Desilusões

“Qual seu maior sonho?”

“Ficar em recuperação.”

“Sério? Eu fico todo bimestre desde a segunda série e não tem nada de legal nisso”

“Ah, eu nunca fiquei, parece divertido!”

“Então não estude e fique!”

“Mas eu não estudo e mesmo assim não fico.”

Acordar às 10h para ir à aula que começaria às 13h. Não, não era pra fazer tarefa de casa ou estudar para a prova, era pra ver os desenhos legais que passavam naquela hora. Almoçar, ir pra escola, prestar atenção nas aulas, conversar como se esse fosse o intuito principal do ato de “estudar”. Voltar pra casa, ler livros aleatórios, fazer a tarefa de inglês do meu irmão, brincar de barbie, tomar banho, arrumar as unhas, assistir novelas mexicanas, fazer as tarefas de casa e dormir.

Estudar de manhã. Tomar banho e café da manhã antes da aula, o que requeria acordar duas horas antes da mesma iniciar porque lerdeza matinal sempre foi um de meus nomes do meio. Ir pra escola e não entender nada porque não era mais uma escola católica e eu tinha que entender que o mundo foi o resultado de uma grande explosão e que eu na verdade fui um macaco. Mudar tudo que fui ensinada a acreditar com o intuito de ser capaz de passar de ano. Fazer péssimas amizades. Espancar pessoas. Manipular a diretora. Voltar pra casa e dormir a tarde inteira, acordar e assistir filmes ou conversar no MSN. Brincar de Barbie, escondida porque já não era mais criança.

Estudar de manhã, desistir do banho e ficar só com o café da manhã. Pegar ônibus com o irmão e frequentar a escola mais fácil da vida. Não prestar atenção em nada, ficar conversando e lendo coisas aleatórias. Ir bem sem fazer a menor ideia de como. Teatro, natação e aula de inglês. Novelas mexicanas, músicas e unhas pintadas cada dia com uma cor diferente.

Estudar de manhã em uma escola difícil, chegar atrasada quase todos os dias e conseguir ir bem contra tudo o que esperavam. Passar de ano com notas fenomenais sem nunca ter encostado em um livro, sabe-se lá como. Passar as tardes absurdamente encantada com o universo teatral e escrevendo mil e uma histórias, enquanto lia meus mais de cinquenta livros anuais e imaginava um mundo em que eu pudesse apenas fazer isso ao longo de todos os dias.

Estudar de manhã e ter preguiça de tomar café e de estudar e de prestar atenção. Dormir na aula pela primeira vez na vida e em seguida faltar aulas e mais aulas para ir a uma praça perto da escola acompanhar os “amigos errados”. Conseguir, finalmente, a primeira recuperação da vida, na matéria que sempre foi a mais odiada por não fazer nenhum sentido, afinal, qual a utilidade de saber de que uma célula é formada? Passar por essa recuperação e virar freguesa das mesmas, que me acompanharam por todos os bimestres ao longo do ensino médio inteiro. Pegar duas recuperações finais por causa de um décimo e ter vinte dias a menos de férias por isso, sendo motivo de piada do professor que jamais acreditou que era eu naquela situação. “Você desistiu de estudar?” “Não! Eu nunca estudei!”

Ter 14 anos e trocar e-mails com sua melhor amiga, no auge da revolta falar que “tô tão puta que nem vou estudar pra essa coisa de vestibular e aposto que mesmo assim eu passo!” e receber bronca e uma resposta “quero ver você falar isso daqui a três anos” e eu não falei. Mas também não estudei. Eram oitenta perguntas e eu precisava acertar trinta pra passar, era impossível que eu fosse tão burra assim. Não estudei e passei em uma boa posição, porque ENEM – essa prova linda – existe e porque eu escrevo mil e uma histórias e afins desde que tinha por volta de onze anos.

Faculdade. 120 páginas em textos para serem lidos em dois dias na primeira semana, sendo um dos textos de Focault, aquele filósofo que eu nunca entendi. Continuei sem entender e não entendo até hoje, diga-se de passagem. Li todos os textos e fiz todas as provas após estudar um monte. Greve. Quatro meses longe daquele universo. Quando voltei nada mais foi o mesmo. Nunca mais consegui ler um texto x para a aula de amanhã. Passei a acumular tudo para supostamente ler na véspera da prova e quando a véspera da prova chegava eu olhava pras quase mil páginas acumuladas, chorava, lia meu caderno e tentava encarnar alguma pessoa inteligente que saberia responder àquelas perguntas.

E eu passei. Em todas as matérias. Fiz vários trabalhos durante a madrugada porque tinha esquecido da existência, demorei meses a fazer outros porque queria que fossem perfeitos, esqueci de fazer alguns, fiz outros baseando-me em resumos dos textos que encontrei na internet. Tudo mal feito. Tudo nas coxas. Tudo vergonhoso. Tudo pra fazer a pessoa que fui aos treze anos morrer de vergonha.

Aí eu reprovei.

É isso.

Oi, eu tenho dezenove anos e acabo de reprovar em uma das matérias mais fáceis que já tive a oportunidade de fazer porque sou incompetente e ao invés de prestar atenção nas aulas eu dormi. Dormi, saí para passear, fui para o laboratório de informática, fiquei na cantina, no pátio, na biblioteca, em centros acadêmicos que nem eram do meu curso, em casa, ou lá mesmo, mas com a cabeça em qualquer outro lugar. Reprovei porque a primeira prova da matéria foi no mesmo dia que a prova da matéria que envolve matemática e, dado meu histórico de ensino médio nada confiável neste quesito, resolvi que iria estudar para esta. No fim, a prova que envolvia matemática era mais fácil que a outra porque a matéria teria 5 avaliações, enquanto que a outra teria apenas duas. E daí eu fui pessimamente mal na primeira prova e fiquei com preguiça de estudar para a segunda, porque minha procrastinação e preguiça são agudas o suficiente para eu surtar ao ler a primeira frase de um texto de uma matéria que eu sei que nada sei e que não vou passar mesmo que eu tente, então, bem, pra que tentar? E daí eu nào tentei. Não estudei. Fiz a prova de qualquer jeito. A matéria é importante demais para que eu passe sem saber nada, pensei, melhor fazer de qualquer jeito e refazê-la decentemente algum dia. Mamãe concordou com minha linha de raciocínio. Eu deveria estar aliviada. Tudo deu certo. Eu realizei meu sonho. Eu reprovei. Eu. A pessoa que tentou suicídio por ter tirado 6,8 numa prova que valia 7 porque isso faria com que eu não ficasse com 10 na média. Eu. Atingi o nível de desprendimento para com notas que sempre almejei e simplesmente reprovei. Porque eu quis. Porque eu não quis. Porque tive que. Reprovei. É isso. Pronto. Satisfeitos?

Podem rir da minha cara agora. Ou não.

Enquanto passa pela cabeça dos que me conhecem que eu devo estar absurdamente destruída e que “ah, agora ela vai levar a vida a sério”, não. Eu passei a tarde dormindo, depois de ter comido um monte de chocolate e estou prestes a ir comer de novo e a terminar de ler um livro legal para, quem sabe, durante a madrugada terminar algum dos mil e um trabalhos que tenho que entregar na semana que vem. Ok. Reprovei em uma matéria, não quero reprovar em todas, mas não preciso ser super nerd. Não preciso ler todos os textos, saber todas as coisas e ter notas impecáveis. Eu não preciso provar pra ninguém que sou capaz de alguma coisa, eu prefiro a ilusão de que talvez se eu me esforçasse eu seria a melhor aluna do mundo, mas como não me esforço devo contentar-me com o comum. Qual o problema no comum?

Sim. Estou chateadíssima por ter reprovado, porque eu sempre quis reprovar, mas tinha que ser numa matéria difícil pelo menos. Duvido que eu consiga me concentrar para fazer decentemente algum dos meus outros trabalhos porque isso vai ficar martelando na minha cabeça ad infinitum e eu vou me deprimir e vou chorar e me entupir de chocolate e agir como se nada tivesse acontecido enquanto dou risinhos nervosos.

Cadê os abraços e as palavras amigas?

Rehab.

A vida humana é um vício” foi o que eu li por aí outro dia e me fez perceber que, de fato, todos nós somos cercados por vícios. Eu, por exemplo, já tive a fase de vício por esmaltes, na qual cheguei a passar um mês almoçando bolacha recheada para sobrar mais dinheiro para comprar mais vidrinhos. Tenho uma coleção enorme até hoje que quase não os uso e juro que algum dia eles vão vencer e estragar e eu vou olhar e ficar chateada por ter gasto tanto tempo e dinheiro com uma coisa tão banal. Quero dizer, sim, tenho vidros raros, tenho cores bonitas, tenho habilidade, mas não sinto mais o que eu sentia antes. Pintar a unha virou tão banal quanto tomar banho.

Aliás, isto me lembra da época em que eu era viciada em tomar banho. E me lembra também que depois que o vício fica muito intenso e a gente perde o tesão pela coisa ela fica tão banal e sem graça que dá até vontade de não ter que fazer. E me lembra também de todas as vezes que eu simplesmente não tomo banho. Por preguiça, por frio, por falta de vontade. Porque não me parece mais divertido. É a mesma razão para eu passar várias semanas sem cortar ou pintar as unhas. Se me dissessem anos atrás que isso me ocorreria eu jamais acreditaria.

Eu tenho um bom controle sobre a maioria dos meus vícios. Um bom auto controle, acredito. Quero dizer, quando vejo que algo está ficando intenso demais pulo fora. Quando vejo que estou me tornando dependente e que o nível de vontade aumenta em cada vez que entro em contato com a coisa, simplesmente paro de fazê-la. Foi assim que eu consegui parar de jogar Candy Crush Saga antes de chegar na fase 100. Claro que o fato de eu ter empacado influenciou bastante, mas chegou num ponto em que eu simplesmente não aguentava mais rir das minhas desventuras naquele jogo e eu comecei a pensar em todo o tempo desperdiçado ali e simplesmente parei. Nem bloqueei, as vezes apareço lá para dar vidas aos amigos, mas saí antes que ficasse muito dependente.

Então surge o vício em pessoas, que na verdade é chamado por alguns de “amor”. Eu deixei de acreditar em “amor” porque vivi algo semelhante ao que todos dizem ser isso e foi tão drástico e destruidor que decidi que jamais sentiria de novo. Por isso, toda vez que sinto algo semelhante vou logo chamando de vício. Mentira, nem chamo. Minha saída – e tem funcionado muito bem – foi justamente parar de dar nome às coisas. Sentimento a gente sente, não tem motivos para nomeá-los. É por isso que eu não tenho vergonha de sair dizendo que amo todo mundo, porque me transmitiu algo de positivo, já amo. É assim que funciona. Com o vício é diferente. Porque o vício nem sempre é bom. É aquela coisa arrebatadora e ardente que faz o coração pular e as veias ferverem e que nos deixa simplesmente com vontade. Vontade de fazer coisas que talvez nem achassemos ser capazes de. E eu vou lá e faço. Sem medo ou vergonha. Só que depois o vício aumenta e atinge o nível que eu sei que tornar-me-ei dependente por um bom tempo. Eu, que odeio sentir-me presa aos outros, afasto-me. E a abstinência é terrível.

Por isso existe o chocolate. Aquela substância criada pela divindade mais superior do universo das divindades, que é capaz de te acalmar, alegrar e compreender. Que está sempre do seu lado e que te consola dizendo que sim, você é forte o bastante pra desvincilhar-se de teus outros vícios. Só que mesmo assim, você precisa de mim. Do chocolate, no caso. Porque por mais livre que a gente queira ser, por mais que a gente batalhe por esse direito de poder fazer o que a gente quiser, sempre haverá algo que mensurará esta nossa liberdade de alguma forma. No meu caso é o chocolate. Porque até do Spotted e do Facebook eu consigo ficar livre. Até longe das minhas mais de 100 sms’s diárias, mas eu nunca, jamais, consigo ficar longe dele. Não importa a forma ou intensidade que se apresente, o que importa é que esteja lá. E ele sempre está. Porque o chocolate é onipresente, onisciente, oni tudo. É aquela coisa deliciosa que faz tua boca tremer, as bochechas formigarem, o cérebro surtar, coração disparar, calor aparecer e de repente você está lá, largado no mundo. Sofrendo com aquela efusão de maravilhas que nada além de cacau e açúcar poderiam te proporcionar. Você, ali, independente de sua idade, deitado na cama, com cara de morto, mas com a cabeça a mil por hora. Você ali, com vontade de sair pulando, cantando e dançando, sem nem lembrar do dia terrível que acabou de ter. Você ali agradecendo a todas as entidades cósmicas do universo por terem te proporcionado aquele momento maravilhoso de cacau derretendo na sua boca e molhando sua língua enquanto você a movimenta e saboreia e entra em êxtase. Você ali, entregue. Naquele momento em que toda sua existência resumir-se-ia a um pedaço de chocolate em sua língua. Naquele momento em que nada mais seria suficiente. Em que nada mais importa. Em que todas as pessoas, jogos, esmaltes, sites e cores que você tanto lutou para esquecer parecem meras sombras de uma realidade que não te pertece mais. Porque naquele momento, caros leitores, você não se sente infinita. Naquele momento você se sente única, realizada, feliz. Extremamente. Naqueles segundos de desejo extremo sendo realizado é como se sua vida de fato fizesse sentido e a partir dali você quer mais. Mais chocolate. Mais vida. Mais vícios. Mais alegrias. Mais momentos como aquele. Porque depois que você encontra o paraíso, é impossível contentar-se com o comum.

São dezoito anos viciada em algo que eu nem sei como é feito. Dezoito anos em que eu como muito. Dezoito anos em que desenvolvi habilidades incríveis de aproveitar as sensações chocólatras por uma quantidade de tempo prolongado e com uma intensidade mais bem rentável. Foram anos e anos de luta externa para me desvincilhar de tudo isso. Anos e anos de luta interna também. Foram influências de diversos lugares da minha mente dizendo para que eu parasse. Para que eu conseguisse comprar uma barra de chocolate e fazê-la durar por mais de dez minutos. E eu consegui. Enfiei-me em minha própria reabilitação, batalhei com minhas próprias patas e fiquei uma semana sem comer nada que contivesse cacau. E eu quase morri. A tristeza inundou o meu ser, a vida ficou tão sem graça. Eu pensava em comer e logo desistia porque qual é a graça de comer salgado quando não tem nada que envolva chocolate para te alegrar no final? Emagreci tudo que engordei a vida inteira com meus quilos e quilos da melhor substância do mundo. Irritei-me. Desisti.

Porque na vida a gente pode se privar de muitas coisas, mas a gente sempre lutou pra ser livre. Eu sempre lutei pra ser livre. E é com a minha liberdade de escolha que decido ficar com o chocolate. O melhor dos meus vícios já experimentados até agora. O único que nunca me decepcionou. Bem vindo à minha vida novamente e, por favor, desta vez não permita que eu te expulse. Porque se eu preciso de algo para apoiar a minha existência em, que eu possa escolher uma coisa gostosa.

Sempre esteve ali, mas eu não via.

Meu nome é Mayra, tenho dezoito anos e moro em Curitiba –  duas quadras da Rua XV de Novembro – há sete. Apesar da proximidade geográfica e das necessidades da vida urbana que me fizeram caminhar pelas quadras lotadas do calçadão diversas vezes durante todo este tempo, somente hoje, dia três de junho de dois mil e treze, eu realmente conheci aquele lugar. Não é que eu não saiba exatamente onde fica cada uma das lojas, a história da rua, as razões para ter um bondinho de leitura, prédios antigos e a chamada “boca maldita”. Não é que eu não saiba que a fila do sorvete do Mc Donalds vai estar lotada mesmo quando estiver zero grau e que sempre haverá um grupo de punks bebendo perto da fonte, em seguida um grupo de hippies fazendo artesanatos de arame e tentando vendê-los, estátuas vivas, o Plá, barracas de diversos movimentos sociais, caricaturistas e desenhistas, músicos, deficientes, bêbados, drogados, artistas de rua com performances incríveis, o Sombra, às vezes o Oil Man, a Emília e um grupo de velhinhos discutindo sobre política. Eu sei de tudo isso. Consigo dizer os lugares em que cada uma dessas coisas fica, mas eu nunca as tinha observado, visto ou experienciado da maneira como fiz hoje. Sempre fui mais uma na multidão. Mais uma das que tem uma vida para seguir em frente e que não apreciam a rua, simplesmente passam por ela. Sempre tentando bater meus próprios recordes – por enquanto o máximo que consegui foi 10min da Praça Osório até a Santos Andrade. Sempre fui mais uma das pessoas atarefadas que aproveitam o fato de ali não haver carros para andar mais rápido e também daquelas que recorre à honorável rua para qualquer tipo de compra emergencial. Eu nunca vivi a XV. Até hoje.

Hoje eu resolvi flanar. Fracassei. É impossível para mim cogitar a hipótese de simplesmente andar por uma rua sem um objetivo em mente, sem saber para onde estou indo e porquê. Eu não sei flanar, mesmo quando me esforço. E sabendo que seria impossível ficar tentando, impus um objetivo: experimentar. Então eu resolvi que dessa vez ia atravessar a rua em, no mínimo, meia hora. Decidi que ia prestar atenção em cada um dos prédios e, principalmente, em cada uma das pessoas. Que ia parar para responder qualquer um que viesse falar comigo, inclusive correndo o risco de ter que gastar meu dinheiro para cumprir essa promessa. O objetivo, claro, era conseguir fazer um bom relato depois. Tentar mensurar em palavras uma realidade complexa, algo que é sempre muito questionado e que tem poucas chances de ser feito com sucesso. Tentarei.

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Entrei na rua pela esquina com a Muricy e fui imediatamente tentando perceber as pessoas. Imitei o modo de caminhar de algumas, mas elas não perceberam. Deparei-me com três anões que não estavam juntos e muito provavelmente nem se conheciam, mas andavam perto um do outro. Vi duas senhorinhas de mãos dadas escolhendo coisas em uma loja e uma moça reclamando que o namorado ainda não fazia ideia do que lhe dar de presente. Vi três pessoas falando no celular, sendo que uma delas o fazia por bluetooth e assim parecia estar falando sozinha, e ela estava irritada. Havia um par de gentes estranha, ou seja, gente que eu imaginaria em qualquer lugar, menos na XV. Vi gente esnobe se assustando com a estátua viva e um entregador de água derrubando um galão cheio. Vi todas as pessoas da rua pararem o que estavam fazendo para encarar o menino que derrubou o galão, como se aquilo fosse um absurdo, um acidente urbano. Vi polícia e vi redes de televisão entrevistando pessoas. Vi um perfomista que estava se preparando para iniciar um espetáculo e tinha acabado de largar uma mão no chão e falar um monte de coisas incompreensíveis para ela. Uma punk veio até mim, entregar-me um zine e pedir uma contribuição para que ela vá a Porto Alegre fazer alguma coisa da qual não me recordo e eu dei algumas moedinhas. Em troca ganhei um lindo poema. Mais adiante conheci o Doende do Asfalto, um rapaz simpático que se ofereceu para fazer o meu nome em arames. Não me aguentei e comecei a conversar com ele, descobri que ele mora em um hotel e que o que ganha é suficiente para se manter. Ele viaja pela América Latina expondo sua arte e também para dentro do país. Ele era meio arredio, a cada frase que falava já ia logo dizendo algo como “relaxa, não aprendi isso na cadeia” ou “pode encostar em mim, eu não mordo” e eu tinha apenas perguntado onde ele havia aprendido sua arte e dado um aperto de mão. Mas ele era legal, disse para eu voltar lá porque ele quer fazer dreads no meu cabelo e falou coisas bonitas para mim, além de explicar o significado de cada uma das partes da arte que estava fazendo.

Vi mãe dando cigarro para uma filha criança. Gari limpando a calçada e sendo empurrado porque ele estava “atrapalhando a passagem”. Pai discutir com filha sobre que tipo de corte era aquele presente na roupa recém-comprada. Óticas entregando folhetos de propaganda. Leão Brasil gritando. Vi gente das mais diversas tribos urbanas, todos ali, convivendo no mesmo lugar. Vi apressados, desajeitados, elegantes, cafonas, gordos, magros, enfim, todo tipo de gente. Vi que mesmo vivendo em uma sociedade individualista, em que cada um conversa com gente que mora do outro lado do mundo, mas não conhece o próprio vizinho, que a alta tecnologia roubou o espaço da maior parte das relações afetivas e que o ar condicionado roubou o cheiro do ar puro na maior parte dos ambientes, ainda é possível saborear a rua. Ainda é possível sentir cheiros diferentes em cada passo, olhar coisas inesperadas e aprender o infinito com algo que sempre esteve ali.

No fim, concluí que mesmo sendo apenas mais uma na multidão, ao invés de eu apenas cumprir meu papel social posso sorrir e aproveitar o que a cidade tem a me oferecer. Posso pensar e sentir. Posso flanar mesmo não sendo desocupada. Posso causar estranhamento e estranhar-me com uma simples caminhada por uma rua próxima à minha casa. Eu posso tanta coisa. A gente pode tanta coisa. E mesmo assim desperdiçamos grande parte da nossa finita vida com atitudes mecanizadas que nos fazem ser quase meros autômatos.

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E foi assim, andando por um lugar que sempre esteve ali em um dia qualquer, que eu mudei a minha vida.

O Amor em Forma Redonda

Não sei quando foi a primeira vez que experimentei, mas garanto que devo ter gostado logo de início. É a especialidade culinária da minha mãe que mesmo sendo Nordestina deixava minha avó mineira pra lá de satisfeita. Lembro-me de ter  menos de cinco anos e sair com meu cofre de hello kitty na mão acompanhada do meu irmão que andava com uma bacia repleta de sacos lotados deles rumo a todos os vizinhos do prédio, porque era nossa forma de obter uma renda extra. A gente vendia pão de queijo porta a porta e todos compravam porque nos achavam fofos e porque era bom demais.

Eu ao lado da minha mãe, com uma fralda para não cair cabelo na massa, aprendendo o passo a passo e comendo um pedaço de cada etapa. Porque pão de queijo é capaz de ser bom na parte que é só polvilho escaldado, na parte que mistura o queijo e os ovos e está a ponto de ser enrolado e depois de enrolado também, quando assa então. Nem se fala. Enrolar pão de queijo era uma das coisas mais divertidas da minha infância. Tentar achar o tamanho ideal e colocá-los na forma de maneira que tivessem espaço para crescer sem esmagar os outros. E quando o tamanho não estava bom, eu fazia igual ao brigadeiro e comia rapidinho antes de pular pra próxima bolinha! Porque não há nada mais divertido do que fazer pão de queijo ao lado da minha mãe.

A gente mudava de cidade e a fábrica não parava, minha mãe chegou até a ensinar uma de nossas ex-empregadas a amassá-los no lugar dela, pois o braço dela estava adoecido devido a tanta massa produzida. E a moça fazia, não ficava aquela brastemp, mas dava pro gasto. E a gente nunca parou. Em uma de nossas cidades, além de ir pessoas basicamente desconhecidas em casa só pra comer pão de queijo, criaram até uma comunidade do orkut homenageando aquela coisa deliciosa. Então veio o forno elétrico e nunca mais mamãe conseguiu atingir o nível de perfeição, a não ser quando trazem o queijo de Minas e ela resolve assar no fogão. Enquanto isso fico sofrendo ao pensar que meu momento de ser a assadeira de pão de queijo da família está próximo e com a ciência de que eu necessito honrar o nome, afinal o que é bom precisa ser mantido e eternizado. E como esse tempo não chega, tenho que saciar minha vontade em outros meios.

Ou vocês pensam que após basicamente quinze anos ingerindo altas doses de pães de queijo dá pra sobreviver sem eles por muito tempo? Eu digo que não. É fato que muitas das minhas amigas vêm aqui em casa só porque quando tem visita tem pão de queijo e nessas ocasiões eu consigo desvincilhar-me de minha vontade, mas como ultimamente tem sido cada vez mais difícil vir alguém me visitar, resta-me comprar minha delícia em lugares aleatórios.

Na minha ex-escola a cantina era careira e o salgado mais barato era nada mais nada menos que o pão de queijo, o detalhe, porém, é que além de ser o mais barato era o mais gostoso. Eu não conseguia resistir a ele e só o deixava de lado quando tinha croissant de chocolate à minha espera, porque eu sou absurdamente viciada em pão de queijo, mas croissant de chocolate não é aquela coisa que a gente come todo dia. Quase todo dia eu comia pão de queijo. Aprendi que gosto dos pães que vendem na “casa do pão de queijo” e consigo suprir minha vontade com aquele pão de queijo congelado – meia boca.

Então surge a cantina do teatro e eu sou fresca pra comer e nunca experimentei um salgado além de coxinha e pão de queijo, mas vem muito frango na coxinha e pão de queijo não tem recheio, por isso é perfeito, então, resumindo, na cantina do teatro eu só peço pão de queijo. Exceto quando há croissant de chocolate, como já foi explicado. A coisa é tão automática que eu nem falo nada, basta chegar na frente da Mira pra ela já ir tirando um pão de queijo e me entregando. E olha que eu nem sou muito fã de queijo, só gosto em pão de queijo e em lasanha, queijo ralado no macarrão ou pastel de queijo e afins me dão arrepio, porque fica uma camada muito espessa de gordura e tal. Bolinha de queijo eu té engulo, mas eu sempre formo fios de queijo e faço meleca, então prefiro o bom e velho pão de queijo. Sempre preferirei.

Eu sempre quis ir pra Minas, porque minha vó nasceu lá e minha vó era fantástica, mas depois que a tia do meu pai veio nos visitar e trouxe um pouco dos pães de queijo deles a vontade apertou ainda mais. Porque pão de queijo é a comida mais brasileira que existe, quiçá até mais brasileira que arroz com feijão preto. Porque eu nunca ouvi falar de outro país que tenha. É uma iguaria nossa. Só nossa. E eu fico tão feliz quando sei que há algo tão bom que foi inventado bem aqui! Sei que o Brasil é enorme e eu não conheço grande parte, mas recentemente concluí que Minas é a Itália do Brasil. Porque a Itália até é bonita e tal, mas o que me dá vontade de conhecer não é o Vaticano, a Capela Sistina e a Fontana di Trevi, mas sim os deliciosos restaurantes e quer saber? Com Minas é a mesma coisa. Porque lá pode ser a terra do doce de leite e sei lá o que, mas acima de toda e qualquer coisa, lá é a terra do pão de queijo e não há amor mais redondo e delicioso que este!

E que explodam essas casas chinesas de Curitiba que fazem pão de queijo no liquidificador, colocam em formas de empada e assam a massa depois de a terem pré-fritado. Se querem estragar alguma coisa, estraguem algo que já é ruim, pois fazer isso com o ouro em forma de comida deve ser pecado e dos mais graves!

Aaaaahhh Pão de Queijo!

 

 

 

Degradação da Cultura Japonesa

Há dois anos fui a um matsuri pela primeira vez na vida. Não fazia a menor ideia do que era tal evento, só sabia que era alguma coisa relacionada ao Japão e aos japoneses. Minha cunhada é japonesa e ia lá então convidou meu irmão e eu, que sempre fui a pessoa mais intrusa do mundo, não perdi a oportunidade.

Chegamos ao Pavilhão de Exposições do Parque Barigui e me deparei com um espaço ENORME, lotado de japoneses e ocidentais vestidos com roupas de animes/mangás. Lógico que ao me deparar com tais ocidentais os achei um tanto equivocados, mas a Liv logo me explicou que estavam fazendo cosplay e passei a compreendê-los um pouco mais. Tinha um palco enorme e estava tendo um concurso de beleza quando chegamos, depois teve várias apresentações de bandas que tocavam em japonês e apresentações culturais clássicas também, Liv sempre nos explicando detalhadamente o que cada uma das apresentações significava. Comemos um bom yakisoba e quando estávamos indo embora nos deparamos com uma árvore enorme onde a gente colocava pedidos e um templo do Buda, onde várias pessoas estavam fazendo orações. Achei tudo muito mágico e legal, afinal conhecer outras culturas é sempre emocionante!

Resolvi voltar a essa festa todas as vezes que ela acontecia, porque achava tudo bastante interessante. Ano passado resolvi levar minha mãe para ver como era o universo do matsuri, mas não era no Parque Barigui, era no Centro Cívico. De graça e perto do lugar onde todas as pessoas “do gueto” vêm no fim de semana, resultado? Tinha um bando de bêbado, maloqueiro e umas pessoas MUITO estranhas, minha mãe ficou com medo do lugar e voltamos para casa. Depois disso fui a apenas mais um matsuri e foi melhorzinho, as apresentações estavam boas e o yakisoba impecável!

Ontem era dia de matsuri e meu irmão estava com vontade de comer sushi há um bom tempo, então o levei até lá. Ao chegarmos na Praça do Japão nos deparamos com um lugar REPLETO de gente extremamente estranha, saímos contando e só tinha dez japoneses no lugar, nenhuma barraquinha com produtos típicos e apenas uma barraca de comida, que vendia pastel e “marmita de comida oriental”. Fail? É só apelido.

Ao chegar em casa estava certa de que tal matsuri não era um dos oficiais, era apenas um independente, feito por gente que idolatra a cultura japonesa, mas teve a “desgraça” de ter nascido no Ocidente. Não. Era um dos três matsuris oficiais da cidade.

Em Abril há o Hana Matsuri que é o festival da primavera no Japão, em Junho há o Imin Matsuri que é uma festa da imigração japonesa na cidade e em Setembro/Outubro há o Haru Matsuri que é a época em que Buda nasceu, logo é o natal japonês.

Essas três festas tem subisídio do governo e o dinheiro arrecadado com alimentação e produtos orientais vai para as comunidades japonesas da cidade. Comunidades que sustentam a cultura oriental no Brasil e que são super úteis e apreciáveis.

O fato é que com a popularização de tal cultura várias pessoas passaram a idolatrá-la, os chamados “otakus” e esses seres degradaram os matsuris e agora descobriram o mundo coreano e daqui a pouco degradarão a cultura coreana também. Acredito que tais pessoas sejam a prova viva de que o amor destrói, porque se eles realmente amam a cultura japonesa deveriam engrandecê-la e não transformar as festas tradicionais nesses lixos ambulantes.

Não sei o que aconteceu ou porque o Hana Matsuri desse ano foi tão decadente, mas fica aí um alerta a qualquer pessoa que seja diretamente relacionada com tal evento: matsuri é legal porque é cultural japonês, sem japoneses vira apenas uma festa vã e COMPLETAMENTE dispensável.

E nem vou comentar que se tivessem feito um Hana decente teriam arrecadado dinheiro suficiente para sustentar as comunidades daqui e mandar um pouquinho pro Japão se reerguer após as catástrofes naturais.

A comunidade japonesa dessa cidade me decepcionou pela primeira vez na vida ontem.