Puzzle

Se minha vida tem um lema é o do não sufocamento. Nem é algo que inventei ou que me forcei a crer em, simplesmente aconteceu. Morar em quatro cidades diferentes até os dez anos e estudar em oito escolas diferentes até os doze fez de mim uma pessoa efêmera. Daquelas que passa pela vida das pessoas, mas raramente permanece.

Não sou de estabelecer laços fortes com os outros, sempre que vejo que me entreguei demais vou logo me afastando. A ideia de que alguém além de mim vai ter mais controle sobre a minha vida ou o meu ser do que eu mesma me angustia. E sim, eu sei que não tenho controle sob muitos aspectos da minha vida, seja porque devo obedecer à uma constituição, ou pelo simples fato de ter pais e morar com eles. Sempre gpstei de pensar como quiser e de poder agir por conta própria.

Minhas amizades mais duradouras contam agora sete anos e eu realmente não sei como ainda sou amiga de tais pessoas, a gente cresceu tanto, mudou tanto, mas passou por tanto junto que alcançamos um status quo de conhecimento mútuo e compreensão incapaz de desaparecer. Só que uma não manda na outra, não influi em nada na vida da outra, a gente conversa sobre o que quer quando quer e se vê quando dá, sabendo sempre que quando precisarmos a outra estará ali, sabendo que a gente se ama.

Acho que essa é a diferença: saber que se ama.

Porque quando a gente sabe que ama alguém não precisa ficar dizendo isso toda hora ou marcando presença na vida da pessoa o tempo inteiro, quando a gente tem uma importância mútua a relação torna-se tão necessária que o rompimento é praticamente impensável.

Eu sinto falta de me importar com pessoas novas. De conseguir imaginar um futuro distante em que nós estaremos comprando sabão em pó no supermercado e discutindo qual marca é mais eficaz.

Meus laços afetivos andam muito fracos. Não consigo mais criar um elo duradouro e eficaz. Começo tudo prevendo como será o fim e encaminho as ações para que esse fim de fato ocorra.

Por mais feliz e realizada que eu esteja com o efêmero, sinto falta da sensação de eternidade, do preenchimento que ela causa. Tudo anda muito superficial e eu me conheço o suficiente pra saber que uma hora o raso me cansa e quando não consigo mergulhar, simplesmente procuro outras águas. Sei que, querendo ou não, a história termina com eu reclamando por não saber me relacionar com pessoas.

Não consigo ser sincera ou permissiva. Não consigo abrir-me e permitir que os outros conheçam o meu todo. Apresento pequenas partes de mim para as pessoas e ninguém consegue juntar minhas peças. Sou um quebra-cabeça insolúvel. E sustentar todas essas máscaras me cansa as vezes. E eu queria que alguém me solucionasse e mostrasse a saída para este grande labirinto em que me encontro.

Outras vezes eu penso no quão legal deve ser a normalidade. Os anseios comuns. O desejar um namorado que vire seu marido e te dê filhos, um emprego de sucesso e uma casa de campo com cachorros no quintal e um belo jardim. Mas não consigo me imaginar presa a pessoas, empregos ou qualquer coisa. Sou aquele filho que cresce, vira pássaro, quer voar e não se contenta com uma gaiola, mesmo que seja grande.

Não quero uma vida comum, não quero ter pensar na minha vida, planejá-la, quero apenas deixá-la acontecer, dia após dia, como uma grande odisseia.

Prevejo anos de anseios, angústias, questionamentos, decepções, buscas, aceitações e peças e mais peças espalhadas em lugares indevidos à espera de alguém que se digne a juntá-las sem que se assuste demasiadamente.

Por que é que as pessoas não simplesmente dançam?

Cansada dessa vida repleta de gente séria demais que não sabe aproveitar a efemeridade das coisas.

Tap e Flap Aprovariam.

Eu vi um post parecido com esse lá no So Contagious, porque pra ser legal assim tinha que vir da Anna Vitória, né. E daí, como não sou nem um pouco boba, fui logo fotografar meus sapatos para imaginar o que eles diriam sobre mim, sim, isso mesmo.

Vamos lá!

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1 – Eu fui comprado na Renner. Na verdade minha dona queria que eu fosse vermelho, mas a mãe dela não deixou, daí foi eu mesmo. O que ela não sabia é que eu seria o tênis preferido dela. Acompanhei-a a quase todos os dias letivos do ensino médio, fui a vários na faculdade também, sem contar os cinemas, teatros, aulas de teatro, shows e todas as outras coisas. Sou velho, minha bunda está toda lascada, mas sei que minha dona jamais me abandonaria!

2 – Fui o sonho de consumo da Mayra por anos. Ela não gosta de ter coisas que todos têm, mas eu fui sua only exception. Em 2011 todos da sua turma de teatro tinham um igual a mim, menos ela, então, assim que ela conseguiu aval para um all star novo, sem a menor dúvida eu fui escolhido! O fato de eu nem ser mais tão branco assim só comprova o amor que recebo <3

3 – Eu fui inesperado. Cheguei a ela como presente-vaquinha em seu aniversário de dezesseis anos. Ela gosta de mim porque tenho morcegos desenhados, mas acha esquisito o fato de eles serem a única coisa branca em mim. Quase nunca sou usado porque costumo deixar todas as meias que me pisam completamente vermelhas…

100_3606Eu sou o mais internacional aqui. Conheço quatro países diferentes! Tudo graças ao fato de eu ser absurdamente confortável e quentinho. Impossível cogitar ver Mayra em um país frio sem eu ao seu lado! Mas não sirvo só para as viagens… Também sou eu o escudeiro fiel de suas idas quase frequentes à academia. Pois é, eu faço milagres.

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Sou nova nessa família, parte de um acordo da Mayra com a tia dela que coleciona botas, na qual todas as botas deverão ser dadas a ela. Fui uma das primeiras, tenho o cano curto e palmilhas reforçadíssimas, perfeita para um dia frio, mas que requer andanças. O que a Mayra mais gosta em mim são as costuras que ligam meu couro à minha sola!

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Sou conhecido aqui na sapateira como a “protetora dos pés da nossa dona”, afinal eu sou maior que eles, advenho de uma promoção de uma loja underground em NY e funciono perfeitamente quando o assunto é manter os pés aquecidos e secos durante os famosos temporais curitibanos! Toda vez que sou usada rendo mil elogios à minha dona, mas bem, esse é o poder do grafiti bem empregado, rs.

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Somos as fofinhas da família, eu fui presente de natal do ano passado, uma promoção bacanuda que estava tendo lá no interior de SP. Sou usada em ocasiões especiais porque solto purpurina por onde passo e nem sempre isso é legal. No começo machucávamos os pés de nossa dona, mas agora já entendemos que a missão da nossa vida é sermos pisoteadas. Minha companheira de bolinhas ali que o diga! Ela foi comprada para uma peça teatral, mas acabou tendo tantas outras finalidades que tornou-se tão tímida quanto seu design… Demos um desconto à pobre coitada, ok?

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1 – Sou muito versátil. Meio oxford, meio esportivo, perfeito para dias com clima instável. Causo bastante suor em dias de Sol excessivo e é por isso que sempre fujo de pés em dias assim! O record de coisas legais que presenciei ao lado da minha dona foi o prazer de ser o solado que apertou os pedais do carro no dia em que ela conseguiu sua carteira de motorista.

2 – Eu sou lindo. Sei disso. Raramente usado porque sou lindo e assim sendo não posso ser desgastado em momentos não especiais. Faço parte do time da meia estação, do sem meia, do suador, bem… do mesmo time do meu colega aí. Com a diferença de que eu sou lindo e ele não.

3 – Represento a antiguidade na sapateira. Isso porque meu design é muito parecido com o de sapatos da década de 90, mas juro que só tenho um ano! Posso ser usado sem meia ou com meia, mas geralmente acato a segunda opção. Gosto de dias frescos e meu auge foi o piquenique de véspera de vestibular no Jardim Botânico ano passado. Eu arrasei.

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1 – Eu sou o sapato barato que é utilizado em momentos de pressa e de calor extremo, em locais onde havaianas não seriam bem vistas. Costumava carregar uma flor em meu ventre, mas com as idas e vindas ao cinema do último verão ela esvaiu-se de minhas entranhas. Acontece com os melhores. Eu acho.

2 – Sou aquele que mamãe sempre achou horrível, mas que, graças a uma promoção, ganhou amor imediato. Sou confortável, com uma cor sóbrea e bonita e relembro os gladiadores de uma das épocas históricas mais amadas por minha dona! Fino e casual, tudo na medida certa, este sou eu.

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1 – Paz e Amor. Esse é o meu nome do meio. Sou florido e gracioso, mas a verdade é que fui comprado para ir a universidade. Lá faz calor quando está Sol e nada melhor para o calor do que uma coisa ventilada, bonita e confortável, como eu. Tenho uma cor linda e minha dona vive fazendo as roupas combinarem com a minha pessoa.

2 – Sou mais sofisticado, tenho até brilhinhos! O problema é que sou meio duro e assim sendo não sou eficaz para longas caminhadas, por esse motivo tenho sido meio evitado em prol de outros sapatos, mas há tempos e roupas que obrigam o meu uso. A verdade é que eu gostaria de me aposentar. Estou cansado de tanta poluição em meu nariz.

100_3613Representamos o glamour da família. Na verdade, eu fui o primeiro salto da Mayra, comprado nas vésperas de sua primeira festa de quinze anos porque no convite dizia “passeio completo” e isso significava salto. Devo ter menos de 5cm, mas a verdade é que só sou usado quando realmente necessário. Meu amigo dourado aí segue o mesmo esquema, com a diferença que advem de uma loja cara, presente de “mocinha” das tias da dona, usado para uma festa de 15 anos também. O salto dele é ainda mais baixo do que o meu, mas fora isso seguimos os mesmos padrões.

100_3614Sou o queridinho. Presenciei os melhores aniversários da dona, a primeira balada da vida dela e diversas outras festas e ocasiões especiais. O salto mais confortável. Aquele que lembra a Minnie, enfim, o mais fofo de todos. Sou muito muito muito amado e, embora raramente usado, meu cheiro de Melissa já sumiu! Não vejo a hora de sentir o cheiro bom do pé da minha dona novamente!

100_3615Sou o aquecedor caseiro dela. Ela não gosta de meias em casa, e é para isso que eu sirvo. Com meu design holandês arrojado e minha combinância para com seu poncho favorito sou peça chave nos invernos . Lindo, charmoso e quentinho, este sou eu.

Somos Tap e Flap e achamos que você também deveria deixar seus sapatos falarem!

É isso que acontece com a sua cabeça quando você estuda Antropologia dos Objetos por muito tempo e começa a se questionar sobre o que aconteceria se os objetos pudessem falar. Bem, é por isso que eu sempre gostei de Castelo Rá-Tim-Bum. Ah! Tem nova vídeo-resenha, confiram!

Não Preciso Disso pra Ser Feliz.

Nem pra me sentir completa.

Isso tudo é uma piada. A vida é uma grande piada, contada, diversas vezes, por péssimos piadistas que nos fazem rir só porque chorar na frente deles seria deplorável. A verdade é que o mundo só caminha quando passamos a dotar a ele algum tipo de sentido, não importa qual seja. Tem gente que quer ser feliz, outros querem mudar o mundo, outros querem apenas existir sem que ninguém os incomode, outros não querem nada, mas todos perdem tempo pensando em qual sentido esperam que o mundo e a vida em geral tenha para eles. E eu não me importo com o que as pessoas querem, só fico triste quando percebo que o que as motiva a querer as coisas são coisas com as quais não concordo. E eu sei que eu não deveria me importar que eu não deveria ficar indignada com as diferenças, mas sim aceitá-las, mas, bem, isso é difícil.

Porque desde que eu nasci me disseram que eu deveria viver em busca de uma coisa chamada “felicidade” e eu nunca soube ao certo o que é isso, mas todas as vezes em que senti meu estômago borboletear após algo bom ter acontecido em minha vida, denominei que tive um momento de felicidade. Aos poucos percebi que viver na felicidade é algo que não existe, aprendi que é apenas uma palavra, como todas as outras, uma palavra que tenta simbolizar um sentimento irreal. Ou real por apenas poucos segundos. E isso foi terrível. Porque ver sentido na música de natal que diz “papai Noel, vê se você tem a felicidade pra você me dar/ já faz tempo que eu pedi, mas o meu papai Noel não vem, com certeza já morreu ou então felicidade é brinquedo que não tem” é algo absurdamente absurdo. E todas as vezes que me pego refletindo abruptamente sobre temas que ninguém se importa lembro-me de meu primo assistindo a Clube da Luta e comentando só e unicamente “as cenas de ação são massa, mas esse cara é muito pilhado” e penso que, bem, eu sou muito “pilhada”, o que quer que isso queira dizer. Porque eu simplesmente não consigo engolir determinadas situações sem que isso gere em mim uma reação em cadeia de pensamentos terríveis que, na maioria das vezes, resultam ou em textos chatos, ou em eu descontando minhas neuras em gente nada a ver. Já descontei as neuras hoje, mas não foi suficiente. Precisava fazer um texto.

Eu tinha cinco anos quando disseram que eu tinha casado. Estava sendo daminha do casamento do meu primo, junto com o irmão da esposa dele e disseram que a gente se casou junto com eles. Acreditamos e passamos a noite dançando junto, como os noivos estavam fazendo e depois saímos dizendo que nos amávamos, pois era o que os noivos fizeram. Com seis anos todas as meninas da sala se reuniram e disseram que gostavam cada uma de um fulano, eu tive que arranjar o meu, caso contrário ficaria sem amigas. Com oito anos, os pretendentes eram outros e tínhamos passado a ser mais seletivas. Perdi-me no tempo e consegui sobreviver sem adentrar-me nesse meio torturante em que eu tinha que fingir interesse por um menino idiota só por ser bonito para ter amigas e de repente estava com catorze anos, todas as minhas novas amigas já tinham beijado algum garoto e as conversas em suma maioria eram sobre eles. E eu adentrava mesmo sem ter nenhuma experiência, só porque sempre gostei de meter o bedelho na vida alheia. E eu completei quinze anos e não ganhava mais tantos presentes de aniversário, a maioria das pessoas terminava o cumprimento com “um bom namorado”. Com dezesseis terminavam o cumprimento com “e muitos gatinhos”. Com dezessete davam três beijinhos que era “pra casar” e com dezoito faziam tudo ou diziam “nem adianta desejar essas coisas mais, né?” e eu nunca soube o que fazer nessas situações, na verdade, nunca sequer compreendi as razões para que elas existam.

Atualmente toda semana eu tenho que escutar alguém elencando motivos para que eu arranje um namorado, explicando seriamente sobre o quão a vida melhora quando isso acontece “você se frustra menos”, “beijar é bom”, “é bom ser amado” e tudo que eu consigo pensar é que eu consigo todo o amor que necessito com a minha mãe e meu pai e não estou interessada em procurar mais um ser para esse fim. E tudo que eu consigo pensar é em dizer, ”Por favor, vá cuidar da sua vida”, mas sei que meus pais ficariam chateados com a “falta de educação” e então fico calada. Porque a coisa é tão absurda que a falta de educação não é em meter o bedelho na vida alheia, mas sim em reclamar que estejam fazendo isso, porque “eles falam para o seu bem”. Quem foi o burro que disse um dia que isso seria para o meu bem?

Tenho apenas dezoito anos, mas já estou morta de cansada de rir das piadas engraçadas da vida e de fingir que estou rindo das tristes. Estou morta de cansada dessa gente que tira não sei da onde que a vida ideal é morar numa casa com quintal, ter cachorros, um marido rico e bonito e mil filhos. Não que tenha algo errado em pensar assim, o errado, sob o meu ponto de vista, consta no fato de a pessoa achar seu pensamento tão certo a ponto de tentar implantá-lo na vida de todos os outros seres que encontra. Porque eu não concordo com nada disso, mas só tenho coragem de abrir a boca em situações como esta quando sei que o interlocutor vai entender e não vai apenas dizer “ai, essa aí é uma louca que ainda acredita que pode mudar o mundo” porque, eu não acredito que eu vá mudar o mundo, minha gente! Eu só não concordo com as linhas de pensamento tradicionais e prezo pelo meu direito a ser livre para pensar e agir de acordo com o que eu bem entender! Porque eu nunca cheguei pra uma garota e disse “pare de se sujeitar a essa teoria abrupta de que você precisa estar apaixonada e ter um namorado lindo aos 15 anos para ter um futuro perfeito” eu simplesmente deixei de acreditar nisso e comecei a viver melhor comigo mesma.

Porque não há nada de errado em não querer que sua vida dependa da vida de outra pessoa. Em não querer ter um namorado só porque a sociedade lhe impõe que é o certo a fazer. Em acreditar no amor em pleno século XXI. Em tentar descobrir maneiras cada vez melhores de viver e aproveitar bem a vida, independentemente de qual linha filosófica você tenha que seguir para isso. Não há nada de errado em ser quem se é, independente se é loiro, moreno, careca, cabeludo, rei, ladrão, polícia ou capitão! Todos têm as mesmas chances e probabilidades de conseguirem o que querem da vida e até mesmo de decidirem que não querem nada! E eu não luto pela minha felicidade e os outros que se danem e não luto pela felicidade dos outros e eu que me dane, eu não luto por nada! Apenas tenho o singelo desejo de que possamos respeitar, de fato, uns aos outros e parar com essa babaquice de acreditar que a vida fácil, ou que é passada para nós como fácil, como tradicional e, diversas vezes, como certa, seja de fato a mais fácil, tradicional e certa. Meu desejo é apenas que cada um tenha a capacidade de descobrir o que é melhor para si mesmo, sem tentar impor isso a nenhum outro. É que deixem as garotas que não querem namorar ou que anseiam desesperadamente por isso, mas por algum motivo não conseguem, em paz e ao mesmo tempo em que deixem em paz a que começou a namorar aos onze anos. Eu só queria que todo mundo vivesse a vida em paz. Tanto consigo quanto com os outros. Sem essas pressões abruptas e toscas que uma sociedade e uma cultura de loucos vive nos impondo!

Eu só queria poder morrer virgem aos 110 anos sem ter que ouvir toda semana algum panaca me dizendo que eu deveria estar namorando. Porque, mesmo que a felicidade esteja em falta, seja rara e uma palavra infeliz, é possível alcançá-la sem ter um homem nas costas – ou em qualquer outro lugar do corpo.

Desculpem-me, eu precisava desabafar.

Traíra

Quando se é criança é comum que seus colegas de classe achem uma palavra que rime com seu nome e te chamem dela. Nunca acharam uma palavra que rimasse com o meu. Nunca até a quinta série. Na quinta série eu enforquei a minha melhor amiga e comecei a falar mal dela pro mundo inteiro – porque ela realmente era uma falsa e eu odeio gente falsa, né. Então descobriram que meu nome rimava com uma palavra e desde então virei “Mayra Traíra”. Lógico que eu mudei de escola depois disso e tentei melhorar os meus nervos. Na sexta série bati em um menino porque ele era bobo e ficava puxando o meu cabelo e ai como eu me irrito com quem mexe no meu cabelo. Bem no estilo Blair Waldorf mesmo. Só namorados, mãe, pai, amigos e cabeleireiros podem encostar no meu cabelo. Isso sem contar que na segunda série eu fiz a sala inteira se reunir pra bater em um menino, porque ele dava flores pra minha amiga e ela gostava era do irmão dele. O sentido da história eu não sei, só lembro de estarmos na rua, ele no chão e a gente chutando o coitado. Então a diretora estava a caminho e todos foram embora, restando apenas eu e ele. Ajudei-o a levantar e disse que se ele contasse pra diretora apanharia mais. E ele nunca contou. E eu acho engraçado lembrar essas coisas porque não parecem ser o tipo de coisa que eu faria, mas, bem, eu fiz.

A Mayra Traíra evoluiu e não bate em alguém há um bom tempo, ela aprendeu que há outras maneiras de magoar as pessoas e virou mestre absoluta nelas. Mayra Traíra magoava as pessoas falando a verdade, sem medo, ou pelo menos o que ela achava que era verdade. A mágoa afastou muitas pessoas dela. Foi assim que Mayra Traíra traiu 90% de seus amigos, falando vedades deles para os outros e mentiras dos outros para eles, criando intrigas, fazendo drama – ah sim! Ela era a rainha do drama! – ficando “de mal” e afastando-se. Sempre com o lema de que é melhor estar só do que mal acompanhada. Um dia ela se apaixonou e até esse amor ela foi capaz de trair! Não com outro, com ela mesma. Porque no fim das contas, já deu pra entender que de normal essa pessoa não tem nada. Mayra traiu diversos movimentos aos quais disse um dia fazer parte. Diversos gostos. Noções e pensamentos.

Até que um dia resolveu-se adentrar em um universo que muito lhe apetecia. Ela gostava dele desde que tinha três anos de idade e tinha presenciado pela primeira vez. Nunca se imaginou no lugar, mas naquela altura do campeonato, resolveu arriscar. E ela amou. Ela brincou. Ela sorriu. Ela viveu e foi capaz de acreditar que nascera para aquilo, que sua vida deveria ser escrita com as linhas daquela história. E ela abandonava tudo para passar mais um tempo ali e esqueceu-se de estudar, desistiu de entender as matérias que não gostava, para ela tudo estava bem porque ela tinha aquele grande amor movendo-a, nada mais era necessário.

Hoje a Mayra Traíra cresceu. Ela ainda tem suas recaídas. Ainda faz alguns dramas, embora com menor intensidade e frequência. Magoa menos pessoas. Confia em menos pessoas. Ama menos pessoas. Acredita em menos pessoas e se esforça por menos pessoas. Hoje ela tenta pensar no hoje, nela, mais nela do que nos outros, por mais que isso a machuque. Hoje ela desistiu de fazer justiça com as próprias mãos e só se sente apta a bater em alguém em uma aula de boxe, e olhe lá. Hoje as armas dela são outras e em diversos casos nem existem. Hoje ela traiu o maior amor da sua vida e jurou para si mesma que seria a última vez. Acordou, não sentia mais nada e resolveu abandoná-lo. Porque ela é assim, sincera com seus sentimentos, quando eles somem, ela não vê razão para continuar ali. Ela é assim, ama alucinadamente em um dia e no outro acorda sem sentir nada. E não é anormal por isso, tendo em vista que muitas das pessoas que conhece afirma que é assim que o amor acaba mesmo. Você acorda e ele sumiu. Puft. Já era. Perdeu-se na infinitude do mundo.

Hoje Mayra não quer trair mais nada, nem ninguém. Tem certeza de que as pessoas que a cercam o fazem por boas razões e que em muitas delas ela pode confiar de olhos vendados. Ela não quer que seu nome rime com mais nada, porque ele é tão único quanto ela. Tão incomparável quanto. Ela sabe que tudo que fez quando era criança foi válido, pois construiu seu caráter e que é sempre bom jogar os nervos para fora, mas que a gente deve tomar cuidado com as pessoas que magoa. Ela aprendeu que não gosta de magoar pessoas, que não quer magoar pessoas. E que seu novo lema de vida é o amor.

Adeus Traíra, você me proporcionou altas aventuras, mas já deu o que tinha que dar.

Sujos

Eu sempre fui uma crítica nata de cinema brasileiro, daquelas que acha um absurdo o fato de o país ser capaz de produzir novelas decentemente e ser uma lástima na produção de filmes. A que acha ridículo o fato de não existirem grandes produtoras no país e tudo depender da Globo, da Ancine, de patrocinadores externos e da boa vontade do governo. E eu sei que os filmes alternativos são maravilhosos, sei que o festival de Gramado é cheio de preciosidades, mas sei também que os filmes que chegam em cartaz à grande massa de cinemas sempre são com atores globais famosos e um roteiro plenamente tosco, uma comédia idiota que envolva traição e sexo, de preferência. E eu sempre achei isso um absurdo.

Meu filme brasileiro preferido de todos os tempos é Olga. Porque eu adoro coisas relacionadas com a segunda guerra e gosto de ver as repercussões dela no Brasil. Moram em um bom lugar em meu coração os já clássicos “Auto da Compadecida”, “Lisbela e o Prisioneiro”, “Tropa de Elite” e o recém queridinho “Xingu”. Eu adoro quando o Brasil resolve fazer filmes sobre sua cultura ou para criticar algo que existe e não deveria. Adoro quando o Brasil mostra a sua raça na indústria cinematográfica e morro de vergonha quando lançam algo horroroso, como “As aventuras de Agamenon: O repórter”, por exemplo, que é, sem dúvidas, o pior filme que eu já vi na minha vida. E eu já vi muitos filmes. Já vi muitos filmes ruins.

Mas acima de tudo, o que mais me irrita é o fato de o Brasil e o brasileiro não glorificar seu cinema simplesmente porque os filmes famosos e populares em suma maioria são terríveis. Há diretores fantásticos que nasceram no Brasil e foram trabalhar nos EUA como o Fernando Meirelles e o Walter Salles, por exemplo. Eles podem até fazer filmes por aqui, mas trabalham lá fora e eles são fantásticos. Provas disso são os filmes “A Cegueira” e “Na Estrada” – que tem um roteiro péssimo, mas a direção do filme é fantástica.

Eu não entendo como é que o Brasil é capaz de ter bons atores, boa infra estrutura, bons diretores, boa equipe e ainda assim fazerem péssimos filmes! Ou os roteiristas são terríveis ou os produtores realmente creem que a população gosta de assistir porcaria. Eu sempre tive muito preconceito com filme brasileiro a ponto de prometer a mim mesma que jamais pagaria para assistir um no cinema, mas só nesse ano já fui quatro vezes e esse texto é sobre a última.

Porque hoje eu vi um filme fantástico, denso, muito bem feito, com filmagens maravilhosas, efeitos de câmera que eu nunca tinha visto, atuação e direção maravilhosas e, principalmente, um roteiro impecável. Assisti a “Corações Sujos”, um filme brasileiro com elenco japonês que, por isso, é legendado. Ele é dirigido por brasileiro, baseado em um livro brasileiro, mas basicamente inteiro falado em japonês e isso é muito bonito e interessante. É um filme denso e sincero que conta sobre guerras que costumavam ocorrer nas colônias japonesas de São Paulo logo depois do fim da segunda guerra, pois as famílias não queriam crer que o Japão havia perdido. O filme explora a honra do povo, questiona os costumes, nos conta uma história esplêndida sobre uma época e uma colônia que muito sofreu e que muito tem a nos contar. Foi um filme maravilhoso que me prendeu em todos os segundos e não me deixou com vontade de ir embora nunca, pelo contrário, me fez querer entrar lá e ajudar os personagens e me fez querer ajudar a bater em alguns também.

Achei incrível porque na minha cabeça filme brasileiro era em português e esse não foi e mesmo assim foi tão belo e sucinto que me deixou plenamente orgulhosa por ter nascido e crescido num país que pode sim cometer suas burradas, suas muitas burradas, mas mesmo com o déficit de valor para a cultura, mesmo com a falta de uma super produtora nacional além-globo, é capaz de fazer algo digno, não marketeiro e plenamente interessante. Hoje eu tenho o orgulho de dizer que dos 4 filmes brasileiros que vi no cinema este ano, somente um foi de meu desagrado. Tenho o orgulho de dizer que estamos evoluindo, que em breve conseguiremos manter um ator bom como o Rodrigo Santoro aqui para sempre, pois ele não precisará ir para outro país para ter sucesso. Em breve teremos filmes participando de grandes festivais e em breve, caros senhores, as pequenas produções serão tão reconhecidas e valorizadas quanto as grandes.

Em breve, nosso cinema será plenamente limpo e eu não morrerei até que esse meu sonho se realize.