Confessionário

Não entendia a dinâmica da confissão. Fazer a lista, sentar ou ajoelhar, falar os pecados para o padre sob a premissa de não cometê-los novamente e ganhar uma penitência como troca pela absolvição. Achava que estava enganando Deus ao fazê-lo acreditar que eu nunca mais mentiria ou desobedeceria meus pais e ao mesmo tempo entendia que aquilo apenas aliviava meu fardo, para que eu pudesse fazer de novo. Mas se eu poderia fazer de novo, qual era o sentido?

Tempos depois, admiti para mim a ideia de que se Jesus é Deus e deus é onisciente e onipresente, quando morreu na cruz e salvou a humanidade de todos os pecados, ele realmente salvou a humanidade inteira, de todos os pecados. Não interessa que eu nasci quase 2000 anos depois que ele, ele já sabia exatamente quais pecados eu iria cometer e já havia me perdoado por todos. Ou talvez ele não soubesse exatamente quais eu cometeria, pois tem a história do livre arbítrio vs onisciência divina, que me faz crer que ele pelo menos tem uma noção do mol de atitudes que eu possa vir a tomar. De qualquer forma, Jesus já tinha me perdoado. Eu posso pecar o quanto quiser e nem preciso me confessar, porque Jesus já me perdoou.

O outro pé atrás com a confissão era justamente que receber o perdão de Deus não gerava em mim a reflexão sobre o quanto aquela atitude era errada e deveria ser repensada. Ao invés de pedir desculpas para as pessoas que eu ofendia, ia lá e pedia desculpa pra Deus, porque, né, já que ele que sabe de tudo, só interessa a ele saber que estou arrependida. As outras pessoas não podiam saber que eu era fraca a ponto de assumir estar errada.

No fim das contas, quem queria ser Deus era eu mesma. Fingindo ser onisciente, onipresente e tudo mais. Só que eu não sou deus. Mesmo que eu tenha o nome de uma deusa canibal. E a demora para a cabeça processar isso foi absurda.

Envolvi-me nos “assuntos de gente grande” da família desde sempre. Meti o bedelho em todos os lugares possíveis. Ignorei a opinião de muitas pessoas e as obriguei a seguir a minha. Fui vil e cruel. Bati em pessoas por puro descontrole emocional. Bati em mim mesma pela culpa que a vida me fez carregar. Nunca pedi desculpas a quem eu realmente ofendi, quando ofendi.

Não que eu não peça desculpas, eu peço. Mas pelos motivos errados, por educação, não em situações que demonstram arrependimento. Com o passar do tempo, passei eu mesma a desconsiderar meus pedidos de desculpas e quando realmente estou arrependida, só uso esta palavra em falta de sinônimos com a mesma conotação. A verdade é que na maioria das vezes meus pedidos de desculpas são apenas desculpas para não aceitar as minhas inúmeras falhas.

Essas coisas começaram a me incomodar mais do que o normal ultimamente. Resolvi revirar a minha memória, tentar lembrar de cada ressentimento, cada culpa guardada aqui dentro que eu não consegui resolver com as pessoas em questão por pura babaquice e decidi colocar a boca no trombone. Decidi fazer do mundo o meu confessionário e ir de pessoa a pessoa falar o que ressinto dela, porque e o que acho que fiz que pode ter causado algum ressentimento a ela e como sou arrependida por isso. Também resolvi agradecer. Agradeci pessoas que foram extremamente importantes pra mim em momentos cruciais e depois foram simplesmente abandonadas pela minha ignorância absurda e decidi que talvez eu odeie tanto as pessoas e o universo e todo o resto simplesmente porque nunca me permiti realmente gostar.

Porque sempre tive medo de como aquilo poderia me afetar negativamente e estive mais preocupada com o quanto eu deveria me proteger. Simplesmente porque pensei mais em mim do que nos outros. Mas em como a atitude era reflexo de outra atitude minha e consequência de uma causa psicológica ou social da qual eu não pude evitar. Ou simplesmente do rompimento com meu amadurecimento e da disparidade entre o meu lado criança e o meu lado adulta. Sempre olhei as coisas sob a perspectiva minha e não pensava em como eu afetava os outros e como eu influía na vida deles e o quanto eu tinha poder de mudança nelas.

Eu sempre fui nada além de uma vadia egoísta que se coloca em primeiro lugar.

Não sei se meu método de confessionário vai ser mais eficaz que o da igreja. Não sei quanto da decepção e amargura que causei podem ser reparadas. Não sei quanto da minha ingratidão pode ser transformada em bons fluídos para outrem. Mas tenho sentido tanta raiva de ser ridícula, mesquinha e infantil quanto sou que certamente cuidarei para minimizar essas atitudes.

Se o meu maior medo é ficar sozinha, cabe dizer que agi a favor da solidão durante a minha vida inteira.

Umbigo Grande

A vida me fez concluir que toda mulher é feminista quando o bicho pega pro lado dela.

Tudo ia muito bem quando o machismo funcionava em nosso favor, seja com homens trabalhando desesperadamente o dia inteiro enquanto as mulheres podiam ficar em casa bordando ou mandando em suas empregadas. Ou quando eles pagavam o jantar e abriam a porta do carro, fazendo de nós donzelas indefesas. Ia tudo tão bem que as mães educavam suas filhas para procurar um homem que seguisse exatamente esse padrão, o do homem todo-poderoso que tudo provê e ocupa todo tempo livre com a arte de te fazer feliz. Enquanto isso você limparia a casa, lavaria as roupas e posteriormente cuidaria dos filhos, mas ah, nada mais justo, afinal, ele que teria ficado com todo o trabalho pesado.

Aí algumas mulheres despertaram. Elas perceberam que também eram gente e que não precisavam depender de homens para sobreviver, pois poderiam ser tão auto-suficientes quanto eles. Estudaram, conseguiram direito ao voto e a ser eleita, batalharam para serem rainhas mesmo sem marido e filhos pentelhando e mostraram que os dois cromossomos X podem ser tão fortes quanto um X e um Y juntos. Só que ainda assim estava tudo bem ele pagar o jantar e abrir a porta do quarto. Estava tudo bem ele sentar vendo futebol e ela ficar que nem uma barata tonta pegando as cervejas. Estava tudo melhor ainda quando era ele quem dirigia e a vida era uma carona sem fim.

E novamente algumas delas perceberam que não são e não podem continuar sendo idiotas a esse nível.

Todas as pessoas que conheço que têm irmãos em algum momento soltam a famosa expressão “isso acontece porque eu sou mulher”. Todas as garotas que conheço se precaveêm antes de sair de casa com artefatos como uma chave na mão, roupas que chamem pouca atenção e, claro, muito cuidado com os horários e locais por onde se passa, além da preferência por estar sempre acompanhada. Nunca conheci uma garota que tenha passado todos os dias da vida sem pensar pelo menos uma vez que foi prejudicada em tal ponto por ser mulher. E todas continuam sendo, continuam tentando e aos poucos vão se adaptando ao sistema, pois cansam de lutar contra ele.

Acho curiosíssimo o fato de haver mulheres homofóbicas e racistas. Quero dizer, são pessoas que sentem na pele o quanto é horrível ser prejudicada simplesmente por ser de tal jeito, não faz sentido (para mim) que elas simplesmente reproduzam a mesma aflição em terceiros, mesmo que em categorias diferentes. Mulheres machistas fazem menos sentido ainda. Só que, bem, toda mulher é feminista quando o bicho pega pro lado dela. Mas toda mulher é machista em todos os outros momentos.

Da mesma forma que nunca conheci uma garota que não se sinta prejudicada por ser mulher, nunca conheci uma que tenha vivido a vida inteira sem jamais julgar o caráter de outra mulher por suas atitudes particulares. É claro que me incluo nessa categoria. Todas as mulheres possuem um pouco do devir “meninas malvadas” dentro delas, mesmo que elas nunca tenham assistido a esse filme. É extremamente comum reproduzir preconceitos em relação a pessoas loiras, a mulheres dirigindo ou mulheres ocupando quaisquer cargos que não aqueles previamente denominados “cargos de mulher”. É extremamente comum uma mulher humilhar a outra por não ter um parceiro, ou por ter parceiros demais. E é mais comum ainda as mulheres acharem o máximo pagar menos para entrar em festas ou a ideia de se arrumar inteira para “vai que encontro meu príncipe encantado”. Toda mulher é feminista quando o bicho pega pro lado dela, mas quando ele tá pegando pro lado da outra, ela é uma das que está apontando a faca.

Vejo o preconceito em todas as suas categorias como uma estrutura inconsciente, ou seja, algo que faz parte do inconsciente coletivo da sociedade e que, por mais que seja trazido à tona em diversas situações, continua sendo sempre culpa do outro e não de cada um de nós. Se em uma pesquisa sobre preconceito a maioria das pessoas responde não ser racista, mas ao mesmo tempo conhecer alguém que é, significa que passamos tempo demais olhando e julgando o outro e tempo de menos observando a nós mesmos. Gandhi dizia para sermos a mudança que gostaríamos de ver no mundo e eu conheço muita gente que se esforça para tal, só que se minha teoria estiver correta e a base de tudo isso estiver realmente no inconsciente, não vamos conseguir nos livrar dela apenas tendo noção de que precisamos. Saber que a coisa existe é totalmente diferente de saber como ela existe ou como ela se mostra.

Mesmo tentando melhorar meu auto-controle sobre o que falo e penso em relação às pessoas serem, tentando tornar algumas dessas sinapses automatizadas um pouco mais conscientes, peco. Várias vezes me pego culpando as vítimas e oprimindo-as de alguma forma. Ao mesmo tempo em que aponto para a minha família as coisas que eles fazem e me oprimem. Eu sou tão culpada quanto. Provavelmente muitos de nós somos. Porque a gente só é feminista quando o bicho pega pro nosso lado. Os outros? Ah, eles que cuidem da vida deles.

Meu umbigo (o metafórico) está quase se transformando em um imenso buraco negro. Espero não ser sugada. Ainda tenho esperanças de vencer.

Nosso

Ana Luísa sempre ficava chateada comigo porque no intervalo do teatro eu sempre comprava um chocolate e nunca lhe dava um pedaço.

Nunca fui de compartilhar coisas. Na minha casa sempre cada um ganhou algo, por exemplo, quando um ganhava um pacote de bolacha o outro ganhava outro, assim cada um podia comer o seu pacote por inteiro. Tudo bem separado, para evitar brigas. E as brigas eram evitadas, até que em um momento minhas comidas começaram a sumir. Era incrível, eu ganhava um doce, guardava no armário e quando ia comer não estava mais lá! E aí eu surtava e brigava com todo mundo e fazia comprarem doce pra mim de novo. Descobri que era meu irmão que comia e comecei a esconder meus doces em lugares secretos. Escondo-os até hoje.

A tia da escola ficava brava e dizia que eu era egoísta porque tinha uma caixa de lápis de cor de trinta e seis cores e não dividia com ninguém. Eu achava injusto, porque foi muito difícil convencer meu avô a comprar aquela caixa para nós e mais difícil ainda convencer minha prima a deixar que eu trouxesse pra casa, mas na escola nada disso importava. Os outros não tinham e eu deveria emprestar. E isso me torturava, porque era meu. E tudo que era meu e eu emprestava voltava mordido, quebrado, destruído ou simplesmente sem parecer ser meu.

Meu irmão começou a namorar e eu não conseguia sequer olhar nos olhos dele, porque era como se ele tivesse me traído. Deixado de ser meu e passado a ser de outra pessoa. Eu ainda poderia chamá-lo de “meu irmão”, mas sabia que ele passaria mais tempo com uma desconhecida do que comigo. E isso era imperdoável. Assim como é imperdoável ver meus pais sendo legais com qualquer pessoa que não seja eu ou meu irmão. Assim como é imperdoável ver meu irmão chamando eles de “pai” e “mãe”, porque eles não são isso. São “meu pai” e “minha mãe”.

Sempre fui uma pessoa possessiva e ciumenta. Sempre gostei de marcar meu território e de saber exatamente quais são os seres que pertencem à mim. Sempre nomeei todas as coisas que tive, pois isso as torna mais minhas e é por isso que tenho apelidos secretos para todos os meus contatos do celular, porque eles são MEUS.

Essa semana eu resolvi tentar sarar e adentrar no espírito “comunista” – no sentido de compartilhar as coisas, socializando-as – que meu irmão tanto tenta implantar em casa. Eu já aprendi a dividir água, canetas, livros, roupas e até bolachas, mas é absolutamente impossível que eu consiga cogitar a hipótese de dividir meu chocolate. Esse é e sempre será apenas meu. Só meu e de ninguém mais.

Hoje eu vi uma pessoa que me aprece colocar no facebook que está “em relacionamento sério” e eu não senti ciúmes. Não senti ameaça à relação por mim estabelecida para com a pessoa. Não senti que por causa disso precisarei desapegar-me. Eu fiquei feliz. Eu sorri e pensei “nossa, que legal!” e fiquei com vontade de abraçar a pessoa e dizer que quero que ela seja muito feliz, por muito tempo. E isso nunca acontece comigo. Porque eu sempre acho que quando as pessoas acharem alguém mais legal vão me abandonar. Mas eu consegui fazer isso hoje.

Talvez um dia eu compartilhe chocolates. Os meus, não os que eu compro no intervalo, porque esses aprendi na marra a dar uns pedaços por aí.