Tentativas

Eu tentei voltar pro facebook. Eu juro. Prometi às minhas amigas que voltaria no dia da revelação do nosso amigo secreto, sei que este dia não chegou, mas hoje tive dez minutos livres e entre gastá-los dormindo todo o sono que está acumulado ou procurar algo pra me mantar acordada por mais um pouco, escolhi a segunda alternativa. Não estava com cabeça para responder nenhum dos meus e-mails, ninguém estava online no gtalk ou no skype, o tumblr estava sem graça e foi como se todos os caminhos se direcionassem para aquela voz interna que ainda diz baixinho “vá ao facebook” e eu fui.

Digitei a minha senha depois de quase dois meses e vi uma foto com um cabelo que eu nem lembrava que tinha tido. Cliquei no meu perfil para olhar e só consegui sentir angústias e lamúrias por toda aquela necessidade de compartilhamento de cultura inútil. Fui às minhas fotos e considerei todas feias, inúteis e absurdamente forçadas porque, em grande maioria, só significavam um “vamos mostrar pra todo mundo que estamos aqui e que estamos felizes”, como se isso comprovasse algum tipo de felicidade ou semelhante. Cada coisa escrita era apenas uma tentativa de reforçar uma vida boa, plena e perfeita, com pequenos toques de vulnerabilidade e chatice, só para dar um gostinho. Na vã ideia de que minhas opiniões mal formuladas sobre coisas quaisquer talvez causassem algum impacto. De que cinquenta likes em uma foto significavam que eu era linda e maravilhosa e não tinha motivos para ver dor no mundo.

Cliquei nos amigos e me deparei com um monte de gente que não faço a menor ideia de quem seja, mas que olhando a foto sei que conheço de algum lugar. Todos sorrindo, todos lindos e imersos em sua poesia particular, como se suas vidas fossem tão perfeitas quanto a “minha”. Cliquei nos grupos e vi pessoas que me são muito importantes conversando sobre assuntos que eu adoraria participar, mas não tive vontade nenhuma disso. Tentando entender o que me prendeu àquele lugar por tanto tempo, encarei por alguns segundos o feed de notícias e ao passar por cada uma daquelas publicações a angústia previamente instaurada só continuou a crescer.

Mas todo mundo me enche o saco por não ter facebook. Dizem que eu sumi. Que eu morri. Que é impossível falar comigo. Eu sinto saudades de ver as coisas dos meus amigos e também de algumas páginas em específico e de ser idiota e ficar mandando indiretas do bem ou quaisquer outras para todas as pessoas que aquelas coisas me fizessem lembrar de. Talvez eu conseguisse, era só eu tentar com vontade. Deletei todas as minhas fotos de capa e do perfil, coloquei todas as coisas possíveis para serem visíveis somente a mim e pensei que seria suficiente. Cliquei no logo da rede social para voltar ao feed de notícias e quase comecei a chorar.

Sem saber se o problema era encarar opiniões bobas, fotos sorridentes demais, um monte de gente que não sei quem é ou a premissa de horas de vida desperdiçadas na reconstrução do que demorou tanto a ser destruído ou ainda nas conversas inúteis que seriam ali desencadeadas, desisti. Deletei a conta novamente. Mas a sede por algo para fazer não havia sido saciada e minha única lembrança de tapa-buraco de vida é, justamente, o facebook, ele tinha que funcionar. Criei uma nova conta, com meu outro e-mail. Eles pedem para que você adicione seus amigos. Eu não tive vontade de adicionar ninguém. Olhava para cada uma das fotos e pensava que não estava com vontade de compartilhar absolutamente nada com aquelas pessoas e quando via fotos de pessoas com quem eu compartilharia, imediatamente lembrava que podia conversar com elas por e-mail, celular, carta, skype ou comentário em blog, não precisava voltar pra tudo aquilo. Eles mandaram um e-mail de ativação, que eu não cliquei. Provavelmente mandar-me-ão outros, encherão minha paciência e dirão que eu preciso voltar para aquela cadeia, preciso passar pelo mesmo processo de castração de mente que todas as outras pessoas do mundo. E eu vou dizer que it’s not you facebook, it’s me, I finally got over you, I freed you, enjoy wisely.

Acho que criei uma resistência involuntária ao facebook. Talvez faça parte da reabilitação de viciados, que depois da negação, aceitação e de ficarem longes e terem recaídas e conseguirem vencê-las, finalmente veem o que era natural (viver no facebook) como a coisa mais estranha do mundo. A vontade de compartilhamento ainda existe, mas agora sei direcioná-la e suprimi-la quando necessário. A carência e a necessidade extrema de afeto também estão diminuindo. Tenho lido mais, andado mais, estudado mais, comido mais e dormido menos, o que no meu caso, é muito positivo. Eu volto no dia da revelação do amigo secreto, eu prometi. Mas duvido que consiga ficar mais e dessa vez não vou pedir desculpas.

Libertando-se

Em Junho via-se muitas pessoas naquelas passeatas sem sentido, que serviram pra barrar a PEC 37 (que eu nunca soube o que era) e não para fazer meu ônibus de domingo voltar a ser um real, segurarem um cartaz escrito “saímos do facebook” e depois postarem uma foto segurando esse cartaz na tal rede social. Achava engraçado. Segurava cartazes tão toscos quanto na doce ilusão de uma possível revolução, aham, claro.

Em Julho ou Agosto, como minha ótima memória me impede de lembrar, resolvi que ia sair da tal rede social. Aguentei cerca de dois dias e logo tive que voltar porque precisava conversar com as pessoas, precisava dos resumos das provas – que eu não lia os textos porque ficava conversando com as pessoas, precisava ver o spotted, saber qual era a notícia da semana, do que estavam rindo e quanto tempo eu precisaria dar scroll no feed de notícias até chegar na parte em que já tinha lido. Então fui lá e voltei. Depois tentei sair de novo, aguentei uma semana e me rendi novamente. Por pura burrice.

Meu irmão se formou em Outubro e isso fez com que eu entrasse em uma aposta idiota com a minha prima (que eu perdi, claro, e agreguei uma dívida enorme a ser paga em chocolates), me vestisse com o vestido que era dela e eu sempre quis pra mim, pintasse meu cabelo de arco íris, bebesse coisas que nem sabia que existia e dançasse loucamente com pessoas que eu vejo no cotidiano e mal tenho coragem de dizer oi. Em meio a tudo isso, refleti. É engraçado como minhas melhores reflexões sobre a vida vêm em momentos aleatórios e não quando eu termino aquele livro iluminador e penso que “uau, agora minha vida mudou”. As mudanças ocorrem sem que a gente perceba ou pense muito, de uma hora pra outra aquele amor-da-sua-vida passa a ser um mero conhecido e o que você considerava mais essencial pra sua sobrevivência torna-se absurdamente banal. E foi durante a festa, quando minha prima pediu para que eu tirasse foto dela tomando tequila porque ela “tinha que colocar no facebook” que eu relembrei o quanto tudo aquilo me incomodava por todo aquele tempo e decidi que seria a minha gota d’água. Essa e outras milhares de decisões e resoluções que não cabem ser aqui mencionadas, surgiram após dançar Asa de Águia, gritar “evidências” e presenciar minha mãe bebendo e dançando Elvis Presley.

Saí do facebook e não contente, desfiz-me também do twitter. E isso faz quase um mês. E eu não senti a menor falta, a não ser na primeira semana. Passei a rir de quem diz “cadê você pra eu te marcar” e a trocar e-mails lindos com pessoas extremamente importantes que eu simplesmente havia esquecido que existiam e outras que estou começando a descobrir a existência agora. Aflorei amizades via whatsapp e reiniciei as conversas engraçadas via skype com pessoas que não vejo há séculos. Os meios de comunicação “precários” me fizeram retornar aos velhos hábitos, àqueles de quando eu estava no ensino médio e também odiava as pessoas que devia conviver todos os dias e me limitava a conversar apenas o estritamente necessário e passar o resto do tempo lendo. Não é que eu deteste as pessoas que tenho que ver todo dia, é que já não aguento mais pisar naquela faculdade, olhar pra cara deles e ter que ouvir todos os protótipos de revoluções, vidas fracassadas e aventuras em bares ou qualquer outro lugar desinteressante. Já não aguento mais a ideia de frequentar bares ou qualquer outro tipo de atividade social e, embora isso me doa as vezes, tenho me sentido bem com minha solidão. Tanto que até olho pra cara da minha mãe e falo “sai do meu pé, me deixa em paz” e o normal era eu querer passar o tempo inteiro com ela, porque a solidão me matava. Não me sinto tão sozinha, mesmo que agora eu esteja mais. Sinto-me mais livre, respirando um ar mais puro, é difícil explicar e talvez pareça tosco todo esse emaranhado de letras aqui expressas, mas só quem já passou cerca de doze horas diárias presas a um computador e conseguiu se ver livre disso em um momento inesperado pode ter ideia do que ando sentindo. É bom. É claro que a necessidade excessiva de compartilhamento ainda existe, mas está sendo cada dia mais podada. Pelo menos a necessidade de completude esvaiu-se, porque percebi que consigo me sentir completa sem precisar projetar isso em pessoas aleatórias e, em suma maioria, insignificantes. Eu posso escolher com quem conversar, o que conversar e tenho o prazer de repetir a história mil e uma vezes, porque não tem como elas saberem sem ser por fofoca ou por mim.

Lógico que continuo a ser uma estudante desleixada e que não tenho capacidade mental pra ler os textos que ficam chatos depois da segunda página, porque ficar presa a eles enquanto tem toda uma estante com coisas intocadas me esperando é algo que realmente me agoneia. Confesso que estou tentando, sei que não vou ter um futuro profissional brilhante, mas não dá pra desperdiçar quatro anos da vida em uma faculdade se eu não for aprender nada com isso. Minha prima vive dizendo que na faculdade a gente só deve ir em festas e “pegar geral” (palavras dela) e que os estudos vêm depois. Eu acho que não, eu só topei fazer faculdade porque achava que ia aprender algo com ela, então, o mínimo que posso fazer é tentar realizar este anseio.

Divagações à parte, esse texto gigante foi para dizer que: estamos no décimo oitavo dia deste tenebroso novembro e eu já li quatro livros e estou lendo outros dois ao mesmo tempo e quase finalizando um, ou seja, pelo menos SEIS livros garantidos pra esse mês. Pra quem mal estava conseguindo suportar uma obra mensal, estou me sentindo a rainha do universo literário. O mais legal é que só tenho uma matéria da faculdade completamente atrasada, as outras estou só uma ou duas aulas atrás e geralmente eu leio tudo na véspera da prova, quando leio. Acho que finalmente estou virando alguém que algum dia eu possa me orgulhar e tenho pretensões bastante positivas para o próximo ano, o que me deixa mais tranquila e com vontade de manter as expectativas de pessoa nerd. não presa às notas como outrora, mas com a ânsia por sabedoria restaurada, afim de diminuir a escala de ócio e, com isso, o desamor tão presente nesse coração atordoado.

Fiz um vídeo com três livros legais que li recentemente, espero que vocês leiam algum deles, são realmente bons!