositivos que pudessem se conectar à internet (além do computador). Como tinha me mudado e abandonado amigos, pude acessar redes sociais pela primeira vez. Tive e-mail, MSN e Orkut, além de visitar ocasionalmente os chats online, como da UOL e outros servidores (sim, para acessar a internet era necessário ter um servidor pago e que te provia um endereço de e-mail grátis, ou algo assim). Comecei então a conversar com muitas pessoas conhecidas e, através das comunidades do Orkut e destes chats, com pessoas desconhecidas também. Nenhum contato duradouro a ponto de eu me lembrar do nome de alguém.

Com catorze anos eu descobri o Neopets, que mudou minha vida online. Nele fiz diversas amizades (como já contei inúmeras vezes neste espaço) que se tornaram reais na vida para além internet. Nessa época também fiz minha conta no Facebook e comecei a escrever em meu primeiro blog. Tudo era muito novo e legal e eu vivia descobrindo novas pessoas que também escreviam sobre as coisas que eu gostava e que passavam pelas mesmas coisas que eu. É  claro que tinha boas e fieis amigas na escola e nos outros locais que habitava, mas a internet começou a se tornar o local onde eu era compreendida. A coisa ficou ainda mais intensa quando eu conheci o Tumblr e isso eu não lembro exatamente a data. É a única rede social que até hoje eu tento não divulgar, porque é onde me sinto à vontade para liberar meu “lado negro”, ou seja, falar sobre coisas e situações que eu não falaria costumeiramente com as pessoas. E compartilhar imagens sensacionais que não seriam compreendidas em qualquer lugar que não ali.

Twitter, blog, youtube, snapchat, instagram, facebook, tumblr… São muitas as redes sociais. São muitos os sites para os quais elas me redirecionam. São muitas as pessoas, vidas e histórias com as quais entro em contato diariamente e: amo muito tudo isso. Não troco as minhas amizades e pessoas queridas do universo não-digital, mas tão pouco consigo me imaginar existindo sem compartilhar as minhas coisas e ter acesso a tudo que as outras pessoas fazem. Existem blogueiras que até hoje eu nunca falei um oi, mas acompanho fielmente e, mesmo sem comentar nos textos, me sinto compreendida. Tem grupos onde eu posso conversar sobre coisas que ninguém mais estaria interessado. Tem sites onde eu descubro sobre coisas que não descobriria em bibliotecas ou conversando com as pessoas que conheço na vida real. E tem pessoas. Pessoas lindas e brilhantes, cada uma com seu universo particular repleto de histórias sensacionais, vitórias pessoais e derrotas frustrantes. E a internet é uma oportunidade de viver tudo isso com todo mundo e compartilhar tudo. Sabe aquela coisa de que a felicidade só é real quando compartilhada? É isso!

Ouvir uma pessoa super feliz e empolgada no snapchat narrando a vitória do seu dia. Poder comentar sobre aquele episódio de seriado ou o filme que você acabou de ver e acha que ninguém gostou e descobrir que existem pessoas que também gostam deles. Falar sobre coisas que te irritam e descobrir que outras pessoas também se irritam com elas. Ficar triste e achar que a vida está acabando e poder conversar com outras pessoas com a mesma sensação, aliviando sua barra. Descobrir que todas as coisas que te disseram que você não podia por ser mulher, por ser pequena, por ter doenças , por quaisquer motivos que sejam, na verdade você pode fazer. E entrar em contato com pessoas que fizeram. A internet é um lugar maravilhoso, porque não importa o momento que se esteja passando, vai ter alguém ali que te entende. E mesmo que a pessoa não acredite em um ser transcendental que tudo guia, não vai se sentir sozinha.

Porque a internet é feita em rede, é uma união de diversos pontinhos interconectados (nós, nossas palavras, gestos, textos, imagens etc). E ela nos faz acreditar que juntos somos mais fortes.

Libertando-se

Em Junho via-se muitas pessoas naquelas passeatas sem sentido, que serviram pra barrar a PEC 37 (que eu nunca soube o que era) e não para fazer meu ônibus de domingo voltar a ser um real, segurarem um cartaz escrito “saímos do facebook” e depois postarem uma foto segurando esse cartaz na tal rede social. Achava engraçado. Segurava cartazes tão toscos quanto na doce ilusão de uma possível revolução, aham, claro.

Em Julho ou Agosto, como minha ótima memória me impede de lembrar, resolvi que ia sair da tal rede social. Aguentei cerca de dois dias e logo tive que voltar porque precisava conversar com as pessoas, precisava dos resumos das provas – que eu não lia os textos porque ficava conversando com as pessoas, precisava ver o spotted, saber qual era a notícia da semana, do que estavam rindo e quanto tempo eu precisaria dar scroll no feed de notícias até chegar na parte em que já tinha lido. Então fui lá e voltei. Depois tentei sair de novo, aguentei uma semana e me rendi novamente. Por pura burrice.

Meu irmão se formou em Outubro e isso fez com que eu entrasse em uma aposta idiota com a minha prima (que eu perdi, claro, e agreguei uma dívida enorme a ser paga em chocolates), me vestisse com o vestido que era dela e eu sempre quis pra mim, pintasse meu cabelo de arco íris, bebesse coisas que nem sabia que existia e dançasse loucamente com pessoas que eu vejo no cotidiano e mal tenho coragem de dizer oi. Em meio a tudo isso, refleti. É engraçado como minhas melhores reflexões sobre a vida vêm em momentos aleatórios e não quando eu termino aquele livro iluminador e penso que “uau, agora minha vida mudou”. As mudanças ocorrem sem que a gente perceba ou pense muito, de uma hora pra outra aquele amor-da-sua-vida passa a ser um mero conhecido e o que você considerava mais essencial pra sua sobrevivência torna-se absurdamente banal. E foi durante a festa, quando minha prima pediu para que eu tirasse foto dela tomando tequila porque ela “tinha que colocar no facebook” que eu relembrei o quanto tudo aquilo me incomodava por todo aquele tempo e decidi que seria a minha gota d’água. Essa e outras milhares de decisões e resoluções que não cabem ser aqui mencionadas, surgiram após dançar Asa de Águia, gritar “evidências” e presenciar minha mãe bebendo e dançando Elvis Presley.

Saí do facebook e não contente, desfiz-me também do twitter. E isso faz quase um mês. E eu não senti a menor falta, a não ser na primeira semana. Passei a rir de quem diz “cadê você pra eu te marcar” e a trocar e-mails lindos com pessoas extremamente importantes que eu simplesmente havia esquecido que existiam e outras que estou começando a descobrir a existência agora. Aflorei amizades via whatsapp e reiniciei as conversas engraçadas via skype com pessoas que não vejo há séculos. Os meios de comunicação “precários” me fizeram retornar aos velhos hábitos, àqueles de quando eu estava no ensino médio e também odiava as pessoas que devia conviver todos os dias e me limitava a conversar apenas o estritamente necessário e passar o resto do tempo lendo. Não é que eu deteste as pessoas que tenho que ver todo dia, é que já não aguento mais pisar naquela faculdade, olhar pra cara deles e ter que ouvir todos os protótipos de revoluções, vidas fracassadas e aventuras em bares ou qualquer outro lugar desinteressante. Já não aguento mais a ideia de frequentar bares ou qualquer outro tipo de atividade social e, embora isso me doa as vezes, tenho me sentido bem com minha solidão. Tanto que até olho pra cara da minha mãe e falo “sai do meu pé, me deixa em paz” e o normal era eu querer passar o tempo inteiro com ela, porque a solidão me matava. Não me sinto tão sozinha, mesmo que agora eu esteja mais. Sinto-me mais livre, respirando um ar mais puro, é difícil explicar e talvez pareça tosco todo esse emaranhado de letras aqui expressas, mas só quem já passou cerca de doze horas diárias presas a um computador e conseguiu se ver livre disso em um momento inesperado pode ter ideia do que ando sentindo. É bom. É claro que a necessidade excessiva de compartilhamento ainda existe, mas está sendo cada dia mais podada. Pelo menos a necessidade de completude esvaiu-se, porque percebi que consigo me sentir completa sem precisar projetar isso em pessoas aleatórias e, em suma maioria, insignificantes. Eu posso escolher com quem conversar, o que conversar e tenho o prazer de repetir a história mil e uma vezes, porque não tem como elas saberem sem ser por fofoca ou por mim.

Lógico que continuo a ser uma estudante desleixada e que não tenho capacidade mental pra ler os textos que ficam chatos depois da segunda página, porque ficar presa a eles enquanto tem toda uma estante com coisas intocadas me esperando é algo que realmente me agoneia. Confesso que estou tentando, sei que não vou ter um futuro profissional brilhante, mas não dá pra desperdiçar quatro anos da vida em uma faculdade se eu não for aprender nada com isso. Minha prima vive dizendo que na faculdade a gente só deve ir em festas e “pegar geral” (palavras dela) e que os estudos vêm depois. Eu acho que não, eu só topei fazer faculdade porque achava que ia aprender algo com ela, então, o mínimo que posso fazer é tentar realizar este anseio.

Divagações à parte, esse texto gigante foi para dizer que: estamos no décimo oitavo dia deste tenebroso novembro e eu já li quatro livros e estou lendo outros dois ao mesmo tempo e quase finalizando um, ou seja, pelo menos SEIS livros garantidos pra esse mês. Pra quem mal estava conseguindo suportar uma obra mensal, estou me sentindo a rainha do universo literário. O mais legal é que só tenho uma matéria da faculdade completamente atrasada, as outras estou só uma ou duas aulas atrás e geralmente eu leio tudo na véspera da prova, quando leio. Acho que finalmente estou virando alguém que algum dia eu possa me orgulhar e tenho pretensões bastante positivas para o próximo ano, o que me deixa mais tranquila e com vontade de manter as expectativas de pessoa nerd. não presa às notas como outrora, mas com a ânsia por sabedoria restaurada, afim de diminuir a escala de ócio e, com isso, o desamor tão presente nesse coração atordoado.

Fiz um vídeo com três livros legais que li recentemente, espero que vocês leiam algum deles, são realmente bons!