Se o Telefone Tocar…

Eu não vou atender. É contra as minhas regras. Não digo que fugi dos telefones durante minha vida inteira, porque até os cinco anos eu saía correndo para atendar e bradar o meu “princesinha do papai, boa noite”, na esperança de que fosse meu tio para cantar “sozinho”, do Caetano, junto comigo. Depois que a gente se mudou e que minha primeira ligação para minha melhor amiga foi surpreendente a ponto de ela estar mudando de casa e sua mãe estar grávida, desisti dessa vida.

Telefone sempre foi aquela coisa que estava lá, que eu falava quando obrigada, ou seja, nos aniversários das pessoas ou nos finais de semana porque os avós moravam longe. Nos outros dias ele ficava no lugar dele e eu no meu, que sempre era longe. Quando tocava sempre era pra minha mãe e ela sempre gostou da coisa, então nunca tive razões para me incomodar. Com o passar dos anos, meu irmão também passou a amar aquele apetrecho e era a única coisa que eu não tinha inveja por ele ter em seu quarto. A única utilidade do telefone era fazer a internet funcionar, para que eu pudesse entrar no site da Barbie.

Com o passar do tempo veio o celular e eu descobri um universo chamado mensagem de texto. Esse universo maravilhoso fazia com que as chances de eu receber ligações chatas diminuíssem ainda mais e como junto com ele foi se desenvolvendo a internet e as maneiras de conversar online, telefonar caiu em um desuso total. As últimas amigas que eu soube os números da casa foi porque conheci aos treze anos, época em que minha mãe ainda se dava o trabalho de ligar para confirmar se eu estava mesmo indo dormir com fulana. Como minha memória numérica é muito boa, lembro-me de vários destes telefones, mesmo que muitos deles tenham mudado. De todas as outras pessoas eu só soube o celular. E o e-mail. E o orkut. E o facebook. E o MSN. E o Skype. E nada do telefone. E ninguém liga pro celular de ninguém, a não ser que vocês tenham combinado de se encontrar hora x e a pessoa não apareça ou qualquer coisa assim. Ninguém cogita a hipótese de ligar pro celular de outro alguém pra ficar conversando por horas afins. A não ser que sejam aqueles casais de namorados irritantes que demoram 50min só pra decidir qual dos dois vai desligar.

Na época dos treze anos eu tentei me aventurar nos telefonemas, mas realmente não é a minha praia. Depois que uma menina muito esquisita que era amiga das minhas amigas, mas eu detestava e tratei de fazer ser minha arqui-inimiga logo de cara ficava me ligando todos os dias existentes, bem na hora que eu queria jantar, ou tomar banho, ou fazer qualquer coisa menos ficar ouvindo uma pessoa falar um monte de coisas inúteis seguidas por xingamentos à mim mesma, desisti de vez. Lembro de falar pra minha mãe que eu não ia atender mais nada e que se fosse pra mim a ordem é que eu nunca estaria disponível. A sorte é que meu pai também abomina telefone, então minha mãe está acostumada com essas mentirinhas.

Considero-me no pico da montanha do odeio telefone. Eu não sei mais ser simpática com gente de telemarketing, não sei mais receber recado quando ninguém está em casa e sou obrigada a atender, não sei marcar consultas ou encomendar pizzas, não sei fazer nada quando envolve telefone. É claro que em alguns casos eu realmente sou obrigada a resolver as coisas via telefone, porque burocracias ainda usam essa coisa nada a ver, mas antes disso tenho todo um processo de busca pela coragem e simpatia interiores e sempre conto com a minha mãe olhando com cara feia e dizendo pra eu parar de frescura e tomar jeito na vida. Então, ok, relutantemente algumas vezes eu faço ligações. Só em extrema necessidade e quando nenhuma outra opção mostra-se disponível, mas faço.

Atender são outros quinhentos. Só aceito falar ao telefone quando sei que é alguém que quer perguntar algo bastante objetivo, geralmente a minha prima, ou quando é para confirmar algum compromisso. Se a pessoa resolve ficar falando por mais de cinco minutos eu já começo a ficar irritada, ser grossa e encaminhar a coisa pro final antes que eu desligue na cara e xingando, mesmo que seja a pessoa que eu mais ame no universo. No celular eu simplesmente não atendo. A vantagem mor do celular é que podemos ver quem está nos ligando, dada essa chance, para que atender? Só em casos de extrema necessidade que, como meu pai sempre diz, é só para o que o telefone deveria servir. Nunca eu passei mais de 8min em uma ligação no celular e essa de 8min foi com a minha mãe, porque estávamos morando separadas e com mil e um problemas a serem discutidos e minha mãe é a única pessoa no universo que eu prefiro conversar pelo telefone do que ter que escrever algo.

Eu abomino ligações telefônicas por elas serem muito invasivas. Muito diretas. Por imporem que você tem que falar com fulano naquele momento sobre aquela coisa. Não importa se você não está afim, se você tinha outra coisa pra fazer ou se você simplesmente não quer falar sobre aquele assunto. A coisa está ali, não tem como fugir. Telefonemas são como estar fugindo da polícia e parar em uma rua sem saída, plenamente rodeada por viaturas. Eu jamais me sentiria à vontade para ligar para alguém supondo que a pessoa terá meia hora do seu dia para ser gasto simplesmente falando comigo e é por isso que acho absurda a ideia de que tem pessoas que conseguem imaginar isso. Falar por mensagens de texto, e-mails ou quaisquer outros tipos de chat é muito mais tranquilo. A gente pode escolher em que momento responderemos, podemos responder um simples “ok” ao término daquele e-mail desabafatório que foi um porre, podemos esconder nossas reações perante a determinadas coisas que foram ditas e, o mais legal, podemos apagar o que escrevemos antes de enviar. No telefone eu desligaria na cara, após infinitos xingamentos. Nos outros artifícios a gente tem tempo pra pensar, esfriar a cabeça, refletir e só então falar o que está com vontade. Não sei como seria a minha vida se todas as mensagens que apaguei antes de serem enviadas tivessem simplesmente sido enviadas ou se todos os e-mails que demorei horas pensando antes de escrever fossem tentativas falhas de conversas que eu jamais conseguiria ter. Telefone é uma coisa que me assusta tanto que eu nem sei qual é o toque do meu celular, ele sempre fica no silencioso para eu ter uma desculpa conveniente para quando não atender algo.

Quando eu digo que pode me ligar, mas eu não vou atender não é nada pessoal. Eu juro que não é. Falo isso pras minhas amigas, pros meus parentes, pra todos. Inclusive, na maioria das vezes que pedem meu número eu já vou logo avisando só não me ligue, que não vou atender. E não é nada pessoal. Como eu disse, a pessoa pode ser a mais importante da minha vida, eu vou ficar ainda mais nervosa por isso e aí é que não vou atender mesmo. Se for extremamente importante e a pessoa realmente quiser falar comigo, ela vai se reder a uma mensagem de texto dizendo “me liga, por favor” aí eu vou avaliar a situação e ou vou ligar ou vou responder “não posso, fala por aqui”. E não vai ser nada pessoal. Nada mal educado. Apenas o meu jeitinho. Agora, se algum dia eu cometer o ato desesperado de ligar para alguém e a pessoa não atender e for importante e eu disser pra ela que é importante e ainda assim ela não atender, bem, até eu tenho limites.

Sobre esquecimentos e lembranças

Quando li “Quem é você, Alasca?” achei a história um tanto irreal, porque considero impossível esquecer datas importantes. É algo que eu simplesmente não faço. A coisa que eu mais gostava em história era justamente o fato de que eu sempre lembrava todas as datas e me sentia um máximo por isso. Hoje vejo que esquecer não é tão impossível assim.

O horóscopo acusou um novo trânsito astrológico e eu, sempre incrédula com o fato de ter tantos trânsitos ao mesmo tempo e sempre achando impossível que caiba tudo aquilo em uma pessoa, li sem dar muita bola. Ele dizia que eu ia encontrar pessoas que não via há tempos e que os reencontros seriam positivos e que além disso eu iria estreitar laços com pessoas próximas. E eu ignorei, porque acho que se a gente leva o horóscopo muito a sério acabamos tentando segui-lo ao invés de usá-lo como o guia que deveria ser.

É engraçado como conheço pessoas importantes de modo super aleatório e como sou tão apegada a esse conceito que acho difícil manter contato com quem conheço de um jeito normal, naquele “oi, tudo bem?” tradicional de quando se chega a um lugar novo ou qualquer coisa assim. As redes sociais sempre foram meu meio principal de conhecer pessoas, porque eu era dessas que adicionava quem parecia interessante e começava a conversar e de repente éramos os melhores amigos do mundo. Há um bom tempo, porém, venho tentado lutar contra isso, tentado conhecer gente no olho-no-olho e ser legal com essa gente simplesmente desse jeito e eu consigo em alguns casos e em outros de jeito nenhum. Então eu saí das redes sociais e todo dia penso em voltar e mando uma mensagem de voz pra Milena, luz da minha vida que eu, lógico, conheci por causa do facebook. Ela sempre me responde com mensagens encorajadoras dizendo que eu vou conseguir e que eu vou manter contato com gente que nem imaginava e vou re-aprender a me envolver com as pessoas de verdade, que sempre estiveram ali e que isso não significa que vou parar de falar com as que não estão, porque, veja bem, cá estamos nós uma ouvindo o sotaque da outra! E eu nunca acredito na Milena, sempre acho tudo o fim do mundo e fico chateada por ter me tornado tão dependente de uma maldita rede social azul.

Aí o vestibular foi ontem e duas pessoas muito importantes pra mim fizeram a prova e eu passei a tarde inteira desejando conseguir dormir, enquanto pensava que elas deveriam estar surtando ao responder as questões sob aquela chuva tão dormível e aquele domingo tão… domingado. E de noite uma delas corrigiu o gabarito e me disse que tirou o suficiente pra passar e eu finalmente consegui relaxar a ponto de dormir feliz. E não quis perguntar pra outra, porque ultimamente só tinha ido falar com ela sobre vestibular e ela já devia estar me achando um pé no saco. Mas eu estava com saudades. Eu estou com saudades. De muita gente. Porque quando a gente não tem o feed de notícias pra acompanhar, a gente esquece das pessoas e quando lembra delas, o vazio incomoda e a gente as quer por perto. Eu sempre quero as pessoas por perto.

No meio das aulas insuportáveis que me acompanham em todas as segundas-feiras perguntei a ela como tinha sido a prova, recebi uma resposta positiva e fiquei feliz. Disse que estava com saudades e que a gente precisava se encontrar e ela perguntou se poderíamos almoçar hoje e eu disse que sim, claro. Voltei pra casa, deixei as coisas e fui encontrá-la. O fato de eu ter chegado em casa depois das seis da tarde, a bateria do celular ter acabado, meus pais terem surtado e eu ter passado seis horas tagarelando sem parar fizeram com que tudo valesse apena. Todos os meses longe. Tudo. E aí eu lembrei do horóscopo e que eu tinha reencontrado alguém e passado uma boa tarde com. E quando estávamos quase pensando em ir embora eu escuto um “May? May, é você?” e eu olho pra trás e vejo a menina de cabelos rosas que faz design e que estudava comigo no ensino médio e do lado dela uma completa desconhecida, que simplesmente voa em mim e me abraça.

Eu tinha esquecido.

E cada segundo daquele abraço de três minutos fez com que eu me lembrasse de cada um dos dias que a gente passou juntas e de como aquele abraço foi essencial para mim em tantos momentos. E eu não consegui falar nada, porque minhas vértebras estavam tentando entender que meus abraços tinham reencontrado aqueles braços, enquanto minhas costelas eram sufocadas e eu só conseguia pensar que, mesmo depois de tantos anos, aquilo continuava a me fazer a pessoa mais feliz do mundo. Receptora de um dos melhores abraços do universo.

Não consegui voltar de ônibus. Teve que ser a pé. A pé, pisando em cada um dos lugares que já tinha pisado com aquelas duas pessoas e o resto do grupo. A pé, relembrando cada uma das coisas bizarras e experiências transformadoras que passamos juntos. A pé, enquanto tentava imaginar o que seria da minha vida se eu nunca tivesse encontrado as deles. A pé pensando que, caramba, como a gente está diferente e que, nossa, se a gente se conhecesse hoje nem nos daríamos “oi”. A pé pensando que a gente cresce, o tempo passa, as pessoas mudam, os horóscopos as vezes falham e o John Green continua acertando. Tem coisas que a gente esquece. Mesmo que talvez não devesse, mesmo que tenham sido absurdamente significativas e importantes. Guardamos em lugares intocáveis em nossas memórias e quando resolvem aparecer, ah… Aí ninguém segura o fluxo de pensamentos. Obrigada por me fazer lembrar.

Não Nasci pra V1d4l0k1ss3

Essa é a conclusão chegada pela minha pessoa, que, após muitas tentativas, descobriu ser uma amante devota de sua cama, seus chocolates, livros e seriados. E conversas madrugueiras com os amigos através de bate-papos. Ou um cineminha, dormir na casa da pessoa, ir a um café ou restaurante ou sorveteria e, nos dias empolgantes, uma festa muito emocionante – porque precisa ser muito emocionante pra me fazer ter vontade de ir.

Sempre fui uma pessoa comportada, só sabem que estou em casa porque as vezes vou ao banheiro. Nunca fui dessas que falta aula no ensino médio pra beber e fumar, pelo contrário, eu era a chata que brigava com os amigos que faziam isso. E que quando faltava aula era pra dormir, ou pra conversar no MSN, enquanto eles bebiam e fumavam e dançavam nas máquinas de shoppings.

Quando a gente é criado sossegadamente, em uma casa na qual seus pais ficam o dia inteiro em e sua única saída é brincar de barbie sozinha no seu quarto ou assistir desenho, dormir ou ir conversar com sua avó, qualquer coisa é vida lokisse. Tirar foto em máquina com filme sem avisar os pais é um risco tremendo, se esconder embaixo da cama pra ver quanto tempo demora até sentirem sua falta, uma tremenda aventura. Sair de casa para ir à escola e parar no bar para comprar bala, é eletrizante. Fugir para a casa de algum conhecido, só pra assustar os pais, é a coisa mais divertida do mundo. E não adianta achar que conforme você vai crescendo as coisas vão mudar, porque elas não mudam.

Aos treze anos eu comecei a ler “O Diário da Princesa” e presenciei Mia Thermopolis tentando (e conseguindo) se descobrir como pessoa, passando por um intenso processo de auto-atualização e conseguindo ser alguém na vida. Resolvi tentar fazer o mesmo. Faz seis anos que tento desconstruir e reconstruir o meu ser todos os dias, viver em um constante processo dialético, esperando que algum dia eu faça sentido e, quando olho para os treze anos, ainda sou igual. É claro que há uma série de novas experiências que me construíram e que hoje eu consigo manter uma discussão antropológica por um tempo bem maior do que nos treze anos, onde eu sequer sabia o que era antropologia. Mas ainda sou a pessoa que espera que a vida ocorra como a da Mia e que de repente tudo se encaixe e faça sentido. E talvez eu vire a Cassie, que na sexta temporada de Skins já é adulta e ainda está esperando algo acontecer na vida dela pra dar uma guinada.

Aos dezenove anos muitas coisas mudaram, mas as vida lokisses continuam banais. Continuo a estranhar os que conseguem passar o dia inteiro em um bar e no dia seguinte ir para a aula, os que usam mil e um tipos de drogas e ficam alucinados e divertidíssimos, os que saem todas as noites para lugares diferentes e legais, os que estão sempre rodeados de pessoas e sorriem e parecem felizes. Porque nada disso faz sentido na minha cabeça, parece desperdício de tempo e se é pra desperdiçar, que seja com bons sonhos. Minha vida é ir pra aula e voltar pra casa, pra dormir, pra conversar com as amigas que moram longe, pra planejar invasões à casa das que moram perto e nunca falam com a gente, ou simplesmente pra ver o episódio novo de uma das vinte séries que me vejo acompanhando no presente momento, e eu amo a minha vida! Sou uma pessoa chata. Uma velha ranzinza que a idade ainda cabe no dedo. Ainda vejo o mundo como quando eu tinha treze anos, ainda corro pra cama da mamãe quando a noite está difícil e não me vejo em posição de trabalhar ou fazer algo responsável. E não é porque sou triste, eu sou tão feliz, sorridente, empolgada, contente, mas não nasci pra ser vida loka. É tão mais fácil viver aqui, nessa posição de pessoa metida que acha que sabe muito sobre o funcionamento do mundo e prefere não se meter para não se contaminar e que acaba tão contaminada quanto qualquer outro.

Minhas vida lokisses são andar sozinha à noite, voltar a pé de madrugada acompanhada por semi-conhecidos, ficar na faculdade o dia inteiro fazendo qualquer coisa menos estudar, passar a madrugada pré-prova acordada vendo seriados e nem encostar na matéria, gastar metade do salário em livros que nunca serão lidos e a outra metade em produtos capilares. Fazer experiências malucas com o próprio cabelo, conhecer os outros campus universitários, viajar para lugares novos e ficar na casa de gente que nunca vi ao vivo. Acordar de madrugada com vontade de tomar banho e tomar. Assistir True Blood na tv da sala com gente em casa e coisas do tipo. Aventurar-me nas vida lokisses comuns exige um preparo psicológico descomunal, ou um ataque impulsivo muito forte. Eu sou presa à mim mesma. Ao meu auto-controle (ou à tentativa de fazê-lo existir). Não consigo me imaginar descontrolada e insana por aí, porque mesmo quando fico insana, estou completamente ciente disso e, pra mim isso não é vida lokisse. Vida lokisse é entrar num bar às 14h e acordar no outro dia, pelada, na casa de um estranho que você nem sabe o nome. Não consigo me ver assim. De maneira nenhuma. E eu queria. Do mesmo jeito que sempre quis ficar em recuperação, sempre quis ser vida loka.

Esse ano resolvi tentar. Encarnei o Charlie que tinha em algum lugar do meu ser e decidi parar com essa frescura de ser um espectro que ronda a sociedade, resolvi que ia virar gente em alguns aspectos e permiti-me experimentar uma série de coisas que a Mayra dos treze anos morreria de preguiça só de imaginar. E não me arrependo. Mas a minha cama é tão mais legal, minhas músicas e danças sozinhas, os filmes no cinema que está sempre vazio, mas que a pipoca está sempre boa, os abraços inesperados dos amigos que continuam por perto mesmo sabendo que eu vou negar todos os convites porque vou preferir sentir a maciez do meu lençol…. não faz sentido acordar todos os dias, se arrumar lindamente e sair por aí pra cumprir roteiros sociais que não te apetecem, só porque você acha que tem que fazer os outros felizes. Eu só quero um chocolate quente e um livro, posso?

E não é que eu não goste de festas, shows ou simplesmente de conviver. Eu gosto de tudo isso. Eu sou gente. Eu adoro contato físico, compartilhamento de histórias e criação de novas histórias. Mas depois de, no máximo, quatro horas de convívio social, tudo que eu consigo pensar é no silêncio do meu quarto, no qual o barulho é o da rua e o do teclado incansável do computador. Quando a quarta hora chega, encarno a pessoa insuportável que fica repetindo incansavelmente “vamos embora?” até que alguém finalmente me leve embora, ou que eu simplesmente vá. Porque não tenho paciência. Porque já é demais. Porque quero ficar sozinha, refletir, dormir e ser eu! Porque eu só sei ser eu quando ninguém está vendo. Porque eu tenho vergonha do mundo inteiro. Porque as pessoas acabam por me irritar de algum modo e eu só preciso desesperadamente fugir.

Esse é um texto de contentamento. Decidi aceitar o jeito “Mayra” de ser, essa coisa mole, inconstante, instável, esquisita e ao mesmo tempo tão necessitada de se fazer normal e compreendida. É um processo demorado, difícil, lento, mas talvez seja assim que a gente consiga atingir a auto-atualização da qual Mia sempre falava. Talvez seja assim que a gente vire gente, quando a gente simplesmente se aceita. Bom, essa é a Mayra, ela gosta de experimentar as coisas, porque não quer passar pelo mundo com algo muito legal nunca feito, mas ela não permanece fazendo as coisas. Ela não permanece fazendo nada. E nada, nem chocolate ou episódios novos de séries, pode competir com sua cama. A vida lokisse da Mayra é ficar em casa dormindo a vida inteira, enquanto os outros fazem todas as loucuras que julgam necessário.

Amigas

Sempre me deparo com meninos que ficam indignados porque “fulana contou pra amiga tal coisa”. Eles não entendem que, sob nossa perspectiva, é traição/crime acontecer algo de emocionante na nossa vida e a gente simplesmente não compartilhar com nossas amigas. Eu tenho amigas acumuladas ao longo da vida, pertencentes a vários grupos, de diversos momentos e eu escrevo no meu bloco de notas um parágrafo sobre todas as coisas possíveis e imagináveis e saio colando com algumas modificações em cada uma das janelas do chat de cada uma das amigas que eu acho que devem saber a coisa. E dias depois, quando percebo que havia esquecido a amiga x que também teria uma boa opinião sobre o assunto, vou lá e conto também. E elas fazem o mesmo comigo.

Não importa se a gente não mora na mesma cidade, se nunca nos vimos ao vivo, se nos vemos todo dia ou apenas esporadicamente, eu sei sobre todas as pessoas que elas saíram, tudo que elas fizeram com as pessoas, como elas se sentiram e o que isso desencadeou na vida dela. Eu sei sobre todos os problemas familiares, financeiros, acadêmicos e até as crises de insônia e de desânimo. Sei das tentativas de suicídio, das noites de bebedeira e daquela vez que elas resolveram fazer aquela coisa que juraram que nunca fariam. Por causa delas conheço um monte de gente que jamais saberá da minha existência e quando vejo essas pessoas na rua ou em qualquer lugar morro de vergonha, para só então lembrar que elas não fazem ideia de quem eu seja.

Amiga é aquela pessoa que você nem fala oi, apenas descarrega tudo que te aflinge e ela solta uma frase como “Pensa q felipe dylon engordou, fez dreads e ainda assim ta casado” ou “vai assistir Doctor Who e esquecer a vida” ou simplesmente envia um link aleatório pra te desestressar. Ou conversa sobre o problema, pra tentar encontrar uma possível solução. Amiga é aquela pessoa que se dispõe a perguntar sua dúvida pras outras amigas dela, só pra você ter mais pontos de vista sobre a situação e conseguir refletir melhor. É aquela que diz “vai lá e faz isso logo antes que eu te dê um tapa na cara” e que diz “vem cá chorar no meu ombro” e te manda um monte de corações e abraços. Amiga é aquela que não se importa com seus gritos histéricos em qualquer rede social possível e que vai morrer de rir com os erros da sua vida e gritar em caps lock que sim, o mundo é muito troll, nada dá certo e temos que nos consolar com a existência umas das outras, porque no fim é tudo que nós temos.

Amigas não precisam te perguntar se está tudo bem, porque elas simplesmente sabem. Não precisam falar com você todo dia o dia inteiro, porque na hora que a conversa for necessária ela vai acontecer. Amiga nunca sabe o que te dar de presente, porque nunca vai achar que algo estará bom o suficiente e sempre vai ficar dizendo que você merecia mais. Amiga vai te mandar uma cópia de todos os históricos de conversas úteis e te contar todas as informações relevantes sobre aquela fofoca que você não tinha ficado sabendo. E vocês vão passar horas discutindo a coisa, procurando várias fontes e desinências.

Amigas vão te chamar pra sair pra fazer qualquer coisa, em qualquer hora e você simplesmente vai. Sem nem cogitar a hipótese de negar. Porque nada no universo será tão acolhedor, sincero, verdadeiro, presente e certo quanto ter boas amigas. E eu sei que posso reclamar de tudo na minha vida, menos delas.

Botões

Sempre fui adepta aos botões, a nível de não conseguir entender como as pessoas conseguiam sobreviver sem eles em seus celulares touch screen. Sempre prezei pela existência dos botões e meu maior medo tecnológico é chegar um dia em que o controle remoto não necessite de botões. Porque poucas coisas são tão relaxantes quanto apertar botões. Porque é completamente diferente apertar com toda a força o botão “desligar” do telefone quando você quer desligar na cara de alguém do que simplesmente tocar em “encerrar” quando quer terminar uma chamada.

Após um período de resitência incrível para pessoas como eu, que sempre querem estar seguindo o fluxo de desenvolvimento tecnológico existente – ok, eu uso meu diskman as vezes e nunca tive um iPod, mas é porque não ligo muito pra música – no últmo mês entrei em contato com meu primeiro apetrecho touch screen, um celular android. Os primeiros dias foram de uma bizarra relação de estranhamento, na qual eu ficava chateada ao escrever uma palavra e ela sair errado e queria insistentemente voltar aos meus botões e rogava praga aos desenvolvedores de tecnologia por não terem inventado androids com botões.

Aí passou. Aí eu me acostumei a ficar deslizando meus dedos por um teclado swype o dia inteiro e a ficar completamente vesga de tanto olhar pra uma coisa minúscula. Acostumei-me a tweetar, facebookiar, enviar e-mails, ouvir músicas e até moderar os comentários do meu blog através daquele apetrecho. Usei-o para ligações pela primeira vez nesta semana, porque até então elas haviam sido completamente inúteis. Assim como as sms’s, que foram drasticamente reduzidas. A média pré android era de 100 sms’s diárias, pós android não consigo passar de dez.

Livrei-me do meu apego aos botões e apeguei-me a aplicativos que antes eu julgava inúteis e retardados. Passei a ser uma usuária ativa do instagram e encontro-me altamente viciada no tal “whatsapp”, porque ele é como um msn e pessoas velhas de verdade gostam é de velharias. Whatsapp é a versão tecnológica do msn e me emputece saber que só quem tem determinados tipos de telefone pode ter acesso àquilo, porque é tranquilizador poder comunicar-se com quem lhe é quisto sem estar atrelado a uma rede social repleta de outras distrações e funcionalidades.

Agora, por mais que eu goste de ficar conversando o tempo todo com quem eu gosto, consigo ter um controle maior sobre a coisa. Consigo filtrar melhor com quem eu falo. Consigo movimentar meus dedos com mais leveza e sem exigir muito dos meus tendões e articulações. Consigo relaxar utilizando os botões do teclado do meu computador, que continuam a ser pressionados com uma força abrupta e velocidade irreparável e, claro, continuo a comprar inúmeras roupas que possuam botões, dos mais diversos tipos e a passar vários minutos da minha vida mudando o canal da televisão até ficar bem zen.

É assim que se faz na vida moderna.