Relato de Férias

Tirei Dezembro como mês de férias. Bem, tecnicamente minhas férias vão até o final de Fevereiro, mas não posso me dar ao luxo de ser flanêur até lá. Um mês de vida própria há de ser suficiente. A decisão de surrupiar minhas próprias férias não é feita por auto-sabotagem, mas sim uma decisão visionária. Se eu utilizar o tempo de férias para adiantar as obrigações da monografia, talvez sofra com menos intensidade no próximo final de semestre. É um bom objetivo de vida. Um objetivo plausível, pelo menos. Não pretendo passar pelo sufoco agoniante que passei nos últimos meses. É por causa deles que decidi tirar essas férias. Precisava relaxar.

Não vou viajar. Isso me entristece porque nada me apeteceria mais do que um banho de natureza. Um lugar deserto, com água por perto. Cachoeira, lagoa, rio, mar… tanto faz. Só queria uma rede, brisa, bons livros, cachorros, comida e um sol agradável. Ao invés disso tenho meu quarto. E muitos livros não lidos na estante, na escrivaninha, no e-reader e, se quiser, tem mais nas livrarias e bibliotecas por aí. Ao contrário da visão paradisíaca que eu desejava, tenho meu quarto. Ele tem uns cinco metros quadrados, se muito. É inteiramente branco, com uma cama que ocupa mais de um terço do espaço, o que é ótimo. Passo a manhã encalorada dormindo sabiamente. Acordo no meio da tarde, esquento as sobras do almoço e como assistindo um pedaço da Sessão da Tarde do dia. Dou um alô para os outros habitantes da casa e vou, de fininho, para o meu quarto. Passo o resto do dia e grande parte da noite e da madrugada (meus momentos preferidos) no maravilhoso revezamento entre os livros, a internet e os cochilos. Nas horas que a fome aperta, levanto para outros lanchinhos. Em alguns dias vejo pedaços de novelas com a minha mãe. Em outros vejo filmes inteiros no netflix ou alguns episódios de seriados. Outro dia descobri um seriado novo, vi dez episódios em um dia só e decidi que precisava de um tempo. Voltei às leituras. Já estou no sexto ou sétimo livro desde que resolvi me dar férias e tenho achado isso sensacional. A ideia é devorar o máximo de literatura possível, pois não sei quando terei tempo disponível para esse mergulho novamente. Não que seja concebível para mim passar um semestre inteiro sem um livro, porém, não me parece concebível passar um semestre inteiro com tantos livros quanto eu gostaria. Cada momento necessita de escolhas contextuais próprias. Ou pelo menos foi o que resolvi acreditar.

Tenho me sentido muito mais resolvida no quesito vida e existência. Acho que estou tomando jeito. Ou finalmente virando o que minha mãe chama de “menina ajuizada”. Ou simplesmente eu tenha descoberto uma auto-confiança que há muito havia se escondido. Mas é bom não se vangloriar disso ainda, talvez seja cedo demais. A determinação que me faz não parar de ler ou não desistir de fazer o que me dispus a fazer em cada um dos meus dias têm me feito bem e têm sido parte imprescindível nesse crescimento da confiança interna.  Por fim, acho que esse caso de amor de um mês com a minha cama pode me fazer muito mais bem do que eu imaginava quando resolvi me dar essas férias. E do que a minha mãe pensa, em toda vez que reclama porque eu passo tempo demais no quarto, estando um dia tão lindo lá fora.

BEDA #18 Medo do Escuro

Não consigo resgatar na memória uma temporalidade para o início destes fatos e tão pouco a razão para que sejam do jeito que foram. Parafraseando o saudoso João Grilo, direi que “num sei, só sei que foi assim”. Tendo isso em mente, vamos ao fato: tenho medo de andar sozinha pela rua depois que escurece. Pra falar bem a verdade, o medo não vai embora quando ando em comboio. Andar. A noite. Na rua. Bom, é apavorante.

Isso é engraçado quando colocado em comparação com os outros locais em que estive. Por exemplo, como Barcelona escurecia muito cedo, andar de noite era plenamente normal e todo mundo fazia. Dava sensação de segurança e era refrescante. Mas, ainda assim, eu evitava o máximo que podia. O mesmo no Paquistão, onde as lojas só fecham depois das 22h e até lá tem gente e mais gente em todos os lugares que você olha – inclusive naquele trânsito com lógica particular.

Aqui no Brasil, independente de ter gente na rua, de ser cidade de interior, capital, escurecer cedo, tarde, tanto faz. Passou das 20h eu abomino andar sozinha. Sabendo disso, meus pais (que talvez sejam mais causa do que resultado do problema), sempre entram em contato quando não estou em casa até essa hora para, no mínimo, me encontrarem no meio do caminho caso ninguém possa me acompanhar até a porta de casa. Já fiz tias se deslocarem das casas delas até a universidade só porque tinha ficado escuro, não tinha ninguém em casa e eu não tinha coragem de andar sozinha.

Corroborando com a minha questão individual, temos o fato de que minha casa fica estrategicamente localizada em uma esquina do Centro da cidade. Uma das ruas é repleta de bares, casas de swing e semelhantes e a outra só passa carro, a ponto de a falta de pedestres ser agoniante. Perigoso passar perto de um monte de gente bêbada mais nóias em geral (odeio falar das pessoas desse jeito, mas preciso usar essa categoria generalizante no momento, porque, enquanto estou na rua e vejo um ser mal apessoado simplesmente ando mais rápido e mando o relativismo pro beleléu).  Perigoso, por outro lado, andar em uma rua sem pedestres (vai que alguém desce de um carro e me rapta? Vai que surge um pedestre do nada e faz algo de malvado? Vai que eu sou atropelada? Vai que eu tropeço, bato a cabeça não tem ninguém na rua pra me socorrer?). Ou seja, muito arriscada essa vida de solidão. Não é pra mim. Preciso de um cão guia, mas ok, isso fica pra outra conversa. A tensão que se instala no momento de voltar para casa de noite é absurda. Tanto que desisti de vez de fazer aula de teatro justamente porque não teria mais alguém para me buscar e sem condições voltar sozinha, a pé, às 22h.

Até que em meados de Junho (suponho) do ano passado, após um dia universitário eufórico, cansativo, gigantesco e que finalmente tinha acabado, o estresse e a ansiedade pela cama se transformaram na minha vontade preferida, a de andar. E de repente eu estava na metade do caminho para a minha casa. Sem me agarrar na bolsa. Sem estar rezando o pai nosso. Sem ter avisado a minha mãe. Simplesmente com meu casaco branco, andando rapidinho enquanto cantarolava alguma diva pop e, perto de casa já, me deparo com minha mãe na calçada “indo ao meu encontro” sem eu ter pedido. Só então percebo que tinha ido até ali sozinha e sem nada do meu medo ridículo. O que só podia significar que, sim: eu posso.

Desde esse dia, andar pela rua sozinha depois que escurece ainda me dá um friozinho na espinha. Ainda tento evitar o máximo que posso e ainda imploro por caronas, companhias ou remanejamentos de horários em compromissos, mas não deixo de fazer as coisas por causa disso. Tenho treinado minhas habilidades no dia da Yoga, que volto lá pelas 21h e até hoje tudo deu certo. Eu olho pra Lua e sorrio. Ando com a chave na mão, apressada e hiper atenta, ou pelo menos o máximo que consigo. E até agora tá tudo bem. No fim, aproximo-me mais da crença de que os medos existem para serem vencidos e tento percebê-los justamente para transformar em novas metas de libertação própria. Um dia, quiçá. estarei livre dos meus grandes monstros e, talvez, passe a ser uma pessoa mais normal, no sentido estrito do termo.