BEDA #7 O que você faz quando ninguém está vendo?

Por acaso ouvi essa música do Capital Inicial outro dia e eu tenho dificuldades pra entender letras de músicas, independente da língua. Depois de várias vezes do refrão entendi qual era pergunta que o palerma Dinho fazia e guardei pra mais tarde. Hoje, olhando arquivos antigos do computador, lembrei o que faço quando ninguém está vendo: vídeos.

É uma mania que surgiu quando tive meu primeiro notebook com webcam. Quando estou cansada do universo, com preguiça de escrever e sem vontade de conversar com alguém específico, ligo a webcam  falo. Geralmente em inglês, pra garantir que ninguém da minha casa vai entender. Só que esse hábito diminuiu com o tempo e eu passe a usar os tempos em que estou sozinha para ligar a câmera e me filmar cantando e dançando músicas inusitadas. É estranho, eu sei, mas é hiper divertido rir da minha própria cara nos dias de angústia existencial absurda ou quando a tristeza é tanta que nada parece valer apena. Veja bem, é impossível que a vida não vale apena se você consegue reservar um tempo sozinha pra fazer coisas esquisitas.

Além dos vídeos, gosto de andar só de calcinha pela casa e colocar música super alta e ficar dançando, que nem o Tom Cruise. O negócio é: eu realmente gosto de dançar e cantar. Mas só quando não tem ninguém vendo.  É que eu sou muito ruim e desajeitada, então a timidez não deixa. A não ser que eu esteja em baladas, porque o ambiente me irrita tanto que danço estranho só pra causar desconforto naquela gente sem graça.

No entanto, nunca cheguei no nível Emma Stone. Mas, bem, limites são feitos para serem quebrados. E vocês, o que fazem?

A Cintura da Muleca

Todos os murais com fotos infantis na minha casa constam pelo menos uma foto comigo vestida de bailarina. O negócio é que eu só lembro de ter feito aula de balé quando tinha oito anos e as fotos são de antes dos cinco. Nem minha mãe sabe se eu fazia aula, mas eu tinha as roupas. Eu sempre gostei de dançar, mesmo sendo a pessoa ridícula que sequer sabe bater palmas de acordo com o ritmo imposto.

Quando eu tinha cinco pra seis anos mudei de cidade pela primeira vez na vida. Traumas à parte, minha escola nova era muito legal. E lá tinha aula de dança. É claro que a diretora me convenceu a participar e que eu convenci minha mãe a me deixar tentar. Nessa época eu tomava corticóide, que é um remédio branco horrível que me fazia ficar gordinha e eu me odiava por causa disso. E lá estava uma Mayra criança no início de todos os seus traumas de vivência tentando acompanhar o ritmo de todas aquelas meninas que, ao contrário dela, sabiam exatamente o que estavam fazendo.

A apresentação final eu nem lembro onde ou como foi, mas lembro da música e de um pedaço da coreografia até hoje. A roupa que deveríamos usar era muito curta, um shorts que só cobria a bunda e um top micro. Eu vestia ela em casa e ficava imitando a Sheila Melo, minha musa da dança infantil. Axé sempre moveu meu coração dançante.

Eis que eu vesti aquela roupa e com seis anos na cara fui lá, perto de todas as meninas que tinham aprendido a coreografia, fiz birra pra mamãe e papai irem me ver dançando e grudei na cintura da muleca, super reboladeira. A partir daí minha performance em em “vai ter que rebolar” de Sandy e Junior melhorou muito de qualidade.

Depois disso eu entrei no balé de verdade e pedi pra sair no dia em que me obrigaram a tentar fazer uma abertura total e eu quase chorei de dor nos meus músculos fracos e não alongados. Fiz uma apresentação, tenho fotos e minha mãe amou. Depois disso descobriram que minha gana no show business era outra e eu virei apresentadora de programa infantil, o que é uma história à parte. Nunca deixei de me aventurar nas festas juninas (que eu só dançava se meu par fosse o mais bonitinho da sala) e lembro de mais duas danças no palco, uma eu estava vestida de anjo e na outra era uma dança grega.

Hoje eu fui ver minha prima de oito anos fazendo sua primeira apresentação de jazz. É claro que fiquei nostálgica, que parei pra lembrar da primeira vez que subi num palco (três anos, apresentação da escola em que eu era o tempo – minha roupa era de relógio) e também da última (dezoito anos, a primeira peça infantil da minha vida, vulgo, a coisa mais difícil que já fiz) e fiquei com tanta saudades de toda aquela energia, de ficar brava por ter que tirar tantas fotos e de ouvir meu primo gritar meu nome e depois me encher de abraços e beijos, enquanto eu ganhava chocolates bons e passava o resto do mês me odiando por ter sido péssima! Decidi, pois, que uma das resoluções de 2014 é essa: Mayra vai voltar pro palco. Ela não sabe ao certo com o que, mas provavelmente vai terminar o curso de teatro antes de se aventurar nas danças de novo. Se até a Analu conseguiu, eu também posso.