VMA 2016 – A Consagração de Beyoncé

      VMA é a sigla de Video Music Awards, evento anual realizado pela emissora de televisão estados-unidense MTV. O intuito da premiação é celebrar, principalmente, a música pop dos EUA. O palco do evento é alvo de performances incríveis ano após ano, que insistem em se reinventar. Os artistas, cada vez melhores, encantam o público e o evento acaba se tornando mais popular pelas apresentações do que pelos prêmios propriamente ditos.

      Isso não significa que os prêmios são menos importantes, pelo contrário. Ganhar troféus no VMA traz bastante prestígio para os artistas. Madonna, considerada a rainha do  pop, havia ganhado a maior quantidade de prêmios, totalizando vinte estatuetas. A cantora ainda é mundialmente conhecida, mesmo tendo 58 anos de idade, segue encantando gerações com sua música e capacidade performática. Ela revolucionou a indústria musical de sua época e inaugurou o pop da forma como conhecemos hoje. 

     Porém, os anos 2000 trouxeram uma nova rainha para o gênero musical. De 1998 a 2001 estimava-se que quem viria a ocupar o mesmo espaço que Madonna, no futuro, seria Britney Spears, que foi, então, apelidada como princesa do pop. No entanto, a cantora acabou passando por momentos turbulentos em sua vida pessoal, que a fizeram se afastar da música por um longo período. Entre vais e vems, Britney Spears acabou perdendo a capacidade de se reinventar, ou simplesmente o “andar da carruagem”, como diria o dito popular.

       Em 2016 ela lançou seu nono álbum, chamado Glory. As músicas e os videoclipes, assim como as apresentações ao vivo, seguem o mesmo padrão das que ela apresentava no auge de sua carreira, quando tinha cerca de dezessete anos. Para o público é maravilhoso ver que a Britney está de volta na indústria da música, que está se sentindo bem e segura de si e disposta a retomar a carreira, no entanto, acostumados com grandes performances, à lá Lady Gaga, Katy Perry, Rihanna e Beyoncé, o público acaba achando um tanto estranho ver que Britney ainda se arrasta no chão semi-nua, exatamente como no clipe de Toxic. Nosso coração segue junto com ela, torcendo para que ela fique bem e continue produzindo músicas dançantes, mas já não é possível compará-la com as outras grandes artistas do pop atual. Infelizmente.

       Quem não cansa de se sobressair, é Beyoncé. Essa sim, chegando ao nível de Madonna. Em 2016, Beyoncé lançou seu primeiro vídeo-álbum, chamado Lemonade. Intenso, magistral e muito bem performado, o vídeo conta a história da traição sofrida por Beyoncé, por parte de seu marido, também músico, Jay-Z. O ditado popular diz para que a gente faça uma limonada dos limões que a vida nos dá, Beyoncé foi lá e fez.

        Ela transformou um momento pessoal possivelmente tenebroso, tortuoso e depressivo em uma obra de arte fenomenal, reinventando o gênero pop e tirando aquela imagem de que música pop é fútil. Beyoncé fez um álbum sobre empoderamento feminino. Depois de já ter emplacado músicas incríveis sobre o assunto, como Flawless, e de ter iniciado sua apresentação no VMA de 2014 recitando um discurso da Chimamanda Ngozi Adichie, sobre como todos deveríamos ser feministas, ela foi lá e mostrou para o mundo inteiro que é possível sentir um baque na vida pessoal e transformar em arte.

       As performances de Lemonade não são incríveis apenas no vídeo álbum oficial, Beyoncé não tem decepcionado nas apresentações ao vivo que faz com as músicas do álbum. Uma prova disso foi sua apresentação de 15 minutos no VMA, que ocorreu ontem. De forma excepcionalmente densa, tanto na coreografia, quanto na qualidade vocal e de performance, Beyoncé mostrou para o mundo que uma traição não necessariamente derruba você. Ela mostrou, principalmente, para o Jay-Z, que ele não tem poder para parar ou acabar com ela, pelo contrário. Ela transformou um momento tenebroso na vida dela em arte libertadora. E ela foi lindamente recompensada por isso, ultrapassando Madonna na quantidade de estatuetas que levou para casa. Agora, Beyoncé já tem 24. 

          Toda vez que vejo alguma performance relacionada a Lemonade, imagino como é que ela se sente. Como é ver o mundo inteiro cantando e ovacionando um álbum que provavelmente foi o mais difícil da carreira dela. Como é ver que todo mundo sabe que ela é a rainha da música pop e que ninguém consegue entender como é que Jay-Z pôde traí-la. Eu queria saber como é para ela reviver cada uma daquelas músicas, embebidas com os sentimentos angustiantes, de revolta e de nascente paz. Queria saber como é que ela consegue cantar tudo aquilo e depois voltar para casa com o marido e levar a vida normalmente. 

           Por outro lado, queria saber como é para o Jay-Z ver que ter traído a esposa não virou apenas manchete em revista de fofoca, não se voltou favorável a ele, mas, pelo contrário, alavancou a carreira dela e gerou o álbum mais bonito já feito. Queria saber como ele se sente, vendo tudo que ela pensou e sentiu por ele, estampado naquelas músicas que agora todo mundo sabe cantar. Como é para ele, dormir com ela depois de uma performance em que é nítido que todo mundo está bravo por ele tê-la traído e, ao mesmo tempo, feliz, pelo fruto que gerou? 

          E a Blue Ivy? Como será que ela processará tudo isso quando for um pouco maior? “Meu pai traiu a minha mãe e ao invés de ela se separar, fez um álbum fenomenal, revolucionou a indústria da música, inspirou milhões de mulheres pelo mundo e mostrou que não necessariamente elas precisam ser oprimidas, e continuou com o meu pai, depois de colocá-lo no devido lugar“? Sério, essa família pós Lemonade deve estar passando por momentos bizarros, tendo que se redescobrir o tempo todo e com os sentimentos postos à prova direto.

          Beyoncé mais uma vez arrasou em uma premiação. Saiu não apenas com estatuetas, mas com a melhor performance da noite e com milhões de fãs no mundo inteiro se sentindo representados. Ela foi lá e fez uma limonada com todos os limões que as mulheres tiveram que engolir. Ela esfregou na cara da sociedade norte-americana o racismo que ela sofreu, mostrou que uma negra pode sim chegar no topo do mundo, pode sim reverter o padrão de opressão estabelecido, pode sim reinar sozinha. Beyoncé honra o termo que ela criou, quando diz “I slay“, porque, sim, colega. Sim. Quando você fala, quando você reina, quando você brilha, a gente só sabe ficar parado e aplaudir. Muito obrigada.

Beyoncé no VMA, acompanhada por mães de jovens negros que foram brutalizados pela polícia dos EUA.
Beyoncé no VMA, acompanhada por mães de jovens negros que foram brutalizados pela polícia dos EUA.

Grace & Frankie – Série de 2015

Quem faz a série?

      A série é produzida pela Netflix e criada por Marta Kauffman e Howard J. Morris. Mistura comédia e drama, em episódios que duram no máximo 30 minutos. Até o momento foram ao ar 22 episódios, distribuídos em 2 temporadas. A terceira temporada já foi confirmada pela produtora e tem estreia prevista para maio de 2017.

       O elenco é composto por Jane Fonda, Lily Tomlin, Martin Sheen, Sam Waterston, June Diane Raphael, Craig T. Nelson, Timothy V. Murphy, Ethan Embry, Christine Lahti e Baron Vaughn.

Sobre o que se trata?

      A série conta a história de Grace e Frankie, duas idosas que, logo no primeiro episódio, recebem um pedido de divórcio por parte de seus maridos, visto que eles decidiram formar um casal. A partir disso, Sol e Robert moram juntos, na casa em que Grace vivia, fazendo com que ela e Frankie acabem por dividir uma outra casa que pertencia a ambas as famílias, na praia. 

    Grace e Frankie são mulheres muito diferentes. Enquanto a primeira é sofisticada e conservadora, a segunda é hippie e holística. A princípio elas não se dão bem juntas e conforme os episódios passam, elas desenvolvem uma grande amizade. 

        Para além da amizade das duas e do relacionamento homossexual de seus ex-maridos, também idosos, a série aborda a vida familiar dessas pessoas, como um todo. Grace é mãe de duas filhas e fez a vida em uma empresa de cosméticos, criada e gerida por ela. Após ter decidido se aposentar, deixou a empresa sob os cuidados de sua filha mais velha, Briana. Sua outra filha, Lydia, é casada e mãe, mas tem uma história amorosa passada com Coyote, um dos filhos adotivos de Frankie, que teve problemas com drogas e álcool. O outro filho adotivo de Frankie, Bud, é um advogado de sucesso.

      Assim, cada uma dessas relações e personagens vai sendo desenvolvido no decorrer da narrativa, que tem como pano de fundo Grace e Frankie tentando encarar a vida de solteiras – e uma amizade forçada – após estarem na terceira idade.

O que eu achei dela?

     A série me ganhou pelo elenco acima da idade comum das contratações de Hollywood. Em um mundo que Meryl Streep precisa se pronunciar avisando que as mulheres de Hollywood deixam de ser convidadas para papéis bacanas depois de atingirem certa idade, é bastante louvável ver uma produtora crescente como a Netflix investindo nesse tipo de produção. Ter duas mulheres com mais de 60 anos no pôster da série foi o que me fez assistir o primeiro episódio, mas foi a qualidade da atuação e a curiosidade por trás da história e de como a narrativa seria desenrolada que me mantiveram ali.

      Frankie é uma personagem excepcionalmente cativante. Ao mesmo tempo, ela é maluca demais e acaba tendo uma série de defeitos – ainda mais ressaltados ao lado de Grace. Eu assisti a todos os episódios muito rapidamente, porque as duas me fizeram continuar a ver sem parar. 

     A segunda temporada, a meu ver, é melhor do que a primeira. Enquanto a primeira aborda mais o coração partido das duas e a necessidade de se reinventarem, a segunda mostra a amizade que já floresceu e o quanto ela foi positiva para ambas. O cuidado que nasce na relação delas é muito bonito de se ver, por ser inesperado e por surgir com motivações frustrantes para ambas as partes. Querendo ou não, Grace é a única que pode entender a dor de Frankie e vice-e-versa. 

   O último episódio da segunda temporada é um show de empoderamento feminino e me fez perceber o quanto essa série é importante por abordar um campo bastante inexplorado: a importância do empoderamento e da amizade na terceira idade. Enquanto o senso comum imagina idosos solitários e improdutivos, a série consegue mostrar que a idade não carrega inutilidade consigo e que é possível passar dos 60 anos e ainda conseguir se redescobrir, aprender e contribuir com o mundo. 

    Apesar de ser uma série leve, a história é bem contada e consegue ser empolgante. Não posso dizer que é uma das minhas séries preferidas, mas guardo ela no coração com carinho, recomendo sempre que posso e tenho certeza que assistirei à próxima temporada num piscar de olhos.

Análise do PL que propõe a “Escola sem Partido”

       O “Programa Escola sem Partido” surgiu enquanto projeto de lei federal em 1996 e recentemente tornou-se popular através de um site, que tinha a intenção de promover conteúdo educacional não-doutrinário. A justificativa para tal ação é baseada na ideia de que nos últimos 30 anos a educação brasileira tem sido “enviesada” por pensamentos político-ideológicos direcionados aos alunos de forma inconsciente e obrigatória. Toda essa ideia é basicamente uma expressão longa para dizer que a escola brasileira doutrinava os alunos para terem um pensamento de esquerda. Por “pensamento de esquerda” é entendido que as crianças eram ensinadas a ser contra o Estado, não terem religião, moral ou bons costumes e a desafiar os padrões estabelecidos pela sociedade, incluindo as relações amorosas. Basicamente, os criadores desse projeto acreditam que a escola brasileira forma cidadãos propensos a achar ações afirmativas, respeito, igualdade e liberdade coisas boas. Mas, é claro que o meu texto não pode ser levado a sério, afinal, eu vim de uma escola doutrinada.

[Diga-se de passagem que até o ensino médio estudei em escola católica, cuja doutrinação era ser cristã – comecei a escola cristã, terminei não-cristã. Fiz faculdade de humanas, em uma universidade pública – completamente o oposto do que a escola católica esperava de mim. Não acredito que doutrinação funcione, basta eu me olhar no espelho.]

                Enquanto o “Escola sem Partido” funcionava como um site, o projeto de lei foi despertado e começou a ser levado a sério pelos senadores federais – e também por parte significativa da população. Atualmente, o projeto, criado pelo senador Magno Malta, do PR da Bahia, está sendo analisado por uma relatoria que tem como cabeça o senador Cristovam Buarque. O projeto se baseia na lei  Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, o “Programa Escola sem Partido“. Está aberta uma consulta pública sobre o Projeto, onde todos os cidadãos podem dar sua opinião, após a realização de um rápido cadastro. O texto integral da lei e sua justificativa podem ser encontrados na mesma página, clicando no link “ler texto completo“.

              Aqui eu farei uma análise de cada um dos parágrafos do texto, mostrando as razões para que eu o refute. Como todo Projeto de Lei, há coisas que se salvam e que fariam das escolas um ambiente melhor. Começamos pelo próprio nome, visto que uma “escola sem partido” promoveria o pensamento crítico e a formação de opinião próprias de uma população, que teria um pensamento mais auto-suficiente e formado através de sínteses e não a partir de lados ou pontos de vistas específicos. Porém, claramente o intuito do projeto não é o de incluir a visão indígena e negra no ensino da história e da geografia, por exemplo. Não é inserir a história da china no currículo obrigatório ou ensinar em detalhes teorias matemáticas diferentes daquelas que são consideradas a corrente principal. Certamente, não é o intuito do projeto mostrar teorias de físicos que não obtiveram o mesmo sucesso que Newton ou Einstein e o mesmo em todas as disciplinas. A ideia é, basicamente, impedir que conteúdos relacionados a diversidade religiosa, étnica e de gênero façam parte do currículo obrigatório. O intuito é impedir que o ensino fuja do padrão e ensine apenas coisas que possam ser reproduzidas ao pé da letra. Para mim, pelo menos, não é esse o intuito da existência das escolas e acho criminoso que essa ideia esteja sendo levada a séria pelo senado federal. Ou seja, esse texto é um texto extremamente contrário à proposta e não falo como leiga, mas como cientista social, especializanda em mídias digitais e mestranda em informática. Porque apesar de eu detestar carteiradas acadêmicas, nesse caso ela é válida. Vamos lá:

O Congresso Nacional decreta:

Art.1º. Esta lei dispõe sobre a inclusão entre as diretrizes e bases da educação nacional, de que trata a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, do “Programa Escola sem Partido”.

Art. 2º. A educação nacional atenderá aos seguintes princípios:

I – neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado;

II – pluralismo de ideias no ambiente acadêmico;

III – liberdade de aprender e de ensinar;

IV – liberdade de consciência e de crença;

V – reconhecimento da vulnerabilidade do educando como parte mais fraca na relação de aprendizado;

VI – educação e informação do estudante quanto aos direitos compreendidos em sua liberdade de consciência e de crença;

VII – direito dos pais a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções.

Parágrafo único. O Poder Público não se imiscuirá na opção sexual dos alunos nem permitirá qualquer prática capaz de comprometer, precipitar ou direcionar o natural amadurecimento e desenvolvimento de sua personalidade, em harmonia com a respectiva identidade biológica de sexo, sendo vedada, especialmente, a aplicação dos postulados da teoria ou ideologia de gênero.

          O primeiro artigo, como vemos, não carece de análise. O segundo, por sua vez, carece de várias.

             Ponto I – Uma escola neutra perante as questões sociais não é ideal. A escola é o ambiente em que os problemas sociais devem ser apresentados e as crianças e adolescentes devem ser estimulados a pensar sobre eles e procurar soluções para eles. É assim que se muda o mundo e se sai da estagnação problemática. É claro que os professores não podem fazer campanha política em sala de aula, mas nas aulas de história, filosofia e sociologia, é essencial tratar das teorias, filosofias e ordenações políticas dos atuais e antigos dirigentes do país. Afinal de contas, é a escola que forma os eleitores e está mais do que na hora de os eleitores serem conscientes de seu poder.

          Ponto II – Justamente por ser impossível uma escola neutra, que o pluralismo de ideias é louvável. Mas não é possível ter um pluralismo acadêmico e manter a neutralidade, porque todas as correntes de pensamento são ideologias e ao apresentá-las para os alunos, eles estão suscetíveis a acatar as ideias que consideram mais aprazíveis com suas concepções pessoais. A escola não tem que “ter medo” de abordar um assunto porque ele pode vir a ofender um aluno e sua família. Se o assunto existe, tem fundamentação acadêmica, está no mundo empírico e o aluno pode passar por aquela situação em algum momento da vida, ele precisa aprender sobre ela na escola. O que ele faz com o que ele aprendeu, não é e não deve ser responsabilidade da escola. O pluralismo é louvável se for realmente plural, com viéses negros e indígenas da história, com apresentação de todas as religiões sem preconceito por parte dos professores, com apresentação da existência e necessidade de respeito perante a diversidade sexual etc etc etc.

            Ponto III – A liberdade de ensinar deve ser mantida. O professor tem que decidir o método que quer utilizar no ensino e tem que poder usar o método que considera melhor. O aluno, porém, não tem liberdade para aprender ou deixar de aprender. A escola ensina as coisas e os alunos tentam aprendê-las. Saber e aprender sobre as coisas é diferente de praticar elas no dia-a-dia. O aluno tem que ser ensinado a saber discernir entre o que ele aprendeu na escola e o que ele quer aplicar na vida dele. Essas coisas podem ser dissonantes as vezes e não tem problema nisso.

           Ponto IV – O que é uma liberdade de consciência? É garantir que o aluno seja livre para se conscientizar apenas dos assuntos que considera relevantes? É claro que não tem como obrigar alguém a se conscientizar de algo, mas a escola tem sim que prover os meios para tal, principalmente no que diz respeito à conscientização perante o respeito às diferenças. A liberdade de crença deve sim ser mantida, óbvio. As escolas não podem obrigar alunos ou professores a serem de determinada doutrina religiosa, mas também não podem direcionar todo seu sistema de ensino para ser de acordo a determinada religião. O ensino tem que ser acessível a todas as pessoas, independente de sua religião. Por isso, não deve seguir padrões religiosos, a religião tem sim que ser abordada, mas enquanto conjunto de ideias e de crenças, não como imposição.

             Ponto V – Para quem já leu o Código do Consumidor, pode pensar que esse ponto foi tirado de lá e ao invés de “consumidor” usou-se “educando”. Segundo o CDC, o vendedor tem que sempre se remeter ao consumidor, porque ele é vulnerável à propaganda e outros fatores no decorrer da compra e é dele os direitos. Eu acredito que, nesse caso, os direitos devam ser assegurados aos alunos, mas também aos professores. Nem sempre os alunos são mais vulneráveis. No quesito de aprendizado, provavelmente, visto que eles vão à escola para aprender. Porém, há diversos casos em que os alunos são agressivos com os professores e em que o aluno pertence a uma família rica, fazendo com que o professor seja submetido a chantagens e uma série de problemas. Estabelecer que o aluno é sempre vulnerável na relação ensino-aprendizado é problemático, por não ser um assunto apto a generalizações.

           Ponto VI – Concordo. Os alunos e os pais têm que ter ciência de seus direitos e deveres no que diz respeito ao sistema educacional e no que ele abrange ou não. Não podemos correr o risco de famílias acharem que é responsabilidade da escola coisas que não são. A clareza é a única forma de isso se realizar.

        Ponto VII – Os pais não podem obrigar a escola a ensinar os seus filhos de acordo com sistemas morais e religiosos que ele aprendeu em casa. A escola não tem condições de conhecer cada família dos alunos e saber exatamente o que agrada ou desagrada aquela família. Não tem como uma escola pública ensinar coisas específicas de uma religião x, porque a escola pública é parte do Estado e ele é laico. O que pode ser feito é as escolas ensinarem todos os sistemas morais e religiosos como matéria obrigatória e os pais ensinarem em casa o que querem que os filhos sigam ou não. Outra opção é a escola oferecer cursos separados para cada religião e os alunos escolherem se e quais querem participar. Mas a melhor solução para isso é que os pais procurem uma escola que esteja de acordo com suas próprias concepções morais e religiosas. Se o seu filho é muçulmano e você vai colocar em uma escola particular, não escolha uma escola católica, por exemplo. Ou escolha, mas já sabendo que você terá que desconstruir uma série de ideias dele em casa. Além disso, se o Ponto VI for cumprido, os pais saberão, no momento da matrícula, quais as posições morais e religiosas da escola e não terão como reclamar de qualquer coisa depois, pois terão assinado um termo de consentimento. Por fim, quem quer ensinar valor moral e religioso é a família, então a família que ensine.

         Paragrafo Único – A parte mais problemática do artigo. Basicamente, ele proíbe que a escola mencione a existência de pessoas trans, queer e não binárias em geral. A escola é obrigada a ensinar que existem apenas homens e mulheres e que o gênero corresponde à biologia em todos os casos, sempre, sem exceção. A escola é obrigada a excluir uma parcela da população, que já é excluída diariamente e, com isso, obrigada a formar pessoas que desconhecem essas condições e tratam essas pessoas como aberração. Não é à toa que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans. Além disso, a escola é obrigada a fazer com que alunos que não sintam que seu gênero seja o mesmo que seu sexo, se sintam aberrações. Essa é a pior coisa que qualquer escola pode fazer. É completamente absurdo que isso passe pela cabeça de alguém. Todas as pessoas são pessoas e merecem ser respeitadas enquanto tal. Mais uma vez: se algo existe no munto teórico e no mundo empírico e pode impactar a vida do aluno, ele PRECISA saber da existência.  A escola não vai obrigar ninguém a ser LGBTQ, mas ensinando que essas pessoas existem, talvez um dia sejamos um país mais igualitário e menos preconceituoso. Não existe um “amadurecimento natural da personalidade”. Existem pessoas de 60 anos que descobriram agora que são gays e tem pessoas que sabem isso desde os 5. Alguma delas não é natural? Ou elas são apenas tão diferentes quanto todas as pessoas do mundo, porque ninguém é igual a ninguém? Esse parágrafo é o tipo de coisa que a gente lê e chora por saber que em 2016 esse tipo de ideia ainda surge como certa.

Art. 3º. As instituições de educação básica afixarão nas salas de aula e nas salas dos professores cartazes com o conteúdo previsto no anexo desta Lei, com, no mínimo, 90 centímetros de altura por 70 centímetros de largura, e fonte com tamanho compatível com as dimensões adotadas.

Parágrafo único. Nas instituições de educação infantil, os cartazes referidos no caput deste artigo serão afixados somente nas salas dos professores.

           Esse artigo é bem tranquilo. Corresponde com o ponto VI do artigo anterior. Além dos pais saberem sobre os direitos e deveres do sistema educacional, os alunos também sabem e são lembrados disso e podem se sentir mais seguros a partir disso. Mas, vale lembrar: a própria existência desses direitos e deveres é uma doutrinação e uma ideologia.

Art. 4º. As escolas confessionais e também as particulares cujas práticas educativas sejam orientadas por concepções, princípios e valores morais, religiosos ou ideológicos, deverão obter dos pais ou responsáveis pelos estudantes, no ato da matrícula, autorização expressa para a veiculação de conteúdos identificados com os referidos princípios, valores e concepções.

Parágrafo único. Para os fins do disposto no caput deste artigo, as escolas deverão apresentar e entregar aos pais ou responsáveis pelos estudantes material informativo que possibilite o pleno conhecimento dos temas ministrados e dos enfoques adotados.

               Essa é, na verdade, uma ideia bem legal. Além dos pais saberem que a escola é confessional e vai abordar a religião x, da maneira x, eles têm que assinar que estão cientes e deixam que a escola divulgue esses conteúdos para os alunos.  E, não só isso, eles recebem em casa esses conteúdos. Isso é bem bacana, principalmente nos casos em que os alunos não são da mesma religião que a escola professa, porque aí os pais sabem exatamente que tipo de conteúdo eles estão aprendendo e sabem melhor como lidar com isso.  Mas, de novo, sigo achando que o ideal é ensinar sobre todas as religiões por igual e deixar que o aluno exerça sua liberdade para escolher qual crença quer seguir. Mas, no mundo real não é assim que funciona e são os pais que decidem a religião das crianças, pelo menos até elas virarem adultos. Então, que pelo menos eles saibam o que estão fazendo.

Art. 5º. No exercício de suas funções, o professor:

I – não se aproveitará da audiência cativa dos alunos, para promover os seus próprios interesses, opiniões, concepções ou preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas e partidárias;

II – não favorecerá nem prejudicará ou constrangerá os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas;

III – não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas;

IV – ao tratar de questões políticas, socioculturais e econômicas, apresentará aos alunos, de forma justa, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito;

V – respeitará o direito dos pais dos alunos a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções;

VI – não permitirá que os direitos assegurados nos itens anteriores sejam violados pela ação de estudantes ou terceiros, dentro da sala de aula.

         Agora vamos ao que o PL estipula como “regras” para o professor.

       Ponto I – É plenamente impossível que um professor ministre uma aula sem dar sua opinião pessoal ou sem transmitir algum viés ideológico. A interpretação do professor por sobre um texto, necessariamente, será ideológica e quando um professor ensina um aluno não é apenas a partir de uma leitura rigorosa de teóricos, mas de sua interpretação deles. Tendo isso em mente, concordo que os professores não devam utilizar a escola para promover questões pessoais.

      Ponto II – Outro ponto bastante importante. Da mesma forma que o professor é livre para acreditar no que quiser, mas não para doutrinar o aluno a acreditar na mesma coisa, o aluno o é. E, em se tratando de pessoas em formação, as vezes elas não sabem separar o que é moral religiosa e ideologia e o que é “coisa de escola”, então cabe ao professor prover esse discernimento, sem humilhar ou tirar vantagem dos alunos que, nesse aspecto, podem ser mais vulneráveis.

     Ponto III – Conheço muitas pessoas que, na primeira eleição que votaram, aos 16 anos, escolheram os candidatos que os professores indicaram. Isso é bastante absurdo. Os professores têm que ensinar como pesquisar sobre os candidatos e como votar por convicção e não dizer “votem no fulano, porque o ciclano é um otário”. 

         Ponto IV – Talvez o melhor ponto de todo o Projeto. Mostrar os conteúdos de formas diversas, plurais, sujeitas a críticas e não como verdades absolutas e intocáveis é o caminho para construir uma escola colaborativa e que forme alunos críticos e que pensem por conta própria. Mas para que isso ocorra, são necessários livros didáticos que forneçam esse tipo de conteúdo. É necessário que a formação dos professores siga esse trajeto múltiplo. É necessário que o aluno entenda, desde o começo, que tudo que aprende na escola são hipóteses e que é ele quem constrói, ou não,  sua própria verdade. O professor é um mediador, não a encarnação de deus. 

       Ponto V – Não tem como o professor saber a religião de cada aluno e o que cada um aprende em casa. É claro que ele tem que entender que um aluno adventista não possa comparecer a aula no sábado. Ou que um aluno muçulmano não participe do piquenique no mês do Ramadam. Mas ele não pode deixar de dar a sua aula e apresentar o conteúdo de forma plural e diversa porque possivelmente o ensinamento vai ser contrário ao que a moral da religião x prega. O professor forma alunos para o mundo, não para religião x. É responsabilidade dos pais manter seus filhos nas morais da religião, não o contrário. Eu, por exemplo, levei um susto quando aprendi sobre o Big Bang, porque até então acreditava em Adão e Eva. A escola deveria ter deixado de me ensinar o Big Bang, porque ele feria a convicção da minha religião? Eu acho que não.

          Ponto VI – Não tenho o que comentar.

Art. 6º. Os alunos matriculados no ensino fundamental e no ensino médio serão informados e educados sobre os direitos que decorrem da liberdade de consciência e de crença assegurada pela Constituição Federal, especialmente sobre o disposto no art. 5º desta Lei.

Art. 7º. Os professores, os estudantes e os pais ou responsáveis serão informados e educados sobre os limites éticos e jurídicos da atividade docente, especialmente no que tange aos princípios referidos no art. 1º desta Lei.

Art. 8º. O ministério e as secretarias de educação contarão com um canal de comunicação destinado ao recebimento de reclamações relacionadas ao descumprimento desta Lei, assegurado o anonimato.

Parágrafo único. As reclamações referidas no caput deste artigo deverão ser encaminhadas ao órgão do Ministério Público incumbido da defesa dos interesses da criança e do adolescente, sob pena de responsabilidade.

         Os três artigos garantem basicamente a mesma coisa, mas em âmbitos diferentes – os alunos, os professores e o Estado. Como se tratam de artigos referentes a regulação de divulgação e garantia dos direitos estabelecidos pelos outros artigos, que estou questionando, não tenho muito o que comentar. Acredito que eles cumprem bem o seu papel e devem ser cumpridos, mas não concordo com nenhum desses artigos exatamente do jeito que estão postos.

Art. 9º. O disposto nesta Lei aplica-se, no que couber:

I – às políticas e planos educacionais e aos conteúdos curriculares;

II – aos materiais didáticos e paradidáticos;

III – às avaliações para o ingresso no ensino superior;

IV – às provas de concurso para o ingresso na carreira docente;

V – às instituições de ensino superior, respeitado o disposto no art. 207 da Constituição Federal.

      Esse artigo é bem importante porque ele delimita as áreas de atuação da futura lei. Com as modificações que eu acredito serem extremamente necessárias e a garantia de que a “escola sem partido” não seria uma perseguição implícita às ideologias “de esquerda”, considero que esses âmbitos de aplicação da lei são válidos. Não é possível realizar uma mudança estrutural na educação, nesse nível, sem abranger algum desses âmbitos. Mas, caso a lei seja aprovada, acho importante deixar claro que até toda essa transição ocorrer de forma sensata e justa, ainda vai demorar alguns anos.

Art. 10. Esta Lei entra em vigor no prazo de sessenta dias, a partir da data de sua publicação.

      Como a lei ainda não foi assinada, não há uma data prevista para que entre em vigor. No entanto, eu espero fortemente que essa data demore a chegar, pois há inúmeras prioridades no quesito educação que estão acima de uma transição como essa, que certamente precisa ser repensada e analisada com cuidado. O texto disponível no site continua, apresentando justificativas para a criação da lei. Uma análise delas é também necessária, mas passo a bola para outra pessoa.

        Já que o criador do PL está tão afim de ter acesso a um conhecimento plural e diversificado, seria bastante interessante que ele parasse para ouvir as opiniões contrárias ao projeto e os pontos maiores de questionamento. Acredito que antes de pensar nessas coisas, no mínimo, as escolas públicas precisam de uma melhora na infra-estrutura e os professores precisam de salários melhores. Além disso, a discrepância de qualidade de ensino entre as escolas particulares e públicas deveria ser diminuída e a quantidade de jovens brasileiros com acesso à educação gratuita e de qualidade deveria ser superior a 90%. 

         Termino apresentando duas reportagens sobre o tema, que considero produtivas: A falácia da escola sem partido (ou do pensamento único), “Projeto escola sem partido é uma ode ao atraso”, diz professor. E essa reportagem sobre o caso da professora que foi suspensa após dar uma aula sobre Karl Marx – e o protesto que seus alunos fizeram por sua volta. Fica o questionamento: se a ideia é um ensino plural, porque punir quem ensina Karl Marx, que é um pensador extremamente importante para a história mundial, com influência nas áreas de filosofia, sociologia e economia? Um mundo onde ninguém leia Karl Marx por acaso será um mundo melhor?

          Não esqueçam da consulta pública!

Hibisco Roxo – Chimamanda Ngozi Adichie

          Chimamanda Ngozi Adichie é uma autora nigeriana que mora nos Estados Unidos e ganhou popularidade internacional após um discurso (sensacional) realizado no TED Talks. A autora é feminista e tem a intenção de contar histórias sobre seu país, com um olhar nativo, para um universo de pessoas que tem uma ideia fantasiosa do que é a África, geralmente relacionando o continente à uma imensa floresta onde habitam pessoas selvagens. Chimamanda mostra que a África é, de fato, um continente, e suas histórias se passam apenas em um país deste, a Nigéria.

          Hibisco Roxo foi o meu terceiro livro da autora. Minha vídeo resenha sobre Americanah pode ser vista aqui. Já “Sejamos todos feministas“, que é a versão escrita do famoso discurso da autora, eu não resenhei em nenhum lugar, mas recomendo a leitura – ou, pelo menos, que assistam ao vídeo.

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Chimamanda Ngozi Adichie

          Ao contrário de Americanah, que contava a história de uma imigrante nigeriana e sua nova vida nos EUA, Hibisco Roxo foca-se estritamente na vida nigeriana, com os EUA aparecendo apenas enquanto possibilidade de escapar de situações ruins, mas não sendo foco de nenhum dos cenários ou partes da história.

          O livro foi escrito em 2003 e chegou ao Brasil em 2011 pela editora Companhia das Letras. O nome se remete a uma flor, chamada hibisco, que aparece na história na cor roxa. É interessante ressaltar que não existem hibiscos roxos no nosso mundo, e, até no livro, eles são resultados de modificação genética.

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Hibisco, a flor

          A narrativa versa sobre a história de Kambili (narradora e protagonista), que é uma adolescente habitante de Enugu. Ela é filha de um grande benfeitor da região, que teve origem humilde e nasceu seguindo as tradições religiosas e sociais da região, mas acabou tendo a oportunidade de estudar em um colégio católico e foi influenciado por uma congregação em específico, tornando-se um cristão convicto. Isso significa que a família de Kambili era regida por uma ética religiosa cristã absoluta, com disciplina próxima à militar. Ela e seu irmão, Jaja, tinham horários para realizar todas as atividades possíveis, tendo diariamente um horário reservado para a oração.

          O foco da narrativa é duplo. De um lado temos Kambili desabrochando para a vida adulta, tendo contato com pessoas que têm diferentes perspectivas por sobre a vida, sejam elas referentes à religião ou à sociedade nigeriana em si. Isso é enfatizado pela relação que ela desenvolve com seu irmão, mãe e demais familiares, além do padre Amadi, que se torna uma figura importante em sua vida.

          Do outro lado, temos a figura do pai de Kambili, que é, em si, ambígua. Visto por toda a sociedade local como um benfeitor, em casa ele acaba tendo posturas rígidas e opressivas perante sua esposa e filhos. Para piorar, ele renega a figura de seu próprio pai, por este não ter se convertido ao cristianismo e, com isso, ser um “pagão”, o que, para o pai de Kambili, é um sinônimo de “pecador, perdido, que irá ao inferno”.

          A postura repressiva do pai de Kambili faz com que ela tenha uma série de inseguranças e barreiras psicológicas, onde o pai aparece constantemente em seus pensamentos, seja com a sensação de “papai ficaria orgulhoso” ou de “como vou contar isso ao meu pai?“.

          Esses dois pontos da personalidade de Kambili, que acaba sendo explorada e desenvolvida no decorrer da narrativa, junto com a história da própria Nigéria e a de todos os outros personagens que aparecem, faz com que o livro seja brilhante. Ao mesmo tempo em que é informativo por sobre um universo social distinto (e ao mesmo tempo bastante semelhante) ao nosso, é nauseante pela repressão sofrida (tanto estatal quanto familiar) e pela identificação que gera, pelo menos em pessoas que, como eu, foram educadas em família e escola cristãs.

          A libertação de Kambili e o seu desabrochar é um exemplo sensacional do empoderamento feminino esperado de se conquistar com movimentos como o feminismo, visto que de uma garota oprimida e submissa ao pai, Kambili se torna uma adulta com consciência própria e responsabilidades distintas àquelas ansiadas pelo seu progenitor.

          O livro, que tem pouco mais de 300 páginas, é lido de forma rápida devido à curiosidade que gera, a qualidade da narrativa e desencadeamento dos fatos, a qualidade da edição brasileira e a empatia gerada pela história. Mais uma vez, Chimamanda mostrou a que veio. Recomendadíssimo!

My Life On The Road – Gloria Steinem

          Gloria Steinem nasceu em Toledo, cidade pertencente ao estado de Ohio, nos Estados Unidos da América, no ano de 1934. Isso significa que atualmente ela tem oitenta e um anos de idade e é militante ativa do movimento feminista desde meados da década de 1950. Steinem tem uma imensa carreira de políticas sociais envolvendo o feminismo, atuando como palestrante e escritora do movimento.

          Em My Life On The Road, livro publicado em 2015, Steinem conta um pouco da sua história nas estradas da militância feminista. Dessa forma, pode-se dizer que o livro é uma autobiografia ou um memorando da história de vida dessa mulher mais que batalhadora e que acompanhou o desenvolvimento do movimento feminista desde seu começo, até seu auge e sua reconstrução. A longa experiência da autora é o que faz do livro interessante e gostoso de ler, pois de fato você acompanha toda a história do movimento feminista, relatado por uma pessoa que tudo vivenciou. Somos muito sortudos em viver em um mundo onde a Steinem conseguiu publicar esse livro antes de sua morte. Digo isso pois, como apontado no próprio livro, muitas de suas amigas tinham esse anseio (ou outros semelhantes) e não conseguiram realizar. Infelizmente, porém, ainda não há tradução da obra para o português e, tão pouco, exemplares físicos facilmente encontráveis em nossas livrarias. Ainda bem que existem os ebooks.

          O livro é dividido em sete partes, precedidas de epígrafe, prelúdio e introdução. Na introdução, começamos a conhecer um pouco da base familiar de Steinem, que tinha uma família de viajantes. Seu pai adorava a estrada e conseguiu convencer sua mãe a viver por alguns anos em um trailer, onde ela e sua irmã recebiam educação caseira. Não deu muito certo e depois de se sentir negligenciada e silenciada por muitos anos, sua mãe finalmente conseguiu se libertar e divorciou-se de seu pai. A relação dela tanto com o pai como com a mãe foi um tanto complicada posterior a isso. Principalmente porque sua mãe ficou doente e ela foi a responsável por cuidar dela, o que é apontado por Steinem como ruim, pois na época ela era adolescente e queria ir para a faculdade e era impossibilitada pela situação familiar.

          Na primeira parte, chamada “My Father’s Footsteps” (Os passos do meu pai), a autora se redime um pouco em relação às críticas que tinha empreendido à sua família anteriormente. É um momento bastante importante do livro, pois ela mostra que apesar de as situações familiares desagradáveis serem constantes em sua vida, ajudaram a ela ser a pessoa que ela é agora. No decorrer de sua vida, inclusive, ela percebeu muitas semelhanças para com seu pai e seu instinto viajante e a forma como ela narra essa descoberta é bastante interessante e “fofinha“.

          Na segunda parte do livro ela fala sobre os “Talking Circles” (Círculos de fala), que são situações onde as pessoas começaram a se reunir para discutir o problema da desigualdade de gênero e propor soluções para tal. É o início da organização do movimento feminista nos Estados Unidos e o texto varia entre coisas que aconteciam na época, digressões da autora olhando hoje para esse passado e pinceladas sobre sua vida pessoal/familiar.  Na terceira parte, ela explica “Why I don’t drive” (Porque eu não dirijo). A razão é basicamente a de que é muito mais interessante pegar caronas ou transportes coletivos e poder conversar e conhecer pessoas diferentes e que você não entraria em contato de outra forma. Então ela narra algumas anedotas que exemplificam sua escolha – e elas são bem convincentes.

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          Na quarta parte ela fala sobre “One Big Campus” (Um grande campus), que é quando ela conta sobre o feminismo e sua relação para com a academia. Somado a isso, há anedotas sobre palestras oferecidas e vivenciadas por ela nas universidades norte-americanas e também um pouco da vivência de mulheres nesses campi universitários. Na quinta parte, ela fala sobre quando a política é pessoal (“When the Political is Personal“) e relata sua inserção no universo da política, como assistente de campanha e afins. Ela perpassa uma grande quantidade de campanhas políticas, com diversos candidatos e começa a perceber que precisa lutar pelo que acredita também naquele meio. O momento mais legal deste capítulo é quando há a discussão sobre qual candidato representaria o partido Democrata nas eleições de 2008: Hilary Clinton (possível primeira presidente mulher) ou Barack Obama (possível primeiro presidente negro). Essa discussão é bastante importante para deixar bem claro o tipo de feminismo que a autora segue e acredita: o interseccional e que acredita que a igualdade racial e a de gênero devem ser lutas em conjunto.

          A sexta parte fala sobre o surrealismo na vida cotidiana (“Surrealism in Everyday Life”) e é justificada pelo fato de o movimento surrealista querer combater o racionalismo, trazendo o abstrato e a imaginação de volta ao foco do universo. Ela começa então a apontar situações onde isso é necessário para que o movimento feminista se reinvente e persista e mostra como a vida do dia-a-dia é muito mais surrealista do que racional. Na sétima parte, “What One Was Can be Again” (O que foi uma vez, pode voltar a ser), Steinem faz uma digressão sobre as transformações do movimento e compara isso com as transformações ocorridas na vida das mulheres indígenas da região após o contato com a dita “civilização”. Muitos dos povos indígenas da região seguiam o sistema matrilinear de divisão de tarefas, heranças e afins, que foi substituído pelo patrilinear após o contato com os brancos. Steinem visa mostrar ao leitor que, se uma vez a igualdade funcionou, pode voltar a funcionar.

          O livro termina com uma parte chamada “Coming Home” (Voltando para Casa), em que ela fala basicamente sobre como é ruim ter acompanhado a morte de quase todas as suas amigas militantes e perceber que ainda se está viva. E como ao mesmo tempo isso é bom, pois ela ainda tem vez e voz. Ela conclui o texto explicando o que quis dizer com cada uma das partes e relatando uma história bem tocante de uma de suas amigas.

          A leitura é bastante fluida, porque a história dela é empolgante e muito vivaz. As partes até são compridas, mas há várias subdivisões no decorrer delas, o que auxilia na fluidez da leitura. O livro foi o primeiro do clube literário feminista liderado pela Emma Watson, que proporá um livro por mês sobre o tema. Infelizmente, é esperado que grande parte dos livros não tenham tradução para o português. De qualquer forma, farei vídeos e textos falando sobre as leituras e o que aprendi com elas.

          O vídeo sobre este livro pode ser visto aqui: