Ódio do ócio, ócio do ódio.

Eu descobri com doze anos que odiava as pessoas. Todas elas. Eu não tinha a menor vontade de me misturar, porque todas eram inúteis e só iam servir pra um par de risadas e nada mais que isso. Por mais que eu goste de rir, expandir meu contato social só para obter este sucesso na vida sempre me incomodou. Aí eu comecei a fazer teatro e aprendi que devia tentar ser legal, mesmo que não fosse de verdade. Aprendi que na frente das pessoas eu tinha que colocar uma máscara feliz e divertida e “me jogar”, ser quem elas queriam que eu fosse e ponto final. Aprendi que sempre teria o meu quarto cor-de-rosa (que agora é branco) para abranger as minhas rebeldias sem sentido perante a vida e a não existência de algo que eu possa considerar como vida de fato. Aprendi que meu guarda-roupas estaria sempre bagunçado, mas jamais se compararia com meu chão e que minha estante de livros estaria impecável e catalogada, pois é meu método de tentar organizar a tal vida. Aprendi que eu ia conhecer cerca de meia dúzia de gente que ia me fazer sentir a vontade o suficiente para arrancar a tal máscara e mostrar que ei, eu sou chata pra caramba, ok? E essas pessoas, mesmo com essa ciência, continuariam ali. Porque tem louco pra tudo nessa vida.

Nunca aprendi a sobreviver ao ócio. Aos feriados e às férias. Sempre as passei perto de minha prima, que me aturava durante todas as madrugadas, às quais eu jamais dormia. Porque é muito mais legal ficar acordado e interagir quando todo o mundo está em repouso, quando você não precisa se esforçar, pentear o cabelo ou fazer as olheiras desincharem, simplesmente porque ninguém vai estar vendo. Tudo é mais fácil quando o escuro te protege. A claridade sempre me incomodou. Por isso o blackout do quarto fica fechado o dia inteiro sempre, menos quando eu saio e minha mãe abre pra “entrar um ar”. As noites não dormidas ou dormidas e mal sonhadas ou dormidas e tão bem sonhadas que tornam-se péssimas puramente por serem irreais sempre foram minha parte preferida da existência. E é um absurdo que eu seja obrigada a desperdiçá-la dormindo durante a maior parte da minha vida. É por isso que, amante da madrugada, odiante de pessoas, convivência, intimidade, relacionamentos e claridade, madrugadas de feriados e fins de semana tornaram-se minhas preferidas. Mesmo sem a minha prima. Mesmo sem as conversas sem sentido e sem olhos nos olhos. Porque agora eu canalizo todo o meu ódio em músicas violentas e escrevo coisas absurdas enquanto me imagino socando todas as pessoas que odeio e é incrível como a lista de pessoas e lugares que eu odeio crescem a cada dia. É quase uma função exponencial e pra eu ser capaz de me lembrar o que é uma função exponencial é porque ando muito irritada. É isso. Eu ando irritada. Explosiva. Estressada. Com vontade de pegar uma metralhadora e sair por aí lavando o mundo em sangue. Porque é tudo muito errado. Tudo muito irrelevante. Tudo muito pra nada.

Dezenove anos. Inconstância. Preguiça. Malemolência. Vontade de retornar aos hábitos de cidade de interior e visitar o cemitério só para poder correr e gritar sem parecer maluca. Vontade de pular da janela só pra ver se aprendo a voar. Vontade de fugir. Pra qualquer lugar. Pra fazer qualquer coisa. Algo diferente. Inconstante. Que não me irrite. Porque até chocolate me irrita. Porque até as lágrimas que insistem em aparecer pararam de ser benéficas e se transformaram em odiadoras e malvadas como todo o resto da minha essência. Porque ler me irrita e não ler me irrita mais ainda. Porque eu não consigo ver um filme inteiro sem ter vontade de explodir o idiota que inventou os filmes e não consigo passar dez minutos no computador sem querer explodir o débil mental que inventou essa merda. Porque não consigo respirar de olhos abertos por cinco segundos sem querer explodir o retardado que inventou essa coisa chamada “gente”.

Trilha sonora de Clube da Luta. Textos que eu queria muito poder não ler. Vontade absurda de não ter tendinite só pra poder bater em alguém, qualquer um. Nem que fosse pra sair na rua de pijama e dar um soco e voltar pra dormir tranquila. Busca por uma paz interior que aparentemente está mas que longe. Vontades e anseios que jamais serão realizados. Fuga. Síndrome de Supertramp mais atacada do que nunca. Vontade de achar um babaca qualquer pra me acompanhar em uma viagem de carro para o infinito, só pra eu ter quem xingar enquanto escuto músicas esquisitas e reclamo de cada micro-pedaço de cada micro-coisa que eu encontrar pelo caminho. Porque eu odeio novembro. Porque eu odeio fins de ano. Porque eu odeio fins. E odeio inícios. E odeio tudo. Inclusive você.

A toalha, o banheiro e os cadernos

Mayra. Catorze anos, seus cadernos, a toalha laranja, os livros e o banheiro.

Aos catorze anos Mayra odiava a tudo e a todos sem a menor explicação, hoje ela tem argumentos ótimos para odiar todos que odeia. O único lugar que se sentia segura e à vontade era o banheiro de sua casa, então ela estendia sua toalha no chão, trancava a porta e pegava seus livros e cadernos e passava o dia inteiro lendo e escrevendo sobre todas as coisas que viessem em sua mente.

Mayra recentemente havia convencido seus pais a lhe deixarem estudar na escola particular. Era seu segundo ano lá e tudo tinha dado certo no primeiro, nenhuma recuperação, todas as médias finais acima de sete, amizades novas, nada a se envergonhar. Tudo deveria continuar igual na oitava série. Igual não, tinha que ser melhor. Mayra estudava. Sempre. Até as matérias que ela detestava, porque eram justamente elas as que ela mais precisava saber! Era o que sempre lhe diziam e ela acreditava copiosamente. Os filmes estreavam, as pessoas dormiam umas nas casas das outras, algumas acompanhavam novelas e seriados, Mayra sabia a lição de matemática de cor e tinha decorado mais um pedaço do livro de história e ficado um pouco mais brava com a filosofia. Ela não podia aceitar a ideia de que um dia ia tirar uma nota baixa, todas as suas médias deveriam estar acima de oito no final daquele ano, para que sua mãe ficasse orgulhosa e a deixasse na escola particular por mais um ano, era esse o trato.

Mayra no banheiro, deitada na toalha laranja, escrevendo de vermelho em seu diário. Porque vermelho era a cor da raiva e era isso que ela sentia. A nota de história tinha saído e ela tinha tirado apenas 6,8 na prova que valia sete. Seu mundo havia caído. Se nem em sua matéria preferida ela era capaz de ir bem, o que seria das outras? Mayra estaria acabada. Ficaria em recuperação, suas notas seriam ruins e ela teria que voltar a estudar no Tiradentes. Chorava copiosamente, como se sua vida realmente não fizesse sentido. Escrevia como se a professora fosse um monstro e todos os personagens históricos malévolos. E ela terminou o texto com a frase “cansei! eu preciso sobreviver! vou deixar de me importar!”.

Deixou.

{e a cada vez que pensa em voltar a se importar, lê seu diário de catorze anos e dorme em paz}

Subitamente

 

Carinho.

Uma palavra tão simples e tão faltante neste mundo completamente desafetuoso em que nos encontramos.

Saciedade.

Palavra bonita com um significado impossível de ser alcançado.

Angústia.

Coisa que surge sem um sentido específico e que a fraqueza faz com que tome conta.

Contorção.

Aquilo que minhas entranhas fazem enquanto choro a ponto de não conseguir respirar.

Saudades.

De muita gente. Muitos momentos. Muitos.

Dor.

Dos outros e minhas. Ambas impossíveis de serem contornadas e tão pouco vividas.

Aceitação.

A eterna busca, que jamais será encontrada.

Raiva.

Do mundo inteiro.

Bons sentimentos.

Em falta.

Subitamente.

Acabou.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Angústia

Eu entendo as razões para a existência do feminismo. Entendo que as mulheres são tratadas como inferiores em quesitos que realmente não são e que por causa de tamanha desvalorização elas acabam objetificadas e tratadas como nada. Eu entendo que por causa dessa cultura massificada que ensina os homens desde sempre que mulheres possuem ótimos buracos e que peitos são a oitava maravilha do mundo, muitas mulheres sejam estupradas, abusadas, violentadas de maneiras absurdas e mortas todos os dias. E entendo que muitas delas não tenham coragem de contar nada disso, por medo da revolta do agressor. Por medo de sofrer mais pelo simples fato de ser mulher. Eu entendo tudo isso. E acho uma palhaçada. Assim como acho uma palhaçada que todas essas coisas aconteçam com negros, indígenas, mendigos, homossexuais e quaisquer outra subdivisão considerada inferior e mais fraca por algum modo. E é por isso que defendo o direito de todas essas pessoas a irem à luta, por igualdade e por respeito. Coisas que deveriam nos ser garantidas, tendo em vista que fazem parte da “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, mais precisamente do artigo II que diz “Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidas nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento ou qualquer outra condição”.

A questão é que a Declaração de Direitos Humanos é só uma proposta de acordo de paz, como muitos outros, que servem como aparatos para algumas coisas, mas não como bases reais de fundamentos para atitudes humanas. A maioria das pessoas nunca leu essa Declaração e, convenhamos, ninguém nunca foi perguntado se concordava com ela ou não. A gente simplesmente nasceu. Aqui, num universo repleto de regras e convenções às quais tivemos que aprender a lidar, até que isso nos sufocasse o suficiente para que, os que não aprenderam a lidar, se revoltassem e começassem suas revoluções em prol das minorias.

Descobri-me uma pessoa revoltada para com o feminismo. Eu sempre achei que gostava dele, porque eu concordo com vários de seus preceitos e porque adoro o fato de eu poder ter voz e poder tomar decisões sobre a minha vida, coisas que jamais teriam acontecido sem ele. Só que uma das linhas do feminismo é a da “teoria queer”, que pretende uma igualdade social total entre os gêneros e isso me incomoda de um tanto que nem consigo expressar. Não a teoria em si, se ela se tornasse realidade ok, eu até conseguiria me acostumar, eu acho, a questão é que vejo essa e algumas outras linhas do feminismo tão utópicas quanto o lindo comunismo marxista. E isso me irrita. Porque é impossível que a classe oprimida se reconheça como oprimida e se una em prol de uma revolta de paradigmas. A gente nunca vai conseguir uma revolta comunista, porque ao mesmo tempo que detestamos a desigualdade social e todo o mal que ela trás para a humanidade, adoramos o fato de podermos comprar o celular que a gente quer e todos os outros privilégios de “classe média” e, ok,  a ideia não é empobrecer as pessoas, é tornar todo mundo igual em um patamar econômico mediano, suficiente para todos serem felizes com seu dinheirinho e tal, mas eu não consigo ver uma aplicação prática disso. Não consigo imaginar um mundo sem desigualdade e se eu conseguisse, não sei se ia querer viver nele. Pode parecer ridículo e talvez seja, mas é a verdade. O mesmo acontece com o feminismo. A intenção não é tornar o mundo uma enorme supremacia feminina, é apenas promover a igualdade entre os sexos/gêneros, visando o respeito. Tecnicamente é uma coisa bem simples, o problema é que até as pessoas que lutam por isso foram criadas sob preceitos machistas e até elas vão reproduzir o machismo em algum momento, não é como se fôssemos capaz de extirpar uma cultura da gente, só porque de repente a vemos como errada.  Por mais feministas que sejam, as mulheres vão continuar em busca de um parceirx para a vida. Vão continuar sabendo menos sobre fios elétricos e mais sobre pregar botões e para mudar isso teriam que mudar toda a mentalidade de uma geração que está sendo formada, mas como mudar essa mentalidade, se os próprios formadores de opinião não sabem direito o que expressar?

Vivo em um mundo muito ativo politicamente, vivo rodeada de militantes das mais diversas coisas e, ao mesmo tempo, vivo em uma família ultra-conservadora que odeia tudo isso. Para ser diferente da minha família, forcei-me a acreditar cegamente em todos os padrões militantes sem nem pensar sobre eles, porque eram diferentes dos da minha família, então deviam ser bons. Só que eu me sinto tão oprimida pelas pessoas que pregam o libertarismo, o feminismo e a igualdade, quanto pelos que pregam a opressão, o conservadorismo e a supremacia. Consigo verificar pontos negativos e positivos das duas posições e me é impossível decidir de qual lado eu quero ficar. Sou uma completa indecisa e em cima do muro, em todos os quesitos, porque eu nunca vou conseguir discordar completamente de alguém e, ao mesmo tempo que isso me irrita, eu acho fantástico. Porque eu realmente me acharia uma babaca se estivesse comendo kinder bueno enquanto saía gritando por uma igualdade econômica ou se tivesse indo gritar pela liberdade feminina após ter pedido permissão para o meu pai para isso.

Meu pai nunca se importou com o que eu faço ou deixo de fazer, então eu simplesmente faço. Mas eu sei que isso decepciona tanto a ele quanto à minha mãe. Saber que eu tento pensar e que não quis ser um robô programado para seguir preceitos da moral cristã os assusta, tendo em vista que foi para isso que eles me criaram e eu acho divertido esse embate familiar que tenho que lidar todos os dias, acho que é um ponto forte do feminismo existente em mim. Isso e o fato de eu ser uma maluca por quebrar convenções sociais que impõem que eu tenha um cabelo comportado, use roupas bonitinhas, coma salada e tenha planos para casar. Mas acho que é só isso. Eu prezo muito pela liberdade perante o meu próprio corpo e pelo direito de poder estudar e trabalhar e receber a mesma remuneração que um homem no mesmo cargo. Eu detesto as cantadas dos pedreiros que sou obrigada a ouvir todos os dias e me enojo ao ver as crianças brincando de ser mães, porque elas poderiam estar brincando de uma série de outras coisas, mas não pelo fato de “estarem treinando para ser mães”. Acho legal a noção de que uma mulher não PRECISA ser mãe, mas ao mesmo tempo, acho legal quem respeita aquelas que querem. Aquelas que acreditam no casamento, numa vida comportada e conservadora.

Se Doctor Who aparecesse na minha vida hoje e me perguntasse em qual época e lugar eu gostaria de ser largada, pediria para estar na Inglaterra do século XVIII, para ter a chance de viver um dos romances da Jane Austen. Porque eles são lindos, eles são românticos, mas são a representação perfeita de como uma sociedade machista funciona e de como uma mulher acaba por se render a ela quando encontra o amor, porque só o amor salva. Eu nem sei se ainda acredito no amor, mas queria ter a chance de viver naquela época, porque lá eu acreditaria, lá eu não precisaria pensar, lá eu não teria que viver essa eterna angústia de pessoa insatisfeita com a própria insatisfação. Lá eu poderia apenas reproduzir o que minha mãe me ensinaria, poderia bordar em paz (como eu tenho saudades de ter tempo para bordar!) e poderia criar um monte de pirralhos, do jeito que eu sempre quis.

No mundo atual eu me vejo cada vez mais obrigada a aperfeiçoar o meu intelecto, a conviver com pessoas que acreditam em coisas que acho duvidosas, a olhar para as crianças às quais dou aula com pena, porque sei que um dia elas vão ter que encarar o mundo e vão se decepcionar. Mas não consigo deixar de ter um pingo de esperança e fico com vontade de mudar a vida deles de algum modo, de fazer eles pensarem, talvez se todo mundo tiver senso crítico as utopias se tornem reais. Talvez o que falte seja a gente acreditar. O Chapeleiro Maluco de Once Upon a Time disse que o problema dos humanos é que eles querem sempre uma solução mágica, mas não acreditam nela. Eu realmente não acredito. As vezes eu acho que não acredito em nada. Se não consigo acreditar nem em mim, como serei capaz de acreditar em qualquer uma dessas milhares de teorias fenomenais com as quais vivo entrando em contato? Como serei capaz de achar que um dia seremos iguais, mas ainda assim haverá um jeito do romantismo existir? A visão que eu tenho é a de que o romantismo é tão antiquado e dominativo, que em uma sociedade igualitária simplesmente desapareceria e a gente ia se relacionar com as pessoas só para suprir a ânsia de não sermos sozinhos. E eu já cansei disso, de tentar tampar o Sol com uma peneira e continuar queimada pelos raios UV que passam por cada buraquinho. Eu já cansei de me ver obrigada a sorrir e concordar com as coisas só para não parecer uma conservadora-reprodutora-de-senso-comum mesmo estudando antropologia. Porque tem uma assim no meu curso e ela é deplorável e eu não quero ser ela e eu não acho que eu seja. Mas também não sou aquela que vai sair por aí gritando que quer que o mundo seja perfeito, porque eu odeio coisas perfeitas, porque eu preciso dos meus problemas imaginários e dos motivos para passar o dia inteiro angustiada e sofrendo e comendo mil e um doces e ficando com peso na consciência porque vou sair do padrão de beleza implantado na minha mente!

Eu jamais lutaria contra o padrão de beleza, inclusive, porque eu adoro ele. Por mais opressivo e exclusivo que seja, eu gosto da ideia de que as pessoas tem que se depilar, ter dentes brancos e não tortos, cabelos ajeitados, unhas bonitas, roupas não grotescas e um peso que condiga com sua estrutura óssea. Acho triste as pessoas que se submetem a mil plásticas porque querem ser a barbie, mas nisso eu enxergo apenas um exagero e não uma razão para acabarem com as barbies, mesmo porque, elas são bonecas simples, que proporcionam que as crianças continuem criativas e continuem a inventar histórias e qual é graça de ser criança se você não pode inventar histórias? Se você não pode achar que um dia vai ser uma princesa, como as da Disney, ou até mesmo como a Mia Thermopolis? Eu odeio a robotização infantil que vem sendo pregada constantemente, se elas não puderem inventar histórias, não vão conseguir desenvolver seu raciocínio a ponto de se tornarem bons pensadores e sem bons pensadores a humanidade acaba. As indagações acabam, a arte acaba, a literatura, música, cinema… tudo vira reprodução do que já foi, repetição do que já foi dito. E é isso que me incomoda. E não o fato de uma mulher pedir para um homem trocar uma lâmpada ou fazer a bateria do carro funcionar, não são coisas que interessam muitas delas. Assim como pregar botões e fazer cachecóis não interessa muitos dos homens. E eu não sei qual é o problema disso. Não sei qual é o problema em cumprirmos alguns papéis diferentes. Não sei qual é o problema em sermos diferentes e ao mesmo tempo tão intensamente dependentes uns dos outros.

As vezes eu acho que todos esses movimentos sociais apenas ampliam o individualismo e o enfraquecimento de laços sociais, enquanto acreditam estar fazendo o exato contrário. E isso me irrita, me incomoda, me deixa enfurecida. Porque eu odeio ser sozinha, porque eu sou uma pessoa absurdamente dependente. Porque um dia minha mãe vai morrer e eu vou precisar de alguém que me dê liberdade o suficiente para eu chorar no colo, dormir abraçada e pedir para pentear meu cabelo nos dias que meu braço resolve não funcionar. E eu não me vejo conseguindo nada disso em um universo em que as pessoas vivem pregando que não precisam umas das outras, exceto no momento da revolução. Porque eu odeio as pessoas, mas eu preciso delas. O tempo inteiro.

A Falta de Cor

Pode parecer que não, mas sou uma pessoa arredia. Não costumo ser simpática ou ter vontade própria de ser legal com desconhecidos. Moro em um prédio repleto de gente idosa e não conheço nenhum dos meus vizinhos, mas minha mãe é popular por ser a organizadora das novenas de natal e afins. Ela tem uma amiga, que eu tenho muitos pés atrás com. Tudo porque, quando eu estava no terceiro ano, a dita cuja vivia aparecendo na minha casa para jantar e indo embora só depois da meia noite, após ter falado um monte de coisas e tudo super alto, enquanto eu queria dormir. Aí no começo desse ano eu tive que morar sozinha em casa por alguns meses e ela resolveu interfonar e disse que eu deveria pegar o número de telefone dela e ela o meu, para caso eu precisasse de algo. Juro que pensei em não anotar ou em passar o número errado, mas não consegui ser má a esse nível e passei o número certo e anotei o dela, enquanto implorava para que o Cosmos fosse pelo menos um pouco legal comigo e fizesse com que nunca precisássemos daquele contato. E nunca precisamos.

Sexta-feira é dia de diarista e estou novamente sozinha em casa, o que me faz ter que comer no restaurante universitário, ou sobreviver à base de miojos, nuggets, pão com manteiga, nestom com nescau, café, capuccino, bolacha recheada e chocolate. O jantar no r.u começa cedo e o plano do dia era fazer a refeição no Politécnico, que é o campus mais longe da minha casa, mas que eu sempre quis conhecer e convenci minha amiga a me apresentar. Saí de casa pouco antes das 18h e deixei a chave com a diarista, para que quando ela fosse embora deixasse na portaria e eu entrasse lindamente quando retornasse. No ponto de ônibus, minha amiga me liga dizendo que esqueceu a carteira em casa e por isso estava impossibilitada de comer no r.u, eu fico meio decepcionada, mas vou logo entrando em contato com pessoas do meu campus que provavelmente estariam lá. Contato feito, sigo para o campus, encontro as amigas e passo um par de horas conversando e, claro, comendo. Então lembro que tenho que voltar para casa antes que fique muito tarde, porque não tenho coragem de voltar andando quando passa das 20h, despeço-me e caminho para casa. No meio do caminho percebo que quando estou com medo entoo salmos católicos, como se fossem mantras. Resquícios de toda a educação cristã e talvez da fé em um espírito que talvez me salve de pessoas malvadas que estejam por aí.

Entro no prédio e vou logo perguntando para o porteiro “moço, deixaram alguma chave pra mim aí?” ao que ele responde “não que eu saiba, mas vai ali dar uma olhada” e é claro que eu vou, toda esperançosa. E é claro que a chave não está lá. E é claro que meu otimismo faz com que eu suba até meu andar e tente abrir a porta em vão. E também com que eu procure pela chave embaixo de cada um dos tapetes e enfeites que ficam no corredor. E é claro que eu não encontro.

O universo todo brilhando e em um prédio qualquer nessa cidade recém iluminada, uma garota encolhida nas escadas, sem saber se chorava pelo desastre que seu dia tinha sido, dormia enquanto esperava seu irmão voltar com a chave, batia no vizinho do lado (mesmo sem fazer ideia de quem era) só pra usar o banheiro ou tentava, de alguma forma, recuperar a chave perdida. Lá estava a garota, xingando mentalmente cada pedaço da vida da tal diarista e, principalmente, xingando a si mesma, porque essa era apenas mais uma prova de que não se pode confiar em ninguém. Porque é claro que quando eu conseguisse entrar em casa ela estaria toda revirada e sem várias coisas. E eu só entraria com a chave de outra pessoa, porque a minha tinha evaporado.

No auge do desespero, peguei o celular. Mandei uma dúzia de mensagens ao meu irmão, perguntando onde ele estava, quando ia voltar, contando minha situação e falando pra ir logo porque eu precisava fazer xixi. Nenhuma resposta. Liguei. Nenhuma resposta. Passei whatsapp. Nenhuma resposta. Liguei de novo. Vácuo. Mandei então um mar de mensagens para Milena, que respondeu dizendo para eu ir ao banheiro na casa do vizinho do lado, mas meu orgulho não deixava. E eu resolvi incomodar a minha mãe e perguntar se ela tinha o telefone da diarista, porque era só eu falar com Nair e meus problemas estariam resolvidos. E minha mãe me ligou para saber porque eu queria o telefone. E eu contei a história inteira e no final já estava chorando de desespero, sentada na sarjeta, no escuro, no frio, morrendo de vontade de fazer xixi. Porque, como se não bastasse toda a situação, eu tinha que ter a garganta mais seca do mundo e a vontade de xixi mais atacada do universo. Mamãe disse “vai no ap x, que Nair também trabalha lá e a moça deve ter o telefone dela, eu só tenho na agenda que está dentro de casa” e eu me recusei, porque nunca vi a moça na vida e não ia simplesmente surgir na porta dela pedindo o telefone da diarista da mesma. Fui grossa com a minha mãe, desliguei na cara e voltei à minha angústia. Liguei para o meu irmão de novo. Nada. Mãe manda uma mensagem dizendo que ele havia avisado que iria jogar futebol. Eu estava perdida.

Desci até a portaria novamente, procurei pela chave novamente. Nada. Subi. Comecei a folhear os contatos na agenda do celular, que já estava com menos de 10% de bateria, procurando por alguma luz no fim do túnel. E encontrei o telefone da vizinha. Ângela é a pessoa mais popular do condomínio, ela conhece todas as pessoas, de todos os apartamentos. Como pude não pensar nela antes? É claro que ela ia me ajudar! Enviei uma mensagem perguntando o número do telefone da minha diarista. Ela tinha o fixo, os dois celulares, além dos telefones dos irmãos da mesma. Conseguiu falar com Nair, que afirmou ter deixado a chave na portaria e retornou a ligação a mim, dizendo que em minutos iria me resgatar. Parei de chorar, respirei fundo, controlei mentalmente minha bexiga e minha raiva para com o universo e, de repente, vi Ângela chegar em meu andar.

Perguntou como eu estava, como minha mãe estava, como eu tinha sobrevivido ao temporal, afirmou ter ficado preocupada e me interfonado durante ele e ter feito bolo de cenoura, que queria me dar um pedaço e tudo que eu queria era a minha chave, ou notícias dela. Então Ângela pegou o celular e começou a falar com um tal de “Zé” sobre a minha chave e descobriu-se que ela estava no sofá da sala da casa dessa pessoa. Mas é claro que essa pessoa não estava em casa, estava do outro lado da cidade. E é claro que meu desespero voltou imediatamente. E é claro que Ângela tinha a solução. A mãe do rapaz estava em casa, então fomos até a casa dela e pedimos pela minha chave, que supostamente estava em seu sofá. Segundos de procura e eis que, finalmente, meu mol de chaves retorna às minhas mãos.

Vou até a casa da Ângela pegar o tal pedaço de bolo de cenoura, aviso mamãe, Mário e Milena que estou bem, foi só um susto, a chave já estava em minhas mãos e eu estava quase em casa. Enquanto isso Ângela liga para Nair, a fim de acalmá-la e em seguida eu volto para casa, abro a porta e finalmente faço o xixi de cinco minutos.

Há uma troca de porteiros às 19h e o porteiro que saía disse ao porteiro que entrava que deveria entregar aquela chave para uma “menina loirinha”. Na hora em que ele estava de fato indo embora, um casal entrava no prédio, e a menina era loirinha. O menino, sabe-se agora, era o Zé. E o primeiro porteiro disse ao segundo “a chave é dela” e o segundo entregou. E a menina não entendeu nada, mas pegou a chave e levou até a casa de sua sogra. E eu cheguei e não tinha chave. E ela estava num sofá alheio. Tudo por falta de cor.