Os Miseráveis – Victor Hugo | Resenha

Os Miseráveis Capa Martins Fontes

Quem escreveu o livro?

         Victor Hugo nasceu na França, em 1802, tendo falecido em 1885. Ele escreveu novelas, poesias, peças de teatro e ensaios, além de ter sido um ativista político importante em sua época. Além de Os Miseráveis, é autor de O Corcunda de Notre-Dame, isso para falar dos livros mais famosos. 

       No final de sua vida, ele começou a se dedicar mais para estudos de filosofia social-política e história. Essa perspectiva do autor foi impressa na obra Os Miseráveis. Victor Hugo era católico convicto, até que teve uma experiência positiva com o espiritismo e se converteu para a religião, em 1867. 

Retrato de Victor Hugo
Retrato de Victor Hugo

O que é interessante saber antes de ler?

         Deve ser de conhecimento público o fato de a obra ultrapassar as 1500 páginas, contendo partes estritamente históricas/políticas sobre a França, que não influem muito na história que está sendo contada no livro.

       O livro foi publicado em 1862 em oito cidades diferentes, simultaneamente. Uma dessas cidades, foi a do Rio de Janeiro. Em Paris, a obra vendeu mais de 24 mil exemplares nas primeiras 24 horas após o lançamento.

          A história foi adaptada inúmeras vezes para obras cinematográficas e de televisão, além de ter sido adaptada para um musical, que é até hoje produzido pela Broadway. Nenhuma das adaptações que eu tive acesso até agora conseguiu transmitir a complexidade e delicadeza da obra, ou seja, elas não substituem a leitura.

          É interessante também saber que o livro não tem uma composição simples/comum, onde o texto divide-se em capítulos e, no máximo, sub-capítulos. Os Miseráveis conta com 5 partes diferentes, que por sua vez são divididas em livros, que por sua vez são divididos em capítulos. Essa organização acaba facilitando a vida do leitor e deixando a história mais clara.

Ok, mas sobre o que é esse livro afinal?

          Os Miseráveis se passa na França contemporânea a Victor Hugo, onde a Revolução Francesa tinha acontecido recentemente e o país ainda estava com disputas, de um lado as pessoas queriam a República e de outro, queriam a Monarquia. Nas 1511 páginas do livro, temos a oportunidade de adentrar na história da Batalha de Waterloo, as disputas monárquicas entre os reis Luís e os descendentes republicados de Bonaparte. O grande ápice histórico do livro ocorre no momento das barricadas, em 1848. A temporalidade do romance acompanha a temporalidade histórica do país e as duas histórias são mescladas, de forma a permitir que um leitor que não viveu naquela época entenda com claridade os dramas vividos pelos personagens.

          A França da época era marcada pela desigualdade social, onde a maioria da população era miserável, a ponto de não conseguir dinheiro para comprar pão. A repressão era grande e essa população miserável vivia se escondendo e fugindo dos policiais e soldados, pois se fossem pegos em situação de crime, eles iam parar na Galés. Essa é o equivalente à nossa “prisão de segurança máxima“, mas ao invés de ficarem apenas presos, esses condenados eram forçados a trabalhar. O trabalho não era remunerado, não tinha segurança alguma e as vezes causava mortes. 

Retrato de Jean Valean, interpretado por Hugh Jackman na adaptação cinematográfica de 2012
Retrato de Jean Valean, interpretado por Hugh Jackman na adaptação cinematográfica de 2012

          Nosso protagonista, Jean Valjean, surge na história como um recém liberto das Galés. Sem saber para onde ir ou o que fazer da vida, visto que o ostracismo social perante ex-condenados era absurdo e que toda a política e exército ficava de olho para qualquer possível reincidência, Valjean estava desanimado e perdido. Sua família já não o reconheceria, se é que estariam vivos. Ele não tinha para onde ir, o que comer ou como tomar um banho. Foi liberto, mas tinha apenas poucos centavos no bolso e nenhuma perspectiva. Felizmente, ele encontrou um bispo bondoso que o ajudou e mudou a sua vida, fazendo com que ele voltasse a acreditar na bondade das pessoas. O bispo lhe proveu bens materiais para que ele pudesse reiniciar sua vida e, assim, Valjean foi para uma outra cidade, arranjou um nome falso e iniciou sua própria indústria de vidrilhos negros.

         Paralelamente a isso, temos a história de Fantine, uma jovem bonita e feliz, que acabou ficando grávida de seu primeiro namorado, mas nunca teve a chance de contar para ele, que a abandonou. Sem ter tido oportunidade de estudar, Fantine ficou assustada e perdida com a ideia de ter que criar uma filha. Encontrou uma casa de hospedagens cuja dona tinha uma menina da mesma idade da sua e resolveu deixar sua filha para ser cuidada lá, visto que eles dariam melhores condições. O combinado era que Fantine trabalharia e enviaria uma quantidade de dinheiro mensalmente, para os cuidados com a filha. A intenção dela é que pudesse juntar dinheiro para se estabelecer em Montfermeil e voltar para buscar Cosette. Fantine começou a trabalhar na fábrica de Jean Valjean.

         Tudo isso acontece, com inúmeros detalhes, na primeira parte do livro. Na sequência, somos levados a mergulhar na vida de Cosette e sua criação com os Thernadiér, que a maltratavam. Jean Valjean acaba se sentindo responsável por ela e decide resgatá-la. No entanto, ele começou a ser perseguido por um oficial chamado Javert, por ter reincidido na vida criminal. Assim, a segunda parte do livro narra o encontro de Jean Valjean com Cosette e uma fuga  bem estabelecida.

Cosette trabalhando próximo ao poço
Cosette trabalhando próximo ao poço

       A terceira parte, apresenta um novo personagem, Marius. Ele advinha de uma classe social melhor, era sustentado pelo avô e tinha recém se formado advogado. Acaba tendo mais contato com a história de seu pai, que havia sido soldado em Waterloo e se torna um republicano convicto, o que vai contra a ideologia de seu avô que o expulsa de casa. Marius, então, passa a viver na extrema pobreza e se encontrar com a juventude revolucionária da França.

      A história se desemboca a nos mostrar o encontro entre todos os núcleos, que é envolto por caridade, moral cristã, romance romântico, ideologias e guerra. Tudo isso embebido de uma riqueza de detalhes absurda, onde a narrativa engloba todas as perspectivas possíveis, dando a impressão de se tratar de uma leitura em 360 graus. O livro é repleto de poesia e versos com tradução difícil, cuja editora Martins Fontes decidiu deixar tanto a versão em francês, quanto a em português, disponível para o leitor. A beleza do livro faz com que o número de páginas seja menos importante, devido à grandiosidade da história que é narrada. E pensar que tudo aquilo foi escrito antes de haver computadores, faz com que a leitura fique ainda mais emocionante.

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Contracapa da edição da Martins Fontes
Contracapa da edição da Martins Fontes

E o que você achou do livro?

         Os Miseráveis é facilmente o melhor livro que vi na minha vida até agora. Obviamente não é o que mais me tocou ou o primeiro que eu recomendo para as pessoas, mas sinto que nunca vou esquecer da aventura que foi embarcar nessa leitura. 

       Li o livro em conjunto com uma amiga. Fizemos um planejamento e nos dispomos a terminar em seis meses. Por razões nossas, acabamos atrasando e lemos em sete meses. Quando chegamos ao final, já não sabíamos se chorávamos pela história ou por dizer adeus ao livro, que tinha se tornado nosso amigo e companheiro no tempo em que estivemos juntos. Eu ainda estou com ressaca literária da história, com dificuldade de embarcar em outros universos fictícios. As vezes eu ainda sonho com o livro. Acordo e morro de vontade de bater um papo com Jean Valjean, aí eu lembro que ele não é real e que nada daquilo é real e fico um tanto atônita novamente. Principalmente por saber que pode não ser exatamente real, mas de certa forma foi, de certa forma aquilo tudo foi exatamente o que o Victor Hugo viveu.

      Eu me apaixonei pelo livro. Pela história contada, pela visceralidade com a qual o autor narrava os fatos históricos da França e pela riqueza de detalhes absurda, que as vezes me irritava profundamente, para depois me fazer explodir de emoção e gratidão por ter podido ler aquelas palavras. Os Miseráveis já era uma história importante para mim, por causa do filme musical lançado em 2012, ter acesso ao livro e à história na densidade com a qual foi pensada, me fez quase explodir de emoção a cada dia que eu sentava para ler. Quem conviveu comigo nesses seis meses sabe que era inevitável eu tocar nesse assunto em algum momento. Porque ele não me saía da cabeça.

       Victor Hugo se demonstrou um excelente novelista, a história se demonstrou com ainda mais potencial do que o explorado pelo cinema e os personagens se demonstraram ainda mais cativantes. É claro que tem algumas falhas e, dentre elas, a forma como a personagem Cosette é construída e o romance romântico retratado. Há também algumas falhas históricas e o ritmo da leitura é difícil de ser mantido em alguns momentos. Mas quando a gente finalmente termina, tudo isso é diminuto frente à experiência grandiosa que ficou. E acho que é nisso que devemos nos ater.

      Estou organizando, com a Larissa, um “podcast” da gente conversando sobre o livro e a nossa experiência. Vou liberar ele aqui assim que ficar pronto e vai ser cheio de spoilers, sendo pensado para pessoas que já tenham lido o livro. Por hora, fico com o estímulo: vá lá ler Os Miseráveis. Não tem como se arrepender.