O amor de Gerda, um texto sobre A Garota Dinamarquesa.

          A gente ouve falar sobre amor basicamente desde que nos entendemos por gente e na maior parte das vezes pensamos nele como uma coisa boa. Ruim é não amar ou não ser amado. O amor, em si, é algo bom, benéfico, feliz. Pessoas que amam são mais plenas, completas, realizadas, leves e tranquilas. E esse pensamento faz com que as pessoas entrem em relacionamentos sem pensar em todas as consequências possíveis. Faz com que uns prometam aos outros que ficarão juntos “na alegria, na tristeza, na saúde e na doença“, sem realmente pensar no que isto significa. E faz com que as pessoas só caiam na real sobre como amar é difícil, complicado e dolorido, quando as situações que colocam o sentimento à prova se fazem presente.

          Como agir quando alguém que você ama é agressivo com outra pessoa? Quando comete um crime? Como agir quando essa pessoa erra de uma forma que você não imaginou possível até então? Quando ela te decepciona? Te machuca física ou psicologicamente, mesmo sem perceber? Como se levantar e dizer “ei, você está ocupando o tempo da minha vida e eu realmente preciso ir embora agora. O mundo é gigante e cheio de coisas pra fazer, você vai encontrar seu caminho e eu o meu, tchau.” quando tudo o que você consegue pensar e sentir é que a outra pessoa está em um momento ruim e precisa de você?

          Será que a gente tem a noção do que é amar, se comprometer em um relacionamento e estar disposto a viver com outra pessoa desde o momento em que aceitamos nos relacionar com ela? Estamos dispostos a abster manias, gostos, desejos, anseios, sonhos, rotinas e criar outras manias, gostos, desejos, anseios, sonhos e rotinas?

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          A gente conseguiria ficar perto um do outro caso tudo fosse diferente? Caso ao invés de você ser mulher e ele homem, ele fosse mulher? Caso um dos dois perdesse todo o dinheiro ou, de repente, ficasse milionário? Conseguiriam ficar juntos caso um dos dois ficasse cego ou perdesse o emprego, mudasse radicalmente de aparência ou tivesse a maior chance profissional da vida, mas em outro país e ambos tivessem que se mudar? Ou não é possível se imaginar em nenhuma dessas situações?

          Eu costumo dizer que quando digo que amo alguém, é porque eu realmente sinto. E que para mim, o amor significa exatamente tudo isso aí: estar do lado da pessoa não importa o que esteja acontecendo. Eu consigo me imaginar largando a minha vida para ajudar alguém que eu ame e esteja precisando de mim. Consigo me imaginar (e as vezes já realizo) essa coisa de abster de minhas próprias vontades em prol das dos outros de vez em quando. Eu realmente me esforço pra entender o que se passa na cabeça das pessoas que eu amo e para me tornar uma pessoa amável, uma boa companhia, alguém legal de se estar perto, minimamente confiável e feliz. É claro que nem sempre eu consigo, é um esforço diário e eu vivo brigando e ficando brava com o universo inteiro, mas insisto em tentar. E tive a graça (ou o desprazer) de ainda não saber qual é o meu limite. Acho que todos nós temos um. Ninguém consegue se submeter e abster a tudo em prol de outra pessoa, ninguém é capaz de se anular tanto assim e continuar saudável e sã.

E é claro que todo esse pensamento insano sobre qual seria o meu limite no quesito amor surgiu após eu assistir a “A Garota Dinamarquesa” (The Danish Girl). O filme de 2015, que ainda não estreou nos cinemas do Brasil, é estrelado pelo Eddie Redmayne e pela Alicia Vikander e conta a história de Lili, uma mulher que nasceu homem e se casou com Gerda, mas depois se descobriu mulher e inicia um processo muito doloroso de transição. Porém, minha empatia maior não foi para com a história dolorosa, conflituosa e difícil de Lili, mas sim com a Gerda. Porque ela se casou com o amor da vida dela e o viu morrer e se transformar na Lili e ao invés de largar ele, ficar brava ou sei lá, ela ajuda a Lili a se entender. Ela continua ali e se transforma na melhor amiga do outro ego do seu marido. Com o tempo, ela consegue até captar que a Lili vai ter uma vida amorosa que não engloba ela e uma vida em geral que não engloba ela e ela tem que passar por todo o processo de entender que seu marido realmente morreu. E ela continua ali, do lado da Lili. E eu nunca tinha visto um amor tão intenso e tão real.

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          No decorrer do filme, fiquei imaginando o que aconteceria se a história fosse o oposto. Se a Gerda de repente se descobrisse Robert, será que o Einar (nome masculino da Lili) ficaria ao lado dela com a mesma presteza e benevolência que ela ficou na situação mostrada no filme? Eu não tenho como afirmar isso concretamente, mas arrisco dizer que sim. Arrisco dizer que a relação daquelas duas pessoas ali era realmente uma junção de almas, que ultrapassava toda a sanidade possível. Elas se aceitaram da forma que vieram ao mundo e lutaram para serem reconhecidas por seus trabalhos e para serem felizes da maneira que podiam.

          E o filme é baseado em uma história real, o que torna tudo ainda mais intenso. O roteiro foi inspirado em diários reais escritos pela Lili e, puxa, se mesmo em um filme contado sob o ponto de vista da Lili a gente consegue ter toda essa empatia pela história da Gerda, imagine como seria se fosse ela contando os fatos. Essas duas mulheres são incríveis e eu estou estasiada ao perceber que uma das melhores histórias de amor que eu vi retratadas no cinema não pertence ao “padrão heterossexual” que é comumente mostrado.

          Esse filme me fez repensar sobre o que eu já rotulei como “algo que senti“, sobre o que já formulei sobre amor e o que já pensei sobre relacionamentos. Foi tão intenso que não consegui chegar aqui e fazer uma resenha mais técnica ou alguma crítica insensível. Pelo contrário. Eu preciso agradecer ao universo por ter feito essa história acontecer e chegar até mim. Preciso agradecer a todas as pessoas que o universo me permitiu (e me permite) amar e preciso admitir que como humana em eterno aprendizado, mais uma vez ficou provado que tenho muito a aprender, crescer e tolerar. E que talvez assim eu consiga aprender a ser mais sincera com meus sentimentos e honesta comigo mesma. A Gerda é mais uma das minhas heroínas, e dessa vez nem é fictícia.

Pronto, falei.

Estou com vontade de me apaixonar.

A gente passa dias e dias da nossa vida concluindo inúmeras coisas distintas impulsionados por um monte de gente aleatória e acabamos por perder a capacidade de pensar por conta própria e concluir coisas por nós mesmos. Há muito tempo eu não paro, centralizo minhas energias e escrevo em algum lugar tudo que estou sentindo, para tentar me compreender. Eu costumava fazer isso muitas vezes ao longo da minha vida, mas perdi essa capacidade. Desisti de mim e aceitei o fato de me importar mais com o que mostrar para os outros sobre mim do que em engrandecer aquilo que de fato me constrói. Eu não sei mais o que me constrói. As vezes eu olho no espelho e fico plenamente irritada por ter cabelos coloridos, porque aquilo não tem nada a ver comigo e porque não faz sentido que eu tenha tido tanta vontade de ser assim. Eu tento lembrar os motivos e simplesmente não consigo, mas não consigo acordar e virar uma pessoa de cabelo preto porque isso falaria menos ainda à respeito de mim e simplesmente não faz sentido que eu me importe tanto com o que eu digo à respeito de mim enquanto não estou falando nada. Mas eu me importo.

Saí do facebook sexta-feira com o intuito de voltar somente quando considerar a rede social dispensável em minha vida. Eu sei que não conseguirei ficar longe por muito tempo, mas espero que seja tempo suficiente para eu aprender a aproveitar o tempo que me resta e torná-lo produtivo. Eu espero poder olhar mais nos olhos das pessoas ao invés de ter que ficar intepretando se suas frases são ou não irônicas, porque eu sou péssima nesse tipo de interpretação quando a gente não consegue ouvir a voz. Eu passei cinco anos naquele ambiente e desperdicei muito tempo da minha vida lá. Eu desaprendi a pensar enquanto estive lá. Desaprendi a ponderar aquilo que seria importante ou útil de ser compartilhado com aquilo que eu achava super legal e queria perpetuar de algum modo. Desaprendi a pensar antes de falar ou agir. Desaprendi a sentir, porque ali era tudo tão simples que a gente nem precisava sentir nada. Bastava clicar um botão que automaticamente éramos amigos, nem havia sentido em tentar sermos de fato. E eu não fui. Nem de um milionésimo das pessoas que estavam ali descritas como meus “amigos”. Porque tornei-me uma pessoa péssima o suficiente para agir futilmente, de acordo com o que as aparências demonstravam. Sendo falsa. Agindo conforme a música que tocava no momento.

Um barco solitário em um oceano completamente desconhecido. Essa fui eu. Ali, contando todos os meus segredos para pessoas que contam todos os seus segredos para outros desconhecidos e que jamais se olham e conversam e jamais sentem e jamais pensam um no outro ou se permitem entrelaçar os laços de algum modo. Todos conectados, mas ninguém interligado. E eu comecei a me sentir sozinha, porque de fato eu estava sozinha. Trancada no meu quarto, a vida inteira. Em meio a quatro paredes, uma garota, seu computador em seu colo e uma cadeira que já tem o formato exato das suas costas e a deixa apenas mais doída a cada dia que passa. E eu não quero ser assim. Eu não fui feita pra ser assim. Eu sou hiperativa, eu pulo, canto, danço, remexo e falo abundantemente e, ai meu Deus! Eu esqueci como se conversa! Eu não sei mais olhar para uma pessoa e passar horas e horas falando porque eu tenho na minha cabeça que já falei tudo que poderia falar em redes sociais e não há mais nada a acrescentar, então eu devia ficar apenas calada e esperar o momento de voltar pra casa para escrever em redes sociais sobre os momentos que eu deveria estar compartilhando ao vivo. Porque aqueles momentos não importavam mais, mas sim os comentários nas fotos e nos status e as curtidas e compartilhamentos e toda a repercussão.

Eu sempre fugi de relacionamentos porque acho que nada deve ser pra sempre e quando duas pessoas começam a compartilhar tempo demais e coisas demais uma sobre a outra, elas acabam por se cansar e ficarem insuportáveis. Fujo de relacionamentos porque os vejo como fadados a terminar e eu sou preguiçosa demais para começar algo que eu ache que vai terminar. Aí eu lembro da minha mãe dizendo todo dia pra mim que eu preciso me apaixonar e das minhas tias desejando muitos “namorados” nos meus aniversários e das minhas amigas que resolveram começar a namorar no mesmo ano, inusitadamente. E olho ao redor e descubro que eu nem tenho chance de conseguir isso algum dia. E nem é só porque passei a vida inteira fugindo e não tenho em mente um conceito positivo de “namoro” formado. Não. É porque eu passei tanto tempo tentando construir um “eu” internético que acabei por esquecer de construir o meu eu real. E eu jamais conseguiria cogitar a hipótese de me relacionar com alguém sabendo que sou uma completa bagunça e que nem sei quem eu sou de fato.

Então eu acordei essa semana em meio ao emaranhado de livros, seriados e filmes que a distância do facebook têm me feito entrar em contato com. Em meio à toda solidão que eu me vi imediatamente dentro, porque sem facebook é como se todos os outros barcos do oceano tivessem afundado e as águas tivessem resolvido ficar tão paradas que é capaz de haver uma inundação de dengue e ainda assim ninguém vai te dizer oi. Em meio às reflexões geradas, às crises de abstinência, à depressão e à vontade de apagar esses cinco anos que eu desperdicei em uma porcaria viciante que me dá vontade de reativar a cada minuto que eu encosto nesse computador, eu descobri que sou muito mais igual ao resto do mundo do que eu imaginava. Descobri que eu tenho vontade de me apaixonar e de ter um namorado pra ir ao cinema comigo e rir dos filmes ruins. Eu tenho vontade de ter alguém com quem eu possa de fato conversar com, olho no olho, sem ter vontade de chorar, só se for de tanto rir. Mesmo que isso me sufoque. Mesmo que depois de duas semanas eu esteja completamente arrependida e querendo voltar às mentiras da rede social azul. Mesmo que eu perceba que nem é grande coisa e que eu não deveria ter pensado nessa hipótese. E eu acho que se demorei tanto tempo da vida pra perceber que tenho essa vontade, demorarei um bom tempo para aceitá-la dentro de mim. No momento estou apenas assustada, me sentindo um lixo solitário largado ao leu e morrendo de uma vontade abrupta de voltar ao facebook para olhar o Spotted e conversar com determinadas pessoas.

{Daqueles textos que dóem a alma e causam arrepios ao ser escritos e que antes de postar você repensa mil vezes porque acha assustador demais sentir algo assim}

Kriptonita

Eu nunca fui uma pessoa estudiosa e isso sempre atormentou a minha mãe, que tinha na cabeça que eu era a criança mais inteligente do mundo e se estudasse seria uma adulta de extrema importância para o universo. Nunca vi necessidade em estudar, sempre consegui acompanhar a escola sem o menor esforço. Sempre fui uma das mais bagunceiras da sala, que ia pra diretoria quase toda semana por ter feito alguma arte, mas que nunca levava suspensões ou afins porque todas as notas eram em torno de nove.

Aí eu cresci e a gente veio morar em Curitiba e minha tia resolveu que precisava investir na minha inteligência e ia pagar uma escola particular. E eu continuei sem estudar e indo bem, mas detestava a escola porque as pessoas eram péssimas e eu era inocente e boazinha demais pra ficar naquele mar de meninas malvadas. Então rebelei-me e bati na minha “melhor amiga” e fui pra diretoria e minha mãe nunca soube, porque consegui contornar a diretora, mas meu coração ficou em pedaços, porque eu podia ser a pessoa mais pra frentex do mundo, mas estava fora de cogitação essa coisa de decepcionar minha mãe. Então pedi pra mudar de escola e voltei pra escola pública. E voltei a ser inteligente, a não precisar me esforçar e a ter coleguinhas que me compreendiam e não despertavam em mim meu espírito rebelde maligno.

Só que minha família não tem jeito mesmo e resolveram que iam realizar meu sonho, que era estudar na escola aparentemente mais legal da cidade – e consequentemente mais cara. Minha tia entrou em ação novamente como benfeitora e lá fui eu, morrendo de medo de finalmente ter que começar a estudar pra acompanhar algo. E eu não precisei. Nos primeiros anos minhas notas mantiveram-se acima de nove, exceto pelo 8,5 em geografia, que na oitava série era minha matéria mais odiada. Então chegou o ensino médio e eu estava cansada de ter que rever tudo aquilo que já tinha estudado e desencanei e as notas despencaram, mas continuei sem me esforçar e ainda assim passei em tudo.

Minha filosofia de vida sempre foi a de que a gente não deve “estudar para prova”, porque a prova serve pra testar se a gente aprendeu algo, então se a gente tiver aprendido, na hora da prova vai saber! Só que, claro, esse método só funciona se a gente não dormir nas aulas e se esforçar ao máximo pra prestar atenção. E eu sempre fiz isso, muito bem por sinal. Sempre fui aquela aluna que senta nas primeiras carteiras e que acena com a cabeça a cada frase compreendida, enquanto faz anotações que só a mim fazem sentido e faço comentários sobre a matéria em voz alta, mas na intensidade mais baixa possível, e sempre acabava sendo ouvida pelos professores e passando vergonha. E eu sempre me ferrei na vida por aprender somente aquilo considerado inútil para o grande povo.

É claro que eu não queria saber como funcionava um circuito elétrico, mas era tão interessante entender como faz pra acender duas lâmpadas com um só interruptor que bastava eu olhar a matéria sob esta perspectiva que ela acabava por fazer sentido para mim. E eis que eu, sem nunca ter pego em nenhuma das apostilas de exercício que no terceiro ano custaram cerca de mil reais para o bolso da minha pobre mãe que sempre sonhou com uma filha esforçada e inteligente, acabei por passar no curso que eu quis, do jeito que eu quis e acabei comprovando que minha filosofia de vida de fato funciona.

Faz dois anos que não encosto em um livro de matemática, física, química, geografia ou numa gramática ou um livro de história literária. Eu ainda sei a fórmula de baskhara e diversas outras formas de geometria de sólidos, além de saber usá-las, claro. Sei também muita coisa de álgebra e os conceitos daquelas chatíssimas funções, essas eu não sei usar  – e por isso quase reprovei em estatística – mas sei sua fórmula base e sei a diferença entre uma função exponencial e uma de segundo grau, por exemplo. Sei muita coisa sobre circuitos elétricos e sobre espelhos e óptica, mas não ousem me perguntar algo sobre mecânica, porque eu nunca vi sentido em alguém se pesar dentro de um elevador. Sei várias peculiaridades dos prótons, neutrons e elétrons, mas gosto mesmo é da química orgânica, com seus etanóis e afins que por mais que eu não lembre como escrevê-los, se me derem uma fórmula as chances de eu saber nomeá-la são muitas. Geografia tornou-se uma das minhas matérias preferidas no ensino médio e é claro que eu sei sobre o relevo e sobre a localização dos países, estados e capitais, além de saber um pouco sobre as pirâmides etárias e as rotações planetárias, já até tentei fazer um calendário para Marte! Até hoje recordo-me também dos períodos da literatura e quando escuto o nome de algum dos autores que meu professor trabalhava, sei de qual período faz parte e sua principal obra. Ainda sou apaixonada pelos ultra-românticos e nunca esquecer-me-ei da morte demoradíssima do sr. Werther. De biologia, confesso, só lembro das aulas de sistema reprodutor, o resto é um borrão em minha cabeça e a parte menos inebriada é a que consta a lei de mendel, porque por causa dela eu quase reprovei o segundo ano.

No entanto, minha mais amada é e sempre foi a gramática. O livro mágico que entrei em contato pela primeira vez com seis anos, quando mamãe dava aula de reforço para eu e minhas coleguinhas, na cozinha da nossa casa. A gramática apresentou a mim um mundo mágico em que há diversas regras para uma coisa simples, como escrever. E eu sou eternamente apaixonada por ela. Enquanto todas as pessoas  a desconsideravam porque “não cai no vestibular”, era uma das poucas matérias que me fazia chegar em casa e ter vontade de fazer o dever. De decorar todos os pronomes do mundo e suas utilizações. De fazer inúmeras tabelas coloridas para que eu nunca esquecesse as formas de orações subordinadas existentes e seus usos. É claro que tudo isso é culpa do professor da oitava série, que dava bombons pros melhores alunos e também do professor do ensino médio, que era completamente assustador e que eu adorava surpreender com minha tradicional nota máxima em sua prova, enquanto todo mundo errava uma ou outra coisa e enquanto ele duvidava da minha capacidade, porque tudo que eu fazia era conversar. Eu sei que cometo muitos erros gramaticais e que hoje não tenho todas as regras claras em minha mente. Sei que nunca consegui aprender quando uso “mal” ou “mau” e sempre tenho que parar e pensar por uns trinta segundos antes de me decidir. Sei que não sei usar pontuações, que escrevo repetitivamente e que meus textos acadêmicos são deploráveis, mas… Ai como eu amo a gramática. Ai como dói o coração e a alma ler coisas com erros grotescos. Ai como dá orgulho em terminar de ler algo e não ter me deparado com nenhum erro. Gramática é aquela coisa que eu tenho vontade de morder, comer, engolir, carregar em mim pra sempre e nunca esquecer da existência.

Eis que eu, com 19 anos e depois de dois de faculdade, muito mal aproveitados porque lá não se esforçar não funciona, mas eu meio que desisti de tentar me esforçar, porque não faz parte de mim. Eis que depois de ter tirado as maiores notas no meu curso em matérias de história ao invés de matérias do meu próprio curso, porque supostamente história é e sempre foi a matéria da minha vida, descubro que mesmo eu sabendo detalhes sórdidos sobre a história mundial e do Brasil, mesmo lembrando como se fosse ontem das frases de efeito que meus professores não cansavam de usar e mesmo sabendo que eu queria muito poder viajar no tempo para ver com meus próprios olhos como o mundo funcionava em seus diferentes períodos… Eis que eu tenho uma epifania surgida do além e descubro que a matéria da minha vida é gramática. Que nada nunca vai me excitar mais do que fazer uma análise sintática, uma conjugação verbal ou simplesmente relembrar a época em que eu estudava as formações de palavras, suas desinências linguísticas, a formação de frases e ai. Gramática. Aí está minha kriptonita do universo nerd.

{É claro que continuo te amando, antropologia linda.}

“Ai, por que você não estuda letras então, se ama a gramática tanto assim?” Tem coisas que a gente deixa só no hobby, se não estraga.

O Silêncio da Noite

Houve uma ruptura no espaço tempo com causas desconhecidas ocorrida em algum período entre minha infância e atualidade no qual eu parei de gostar de telefone. Telefone, aquela coisa linda que começava a tocar e eu saía correndo para atender falando “Princesinha do papai, boa noite”, enquanto queria mesmo era que fosse meu tio do outro lado da linha. Eu sempre tive uma família gigante, que sempre nos ligava, mas nenhuma daquelas pessoas me interessava tanto quanto meu tio. Porque pra ele eu não falava que era a princesinha do papai, pra ele eu cantava, sobre o silêncio da noite.

A gente não tinha assunto, não conversava sobre nada. O intuito da ligação não era esse. Era apenas dividir um bom karaokê à distância entre duas pessoas que se amam. E era a primeira música “de gente grande” que eu sabia de cor e a gente cantava e gritava que “quando a gente ama é claro que a gente cuida” e eu não entendia nem um pouco do sentido da música, mas nada importava, porque sempre era noite e a gente quebrava o silêncio com nossa cantoria desafinada sobre o amor, que naquela época não podia ser melhor representado do que pela minha família.

Hoje estou aqui, sozinha, no silêncio da noite e faz meses que não falo com meu tio. Faz anos que não tenho uma conversa agradável ao telefone. Faz anos que substituí as palavras pelas letras e passei a abrir a boca apenas para falar besteiras e coisas sem sentido e encheções de linguiça. A única coisa que restou de tudo isso foi a música, a cantoria, que agora eu faço sozinha, já que ninguém quer compartilhá-la via telefone.

E eu continuo a deitar e a me perguntar antes de dormir, invariavelmente, sobre onde estará você agora. Mesmo que o “você” tenha mudado de rosto e de personificação inúmeras vezes ao longo deste tempo. Mesmo que o “você” por muitas vezes não tenha sido ninguém. Ou todo mundo. Ou qualquer um.  Porque não importa quanto tempo passe ou o quanto eu e o universo em que vivo mude, sempre estarei sozinha, no silêncio da noite, juntando o antes, o agora e o depois. Ah! E cantando Caetano, claro.

O Dilema da Prática

Fazer Ciências Sociais é ter que conviver achando o universo errado o tempo inteiro e se sentir impotente e retardado ao perceber que saber os erros do universo não te torna apto a consertá-los. Foi isso que meu amigo resolveu falar pra mim através de um vídeo enviado pelo Whatsapp, na ocasião em questão ele estava chateadíssimo por ter gastado o resto do seu salário em um livro que ele não ia poder ler naquele momento e que foi caro e que ele não precisaria ter comprado. A indignação consistia no fato de a gente estudar o fetichismo da mercadoria  e ainda assim ser atingido por ela, diariamente, o tempo todo.

Compadeci-me com a causa e embarcamos em uma imensa conversa filosófica para concluirmos o que eu disse na primeira frase desse texto: saber que a coisa existe não nos torna aptos a lidar com ela. Esse é um conceito aplicável às mais diversas áreas da vida e que tem me atormentado horrores. Nossa conversa, porém, me fez tentar agir contra o fetichismo da mercadoria, esforçando-me para comprar só o que acho estritamente necessário e sem ficar com frescuras.

Aí fomos comprar absorvente. Eu e meu irmão, no mercado. Legal como sou, falo “não precisa ir junto, você vai se sentir desconfortável”, sendo que quem se sente desconfortável com essas coisas sou eu, porque nada nunca será mais íntimo que meus absorventes e ter essa intimidade quebrada por alguém que não entende o funcionamento da coisa não me agrada. Encarando a prateleira imensa com diversas marcas, cores, funcionalidades e opções, fui procurar aquele que eu sempre uso. Porque, pra quem não sabe, assim que a mulher menstrua ela passa pela busca por seu absorvente ideal e depois que encontra não quer saber de mais nenhum. E eu lá, procurando e procurando e procurando e lendo as embalagens das novidades e pegando um pacote pra cada ocasião e meu irmão solta “pega esse, vem 32 pelo preço de 28, bem mais barato, pega e vamos”.

Só que não é assim que funciona. Não é. E eu desisti dessa coisa de tentar colocar em prática todas as teorias que eu aprendo, porque isso vai me deixar mais maluca do que eu já sou e porque, pelo amor de Jesus Cristo – se é que ele existiu – se eu não puder escolher nem o meu absorvente mais, o que eu vou poder fazer nessa vida? Falei pra ele que não é assim que funciona e que eu não queria aquele tipo de absorvente, então peguei o que eu queria – meu amado absorvente interno – e ele solta um “mas por que esse? é mais caro” “hm… porque não precisa trocar com tanta frequência, não incomoda, você nem percebe que tá menstruada e não suja de sangue quando vai fazer xixi” “ah e qual a graça de estar menstruada então?”… era pra ser engraçado?

Engraçado é eu encarar algo que acontece com todas as mulheres do mundo como se fosse “assunto proibido” para meninos, porque fui ensinada a nunca conversar sobre isso com ninguém a não ser minha mãe e minhas melhores amigas. Engraçado é eu aprender que há toda uma indústria querendo nos conduzir a comprar coisas fulas que aparentemente nos completarão e na verdade não farão diferença alguma para nosso vazio interior. Engraçado é existir uma prateleira imensa com produtos semelhantes, mas com micro diferenças que só quem os usa percebe e com nomes bizarros e todo tipo de “chamariz” para compra possível. Engraçado é saber que talvez o que era “32 pelo preço de 28” fizesse o mesmo efeito que o que eu gosto, mas não pude me dispor a tentar. Porque era muito mais legal ter um pacote pra cada ocasião, com cores, nomes e funcionalidades distintas. Porque hoje em dia até menstruar me deixa neurótica e insana pensando no quão capitalista, alienada e enganada eu sou. E ao mesmo tempo me faz mandar um “foda-se” e continuar comprando o que estou afim. Tio Marx que me perdoe, mas acho que sou um caso perdido.

E eu que só deixei meu pai saber que menstruei quando tive dezesseis anos, acabo de descobrir que essa é uma palavra muito divertida e estou com vontade de fazer que nem a Summer de “500 Dias com Ela” e sair gritando isso num parque.