Hiato

Há três formas de encontro vocálico, o ditongo ocorre em casos como “colisão” em que a divisão silábica dá-se por “co-li-são”, ou seja, duas vogais ficam juntas na mesma sílaba. O tritongo é a mesma coisa, mas com três vogais, como em “carangueijo”, e aí existe o hiato.
Hiato é quando há duas ou mais vogais juntas na mesma palavra, mas que ficam separadas na hora da divisão silábica, como “avião”, por exemplo, que fica “a-vi-ão”.

Quando minha mãe engravidou resolveu pedir para que meu irmão escolhesse o nome da irmãzinha, dentre algumas opções fornecidas por ela. Ele escolheu Mayra e Mayra sou eu.

Nunca tive uma paixão abrupta pelo meu nome, mas nunca quis substituí-lo por nenhum outro e desde que me entendo por gente pego-me a soletrá-lo porque ninguém escreve do jeito certo, ninguém fala do jeito certo, ninguém me vê do jeito certo.

Das minhas várias crises existenciais, uma das mais duradouras foi a que eu tentava descobrir o que significava esse nome e porque raios ele tinha caído justo em mim, podia ter sido “Maria”, veja bem, muito mais simples. Mas minha mãe quis complicar. E meu irmão, no auge dos seus cinco anos de sabedoria, elegeu-o como o melhor. Ok, realmente era melhor, considerando que as outras opções eram “Pedrita”, “Paulina”, “Paula” ou “Antônia”. Prefiro o Mayra. É mais “parte da família”, é mais eu, obrigada Mário. Enfim, voltando ao assunto…

Eu queria saber o que raios esse nome significava e eu descobri, através de uma carta de uma amiga que tem um nome lindo, mas morre de vergonha por não ser usual. Ele tem várias origens, na origem árabe significa “inteligente”, na indígena – a que inspirou mamãe – significa “rainha da selva e dos animais”, na Austrália “vento da primavera” e em latim vem de “Myrrh”, uma resina perfumada de uma determinada árvore. Porque trocar cartas com amigos é uma das melhores coisas do mundo, mas isso é história pra outro texto. O fato é que eu descobri o que meu nome significava, em várias desinências diferentes e passei a encontrar uma identificação maior entre eu e ele e passei a gostar muito do meu nome, a ponto de não querer ter um apelido, porque meu nome é legal demais.

Dizem que nomes próprios são os mesmos não importa o lugar, mas isso é mentira, porque os sotaques influenciam na forma como eles são ditos. Na França, por exemplo, meu nome é “ma-í-rrá”, enquanto nos EUA e na Inglaterra é “ma-í-râ” (ou algo assim).

No Brasil há duas formas de dizê-lo, ma-í-ra ou mai-ra. Só que minha mãe sempre me disse que meu nome era Mayra, com o y tônico, porque em português y tem a sonoridade tônica.

Fui enganada.

O “y” foi incorporado no dicionário brasileiro apenas em 2012, sendo em 1994 uma letra estrangeira e por isso sem regras gramaticais de português aplicáveis a ela.

“Y” em português, portanto, não tem as funções de uma vogal, porque não é uma vogal, e sim uma consoante. É aí que está o erro.

Mayra, com o y tônico, só seria possível se o mesmo correspondesse às regras vocálicas, pois só assim ele poderia ser considerado um hiato, por ser tônico. É que os hiatos existem justamente para separar as vogais átonas das tônicas. E o y não é vogal.

É assim que gramaticalmente a pronúncia do meu nome está errada. E a vida inteira, todas as pessoas que eu me irritei com por insistirem em me chamar de “maira” estavam corretas e a errada era eu.

Vale ressaltar, claro, que há a lenda popular de que “o nome é meu, o jeito que eu disser que ele é dito é o jeito que ele deve ser dito” e graças a essa lenda minha identidade com y tônico está a salvo.

Graças a essa lenda eu posso dizer que, ok, y não é vogal e não pode estar em um hiato. Ok, o certo é “May-ra”. Ok. Parabéns, você fez a lição de casa e entendeu a gramática. Mas meu nome é e sempre será “Ma-y-ra”, nem que eu tenha que começar a colocar um acento agudo no y pra provar isso ao mundo.

E sim, não importa quem você seja, qual seja a situação ou o quanto você diga me amar, meu nome continua sendo “Ma-y-ra” e eu continuarei ficando fula da cara e decepcionada por saber que você fala errado.

Já é chato o suficiente ter que corrigir desconhecidos, ter que corrigir conhecidos é pior ainda.

Kriptonita

Eu nunca fui uma pessoa estudiosa e isso sempre atormentou a minha mãe, que tinha na cabeça que eu era a criança mais inteligente do mundo e se estudasse seria uma adulta de extrema importância para o universo. Nunca vi necessidade em estudar, sempre consegui acompanhar a escola sem o menor esforço. Sempre fui uma das mais bagunceiras da sala, que ia pra diretoria quase toda semana por ter feito alguma arte, mas que nunca levava suspensões ou afins porque todas as notas eram em torno de nove.

Aí eu cresci e a gente veio morar em Curitiba e minha tia resolveu que precisava investir na minha inteligência e ia pagar uma escola particular. E eu continuei sem estudar e indo bem, mas detestava a escola porque as pessoas eram péssimas e eu era inocente e boazinha demais pra ficar naquele mar de meninas malvadas. Então rebelei-me e bati na minha “melhor amiga” e fui pra diretoria e minha mãe nunca soube, porque consegui contornar a diretora, mas meu coração ficou em pedaços, porque eu podia ser a pessoa mais pra frentex do mundo, mas estava fora de cogitação essa coisa de decepcionar minha mãe. Então pedi pra mudar de escola e voltei pra escola pública. E voltei a ser inteligente, a não precisar me esforçar e a ter coleguinhas que me compreendiam e não despertavam em mim meu espírito rebelde maligno.

Só que minha família não tem jeito mesmo e resolveram que iam realizar meu sonho, que era estudar na escola aparentemente mais legal da cidade – e consequentemente mais cara. Minha tia entrou em ação novamente como benfeitora e lá fui eu, morrendo de medo de finalmente ter que começar a estudar pra acompanhar algo. E eu não precisei. Nos primeiros anos minhas notas mantiveram-se acima de nove, exceto pelo 8,5 em geografia, que na oitava série era minha matéria mais odiada. Então chegou o ensino médio e eu estava cansada de ter que rever tudo aquilo que já tinha estudado e desencanei e as notas despencaram, mas continuei sem me esforçar e ainda assim passei em tudo.

Minha filosofia de vida sempre foi a de que a gente não deve “estudar para prova”, porque a prova serve pra testar se a gente aprendeu algo, então se a gente tiver aprendido, na hora da prova vai saber! Só que, claro, esse método só funciona se a gente não dormir nas aulas e se esforçar ao máximo pra prestar atenção. E eu sempre fiz isso, muito bem por sinal. Sempre fui aquela aluna que senta nas primeiras carteiras e que acena com a cabeça a cada frase compreendida, enquanto faz anotações que só a mim fazem sentido e faço comentários sobre a matéria em voz alta, mas na intensidade mais baixa possível, e sempre acabava sendo ouvida pelos professores e passando vergonha. E eu sempre me ferrei na vida por aprender somente aquilo considerado inútil para o grande povo.

É claro que eu não queria saber como funcionava um circuito elétrico, mas era tão interessante entender como faz pra acender duas lâmpadas com um só interruptor que bastava eu olhar a matéria sob esta perspectiva que ela acabava por fazer sentido para mim. E eis que eu, sem nunca ter pego em nenhuma das apostilas de exercício que no terceiro ano custaram cerca de mil reais para o bolso da minha pobre mãe que sempre sonhou com uma filha esforçada e inteligente, acabei por passar no curso que eu quis, do jeito que eu quis e acabei comprovando que minha filosofia de vida de fato funciona.

Faz dois anos que não encosto em um livro de matemática, física, química, geografia ou numa gramática ou um livro de história literária. Eu ainda sei a fórmula de baskhara e diversas outras formas de geometria de sólidos, além de saber usá-las, claro. Sei também muita coisa de álgebra e os conceitos daquelas chatíssimas funções, essas eu não sei usar  – e por isso quase reprovei em estatística – mas sei sua fórmula base e sei a diferença entre uma função exponencial e uma de segundo grau, por exemplo. Sei muita coisa sobre circuitos elétricos e sobre espelhos e óptica, mas não ousem me perguntar algo sobre mecânica, porque eu nunca vi sentido em alguém se pesar dentro de um elevador. Sei várias peculiaridades dos prótons, neutrons e elétrons, mas gosto mesmo é da química orgânica, com seus etanóis e afins que por mais que eu não lembre como escrevê-los, se me derem uma fórmula as chances de eu saber nomeá-la são muitas. Geografia tornou-se uma das minhas matérias preferidas no ensino médio e é claro que eu sei sobre o relevo e sobre a localização dos países, estados e capitais, além de saber um pouco sobre as pirâmides etárias e as rotações planetárias, já até tentei fazer um calendário para Marte! Até hoje recordo-me também dos períodos da literatura e quando escuto o nome de algum dos autores que meu professor trabalhava, sei de qual período faz parte e sua principal obra. Ainda sou apaixonada pelos ultra-românticos e nunca esquecer-me-ei da morte demoradíssima do sr. Werther. De biologia, confesso, só lembro das aulas de sistema reprodutor, o resto é um borrão em minha cabeça e a parte menos inebriada é a que consta a lei de mendel, porque por causa dela eu quase reprovei o segundo ano.

No entanto, minha mais amada é e sempre foi a gramática. O livro mágico que entrei em contato pela primeira vez com seis anos, quando mamãe dava aula de reforço para eu e minhas coleguinhas, na cozinha da nossa casa. A gramática apresentou a mim um mundo mágico em que há diversas regras para uma coisa simples, como escrever. E eu sou eternamente apaixonada por ela. Enquanto todas as pessoas  a desconsideravam porque “não cai no vestibular”, era uma das poucas matérias que me fazia chegar em casa e ter vontade de fazer o dever. De decorar todos os pronomes do mundo e suas utilizações. De fazer inúmeras tabelas coloridas para que eu nunca esquecesse as formas de orações subordinadas existentes e seus usos. É claro que tudo isso é culpa do professor da oitava série, que dava bombons pros melhores alunos e também do professor do ensino médio, que era completamente assustador e que eu adorava surpreender com minha tradicional nota máxima em sua prova, enquanto todo mundo errava uma ou outra coisa e enquanto ele duvidava da minha capacidade, porque tudo que eu fazia era conversar. Eu sei que cometo muitos erros gramaticais e que hoje não tenho todas as regras claras em minha mente. Sei que nunca consegui aprender quando uso “mal” ou “mau” e sempre tenho que parar e pensar por uns trinta segundos antes de me decidir. Sei que não sei usar pontuações, que escrevo repetitivamente e que meus textos acadêmicos são deploráveis, mas… Ai como eu amo a gramática. Ai como dói o coração e a alma ler coisas com erros grotescos. Ai como dá orgulho em terminar de ler algo e não ter me deparado com nenhum erro. Gramática é aquela coisa que eu tenho vontade de morder, comer, engolir, carregar em mim pra sempre e nunca esquecer da existência.

Eis que eu, com 19 anos e depois de dois de faculdade, muito mal aproveitados porque lá não se esforçar não funciona, mas eu meio que desisti de tentar me esforçar, porque não faz parte de mim. Eis que depois de ter tirado as maiores notas no meu curso em matérias de história ao invés de matérias do meu próprio curso, porque supostamente história é e sempre foi a matéria da minha vida, descubro que mesmo eu sabendo detalhes sórdidos sobre a história mundial e do Brasil, mesmo lembrando como se fosse ontem das frases de efeito que meus professores não cansavam de usar e mesmo sabendo que eu queria muito poder viajar no tempo para ver com meus próprios olhos como o mundo funcionava em seus diferentes períodos… Eis que eu tenho uma epifania surgida do além e descubro que a matéria da minha vida é gramática. Que nada nunca vai me excitar mais do que fazer uma análise sintática, uma conjugação verbal ou simplesmente relembrar a época em que eu estudava as formações de palavras, suas desinências linguísticas, a formação de frases e ai. Gramática. Aí está minha kriptonita do universo nerd.

{É claro que continuo te amando, antropologia linda.}

“Ai, por que você não estuda letras então, se ama a gramática tanto assim?” Tem coisas que a gente deixa só no hobby, se não estraga.

O Silêncio da Noite

Houve uma ruptura no espaço tempo com causas desconhecidas ocorrida em algum período entre minha infância e atualidade no qual eu parei de gostar de telefone. Telefone, aquela coisa linda que começava a tocar e eu saía correndo para atender falando “Princesinha do papai, boa noite”, enquanto queria mesmo era que fosse meu tio do outro lado da linha. Eu sempre tive uma família gigante, que sempre nos ligava, mas nenhuma daquelas pessoas me interessava tanto quanto meu tio. Porque pra ele eu não falava que era a princesinha do papai, pra ele eu cantava, sobre o silêncio da noite.

A gente não tinha assunto, não conversava sobre nada. O intuito da ligação não era esse. Era apenas dividir um bom karaokê à distância entre duas pessoas que se amam. E era a primeira música “de gente grande” que eu sabia de cor e a gente cantava e gritava que “quando a gente ama é claro que a gente cuida” e eu não entendia nem um pouco do sentido da música, mas nada importava, porque sempre era noite e a gente quebrava o silêncio com nossa cantoria desafinada sobre o amor, que naquela época não podia ser melhor representado do que pela minha família.

Hoje estou aqui, sozinha, no silêncio da noite e faz meses que não falo com meu tio. Faz anos que não tenho uma conversa agradável ao telefone. Faz anos que substituí as palavras pelas letras e passei a abrir a boca apenas para falar besteiras e coisas sem sentido e encheções de linguiça. A única coisa que restou de tudo isso foi a música, a cantoria, que agora eu faço sozinha, já que ninguém quer compartilhá-la via telefone.

E eu continuo a deitar e a me perguntar antes de dormir, invariavelmente, sobre onde estará você agora. Mesmo que o “você” tenha mudado de rosto e de personificação inúmeras vezes ao longo deste tempo. Mesmo que o “você” por muitas vezes não tenha sido ninguém. Ou todo mundo. Ou qualquer um.  Porque não importa quanto tempo passe ou o quanto eu e o universo em que vivo mude, sempre estarei sozinha, no silêncio da noite, juntando o antes, o agora e o depois. Ah! E cantando Caetano, claro.

O Dilema da Prática

Fazer Ciências Sociais é ter que conviver achando o universo errado o tempo inteiro e se sentir impotente e retardado ao perceber que saber os erros do universo não te torna apto a consertá-los. Foi isso que meu amigo resolveu falar pra mim através de um vídeo enviado pelo Whatsapp, na ocasião em questão ele estava chateadíssimo por ter gastado o resto do seu salário em um livro que ele não ia poder ler naquele momento e que foi caro e que ele não precisaria ter comprado. A indignação consistia no fato de a gente estudar o fetichismo da mercadoria  e ainda assim ser atingido por ela, diariamente, o tempo todo.

Compadeci-me com a causa e embarcamos em uma imensa conversa filosófica para concluirmos o que eu disse na primeira frase desse texto: saber que a coisa existe não nos torna aptos a lidar com ela. Esse é um conceito aplicável às mais diversas áreas da vida e que tem me atormentado horrores. Nossa conversa, porém, me fez tentar agir contra o fetichismo da mercadoria, esforçando-me para comprar só o que acho estritamente necessário e sem ficar com frescuras.

Aí fomos comprar absorvente. Eu e meu irmão, no mercado. Legal como sou, falo “não precisa ir junto, você vai se sentir desconfortável”, sendo que quem se sente desconfortável com essas coisas sou eu, porque nada nunca será mais íntimo que meus absorventes e ter essa intimidade quebrada por alguém que não entende o funcionamento da coisa não me agrada. Encarando a prateleira imensa com diversas marcas, cores, funcionalidades e opções, fui procurar aquele que eu sempre uso. Porque, pra quem não sabe, assim que a mulher menstrua ela passa pela busca por seu absorvente ideal e depois que encontra não quer saber de mais nenhum. E eu lá, procurando e procurando e procurando e lendo as embalagens das novidades e pegando um pacote pra cada ocasião e meu irmão solta “pega esse, vem 32 pelo preço de 28, bem mais barato, pega e vamos”.

Só que não é assim que funciona. Não é. E eu desisti dessa coisa de tentar colocar em prática todas as teorias que eu aprendo, porque isso vai me deixar mais maluca do que eu já sou e porque, pelo amor de Jesus Cristo – se é que ele existiu – se eu não puder escolher nem o meu absorvente mais, o que eu vou poder fazer nessa vida? Falei pra ele que não é assim que funciona e que eu não queria aquele tipo de absorvente, então peguei o que eu queria – meu amado absorvente interno – e ele solta um “mas por que esse? é mais caro” “hm… porque não precisa trocar com tanta frequência, não incomoda, você nem percebe que tá menstruada e não suja de sangue quando vai fazer xixi” “ah e qual a graça de estar menstruada então?”… era pra ser engraçado?

Engraçado é eu encarar algo que acontece com todas as mulheres do mundo como se fosse “assunto proibido” para meninos, porque fui ensinada a nunca conversar sobre isso com ninguém a não ser minha mãe e minhas melhores amigas. Engraçado é eu aprender que há toda uma indústria querendo nos conduzir a comprar coisas fulas que aparentemente nos completarão e na verdade não farão diferença alguma para nosso vazio interior. Engraçado é existir uma prateleira imensa com produtos semelhantes, mas com micro diferenças que só quem os usa percebe e com nomes bizarros e todo tipo de “chamariz” para compra possível. Engraçado é saber que talvez o que era “32 pelo preço de 28” fizesse o mesmo efeito que o que eu gosto, mas não pude me dispor a tentar. Porque era muito mais legal ter um pacote pra cada ocasião, com cores, nomes e funcionalidades distintas. Porque hoje em dia até menstruar me deixa neurótica e insana pensando no quão capitalista, alienada e enganada eu sou. E ao mesmo tempo me faz mandar um “foda-se” e continuar comprando o que estou afim. Tio Marx que me perdoe, mas acho que sou um caso perdido.

E eu que só deixei meu pai saber que menstruei quando tive dezesseis anos, acabo de descobrir que essa é uma palavra muito divertida e estou com vontade de fazer que nem a Summer de “500 Dias com Ela” e sair gritando isso num parque.

Eu escolhi esperar.

Quando envolve religião, a internet vira a coisa mais engraçada do universo.

É um tal de “Igreja opressora” pra cá “papa eu te amo” pra lá e gente que não tá nem aí com nada disso ali no meio, sem saber pra que lado olhar. Eu escolhi rir.

Rir porque sim, eu acho a Igreja opressora e concordo que ela atrasa o caminhar do mundo e que a gente poderia ter alcançado muito mais se não tivesse que ficar preso a dogmas e a uma moral que nunca foi reinventada e só dá dor de cabeça. Só que, ei, eu já fui católica. Por muito tempo. E eu com certeza teria ido pra JMJ se ainda fosse católica, porque eu gostava daquelas músicas e porque, como já diziam os Engenheiros do Havaí “o papa é pop”. Se eu paguei por um ingresso pro RIR pra um show que nem me interessa muito, nem faz sentido pensar que eu perderia um evento com o supra sumo da popularidade DE GRAÇA, no MEU PAÍS. Era muita gente, de muitos lugares. Era minha família ali, rindo, festejando e colocando mil e uma fotos na internet dizendo “por que você não veio?” e, bem, eu sei porque eu não fui. Eu tenho todos os meus motivos para isso. Mas passar um final de semana inteiro ouvindo um velhinho falar em uma língua arrastada na televisão da minha casa enquanto mamãe anotava cada palavra em seu caderninho e ficava gritando “tá vendo Mayra, o papa falou!” me fez lembrar de como era divertido ser católica. De como era legal essa coisa de nascer achando que a vida já tem um plano a ser seguida, que obrigatoriamente a gente vai casar e ter filhos e nunca mais vai fazer sexo, porque ele só serve pra procriação, quem é que ia querer fazer por outros motivos? É nojento. Essa coisa de nunca ver novela ou ouvir Britney Spears, porque não pode entrar em contato com coisas do “mundo”. Lembrei de como eu me arrependo horrores por ter queimado todos os meus brinquedos e filmes da Disney enquanto era criança, mas que na época eu me achei um máximo por ter me livrado do “demônio”. Lembrei-me também de como mais da metade do meu cérebro é ocupada por músicas de Igreja, que basta eu ouvir a primeira palavra que já sei a letra inteira e, na maioria das vezes, sei quem inventou a música e em quais momentos ela é geralmente utilizada. Eu gostava de ser católica. De ir à missa ao domingo e passar o dia inteiro fazendo tapete pra Corpus Christi. De chorar em toda sexta-feira santa e de passar 4h na missa de sábado, porque era divertido, porque era o certo, porque era assim que a vida devia ser.

Eu queria conseguir explicar pra minha mãe o que aconteceu pra que eu parasse de pensar assim. Recentemente resolvi colocar a culpa na quinta série, porque foi lá que eu aprendi pela primeira vez que a bíblia estava errada e que o mundo tinha surgido a partir de uma explosão e não da vontade de Deus e que se a bíblia podia estar errada nisso, também poderia estar errada no resto. Mas eu acho que o que me fez perder a “pira” na coisa foi a preguiça mesmo. Essa coisa de ter que acordar de manhã no domingo pra ouvir um velho falar um monte de coisa magistralmente escrita, mas pessimamente explicada e em seguida um monte de gente repetindo tudo, como se fosse um bando de robô que não precisa pensar porque tá tudo ali e ai. Era tudo tão chato e cansativo. Os mesmos argumentos sendo repetidos o tempo inteiro. A mesma coisa, sempre. E quando eu conseguia ficar acordada e prestar atenção no que o padre falava eu me irritava tanto com a quantidade de coisas sem sentido ou puramente desinteressantes que achava mais estressante ir até aquele lugar do que ficar em casa.

De repente eu parei de acreditar, parei de achar que aquele pedaço de pão era Jesus e passei a questionar a existência de Jesus. Ressignifiquei o livro chamado bíblia e decidi que eu não precisava de nada daquilo pra entender o mundo de um jeito produtivo, porque, no fim das contas, aquelas coisas eram apenas parte de uma cultura tão intrínseca à mim que eu jamais cheguei a questionar. Um dia eu sentei no meu quarto, peguei minha bíblia e toda a minha história e fui questionar cada parte que me lembrava e não encontrei sentido nenhum, em nada. Então eu desisti. Passei a ficar longe de todas as coisas que envolvam Igreja e religião porque sei o quanto machuca a minha família o fato de eu não ser nem um pouco interessada nessa coisa toda, nunca os questionei e me esforço ao máximo para não falar nada que os irrite, tentando respeitá-los, porque sei que não posso exigir isso deles.

Eis que hoje resolvi ser tolerante e passei dez minutos vendo o papa falando para os jovens e, enquanto mamãe concordava com a cabeça, minha tia dizia que ele era lindo e que estava certíssimo e minha prima de 12 anos concordava com tudo, sofri para conseguir prender meu riso. Porque nós, os humanos, chegamos ao cúmulo de um papa (que é chamado de “santo padre” desde que vira papa, mas depois que morre precisa passar pelo processo de santificação como qualquer outro, caso venha a de fato ser santo) ter que olhar pra cara dos jovens e dizer “eu acredito em vocês. Vocês precisam mostrar pro mundo que o amor ainda existe e que o casamento não está fora de moda. Vocês precisam mostrar ao mundo que ainda dá pra amar de verdade.”

É isso? Nos tornamos criancinhas o suficiente pra ter que ouvir de um papa – um velhinho extremamente ocupado com coisas mais importantes, como ser contra o uso de contraceptivos e o aborto – que somos capazes de amar? Só porque resolvemos aproveitar nossa solteirice e juventude antes de planejar casar, ter filhos e viver a vida chata que toda criança católica nasce se imaginando em? Por favor, senhor papa, isso não tem nada a ver com não saber amar. Pelo contrário, tem a ver a saber amar TANTO que escolhemos esperar estar maduros e independentes o suficiente pra conseguir levar isso adiante. Significa que amamos tanto a nós mesmos que não precisamos ficar procurando a outra metade da laranja para dividir a vida pra ver se ela faz sentido, porque ela faz sentido pelo simples fato de existir. Desculpe-me, eu sei que você é um velho fofinho que fala “xófens” de um jeito encantador, mas eu escolhi esperar – por um momento que, com fé, não vai chegar –  e enquanto isso aproveito a vida sem medo de ser feliz.