Meu

É interessante analisar a tenuidade existente entre o exterior e o interior, dentro de nós mesmos. Sim, essa frase ficou estranha. O que quero dizer é que em basicamente todos os âmbitos que nos cercam, aquilo que aparentemente é nosso, na verdade não é. O que preenche o nosso interior, na maioria das vezes, é muito mais externo do que poderíamos imaginar.

Os sentimentos existem. A maneira com a qual lidamos com eles nos é socialmente construída e culturalmente ensinada. Acho essa escola muito falha. Nem a ciência, nem Shakeaspere e nem os maravilhosos gregos souberam nos explicar exatamente como agir em cada uma das micro-situações em que nos colocamos. E as vezes as caraminholas de nossas cabeças agem tão mais depressa que o mundo que nos cerca, que a ansiedade nos faz fazer coisas que jamais deveriam ser feitas e tudo que nos resta são lamentações por sobre coisas que ninguém sabe ao certo como conceituar e menos ainda como viver e sair ileso.

Aquilo que é meu nunca o é necessariamente. E mesmo que o casaco seja só meu ou que só eu utilize aquela calcinha, nada impede que um dia eu doe o casaco ou alguém use minha calcinha. O fato de algo parecer meu em algum momento, não o torna eternamente meu. Exclusivamente meu. Meu, de fato.

As histórias que a gente lê e considera nossas foram lidas por muitos outros que também as consideram deles.  E mesmo que uma pessoa jamais consiga ser exatamente a mesma para duas pessoas diferentes, ainda assim ela não é inteiramente diferente, única, só sua. Uma pessoa nunca é inteira e exclusivamente de ninguém.

A única coisa que pode ser nossa, é justamente aquela que mais nos assola e faz com que passemos dias e dias de nossas vidas tentando externá-la, encontrar uma outra solução não intrínseca e ficar apenas livres de. O sentir. Não o ato de sentir, isso todos fazem. Seja pelo tato ou pelo subjetivo, sentir é algo que até os micróbios devem ser capazes de fazer, mesmo que não tenham consciência disso.

A questão é que a leitura que fazemos dos nossos sentimentos é única. Ela depende de nossa vivência e ninguém tem a mesma vivência que outra pessoa, mesmo que seja irmão gêmeo e tenha frequentado os mesmos lugares a vida inteira, a maneira como um enxerga as coisas ainda vai ser um pouco diferente e a razão disso eu não sei, mas é assim que é.

A gente pode escrever páginas, dossiês, linhas, livros, coletâneas e o que mais quiser sobre os nossos sentimentos e ainda assim eles serão incompreensíveis. Tanto para nós quanto para terceiros. Se nem nós conseguimos colocar em palavras tudo que nos assola, como é que podemos mensurar toda a realidade que nos angustia e deixa malucos para uma outra pessoa, que provavelmente vai ouvir a história inteira e ter uma leitura completamente nada a ver sobre o fato vivido?

A gente pode rotular os sentimentos. Dizer que tal coisa é medo e aquela outra coisa é paixão, mas nunca vamos conseguir explicar a forma como o medo e a paixão se mostram para nós. Nunca vamos conseguir transpor em palavras exatas aquilo que tanto nos atormenta e isso vai nos deixar cada vez mais atormentados, porque o fato de não entendermos tudo que se passa com a gente nos deixa ainda mais temerosos, inseguros e atormentados.

A ilusão de posse sobre algo, mesmo que esse algo seja uma ideia de sentimento, uma ideia de pessoa, uma ideia – como na maioria das vezes o é, faz com que a posse se inverta. Enquanto primariamente a ideia é que a gente obtenha o controle sobre aquilo que possuímos, acabamos por nos envolver tanto que nos deixamos possuir. Objetificamo-nos. Perdemos a tão falada autonomia e viramos dependentes de pessoas, coisas, ideias, ideais e leituras idealizadas de sentimentos.

“A felicidade só é real quando se vive para outrem” disse Tolstoi e no decorrer do livro a gente percebe que não é bem assim que a banda toca, porque viver para outrem não necessariamente gera a completude e a dita felicidade que tecnicamente buscamos. E que buscamos, mas suportamos por apenas alguns dias e depois nos irritamos com o ato de estarmos felizes e procuramos defeitos e problemas em lugares completamente aleatórios, só para ter uma desculpa para continuar reclamando, continuar lutando, continuar vivendo. Afinal, qual é o ponto em viver feliz? A constância irrita. Não importa de qual sentimento seja essa constância. Nada importa.

E a cada dia que passa, cada história conhecida, momento vivido, lugar encarado e abraço sentido fazem-me entender menos ainda todo esse caos ambulante na qual estou inserida. Fazem minha vontade de existir diminuir cada vez mais, enquanto o ódio dilacerado pela existência da humanidade me possui, me conforta e me irrita. Ser malvada, assassina, temida, briguenta, um sonho. Hiper-sensibilidade, preocupação extensiva, sonhos bizarros que parecem tão reais que assustam, vontade de fugir, de recolher-se em si e só depois ir em busca a um abraço querido e apaziguador.

Síndrome de Supertramp, talvez. Culpa do Tolstoi, talvez. Ou minha, dessa cabeça impensante que tanto pensa, dessa necessidade abrupta de sentir e ser sentida, mas não se sentir apta para nada disso. Culpa? Por que é que alguém tem que ter culpa? É tudo meu. Minhas leituras sobre o mundo. Meu sentimento. Meu. Mesmo que eu não tenha nada.

Eu não sei pra que lado mas eu vou, tento tanto mas tão tonto perco o tempo e a direção. Percorrendo, assim, eu vou. Persistentemente em frente eu tento insistir em ir. Eu sou um otário! angustiado! A minha meta é vaga, infelizmente não dão vaga para quem vive só sonhando! Flutuando pela ciclovia num mundo de sonho e fantasia…

 

O Efeito

Aí que eu sou pirracenta e só consigo me apaixonar loucamente por bandas com integrantes falecidos. E é claro que as razões para eu gostar das bandas sempre são os integrantes falecidos. Chico Buarque, SOAD e outros à parte, a verdade é que não consigo me interessar por música ou lançamentos de cd’s ou shows porque só consigo pensar na desgraça que é viver num mundo sem show do Legião, Beatles, Queen e tantos outros lindos em sua formação original (Vinícius, te amo). Porém, no entanto, todavia, em todo fim do túnel há uma luz. A não ser que seja um túnel sem saída, claro, mas não é disso que estamos falando no momento. O fato (que não é o ato da procura – sdds Sandy) é que existe lá naquelas terras cariocas que recém descobri amar infinitamente uma banda que consegue encantar o meu coração como nenhuma outra. E isso acontece há cerca de quatro anos, quando ouvi “Montagem da Solidão” pela primeira vez, no final de um trabalho do meu irmão. Mário, seus amigos com bom gosto musical e a influência que isso tem sobre a minha pessoa.

Ok, “O Teatro Mágico” também é legal, mas não chega aos pés de “El Efecto”. Porque só eles conseguem unir instrumentos inusitados, vozes desgrenhadas de todos os instrumentistas em músicas com arranjos fenomenais e letras mais fenomenais ainda. Além de ser musicalmente fantástica, a banda tem a capacidade de ser engajada socialmente em um nível infinito, de disponibilizar todas as suas músicas integralmente em seu site, de conversar com seus fãs, de retratar a vida em versos simples e lindos e de não desistir de encantar o mundo com seu canto. Só que eles nunca vieram pra minha cidade, pelo menos não desde que os conheço. E jamais imaginei que o fariam, porque não parecem uma banda que tem muito dinheiro/que aceitaria um show cobrando ingressos a preços absurdos de seus fãs. Por isso sempre ficava de olho nas Viradas Culturais e nos outros eventos gratuitos para ver se, por um acaso, o secretário de cultura resolveu desbravar bandas inteligentes e trouxe pra essas terras. E nada disso nunca aconteceu.

Só que aí existe o MST, sim, o Movimento Sem Terra, essa coisa linda que sempre teve pedaços do meu coração, porque sempre os vi como gente que corre atrás de justiça e que depois que visitei um assentamento e experimentei o melhor feijão da minha vida, decidi amá-los para sempre. MST tem escolas em todos os assentamentos e eles fazem um festival de artes nelas e fazem espetáculos no dia de finalização. É claro que chamaram “O Teatro Mágico”, que mesmo estando cada vez menos engajado, jamais abandona a bandeira vermelha do movimento em seus shows. A surpresa, porém, foi que pouco depois de “El Efecto” finalmente ter anunciado um show de lançamento do novo cd, sendo pago, eles foram confirmados como atração também para este festival, que é de graça, em uma praça no centro da minha cidade. Hoje.

Desde que soube do evento, há duas semanas, conto os dias sem parar. Durmo e acordo re-ouvindo minhas músicas preferidas, tratando de decorar mais e mais letras e aumentando a emoção no meu coração porque, finalmente, eu vou em um show de uma banda que eu realmente me importo com! E de graça!!!!! Mário, eu, Liv, Douglas e Ju, que contamos os segundos para finalmente vê-los em nossa frente cantando as músicas que cansamos de gritar por aí durante quatro anos, vamos juntos e tem tudo para ser absurdamente fantástico. Mesmo com esse vento chato dessa cidade malvada.

Só que eu não me contento com o fato de eu estar feliz, gosto de ver meus coleguinhas felizes também. E por mais que eu morra de ciúmes das coisas que eu gosto de verdade, fico emputecida em saber que são poucas as pessoas que conhecem essa banda genial, assim sendo, resolvi elencar meus trechos preferidos e linkar cada um deles a um vídeo da música completa, porque eu já estou no clima do show, mas, assim, vocês precisam conhecer esses lindos!

“Admira o próprio carrasco, pois no fundo é ele quem você queria ser, pra pisar em todo mundo, inclusive naquele que no caso é você!”

“Sem ter razão pra rir, não vá fingir que tudo vai ser mais feliz”

“De deuses e demônios eu não quero nem saber. Escravizam sua mente incoerente. Vivendo em função de algo, ou de alguém. E eu e tu e eles e nós?! Marionetes de quem?!” “Demônios diferentes fazem a fé e a fé faz demônios diferentes fazem a fé e a fé faz” “Pare e pense naquilo que você faz, se isso te satisfaz, se foi você quem escolheu. Você ou eu?!” e “Bonde do evangélio tão querendo nos pegar! Eles vem de Kombi para nos catequizar!”

“Super-Conservador, conserve a sua dor, teu desprezo é frustração, metade macaco metade vegetação”

“Mas quem são eles? Quem somos nós? Será que nós é que são eles ou eles que somos nós? Mas quem são eles? Quem somos nós? Quanto de nós existe neles e quanto deles existirá em nós?” e “O que importam pra você? Quem se importa com você? Impor tantos importados… Impossível”

“Duas coisas bem distintas: Uma é o preço, outra é o valor. Quem não entende a diferença pouco saberá do amor, da vida, da dor, da glória”

“Pedras são sonhos na mão. Flores que brotam, brotam do chão. Se as pedras não voam os sonhos são em vão”

“Pra solucionar, fazer passar sua tristeza,Teo vai às compras. Compras que irão encher seu coração de amor e de ilusão”

“Quem tira o brilho da vida não é a cidade e sim seu jeito de robô sem espontaneidade. Pessoas só fazem o que já foi feito. Pessoas só repetem o que já foi dito” e “Na ruptura da rotina é onde se esconde a felicidade.”

“Qual violência será mais nociva? Te roubam a carteira e de mim roubam a vida. Enquanto isso você continua a levar sua vida costumeira” e “O canivete que o pivete mete contra o seu pescoço te obriga a ser mais generoso. Mas tu tem ódio e só olha pro próprio umbigo, só fala em justiça quando acontece contigo. Não vê que todos juntos somos parte de um todo, e se alguém tem muito é porque outro alguém tem pouco. Desfila na avenida e não percebe a agressão, a indiferença é a doença que apodrece o coração.” e “Olho por olho, dente por dente, a gente acaba cego, banguela e doente”

“A vida imita a arte, quem foi que me disse que não? Você merece um Oscar pela tua atuação. Difícil é distinguir o que é real do que é ficção.”

“O amor é meu, meu e não depende de ninguém. É claro que você me faz bem, mas o amor é meu” e “Eu sou um otário! angustiado! A minha meta é vaga, infelizmente não dão vaga para quem vive só sonhando! Flutuando pela ciclovia num mundo de sonho e fantasia”

“Eu quero mais é se foda, porque eu estou pouco me fudendo.” “Eu quero voar mundo à fora mas estou preso numa gaiola só me resta cantar…” e “Medo, angústia e depressão. O ódio tomou conta do meu coração”

Espero que o efeito de tudo isso seja tão bom ao vivo quanto é virtualmente.