[RESENHA] Procurando Dory (2016)

Características Técnicas

      O filme é mais uma produção Disney e Pixar, feito para ser a continuação de Procurando Nemo, filme de 2003. É uma animação em cores, com duração de 100 minutos. O roteiro é de Victoria Strouse e Andrew Stanton, que também dirigiu o filme. A trilha sonora é de Thomas Newman.

      O filme chegou aos cinemas brasileiros no dia 30 de junho desse ano e foi um grande sucesso de bilheterias mundialmente (já ultrapassou 700 milhões de dólares). Atraiu o público que assistiu Procurando Nemo em sua época de lançamento e também crianças que conheceram Nemo e se interessaram por Dory

     Não é “Procurando Nemo 2” porque Nemo foi encontrado no primeiro filme, então o título não faria sentido.

Enredo

     Ao contrário de “Procurando Nemo“, em que Marlin vai atrás de seu filho, que foi sequestrado por um aquário e conta com a ajuda de Dory na empreitada de cruzar o oceano para encontrá-lo, “Procurando Dory” conta a história dos pais de Dory, que a procuram, porém, a história é contada sob o viés de Dory. Esse esquema não faria sentido no primeiro filme, pois, estando dentro de um aquário, contar a história de Nemo ao invés da busca de Marlin seria desinteressante. Com Dory a coisa muda de figura, primeiro por ela ser um personagem bastante carismático e segundo porque ela não foi raptada, sequestrada ou presa. Ela se perdeu por causa de sua perda de memória recente, então a busca não é unidirecional, visto que não são apenas os pais que a procuram – ela também passa a procurá-los. E é a partir do despertar do interesse dela em encontrar seus pais que o filme surge e ganha uma história.

    Assim sendo, temos 100 minutos de Dory: 1. lembrando que tem uma família; 2.lembrando da cidade em que essa família morava e 3. convencendo Marlin e Nemo a irem com ela atrás de seus pais. Ela acaba se perdendo de Marlin e Nemo, encontrando amigos de infância e fazendo novos amigos. A narrativa acaba ficando rica, porque mescla um pouco da busca de Dory com Marlin e Nemo tentando encontrá-la e ainda Dory tendo flashbacks que revelam coisas sobre sua vida familiar. 

   Bordões como “continue a nadar” são explicados, assim como músicas que Dory cantava no primeiro filme e o fato de ela falar baleiês. Os novos personagens são interessantíssimos, com destaque para o polvo Hank, que acaba sendo o animal mais legal que já inventaram. O núcleo dos leões marinhos também é bastante inusitado e engraçado. E, claro, a baleia é sensacional.

     Os ápices do filme são bastante intensos e a catarse que ele causa é incrível.

    Escolhi o trailer mais curto que encontrei pra colocar aqui, porque acho os trailers da atualidade muito reveladores de coisas desnecessárias.

 

O que eu achei do filme

     O filme é repleto de cenas engraçadas, mas é também bastante dramático. Bastante fácil de começar a assistir chorando e persistir assim até o final. Eu, por exemplo, saí do cinema mais deprimida do que quando fui assistir a Toy Story 3. Isso significa que o roteiro foi muito bem escrito, com uma sensibilidade absurda e dá pra ver que o filme emana sentimentos bons e preocupações sobre a forma como lidamos com a vida. 

      O problema neurológico de Dory é bastante abordado e vemos todo o cuidado que ele exige por parte dos pais dela, que desenvolveram vários métodos para evitar que ela se perdesse e não conseguiram. Isso é bastante triste e uma das razões que mais me fez chorar, pois já tive casos de perda de memória na minha família e sei o quão absurdamente agoniante e desesperador é você não ser reconhecida por alguém que ama. Então, ver esse filme e ter um contato mais direto com o sofrimento da Dory e o sofrimento da família dela, mexeu lá no fundo dos meus sentimentos e me fez dar um valor enorme à minha saúde neurológica e aos meus entes queridos.

      O filme é repleto de lições de moral positivas, mostrando como a amizade, cumplicidade e o companheirismo nunca saem de moda e em como a gente precisa confiar no nosso taco as vezes, o quanto a gente precisa arriscar as vezes. E que a gente sempre tem que se lembrar que não importa a adversidade, devemos continuar a nadar. 

      Já no começo, ao nos depararmos com uma insensibilidade extrema por parte de Marlin, percebemos o quanto é difícil para as pessoas com necessidades especiais se sentirem normais no nosso mundo. Qualquer deslize por parte delas é imediatamente relacionado com a doença que elas portam e elas acabam sendo desvalorizadas e consideradas “menos” do que todos os outros. É muito importante a mensagem desse filme por causa disso: o mundo está cada vez mais intolerante, quando devia ser ao contrário. As crianças crescem já zoando os colegas que são diferentes e a insensibilidade é cultivada nos mais diversos meios. Com isso, muitas pessoas sofrem. As que têm doenças crônicas e degenerativas acabam se sentindo piores por tê-las e as que não têm doenças, mas não se encaixam no padrão por alguma outra razão, acabam também se sentindo deslocadas. A gente cria pessoas doentes todos os dias. A gente cria doenças e implanta na cabeça de cada um de nós. E a gente faz com que cada um acredite que não é bom o bastante, bonito o bastante ou capaz o bastante. Então, entrar em contato com personagens como Dory fazem a gente ter esperança. Porque ela consegue vencer as adversidades. Ela consegue continuar a nadar. Ela não pensa, só faz. E, puxa, as vezes isso é muito do que a gente precisa. Muito do que falta entre nós: a sensibilidade da Dory, que nem precisa “tolerar” algo, porque considera tudo normal e possível. 

     Acho que já deu pra entender que esse filme mexeu demais comigo e que eu fiquei muito surpresa em ver todas essas reflexões emanarem após um filme de animação infantil, certo? Eu tenho gostado demais do nível das animações que vou assistir, porque elas não são feitas apenas para as crianças. Os pais que levam essas crianças também saem tocados, também recebem mensagens bacanas. E isso é muito importante. A inteligência dos produtores dessas animações é incrível, porque o entendimento que as crianças têm dos filmes acaba sendo bem diferente do entendimento que os pais têm, mas para as duas faixas etárias o filme faz sentido e é bom. Isso coloca em prática o real sentido de um produto de entretenimento ser considerado “livre para todos os públicos” e é uma coisa que eu nunca me decepciono. Especialmente em se tratando nos filmes da Pixar. Eu sei que existem inúmeras outras produtoras tão boas quanto, especialmente as produtoras japonesas, mas não consigo deixar de me encantar e amar a Pixar, que é genial desde que eu me entendo por gente.

       E, uma coisa muito bacana dessas animações são os curta-metragens que as antecedem. Eu sempre comento que nunca vou me esquecer do velhinho jogando xadrez que antecedia “Vida de Insetos” no VHS. As vezes eu colocava a fita só para ver o velhinho, então rebobinava e via de novo. É sensacional para mim ver o quanto os curtas metragens se desenvolveram de lá para cá e a quantidade de mensagens incríveis eles transmitem hoje em dia. O curta que antecedeu o filme da Dory, por exemplo, é absurdamente fofo e condizente com a mensagem transmitida pelo filme principal. E o desenho dele é tão real que realmente parece que são passarinhos em uma praia de verdade. É isso: o cuidado com os detalhes que as animações recentes têm trazido é cada vez mais fantástico.

       Eu não consigo assistir animações no cinema sem serem dubladas. O trabalho de dublagem é incrível e temos dubladores muito talentosos no Brasil, então eu gosto de valorizar isso. E, acredito que nos desenhos animados é muito mais interessante ouvir as palavras em minha própria língua. Talvez seja apenas um resquício da minha infância que gosto de preservar, pois na época eu não entendia inglês e tinha preguiça de legendas, mas gosto de acreditar que os filmes realmente ficam melhores assim. 

     Ah sim, para os desavisados: há uma cena após os créditos do filme e eu fiquei realmente esperançosa de surgir um novo longa-metragem contando a história que decorre daquele último fato.

        É isso, vão lá procurar a Dory, por favor!!!

Resenha do filme Flores de Aço (1989)

Características Técnicas

         O nome original do filme é Steel Mongolias e foi produzido nos Estados Unidos, em 1989. O filme é colorido e tem duração de 117 minutos. O roteiro é de Robert Harling e a direção é de Herbert Ross. O elenco principal é formado por Sally Field, Dolly Parton, Shirley MacLane, Daryl Hannah, Olympia Dukakis e Julia Roberts

          Julia Roberts foi indicada ao Oscar de 1990 como melhor atriz coadjuvante por seu papel em Flores de Aço. A atriz ganhou o prêmio da mesma categoria, no Globo de Ouro. Sally Field, por sua vez, recebeu a indicação de melhor atriz no Globo de Ouro de 1990, mas não ganhou a estatueta. Shirley MacLaine foi indicada como melhor atriz coadjuvante em 1991, no prêmio britânico BAFTA. Flores de Aço ganhou o People’s Choice Awards de 1990, na categoria Filme Dramático Favorito.

           Em 2012 o filme ganhou um remake com elenco principal composto por mulheres negras, estrelado por Queen Latifah.

Enredo

          M’Lynn (Sally Field) é casada com Drum Eatenton (Tom Skerritt) e tem três filhos, sendo dois homens e uma menina, Shelby (Julia Roberts). A família habita uma cidade do interior do Sul dos EUA e é bem quista pela cidade. Shelby está prestes a se casar com Jackson Latcherie (Dylan McDermott), um rico advogado – que mora em uma cidade diferente. O casamento da filha é um grande evento para a família de M’Lynn, que vai se preparar para a festa no salão de Truvy Jones (Dolly Parton). Para dar conta do serviço, a cabeleireira, contrata Annelle Dupuy (Daryl Hannah) como ajudante. 

        Clairee Belcher (Olympia Dukakis) e Ouiser Boudreaux (Shirley MacLaine) também frequentam o salão de Truvy  e M’Lynn, Shelby, Annelle, Truvy, Clairee e Ouiser começam a nutrir uma forte amizade, que permeia todo o enredo do filme. Elas são as “flores de aço” que dão título à história. 

          Shelby sofre de diabetes e é alertada, antes do casamento, por seu médico, a não ter filhos. Por essa razão, quando ela anuncia a gravidez, sua mãe fica bastante apreensiva e chateada. Apesar do risco, Shelby decide que precisa desse filho para ser feliz e resolve persistir. De fato, a gravidez traz complicações para sua vida e é graças à união feminina  advinda da amizade que a família de M’Lynn lida com os problemas.

O que eu achei do filme

          Assisti o filme em um canal de televisão fechada, contendo intervalos e possíveis cortes. Por essa razão, talvez minha percepção da história seja diferente daquela de quem assistiu ao filme completo e sem intervalos. Espero realmente que não tenha havido cortes.

          O filme me chamou atenção por diversos aspectos. A atuação de Sally Field é extraordinária e me ganhou. A caracterização dos personagens é maravilhosa. Uma das coisas positivas de entrar em contato com filmes um tanto antigos é poder observar diferenças culturais e estéticas marcantes da época. Uma das coisas que me chama sempre a atenção, para além dos cabelos e roupas, são os locais onde se é socialmente aceito fumar. E, nesse filme isso também aparece. 

       Comecei a assistir o filme imaginando que seria uma história vazia e sem sal, onde após o casamento Shelby teria complicações no relacionamento e seria sobre isso o desenrolar da história. Mas não foi o que eu vi. O filme é brilhante na arte de mostrar apenas as coisas que importam para o desenrolar da história. Por essa razão, há muitos cortes secos entre as cenas. Se você está vendo uma cena que se passa no natal, assim que a parte relevante sobre a comemoração acontece, o corte seco aparece e somos remetidos para um outro momento e outra história relevante. Não há aquela sensação de continuidade e acompanhamento excessivo do espectador perante a família mostrada na narrativa. Não é o tipo de filme que encanta pelo excesso de detalhes, pelo contrário, a narrativa é prática e bem performada

           O que mais me chama a atenção na história é o viés narrativo dela, que é o feminino. Em uma época onde os filmes famosos são aqueles em que as mulheres são bibelôs ou têm vidas fúteis, Flores de Aço surge para mostrar que é nas mulheres que a força da sociedade reside. O filme mostra os percalços da vida das mulheres do subúrbio e a forma magistral com a qual elas lidam com seus problemas. É evidente pela narrativa que os homens são muito mais dependentes das mulheres do que elas deles. É evidente que elas têm uma vida, anseios, sonhos e uma narrativa própria e os homens surgem como “fim natural“, claro, pois é essa a marca cultural da época. 

          Para as mulheres do subúrbio estados-unidense da década de 80, o fim natural era casar-se e ter filhos. Não era algo que passava pela cabeça delas questionar. No entanto, não era por isso que elas deixavam de ser protagonistas de sua própria história.

           Flores de Aço é um filme de força e resistência feminina, que mostra, através de uma narrativa com as doses certas de drama e comédia, o quanto mesmo as mulheres que parecem frágeis e fúteis sabem lidar com as adversidades da vida de forma proveitosa e benéfica. E a frase mais marcante é a de M’Lynn, quando fala que os homens são considerados de aço, mas são as mulheres que passam pelas coisas mais difíceis.

         Quem gosta do ar suburbano de séries como Desperate Housewives vai se encantar com essa narrativa, brilhantemente produzida.

Reflexões leoninas.

Eu sou de Câncer, que fique claro. Mas tenho pensado muito em Rei Leão.

Vocês sabiam que a história é baseada em Hamlet? Em Hamlet o irmão do rei o mata e o príncipe foge de medo, enquanto seu povo perece. Igual o Simba faz. Eu acho muito interessante porque a gente tem a ideia de que o Timão e o Pumba são personagens bonzinhos e bacanas, mas na real eles são os responsáveis por fazer o Simba viver em um constante estado de “Hakuna Matata” e esquecer que largou mãe, família e reino pra trás.

Como diz a música de “Hakuna Matata”, é um estado que implica em “os seus problemas, você deve esquecer… isso é viver, é aprender, hakuna matata”. E, como a gente vê no resto da história do Rei Leão, “Hakuna Matata” demais estraga tudo. Simba não aprende bulhufas esquecendo os problemas dele, quer dizer, ele aprende. Ele tem uma vida super boa, comendo coisas boas, vivendo em um ambiente pacífico e ensolarado, tem amigos, é quase um paraíso. Certamente a vida é repleta de aprendizados, ele consegue até rugir!!! Só que esquecer os problemas traz um encargo negativo maior que o positivo, como a gente vê quando a Nala aparece.

Basta ela aparecer para tudo aquilo que ele fugiu a vida inteira e não lidou com, porque estava se preocupado em hakuna matatar, volte à tona em um turbilhão impossível de lidar. Primeiro vem o êxtase em reencontrar sua melhor amiga e o anseio por “vem pro paraíso você também”, mas aí ela mostra que paraíso é o caralho, porque o reino tá um caos e o Simba é um irresponsável inconsequente que largou a própria mãe à míngua de um monte de hienas malvadas. Puts. O Simba não fica bem com a coisa.

A consciência pesa horrores e ele vai olhar as estrelas, tentando contato com o pai que é uma delas e aparece um macaco chato e vai atrapalhar o momento reflexivo dele. O macaco quer que ele volte pra casa e ele diz que não é problema dele, que tudo aquilo ficou no passado e que ele já esqueceu e então ele recita o mantra “hakuna matata” e o macaco dá um cacete na cabeça dele com seu cajado. Simba reclama de dor e o macaco reitera “tá no passado” e o Simba completa “mas ainda dói”. E com isso ele se sente impulsionado pra voltar pro seu reino e lidar com Scarf e as hienas, da forma como era esperado.

Só que na verdade ele não tá apenas salvando o reino de passar fome, ele tá se resolvendo e lidando com todo o encargo que ele tinha “esquecido” em sua vida com Timão e Pumba. Ou seja, no fim das contas Rei Leão é só uma epopeia sobre um filho que precisa lidar com o trauma de ter sido a causa da morte do pai e o “hakuna matata” que a gente sempre achou legal, na real serviu apenas para que ele ficasse em stand by da vida até que estivesse preparado para lidar e superar aquilo que tinha acabado com ele.

Já pensou em como seria massa se a gente pudesse decidir que ia tirar cinco anos da nossa vida pra “hakuna matatar”, esquecer de tudo, aprender outras coisas e depois voltar e lidar piamente com os nossos problemas de maneira maestral? Cara, seria tudo tão mais fácil!!!! Mas não. A gente tem que continuar no mesmo lugar depois que a merda acontece. O nosso tempo para superar a mágoa e tentar lidar com a situação é muito mais curto, assim como o tempo para treino e preparo para as novas perspectivas e atitudes.

Nossa vida não é a do Simba. É a da Nala. Porque é ela que além de perder o chefe do seu reino, perde seu melhor amigo e fica com a responsabilidade de encontrá-lo e de conseguir manter o psicológico de várias leoas estável o suficiente para evitar uma morte em massa. É ela que tem que semear esperança para os mais novos, enfrentar o Scarf, sobreviver às hienas e se contentar em comer migalhas. Ela não tem o tempo e a oportunidade do Simba e é justamente ela que age como ponto chave para que ele volte para as suas responsabilidades.

Enquanto fugindo o Simba demora anos para se recuperar psicologicamente, a Nala mal tem tempo para ficar abalada, porque cada dia traz um abalo e decepção novos e o fluxo é tamanho que a única mágoa que fica é o abandono do Simba, o qual ela considerava morto. Era melhor pensar ele morto do que vivo e completamente irresponsável. Se ela soubesse que ele estava vivo, duvido muito que ele teria passado todo aquele tempo com o Timão e o Pumba, ela teria tirado ele de lá bem antes. Durante toda a história, enquanto o Simba fugia era a Nala quem de fato ria na cara do perigo. Mas o foco, inevitavelmente, é pro drama Simba/Mufasa.

A vida é isso. A gente magoa os outros e se magoa constantemente e não é legal, não é saudável, é cansativo e desgastante, mas eu tendo a acreditar que todo mundo se esforça pra fazer aquilo que pode no momento. A gente não tem um paraíso pra “hakuna matatar” e tem que se reerguer das mágoas e lidar com elas, por mais machucados que a gente ainda esteja. E isso não é ruim, pelo contrário, é o que nos torna sábios e fortes. É o que deixa a gente um pouco mais preparado para lidar com todo o mar de mágoas e magoações pelo qual passaremos durante a nossa existência.

Porque a dor constroi e fortalece muito mais do que ficar hakuna matatando por aí. Embora a segunda opção seja muito mais tentadora.

(essa imagem é uma prévia do próximo post, onde trataremos sobre como Timão e Pumba se transformam no decorrer da história)

Ter coragem e ser gentil.

Acredito que era fim de Abril ou início de Maio quando fui assistir “Cinderella” no cinema com a minha mãe. O filme não me agradou muito, confesso, mas a aparição da Bonham Carter fez o preço do ingresso valer apena.

Passei a história inteira pensando sobre como a vida seria fácil caso os ensinamentos do filme pudessem ser aplicados na vida real. A mãe de Ella vivia dizendo a ela que se ela fosse gentil e tivesse coragem as coisas ocorreriam da melhor maneira possível, invariavelmente uma maneira positiva para ela. A filha acreditava muito no ensinamento da mãe e mesmo após ela morrer, continuou a propagar a gentileza e a coragem por onde passava. Virtudes muito úteis no momento de lidar com a madastra insuportável e suas duas filhas.

O filme se desenvolve como toda e qualquer história de contos de fada e termina com a seguinte quote: “Ella continued to see the world as it could…if only you believe in courage and kindness…and a little bit of magic.” (“Ella continuou a ver o mundo como podia… se você acreditar na coragem e na gentileza… e em um pouquinho de magia”). Saí da sala de cinema pensando “que bom seria se existisse mágica no mundo em que a gente vive. As coisas poderiam se resolver de forma muito mais branda e as soluções poderiam vir a ser mais justas também”. Deixei esse pensamento adormecido em minha mente, pois é claro que não existia magia. E é claro que ter coragem e ser gentil não adiantam nada em um mundo de pernas para o ar.

Mas no dia 7 de Maio eu pisei pela primeira vez em um Terreiro de Umbanda e percebi que mágica existe. Porque não tem outra explicação possível para o que me aconteceu naquele dia e para o dominó de mudanças gerados a partir de então.

Digamos que só fui ao lugar para conseguir entender um pouco do que estava se passando com meu namorado, que tinha se tornado umbandista e estava falando sobre coisas que eu não conseguia entender e precisava ver e sentir na própria pele pra cogitar aceitar que eram reais. Minha confiança nele e a ânsia por compreender os universos em que ele se enfiasse, somadas com a minha incessável curiosidade por coisas e ambientes novos, me impulsionou a comparecer.

Minha primeira gira foi muito esquisita. Eu não fazia a menor ideia de como funcionava uma gira, de quem eram aquelas pessoas, qual era a intenção do ritual, quem eram as entidades que apareciam, porque se tocavam aquelas músicas… Enfim, eu não entendi absolutamente nada. Mas vi que as pessoas começaram a se levantar na hora que falaram “assistência pode entrar para a defumação” e lá fui eu. A defumação consiste em passarem uma  mistura de incenso e outras ervas queimadas ao redor de você. Depois fiquei sabendo que isso serve para espantar coisas ruins da sua aura e te deixar preparado para o que vem depois.

E o que vem depois é o que chamamos de “passe”. É quando as pessoas ficam paradas e em pé, enquanto os médiuns incorporados passam por elas, fazendo gestos com as mãos e, as vezes, falando coisas. O que eles estão fazendo é, mais uma vez, limpar a aura das pessoas, retirando o que tiver de ruim por perto delas. Em seguida, pede-se que quem queira continuar ali para cura, fique e quem não quiser, se retire. Eu fiquei. Estava de sapatos por puro esquecimento, pois já tinham me ensinado que só se entra li descalço. Mas eu estava com medo e sem saber o que ia acontecer, os sapatos ficaram ali como reflexo do meu inconsciente para um “se precisar correr, você está pronta”. Eu sou desconfiada, fazer o quê.

A aflição por ter pessoas desconhecidas ultrapassando o perímetro de individualidade muito bem construído ao meu redor passou logo no começo. Porque alguma coisa aconteceu e me fez desabar a chorar. Como todas as vezes na vida em que eu tive crises fortes de ansiedade e me tranquei no banheiro. Só que dessa vez na frente de todo mundo, em um lugar novo e que minha mãe jamais aprovaria. Enquanto eu chorava, todos os motivos para que eu chorasse ficavam aparecendo e re-aparecendo na minha cabeça, cada hora em uma sequência ou forma diferente e a agonia era constante.  Alguém tirou os meus sapatos e colocou a mão sobre o meu pé doente. Eu não faço ideia de como ela soube que meu pé era doente, mas depois daquilo ele parou de doer – e assim continuou por quase uma semana. Algo quase que inédito na minha vida. Outra pessoa veio e disse que eu precisava acalmar meu coração e respirar direito, o que me fez chorar ainda mais e querer desaparecer, pois a essa altura do campeonato, eu já estava morrendo de vergonha.

Depois de muito tempo ali (para mim, pareceu uma eternidade), pediram para que quem estivesse ali voltasse para suas cadeiras. Voltei, ainda aflita, chorosa, confusa e muito brava por tudo aquilo ter realmente acontecido e eu não ter como dizer “aff nem tem nada demais” e nunca mais voltar. Não consegui ficar normal ou estável para conversar com qualquer outra pessoa e fui a pior companhia possível até o final daquela noite. Mas, antes de ela acabar, tive a oportunidade de fazer uma consulta a uma das entidades – que no caso era um caboclo de Oxóssi. A consulta caiu em cheio nas aflições vivenciadas antes e me fez refletir mais sobre mim do que os últimos anos de terapia foram capazes. Foi uma experiência muito intensa e maluca.

E eu passei a madrugada inteira chorando. Eu não consegui dormir. Eu abri meu computador, cliquei no OneNote e comecei a escrever tudo que me vinha em mente. Sobre o universo, a transcendência, a possibilidade de me tornar religiosa ou não, a maneira como me portaria com o resto do mundo a partir de então e muito mais. Provavelmente foi uma das noites mais desengonçadas e agoniantes da minha vida. Eu senti vísceras saírem aqui de dentro. Achei que minha boca começaria a sangrar, pois chorava tanto que a garganta estava seca e fechada. E a vergonha de olhar para a cara do meu namorado e da mãe dele no outro dia era imensa. Porque não tinha sido uma boa pessoa, porque não sabia o que falar, porque tudo que eu queria era que nada daquilo tivesse acontecido. Enquanto tudo que eu queria era poder ir mais a fundo e desvendar o máximo possível daquele universo. Senti que finalmente eu teria um motivo real para ser chamada de louca.

E decidi que voltaria na gira de sábado.

Minha mãe não gostou muito da ideia, pois domingo era dia das mães e ela me queria por perto. Além disso, ela não sabia nada sobre umbanda e não concordava que eu estivesse frequentando esse lugar. Mas eu disse a ela que eu precisava ir. Que eu tinha certeza que tudo aquilo que aconteceu na quinta-feira tinha sido apenas o começo, de algo que precisava e merecia ser explorado. Então eu saí alucinadamente procurando por saias brancas pelos brechós da cidade, em vão, e decidi que iria mesmo que não fosse de branco. Peguei apenas uma camiseta. No fim, Tetê acabou me emprestando uma calça. E, já no sábado, comecei a participar da corrente mediúnica. Assim, de pronto. Sem fazer a menor ideia do que era tudo aquilo, sem entender bulhufas do que me tinha acontecido e sem ter noção de qual mundo era aquele em que eu estava me adentrando.

E foi incrível. Incrível a ponto de eu convencer a minha mãe a me ajudar a achar uma saia. A ponto de eu gastar dinheiro com velas e incensos e afins (quem me conhece sabe os níveis da minha pão durice) e de eu discutir com a minha mãe por discordância pela primeira vez na minha vida. Todas as vezes que qualquer conflito ia aparecer, eu abdicava da coisa sem nem pensar. Mãe em primeiro lugar. Dessa vez eu sentia que não deveria abdicar de nada. Que eu precisava continuar. E que ela ia entender ou pelo menos aceitar, porque ela me ama e é minha mãe, no fim das contas. Ela me conhece. E confia em mim. Hoje nós já superamos a crise e está tudo certo, mas foram momentos tortuosos.

Durante este tempo eu vivenciei coisas que achei serem impossíveis durante os 20 anos anteriores da minha existência. E me vi, na véspera do meu aniversário, em um lindo ritual de fundamento, chamado amaci, onde as minhas forças espirituais seriam ligadas com as da casa, para que eu de fato nunca mais ficasse sozinha e que a energia da casa seja alimentada e alimente a minha para sempre.  O ritual foi incrível e foi um dia mais feliz do que qualquer um dos meus aniversários. Acho que senti ali o que eu deveria ter sentido no meu crisma, e o que senti na minha primeira comunhão, quando tinha apenas 9 anos.

Não digo que estou mais sã ou sensata. Continuo confusa, perdida e maluca. Mas tenho tido uma vontade incessável de estudar, de descobrir o mundo. Com a umbanda eu percebi que o que a gente sabe sobre a vida e o universo é muito menos do que aquilo que a gente pode saber. E eu descobri que sou do tipo de gente que não se contenta com esse pouco. Descobri que eu preciso de mais. Descobri que eu consigo acreditar em uma série de coisas que considerava impossível, e a principal delas sou eu mesma. Apesar de diversas vezes ainda passar por recaídas, parei de tomar meu ansiolítico, me joguei na meditação e no esforço para espantar os sentimentos e pensamentos ruins e acreditar mais nas minhas potencialidades.

Minhas notas melhoraram. Não faltei nenhum dia de academia. Tenho me sentido mais apta ao diálogo e a entender e conversar com pessoas diferentes de mim. Os estudos monográficos têm rendido mais, assim como as leituras extracurriculares. E eu tenho sentido uma fé muito maior em mim e na humanidade. Tenho olhado o universo positivamente e tenho conseguido me sentir muito melhor comigo mesma.

E tudo isso para dizer que a mãe da Cinderella estava certa. Ter coragem, ser gentil (e humilde e caridosa) transformam a gente em pessoas mágicas. Transformam o mundo em mágico. Nos leva a perceber que a magia não é algo transcendente, mas sim algo que emana e imana de e em cada um de nós. Ou pelo menos, que tem a possibilidade de emanar. Desde que a gente permita. Para mim foi a umbanda que proporcionou (e continua a proporcionar tudo isso), para você pode ser outra coisa. Mas todos nós temos essa potencialidade de sermos mais. A gente só precisa acreditar um pouquinho mais em nós mesmos.