Stand up Comedy

Dizem que com quinze anos viramos mocinhas. Eu nunca parei pra pensar se acreditava nisso antes de completar quinze anos, mas uma vez me disseram que quando a gente tinha 12 era adolescente e eu, mesmo me considerando criança, me fingi de adolescente só pra poder fazer mechas no cabelo. Com 15 anos resolvi que era mocinha e fiz isso porque eu queria muito viajar sozinha nas férias de Julho.

O destino escolhido foi a cidade em que passei minha infância, Cachoeira Paulista, mas na verdade era só uma desculpa para que, quando eu estivesse lá, conseguisse convencer minha mãe a passar um final de semana em São Paulo. Consegui, baseando-me em argumentos como “vou visitar minha tia” e “eu tenho amigos lá!”. E eu realmente tinha. Amigos que conheci pela internet e com os quais conversei arduamente por muito tempo da minha vida e sempre quis conhecer. Uma delas eu já conhecia, porque o pai mora em Curitiba e a gente se encontrou aqui várias vezes, ela foi até na minha festa de aniversário! Mas o meu amigo, que era a pessoa que eu mais queria conhecer na história do mundo, eu só veria se fosse a São Paulo. E eu fui.

Fiquei na casa da minha tia e passeei com ela por dois dias, até que chegou o dia em que eu iria ao shopping com meus amigos paulistanos. O shopping ficava longe e minha tia nem sabia como chegar lá, mas Lola – minha amiga – me buscou na estação do metrô e fomos ao shopping juntas. Lá chegando eu fui apresentada a todos os amigos dela e, entre eles estava Jay. Foi aquela efusão maravilhosa de sentimentos e a gente riu e se divertiu horrores. Assisti Harry Potter pela primeira vez na vida e chorei com a morte do Dumbledore porque ele me lembrava o Gandalf e depois tomamos Starbucks, algo que eu nunca tinha visto. Rimos e conversamos e anoiteceu e a gente tinha que ir embora e ninguém ia embora de metrô e eu não sabia voltar da estação de metrô para a casa da minha tia e morria de medo de andar sozinha em São Paulo no escuro. Minha tia estava trabalhando e eu estava sem celular, logo a única coisa plausível a fazer foi pegar o ônibus com eles e parar na rua perto da minha casa.

Só que a gente se empolgou conversando e passamos pela rua que eu supostamente deveria descer. E a partir disso eu não sabia o que fazer, porque eu não tinha o endereço anotado, não tinha pra quem ligar, não tinha nada. Estava perdida em São Paulo em um ônibus com as amigas da Lola, porque ela morava perto do shopping e foi a pé e Jay já havia descido do ônibus. A única coisa que me restou foi ir até a casa de uma das meninas, a Karina. A casa dela ficava num bairro muito longe do da minha tia e a gente demorou um tempão no ônibus até chegar lá e acho que depois do ônibus ainda pegamos outro meio de transporte.

Chegando na casa dela comemos um macarrão muito gostoso que sua avó havia feito e meu plano era dormir ali e esperar amanhecer para falar com a minha tia e ir pra casa dela. Só que, para não preocupá-la, resolvi ligar dizendo onde estava, que ia dormir fora e passando um telefone para contato. Eis que minutos depois minha tia liga altamente desesperada, brigando horrores comigo e querendo saber todas as explicações possíveis e eu sem saber direito o que dizer, disse a verdade e ela ficou assustadíssima, porque supostamente o bairro era perigoso e era a casa de desconhecidos. Então ela ligou para os meus pais, contou o que estava acontecendo e fez com que eles ligassem para a casa da menina, eu, no auge da vergonha, atendi o telefone e ouvi mamãe dizer que eu poderia dormir lá sem problemas, enquanto papai estava esbaforido ao seu lado dizendo que eu deveria era morrer porque isso não se faz. Liguei pra minha tia, falei o que minha mãe disse, mas ela disse que não se sentia segura com isso e que iria me buscar.

E ela foi. Demorou um bom tempo até que ela chegasse e quando chegou nos contou que a estação de metrô estava quase fechando e que de lá até a casa ela foi de carona com um desconhecido. Agradeceu à família da Karina e eu também, enquanto morria de vergonha, pedia desculpas pelo transtorno e dizia que a comida estava muito boa. Então voltamos pra casa e combinamos de deixar os detalhes sórdidos da história desta parte da aventura guardados no nosso subconsciente para que jamais fossem compartilhados com alguém.

Voltei pra casa no outro dia, mamãe e Mário me buscaram na rodoviária. A viagem foi tranquila, a companheira de poltrona de ônibus era legal e passamos o tempo todo conversando sobre livros. Mamãe disse que eu não poderia usar internet por um bom tempo e meu irmão concordou. Papai nunca tocou no assunto. Eu conversei por cartas com meus amigos por mais algumas vezes e depois que voltei a usar a internet pedi desculpas a eles pelo que tinha feito. Vi e conversei com a Lola várias vezes depois, mas com os outros nunca mais.

E eu aprendi que a gente não vira algo automaticamente, só porque chega a certa idade.

Eu não era adolescente com doze anos. Não era mocinha com quinze e não era adulta com dezoito (embora tenha voltado a mais uma aventura com amigos de internet em São Paulo e me dado bem). Nós não somos obrigados a agir de acordo com um determinado fluxo de pensamentos, sentimentos e ideias que dizem ser apropriadas para o momento da vida em que estamos. Não me sinto inferior a ninguém por ter brincado de barbies alucinadamente até os treze anos ou por ter feito e continuar fazendo inúmeras merdas juvenis. Não é porque a gente atinge determinada idade ou passa por outros processos de socialização, como a faculdade ou um primeiro emprego, que devemos automaticamente nos sentir aptos a nos portar como adultos amadurecidos. A gente pensa que não, mas nem nossos pais foram assim. Eles também eram irresponsáveis, imaturos e imprevisíveis, porque ninguém aprende a lidar com as responsabilidades da “vida real” repentinamente. Porque esquecem disso na hora que nos contam sobre o decorrer da vida, mas o amadurecimento demanda tempo.  E é aí que a gente entende Peter Pan, mas no nosso mundo não há Neverland. E por mais que a gente queira retardar esse processo e ficar velho em idade, mas jovem em pensamentos por toda a eternidade, não podemos. Não é uma escolha plausível. Em algum momento a gente cresce e, do mesmo jeito que simplesmente paramos de brincar de bonecas sem saber porquê, seremos tão adultos quanto nossos pais.

Enquanto isso, resta-nos aproveitar as viagens loucas, encruzilhadas, e cicatrizes, medos, tristezas, dificuldades, irresponsabilidades e insanidades, pois elas nos farão crescer, mesmo que não pareça. Porque é assim que a vida é, uma peça teatral completamente improvisada.

Help me to retard this process, dear friend.

E a minha é um stand up comedy.

P.S.: Foi proposta para esta semana a brincadeira de escrever uma crônica por dia e eu aceitei, mas não sei diferir gêneros literários, então preparem-se para uma semana de tentativas de crônicas que nunca serão crônicas!

Abrindo o Fecho

Eu sempre fui péssima em abrir fechos de sutiãs. Sempre fui péssima em tudo que envolve sutiãs, diga-se de passagem.

Eu tinha sete anos e ia na casa das minhas amigas ouvir Britney Spears escondida enquanto tentávamos dançar como ela. Uma das meninas sempre pegava os sutiãs da mãe, colocava e distribuia pras outras, porque “a Britney tem peitos, também temos que ter!” e eu nunca colocava o sutiã. E dizia “eu não quero ter peitos” e elas diziam “mas toda menina tem que querer ter peitos!” e eu ficava emburrada e ia pra casa desolada imaginando que um dia talvez eu tivesse peitos.

A minha relação com os peitos foi muito proveitosa, não há como negar. Mamãe tinha muito leite e eu mamei abundantemente até dois anos de idade, então enjoei e comecei a fazer birra e ela parou de me dar leite e começou a doar pro resto do mundo. Depois disso, perdi o contato com aquele punhado de pele da mamãe, tendo-o visto nela e em todas as outras mulheres da família inúmeras vezes porque eu detestava tomar banho sozinha. Não tinha a noção de que um dia aquilo faria parte de mim e quando eu descobri isso, fiquei chocada.

Lembro de me olhar no espelho, me imaginar com peitos e começar a chorar. Pensando que se algum dia aquilo acontecesse comigo, seria terrível. Não é que eu ache feio qualquer pessoa ter peito, eu não me importo com os peitos alheios, só não os queria em mim. A simples ideia de que isso pudesse ocorrer me atormentava horrores e quando eu cheguei na puberdade tudo que conseguia pensar era “por favor, que eu não tenha peitos” e, bem, meu desejo foi realizado e eu sou absurdamente feliz com isso.

Só que não ter peitos não faz com que você se liberte do fecho do sutiã. Porque usar sutiã não tem nada a ver com ter peitos, pelo menos não na cultura brasileira a qual estou inserida. Aqui as pessoas usam sutiã para disfarçar o mamilo, porque mamilo aparecendo é tão chocante quanto andar de saia sem calcinha. É absurdamente deplorável, julgável e reprovável. Então, a partir do momento em que os mamilos das meninas começam a se desenvolver, elas são coagidas a usar sutiã.

“Vamos comprar sutiã, filha!” “Pra que, mãe?” “Todas as meninas da sua idade usam… é pra não aparecer os peitinhos no uniforme”

E todas nós caímos nessa conversa. E ganhamos sutiãs bonitinhos, fofinhos, aparentemente confortáveis e podemos ir pra escola nos sentindo mais mulheres, porque sutiã é coisa de mulher de verdade e a partir disso é como se a gente de fato tivesse crescido. E nunca mais paramos de usar sutiã. Os seios crescem um pouquinho e lá vamos nós comprar de um número maior, uma cor diferente, estampa mais bonitinha e acabamos gostando da coisa, ela se torna tão natural quanto usar calcinha e ninguém nunca pensa em qual sua funcionalidade, simplesmente compra e usa.

Só que quando você não tem peitos, comprar sutiã é altamente torturante. Porque não existe um que seja do tamanho perfeito, sempre vai ficar faltando pano nas costas ou sobrando bojo e não importa o quão coloridos e versáteis eles pareçam, eles sempre vão te machucar. Usar sutiã, caros colegas, é uma tortura. É aquela coisa terrível de se sentir presa o dia inteiro por uma coisa que você não faz ideia do motivo para usar, porque pra quem tem peitos ele é super útil! Ele levanta, deixa no lugar e ajuda a distribuir o peso, fazendo com que as costas não doam, é altamente necessário! Pra quem não tem peitos, não serve pra nada. Não tem nada pra levantar, não tem peso nenhum. Por favor, deixem meus mamilos em paz.

E daí cá estou eu, dezenove anos na cara, mais de dez sutiãs na gaveta. Cada um com um modelo e cor e tamanho diferentes, nenhum sendo confortável o bastante para me fazer querer usar o dia inteiro. Sem saber como lavar aquela coisa de um jeito que não estrague e que limpe de verdade e sempre tendo que pedir ajuda pra mãe. Sem habilidade para abrir ou fechar o maldito fecho, sendo obrigada a colocar a coisa do mesmo jeito que a minha vó colocava, ou seja, abrindo e fechando com ele virado pra frente e tendo como única habilidade no quesito “sutiã” o ato de tirá-lo. Porque é a única coisa que eu faço. Porque eu chego em casa e antes de tirar as meias e o sapato vou logo tirando o sutiã daquele jeito que não precisa tirar a roupa primeiro, ou no máximo eu abro ele e deixo ali só pra constar. Porque machuca, dói, aperta, prende, é aquela coisa que eu nunca esqueço que estou usando, não é orgânica à minha pessoa e, AI. Cansei.

Cansei. É isso. Simples assim.

Eu conheço gente que não usa cueca pelos mesmos motivos que eu detesto usar sutiã, só que, por favor, não usar cueca é muito mais problemático, mas como os terceiros não percebem a falta da cueca, ninguém reclama. Só que todo mundo percebe a falta do sutiã, então todo mundo automaticamente julga, cochicha, reclama, intervém e eu decidi lutar contra isso. Romper esses grilhões, rasgar essas amarras e abrir esse fecho. Eternamente. Decidi que só vou usar sutiã quando eu me sentir altamente desconfortável em alguma roupa sem ele – o que acontece as vezes, porque há roupas com costuras no peito que coçam e nesses casos até sutiãs são mais confortáveis – e em todas as outras ocasiões ficarei sem.

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E se você for dizer “Ai, mas é sensual e você já não tem peitos, se não tiver sutiã ninguém vai querer você” eu vou responder que “se a pessoa me quiser ou não baseando-se nas roupas que eu uso ou não, é um babaca tão grande que prefiro manter distância”.

AI-CI-TEL

A gente era criança e por algum motivo insano decidimos tropeçar juntas pela vida. Faz sete anos e eu ainda consigo olhar pra você e contar tudo que tenho vontade, enquanto sei que você faz o mesmo. Compartilhamos experiências, primeiras vezes, últimas vezes, fim de ensino fundamental, início e fim de ensino médio, faculdade… Dividimos os melhores entretenimentos possíveis e fizemos coisas divertidíssimas juntas. A gente se encontrou, dentre tantas pessoas existentes, encontramos uma à outra. E não tivemos medo ou vergonha de compartilhar nossos momentos, como fizemos nos últimos sete anos. Outro dia vi no facebook que se a amizade passa dos sete anos ela é eterna e eu realmente espero que a nossa seja.

Eu não sei direito o que te dizer, pensei em fazer um texto só com os melhores vídeos da nossa história, mas ia ser vergonhoso demais. Tem coisas que só uma deve saber da outra. A gente já pagou tanto mico juntas… Nem gosto de pensar sobre. E, por alguma razão que nunca vou entender qual, continuamos amigas. Mesmo sendo tão diferentes, mesmo que um terceiro olhando para nós pense “como é que elas são amigas?”, porque, bem, se fosse por esteriótipos a gente devia se odiar. Você faz ~~publicidade~~ na ~~UP~~ e eu faço ~~Ciências Sociais~~ na ~~Reitoria~~ e, gente, você não come pão! Vai dizer, temos tudo pra ser completamente diferentes e aquele tipo de gente que não entra em sintonia e não se suporta, mas, é exatamente o oposto! As vezes eu sinto como se o fato de sermos diferentes em vários quesitos acabasse por nos completar. Quero dizer, todos os nossos problemas e encruzilhadas são vistos sob pelo menos duas perspectivas diferentes e isso já dá uma baita ajuda na hora de tomar decisões, não concorda? Além do mais, é absurdamente impossível que coisas bobas como faculdade atrapalhe o que a gente tem. E eu me sinto tão gay estabelecendo “eu e você” como um relacionamento, que nem te conto!

A verdade é que você é uma das minhas amigas mais antigas e uma das poucas que eu consigo manter tanto contato hoje quanto tive quando tinha doze anos. Você é aquela pessoa que eu sei que posso atormentar em meus momentos depressivos e que posso morrer de rir quando estiver feliz. Você sempre vai me mandar links e vídeos aleatórios e vai completar as músicas que te mando via sms. Você sempre vai me convidar para eventos legais e vai deixar eu usufruir de seus contatos para entrar de graça em alguns lugares. Você vai me chamar pra passar um feriado inteiro na sua casa e na hora de ir embora ainda vai dizer “minha mãe perguntou se você não quer ficar mais um pouco”, isso depois da gente ter comido um monte de coisa gostosa, ter visto vários filmes, vídeos, seriados, notícias engraçadas, conversas bizarras e ido conversar no bosque. Você é uma daquelas pessoas que eu sei que quando eu achar que só a minha família vai se importar comigo, estarei enganada, porque você também vai. Mesmo que esteja brava. Mesmo que eu tenha sido super grossa e tenha te deixado revoltadíssima.

Eu sei que eu posso te fazer chorar, posso brigar com você e ser completamente insensível em questões que para você são de extrema importância, mas eu acho que você sabe que eu te amo infindavelmente e que a simples hipótese de te perder em algum momento já faz meu coração ficar apertado e angustiado. Eu acho que você sabe que mesmo quando eu te xingo e te dou algum dos meus tapinhas, só estou torcendo para que tudo termine bem e você seja feliz. Acho que você sabe que dia 30 de Julho está marcado na minha história como seu aniversário, mesmo que você esteja há milhas e milhas de distância, comendo coisas super gostosas das quais eu morreria de inveja. Acho que você sabe que eu realmente pretendo ter um empreendimento com você, para que a gente possa exercer nossas profissões quando der vontade, mas conseguir nos manter com algo super divertido e que nos deixe financeiramente independentes. Acho que você sabe que eu não passei sete anos ao teu lado à toa. Você precisa saber que é porque eu espero passar muito mais tempo. Porque sobrevivemos juntas a todas as metamorfoses juvenis possíveis e agora que as coisas estão começando a se estabilizar, é até injusto cogitar que nos separaríamos.

Ei. Você está fazendo dezenove aninhos! Em algum lugar de São Paulo há dezenove anos sua mãe estava torcendo para que você chegasse logo. Até consigo imaginar a cara dos seus pais quando te viram e do teu irmão também, claro. Você parece ter sido aquele tipo de criança que brincava sozinha, mas que tinha várias amigas também. E que sempre inventava coisas para manter a cabeça contente e estava sempre cantando e dançando por aí. Você parece ter sido aquele tipo de criança hiperativa que deixava os pais cansados, mas que quando eles te viam dormindo sorriam e ficavam felizes por você existir. Eu sou muito feliz por você existir.

Fique agora com o vídeo do carinha do dente assim /

Desilusões

“Qual seu maior sonho?”

“Ficar em recuperação.”

“Sério? Eu fico todo bimestre desde a segunda série e não tem nada de legal nisso”

“Ah, eu nunca fiquei, parece divertido!”

“Então não estude e fique!”

“Mas eu não estudo e mesmo assim não fico.”

Acordar às 10h para ir à aula que começaria às 13h. Não, não era pra fazer tarefa de casa ou estudar para a prova, era pra ver os desenhos legais que passavam naquela hora. Almoçar, ir pra escola, prestar atenção nas aulas, conversar como se esse fosse o intuito principal do ato de “estudar”. Voltar pra casa, ler livros aleatórios, fazer a tarefa de inglês do meu irmão, brincar de barbie, tomar banho, arrumar as unhas, assistir novelas mexicanas, fazer as tarefas de casa e dormir.

Estudar de manhã. Tomar banho e café da manhã antes da aula, o que requeria acordar duas horas antes da mesma iniciar porque lerdeza matinal sempre foi um de meus nomes do meio. Ir pra escola e não entender nada porque não era mais uma escola católica e eu tinha que entender que o mundo foi o resultado de uma grande explosão e que eu na verdade fui um macaco. Mudar tudo que fui ensinada a acreditar com o intuito de ser capaz de passar de ano. Fazer péssimas amizades. Espancar pessoas. Manipular a diretora. Voltar pra casa e dormir a tarde inteira, acordar e assistir filmes ou conversar no MSN. Brincar de Barbie, escondida porque já não era mais criança.

Estudar de manhã, desistir do banho e ficar só com o café da manhã. Pegar ônibus com o irmão e frequentar a escola mais fácil da vida. Não prestar atenção em nada, ficar conversando e lendo coisas aleatórias. Ir bem sem fazer a menor ideia de como. Teatro, natação e aula de inglês. Novelas mexicanas, músicas e unhas pintadas cada dia com uma cor diferente.

Estudar de manhã em uma escola difícil, chegar atrasada quase todos os dias e conseguir ir bem contra tudo o que esperavam. Passar de ano com notas fenomenais sem nunca ter encostado em um livro, sabe-se lá como. Passar as tardes absurdamente encantada com o universo teatral e escrevendo mil e uma histórias, enquanto lia meus mais de cinquenta livros anuais e imaginava um mundo em que eu pudesse apenas fazer isso ao longo de todos os dias.

Estudar de manhã e ter preguiça de tomar café e de estudar e de prestar atenção. Dormir na aula pela primeira vez na vida e em seguida faltar aulas e mais aulas para ir a uma praça perto da escola acompanhar os “amigos errados”. Conseguir, finalmente, a primeira recuperação da vida, na matéria que sempre foi a mais odiada por não fazer nenhum sentido, afinal, qual a utilidade de saber de que uma célula é formada? Passar por essa recuperação e virar freguesa das mesmas, que me acompanharam por todos os bimestres ao longo do ensino médio inteiro. Pegar duas recuperações finais por causa de um décimo e ter vinte dias a menos de férias por isso, sendo motivo de piada do professor que jamais acreditou que era eu naquela situação. “Você desistiu de estudar?” “Não! Eu nunca estudei!”

Ter 14 anos e trocar e-mails com sua melhor amiga, no auge da revolta falar que “tô tão puta que nem vou estudar pra essa coisa de vestibular e aposto que mesmo assim eu passo!” e receber bronca e uma resposta “quero ver você falar isso daqui a três anos” e eu não falei. Mas também não estudei. Eram oitenta perguntas e eu precisava acertar trinta pra passar, era impossível que eu fosse tão burra assim. Não estudei e passei em uma boa posição, porque ENEM – essa prova linda – existe e porque eu escrevo mil e uma histórias e afins desde que tinha por volta de onze anos.

Faculdade. 120 páginas em textos para serem lidos em dois dias na primeira semana, sendo um dos textos de Focault, aquele filósofo que eu nunca entendi. Continuei sem entender e não entendo até hoje, diga-se de passagem. Li todos os textos e fiz todas as provas após estudar um monte. Greve. Quatro meses longe daquele universo. Quando voltei nada mais foi o mesmo. Nunca mais consegui ler um texto x para a aula de amanhã. Passei a acumular tudo para supostamente ler na véspera da prova e quando a véspera da prova chegava eu olhava pras quase mil páginas acumuladas, chorava, lia meu caderno e tentava encarnar alguma pessoa inteligente que saberia responder àquelas perguntas.

E eu passei. Em todas as matérias. Fiz vários trabalhos durante a madrugada porque tinha esquecido da existência, demorei meses a fazer outros porque queria que fossem perfeitos, esqueci de fazer alguns, fiz outros baseando-me em resumos dos textos que encontrei na internet. Tudo mal feito. Tudo nas coxas. Tudo vergonhoso. Tudo pra fazer a pessoa que fui aos treze anos morrer de vergonha.

Aí eu reprovei.

É isso.

Oi, eu tenho dezenove anos e acabo de reprovar em uma das matérias mais fáceis que já tive a oportunidade de fazer porque sou incompetente e ao invés de prestar atenção nas aulas eu dormi. Dormi, saí para passear, fui para o laboratório de informática, fiquei na cantina, no pátio, na biblioteca, em centros acadêmicos que nem eram do meu curso, em casa, ou lá mesmo, mas com a cabeça em qualquer outro lugar. Reprovei porque a primeira prova da matéria foi no mesmo dia que a prova da matéria que envolve matemática e, dado meu histórico de ensino médio nada confiável neste quesito, resolvi que iria estudar para esta. No fim, a prova que envolvia matemática era mais fácil que a outra porque a matéria teria 5 avaliações, enquanto que a outra teria apenas duas. E daí eu fui pessimamente mal na primeira prova e fiquei com preguiça de estudar para a segunda, porque minha procrastinação e preguiça são agudas o suficiente para eu surtar ao ler a primeira frase de um texto de uma matéria que eu sei que nada sei e que não vou passar mesmo que eu tente, então, bem, pra que tentar? E daí eu nào tentei. Não estudei. Fiz a prova de qualquer jeito. A matéria é importante demais para que eu passe sem saber nada, pensei, melhor fazer de qualquer jeito e refazê-la decentemente algum dia. Mamãe concordou com minha linha de raciocínio. Eu deveria estar aliviada. Tudo deu certo. Eu realizei meu sonho. Eu reprovei. Eu. A pessoa que tentou suicídio por ter tirado 6,8 numa prova que valia 7 porque isso faria com que eu não ficasse com 10 na média. Eu. Atingi o nível de desprendimento para com notas que sempre almejei e simplesmente reprovei. Porque eu quis. Porque eu não quis. Porque tive que. Reprovei. É isso. Pronto. Satisfeitos?

Podem rir da minha cara agora. Ou não.

Enquanto passa pela cabeça dos que me conhecem que eu devo estar absurdamente destruída e que “ah, agora ela vai levar a vida a sério”, não. Eu passei a tarde dormindo, depois de ter comido um monte de chocolate e estou prestes a ir comer de novo e a terminar de ler um livro legal para, quem sabe, durante a madrugada terminar algum dos mil e um trabalhos que tenho que entregar na semana que vem. Ok. Reprovei em uma matéria, não quero reprovar em todas, mas não preciso ser super nerd. Não preciso ler todos os textos, saber todas as coisas e ter notas impecáveis. Eu não preciso provar pra ninguém que sou capaz de alguma coisa, eu prefiro a ilusão de que talvez se eu me esforçasse eu seria a melhor aluna do mundo, mas como não me esforço devo contentar-me com o comum. Qual o problema no comum?

Sim. Estou chateadíssima por ter reprovado, porque eu sempre quis reprovar, mas tinha que ser numa matéria difícil pelo menos. Duvido que eu consiga me concentrar para fazer decentemente algum dos meus outros trabalhos porque isso vai ficar martelando na minha cabeça ad infinitum e eu vou me deprimir e vou chorar e me entupir de chocolate e agir como se nada tivesse acontecido enquanto dou risinhos nervosos.

Cadê os abraços e as palavras amigas?

Paradoxos

Sem face.

Eu queria que todos os seres humanos fossem rostos inebriados que passam por nossas vidas. Queria que todos eles fossem uma tábula rasa, prontos para que nós déssemos o significado que temos vontade.

Com face.

Queria que todos os seres humanos tivessem apenas rostos, fossem rostos andantes que se cruzam por aí e despertam anseios distintos em cada um que encontram. Queria que todos fossem apenas rostos.

Nada.

Talvez pudéssemos apenas ser um nada. Um amontoado de células vivas que respiram e agem de acordo com o que foram programadas a fazer, ingenuamente achando terem escolhas próprias.

Tudo.

Eu e você sendo tudo o que quisemos ser, com face ou sem, tudo ou nada, nessa simples metamorfose ambulante e no eterno equilíbrio entre o real e o imaginário, pendendo sempre para o segundo.

Seres perambulantes que em nada influem, mesmo achando que influem em tudo.

Apenas rostos. Sem nome. Sem história. Cada um cumprindo seu papel para o funcionamento do mundo e deixando todo o resto seguir da maneira que deve. Naturalmente. Mesmo que o natural há muito não exista.