[RESENHA] Mad Max (1979)

Características Técnicas

      Mad Max é uma produção australiana, de 1979. Com direção e roteiro de George Miller, produção de Byron Kennedy e música de Brian May, o filme tem 88 minutos e foi distribuído pela Village Roadshow Pictures. Custou cerca de 400 mil dólares australianos para ser produzido e rendeu cerca de 100 milhões de dólares americanos. Foi continuado por mais dois filmes, formando uma trilogia. Em 2015, um quarto filme da saga foi lançado, dessa vez sendo estrelado por uma mulher.

      O primeiro filme contou com Mel Gibson como protagonista, acompanhado por Joanne Samuel, David Cameron, Hugh Keays-Byrne. Ganhou o prêmio Australian Film Institute nas categorias de edição, som e trilha sonora.

Enredo

      A história se passa num futuro não muito distante, pós-apocalíptico e onde as leis australianas estão um caos. Max Rockatansky (Mel Gibson) é patrulheiro da Polícia Central e, junto com seu parceiro, Goose, tentam derrotar a gangue de motocicletas Nightrider, liderada por Bubba Zanetti e Toecutter. Max é casado com Jessie e eles têm um filho pequeno.

      Goose acaba sofrendo um grave acidente e sendo fortemente queimado, após uma tentativa de parar a gangue. Isso faz com que Max fique bastante abalado e peça para ficar um tempo fora da polícia. Nesse tempo longe, ele e sua família aproveitam para viajar e visitar parentes. No entanto, a viagem não é tão tranquila quanto esperavam.

      O grande estopim da história acontece e faz com que Max fique ainda mais revoltado e bravo com os motociclistas, incorporando o “Mad” que antecede seu nome no título do filme. Ele volta para a polícia e, auxiliado de armamentos e um carro inovador, volta-se para uma perseguição assídua da referida gangue.

O que eu achei do filme

     O filme acaba sendo engraçado de ser assistido atualmente. Os efeitos, roupas, fala e trilha sonora remontam a uma outra época. O mesmo ocorre com a ambientação e os automóveis utilizados. É um tanto cômico ver um filme que pretensamente se passaria no futuro, utilizando artifícios de faroeste e coisas muito próximas das que realmente existiam em 1979. Mel Gibson na flor da idade é um caso à parte.

        Fui levada a ver o filme porque tenho curiosidade em assistir ao que foi lançado no ano passado e não vejo sentido em ver o 4º filme de uma série sem ter visto os três primeiros – mesmo que me digam ser possível entender o quarto sem isso. Porém, com toda a repercussão que o último filme teve, eu esperava mais do primeiro. Não tanto da história, mas da composição do universo. Várias coisas são passadas de forma confusa, enquanto grande parte ocorre de forma absurdamente óbvia. Há cenas muito emblemáticas e bacanas, não há como negar. É possível sentir um tanto do sofrimento dos personagens e torcer pela vitória da polícia.

       Há um momento de bastante empoderamento no filme, mas ele logo é suprimido e o que ganha foco é a revolta de Max. Só que isso só ocorre mais próximo do final do filme. Acredito que o estopim poderia ter sido antes e o desfecho poderia ter sido melhor trabalhado. Da forma como foi colocado, Max acaba sendo um bunda mole fujão até perto do final. E o estopim para toda essa revolta acaba sendo mais cruel do que seria necessário. 

      Terminando o filme, fiquei mais curiosa ainda para saber o que ocorre nos filmes que o sucedem, pois a história ali foi bem fechada – apesar dos pesares. Pretendo assistir aos outros filmes em breve e venho relatar minhas opiniões assim que isso ocorrer.

Ah… O Ano Novo…

Um dia eu bradei para o universo com todas as letras que a data comemorativa que mais me irritava era o carnaval. Ledo engano. Existe no ano novo. Acho que sempre o desconsiderei porque nunca o vi como uma data comemorativa, sempre foi o dia do show gravado da globo seguido por incontáveis fogos de artifícios e ir dormir. A única vez que foi diferente foi mais emocionante, mas era por causa do lugar e não da festividade. Afinal, pouco importava o que era comemorado quando eu estava em Times Square com uma neve fininha tentando enxergar fogos super rápidos e sem graça enquanto ouvia pessoas felizes cantando músicas tão velhas que eu nem lembrava que existiam e entendia que existe algo além da música da globo e daquela outra insuportável do “adeus ano velho, feliz ano novo”. Ano novo é uma cilada.

O problema começa com o nome, porque alguém resolveu inventar que era “réveillon”, palavra esquisita de origem esquisita que eu não sei o que significa, mas quando coloco no google translate ele traduz para “new year’s eve”. Eu sequer sei como é que se fala réveillon e, sinceramente, não faço a menor questão. Após o nome vêm todas as hipocrisias. Pessoas que passam o ano inteiro xingando os umbandistas e macumbeiros começam a ovacionar Iemanjá, a Rainha das Águas, sem fazer a menor ideia do que ela representa e de pra que servem as oferendas. Aí pulam ondas, guardam romãs na carteira, escolhem roupas de cores específicas e fazem mil e uma outras coisas, para depois se embebedarem, dormirem e recomeçarem a vida exatamente como em todos os outros anos. As mesmas manias. Mesma forma de encarar as coisas. Mesma rotina. Mesmos gostos. Mesmas companhias. Mesmo tudo.

Só que existe a ilusão. Não podemos esquecer a ilusão! Porque algum infeliz um dia resolveu comparar o primeiro dia do ano com a primeira página de um novo livro em branco, uma nova agenda a ser preenchida de momentos incríveis e inesquecíveis e as pessoas acreditaram. Ninguém é plenamente satisfeito com a sua vida, então a hipótese de haver um jeito de magicamente tudo se transformar é claramente acatada por todo mundo, veja, por exemplo, a quantidade de gente que jogou na mega sena da virada. As pessoas fazem listas, promessas, criam metas, se olham no espelho e juram a si mesmas que dessa vez vão ser diferentes. E não cumprem quase nada. Não só porque esquecem da maioria das promessas, mas principalmente porque mudanças de vida não acontecem do dia para a noite, não é o virar de um dia, um ano ou um milênio que vai magicamente transformar a sua vida. Se você quer que algo seja diferente, comece a construir essa diferença aos poucos, que uma hora ela chega lá.

Eu tenho um terrível problema em prever minha vida. Meu psicólogo sempre cai na discussão do “tá, mas quando você tiver 25 anos, o que você vai querer ter feito/estar fazendo?” ou qualquer pergunta parecida e eu sempre respondo “sei lá, a única expectativa é conseguir terminar a faculdade com 21 anos e depois disso eu não faço ideia”, “mas e casar? sair de casa? viajar? fazer novos amigos? ter um emprego legal?”, “não perco meu tempo planejando essas coisas”. E não perco mesmo. “Quais são seus planos pra 2014?” sei lá. Sobreviver? Completar 20 anos e surtar? Tentar não reprovar em nenhuma matéria (e falhar porque dormir e ver seriados é muito mais legal)? Ler o dobro de livros? Voltar a fazer exercício físico ou qualquer outra atividade extracurricular? Ser mais dócil e amável? Escrever menos? Falar menos? Dormir menos? Não sei. Sobre 2013 posso responder a quaisquer perguntas, já foi, já vivi, já sei. O agora e o amanhã eu só vou saber quando pisar lá, oras bolas carambolas!

“Expectativas geram decepções” disse alguém muito sábio algum dia na vida e eu acatei com afinco essa frase. Não espero nada. Não planejo nada. Ainda assim vivo me decepcionando, imagine se eu planejasse! As poucas coisas que me arrisco a sonhar com e a planejar arduamente na maioria das vezes dão errado, ou por não dependerem só de mim, ou por dependerem de mim a ponto de me fazerem desistir. Eu não sou boa em planejar situações, esperar por momentos, preparar milimetricamente e torcer ansiosamente pra acontecer. Se tiver que acontecer vai acontecer e eu vou achar o máximo e se eu nunca tiver perdido tempo pensando sobre aquilo, o fato de não acontecer não vai me abalar nem um pouco.

Eu não gosto de Ano Novo. Acho uma celebração completamente inútil, sem graça e sem sentido algum e, enquanto ano passado fiquei de preto só para irritar a minha mãe, dessa vez deitei em minha cama e fiquei xingando cada vizinho que soltava fogos de artifício até o momento em que eles pararam e eu consegui dormir em paz. E se eu mandei mensagem de ano novo foi ou porque me mandaram e eu tinha que responder ou porque tenho muita consideração pela pessoa e não queria que me achassem mal educada, afinal, elas não tem nada a ver com o fato de eu não gostar de ano novo.

Para 2014 só digo Allons-y e brigo por ele se chamar 2014 ao invés de Alonso.

Consider me a satellite, forever orbiting…

Acho que nunca vou encontrar um personagem que me capte tanto quanto Christopher McCandless. É quase uma obsessão. Já perdi a conta das madrugadas não dormidas às quais se fez necessária mais uma vista ao filme sobre sua história, enquanto o coração morria dentro do peito por pensar que eu deveria saber pelo menos esse livro de cor. E não sei. Não sei quantas noites passei chorando por ele ou pelo que ele desperta em mim ou por tudo que eu sinto, sonho e reflito a cada vez que lembro que um dia o universo foi habitado por um ser humano de tamanha magnetude. É uma saudade imbatível de algo que eu nunca vi ou vivi e nunca verei ou viverei. Uma dor absurda ao olhar ao redor e perceber que, infelizmente, o mundo não é feito desse tipo de loucos maníacos, dispostos a abandonar a sociedade e viver sua própria vida. A história de McCandless pra mim é  impossível de ser descrita ou explicada. E eu decidi que vou passar minha vida inteira procurando alguém com quem eu ache que deva compartilhar a felicidade. Porque eu decidi que ia tentar entender o Chris e eu decidi isso quando eu tinha catorze anos e nunca tinha lido sequer “O chamado da floresta” e não fazia ideia de quem era Thoreau. E acho que estou conseguindo.

Todas as vezes que acabo em algum canto repleto de natureza, pedras e pouco sinal de civilização, não resisto em subir nas pedras, abrir os braços e sentir o infinito que a Sam, lá no livro do Charlie (que eu sempre esqueço o nome) vivia se referindo a. E eu descobri que não tem a menor graça se sentir infinito sozinho. Não porque seja impossível aproveitar uma felicidade instantânea enquanto estamos solitários, mas porque não é tão infinito se não há alguém do seu lado, sentindo a mesma coisa e rindo da mesma coisa com você. E as vezes a pessoa em si não é significante, o importante é ter alguém. E é por isso que a gente abraça o primeiro estranho que está ao nosso lado quando estamos no meio de uma praça e descobrimos que passamos no vestibular, por exemplo, porque a gente precisa compartilhar. Fomos ensinados que é assim que se vive. E por mais que Mc Candless tenha lutado arduamente para tentar romper com a construção cultural que o cercou, ele modificou a frase do Tolstoi e decidiu que a felicidade só seria real quando compartilhada.

Enquanto Tolstoi propõe que a gente só é feliz quando vive pra outrem, Chris propõe que a gente é feliz e ponto. Que a gente consegue atingir um nível de introspecção benéfica e auto conhecimento que se tornam mais imprescindíveis para nossa existência do que a existência de qualquer outra pessoa. Não que a gente deva virar narcisista e passar o dia inteiro se achando o máximo, mas Chris enxerga que há um ponto de “máximo” em todo mundo e que a gente nunca percebe, porque estamos sempre atordoados com mil e uma preocupações, pressões e problemas inventados para suprir nossa ociosidade e é justamente isso que causa nossa sensação terrível de solidão e de falta de afeto e de laços duradouros, porque a gente passa tanto tempo sendo levado a crer que precisa achar um “outrem” para mirar nossa felicidade em que acaba por esquecer de nós mesmos. E o Chris nunca soube quem ele era e ele precisou de uma epopeia tenebrosa pra descobrir isso e mostrar pra mim que eu posso e que eu consigo. Mesmo que meus pais a vida inteira tenham dito que não, que eu jamais conseguiria andar muito ou ir muito longe e que eu tinha que aprender a dirigir logo, pros meus pés não doerem e que shoppings eram muito melhores que parques, porque eu não me sentiria tentada a andar de bicicleta ou pular corda ou fazer qualquer uma das outras coisas que eu “não posso”.

Se um cara aleatório encheu uma mochila com livros, um saco de arroz, uma troca de roupa, um sapato de chuva e uma arma de caça e foi pro meio do nada, absolutamente sozinho e ainda assim sobreviveu por um bom tempo, escreveu um diário incrível e conheceu pessoas tão maravilhosas que fizeram com que o ato de sair de casa, largar os pais sem dar notícia, queimar todo o dinheiro e abandonar o carro valessem a pena, quem é que disse que eu não posso? Por que eu não poderia? Se há limites na vida, é para serem explorados. Se há perigos, é para serem desafiados e se há desafios é para serem enfrentados. Mesmo que a gente perca. Mesmo que a gente nunca encontre alguém para compartilhar a nossa felicidade. Mesmo que a gente tenha que se contentar com nós mesmos e nossa magnetude eternamente invisível perante os nossos olhos. Mesmo que a gente chore no fim da noite se sentindo um fracasso. Porque viver é sobre tentar. Viver é sobre se sentir infinito. Viver é sobre compartilhar. Viver é sobre estar absurdamente cansado e não conseguir dormir por não conseguir parar de pensar e de chorar pelo simples fato de se… viver.

Jamais conseguirei agradecer meu Supertramp à altura e já me conformei com o fato de essa ser a maior frustração da minha vida, junto com minha maior paixão não realizada e a maior decepção por um abraço que jamais poderá ser dado. E eu nunca vou cansar de falar sobre ele, de lembrar dele e de aprender com ele. Mais uma vez, obrigada Chris.

…I knew all the rules, but the rules did not know me… Guaranteed.

Meu

É interessante analisar a tenuidade existente entre o exterior e o interior, dentro de nós mesmos. Sim, essa frase ficou estranha. O que quero dizer é que em basicamente todos os âmbitos que nos cercam, aquilo que aparentemente é nosso, na verdade não é. O que preenche o nosso interior, na maioria das vezes, é muito mais externo do que poderíamos imaginar.

Os sentimentos existem. A maneira com a qual lidamos com eles nos é socialmente construída e culturalmente ensinada. Acho essa escola muito falha. Nem a ciência, nem Shakeaspere e nem os maravilhosos gregos souberam nos explicar exatamente como agir em cada uma das micro-situações em que nos colocamos. E as vezes as caraminholas de nossas cabeças agem tão mais depressa que o mundo que nos cerca, que a ansiedade nos faz fazer coisas que jamais deveriam ser feitas e tudo que nos resta são lamentações por sobre coisas que ninguém sabe ao certo como conceituar e menos ainda como viver e sair ileso.

Aquilo que é meu nunca o é necessariamente. E mesmo que o casaco seja só meu ou que só eu utilize aquela calcinha, nada impede que um dia eu doe o casaco ou alguém use minha calcinha. O fato de algo parecer meu em algum momento, não o torna eternamente meu. Exclusivamente meu. Meu, de fato.

As histórias que a gente lê e considera nossas foram lidas por muitos outros que também as consideram deles.  E mesmo que uma pessoa jamais consiga ser exatamente a mesma para duas pessoas diferentes, ainda assim ela não é inteiramente diferente, única, só sua. Uma pessoa nunca é inteira e exclusivamente de ninguém.

A única coisa que pode ser nossa, é justamente aquela que mais nos assola e faz com que passemos dias e dias de nossas vidas tentando externá-la, encontrar uma outra solução não intrínseca e ficar apenas livres de. O sentir. Não o ato de sentir, isso todos fazem. Seja pelo tato ou pelo subjetivo, sentir é algo que até os micróbios devem ser capazes de fazer, mesmo que não tenham consciência disso.

A questão é que a leitura que fazemos dos nossos sentimentos é única. Ela depende de nossa vivência e ninguém tem a mesma vivência que outra pessoa, mesmo que seja irmão gêmeo e tenha frequentado os mesmos lugares a vida inteira, a maneira como um enxerga as coisas ainda vai ser um pouco diferente e a razão disso eu não sei, mas é assim que é.

A gente pode escrever páginas, dossiês, linhas, livros, coletâneas e o que mais quiser sobre os nossos sentimentos e ainda assim eles serão incompreensíveis. Tanto para nós quanto para terceiros. Se nem nós conseguimos colocar em palavras tudo que nos assola, como é que podemos mensurar toda a realidade que nos angustia e deixa malucos para uma outra pessoa, que provavelmente vai ouvir a história inteira e ter uma leitura completamente nada a ver sobre o fato vivido?

A gente pode rotular os sentimentos. Dizer que tal coisa é medo e aquela outra coisa é paixão, mas nunca vamos conseguir explicar a forma como o medo e a paixão se mostram para nós. Nunca vamos conseguir transpor em palavras exatas aquilo que tanto nos atormenta e isso vai nos deixar cada vez mais atormentados, porque o fato de não entendermos tudo que se passa com a gente nos deixa ainda mais temerosos, inseguros e atormentados.

A ilusão de posse sobre algo, mesmo que esse algo seja uma ideia de sentimento, uma ideia de pessoa, uma ideia – como na maioria das vezes o é, faz com que a posse se inverta. Enquanto primariamente a ideia é que a gente obtenha o controle sobre aquilo que possuímos, acabamos por nos envolver tanto que nos deixamos possuir. Objetificamo-nos. Perdemos a tão falada autonomia e viramos dependentes de pessoas, coisas, ideias, ideais e leituras idealizadas de sentimentos.

“A felicidade só é real quando se vive para outrem” disse Tolstoi e no decorrer do livro a gente percebe que não é bem assim que a banda toca, porque viver para outrem não necessariamente gera a completude e a dita felicidade que tecnicamente buscamos. E que buscamos, mas suportamos por apenas alguns dias e depois nos irritamos com o ato de estarmos felizes e procuramos defeitos e problemas em lugares completamente aleatórios, só para ter uma desculpa para continuar reclamando, continuar lutando, continuar vivendo. Afinal, qual é o ponto em viver feliz? A constância irrita. Não importa de qual sentimento seja essa constância. Nada importa.

E a cada dia que passa, cada história conhecida, momento vivido, lugar encarado e abraço sentido fazem-me entender menos ainda todo esse caos ambulante na qual estou inserida. Fazem minha vontade de existir diminuir cada vez mais, enquanto o ódio dilacerado pela existência da humanidade me possui, me conforta e me irrita. Ser malvada, assassina, temida, briguenta, um sonho. Hiper-sensibilidade, preocupação extensiva, sonhos bizarros que parecem tão reais que assustam, vontade de fugir, de recolher-se em si e só depois ir em busca a um abraço querido e apaziguador.

Síndrome de Supertramp, talvez. Culpa do Tolstoi, talvez. Ou minha, dessa cabeça impensante que tanto pensa, dessa necessidade abrupta de sentir e ser sentida, mas não se sentir apta para nada disso. Culpa? Por que é que alguém tem que ter culpa? É tudo meu. Minhas leituras sobre o mundo. Meu sentimento. Meu. Mesmo que eu não tenha nada.

Eu não sei pra que lado mas eu vou, tento tanto mas tão tonto perco o tempo e a direção. Percorrendo, assim, eu vou. Persistentemente em frente eu tento insistir em ir. Eu sou um otário! angustiado! A minha meta é vaga, infelizmente não dão vaga para quem vive só sonhando! Flutuando pela ciclovia num mundo de sonho e fantasia…

 

Angústia

Eu entendo as razões para a existência do feminismo. Entendo que as mulheres são tratadas como inferiores em quesitos que realmente não são e que por causa de tamanha desvalorização elas acabam objetificadas e tratadas como nada. Eu entendo que por causa dessa cultura massificada que ensina os homens desde sempre que mulheres possuem ótimos buracos e que peitos são a oitava maravilha do mundo, muitas mulheres sejam estupradas, abusadas, violentadas de maneiras absurdas e mortas todos os dias. E entendo que muitas delas não tenham coragem de contar nada disso, por medo da revolta do agressor. Por medo de sofrer mais pelo simples fato de ser mulher. Eu entendo tudo isso. E acho uma palhaçada. Assim como acho uma palhaçada que todas essas coisas aconteçam com negros, indígenas, mendigos, homossexuais e quaisquer outra subdivisão considerada inferior e mais fraca por algum modo. E é por isso que defendo o direito de todas essas pessoas a irem à luta, por igualdade e por respeito. Coisas que deveriam nos ser garantidas, tendo em vista que fazem parte da “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, mais precisamente do artigo II que diz “Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidas nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento ou qualquer outra condição”.

A questão é que a Declaração de Direitos Humanos é só uma proposta de acordo de paz, como muitos outros, que servem como aparatos para algumas coisas, mas não como bases reais de fundamentos para atitudes humanas. A maioria das pessoas nunca leu essa Declaração e, convenhamos, ninguém nunca foi perguntado se concordava com ela ou não. A gente simplesmente nasceu. Aqui, num universo repleto de regras e convenções às quais tivemos que aprender a lidar, até que isso nos sufocasse o suficiente para que, os que não aprenderam a lidar, se revoltassem e começassem suas revoluções em prol das minorias.

Descobri-me uma pessoa revoltada para com o feminismo. Eu sempre achei que gostava dele, porque eu concordo com vários de seus preceitos e porque adoro o fato de eu poder ter voz e poder tomar decisões sobre a minha vida, coisas que jamais teriam acontecido sem ele. Só que uma das linhas do feminismo é a da “teoria queer”, que pretende uma igualdade social total entre os gêneros e isso me incomoda de um tanto que nem consigo expressar. Não a teoria em si, se ela se tornasse realidade ok, eu até conseguiria me acostumar, eu acho, a questão é que vejo essa e algumas outras linhas do feminismo tão utópicas quanto o lindo comunismo marxista. E isso me irrita. Porque é impossível que a classe oprimida se reconheça como oprimida e se una em prol de uma revolta de paradigmas. A gente nunca vai conseguir uma revolta comunista, porque ao mesmo tempo que detestamos a desigualdade social e todo o mal que ela trás para a humanidade, adoramos o fato de podermos comprar o celular que a gente quer e todos os outros privilégios de “classe média” e, ok,  a ideia não é empobrecer as pessoas, é tornar todo mundo igual em um patamar econômico mediano, suficiente para todos serem felizes com seu dinheirinho e tal, mas eu não consigo ver uma aplicação prática disso. Não consigo imaginar um mundo sem desigualdade e se eu conseguisse, não sei se ia querer viver nele. Pode parecer ridículo e talvez seja, mas é a verdade. O mesmo acontece com o feminismo. A intenção não é tornar o mundo uma enorme supremacia feminina, é apenas promover a igualdade entre os sexos/gêneros, visando o respeito. Tecnicamente é uma coisa bem simples, o problema é que até as pessoas que lutam por isso foram criadas sob preceitos machistas e até elas vão reproduzir o machismo em algum momento, não é como se fôssemos capaz de extirpar uma cultura da gente, só porque de repente a vemos como errada.  Por mais feministas que sejam, as mulheres vão continuar em busca de um parceirx para a vida. Vão continuar sabendo menos sobre fios elétricos e mais sobre pregar botões e para mudar isso teriam que mudar toda a mentalidade de uma geração que está sendo formada, mas como mudar essa mentalidade, se os próprios formadores de opinião não sabem direito o que expressar?

Vivo em um mundo muito ativo politicamente, vivo rodeada de militantes das mais diversas coisas e, ao mesmo tempo, vivo em uma família ultra-conservadora que odeia tudo isso. Para ser diferente da minha família, forcei-me a acreditar cegamente em todos os padrões militantes sem nem pensar sobre eles, porque eram diferentes dos da minha família, então deviam ser bons. Só que eu me sinto tão oprimida pelas pessoas que pregam o libertarismo, o feminismo e a igualdade, quanto pelos que pregam a opressão, o conservadorismo e a supremacia. Consigo verificar pontos negativos e positivos das duas posições e me é impossível decidir de qual lado eu quero ficar. Sou uma completa indecisa e em cima do muro, em todos os quesitos, porque eu nunca vou conseguir discordar completamente de alguém e, ao mesmo tempo que isso me irrita, eu acho fantástico. Porque eu realmente me acharia uma babaca se estivesse comendo kinder bueno enquanto saía gritando por uma igualdade econômica ou se tivesse indo gritar pela liberdade feminina após ter pedido permissão para o meu pai para isso.

Meu pai nunca se importou com o que eu faço ou deixo de fazer, então eu simplesmente faço. Mas eu sei que isso decepciona tanto a ele quanto à minha mãe. Saber que eu tento pensar e que não quis ser um robô programado para seguir preceitos da moral cristã os assusta, tendo em vista que foi para isso que eles me criaram e eu acho divertido esse embate familiar que tenho que lidar todos os dias, acho que é um ponto forte do feminismo existente em mim. Isso e o fato de eu ser uma maluca por quebrar convenções sociais que impõem que eu tenha um cabelo comportado, use roupas bonitinhas, coma salada e tenha planos para casar. Mas acho que é só isso. Eu prezo muito pela liberdade perante o meu próprio corpo e pelo direito de poder estudar e trabalhar e receber a mesma remuneração que um homem no mesmo cargo. Eu detesto as cantadas dos pedreiros que sou obrigada a ouvir todos os dias e me enojo ao ver as crianças brincando de ser mães, porque elas poderiam estar brincando de uma série de outras coisas, mas não pelo fato de “estarem treinando para ser mães”. Acho legal a noção de que uma mulher não PRECISA ser mãe, mas ao mesmo tempo, acho legal quem respeita aquelas que querem. Aquelas que acreditam no casamento, numa vida comportada e conservadora.

Se Doctor Who aparecesse na minha vida hoje e me perguntasse em qual época e lugar eu gostaria de ser largada, pediria para estar na Inglaterra do século XVIII, para ter a chance de viver um dos romances da Jane Austen. Porque eles são lindos, eles são românticos, mas são a representação perfeita de como uma sociedade machista funciona e de como uma mulher acaba por se render a ela quando encontra o amor, porque só o amor salva. Eu nem sei se ainda acredito no amor, mas queria ter a chance de viver naquela época, porque lá eu acreditaria, lá eu não precisaria pensar, lá eu não teria que viver essa eterna angústia de pessoa insatisfeita com a própria insatisfação. Lá eu poderia apenas reproduzir o que minha mãe me ensinaria, poderia bordar em paz (como eu tenho saudades de ter tempo para bordar!) e poderia criar um monte de pirralhos, do jeito que eu sempre quis.

No mundo atual eu me vejo cada vez mais obrigada a aperfeiçoar o meu intelecto, a conviver com pessoas que acreditam em coisas que acho duvidosas, a olhar para as crianças às quais dou aula com pena, porque sei que um dia elas vão ter que encarar o mundo e vão se decepcionar. Mas não consigo deixar de ter um pingo de esperança e fico com vontade de mudar a vida deles de algum modo, de fazer eles pensarem, talvez se todo mundo tiver senso crítico as utopias se tornem reais. Talvez o que falte seja a gente acreditar. O Chapeleiro Maluco de Once Upon a Time disse que o problema dos humanos é que eles querem sempre uma solução mágica, mas não acreditam nela. Eu realmente não acredito. As vezes eu acho que não acredito em nada. Se não consigo acreditar nem em mim, como serei capaz de acreditar em qualquer uma dessas milhares de teorias fenomenais com as quais vivo entrando em contato? Como serei capaz de achar que um dia seremos iguais, mas ainda assim haverá um jeito do romantismo existir? A visão que eu tenho é a de que o romantismo é tão antiquado e dominativo, que em uma sociedade igualitária simplesmente desapareceria e a gente ia se relacionar com as pessoas só para suprir a ânsia de não sermos sozinhos. E eu já cansei disso, de tentar tampar o Sol com uma peneira e continuar queimada pelos raios UV que passam por cada buraquinho. Eu já cansei de me ver obrigada a sorrir e concordar com as coisas só para não parecer uma conservadora-reprodutora-de-senso-comum mesmo estudando antropologia. Porque tem uma assim no meu curso e ela é deplorável e eu não quero ser ela e eu não acho que eu seja. Mas também não sou aquela que vai sair por aí gritando que quer que o mundo seja perfeito, porque eu odeio coisas perfeitas, porque eu preciso dos meus problemas imaginários e dos motivos para passar o dia inteiro angustiada e sofrendo e comendo mil e um doces e ficando com peso na consciência porque vou sair do padrão de beleza implantado na minha mente!

Eu jamais lutaria contra o padrão de beleza, inclusive, porque eu adoro ele. Por mais opressivo e exclusivo que seja, eu gosto da ideia de que as pessoas tem que se depilar, ter dentes brancos e não tortos, cabelos ajeitados, unhas bonitas, roupas não grotescas e um peso que condiga com sua estrutura óssea. Acho triste as pessoas que se submetem a mil plásticas porque querem ser a barbie, mas nisso eu enxergo apenas um exagero e não uma razão para acabarem com as barbies, mesmo porque, elas são bonecas simples, que proporcionam que as crianças continuem criativas e continuem a inventar histórias e qual é graça de ser criança se você não pode inventar histórias? Se você não pode achar que um dia vai ser uma princesa, como as da Disney, ou até mesmo como a Mia Thermopolis? Eu odeio a robotização infantil que vem sendo pregada constantemente, se elas não puderem inventar histórias, não vão conseguir desenvolver seu raciocínio a ponto de se tornarem bons pensadores e sem bons pensadores a humanidade acaba. As indagações acabam, a arte acaba, a literatura, música, cinema… tudo vira reprodução do que já foi, repetição do que já foi dito. E é isso que me incomoda. E não o fato de uma mulher pedir para um homem trocar uma lâmpada ou fazer a bateria do carro funcionar, não são coisas que interessam muitas delas. Assim como pregar botões e fazer cachecóis não interessa muitos dos homens. E eu não sei qual é o problema disso. Não sei qual é o problema em cumprirmos alguns papéis diferentes. Não sei qual é o problema em sermos diferentes e ao mesmo tempo tão intensamente dependentes uns dos outros.

As vezes eu acho que todos esses movimentos sociais apenas ampliam o individualismo e o enfraquecimento de laços sociais, enquanto acreditam estar fazendo o exato contrário. E isso me irrita, me incomoda, me deixa enfurecida. Porque eu odeio ser sozinha, porque eu sou uma pessoa absurdamente dependente. Porque um dia minha mãe vai morrer e eu vou precisar de alguém que me dê liberdade o suficiente para eu chorar no colo, dormir abraçada e pedir para pentear meu cabelo nos dias que meu braço resolve não funcionar. E eu não me vejo conseguindo nada disso em um universo em que as pessoas vivem pregando que não precisam umas das outras, exceto no momento da revolução. Porque eu odeio as pessoas, mas eu preciso delas. O tempo inteiro.