Por que o “He for She” me representa

          Sou recém formada em ciências sociais pela UFPR. Pouco antes da metade do meu curso, tive que escolher entre fazer licenciatura ou bacharelado. Uma vez tendo escolhido o bacharelado, tive que escolher entre as linhas de sociologia, antropologia ou ciência política. Escolhi antropologia, pois se existisse uma graduação inteira só disso aqui em Curitiba, era nisso que gostaria de ser formada.

         Dentre as várias responsabilidades do trabalho do antropólogo, a que sempre mais me chamou a atenção foi a de mediador. Vejo o antropólogo como aquele que é capaz de trazer para o universo acadêmico, burocrático e midiático os problemas vividos por minorias marginalizadas e esquecidas, que ninguém reconhece a existência. Uma vez que o trabalho antropológico se consolida indo ao encontro destas pessoas e modos de vida e comprando várias de suas brigas, vejo como de sua responsabilidade trazer visibilidade para os problemas sociais e propor soluções para eles.

          Mas é claro que o antropólogo não pode fazer nada disso sem reconhecer o seu local de fala. Isto é, fica mais fácil falar sobre as dificuldades de ser um aborígene australiano hoje em dia quando se está em um Congresso bem renomado na Europa. Porém, há diferenças entre pesquisar os aborígenes australianos e militar por eles, auxiliando-os na resolução de seus problemas sociais. Muitos antropólogos acreditam que a militância atrapalha a objetividade etnográfica e torna o trabalho obsoleto, eu, por outro lado, acho completamente sem sentido se aprofundar em questões alheias se você não está disposto a fazer nada por elas. É claro que há uma enorme diferença entre eu, pesquisador, falando sobre os aborígenes australianos e um próprio aborígene falando sobre si. Porém, o meu discurso pode atingir locais que o dele não atingiria. E cabe a mim ampliar a potencialidade da fala dele, mostrando a importância de dar voz a quem não tem.

          Uma pensadora que trata muito bem do assunto é Gayatri Spivak. Como teórica crítica indiana que trabalha na Columbia University (Estados Unidos), ela publicou um livro chamado “Pode o subalterno falar?” (que é bem curtinho e tem tradução para o português), onde discute sobre a possibilidade de fala de subalternos – não apenas na academia. Ela ressalta muito (a falta do) o caráter militante dos pensadores e se coloca em comparação com eles. Como mulher e indiana, sua voz demorou muito mais para ser ouvida do que a de muitos homens europeus que vieram antes dela e apesar de agora ela conseguir ser ouvida, há ainda uma série de assuntos sobre os quais gostaria de tratar e que são silenciados e uma série de pessoas que gostaria de ajudar e não tem a oportunidade. Spivak ressalta muito a necessidade e as virtudes de um mediador, mas também aponta os perigos de uma mediação que silencia a voz do nativo (que é o terror de todo o antropólogo) e nos deixa a eterna dúvida sobre a real possibilidade de o subalterno ser ouvido.

Quando só o mediador fala, será que o subalterno é realmente escutado?

          A meu ver, a proposta da ONU Mulher denominada “He for She” e que tem como embaixadora a atriz Emma Watson corresponde muito com esta discussão. A proposta é que os homens entendam a necessidade do feminismo e percebam o quanto suas próprias vidas são negativamente afetadas pelo fato de viverem em uma sociedade patriarcal e machista. Com esse entendimento e a devida reflexão sobre como se as coisas são ruins para eles, para as mulheres são muito piores, a ideia é que estes homens se tornem agentes de mudança, através da mediação. Vulgo, que eles sejam pró-feminismo de fato.

          Não acredito que homens possam ser feministas justamente por a questão do “mal mediador“, que eu falei que a Spivak discute. Se o movimento que busca pela igualdade de um gênero que está sempre sendo visto como o “segundo” (como bem aponta Simone de Beauvoir em “O Segundo Sexo“) não for encabeçado por ele, não faz sentido. Porém, o fato de as mulheres estarem dirigindo a luta pela igualdade não impede que os homens as acompanhem na carona do carro. E, a meu ver, é essa a proposta do “He for She“. Como a própria Emma Watson ressalta em seu discurso, não é possível lutar pela igualdade se apenas metade do mundo está disposta a construí-la. O risco de um feminismo que exclui os homens é de virar tão autoritário e excludente quanto o próprio machismo e não é isso que a gente quer.

          A ideia apresentada pela ONU é justamente de tornar os homens bons mediadores do processo. Ou seja, se um homem é pró-feminismo e escuta uma piada machista vinda de seus amigos, ao invés de rir vai explicar porque está errado. Ele não vai ser escroto com outras mulheres e não vai, por conta própria, propagar a opressão e o silenciamento – hoje generalizados. Ele vai se esforçar para que em suas atitudes as mulheres sejam respeitadas e para propagar, com bom senso, a mensagem de que independente do gênero, raça, religião ou orientação sexual, as pessoas devem ser tratadas socialmente igual. Ele vai indicar a amiga bem sucedida para ocupar o cargo de sua empresa que acabou de ficar disponível. Vai ler livros de autoras femininas e procurar filmes dirigidos e protagonizados por elas. Ele vai aprender a valorizar as mulheres tanto quanto valoriza os homens, indo muito além de aparências físicas ou outras mesquinharias.

          O feminismo que eu acredito é assim mesmo: repleto de mediadores. Nos locais em que há mulheres que querem falar, elas podem e devem. Nos locais em que elas não estão presentes, mas há homens pró-feminismo, eles precisam falar também. Nos locais onde há mulheres negras falando sobre sua situação, as brancas devem ouvir e aprender. E quando não houverem negras por perto, elas têm que mediar a luta delas. O mesmo quando se tratar de mulheres gordas, lésbicas, transexuais, deficientes físicas ou mentais e ainda as de diferentes religiões. O feminismo não existe para excluir ou seccionar mulheres, pelo contrário, a ideia é agregar todas elas – e não apenas elas. Sabem a música em que o John Lennon pede pra gente imaginar um mundo igualitário e gostoso de se viver? É por esse mundo que o feminismo luta.

          Ninguém tem que roubar o protagonismo ou a voz de ninguém, mas todo mundo tem que ter empatia e sororidade, comprar a briga da colega e falar por ela em toda discussão que levantam algo contra ela. Não temos que ser mulheres fortes apenas no que diz respeito às nossas dores e sofrimentos. Pelo contrário, temos que nos levantar e lutar juntas pelo bem de todas nós. Para que um dia a gente deixe de ser o “segundo sexo” e vire um sexo tão bom, completo e auto-suficiente quanto o masculino. Porque na prática a gente sempre foi tão importante quanto, só nunca tivemos esse reconhecimento. E é por isso que lutamos.

          Um dos frutos muito legais de um feminismo bem refletido, pensado e trabalhado é poder observar entrevistas como a que segue, onde Emma Watson conversa com Malala Yousafzai e as duas se respeitam e constroem. É poder observar as palestras da Chimamanda Ngozi Adichie. É poder ler os textos das incríveis mulheres brasileiras. É poder observar negras ganhando prêmios e sendo protagonistas. É ver crescimento de discussão, reflexão e repertório. E tudo isso depende única e exclusivamente de cada uma de nós.

Há coisas que provas não consertam.

          O resultado do ENEM foi ao ar no último final de semana e a surpresa ocorrida foi a seguinte: mulheres feministas, que passam o ano inteiro militando pela causa, tiraram notas piores na redação do que homens que criticam e xingam o movimento feminista durante o ano inteiro. Por que isso aconteceu?

          Tenho duas razões em ordem de hipótese:

          1. Fuga ao tema

          Quando a pessoa milita por determinada causa, sofre de excesso de argumentos para defendê-la. Então, o que pode ter ocorrido é que as meninas se confundiram e acabaram falando mais sobre feminismo do que sobre violência contra a mulher – que era o tema da redação em questão. Veja bem: o feminismo luta para combater diversas coisas, dentre elas a violência contra  a mulher. Mas as duas coisas não são sinônimas. Então, utilizar-se da redação para um discurso feminista que não versasse a respeito da violência contra a mulher não traria um bom resultado. Infelizmente, a alegria por se sentir representada na maior prova de acesso à universidade do Brasil, pode ter feito com que algumas pessoas perdessem o foco. Em se tratando de ENEM, isso não é novidade. Todos os anos, a maior quantidade de notas baixas nas redações ocorrem por causa de fuga ao tema.

     2. Redação é receita de bolo

          Veja bem: se a pessoa estuda em um cursinho ou escola privada, onde o terceiro ano do ensino médio já vem com cursinho embutido, se ela faz aulas particulares e afins, aprende desde o início do ano preparatório para o vestibular a seguinte coisa: redação é receita de bolo.

          O que isso significa? Que há uma série de proposições a serem seguidas e que se você construir o argumento, defender e mostrar alguma aplicabilidade para ele, vai conseguir a nota. Essas escolas de alto escalão dão um foco muito grande para o ensino do método de fazer redações nas provas de acesso à universidade e os alunos têm a oportunidade de aprender uma coisa muito simples: basta seguir aquele passo a passo, que você consegue. Não precisa de conhecimento prévio sobre o tema. A própria prova do ENEM fornece uma série de textos, gráficos e afins que inserem o estudante no tema, para o caso de ele nunca ter ouvido falar sobre o assunto. Então, se você consegue seguir aquela receita, utilizando-se simplesmente do que a própria prova te forneceu, pronto.

          Assim sendo, não é necessário ser feminista, militante do movimento, ter consciência de que violência contra a mulher é errado ou qualquer coisa semelhante. Porque, no fim das contas, aquilo ali é a redação que vai te dar acesso à universidade, não é um medidor de caráter. Se você escrever uma boa redação e for uma pessoa horrível que canta meninas na rua, acha estupro um ótimo jeito de manter o relacionamento e se a mulher não te quiser mais, considera bastante razoável matá-la, não vai importar. Pelo contrário, você vai ser o escroto que teve acesso à universidade, enquanto a garota que sofre com violência diariamente e nunca teve coragem de contar pra ninguém, ficou ali, paralisada e não conseguiu escrever duas linhas.

[TW]

          Agora eu preciso falar para vocês sobre Trigger Warning (aviso de gatilho). Eu participo de muitos grupos no facebook de acesso exclusivo para garotas, onde discutimos coisas que, se fossem feitas em meio a homens, nos ridicularizariam em dois segundos. Nestes grupos, é necessário que antes de publicar uma postagem você deixe algumas palavras entre chaves, para explicar do que ele se trata. As mais populares são [OT], que significa Off Topic e demarca um assunto que não seja correspondente ao tema principal do grupo, e [TW], que demarca quando a publicação pode trazer lembranças de traumas relacionados ao machismo.

          Por exemplo: o grupo é sobre cultura nerd, mas saiu um texto muito legal que discute a gordofobia e a ditadura da beleza. Esse texto tem que receber as duas marcações, por quê? Bom, porque o texto é direcionado para um nicho específico de discussão – que envolve beleza e pessoas gordas – e isso é um assunto que agrega milhares de traumas, construídos durante toda uma vida. Se a pessoa é gorda e não se sente confortável com discutir isso em um grupo do facebook, ela simplesmente não lê a publicação. O aviso de gatilho serve para mostrar exatamente que a discussão a seguir vai versar sobre assuntos que podem te fazer reviver seus maiores traumas. E, bom, pelo menos nos grupos que participo, esse aviso é levado muito a sério.

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          Voltando ao assunto do ENEM:

          Temos todo esse cuidado para abordar temas delicados e que envolvem o psicológico das pessoas em grupos do facebook. Mas o ENEM pede para que todos os alunos do Brasil escrevam articuladamente sobre como a violência contra a mulher cresceu e é fatal. Se eu sofro na pele de formas catastróficas essa violência todos os dias da minha vida, você realmente espera que seja tranquilo realizar essa atividade? Não passa pela sua cabeça que ao pensar em argumentos eu vou me lembrar de fatos e de situações tenebrosas e só vou conseguir pensar em chorar, fugir ou fazer o que muitas garotas fizeram e utilizar a prova como denúncia? “Ah, mas isso é ótimo, uma oportunidade de sair do silenciamento“, bom, eu concordo. Porém das cerca de 55 pessoas que o Ministro da Educação afirmou terem utilizado a redação para fazer denúncias, quantas atingiram nota suficiente para ingressar em algum curso superior? Não foram elas também alvo da alegação “fuga ao tema”? Essas informações eles não nos passam.

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          Então, imaginem a cena comigo: você quer muito entrar na faculdade e passa o ano inteiro fazendo o que pode para se dedicar aos estudos. Não consegue ter a mesma dedicação que o colega que estuda em escola privada a vida inteira, porque você sempre teve que estudar na escola pública e ao voltar para casa realizar uma série de afazeres domésticos que te impediam de estudar da forma que gostaria. Mas, como é ano de vestibular, você se esforça ainda mais. Dorme menos para conseguir utilizar melhor o tempo e faz todos os sacrifícios que consegue.

          Só que nos outros âmbitos da sua vida, tudo continua igual, ou seja: seu pai bate em você e na sua mãe toda vez que chega bêbado em casa. Seu namorado diz que quer transar e nem espera você dizer se está ou não afim para começar os trabalhos. Seu irmão nunca lava a própria louça ou roupa, sobrando para você. E quando você sai sozinha para comprar pão tem que lidar com quatro ou cinco carinhas dizendo que você é “linda” e “gostosa“. Então você se agarra com todas as forças à ideia de entrar na universidade, ninguém da sua família conseguiu isso ainda. Se você ingressar na universidade pública, que é gratuita, vai poder ter um emprego decente em breve e sair de casa, dar um jeito de ajudar a sua mãe e construir a sua vida longe daquele ambiente que te maltrata.

          Só que você chega pra fazer a prova que te dará essa oportunidade e tem que escrever justamente sobre o maior trauma da sua vida, de forma técnica e coesa, sem fugir do que é pedido – e apresentar alguma proposta de resolução do problema. A sua forma de resolver seria entrar na universidade, mas agora precisa escrever uma coisa global e generalista na prova e nada vem à sua mente.

          Desculpem-me, mas me parece cruel. O assunto já não é abordado em todas as escolas. O Brasil já não tem as melhores escolas públicas que existem. Colocar esse tipo de questão, sem ressalvas, para alunos de escolas que têm mensalidade de R$3000 e alunos que tem renda familiar mensal de um salário mínimo, em um país onde não há igualdade nenhuma de ensino, pois a diretriz escolar é ampla o suficiente para que cada escola lecione o que bem entender, é provar que não se conhece o país onde se mora. É dizer que está promovendo a igualdade e ampliando as oportunidades com provas que apenas minam elas ainda mais. Vivemos em uma sociedade hipócrita e mesquinha, que até hoje não entendeu a razão para a existência de cotas, que considera a pessoa que não vai para a universidade “vagabunda”, que denigre e oprime mulheres dia após dia em todas as situações possíveis. Se nós temos como melhorar? Claro que sim! Mas precisamos fazer isso provendo educação de qualidade desde o maternal até o pós-doutorado. Para todos e não apenas para quem pode pagar. Enquanto a gente não conseguir oferecer oportunidades iguais e formações equivalentes, será absurdo colocar em provas de ingresso ao ensino superior temas que afetam tão subjetivamente algumas pessoas. É desrespeitá-las e desconsiderar seu sofrimento. Ou achavam o que? Que quem faz ENEM não sofre violência?

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          É inocente pensar que trazer um tema desse porte em uma prova de ingresso à universidade vá trazer alguma mudança efetiva para a vida das mulheres. A discussão é válida e louvável, mas deve ocorrer em outras situações e ao longo de um grande período. Deve gerar reflexividade, é um tema muito sério! Não é algo para cumprir uma receita de bolo aprendida no cursinho e passar na universidade. É uma questão que precisa ser refletida a ponto de fazer as pessoas mudarem a si mesmas e não se faz isso ignorando o problema o tempo inteiro e trazendo a tona em uma situação dessas. Porque ao invés de promover igualdade, isso reforça as diferenças e inibe que vítimas de agressão consigam pensar tão claramente sobre o assunto quanto não vítimas.

         E o que mais me incomoda em toda essa situação é que a alegria de se sentir representada e ter suas questões abordadas em caráter nacional foi tão grande para os movimentos feministas, que a tão pregada sororidade foi esquecida. Sororidade é um termo que prevê empatia, ou seja, o sofrimento do outro é respeitado, mesmo que seja diferente do seu, e por ser mulher e ter um objetivo comum com aquela pessoa, você se junta a ela contra o que a oprime – mesmo que não te oprima. Enquanto muitas feministas escreviam que “machistas não passarão no ENEM”, poucas pensaram nas vítimas que também não passariam. E considero isso um problema gigante do movimento e um reflexo enorme do fato de ser um movimento encabeçado por brancas, acadêmicas e de classe média/alta.

Desafios Literários em 2016

Os Miseráveis Capa Martins Fontes

          Em 2016 resolvi acatar vários desafios literários e arrasar neste aspecto da vida. Hoje vou apresentá-los para vocês com dois propósitos: 1. Comprometer-me a continuá-los e 2. Convidar todos a participarem!

Os Miseráveis – Victor Hugo

          Ganhei uma versão completa do livro, em capa dura e edição de luxo, de presente de natal do Zhivago e decidi que me daria o limite de Dezembro de 2016 para terminá-la. Porém, logo descobri que uma amiga também tinha ganho o mesmo livro e iria começar a ler, então decidimos ler em conjunto!

          Como funciona? Montamos um cronograma de leitura, com uma média de 100 páginas por semana, de acordo com os nossos compromissos e possibilidades. Se seguirmos tudo certinho, terminamos a leitura na primeira semana de Julho. Todos os domingos vamos conversar sobre o que lemos no decorrer da semana e, ao final, teremos uma resenha bem legal e uma nova experiência na bagagem.

          Se você também está lendo este livro nesse ano e quer compartilhar a experiência com a gente, fique a vontade!

Our Shared Shelf Group – Emma Watson

          Emma Watson (Hermione Granger, para os íntimos) lançou um grupo no Goodreads com a proposta de ser um clube do livro feminista. A ideia da atriz é reunir leitores do mundo inteiro ao redor de um livro feminista por mês. As discussões sobre a leitura ocorrerão no próprio Goodreads e ela participará ativamente da empreitada. Infelizmente, não podemos garantir que todos os livros do clube tenham tradução para português, assim o acesso acaba ficando um pouco restrito às pessoas que conseguem ler e dialogar em língua inglesa. De qualquer forma, a ideia da atriz é muito louvável e esperamos que produza bons frutos!

          Como funciona? Basta acessar o link do grupo e acompanhar o cronograma literário. O livro do mês será escolhido em conjunto, mas o primeiro já foi escolhido: My life on the road – Gloria Steinem. Se você tiver uma conta no Goodreads, poderá apertar em “Join Group” e participar ativamente das discussões e escolhas futuras.

(Re)Lendo Harry Potter

          2016 completa dez anos do lançamento do último livro da saga do bruxo mais famoso de todos os tempos, Harry Potter. Para comemorar isso, alguns fãs brasileiros estão começando o desafio de reler todos os livros, com um olhar diferente daquele que lhes foi direcionado na primeira leitura. O olhar diferente seria proporcionado justamente pela passagem de tempo ocorrida.

          Como funciona? A ideia é reler um livro por mês, começando agora em Janeiro e terminando em Julho. Qualquer pessoa pode participar, basta reler os livros e escrever, filmar, comentar ou discutir sobre eles. Fiz um vídeo pra explicar melhor e apresentar as outras pessoas que conheço e já aceitaram o desafio.

          Você pode ver mais das minhas metas literárias para o ano e acompanhar meu progresso nestas em meu perfil do skoob. No decorrer do ano e ao final de cada desafio, darei notícias sobre meu andamento!

Ficção e Representatividade

Com um namorado pesquisador sobre ficção científica, torna-se impossível não adentrar-se um pouco mais no meio. Percebi logo de início que uma das principais discussões que acontece é em torno da representatividade feminina, visto que na maior parte de filmes de ficção científica as mulheres são subservientes aos homens e seus personagens não tem narrativa própria, sendo supérfluos e/ou submissos.

Bom, isso é verdade em diversos seriados, filmes e livros de ficção científica. Principalmente nos que dizem respeito a super heróis, onde o herói é sempre um ego masculino salvando mocinhas frágeis que, na maior parte das vezes, acabam por se apaixonar ou pelo herói, ou pelo vilão (ou pelos dois).

Porém, tenho visto alguns seriados que mudam um pouco essa chave de pensamento e mostram que é possível mulheres terem pulso forte na ficção científica. As mulheres estão conquistando esse espaço há algum tempo e produções deste ano, como Sense8 e Jessica Jones, são provas vivas disso. Pensando em todas essas coisas, resolvi gravar um vídeo com indicações de cinco séries com mulheres bacanudas, que indico para todas as mulheres que buscam por inspirações decentes para a vida!

Eu também sou Malala

Resolvi ler o livro da Malala, embora todos os meus amigos paquistaneses tenham me dito para não fazê-lo. Entendo o medo deles, de que histórias como esta, ao se tornarem públicas, façam com que o medo que o Ocidente tem do país deles aumente. Mas, veja bem, eu já fui lá, já sei que não é uma guerra civil e constante em toda esquina e que o Talibã age em locais localizados e não continuamente. Também aprendi que a violência urbana é a mesma que enfrento aqui o tempo todo. E aprendi que as mulheres não são escravas obrigadas a se cobrirem por inteiro, como muitos de nós insistem em pensar. Então concluí que saber a história da Malala não ia me fazer, repentinamente, odiar o Paquistão. E estava certa.

Com o livro acabei por conhecer mais sobre a história do país, sua trajetória política, a formação do Talibã, como ele ganhou força, quais suas principais atitudes e quem, quando e como começaram a reprimí-lo. A Malala morava justamente no Swat, divisa com o Afeganistão. E era Pashtun, um povo que vive também no Afeganistão. Era o alvo lógico para o Talibã, após ter obtido êxito no Afeganistão. O azar foi Malala ser filha de um dono de escola, adorar estudar e ler e acreditar piamente que sem a educação seu povo e seu país seriam eternamente manipulados pelos políticos corruptos. Azar maior foi o pai dela ter sempre instigado o senso falante dela para que ela não tivesse medo de se expressar e acabasse, assim, sendo a queridinha dos ativistas na região. E, com isso, alvo do Talibã que a indiciava por secularização da juventude, ao tentar introduzir um modelo Ocidental de educação, o que afastaria os jovens – em especial as meninas – das práticas religiosas apoiadas pelo Talibã.

Foi com esse livro que consegui processar algo que tinha ficado na minha cabeça desde que conheci o Paquistão: o quanto somos países parecidos. O quanto o sofrimento das mulheres é parecido. O quanto o feminismo precisa ser regionalizado para atingir as causas contextuais, mas ao mesmo tempo não deve se perder no extremo relativismo, mas sim se ater ao fato de que todas as mulheres do mundo sofrem com esse patriarcalismo que eu, sinceramente, ainda não descobri da onde vem.

No Brasil a gente também espera que a educação faça com que as pessoas parem de eleger políticos corruptos e parem, em primeiro lugar, de serem corruptas elas mesmas. Temos a concepção iluminista-kantiana de que o esclarecimento é a nossa salvação. Sabe-se, porém, a quantidade absurda de problemas que temos neste campo. Desde professores mal pagos, a lugares interioranos onde ninguém sabe ler ou escrever. E, assim como nas vilas do Paquistão, o problema é pior para as mulheres. Porque se a família não tem condições de dar estudos para todos, tende a preferir fornecer o estudo ao homem. A mulher vai se virar cuidando de casa – se não for a casa dela, pode ser a casa de outra mulher.

A mulher no Brasil, assim como no Paquistão, não pode sair de casa sozinha. Não que tenha alguma lei que a proíba disso. Não há. Em ambos os países. Mas sabe-se que é muito mais arriscado para a mulher sair sozinha do que acompanhada por um homem. A solidão feminina tende a ser vista na rua como fragilidade, como potencial para roubos, sequestros ou a temida violência sexual – seja ela verbal ou física.

A mulher no Brasil, assim como no Paquistão, não pode sair de casa com a roupa que estiver com vontade. É claro que, enquanto nossos problemas são sair com shorts curto ao invés de calça jeans, na cabeça delas nem passa a ideia de shorts ou saia. Porém, isso é questão de costume. Independente do tipo de roupa que eu ou elas querem usar, o fato é que antes de sair de casa, inevitavelmente, temos que pensar nos tipos de olhares que aquela roupa pode atrair. Porque, sendo mulher, o tipo de olhar importa muito.

Tanto as mulheres de lá quanto as daqui, vivem com medo. Medo de não poderem se expressar, de terem que viver em funções de homens, de ficarem “para a titia”, de não poderem ter filhos. De não quererem ter filhos e serem chamadas de estéreis ou de desumanas. De não serem femininas o bastante, ou de serem femininas demais. De não terem as mesmas oportunidades de estudo ou de trabalho e de serem vistas primeiro como “mulher” e depois como pessoa. Sendo sempre reconhecidas pela diferença em relação aos homens e não pelas inúmeras igualidades.

Tanto as mulheres de lá quanto as daqui querem ser ouvidas. Acham absurda a marginalização feminina, especialmente das mulheres que vivem nas periferias, no interior, nas vilas, nos sertões e semelhantes.

E, bem, se uma menina de dezesseis anos ganha o prêmio Nobel da Paz justamente por dizer que não aguenta mais essa coisa de que mulheres só servem para cuidar ou educar, significa que nossos problemas não são tão diferentes assim. Como Malala e seu pai sempre diziam, para que mulheres sejam educadas por outras mulheres (o que é bem importante para o Islã – e até para a “filosofia” Talibã), primeiro algumas dessas mulheres precisam ser educadas por homens, para aí se tornarem professoras e ensinarem as outras mulheres.

Sororidade é um termo que diz respeito justamente ao sentimento de irmandade que deve existir entre as mulheres e os diferentes feminismos. Não importa em quais âmbitos, todas as feministas querem a igualdade. Todas querem os mesmos direitos. Civis e humanos. No mundo inteiro. Com a ciência de que uma mulher paquistanesa preza por obter os mesmos direitos que um homem paquistanês, ao passo que uma mulher brasileira, preza pelos mesmos direitos que um homem brasileiro.

Feminismo é um termo que diz respeito à luta feminina pela conquista de direitos iguais, independente do gênero a qual o indivíduo pertença. Não diz respeito a dominar e tão pouco a ser dominada. Diz respeito a co-existir e conviver. Mútua e respeitosamente, no mesmo espaço – seja ele público ou privado. A gente não odeia homens, a gente só detesta a ideia patriarcalista reproduzida por eles – e por nós, afinal, também vivemos aqui – de que só é possível pensar no feminino a partir do masculino. O feminino existe em essência e não depende do masculino para tal. Mas já que ambos estamos no mesmo barco, tá na hora de aprendermos a navegar.

P.S.: Caros Talibãs, por favor, parem de matar crianças em escolas. Eu juro para vocês que elas não vão ser menos islâmicas por isso, pelo contrário, elas vão ficar tão inteligentes que vão entender melhor o que o Profeta falou e vão conseguir colocar mais em prática aquilo que ele disse. Elas vão ser boas pessoas e, se não forem, serão julgadas na hora correta. Só que essa hora não é agora então, por favor, parem. Apenas parem. De alguém extremamente chateada com o ataque a Peshawar.