[REVIEW] Gilmore Girls – 3ª Temporada

     Esse texto contém muitos spoilers e é recomendável que você já tenha assistido a tericeira temporada de Gilmore girls antes de realizar a leitura. Você pode ver a review da Primeira e da Segunda temporada.

Temporalidade

      No final de julho tivemos a divulgação da data de estreia da oitava temporada de Gilmore Girls, chamada “A Year in Life“. As informações que nós já tínhamos, é de que seria uma temporada com apenas quatro episódios, de noventa minutos cada. Cada episódio será referente a uma estação do ano e a série se passará no ano corrente. O que nós não sabíamos é que a Netflix ia disponibilizar todos os episódios no mesmo dia (apesar dos protestos da criadora da série) e que esse tão aguardado dia seria o dia 25 de novembro! Para que as coisas ficassem ainda mais emocionantes, fora lançado o primeiro teaser da temporada. Deixo vocês com a apreciação dele.

     Agora, sobre a temporalidade da terceira temporada. Vimos um ano inteiro passar nessa temporada! Começamos nos preguiçosos dias de verão e terminamos com a formatura de Rory, que ocorre já no próximo verão. No meio tempo, passamos por dois memoráveis festivais da cidade, uma festa de aniversário bacana para Lorelai, impasses em relação ao jantar de sexta-feira, um dia de ação de graças bastante agitado, dois bebês e dois fins de relacionamento. Foi bastante coisa, mas a Netflix conseguiu resumir em um minuto – conforme está fazendo em todas as temporadas. 

Os casais

Rory e Dean

     Rory começa a temporada sacaneando Dean, pra variar. Ela está visivelmente apaixonada por Jess. O beijo do episódio final da temporada anterior ainda ressoa e o tempo em Washington não a fez esquecê-lo. Ela até tenta continuar com o Dean, mas o coração dela não está mais lá e ela segue sem coragem de dizer isso. Vários episódios dela tentando se convencer a continuar com o Dean são vistos. E, óbvio, Dean percebe tudo que está acontecendo, mas como ele gosta muito dela, não consegue “largar mão” do relacionamento. Os dois seguem se enganando. 

     Dean acaba sendo recriminado por muitos fãs por ter terminado o relacionamento em público, mas eu super entendo ele. O episódio do festival de dança foi apenas o estopim. Ele já estava saturado, Rory já estava saturada, o relacionamento estava saturado. Ele foi o mais honesto da história e apenas fez o que deveria ser feito: deixar ela tentar a sorte com o Jess. É claro que, na cabeça de Dean, ela iria se decepcionar e voltar a ficar com ele. Como isso não aconteceu, ele acabou partindo para outra e, já no final da temporada, anunciou seu noivado. É interessante que o relacionamento não ganha foco na série e a gente sabe quase nada sobre a Lindsay, o que nos faz achar que Dean realmente só se mete em relacionamentos sem conhecer direito as pessoas. 

     É curioso, porém, que o relacionamento de Rory e Jess não seja lá aquelas coisas e ela acabe sentindo ciúmes da Lindsay, mesmo sem admitir. Também é bastante interessante que, após o término, ela e Dean tenham a vontade de serem amigos, pois “sentem falta de conversar um com o outro”, sendo que em todo o relacionamento deles, era raro ser mostrado ao telespectador essas conversas. A impressão que a gente tinha era de um desentendimento constante, causado por falta de interesses comuns. Porém, basta o relacionamento terminar para que eles se tornem os melhores amigos que já tiveram e sintam saudades um do outro. Bizarro.

     Outro ponto bastante esquisito dessa história é que Dean se mete em uma briga destruidora com Jess, para que na próxima vez que encontra a Rory conte que está prestes a ficar noivo. Ele tinha acabado de brigar feio e destruir uma casa com o namorado dela, o que dava a impressão de que ele estava querendo reconquistá-la, e então anuncia que vai ser noivo de Lindsay. É de dar pena a confusão mental do pobre Dean. 

Rory e Jess

        Estava na cara que esse casal não ia vingar. Rory era acostumada com um namorado atencioso, que gostava de sua mãe e compartilhava os momentos com ela – por piores que eles parecessem. De bailes de gala à festas escolares e jantares de família. Quando ela se depara com alguém como o Jess, que não dá o braço a torcer e tem zero de esforço para conhecer e se adentrar no universo dela, fica um tanto perdida. O relacionamento deles, que enquanto amizade se demonstrava com um grande potencial de entendimento, acaba se tornando algo bastante estressante.

      Jess é o primeiro cara por quem Rory parece cogitar a hipótese de transar, mas para ele, sexo não parecia ser exatamente um problema. É bastante interessante, porque o assunto “sexo” nunca surgiu enquanto Rory estava com Dean, mas assim que ela começa a se envolver com Jess ele surge. Seria um sinal de moralismo na série? Essa hipótese é levantada pela seguinte situação: Rory é constantemente vigiada e lembrada por sua mãe de que ela não deveria transar e que deveria comunicar quando pretendesse fazer isso. O  medo de Lorelai é que ela engravide e “repita seus erros“. Rory, por sua vez, não parece ser uma adolescente normal e simplesmente não demonstra sentir tesão sexual por seu primeiro namorado – que é bem aceito pela mãe e considerado certinho. Já, quando ela começa a namorar o cara que a mãe não gosta, o “bad boy“, o assunto do sexo surge e vira uma possibilidade. “Ela era muito nova antes“, vocês podem me dizer, mas 16/17 anos não é cedo demais para transar se você é loucamente apaixonada por seu namorado fixo. Então, bom, a abordagem do sexo em relação à Rory começa problemática aí. Ela não parece se sentir confortável com a ideia ainda, o que é ok, mas a partir do momento que ela começa a se sentir confortável, tem a noção de que não é certo e não deveria fazer e não faz.

       Enfim, Jess acaba indo embora, por causa de conflitos familiares sérios. E não comunica isso com ela. Ele não comunica com ela nenhum de seus problemas e vive uma relação fútil, sem deixar que Rory penetre em sua vida e sem penetrar na vida dela. De um namoro, Rory vai para um relacionamento de “amigos que se beijam” e ela até tenta se contentar com isso, mas não consegue. Acredito que Jess seja a primeira grande decepção de sua vida.

Sookie e Jackson

     Nessa temporada, eles experimentam o início da vida em casados, que é bastante inovadora para ambos. Jackson se muda para a casa de Sookie e ela sente que precisa se esforçar para fazer com que ele sinta que a casa também é dele, embora ele diga que isso não é necessário. Isso gera um episódio muito legal, mas também mostra que nenhum relacionamento é perfeito e que é possível haver conflitos quando se tenta agradar o outro. Mas não é algo muito grande, é bem específico de fase de adaptação mesmo.

     O casamento deles acabou acontecendo de forma rápida e várias coisas em relação ao futuro não haviam sido discutidas. Por isso Sookie leva um susto quando Jackson aparece com a ideia de que queria ter quatro filhos em quatro anos. Da mesma forma, Jackson surta quando Sookie comunica estar grávida. Não havia preparação financeira e psicológica para os dois, que eram recém casados. E, na verdade, é meio chato que eles não possam ter curtido por mais tempo seu tempo juntos.

Lorelai e Christopher

       Christopher não apareceu muito nessa temporada, tendo inclusive faltado a formatura de Rory, o que nem foi tratado como uma grande coisa – fato muito estranho. Lorelai e ele começaram a temporada de forma conturbada, devido ao abandono gerado no último episódio da temporada anterior. As coisas complicaram bastante quando Emily tentou juntá-los, por não saber o que estava acontecendo. Eles passaram um longo tempo sem se falar, o que gerou estranhamentos em Lorelai quando ela foi convidada para o chá de bebê de Sherry e a deixou ainda mais desconfortável por ter tido que comparecer ao nascimento de G.G

     Christopher voltou ao seu padrão de pai ausente e, aparentemente, começou a aceitar a ideia de ficar com Sherry e cuidar de G.G. Mas, como não foram dados muitos detalhes sobre ele no decorrer da temporada, várias dúvidas surgem em relação à sua vida atual.

Emily e Richard

      Não há conflitos entre o casal no decorrer da temporada. O mais próximo disso ocorre quando Lorelai the First (ou Trixie) é pega em flagrante dando um beijo e Emily acaba contando isso para todos. Richard fica bastante enfurecido, mas como elas logo fazem as pazes, tudo fica em paz.

     Outro ponto de quase briga ocorre no dia em que Richard conseguiu levar Rory para conhecer Yale e marcou, às escondidas, uma entrevista com um de seus ex-colegas que tinha influência na seleção de lá. Emily ficou enfurecida, pois já sabia que Lorelai não estava gostando da ideia de levar Rory para conhecer Yale e ter uma surpresa dessas não ajudaria na relação das duas. Esse conflito também não foi levado adiante. Com Richard em sua própria empresa e bem relacionado, Emily não tinha razões para brigar com ele.

Luke e Nichole

       Mais um pra lista dos relacionamentos amorosos esquisitos da série. Nichole é advogada de Taylor e eles se conhecem por causa de um aluguel a uma das propriedades de Luke, requisitado por Taylor. O relacionamento começa por causa de Jess, que basicamente desafia Luke a chamá-la para sair. Ela aceita, eles se dão bem e começam um relacionamento.

     Não sabemos muito sobre Nichole, ao contrário de Rachel, não há cenas em que ela seja a protagonista. Tudo que sabemos é que sua existência aflora o ciúmes de Lorelai e faz com que ela comece a perceber que tem sentimentos por Luke, o que é evidenciado no momento em que ela toma coragem para parar de brincar e pedir para que ele não viaje com Nichole, pois seria muito romântico e sério. Luke não entende, mas a gente entendeu: ela não queria ele com outra mulher. Nesse momento, o shipp Lorelai e Luke ficou aflorado.

      A temporada acaba sem a gente saber se essa viagem aconteceu ou não, sem saber detalhes desse relacionamento e sem conhecer direito a Nichole.

Lane e Dave

      Aí está o casal mais fofo da temporada! Finalmente, Lane tem a vida que gostaria. Começa a tocar bateria, encontra um amor que a entende e não questiona as birras de sua mãe – pelo contrário, resolve tentar conquistá-la e depois enfrentá-la e tem o seu primeiro beijo.

      Lane desfruta de uma boa festa onde sua banda toca, várias festas realizadas em sua casa para o público da igreja de sua mãe e, claro, o baile de formatura. É bastante revoltante que esse baile não tenha sido mostrado, visto todo o esforço que ela e Dave tiveram para conseguir a autorização da senhora Kim. Acredito que, se Jess tivesse conseguido os convites para ele e Rory, esse baile teria aparecido. Mais uma pra cota de excesso de protagonismo das Gilmore!

     O que importa é que Lane e Dave são extremamente fofos e compreensivos. O episódio em que eles dão seu primeiro beijo é a coisa mais fofa do mundo e quando ele vira a noite lendo a bíblia para conseguir entender a senhora Kim, é outro momento de explosão de fofura! 

Dave Rigalsky appreciation picture

Paris e Jamie

         É muito emocionante o fato de Paris ter encontrado alguém que goste dela. A coisa ruim disso, é que nunca vemos os dois juntos e não fazemos ideia de como é o relacionamento deles. Parece bom, mas não tem como ter certeza. Nessa temporada, em específico, Paris fica distante e um tanto apagada e isso é penoso, porque é justamente a temporada onde as grandes reviravoltas de sua vida ocorrem.

      O fato de ela ter transado antes de Rory é bastante marcante, porque seria inimaginável aos olhos de um terceiro. É realmente uma pena que nós, telespectadores, não tenhamos tido oportunidade de ter detalhes sobre essa relação e o desenrolar dessas coisas. Mais uma vez, culpo o excesso de protagonismo das Gilmore.

      Mais uma vez, o sexo é visto de forma errada e ruim. Paris culpa o fato de ter estado em um relacionamento e feito sexo por não ter passado em Harvard, o que passa a impressão de que relacionamentos são distrativos e que quando você é adolescente e faz sexo alguma coisa errada vai acontecer com a sua vida. Não gosto dessa mensagem implícita na série.

As amizades

Lorelai e Rory

      A amizade das duas ficou ainda mais aflorada nessa temporada. Lorelai continuou indo onde Rory precisava dela e vice-e-versa. As duas não brigaram de forma exponencial e conseguiram entrar em consenso sobre todos os problemas que apareceram. Rory, inclusive, deixou de falar com o próprio pai em solidariedade a Lorelai. E, ao ver que a mãe precisaria desistir do sonho de ter o próprio hotel, para pagar sua faculdade, pediu, por conta própria, um empréstimo aos avós. Provavelmente o ato de maior responsabilidade de Rory até então. A parceria das duas segue ótima.

Lane e Rory

     Rory não entendeu a mensagem que Lane mandou contando do beijo e não retornou perguntando sobre. Aquilo me magoou bastante, porque Lane sempre dá bola pros perrengues de Rory e foi abandonada em uma hora linda e emocionante. 

       Rory se redimiu quando aceitou ceder espaço na garagem de sua casa para que a banda da amiga treinasse. Isso permitiu que Lane prosseguisse com seus sonhos e seu relacionamento, ponto pra Rory! 

         Já no começo da temporada, temos a saga de Lane buscando independência e querendo pintar seu cabelo para isso. Rory demonstra ser uma boa amiga nessa ocasião, pintando de roxo e, depois, de preto, o cabelo da amiga. 

Lorelai e Sookie

      A amizade das duas tem seus abalos quando diz respeito ao futuro do Independence Inn. O sonho conjunto de ter o próprio hotel persiste, mas quando o Independence sofre o incêndio e passa pela reconstrução, elas começam a se estranhar. Felizmente, tudo se ajeita, a dona do Dragonfly morre e elas conseguem dinheiro suficiente para comprá-lo. Boas coisas provavelmente vêm daí.

      Sookie segue sendo a amiga de todas as horas para Lorelai. E, mesmo com Jackson em casa, mantém o programa de ser o “backup” de café da manhã, para os momentos em que Lorelai briga com Luke.

Rory e Paris

          As duas começam a temporada muito bem, com uma experiência positiva em Washington. Mas dividir a presidência do corpo estudantil não ajudou a amizade de ambas, infelizmente.

      Paris, inexperiente em relações amorosas, acaba sem saber elencar prioridades e ficando perdida. Rory se vê no meio de uma briga, sofrendo ameaças por parte de Frankie e fazendo com que Paris entendesse as coisas de forma equivocada e se voltasse contra ela. As duas passam a maior parte da temporada brigando e a experiência de dividir a presidência, que poderia ter sido positiva, se torna caótica.

           Felizmente, ambas acabam tendo que dividir a autoria do discurso de bicentenário de Chilton, fazendo com que Paris fosse até Stars Hollow e desse um update a Rory sobre sua vida, de forma que as duas acabaram se reconciliando. Isso fica ainda mais visível quando Paris não é aceita em Harvard e entra em depressão, mas recebe o apoio de Rory, que a visita em casa e tenta colocá-la para cima.

Lorelai e Luke

      Mais uma temporada repleta de altos e baixos na relação dos dois. Apesar de ser visível para o público que eles se gostam, eles ainda não descobriram ou admitiram isso, dificultando bastante as coisas. Lorelai segue sendo a melhor conselheira possível para ele e ele sendo o amigo mais fiel possível.

      O episódio em que ele se dispõe a ajudar Lorelai a aprender a pescar, para que ela pudesse sair com outro cara, é o auge dessa temporada. Pela primeira vez, ele tem a oportunidade de mostrar algo que é importante para ele e compartilhar isso com ela – mesmo que o interesse por trás da história fosse ela sair com outro cara. Eles acabam se aproximando ainda mais. 

      Porém, um distanciamento começa a ocorrer com o aparecimento de Nichole que, como Rachel, tem ciúmes de Lorelai. Isso fica evidente no episódio da conferência sobre Poe, onde ela acaba tendo que ir dormir na casa de Luke e ele prefere não contar para Nichole. Esse distanciamento pode ou não ser nocivo, dependendo de como as coisas forem retratadas daqui para frente. 

    Luke ter emprestado sua lanchonete para que servisse de restaurante enquanto a cozinha do Independence Inn não tinha sido consertada é outro ponto alto de sua narrativa.

Luke e Jess

      Jess começa a se dar melhor com Luke. Eles conversam mais, inclusive sobre mulheres. Luke consegue impor limites e ordens em relação ao relacionamento de Rory e Jess – apesar de sua preocupação maior ser com o bem estar de Rory e não do sobrinho. Porém, as desconfianças continuam a perseguir  a relação. Primeiro com o aparecimento do carro de Jess, seguido pela descoberta de que ele estava trabalhando no Wall Mart. O orgulho por Jess ter sido eleito o funcionário do mês no supermercado se converte a estresse, quando Luke descobre que ele tinha deixado de frequentar a escola para realizar horas extras e estava prestes a reprovar.

       O pai de Jess apareceu na cidade, Luke não contou para ele, mas ele acabou descobrindo. Isso fez com que Jess se revoltasse ainda mais perante Luke, a escola e a cidade. E, de repente, era como se Rory não existisse ou fosse importante, porque Jess, após um desentendimento com Luke, simplesmente fez as malas e foi até a cidade de seu pai. Um final bem triste para o personagem e para as relações por ele estabelecidas. Espero que ele retorne nas próximas temporadas.

Lorelai, Rory, Emily e Richard

      A relação familiar ia bem – tirando o episódio de Christopher no jantar – até que Richard inventou a viagem para Yale. Esse foi um momento de grande crise na relação, fazendo até Rory ficar contra ele. Tudo vai ficando mais ameno no decorrer da temporada e a explosão de felicidade e união é quando a própria Rory, após ser aceita em Princeton, Yale e Harvard, decide pela ex-universidade de Richard. Não havia como fazê-lo mais feliz.

      Os jantares de sexta-feira ficam ameaçados por alguns episódios, porque Lorelai conseguiu dinheiro para pagar o que devia pela escola de Rory. Mas isso faz com que ela seja rejeitada da lista de bolsistas de Yale e fique sem dinheiro para pagar a universidade. Rory vê como oportunidade de conversar com os avós e reestabelecer os janters de sexta-feira, porém, sem prometer a presença de Lorelai. Como isso se desenrolará na próxima temporada? Eu acredito que Lorelai acabará cedendo. Veremos.

Curiosidades e pontos importantes da temporada

  1. Quem vai na formatura de Rory é Luke e não Christopher
  2. Senhora Kim realmente superou e esqueceu a ligação que Lane deu na festa? Ou isso vai desembocar em mais problemas para a próxima temporada?
  3. O que aconteceu com o Alex? Ele e Lorelai tiveram alguns encontros, um final de semana romântico em Nova York e uma ida para pesca e, aleatoriamente, ele desapareceu da temporada! Será que ainda volta? 
  4. O aparecimento de Max Medina pode influenciar nas próximas temporadas, agora que ele não será mais professor de Rory? Será que ele e Lorelai vão voltar a ficar juntos? Querendo ou não, ele foi o mais legal dos namorados que ela teve desde o início da série.
  5. Não é novidade para ninguém, mas Adam Brody, que faz o Dave Rigalsky, acaba se tornando o Seth Cohen de The O.C no ano seguinte.
  6. Acredito que um ponto bem importante e que vai ter influências futuras é toda essa história de sexo.
  7. É muito difícil para mim escolher um episódio favorito dessa temporada, porque descobri que é a minha temporada favorita. Mas, se fosse pra escolher um só, ficaria com o Dia de Ação de Graças, no episódio 9.

Qual o meu adjetivo?

Família é uma coisa engraçada. Quando a gente vê e convive todo dia e o tempo todo fica cansado e querendo um tempo. Quando a gente fica sozinho, porém, tem aquela vontade de compartilhar as coisas com eles, como se eles ainda estivessem por perto. Ainda bem que com a internet isso é possível. Por mais que eu ame cartas, não sei se daria conta de sobreviver naquela época.

Quando alguém da família daqui viaja e encontra com outros familiares, que eu não vejo há tempos, adoro ficar por perto ouvindo as histórias. Saber como as pessoas cresceram, mudaram seus pensamentos, o que elas andam comendo e como se divertem. Tudo isso faz com que eu me sinta um pouquinho mais perto delas, coisas que não são facilitadas pela internet, porque nunca fui próxima a essas pessoas. Mas sempre gostei muito de ouvir as histórias.

Se tem uma coisa que é legal em ter família grande onde todo mundo se conhece e alguém se comunica regularmente com outros alguéns e a informação se espalha é poder saber alguns detalhes, histórias e fofocas de pessoas que se você visse pessoalmente jamais lembraria quem é. É legal ver como os outros lidaram com os problemas das vidas deles e também como muitas vezes esses problemas se tornam o esteriótipo da pessoa. No sentido de que, ao invés de falar do “João” a família fala do “coitado que se divorciou, mas ainda ama a mulher” e toda a sua probabilidade de imaginar um “João” comum vai por água abaixo, porque você começa a imaginar uma pessoa amargurada, frustrada, saudosa etc. Talvez, se você conhecer o João, vai perceber que ele superou a esposa há tempos, mas não aconteceu outra coisa relevante o suficiente para mudar os esteriótipos.

E foi curioso quando minha tia disse que estava conversando com alguns sobrinhos netos e depois ouviu da mãe deles que ela seria lembrada como “a tia que fuma muito, mas faz um quibe delicioso” e com isso percebi que não faço ideia de qual é o esteriótipo que têm de mim. Porque é tão comum essa coisa da gente ter um esteriótipo pra falar do outro quando estamos nas histórias de família, que acredito que todas as pessoas o tenham. Lembro de ouvir de primos meus que eram emo, pagodeiros, rockeiros, rebeldes, apaixonados, frustrados amorosamente, realizados profissionalmente e fiquei pensando… qual será o meu adjetivo, o meu esteriótipo? O que é usado para lembrarem quem eu sou?

Sei que para as minhas sobrinhas por muito tempo foi “ela tem cabelo colorido”, agora já não faço ideia do que elas usam pra me descrever. Quanto às minhas tias, primos, amigos, não faço a menor ideia. E como quando a gente cresce descobre que família não é só sangue, certamente estou em algumas das histórias contadas por pessoas não-consanguíneas. Como será que falam de mim? Não faço a menor ideia. Mas eu espero realmente que não seja como “ah, a Mayra, filha de x e y, irmã de w e z” ou afins. Não quero ser alguém que é definido pelos relacionamentos, mas sim por alguma característica marcante. Porque mesmo quando o esteriótipo é péssimo, como “a que é gorda” (algo muito muito muito comum nas histórias de família), pelo menos estão te definindo por você. De maneira preconceituosa e por vezes cruel, mas ainda assim, por você. Enfim, não sei. E essa é uma das grandes questões do momento.

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Quando a Luz Acaba…

Fiquei sem luz por cinco horas justamente no dia em que tinha reservado para passar lendo os textos digitalizados para fazer um dos últimos trabalhos deste ano que teve três semestres letivos. Notebook sem bateria. Celular na assistência técnica. Li um pouco, como era esperado, mas logo resolvi me recolher em minha cama. As pessoas reclamam que eu durmo demais, mas elas não sabem que na verdade eu durmo bem pouco, as vezes que consigo passar de oito horas seguidas é porque o dia foi realmente cansativo. Na maior parte do tempo eu fico apenas deitada, recolhida com meu eu interior e pensando em coisas mirabolantes. É que a preguiça de sair e fazer algo é tanta e a margem para decepções tão grande que nada nunca é mais agradável do que ficar imaginando como seria conversar com pessoa x ou passar por tal aventura. Foi isso que eu fiz por cerca de cinco horas. Até que comecei a ficar revoltada, querer ligar para a empresa de eletricidade reclamando e dizendo que, por favor, eu moro no Centro, que tipo de cidade ruim é essa que o Centro fica sem luz por tanto tempo? Trabalhem, seus folgados. É claro que essa foi apenas mais uma das milhões de conversas que aconteceram na minha mente e não na realidade e em meio ao mar de pensamentos inacabáveis eu me lembrei da Eponine, de “Os Miseráveis” e toda a vida que ela vivia na mente dela. Odeio-me tanto por ser tão parecida. Lembrando da Eponine, fui procurar meu primeiro caderno da faculdade, sabia que tinha a música dela lá e eu precisava ficar entoando a mim mesma que sempre estaria “own my own”. Encontrei o caderno, cantei a música milhares de vezes e resolvi analisar o que estava escrito ali. Fiquei com saudades. De todas as páginas gastas com partidas de forca e de jogo da velha e de ligue os pontos. Saudades da guerra de letra de músicas e dos haikais trocados, dos desenhos recebidos e de todas as outras coisas que aquele caderno me lembra. Aí eu fui ver o que escrevia nas matérias e descobri que durante o primeiro ano eu escrevia horrores nas matérias, é até bonitinho. Aquela doce ilusão de que fazer faculdade vai te fazer capaz de enxergar o mundo positivamente.

Não foi sobre nada disso que vim falar.

Em meio ao meu mar de reflexões, lembrei das minhas férias na casa da minha avó e de como minha infância foi construída de um jeito totalmente diferente da de todas as crianças com as quais convivi. Lembrei que por volta dessa época a gente já estaria organizando as malas e se preparando mentalmente, por volta do dia 20 deveríamos estar em Brasília e chegar na casa da vovó no máximo dia 23. Três dias de viagem de carro. Mayra completamente inchada. Mário e seu violão, ou radinho de pilha, a gente cantando qualquer coisa e dormindo o resto do tempo inteiro, enquanto papai dirigia das 5h às 23h, com paradas estratégicas e super rápidas, na maioria das vezes no meio do mato (o que nem era ruim, era até mais higiênico e confortável que os tais “banheiros”), pra que a gente chegasse, buzinasse e vovó e vovô aparecessem na porta, abanando os bracinhos e gritando “Chegaram! Chegaram!”. Era sempre uma vitória muito grande chegar àquela terra longínqua da qual ninguém que eu conhecia havia ouvido falar.

Em meio ao semi-árido do Maranhão, em uma casa gigante e repleta de primos, com uma avó turrona e um avô fofinho e absolutamente nada para fazer. Era assim que eu passava todos os meses de Janeiro da minha infância. E eu era muito feliz.

O intuito deste texto, no entanto, é deixar uma versão escrita de algumas das histórias e situações que tanto me marcaram, porque a maneira pela qual eu enxergava coisas como natal, parar de chorar, ano novo e chuva eram completamente diferentes das de todas as outras crianças da minha escola. No natal todo mundo ganhava presentes do “papai noel”, em Grajaú não tinha isso. Primeiro porque era uma enorme sacanagem fazer alguém vestir aquela roupa em meio àquele calor, segundo porque era muita frescura. Natal era dia de Jesus. Era dia de ir naquela missa absurdamente gigante em que a história do nascimento de Cristo era contada por uma menina muito engraçada que a transformou em forró. A igreja inteira fazia o ritmo com as mãos, cantava e mexia os vestidos enquanto dava singelos passos de dança. Depois a gente voltava pra casa e comia aquela ceia que nunca tinha um Chester, era peru caipira mesmo, com a receita da Ana Maria Braga, que minha tia tanto gostava de fazer. Aí a gente ia pra perto da árvore de natal, que nunca era dessas de plástico e muito menos de verdade. Sempre era feita de materiais alternativos, lembro de uma que era de garrafa PET, achei o máximo. Anos depois Curitiba copiou minha tia e fez uma gigante com o mesmo modelo aqui perto de casa. Perto da árvore ficavam os presentes que a gente tinha ido comprar no R$1,99 ou coisas completamente zoadas. Tirávamos um papel com o nome de algum de nós, pegávamos um dos presentes e entregávamos. Nunca ganhei algo que eu trouxesse pra casa, mas foram os melhores natais da minha vida. E até hoje tenho que ouvir perguntas como “o que você fez quando soube que papai noel não existia?”, eu nunca achei que ele existisse, sempre soube que era São Nicolau distribuindo bicicletas. Natal era dia de Jesus.

Parar de chorar era outro causo… vovó se irritava porque eu odiava o leite de lá, que vinha direto da vaca e tinha um gosto muito forte, aí todo dia que eu tinha que tomar aquilo e em seguida algum dos meus remédios horríveis, surtava. Mayra com menos de cinco anos sentada, encolhida no quarto, chorando desesperadamente. Sua mãe já havia desistido do caso, Vovó não. “Faz essa menina parar de chorar no pé do meu ouvido” e minha mãe ia brigar comigo e eu chorava mais ainda. Aí ela, senhora Salomé com toda sua experiência nas costas, aparecia e dizia “tá vendo aquela rede ali?” (sempre tinha uma rede na minha frente) “se você não parar de chorar, vai vir uma índia te buscar e vai te transformar naquilo”. Hoje eu estudo índios com muita relutância e acho que grande parte disso deriva do fato de eu os achar geniais, mas, por favor, eles transformam crianças em rede. Quando vovó falava isso eu chorava sem nunca mais parar, até que a campainha tocava. O desespero batia, eu achava que ia morrer de tanto chorar, ela vinha repetir a história. Eu me obrigava a parar. Nunca quis virar rede. Nunca consegui chegar perto de um índio grajauense, mas mereço perdão porque já visitei uma tribo em São Paulo e nem fui esquisita.

Ano novo sempre foi uma data super sem graça. Em Grajaú não tem comemoração nenhuma e não tem horário de verão. Meus avós nunca ficavam acordados até a meia noite, então depois da missa gigante, a gente comia outra ceia ensinada pela Ana Maria Braga e ficava sentado no sofá esperando o show da Globo começar, a uma hora da manhã. Depois eu chegava em casa e ouvia histórias fantásticas sobre o tal “reveillon” e ficava indignada com a empolgação alheia.

Lembrei de tudo isso hoje, no entanto, por causa da chuva. Chuva em Grajaú era uma história à parte. Vovó morria de medo, então quando o céu fechava todo mundo retirava todas as roupas do varal, todos os eletrodomésticos da tomada e cobria todos os espelhos. Queria ter podido passar mais tempo conversando com minha vó sobre essas coisas. Na verdade acho que ia ser sensacional conversar com ela depois de saber o que era antropologia (se é que eu sei). Vovó recolhida em sua rede (ela nunca usou uma cama), toda coberta, rezando mil e um terços e alguém sempre ao lado dela tentando acalmá-la, em vão. Quando os trovões e relâmpagos começavam tudo piorava. E eu achava hilário, porque não entendia nada. Ficava sempre deitada esperando a chuva passar, só que ela raramente passava sem que a luz acabasse. E quando a luz acabava as coisas pioravam. Era um tal de todo mundo sair gritando “mermã, cadê as vela?” ou “minina, cuidado cus fio no chão” e então surgiam as lamparinas, algo que eu nunca vi em outro lugar sem ser a casa da minha avó, e quando a gente conseguia um pequeno local iluminado era sempre pra alguém enxergar um anfíbio que a gente chamava de “sapo”. Aí lascava tudo. Eu subia em alguma coisa e começava a gritar “ali”, “lá”, “acolá”, “vai, uh, quase!” enquanto minha mãe e minha tia corriam atrás dele com um pau de vassoura e um punhado de sal. Elas sempre encontravam o bicho, matavam ele e eu ficava triste porque o pobre tinha perdido a vida por causa dos meus gritos.

Eram bons tempos. Boas histórias. Coisas que eu nunca vou me conformar por não poder reviver. Coisas que eu lembro e imediatamente lembro da última vez em que estive lá e estava atrasada pra ir embora e vovó estava fazendo xixi e disse “entra aí, menina, preu te dar tchau” e eu nem sabia que ela ainda sabia quem eu era. Dei um beijo, fui embora e dias depois ela morreu, meu vô se mudou, venderam a casa da minha infância e eu nunca mais consegui cogitar a hipótese de pisar em terras maranhenses novamente. Porque não deve ter a menor graça sem eles.

Ana

Eu tinha oito anos quando fui convidada a ser dama de casamento do meu irmão mais velho. Ismael nunca conviveu muito comigo, sempre morou em outra cidade, com sua mãe, mas sempre foi meu irmão. O mais velho de todos. Aquele com quinze anos a mais e que, além de tudo, era meu padrinho. Lá fomos eu e Mário, com roupas que nem sonhávamos em usar naquela época, participar da cerimônia de casamento. A festa foi divertida, a família estava lá quase que inteira e é a última foto com quase todo mundo e vovó no meio. Foi um bom dia.

Tempos depois soube-se que Cláudia estava grávida. Eu, acostumada em receber primos de segundo grau, filhos daqueles primos que já estavam quase casados quando eu nasci, porque fui ser a neta mais nova de vinte e poucos, pensei que seria legal ter mais um neném à caminho e nem me liguei que significava que eu seria tia.

Oito. Esse é o número de tias que eu tenho. Ela teria apenas a mim. E na época eu nem me liguei disso, nem a nada parecido, afinal, eu tinha apenas nove anos e já era esquisito o suficiente ter um irmão casado, pensar que seria tia pioraria a coisa, ainda mais porque sempre fui conhecida por ter mil e uma doenças de velho e não gostar de pessoas da minha idade ou de divertimentos comuns, sendo tia a coisa toda faria sentido.

Ela nasceu pequenina, prematura. Não me deixaram ir visitar. Vi fotos e fiquei aguardando o dia de conhecê-la. Ela foi à minha casa com cinco meses e deixaram que eu a pegasse no colo, mesmo sabendo o quão desastrada eu era. Vovó tentou me ensinar como era ser tia, mas eu nem dei bola. Nunca pensei na Ana como sobrinha, era a Ana e ponto. Reflexo da minha raiva para com rótulos, talvez, o fato é que pensar em mim como tia daquele pedaço de gente agregava uma responsabilidade muito maior do que os meus nove anos permitiam.

Festa de um ano, de dois, Ana tocando piano, violino, sendo craque no futebol, mudando o time para qual torcia, não largando a mamadeira e a chupeta nunca, usando roupas legais e sendo apaixonada por chuteiras e odiadora nata de tiaras. Eu rindo a cada vez que tinha que dizer “Deus te abençõe” e demorando ser chamada umas cinco vezes de “tia” para lembrar que se tratava da minha pessoa. Eu quase nunca tendo a chance de vê-la. Ela crescendo a ponto de não querer mais brincar de barbies comigo.

Eis que há alguns anos Ana, que também é Beatriz,  ganha uma irmãzinha, Maria, que também é Fernanda. Nessa altura da vida eu já tinha entendido que tia era e tia deveria continuar sendo e já tinha percebido que isso era muito mais do que ser apenas prima mais velha, como fora acostumada ao longo de todos os anos. Porque tias são respeitadas, elas têm certo poder sobre as sobrinhas, exercem algum tipo de autoridade. Com Maria eu consegui ser uma tia muito melhor do que com Ana, embora até hoje esqueça que devo ser soberana a elas e passe a maior parte do tempo tentando me divertir, apenas.

Fui com Ana ao cinema, teatro e praia pelas primeiras vezes de sua vida. Ensinei-a a pintar as unhas e amei descobrir que ela também odeia banana. Levei-a à livraria e dei de presente o primeiro livro sem figuras que li na vida, mesmo sabendo que ela gosta mesmo é de esportes e de matemática e de artes. Aliás, depois de vários instrumentos, Ana resolveu ser pintora e escultora e fez uma vaca e nos deu de presente! Hoje o pé dela é bem maior que o meu, ela não toma mamadeira e consegue usar tiaras quando obrigada. Ainda consegue imitar o Michael Jackson, jogar videogame e ser melhor que meus primos no futebol. É uma das crianças mais tímidas que já conheci, mas nada que cócegas, chocolates e perguntas constrangedoras não resolvam. Ah! E ela não tem vergonha de “com quem será”, ela ri!

Hoje Ana Beatriz faz dez anos. D-E-Z.

Hoje eu dou conselhos sobre a vida pra ela, mesmo sabendo que não tenho moral nenhuma para isso, digo que ela pode ser quem ela quiser, porque sempre estarei aqui por ela. Sonho com ela indo em baladas e eu levando e contando ao pai dela sobre os garotos por quem ela se interessar. Imagino que talvez ela se case antes do que eu, o que seria muito engraçado. Tiro fotos com caretas e dou bronca quando ela faz coisas erradas e sempre digo que a amo antes de ela entrar no carro quando vai embora, sempre chorando. Hoje eu atendo ao chamado “tia” na primeira vez que escuto. Maria sempre vai me chamar de “madrinha”, só pra Ana eu sou a “tia”. E eu não sou mexicana ou uso perucas, mas ela ainda é minha carinha de anjo, a primeira sobrinha, a que me fez tia. A ela um feliz aniversário e um ótimo ano!

Efeito: flash do celular
Efeito: flash do celular

Arco-Íris

Com sete anos Tia Peruca me encantou. Ela e aquela peruca amarela, com um terno amarelo, em uma apresentação da escola da Dulce Maria na qual todo mundo estava de preto. Aquela mulher foi a minha maior inspiração da infância, porque ela podia ser quem ela quisesse e fazer o que quisesse, destemida e… linda. Outro dia encontrei “Carinha de Anjo” no Netflix e descobri que nem é tão legal assim e que Tia Peruca não é nem um terço do que era quando eu tinha sete anos. Mas não me decepcionei. Porque foi ela quem me impulsionou a pintar meus cabelos. E foi graças a ela que minha mãe me proibiu de algo alguma vez na vida. Só poderia pintar com dezoito anos, o que me deu onze anos de planejamento. Fiz toda uma ordem cronológica de cores a serem usadas e consegui cumpri-las. Até que em Agosto deste ano entrei em crise, pensei em desistir da minha saga e voltar a ser morena, comum e invisível. Tentei entender que não preciso demonstrar coragem ou qualquer coisa assim, preciso apenas tê-las em mim e, na maioria das vezes, eu nem tenho. Então eu fiquei loira. E meus familiares acharam o máximo. E todo o universo veio me dizer o quão bonita eu estava. E eu me olhava no espelho e não me enxergava. E eu falei um monte de coisas que não deveria e fiz um monte de coisas que não deveria e parei de me importar com a minha aparência, porque era Outubro, coisas fantásticas estavam acontecendo e eu não podia me deixar abater por uma crise capilar. Então eu lembrei dos meus restos de tinta e que já tinha usado todas as cores, menos amarelo e que não estava afim de usar amarelo, porque tinha acabado de estar loira. E eu precisava dar um up em mim e na minha vida. Precisava voltar a rir da minha cara quando me olhasse no espelho, me sentir menos responsável por todas as mazelas do universo… Precisava ser eu. Do jeito que eu sou e não do jeito que querem que eu seja.

Estava esperando o salário do trabalho que eu odeio cair para que eu pudesse ir ao salão, porque minhas raízes precisavam ser retocadas e isso eu nunca tinha feito. Precisava pesquisar melhor como fazer essa coisa colorida, sem que uma cor passasse pra outra e tudo desse plenamente certo. Precisava de planejamento. De tempo. De protelação. De descobertas interiores. De coragem. De falta de fuga. De enfrentamento. Precisava inventar o meu eu novamente. Admitir uma série de coisas que não me sentia apta, livrar-me de coisas e pessoas que já deviam ter ficado para trás há muitos anos. Precisava de mim. De dormir tranquila, ter bons sonhos, não ter vergonha, dançar e cantar e parar de sofrer pelo desnecessário. E algo no espaço tempo em que fiquei nula, branca, descolorida (literalmente) fez com que eu encontrasse todas essas coisas, ou a maior parte delas. Preparada senti-me, resolvi juntar todas as cores em uma paleta de pintura em tela que nós, família de artesãos temos, forrei partes do banheiro com as minhas já manchadas toalhas, me encarei e decidi começar.

E foi divertido. Eu só ria. A cada passo que a gente fazia uma foto engraçada era tirada e minha mãe ali, ajudando nas partes que eu não enxergava enquanto dizia que se ficasse feio não era culpa dela e que ela não ia pagar a cabeleireira para corrigir os erros. Meu pai, com seus olhares reprovativos e suas reclamações quanto ao cheiro. Meu irmão, abrindo a porta para rir da minha cara, enquanto encontrava partes que ainda estavam em branco e pegava o pincel para completá-las. “Eu vou assim para a sua formatura”, “Não tem problema”. Enquanto quase todos os outros familiares, que ovacionavam a falta de cor e a mesmice devem estar me achando a pessoa mais maluca com os mesmos genes que eles. E talvez eu seja. Ou talvez eles é que sejam chatos demais, preocupados demais. É só cabelo. E é meu. Sinto que estou perto de fechar este ciclo da minha vida, por motivos internos, externos e superiores. E isso me deixa feliz. Completa. Risonha. Contente. Mais eu. Queria que todo mundo encontrasse seu equivalente a pintar os cabelos. O mundo seria mais legal, mesmo que não fosse colorido.

irisarco

1 – Descolorindo as raízes (OX vol30 + Pó descolorante azul)

2 – Resultado da descoloração, pós lavagem + secagem

3 – Depois de separar mil e uma mechas e pintá-las alternando entre nove cores distintas (detalhe pra boca suja)

4 – A cara de felicidade do pós lavagem