Kriptonita

Eu nunca fui uma pessoa estudiosa e isso sempre atormentou a minha mãe, que tinha na cabeça que eu era a criança mais inteligente do mundo e se estudasse seria uma adulta de extrema importância para o universo. Nunca vi necessidade em estudar, sempre consegui acompanhar a escola sem o menor esforço. Sempre fui uma das mais bagunceiras da sala, que ia pra diretoria quase toda semana por ter feito alguma arte, mas que nunca levava suspensões ou afins porque todas as notas eram em torno de nove.

Aí eu cresci e a gente veio morar em Curitiba e minha tia resolveu que precisava investir na minha inteligência e ia pagar uma escola particular. E eu continuei sem estudar e indo bem, mas detestava a escola porque as pessoas eram péssimas e eu era inocente e boazinha demais pra ficar naquele mar de meninas malvadas. Então rebelei-me e bati na minha “melhor amiga” e fui pra diretoria e minha mãe nunca soube, porque consegui contornar a diretora, mas meu coração ficou em pedaços, porque eu podia ser a pessoa mais pra frentex do mundo, mas estava fora de cogitação essa coisa de decepcionar minha mãe. Então pedi pra mudar de escola e voltei pra escola pública. E voltei a ser inteligente, a não precisar me esforçar e a ter coleguinhas que me compreendiam e não despertavam em mim meu espírito rebelde maligno.

Só que minha família não tem jeito mesmo e resolveram que iam realizar meu sonho, que era estudar na escola aparentemente mais legal da cidade – e consequentemente mais cara. Minha tia entrou em ação novamente como benfeitora e lá fui eu, morrendo de medo de finalmente ter que começar a estudar pra acompanhar algo. E eu não precisei. Nos primeiros anos minhas notas mantiveram-se acima de nove, exceto pelo 8,5 em geografia, que na oitava série era minha matéria mais odiada. Então chegou o ensino médio e eu estava cansada de ter que rever tudo aquilo que já tinha estudado e desencanei e as notas despencaram, mas continuei sem me esforçar e ainda assim passei em tudo.

Minha filosofia de vida sempre foi a de que a gente não deve “estudar para prova”, porque a prova serve pra testar se a gente aprendeu algo, então se a gente tiver aprendido, na hora da prova vai saber! Só que, claro, esse método só funciona se a gente não dormir nas aulas e se esforçar ao máximo pra prestar atenção. E eu sempre fiz isso, muito bem por sinal. Sempre fui aquela aluna que senta nas primeiras carteiras e que acena com a cabeça a cada frase compreendida, enquanto faz anotações que só a mim fazem sentido e faço comentários sobre a matéria em voz alta, mas na intensidade mais baixa possível, e sempre acabava sendo ouvida pelos professores e passando vergonha. E eu sempre me ferrei na vida por aprender somente aquilo considerado inútil para o grande povo.

É claro que eu não queria saber como funcionava um circuito elétrico, mas era tão interessante entender como faz pra acender duas lâmpadas com um só interruptor que bastava eu olhar a matéria sob esta perspectiva que ela acabava por fazer sentido para mim. E eis que eu, sem nunca ter pego em nenhuma das apostilas de exercício que no terceiro ano custaram cerca de mil reais para o bolso da minha pobre mãe que sempre sonhou com uma filha esforçada e inteligente, acabei por passar no curso que eu quis, do jeito que eu quis e acabei comprovando que minha filosofia de vida de fato funciona.

Faz dois anos que não encosto em um livro de matemática, física, química, geografia ou numa gramática ou um livro de história literária. Eu ainda sei a fórmula de baskhara e diversas outras formas de geometria de sólidos, além de saber usá-las, claro. Sei também muita coisa de álgebra e os conceitos daquelas chatíssimas funções, essas eu não sei usar  – e por isso quase reprovei em estatística – mas sei sua fórmula base e sei a diferença entre uma função exponencial e uma de segundo grau, por exemplo. Sei muita coisa sobre circuitos elétricos e sobre espelhos e óptica, mas não ousem me perguntar algo sobre mecânica, porque eu nunca vi sentido em alguém se pesar dentro de um elevador. Sei várias peculiaridades dos prótons, neutrons e elétrons, mas gosto mesmo é da química orgânica, com seus etanóis e afins que por mais que eu não lembre como escrevê-los, se me derem uma fórmula as chances de eu saber nomeá-la são muitas. Geografia tornou-se uma das minhas matérias preferidas no ensino médio e é claro que eu sei sobre o relevo e sobre a localização dos países, estados e capitais, além de saber um pouco sobre as pirâmides etárias e as rotações planetárias, já até tentei fazer um calendário para Marte! Até hoje recordo-me também dos períodos da literatura e quando escuto o nome de algum dos autores que meu professor trabalhava, sei de qual período faz parte e sua principal obra. Ainda sou apaixonada pelos ultra-românticos e nunca esquecer-me-ei da morte demoradíssima do sr. Werther. De biologia, confesso, só lembro das aulas de sistema reprodutor, o resto é um borrão em minha cabeça e a parte menos inebriada é a que consta a lei de mendel, porque por causa dela eu quase reprovei o segundo ano.

No entanto, minha mais amada é e sempre foi a gramática. O livro mágico que entrei em contato pela primeira vez com seis anos, quando mamãe dava aula de reforço para eu e minhas coleguinhas, na cozinha da nossa casa. A gramática apresentou a mim um mundo mágico em que há diversas regras para uma coisa simples, como escrever. E eu sou eternamente apaixonada por ela. Enquanto todas as pessoas  a desconsideravam porque “não cai no vestibular”, era uma das poucas matérias que me fazia chegar em casa e ter vontade de fazer o dever. De decorar todos os pronomes do mundo e suas utilizações. De fazer inúmeras tabelas coloridas para que eu nunca esquecesse as formas de orações subordinadas existentes e seus usos. É claro que tudo isso é culpa do professor da oitava série, que dava bombons pros melhores alunos e também do professor do ensino médio, que era completamente assustador e que eu adorava surpreender com minha tradicional nota máxima em sua prova, enquanto todo mundo errava uma ou outra coisa e enquanto ele duvidava da minha capacidade, porque tudo que eu fazia era conversar. Eu sei que cometo muitos erros gramaticais e que hoje não tenho todas as regras claras em minha mente. Sei que nunca consegui aprender quando uso “mal” ou “mau” e sempre tenho que parar e pensar por uns trinta segundos antes de me decidir. Sei que não sei usar pontuações, que escrevo repetitivamente e que meus textos acadêmicos são deploráveis, mas… Ai como eu amo a gramática. Ai como dói o coração e a alma ler coisas com erros grotescos. Ai como dá orgulho em terminar de ler algo e não ter me deparado com nenhum erro. Gramática é aquela coisa que eu tenho vontade de morder, comer, engolir, carregar em mim pra sempre e nunca esquecer da existência.

Eis que eu, com 19 anos e depois de dois de faculdade, muito mal aproveitados porque lá não se esforçar não funciona, mas eu meio que desisti de tentar me esforçar, porque não faz parte de mim. Eis que depois de ter tirado as maiores notas no meu curso em matérias de história ao invés de matérias do meu próprio curso, porque supostamente história é e sempre foi a matéria da minha vida, descubro que mesmo eu sabendo detalhes sórdidos sobre a história mundial e do Brasil, mesmo lembrando como se fosse ontem das frases de efeito que meus professores não cansavam de usar e mesmo sabendo que eu queria muito poder viajar no tempo para ver com meus próprios olhos como o mundo funcionava em seus diferentes períodos… Eis que eu tenho uma epifania surgida do além e descubro que a matéria da minha vida é gramática. Que nada nunca vai me excitar mais do que fazer uma análise sintática, uma conjugação verbal ou simplesmente relembrar a época em que eu estudava as formações de palavras, suas desinências linguísticas, a formação de frases e ai. Gramática. Aí está minha kriptonita do universo nerd.

{É claro que continuo te amando, antropologia linda.}

“Ai, por que você não estuda letras então, se ama a gramática tanto assim?” Tem coisas que a gente deixa só no hobby, se não estraga.

Coisas que só o tempo faz…

Estava fazendo uma “limpa” no meu quarto e resolvi rasgar todos os papéis inúteis que certamente haveriam pelo caminho, me deparei então com meus cadernos da oitava série (2008), do primeiro ano (2009) e do segundo ano (2010)  e resolvi rasgar todas as folhas usadas, todas as provas, tudo. Mas tenho mania de escrever nas divisórias, escrever coisas sobre mim, escola, amigos, qualquer coisa que vier na cabeça e foi assim que comecei a perceber uma gigante diferença entre os três anos.

Em 2008 “Preciso tirar 8,5 na média final de matemática, se não serei oficialmente burra na matéria. Vocês podem achar que sou dura demais comigo mesma, mas pra mim quem tira menos de 8,5 na média FINAL é definitivamente burro na matéria.” – média final – 8,7

Em 2009 “GEENNTEEE Preciso de 4,8 pra passar em matemática e só falta um bimestre! Socorro!!!” – média final – 6,2

Em 2010 “PQP tô no último bimestre e preciso de ~~6,8~~ pra passar de ano em matemática!! Totalmente ferrada!!! HELPP!!” -média final – 5,8

Okeis, depois da recuperação subiu pra 7,8, mas mesmassim.

Em 2008 eu era “burra” em 2 de 10 matérias.

Em 2009 em 8 de 13 matérias.

Em 2010 em 9 de 13 matérias.

Em 2008 eu tinha hora cronometrada no pc, fazia as tarefas de casa, estudava muito para as provas e tinha aflição só de imaginar que ficaria em alguma recuperação algum dia.

Em 2009 eu só fazia as tarefas quando tava afim, estudava só pras provas que gostava ou quando tava muito ferrada, dormia em várias aulas e achava recuperação digno de mim.

Em 2010 acho que só fiz tarefa de casa uma vez e olha lá. Quando valia nota, eu copiava as tarefas. Não estudei pra nenhuma prova, até me ferrar o suficiente para ser obrigada a fazer isso, tava pouco me lixando pras minhas notas, desde que eu passasse de ano. Sabia o livro de história praticamente inteiro de cor. Passava o dia inteiro no computador, fazendo sabe-se lá o que e quando não estava no computador estava dormindo. Uma completa vagabunda. Achei um absurdo ter ficado de recuperação final, pois “não mereci”.

Em 2008 “Gosto mais das minhas amigas do que da minha família!”

Em 2009 “Amigas? Tenho amigas? Acho que não.” -muda de sala-

Em 2010 “Quem precisa de amigas na escola quando se tem a minha família e o teatro?”

Descrição de mim em 2008 “Sou muito estranha e assustadora, falo demais e sem pensar, por isso as vezes sou grossa e ofendo pessoas que não merecem. Me irrito facilmente, por qualquer coisa e em qualquer lugar, quando estou irritada tendo a bater nas pessoas, mesmo que elas não tenham nada a ver com a minha irritação. Belisco também! E dizem que dói! Bom… Estou tentando parar de fazer essas coisas, mas sempre faço e só depois me dou conta que falhei de novo, ainda bem que tenho amigas que me ajudam a não ser mais assim, porque deve ser legal ser uma pessoa legal! Também tenho algumas qualidades,  sou legal, divertida, confiável e surpreendente! Admiro pessoas sinceras e que sabem guardar segredos. Sou viciada em comer chocolate e ver filmes. Sou extremamente fresca com comidas e só tomo água, não gosto das coisas, mas nunca as experimentei.”

Em 2009 “Sou muito estranha e assustadora. Ninguém no mundo me entende, parece que sou uma alienígena jogada aqui para algum tipo de experiência. Sou uma droga com sentimentos, não sei o que eles significam. Não tenho amigas, sou completamente sozinha. Sou irritante e irritável. Bato em quem me provoca, mas na maioria das vezes reprimo minha raiva e desconto em mim mesma. Qualidades? Gostaria de saber se tenho alguma, mas não tem ninguém para me falar. Admiro pessoas felizes e que são amadas. Sou viciada em comer chocolate e ficar na internet boiando. Sou fresca com comidas, mas acho que um dia isso passará.”

Em 2010 “Sou absolutamente normal. Igual a todos os idiotas jogados aqui na Terra. Tá, talvez eu tenha algumas individualidades, mas garanto que são poucas. Tenho poucos amigos, mas eles bastam. Estou quase conseguindo entender os sentimentos, mas acho legal a dúvida que eles causam na gente. Nunca bato em ninguém, só encosto nas pessoas depois que as conheço por um bom tempo e se eu bato nelas não é por raiva, é por impulso, mas nunca dói. Sou nutrida de força interior, mas exteriormente sou uma magrela fraca que não consegue nem carregar a mochila sem ficar corcunda. Admiro pessoas realizadas e que são apaixonadas pelo que fazem. Sou viciada em Tumblr, Twitter, Harry Potter, MSN, chocolate e algumas pessoas. Não me preocupo nem um pouco com a minha alimentação, se sobrevivi até agora assim, sobreviverei por muito tempo ainda.”

Em 2008 eu ia ao psicólogo porque… me achava burra e ficava muito brava comigo quando tirava 9,0 ao invés de 10,0.

Em 2009 porque queria morrer a qualquer custo, não importava quem fosse o assassino ou a arma utilizada.

Em 2010… Não fui ao psicólogo.

Em 2008 “Eu AMO a escola!!! Queria morar aqui se pudesse! É tudo tão perfeito e maravilhoso nessa escola! Fins de semana e férias são um SACO! Por que eles existem?”

Em 2009 “Odeio a maldita escola. Pra que tenho que ir até lá? Não podia estudar em casa e ir lá só fazer as provas? Escola é tão chato. Todas aquelas pessoas que se odeiam e odeiam estar lá, fingindo estarem felizes e enganando a si mesmas, com a intenção de aprender algo, sendo que na verdade só decoram as coisas para ir bem nas provas. Pra que ir bem nas provas? São apenas números! Fodam-se os números. Para que estudar todas aquelas coisas inúteis? PRA QUE? Queria simplesmente poder não ir pra escola.”

Em 2010 “Adoro a escola! Minha turma é HILÁRIA! Eu posso estar extremamente triste, que eles conseguem me fazer feliz! Mesmo aprendendo um bocado de coisas inúteis, é divertido ir pra lá. Mesmo não tendo os melhores amigos do mundo lá, é legal conhecer pessoas novas e usufruir do convívio social que a escola proporciona. As notas são apenas números e o sistema de avaliação é extremamente precário então… É só não ligar pra ele e fazer uma auto-avaliação sempre. Aprenda tudo que achar necessário e divirta-se nas outras aulas! Odeio as férias, porque me sinto sozinha e sem graça, mas me canso quanto chega na metade do semestre. Acho que as férias poderiam ser mais curtas e mais frequentes! Sei lá, duas semanas por bimestre, talvez… Enfim.”

Matérias preferidas em 2008: Matemática e História

Em 2009: Filosofia e Geografia.

Em 2010: História, Sociologia, Geografia e Química.

Se essas três Mayras se encontrassem, certamente haveria discussão. Como é possível haver coisas tão diferentes em tão pouco tempo? Como é possível que a gente mude tanto, mesmo sem se esforçar para isso?

Vocês acham que eu regredi ou evoluí?

O tempo é surpreendente, não é mesmo? Quem diria que aquela nerdizinha retardada de 2008 viraria essa rebelde folgada que vos fala hoje? Nós nunca sabemos o que está para acontecer, por isso apenas devemos nos esforçar para fazer o melhor possível. Devemos viver da melhor maneira possível.

O que me aguarda em 2011?