Beyoncé e MC Carol: duas lutas, o mesmo objetivo – o fim da violência policial contra jovens negros.

          Eu não sou a pessoa mais adequada a falar sobre a questão racial/colorista, pelo fato de ser branca. No entanto, senti-me na obrigação de vir falar um pouco sobre o assunto. Caso eu fale alguma coisa errada, peço para que me corrijam através dos comentários.

        O povo europeu e branco colonizou mais da metade do mundo e realizou isso através da supressão da cultura raiz. No Brasil, por exemplo, sabemos pouquíssimo sobre os povos indígenas que aqui habitavam – exceto que a gente se dedique a estudar sobre isso. Não é um conhecimento acessível a todas as pessoas, não é algo que aprendemos na escola. Na escola a gente aprende sobre os vitoriosos, sobre os europeus brancos que colonizaram mais da metade do mundo. E nas aulas de história da escola eles sempre parecem certos, bondosos e amáveis. Mas quando a gente para para pensar no outro lado, nas pessoas que foram oprimidas por esses colonizadores, percebemos que não é bem assim que funciona.

          Os povos colonizadores tinham uma enorme resistência a qualquer coisa que fosse diferente do que eles acreditavam correto. Por essa razão, haviam muitas guerras religiosas e civis, genocídios e ataques. Por essa razão, pessoas fisicamente diferentes do padrão europeu branco, não eram consideradas pessoas. A relação entre os colonizadores e os indígenas brasileiros se deu, primeiramente, a partir disso. Há vários relatos de “testes” para ver se os indígenas eram pessoas. Com os povos africanos, a coisa ocorreu mais ou menos da mesma forma. Por terem a cor de pele diferente da branca europeia, não eram pessoas. Por andarem pelados (em ambos os casos), falarem línguas diferentes e cultuarem a natureza e não um deus criador, não eram humanos. Eram animais. Eram selvagens. Precisavam ser suprimidos, educados, civilizados, consertados. E, na cabeça dos colonizadores, um meio eficaz de realizar esse processo era através do trabalho forçado. 

        Mas, vamos lá, o processo de colonização dos europeus para com mais da metade do mundo ocorreu entre os séculos XV e XVIII, que foi quando a maior parte desses países colonizados começou a lutar pela independência frente aos colonizadores. E, quando essa independência aconteceu e os colonizadores foram embora, não levaram junto essa ideia bizarra de que as pessoas diferentes têm que ter o estatuto de humanidade questionado. 

      No quesito social, já era óbvio que para os brancos europeus da época da colonização as mulheres também não eram iguais aos homens. Elas eram consideradas humanas (o que já é menos pior do que os negros e indígenas), mas não uma humana capaz de realizar atividades importantes para o desenvolvimento da humanidade. A primeira mulher a quebrar com esse paradigma europeu nessa época, que eu me lembre, foi a rainha Elizabeth. Mas, ainda assim, ela passou por inúmeras represálias até atingir o estatuto de rainha mandante.

       Porém, apesar dos pesares, as mulheres eram gente. Agora, após a independência dos países colonizados e quando os indígenas e negros passaram a avançar no estatuto de humanidade e começaram a ser tratados como pessoas, essa diferença entre os homens e as mulheres também prevaleceu. Se, a princípio, o diferente era animalesco, selvagem e a divisão sexual pouco importava, a partir do momento que começou a se considerar os negros e indígenas como humanos, a diferença de tratamento entre gêneros surgiu. E as mulheres negras e indígenas passaram a ocupar um “patamar” inferior ao das mulheres brancas no tratamento e na obtenção de direitos sociais. Por essa razão, eu, enquanto mulher branca, falar qualquer coisa sobre esse assunto é um tanto opressor. Logo, vou parar por aqui a tentativa de dar detalhes e abordar logo o assunto que me interessa. Sugiro que você, caso esteja interessado nessa questão negra, fale com minha amiga Vanessa. Infelizmente ainda não conheço uma historiadora indígena para indicar (mas se você conhecer, me avisa!).

       Enfim, toda essa desigualdade foi perpetuada após a independência, porque o mal já estava feito. A sociedade estabelecida nos países colonizados já estava moldada a pensar nos negros e indígenas como inferiores. E o processo de cura desse mal realizado pelo processo civilizatório europeu imposto a nós, paira até hoje. E faz vítimas até hoje. Infelizmente, não só no Brasil.

          No dia 07 de julho de 2016, a cantora de pop Beyoncé, negra e estados-unidense, publicou em seu site uma carta aberta ao seu público, pedindo para que as mortes de pessoas jovens e negras por parte de policiais cessem em seu país. Segue uma tradução do texto:

“Estamos muito cansados dos assassinatos de jovens negros na nossas comunidades. Depende de nós protestar para que parem de atirar em nós. Não precisamos de simpatia, precisamos que todos respeitem nossas vidas.
Nós vamos nos levantar como uma comunidade e lutar contra qualquer um que acredite que que morte, ou qualquer ato violento, por aqueles que deveriam nos proteger deve ser consistentemente impune.
Estes roubos de vidas faz com que a gente se sinta desguardado e sem esperanças. Mas temos que acreditar que estamos lutando pelas vidas das próximas gerações, dos próximos jovens que acreditam no bem.
Esta é uma luta humana. Não importa a sua raça, gênero ou orientação sexual. Esta é uma luta por todos aqueles que se sentem marginalizados, que lutam por liberdade e por direitos humanos.
Este não é uma provocação aos policiais, mas para todos os humanos que tiram a vida dos outros. A guerra contra as pessoas negras e pertencentes de todas as outras minorias precisa acabar.
Medo não é uma desculpa. O ódio não vai vencer.
Todos temos o poder de transformar nossa raiva e indignação em ação. Precisamos usar a nossa voz para contatar os políticos e legisladores nos nossos estados e demandar mudanças sociais e judiciais.
Enquanto oramos pelas famílias de Alton Sterling e Philando Castile, nós também vamos orar pelo fim desta praga de injustiça em nossa comunidade.
Sua voz vai ser ouvida.
– Beyoncé.”

          A violência policial não é novidade. Também não é novidade que a cor da pele e a classe social influenciam na gravidade dessa violência. E não é novidade que isso ocorre não apenas no Brasil, mas também nos Estados Unidos (e provavelmente em vários outros países). Ano após ano, o povo dos EUA realiza uma série de atividades para tentar diminuir esse genocídio negro, que é feito sem julgamento, sem possibilidade de defesa e sem escrúpulo algum, por parte dos policiais, que são pagos através dos impostos da população, com o intuito de defendê-la

        No Brasil, a violência policial faz vítimas diariamente. Jovens negros são a fatia da população que mais morre anualmente. É de extrema urgência que haja uma conscientização muito básica: não é a cor de pele que torna a pessoa delinquente. Não é porque as pessoas são negras que, automaticamente, são ladras, assassinas, bandidas, imorais e merecedoras de morte à queima roupa. Eu, particularmente, acredito que ninguém merece mortes assim. Eu acredito que todos devem ser julgados pelos seus crimes.

       E, no meio de toda essa discussão, a funkeira carioca MC Carol lançou, no dia 14 de julho de 2016, a música chamada “Delação Premiada“. MC Carol é mulher, nascida na periferia do RJ, negra e gorda. Ela quebra milhares de padrões pelo simples fato de existir. E quebra mais ainda quando se posiciona publicamente para lutar contra o que acredita ser injusto. Inicialmente, Carol ficou conhecida por uma música chamada “meu namorado é mó otário“, onde ela criticava a posição da mulher na sociedade, colocando o namorado para ocupá-la. Posteriormente, ela começou a ser convidada para aparecer em programas de televisão e foi ganhando maior visibilidade no cenário nacional, enquanto cantora e enquanto funkeira. Atualmente, ela é um dos maiores nomes do funk carioca “de raiz”. 

       A nova música de MC Carol é fenomenal. A crítica social imbrincada nela é forte e dolorosa. Para nós, brancos, que perpetuamos o racismo diariamente, as vezes sem nem ter consciência, a dor de ouvir o relato da tortura, os questionamentos levantados e de pensar que por vezes fomos cúmplices de ações pérfidas perante pessoas inocentes, que pagaram por terem cor de pele diferente, é muito grande. Em “Delação premiada“, a crítica maior é em relação ao tratamento de criminosos brancos e ricos e dos negros e pobres. Enquanto os primeiros têm direito a celas separadas nas cadeias e a delações premiadas para diminuir a pena, os segundos são mortos antes de serem julgados. Ficam presos por décadas sem terem sido condenados. Apanham e são torturados pela polícia todos os dias. 

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         É muito necessário que as pessoas em posição de visibilidade se levantem perante as causas que acreditam. Essas pessoas influenciam opiniões, ajudam a formar novas pessoas. Elas conversam não apenas com os que pertencem à sua classe e situação, mas com um público muito mais diverso.

        Quando Beyoncé levanta a voz para falar sobre a posição ruim em que as mulheres negras são colocadas em seu país, ainda hoje. Quando ela se posiciona perante mais uma morte à queima roupa contra um jovem negro em seu país. Quando MC Carol escancara a injustiça realizada pelo sistema policial e judiciário do país. Quando essas mulheres se levantam contra aquilo que as oprime e usam sua posição social para falar por aqueles de sua comunidade que não têm as mesmas condições. Quando isso acontece é que nós vemos o poder dos bons mediadores. É que nós vemos que o ativismo pode sim atingir pessoas para além de uma bolha. É assim que nós vemos que os assuntos complexos e polêmicos podem e devem cair na boca do povo. Que todos devem saber, se indignar e ter vontade de coragem de lutar contra toda e qualquer opressão. São mulheres e atitudes assim que fazem a gente seguir com forças para lutar por um mundo que seja, de fato, mais livre e igual.

          E eu, enquanto mulher, branca e de classe média, só tenho a agradecer. Agradecer a todas as mulheres destemidas e fortes, que dão a cara a tapa e mudam o mundo. Vocês me dão forças para continuar – e, em específico, para me esforçar diariamente para não compactuar com atitudes opressoras. Obrigada.

*A charge que abre esse texto é de 2008 e parece que é de ontem.

Caraminholas

Rotina é aquela coisa chata com a qual somos acostumados a lidar desde que nos entendemos por gente. A primeira coisa que nos faz seguir uma rotina é a escola, porque é um compromisso fixo ao qual nossa vida gira em torno de. E a escola acaba por durar – no meu caso – de um ano de idade até vinte e dois, se eu resolver não fazer mestrado, doutorado e afins. Então, a vida pode ser repleta de incertezas, mas nós sempre teremos uma rotina a seguir.

E daí inventam as férias. Aquele período mágico em que o espaço tempo dá uma trégua e o universo diz “você pode ser livre!” e você acredita nisso, mas não consegue e acaba criando sua própria rotina de férias. A minha consiste em ficar acordada a noite inteira assistindo seriados, filme sou lendo algum livro, acordar no meio da tarde para comer alguma coisa, ficar no computador até a hora que cansar e resolver assistir os seriados, filme sou livro. E fazer isso por um mês seguido. Ou dois, ou quatro, no caso da greve do ano passado.

Querendo ou não, sempre acabamos por nos prender a alguma coisa, porque mesmo que meu elemento seja a água, eu gosto de certa estabilidade e acho que todos gostam. Acho que não existe uma pessoa sequer que consiga lidar bem de verdade com a fluidez da vida, ou seja, com “deixar acontecer naturalmente”. A gente tenta, a gente se esforça, a gente testa a tese estruturada pelo Exaltassamba em todos os âmbitos possíveis da vida e a gente vê ela falhar na maioria das vezes. Porque a gente busca pelo controle e nem é só pelo da televisão.

Nossa cabeça sempre acaba repleta de caraminholas e mesmo quando pensamos que não vamos mais planejar o futuro, antes de dormir estamos fazendo uma lista mental das tarefas que deveremos cumprir no dia seguinte e nós não cumprimos as tarefas no dia seguinte, ainda mais quando estamos de férias. Mas isso não nos impede de planejá-las. Saber que algo não vai dar certo, que não é assim, que é inatingível, que é errado e que a gente simplesmente deveria desencanar e viver sem caraminholas na cabeça por pelo menos um dia na vida, porque: “por favor, pensar cansa!”, não nos faz simplesmente desistir de pensar. A gente não consegue.

E  se uma vez meu professor de literatura disse que para escrever um poema surreal a gente precisava esvaziar a mente, segurar um lápis sobre o papel e depois ver o que tinha saído e que na maioria das vezes seriam rabiscos ou nós simplesmente dormiríamos, eu digo que, mesmo tendo conseguido rabiscos sem sentido uma vez, eu não nasci pro surrealismo. Dali e seu bigode que me perdoem, mas as caraminholas regem minha existência. E a rotina. E a rotina de férias que eu tento aplicar mesmo nos dias letivos e só me ferro.

Stand up Comedy

Dizem que com quinze anos viramos mocinhas. Eu nunca parei pra pensar se acreditava nisso antes de completar quinze anos, mas uma vez me disseram que quando a gente tinha 12 era adolescente e eu, mesmo me considerando criança, me fingi de adolescente só pra poder fazer mechas no cabelo. Com 15 anos resolvi que era mocinha e fiz isso porque eu queria muito viajar sozinha nas férias de Julho.

O destino escolhido foi a cidade em que passei minha infância, Cachoeira Paulista, mas na verdade era só uma desculpa para que, quando eu estivesse lá, conseguisse convencer minha mãe a passar um final de semana em São Paulo. Consegui, baseando-me em argumentos como “vou visitar minha tia” e “eu tenho amigos lá!”. E eu realmente tinha. Amigos que conheci pela internet e com os quais conversei arduamente por muito tempo da minha vida e sempre quis conhecer. Uma delas eu já conhecia, porque o pai mora em Curitiba e a gente se encontrou aqui várias vezes, ela foi até na minha festa de aniversário! Mas o meu amigo, que era a pessoa que eu mais queria conhecer na história do mundo, eu só veria se fosse a São Paulo. E eu fui.

Fiquei na casa da minha tia e passeei com ela por dois dias, até que chegou o dia em que eu iria ao shopping com meus amigos paulistanos. O shopping ficava longe e minha tia nem sabia como chegar lá, mas Lola – minha amiga – me buscou na estação do metrô e fomos ao shopping juntas. Lá chegando eu fui apresentada a todos os amigos dela e, entre eles estava Jay. Foi aquela efusão maravilhosa de sentimentos e a gente riu e se divertiu horrores. Assisti Harry Potter pela primeira vez na vida e chorei com a morte do Dumbledore porque ele me lembrava o Gandalf e depois tomamos Starbucks, algo que eu nunca tinha visto. Rimos e conversamos e anoiteceu e a gente tinha que ir embora e ninguém ia embora de metrô e eu não sabia voltar da estação de metrô para a casa da minha tia e morria de medo de andar sozinha em São Paulo no escuro. Minha tia estava trabalhando e eu estava sem celular, logo a única coisa plausível a fazer foi pegar o ônibus com eles e parar na rua perto da minha casa.

Só que a gente se empolgou conversando e passamos pela rua que eu supostamente deveria descer. E a partir disso eu não sabia o que fazer, porque eu não tinha o endereço anotado, não tinha pra quem ligar, não tinha nada. Estava perdida em São Paulo em um ônibus com as amigas da Lola, porque ela morava perto do shopping e foi a pé e Jay já havia descido do ônibus. A única coisa que me restou foi ir até a casa de uma das meninas, a Karina. A casa dela ficava num bairro muito longe do da minha tia e a gente demorou um tempão no ônibus até chegar lá e acho que depois do ônibus ainda pegamos outro meio de transporte.

Chegando na casa dela comemos um macarrão muito gostoso que sua avó havia feito e meu plano era dormir ali e esperar amanhecer para falar com a minha tia e ir pra casa dela. Só que, para não preocupá-la, resolvi ligar dizendo onde estava, que ia dormir fora e passando um telefone para contato. Eis que minutos depois minha tia liga altamente desesperada, brigando horrores comigo e querendo saber todas as explicações possíveis e eu sem saber direito o que dizer, disse a verdade e ela ficou assustadíssima, porque supostamente o bairro era perigoso e era a casa de desconhecidos. Então ela ligou para os meus pais, contou o que estava acontecendo e fez com que eles ligassem para a casa da menina, eu, no auge da vergonha, atendi o telefone e ouvi mamãe dizer que eu poderia dormir lá sem problemas, enquanto papai estava esbaforido ao seu lado dizendo que eu deveria era morrer porque isso não se faz. Liguei pra minha tia, falei o que minha mãe disse, mas ela disse que não se sentia segura com isso e que iria me buscar.

E ela foi. Demorou um bom tempo até que ela chegasse e quando chegou nos contou que a estação de metrô estava quase fechando e que de lá até a casa ela foi de carona com um desconhecido. Agradeceu à família da Karina e eu também, enquanto morria de vergonha, pedia desculpas pelo transtorno e dizia que a comida estava muito boa. Então voltamos pra casa e combinamos de deixar os detalhes sórdidos da história desta parte da aventura guardados no nosso subconsciente para que jamais fossem compartilhados com alguém.

Voltei pra casa no outro dia, mamãe e Mário me buscaram na rodoviária. A viagem foi tranquila, a companheira de poltrona de ônibus era legal e passamos o tempo todo conversando sobre livros. Mamãe disse que eu não poderia usar internet por um bom tempo e meu irmão concordou. Papai nunca tocou no assunto. Eu conversei por cartas com meus amigos por mais algumas vezes e depois que voltei a usar a internet pedi desculpas a eles pelo que tinha feito. Vi e conversei com a Lola várias vezes depois, mas com os outros nunca mais.

E eu aprendi que a gente não vira algo automaticamente, só porque chega a certa idade.

Eu não era adolescente com doze anos. Não era mocinha com quinze e não era adulta com dezoito (embora tenha voltado a mais uma aventura com amigos de internet em São Paulo e me dado bem). Nós não somos obrigados a agir de acordo com um determinado fluxo de pensamentos, sentimentos e ideias que dizem ser apropriadas para o momento da vida em que estamos. Não me sinto inferior a ninguém por ter brincado de barbies alucinadamente até os treze anos ou por ter feito e continuar fazendo inúmeras merdas juvenis. Não é porque a gente atinge determinada idade ou passa por outros processos de socialização, como a faculdade ou um primeiro emprego, que devemos automaticamente nos sentir aptos a nos portar como adultos amadurecidos. A gente pensa que não, mas nem nossos pais foram assim. Eles também eram irresponsáveis, imaturos e imprevisíveis, porque ninguém aprende a lidar com as responsabilidades da “vida real” repentinamente. Porque esquecem disso na hora que nos contam sobre o decorrer da vida, mas o amadurecimento demanda tempo.  E é aí que a gente entende Peter Pan, mas no nosso mundo não há Neverland. E por mais que a gente queira retardar esse processo e ficar velho em idade, mas jovem em pensamentos por toda a eternidade, não podemos. Não é uma escolha plausível. Em algum momento a gente cresce e, do mesmo jeito que simplesmente paramos de brincar de bonecas sem saber porquê, seremos tão adultos quanto nossos pais.

Enquanto isso, resta-nos aproveitar as viagens loucas, encruzilhadas, e cicatrizes, medos, tristezas, dificuldades, irresponsabilidades e insanidades, pois elas nos farão crescer, mesmo que não pareça. Porque é assim que a vida é, uma peça teatral completamente improvisada.

Help me to retard this process, dear friend.

E a minha é um stand up comedy.

P.S.: Foi proposta para esta semana a brincadeira de escrever uma crônica por dia e eu aceitei, mas não sei diferir gêneros literários, então preparem-se para uma semana de tentativas de crônicas que nunca serão crônicas!

Abrindo o Fecho

Eu sempre fui péssima em abrir fechos de sutiãs. Sempre fui péssima em tudo que envolve sutiãs, diga-se de passagem.

Eu tinha sete anos e ia na casa das minhas amigas ouvir Britney Spears escondida enquanto tentávamos dançar como ela. Uma das meninas sempre pegava os sutiãs da mãe, colocava e distribuia pras outras, porque “a Britney tem peitos, também temos que ter!” e eu nunca colocava o sutiã. E dizia “eu não quero ter peitos” e elas diziam “mas toda menina tem que querer ter peitos!” e eu ficava emburrada e ia pra casa desolada imaginando que um dia talvez eu tivesse peitos.

A minha relação com os peitos foi muito proveitosa, não há como negar. Mamãe tinha muito leite e eu mamei abundantemente até dois anos de idade, então enjoei e comecei a fazer birra e ela parou de me dar leite e começou a doar pro resto do mundo. Depois disso, perdi o contato com aquele punhado de pele da mamãe, tendo-o visto nela e em todas as outras mulheres da família inúmeras vezes porque eu detestava tomar banho sozinha. Não tinha a noção de que um dia aquilo faria parte de mim e quando eu descobri isso, fiquei chocada.

Lembro de me olhar no espelho, me imaginar com peitos e começar a chorar. Pensando que se algum dia aquilo acontecesse comigo, seria terrível. Não é que eu ache feio qualquer pessoa ter peito, eu não me importo com os peitos alheios, só não os queria em mim. A simples ideia de que isso pudesse ocorrer me atormentava horrores e quando eu cheguei na puberdade tudo que conseguia pensar era “por favor, que eu não tenha peitos” e, bem, meu desejo foi realizado e eu sou absurdamente feliz com isso.

Só que não ter peitos não faz com que você se liberte do fecho do sutiã. Porque usar sutiã não tem nada a ver com ter peitos, pelo menos não na cultura brasileira a qual estou inserida. Aqui as pessoas usam sutiã para disfarçar o mamilo, porque mamilo aparecendo é tão chocante quanto andar de saia sem calcinha. É absurdamente deplorável, julgável e reprovável. Então, a partir do momento em que os mamilos das meninas começam a se desenvolver, elas são coagidas a usar sutiã.

“Vamos comprar sutiã, filha!” “Pra que, mãe?” “Todas as meninas da sua idade usam… é pra não aparecer os peitinhos no uniforme”

E todas nós caímos nessa conversa. E ganhamos sutiãs bonitinhos, fofinhos, aparentemente confortáveis e podemos ir pra escola nos sentindo mais mulheres, porque sutiã é coisa de mulher de verdade e a partir disso é como se a gente de fato tivesse crescido. E nunca mais paramos de usar sutiã. Os seios crescem um pouquinho e lá vamos nós comprar de um número maior, uma cor diferente, estampa mais bonitinha e acabamos gostando da coisa, ela se torna tão natural quanto usar calcinha e ninguém nunca pensa em qual sua funcionalidade, simplesmente compra e usa.

Só que quando você não tem peitos, comprar sutiã é altamente torturante. Porque não existe um que seja do tamanho perfeito, sempre vai ficar faltando pano nas costas ou sobrando bojo e não importa o quão coloridos e versáteis eles pareçam, eles sempre vão te machucar. Usar sutiã, caros colegas, é uma tortura. É aquela coisa terrível de se sentir presa o dia inteiro por uma coisa que você não faz ideia do motivo para usar, porque pra quem tem peitos ele é super útil! Ele levanta, deixa no lugar e ajuda a distribuir o peso, fazendo com que as costas não doam, é altamente necessário! Pra quem não tem peitos, não serve pra nada. Não tem nada pra levantar, não tem peso nenhum. Por favor, deixem meus mamilos em paz.

E daí cá estou eu, dezenove anos na cara, mais de dez sutiãs na gaveta. Cada um com um modelo e cor e tamanho diferentes, nenhum sendo confortável o bastante para me fazer querer usar o dia inteiro. Sem saber como lavar aquela coisa de um jeito que não estrague e que limpe de verdade e sempre tendo que pedir ajuda pra mãe. Sem habilidade para abrir ou fechar o maldito fecho, sendo obrigada a colocar a coisa do mesmo jeito que a minha vó colocava, ou seja, abrindo e fechando com ele virado pra frente e tendo como única habilidade no quesito “sutiã” o ato de tirá-lo. Porque é a única coisa que eu faço. Porque eu chego em casa e antes de tirar as meias e o sapato vou logo tirando o sutiã daquele jeito que não precisa tirar a roupa primeiro, ou no máximo eu abro ele e deixo ali só pra constar. Porque machuca, dói, aperta, prende, é aquela coisa que eu nunca esqueço que estou usando, não é orgânica à minha pessoa e, AI. Cansei.

Cansei. É isso. Simples assim.

Eu conheço gente que não usa cueca pelos mesmos motivos que eu detesto usar sutiã, só que, por favor, não usar cueca é muito mais problemático, mas como os terceiros não percebem a falta da cueca, ninguém reclama. Só que todo mundo percebe a falta do sutiã, então todo mundo automaticamente julga, cochicha, reclama, intervém e eu decidi lutar contra isso. Romper esses grilhões, rasgar essas amarras e abrir esse fecho. Eternamente. Decidi que só vou usar sutiã quando eu me sentir altamente desconfortável em alguma roupa sem ele – o que acontece as vezes, porque há roupas com costuras no peito que coçam e nesses casos até sutiãs são mais confortáveis – e em todas as outras ocasiões ficarei sem.

Stich aproves this post

E se você for dizer “Ai, mas é sensual e você já não tem peitos, se não tiver sutiã ninguém vai querer você” eu vou responder que “se a pessoa me quiser ou não baseando-se nas roupas que eu uso ou não, é um babaca tão grande que prefiro manter distância”.

Paradoxos

Sem face.

Eu queria que todos os seres humanos fossem rostos inebriados que passam por nossas vidas. Queria que todos eles fossem uma tábula rasa, prontos para que nós déssemos o significado que temos vontade.

Com face.

Queria que todos os seres humanos tivessem apenas rostos, fossem rostos andantes que se cruzam por aí e despertam anseios distintos em cada um que encontram. Queria que todos fossem apenas rostos.

Nada.

Talvez pudéssemos apenas ser um nada. Um amontoado de células vivas que respiram e agem de acordo com o que foram programadas a fazer, ingenuamente achando terem escolhas próprias.

Tudo.

Eu e você sendo tudo o que quisemos ser, com face ou sem, tudo ou nada, nessa simples metamorfose ambulante e no eterno equilíbrio entre o real e o imaginário, pendendo sempre para o segundo.

Seres perambulantes que em nada influem, mesmo achando que influem em tudo.

Apenas rostos. Sem nome. Sem história. Cada um cumprindo seu papel para o funcionamento do mundo e deixando todo o resto seguir da maneira que deve. Naturalmente. Mesmo que o natural há muito não exista.