[REVIEW] Gilmore Girls – 3ª Temporada

     Esse texto contém muitos spoilers e é recomendável que você já tenha assistido a tericeira temporada de Gilmore girls antes de realizar a leitura. Você pode ver a review da Primeira e da Segunda temporada.

Temporalidade

      No final de julho tivemos a divulgação da data de estreia da oitava temporada de Gilmore Girls, chamada “A Year in Life“. As informações que nós já tínhamos, é de que seria uma temporada com apenas quatro episódios, de noventa minutos cada. Cada episódio será referente a uma estação do ano e a série se passará no ano corrente. O que nós não sabíamos é que a Netflix ia disponibilizar todos os episódios no mesmo dia (apesar dos protestos da criadora da série) e que esse tão aguardado dia seria o dia 25 de novembro! Para que as coisas ficassem ainda mais emocionantes, fora lançado o primeiro teaser da temporada. Deixo vocês com a apreciação dele.

     Agora, sobre a temporalidade da terceira temporada. Vimos um ano inteiro passar nessa temporada! Começamos nos preguiçosos dias de verão e terminamos com a formatura de Rory, que ocorre já no próximo verão. No meio tempo, passamos por dois memoráveis festivais da cidade, uma festa de aniversário bacana para Lorelai, impasses em relação ao jantar de sexta-feira, um dia de ação de graças bastante agitado, dois bebês e dois fins de relacionamento. Foi bastante coisa, mas a Netflix conseguiu resumir em um minuto – conforme está fazendo em todas as temporadas. 

Os casais

Rory e Dean

     Rory começa a temporada sacaneando Dean, pra variar. Ela está visivelmente apaixonada por Jess. O beijo do episódio final da temporada anterior ainda ressoa e o tempo em Washington não a fez esquecê-lo. Ela até tenta continuar com o Dean, mas o coração dela não está mais lá e ela segue sem coragem de dizer isso. Vários episódios dela tentando se convencer a continuar com o Dean são vistos. E, óbvio, Dean percebe tudo que está acontecendo, mas como ele gosta muito dela, não consegue “largar mão” do relacionamento. Os dois seguem se enganando. 

     Dean acaba sendo recriminado por muitos fãs por ter terminado o relacionamento em público, mas eu super entendo ele. O episódio do festival de dança foi apenas o estopim. Ele já estava saturado, Rory já estava saturada, o relacionamento estava saturado. Ele foi o mais honesto da história e apenas fez o que deveria ser feito: deixar ela tentar a sorte com o Jess. É claro que, na cabeça de Dean, ela iria se decepcionar e voltar a ficar com ele. Como isso não aconteceu, ele acabou partindo para outra e, já no final da temporada, anunciou seu noivado. É interessante que o relacionamento não ganha foco na série e a gente sabe quase nada sobre a Lindsay, o que nos faz achar que Dean realmente só se mete em relacionamentos sem conhecer direito as pessoas. 

     É curioso, porém, que o relacionamento de Rory e Jess não seja lá aquelas coisas e ela acabe sentindo ciúmes da Lindsay, mesmo sem admitir. Também é bastante interessante que, após o término, ela e Dean tenham a vontade de serem amigos, pois “sentem falta de conversar um com o outro”, sendo que em todo o relacionamento deles, era raro ser mostrado ao telespectador essas conversas. A impressão que a gente tinha era de um desentendimento constante, causado por falta de interesses comuns. Porém, basta o relacionamento terminar para que eles se tornem os melhores amigos que já tiveram e sintam saudades um do outro. Bizarro.

     Outro ponto bastante esquisito dessa história é que Dean se mete em uma briga destruidora com Jess, para que na próxima vez que encontra a Rory conte que está prestes a ficar noivo. Ele tinha acabado de brigar feio e destruir uma casa com o namorado dela, o que dava a impressão de que ele estava querendo reconquistá-la, e então anuncia que vai ser noivo de Lindsay. É de dar pena a confusão mental do pobre Dean. 

Rory e Jess

        Estava na cara que esse casal não ia vingar. Rory era acostumada com um namorado atencioso, que gostava de sua mãe e compartilhava os momentos com ela – por piores que eles parecessem. De bailes de gala à festas escolares e jantares de família. Quando ela se depara com alguém como o Jess, que não dá o braço a torcer e tem zero de esforço para conhecer e se adentrar no universo dela, fica um tanto perdida. O relacionamento deles, que enquanto amizade se demonstrava com um grande potencial de entendimento, acaba se tornando algo bastante estressante.

      Jess é o primeiro cara por quem Rory parece cogitar a hipótese de transar, mas para ele, sexo não parecia ser exatamente um problema. É bastante interessante, porque o assunto “sexo” nunca surgiu enquanto Rory estava com Dean, mas assim que ela começa a se envolver com Jess ele surge. Seria um sinal de moralismo na série? Essa hipótese é levantada pela seguinte situação: Rory é constantemente vigiada e lembrada por sua mãe de que ela não deveria transar e que deveria comunicar quando pretendesse fazer isso. O  medo de Lorelai é que ela engravide e “repita seus erros“. Rory, por sua vez, não parece ser uma adolescente normal e simplesmente não demonstra sentir tesão sexual por seu primeiro namorado – que é bem aceito pela mãe e considerado certinho. Já, quando ela começa a namorar o cara que a mãe não gosta, o “bad boy“, o assunto do sexo surge e vira uma possibilidade. “Ela era muito nova antes“, vocês podem me dizer, mas 16/17 anos não é cedo demais para transar se você é loucamente apaixonada por seu namorado fixo. Então, bom, a abordagem do sexo em relação à Rory começa problemática aí. Ela não parece se sentir confortável com a ideia ainda, o que é ok, mas a partir do momento que ela começa a se sentir confortável, tem a noção de que não é certo e não deveria fazer e não faz.

       Enfim, Jess acaba indo embora, por causa de conflitos familiares sérios. E não comunica isso com ela. Ele não comunica com ela nenhum de seus problemas e vive uma relação fútil, sem deixar que Rory penetre em sua vida e sem penetrar na vida dela. De um namoro, Rory vai para um relacionamento de “amigos que se beijam” e ela até tenta se contentar com isso, mas não consegue. Acredito que Jess seja a primeira grande decepção de sua vida.

Sookie e Jackson

     Nessa temporada, eles experimentam o início da vida em casados, que é bastante inovadora para ambos. Jackson se muda para a casa de Sookie e ela sente que precisa se esforçar para fazer com que ele sinta que a casa também é dele, embora ele diga que isso não é necessário. Isso gera um episódio muito legal, mas também mostra que nenhum relacionamento é perfeito e que é possível haver conflitos quando se tenta agradar o outro. Mas não é algo muito grande, é bem específico de fase de adaptação mesmo.

     O casamento deles acabou acontecendo de forma rápida e várias coisas em relação ao futuro não haviam sido discutidas. Por isso Sookie leva um susto quando Jackson aparece com a ideia de que queria ter quatro filhos em quatro anos. Da mesma forma, Jackson surta quando Sookie comunica estar grávida. Não havia preparação financeira e psicológica para os dois, que eram recém casados. E, na verdade, é meio chato que eles não possam ter curtido por mais tempo seu tempo juntos.

Lorelai e Christopher

       Christopher não apareceu muito nessa temporada, tendo inclusive faltado a formatura de Rory, o que nem foi tratado como uma grande coisa – fato muito estranho. Lorelai e ele começaram a temporada de forma conturbada, devido ao abandono gerado no último episódio da temporada anterior. As coisas complicaram bastante quando Emily tentou juntá-los, por não saber o que estava acontecendo. Eles passaram um longo tempo sem se falar, o que gerou estranhamentos em Lorelai quando ela foi convidada para o chá de bebê de Sherry e a deixou ainda mais desconfortável por ter tido que comparecer ao nascimento de G.G

     Christopher voltou ao seu padrão de pai ausente e, aparentemente, começou a aceitar a ideia de ficar com Sherry e cuidar de G.G. Mas, como não foram dados muitos detalhes sobre ele no decorrer da temporada, várias dúvidas surgem em relação à sua vida atual.

Emily e Richard

      Não há conflitos entre o casal no decorrer da temporada. O mais próximo disso ocorre quando Lorelai the First (ou Trixie) é pega em flagrante dando um beijo e Emily acaba contando isso para todos. Richard fica bastante enfurecido, mas como elas logo fazem as pazes, tudo fica em paz.

     Outro ponto de quase briga ocorre no dia em que Richard conseguiu levar Rory para conhecer Yale e marcou, às escondidas, uma entrevista com um de seus ex-colegas que tinha influência na seleção de lá. Emily ficou enfurecida, pois já sabia que Lorelai não estava gostando da ideia de levar Rory para conhecer Yale e ter uma surpresa dessas não ajudaria na relação das duas. Esse conflito também não foi levado adiante. Com Richard em sua própria empresa e bem relacionado, Emily não tinha razões para brigar com ele.

Luke e Nichole

       Mais um pra lista dos relacionamentos amorosos esquisitos da série. Nichole é advogada de Taylor e eles se conhecem por causa de um aluguel a uma das propriedades de Luke, requisitado por Taylor. O relacionamento começa por causa de Jess, que basicamente desafia Luke a chamá-la para sair. Ela aceita, eles se dão bem e começam um relacionamento.

     Não sabemos muito sobre Nichole, ao contrário de Rachel, não há cenas em que ela seja a protagonista. Tudo que sabemos é que sua existência aflora o ciúmes de Lorelai e faz com que ela comece a perceber que tem sentimentos por Luke, o que é evidenciado no momento em que ela toma coragem para parar de brincar e pedir para que ele não viaje com Nichole, pois seria muito romântico e sério. Luke não entende, mas a gente entendeu: ela não queria ele com outra mulher. Nesse momento, o shipp Lorelai e Luke ficou aflorado.

      A temporada acaba sem a gente saber se essa viagem aconteceu ou não, sem saber detalhes desse relacionamento e sem conhecer direito a Nichole.

Lane e Dave

      Aí está o casal mais fofo da temporada! Finalmente, Lane tem a vida que gostaria. Começa a tocar bateria, encontra um amor que a entende e não questiona as birras de sua mãe – pelo contrário, resolve tentar conquistá-la e depois enfrentá-la e tem o seu primeiro beijo.

      Lane desfruta de uma boa festa onde sua banda toca, várias festas realizadas em sua casa para o público da igreja de sua mãe e, claro, o baile de formatura. É bastante revoltante que esse baile não tenha sido mostrado, visto todo o esforço que ela e Dave tiveram para conseguir a autorização da senhora Kim. Acredito que, se Jess tivesse conseguido os convites para ele e Rory, esse baile teria aparecido. Mais uma pra cota de excesso de protagonismo das Gilmore!

     O que importa é que Lane e Dave são extremamente fofos e compreensivos. O episódio em que eles dão seu primeiro beijo é a coisa mais fofa do mundo e quando ele vira a noite lendo a bíblia para conseguir entender a senhora Kim, é outro momento de explosão de fofura! 

Dave Rigalsky appreciation picture

Paris e Jamie

         É muito emocionante o fato de Paris ter encontrado alguém que goste dela. A coisa ruim disso, é que nunca vemos os dois juntos e não fazemos ideia de como é o relacionamento deles. Parece bom, mas não tem como ter certeza. Nessa temporada, em específico, Paris fica distante e um tanto apagada e isso é penoso, porque é justamente a temporada onde as grandes reviravoltas de sua vida ocorrem.

      O fato de ela ter transado antes de Rory é bastante marcante, porque seria inimaginável aos olhos de um terceiro. É realmente uma pena que nós, telespectadores, não tenhamos tido oportunidade de ter detalhes sobre essa relação e o desenrolar dessas coisas. Mais uma vez, culpo o excesso de protagonismo das Gilmore.

      Mais uma vez, o sexo é visto de forma errada e ruim. Paris culpa o fato de ter estado em um relacionamento e feito sexo por não ter passado em Harvard, o que passa a impressão de que relacionamentos são distrativos e que quando você é adolescente e faz sexo alguma coisa errada vai acontecer com a sua vida. Não gosto dessa mensagem implícita na série.

As amizades

Lorelai e Rory

      A amizade das duas ficou ainda mais aflorada nessa temporada. Lorelai continuou indo onde Rory precisava dela e vice-e-versa. As duas não brigaram de forma exponencial e conseguiram entrar em consenso sobre todos os problemas que apareceram. Rory, inclusive, deixou de falar com o próprio pai em solidariedade a Lorelai. E, ao ver que a mãe precisaria desistir do sonho de ter o próprio hotel, para pagar sua faculdade, pediu, por conta própria, um empréstimo aos avós. Provavelmente o ato de maior responsabilidade de Rory até então. A parceria das duas segue ótima.

Lane e Rory

     Rory não entendeu a mensagem que Lane mandou contando do beijo e não retornou perguntando sobre. Aquilo me magoou bastante, porque Lane sempre dá bola pros perrengues de Rory e foi abandonada em uma hora linda e emocionante. 

       Rory se redimiu quando aceitou ceder espaço na garagem de sua casa para que a banda da amiga treinasse. Isso permitiu que Lane prosseguisse com seus sonhos e seu relacionamento, ponto pra Rory! 

         Já no começo da temporada, temos a saga de Lane buscando independência e querendo pintar seu cabelo para isso. Rory demonstra ser uma boa amiga nessa ocasião, pintando de roxo e, depois, de preto, o cabelo da amiga. 

Lorelai e Sookie

      A amizade das duas tem seus abalos quando diz respeito ao futuro do Independence Inn. O sonho conjunto de ter o próprio hotel persiste, mas quando o Independence sofre o incêndio e passa pela reconstrução, elas começam a se estranhar. Felizmente, tudo se ajeita, a dona do Dragonfly morre e elas conseguem dinheiro suficiente para comprá-lo. Boas coisas provavelmente vêm daí.

      Sookie segue sendo a amiga de todas as horas para Lorelai. E, mesmo com Jackson em casa, mantém o programa de ser o “backup” de café da manhã, para os momentos em que Lorelai briga com Luke.

Rory e Paris

          As duas começam a temporada muito bem, com uma experiência positiva em Washington. Mas dividir a presidência do corpo estudantil não ajudou a amizade de ambas, infelizmente.

      Paris, inexperiente em relações amorosas, acaba sem saber elencar prioridades e ficando perdida. Rory se vê no meio de uma briga, sofrendo ameaças por parte de Frankie e fazendo com que Paris entendesse as coisas de forma equivocada e se voltasse contra ela. As duas passam a maior parte da temporada brigando e a experiência de dividir a presidência, que poderia ter sido positiva, se torna caótica.

           Felizmente, ambas acabam tendo que dividir a autoria do discurso de bicentenário de Chilton, fazendo com que Paris fosse até Stars Hollow e desse um update a Rory sobre sua vida, de forma que as duas acabaram se reconciliando. Isso fica ainda mais visível quando Paris não é aceita em Harvard e entra em depressão, mas recebe o apoio de Rory, que a visita em casa e tenta colocá-la para cima.

Lorelai e Luke

      Mais uma temporada repleta de altos e baixos na relação dos dois. Apesar de ser visível para o público que eles se gostam, eles ainda não descobriram ou admitiram isso, dificultando bastante as coisas. Lorelai segue sendo a melhor conselheira possível para ele e ele sendo o amigo mais fiel possível.

      O episódio em que ele se dispõe a ajudar Lorelai a aprender a pescar, para que ela pudesse sair com outro cara, é o auge dessa temporada. Pela primeira vez, ele tem a oportunidade de mostrar algo que é importante para ele e compartilhar isso com ela – mesmo que o interesse por trás da história fosse ela sair com outro cara. Eles acabam se aproximando ainda mais. 

      Porém, um distanciamento começa a ocorrer com o aparecimento de Nichole que, como Rachel, tem ciúmes de Lorelai. Isso fica evidente no episódio da conferência sobre Poe, onde ela acaba tendo que ir dormir na casa de Luke e ele prefere não contar para Nichole. Esse distanciamento pode ou não ser nocivo, dependendo de como as coisas forem retratadas daqui para frente. 

    Luke ter emprestado sua lanchonete para que servisse de restaurante enquanto a cozinha do Independence Inn não tinha sido consertada é outro ponto alto de sua narrativa.

Luke e Jess

      Jess começa a se dar melhor com Luke. Eles conversam mais, inclusive sobre mulheres. Luke consegue impor limites e ordens em relação ao relacionamento de Rory e Jess – apesar de sua preocupação maior ser com o bem estar de Rory e não do sobrinho. Porém, as desconfianças continuam a perseguir  a relação. Primeiro com o aparecimento do carro de Jess, seguido pela descoberta de que ele estava trabalhando no Wall Mart. O orgulho por Jess ter sido eleito o funcionário do mês no supermercado se converte a estresse, quando Luke descobre que ele tinha deixado de frequentar a escola para realizar horas extras e estava prestes a reprovar.

       O pai de Jess apareceu na cidade, Luke não contou para ele, mas ele acabou descobrindo. Isso fez com que Jess se revoltasse ainda mais perante Luke, a escola e a cidade. E, de repente, era como se Rory não existisse ou fosse importante, porque Jess, após um desentendimento com Luke, simplesmente fez as malas e foi até a cidade de seu pai. Um final bem triste para o personagem e para as relações por ele estabelecidas. Espero que ele retorne nas próximas temporadas.

Lorelai, Rory, Emily e Richard

      A relação familiar ia bem – tirando o episódio de Christopher no jantar – até que Richard inventou a viagem para Yale. Esse foi um momento de grande crise na relação, fazendo até Rory ficar contra ele. Tudo vai ficando mais ameno no decorrer da temporada e a explosão de felicidade e união é quando a própria Rory, após ser aceita em Princeton, Yale e Harvard, decide pela ex-universidade de Richard. Não havia como fazê-lo mais feliz.

      Os jantares de sexta-feira ficam ameaçados por alguns episódios, porque Lorelai conseguiu dinheiro para pagar o que devia pela escola de Rory. Mas isso faz com que ela seja rejeitada da lista de bolsistas de Yale e fique sem dinheiro para pagar a universidade. Rory vê como oportunidade de conversar com os avós e reestabelecer os janters de sexta-feira, porém, sem prometer a presença de Lorelai. Como isso se desenrolará na próxima temporada? Eu acredito que Lorelai acabará cedendo. Veremos.

Curiosidades e pontos importantes da temporada

  1. Quem vai na formatura de Rory é Luke e não Christopher
  2. Senhora Kim realmente superou e esqueceu a ligação que Lane deu na festa? Ou isso vai desembocar em mais problemas para a próxima temporada?
  3. O que aconteceu com o Alex? Ele e Lorelai tiveram alguns encontros, um final de semana romântico em Nova York e uma ida para pesca e, aleatoriamente, ele desapareceu da temporada! Será que ainda volta? 
  4. O aparecimento de Max Medina pode influenciar nas próximas temporadas, agora que ele não será mais professor de Rory? Será que ele e Lorelai vão voltar a ficar juntos? Querendo ou não, ele foi o mais legal dos namorados que ela teve desde o início da série.
  5. Não é novidade para ninguém, mas Adam Brody, que faz o Dave Rigalsky, acaba se tornando o Seth Cohen de The O.C no ano seguinte.
  6. Acredito que um ponto bem importante e que vai ter influências futuras é toda essa história de sexo.
  7. É muito difícil para mim escolher um episódio favorito dessa temporada, porque descobri que é a minha temporada favorita. Mas, se fosse pra escolher um só, ficaria com o Dia de Ação de Graças, no episódio 9.

[REVIEW] Gilmore Girls – 2ª Temporada

         Esse texto contém muitos spoilers e é recomendável que você já tenha assistido a segunda temporada de Gilmore girls antes de realizar a leitura. A Review da primeira temporada pode ser encontrada aqui.

Temporalidade

       Uma coisa que me chamou bastante atenção nessa temporada é o ano em que ela foi realizada, 2001. Para além de coisas como o quarto da Lane, que é repleto de CDs e onde ela escuta músicas em um diskman com fones de ouvidos, é interessante observar os outros adventos tecnológicos:

  • As Gilmore ainda alugavam filmes e eles ainda eram em VHS.
  • A televisão delas ainda era em tubo e consideravelmente pequena.
  • Luke ainda tinha uma daquelas TVs minúsculas com antenas gigantes.
  • Os celulares eram enormes e não transmitiam mensagens de texto, para realizá-las era necessário um outro aparelho, chamado pager.
  • As pessoas ainda ligavam umas para as outras no telefone de casa e ainda era comum telefones com fio.
  • Não havia essa ânsia de comunicação que a gente vive atualmente, sendo plenamente normal que amigos e casais ficassem mais de um dia sem se comunicar.

Já no âmbito da moda, é interessante perceber outras coisas:

  • Jeans era considerado um estilo próprio e era socialmente aceito sair de casa com um conjunto de calça + jaqueta jeans, com botas ainda por cima.
  • O design dos carros era completamente diferente e hoje em dia seria considerado cafona.

Mas, coisas como a vestimenta de Luke e de Emily seguem atemporais. Assim como o estilo de Michel e do trovador solitário da cidade. Já se olharmos para o cabelo do Dean, percebemos que a moda realmente faz uma época.

Os casais

Rory e Dean

            Se na primeira temporada fica claro o quanto Dean é babaca, na segunda fica claro o quanto Rory pode ser babaca também. A partir do momento que ela conhece Jess, começa a agir de forma estranha com Dean, fazendo com que a insegurança dele perante o relacionamento seja completamente explicável. Ok, ele liga para ela vezes demais, está sempre querendo ficar perto etc etc etc, mas tudo isso porque está mais do que na cara que Rory estava interessada em Jess

       Ao contrário da primeira temporada, nessa eu fiquei com pena do Dean. Ele se esforçou horrores para ser um bom namorado para Rory, veja bem, fez até um carro para ela! E nada parecia suficiente, porque ela visivelmente não estava mais interessada. Acredito que não dá pra culpar tanto a Rory também. Eles começaram a namorar rápido demais, não se conheciam direito, não houve tempo para paquera ou para um de fato se apaixonar pelo outro. O relacionamento deles foi composto por um “amor à primeira vista” que acabou se consolidando durante a relação, mas não era como se um fosse perfeito para o outro, porque, como eu já disse, eles tinham pouquíssimo em comum.

Baile de Debutante

       Mas, falta honestidade em Rory nessa temporada. Ela podia ter terminado com o Dean, explicado a situação e ter sido sincera. Porém, ela opta por tentar esconder o sentimento que está surgindo nela, negando veementemente sua existência. Só que os sentimentos costumam ser mais fortes que o nosso controle e foi o que houve com Rory, que acabou faltando aula para ver Jess e, com certeza, não comentou isso com o Dean. E ela ter beijado o Jess no último episódio deixa ainda mais claro que o sentimento existe e ela foi desonesta em continuar namorando com o Dean, mesmo porque ele seguiu o tempo todo apaixonado por ela e se esforçando para ser um bom namorado e ser legal com a mãe dela. 

             Minha primeira grande decepção com a Rory foi nessa situação. Não acho que ela devesse ser perfeita, mas pra mim toda essa indecisão e tudo que ela fez no decorrer da temporada foi uma traição muito maior do que se ela tivesse simplesmente beijado Jess, como rolou com o Tristan, por exemplo. Porque ali tinha um envolvimento emocional grande demais para ser negado e a desonestidade dela me magoou.  Nessa situação, fico completamente do lado do Dean, morrendo de dó dele e torcendo pra ele terminar com ela logo – já que ela não toma a iniciativa. 

          Apesar de tudo isso: confesso que fiquei muito muito chateada no episódio que está tendo uma feira de livros na cidade, Rory está completamente empolgada e Dean não dá bola e quer ir assistir “O senhor dos anéis” no cinema, sabe-se lá por qual vez. Também não concordo com a forma que Dean lida com o ciúme e a insegurança, porque ele segue no esquema de gritar com a Rory e culpar ela por tudo e em casos como a história do bracelete, isso simplesmente passa dos limites. Não gostei também da forma que ele lidou com o acidente de carro, porque ele não lidou e isso acabou ferrando ainda mais a relação dos dois. 

Dean sabe ser fofo.

Lorelai e Max

       Que bom que eles não casaram!!!! No episódio que Max vai até Stars Hollow e passeia com Lorelai, Rory e Dean, fica bastante evidente o quão despreparado ele está para esse casamento. Isso é óbvio pelo fato de ele não ter tido tempo para um relacionamento sólido com Lorelai, mas também porque eles não tiveram tempo para se conhecer de verdade. Assim como Rory e Dean, esse casal carece de interesses em comum e de coisas que impulsionem a relação. Seria um casamento gerado por uma paixão a primeira vista mal consolidada e não faria bem para nenhum dos dois. Max sequer teve tempo de ser propriamente apresentado aos pais de Lorelai, veja bem. Igualmente, ela não conheceu ninguém da família dele. 

“Max é o equivalente de Lorelai para Dean”

           A única coisa que dá pesar nessa história, é de Rory. Ela tinha gostado da ideia de Max ser seu padrasto e estava se dando bem com ele. O rompimento da relação de Lorelai com Max acabou influenciando negativamente Rory e isso foi chato. Mas, nada que ela não tenha superado, como vimos no episódio em que ela o entrevista e tudo corre bem.

           Os preparativos para o casamento, no entanto, foram bem bonitos. E é bem interessante todo o desenrolar da despedida de solteiro de Lorelai e o envolvimento que Emily acaba por ter. Na despedida de solteiro fica bastante evidente que ela não quer se casar com Max e que sente muita saudade de Christopher e é muito legal que ela tenha tido honestidade e sinceridade em terminar com Max antes do casamento. Ponto pra Lorelai nessa!

Sookie e Jackson

      Esse segue sendo o casal mais fofo da história. É muito frustrante que no episódio da competição para comprar as cestas, Jackson tenha ficado bravo porque a Sookie não entendeu que ele estava querendo morar com ela e tenha acabado não comprando a cesta. Mas o desenrolar do episódio é muito fofo e ela acaba recebendo o pedido de casamento mais fofinho ever.

       É bem engraçado o momento em que Sookie se embrenha com Emily para planejar o casamento e acaba perdendo o controle. Jackson fica visivelmente incomodado, mas não tem coragem de comentar porque não quer ferir os sentimentos dela. Ele acaba sendo meio frouxo com ela as vezes e não sendo sincero com seus desejos e vontades, mas é muito fofo que ele faça isso para evitar de magoá-la.

Owwwwn

      O casamento acaba ocorrendo de forma pacífica, bonita, simples e super fofa e eu espero que eles sejam felizes daqui pra frente!        

Lorelai e Christopher

     Esse casal começou a me irritar. Primeiro Christopher passa uma série de episódios sem aparecer, aí Lorelai liga para ele na despedida de solteiro. Quando ele vai na festa de debutante de Rory, Lorelai começa a achar que vai ter uma chance, mas aí pouco depois ele conta que está compromissado com Sherry e leva ela para conhecer as Gilmore sem avisar, durante um discurso de Rory

         Quando Lorelai começa a culpar Christopher por cada fim de relacionamento que ela teve e ele responde de forma estúpida, é um momento glorioso. Finalmente Lorelai leva um tapa na cara e percebe que para ele toda aquela situação também não é fácil e que as fugas dela perante os relacionamentos são de responsabilidade dela, não dele. É muito importante pro crescimento dela como pessoa ter noção desse tipo de coisa e eu realmente gostei da atitude de Christopher

         Mas, convenhamos que a Sherry não parece a pessoa mais legal do mundo, vide as coisas que ela falou para a Lorelai e o fato de ela praticamente forçar Rory uma relação instantânea com Rory. Enfim, é bastante idiota e enraivecedor que, quando Chris volta pra cidade tempos depois, chateado com seu relacionamento com Sherry, mas ainda se relacionando com ela, ele e Lorelai passem uma noite juntos e isso desencadeie em uma possibilidade de engrenarem em um relacionamento sério. Por favor, esses dois realmente já passaram dos 16 anos? Porque eles estão agindo de forma tão babaca quanto Rory com Dean. É completamente desleal por parte do Christopher fazer isso com a Sherry, por pior que esteja o relacionamento deles. Parece que entre os dois a química é tão forte, que eles simplesmente esquecem de todo o resto e só querem transar. Só que aí quando eles precisam encarar a realidade pós-sexo, desistem e percebem que não dão certo. Isso aconteceu na época em que a Lorelai ficou grávida, não precisava ter acontecido agora novamente.

        Porém, em se tratando de narrativa serial, essa virada no final do último episódio da temporada é bastante eletrizante. Porque o espectador passa a acreditar que finalmente algo ia dar certo pra Lorelai e quando Chris aparece dizendo que a Sherry está grávida, tudo desanda. É uma das coisas que impulsiona o espectador a assistir a próxima temporada, ou pelo menos, foi o que aconteceu comigo. Porém, sigo acreditando que Lorelai precisa urgentemente fazer terapia para superar o Christopher e perceber que Luke é, de fato, seu homem ideal.

Emily e Richard

    Quando Richard finalmente conta que se aposentou, já estamos no décimo episódio da temporada. Até lá, vemos apenas o casal brigando bastante, mas sem compreender muito a razão para que Richard não queira participar dos eventos sociais que são tão importantes para Emily. Quando finalmente a aposentadoria é revelada, percebemos que a relação dos dois vira um inferno. Emily estava acostumada a passar o dia sozinha em casa, fazendo suas coisas pessoais e sociais, tendo que lidar com o marido apenas à noite. A partir do momento que ele passa a ficar muito tempo em casa, ela fica extremamente irritada e sente que tem uma sombra e não um marido, então começa a impulsionar ele a fazer qualquer coisa menos ficar em casa, o que as vezes é engraçado, mas na maior parte das vezes é apenas triste. Fiquei com bastante pena da Emily por causa dessa situação, inclusive pelo fato de seu marido ser bastante manipulador em relação ao que quer ou não que ela faça. 

          Felizmente, mais para o final da temporada, Richard decide abrir um negócio próprio, volta  a passar muito tempo fora de casa e o relacionamento deles parece engrenar também. É bastante interessante comparar esse relacionamento com os outros da série, pois ele depende visivelmente mais do companheirismo do que do amor e da paixão, que parecem ser os principais impulsionadores dos outros. Talvez por isso ele dure tanto.

   

As amizades

Lorelai e Rory

      Por alguma razão eu não inseri essa categoria na Review passada. Falha minha, afinal de contas essa é a principal relação da série e a que move todas as outras. 

      Nessa temporada o companheirismo das Gilmore fica ainda mais evidente. Tudo começa quando Rory e Lorelai saltitam após a mãe aceitar o pedido de casamento de Max. As coisas se acentuam quando, ao informar a filha de que o casamento estava cancelado, Rory simplesmente acata a ideia de uma viagem de carro e arruma uma mala rapidamente. Sem grandes questionamentos. 

   É bastante interessante observar o processo de rompimento de Lorelai, que pediu encarecidamente para que Rory vivesse a fossa, quando ela terminou com Dean na temporada anterior, mas ao invés de a própria Lorelai viver qualquer possível fossa, ela foge. Isso é bem triste e complicado, porque o espectador acaba não vendo Lorelai sofrer por Max, ela parece ter aceitado muito rápido que as coisas simplesmente não eram para ser e jogou bola pra frente. Rory até tenta fazer ela falar sobre, mas é em vão.

      De qualquer forma, a viagem delas é muito bacana porque elas acabam indo parar em Harvard e Rory consegue se imaginar frequentando o campus etc etc. É um momento muito bacana das duas. A amizade delas é posta a prova por diversas vezes no decorrer da temporada, porque Rory acaba “forçando a barra” da relação entre Lorelai e Emily. Além disso, as duas começam a apresentar algumas dissonâncias de pensamento e forma de ação, mas ainda não parecem preparadas para de fato enfrentar uma a outra, então elas acabam aceitando as falhas e prosseguindo a existência. As coisas entre as duas ficam ainda mais brandas quando Lorelai, enfurecida porque Rory segue dando bola para Jess, percebe que Emily concorda com o afastamento entre a neta e o garoto e sugere que Lorelai aja de determinadas maneiras. Ao perceber que estava concordando com a mãe, Lorelai cai na real e deixa que Rory seja amiga de Jess, se quiser.

      Isso é bastante importante de ter em mente no decorrer da série: Lorelai vive um conflito enorme, onde não quer ser parecida com a mãe e quer garantir que a filha seja e faça tudo que ela não pôde fazer.

      Ademais, é bastante bonito perceber o quanto uma se importa com a outra.

Lane e Rory

    A amizade das duas não fica em tanta evidência nessa temporada, aparecendo menos. Sabemos menos sobre a Lane e sobre o que ela anda fazendo. Por exemplo, será que ela ainda é líder de torcida? Rory segue ocupada demais com as coisas da escola, com o namorado, com a mãe e agora ainda tem a amizade eminente com Jess para complicar… Mas Lane segue sendo a amiga mais fiel dela e as duas ainda são muito companheiras – apesar de que nem para ela Rory admite sentir algo por Jess.

Lorelai e Sookie

         A amizade das duas segue forte, mas tem um grande abalo no episódio em que elas pensam sobre comprar o terreno para o próprio Inn. A presença de Mia na cidade faz com que Lorelai se sinta saudosa e responsável pelo Independence Inn a ponto de se sentir culpada em ter tido a ideia de abandonar o local para ter o seu próprio Inn, com sua melhor amiga. Sookie fica bastante chateada com isso, porque levava muito a sério o sonho das duas e as duas brigam feio. Felizmente, a briga passa e elas voltam a ser amigas e a sonhar com o próprio Inn. 

         Ademais, ambas seguem sendo bastante confidentes. Sookie é muito bacana com Lorelai ao fornecer café da manhã todas as vezes em que ela briga com o Luke, por exemplo. E Sookie segue tratando as Gilmore como se fossem família, o que é bem recíproco. Lorelai ainda tem pés atrás com o fato de Sookie gostar e tratar bem Emily, mas aos poucos vai compreendendo as coisas e deixando acontecer.

Rory e Paris

      Finalmente a amizade delas começa a deslanchar. O primeiro passo acontece no sétimo episódio, quando Rory é chamada pela conselheira da escola para conversar, por ser considerada muito solitária. A escola a acusa de não ter amigos e que passar os intervalos lendo é errado. Rory já tinha uma relação bem conflituosa com Paris, que já havia frequentado a sua casa e morria de ciúmes por causa de Tristan. Além disso, como ambas sonhavam em estudar em Harvard, o relacionamento era baseado em muita competição. 

      Porém, Paris é muito estrategista e percebe que ficar perto de Rory pode ser produtivo. As coisas entre as duas ficam mais sérias quando Paris aparece na casa de Rory de noite, em um dia onde Rory iria ficar sozinha em casa e planejava lavar roupas e aproveitar a solidão. Paris acaba por salvar Rory de uma briga com Dean e ali as coisas entre elas começam a brotar. Tudo fica ainda mais sério quando Paris, que concorria à presidência do corpo estudantil, percebeu que não ganharia a eleição por não ser simpática e convidou Rory e sua cara de anjo para serem vice-presidentes. A eleição desencadeou em horas de diálogo entre as duas, que acabaram ficando cada vez mais amigáveis. Os grupos de trabalho corroboravam. As duas frequentemente caíam na mesma equipe, como vimos no episódio da peça teatral e no da feira de negócios. E, incrivelmente, a equipe dava certo. 

      Rory acaba sendo a única amiga de Paris que se importa com ela e Paris acaba se demonstrando muito sensível, solitária e triste. A amizade delas floresce de forma conflituosa, mas interessante e real.

Lorelai e Luke

      Mais uma relação pra lista das que eu não coloquei na Review passada!!! Tsc tsc pra mim.

      Lorelai e Luke têm uma relação muito interessante. Eles são praticamente um casal, porém não se relacionam romanticamente. Luke é o conselheiro principal de Lorelai, para quem ela recorre em todos os problemas. Ele faz o mesmo com ela. Os dois se ajudam e se zoam na mesma frequência e nutrem um cuidado e carinho muito especial. Não é à toa que os amigos mais próximos de Lorelai, e até sua mãe, acreditam que rolam sentimentos amorosos entre os dois. Não vejo a hora de eles finalmente admitirem.

    Nessa temporada os conflitos do relacionamento ficaram ainda maiores. Eles brigam feio diversas vezes, todas elas por conta de Jess. Lorelai primeiro não considera Luke preparado para lidar com o garoto e depois começa a contestar todas as atitudes e decisões que ele toma. Luke é ranzinza e não tem humildade para aceitar os conselhos de Lorelai, então acaba xingando e criticando ela por se meter na vida dele. O cúmulo da relação é no dia do acidente de carro, onde Lorelai realmente ultrapassa os limites e fala coisas que não deveria para o pobre Luke. É claro que ela se arrepende depois. É claro que os dois são orgulhosos demais para fazer as pazes e seguir conversando normalmente.

      Outro ponto bacana da temporada ocorre no episódio do leilão das cestas, onde Lorelai percebe que tinha caído em uma armadilha montada por miss Patty, para que ela encontrasse um namorado, e pede para que Luke compre sua cesta. Eles acabam tendo um almoço muito fofo e aparentemente gostoso. A felicidade de Luke no momento em que descobre que Lorelai não vai se casar é outro momento bastante fofo. Assim como o fato de ele ter feito um Chuppah para o casamento dela, talhado à mão. E também todo o cuidado de Lorelai quando o tio dele morre. O carinho que um tem pelo outro é muito fofo e as vezes dá vontade de colocar os dois em um potinho e amassar. É o meu “casal” preferido da série.

Rory e Jess

     Jess é o primeiro cara que Rory conhece que entende as referências dela. Ele gosta de ler, conhece alguns dos livros que ela conhece e indica outros tão bacanas quanto. É alguém com quem ela pode conversar sobre assuntos que não conversa com outras pessoas e isso a atrai profundamente.

       A complicação principal dessa relação advém do fato de Jess só ser legal com Rory. Todas as outras pessoas da cidade acham que ele é um troglodita mal encarado, malvado e chato. Mas, com Rory ele é realmente dócil e legal e é impossível para ela não ser legal com ele. Da mesma forma em que é impossível para ela convencer as outras pessoas de que ele é legal.

     Percebemos que Rory não se aproxima de Jess com a intenção de ser uma companheira romântica dele, mas sim para ajudar Luke em sua nova empreitada. O fato de Jess ter muito a ver com ela e de eles conseguirem conversar bem mais do que ela consegue com o próprio namorado, apenas faz com que ela tenha vontade de se tornar mais amiga dele. Mas Rory não entende as razões para que Jess seja tão mal encarado, para que ele não ajude Luke e siga com toda essa pose de menino mal.

    Inicialmente Rory é inocente e não percebe que Jess tem a intenção de ficar com ela romanticamente falando. Mas em todos os episódios da temporada que os dois aparecem juntos, a gente vê Jess tentando forçar a barra e Rory tentando se distanciar, porque ela já tem Dean e não quer magoá-lo. Quando acontece o acidente de carro, as coisas desandam de vez. Rory percebe que não importa o que ela faça a cidade vai continuar achando que ela é uma santa e que não importa o que Jess faça, vão continuar achando que ele é um demônio. E ela se compadece dele. 

        Quando ela vai visitá-lo em Nova York, sem saber exatamente a razão para fazer isso, é bastante claro que ela só vai até lá porque gosta dele e não queria ele longe. Mas ela não sabe se expressar, claro. E eles passam um dia formidável juntos, mas o fato de ela ter perdido a formatura da mãe por causa disso, faz com que ela fique tão chateada que considera não ver mais Jess. Só que ele volta pra cidade e aparece no casamento da Sookie e ela acredita que isso acontece porque ele quer ficar com ela e voltou para ficar com ela. Aí ela beija ele. E basicamente se esquece de que, durante todo esse romance fofo, ela estava namorando outro. É de dar pena da Rory a confusão mental que acontece nessa temporada, mas sigo acreditando que ela deveria ter sido mais honesta. Jess é um bom amigo e uma boa companhia para ela e eles certamente têm mais coisas em comum do que ela e Dean, então por que raios ela continuou com o Dean? Acho que nem eu, nem ela, nem o Jess ou o Dean sabem disso. Creio que todos nós estamos juntos e unidos nesse processo de lamentação.

Luke e Jess

       Mais um pra lista de relacionamentos conturbados. 

       Luke primeiramente aceita cuidar de Jess por ele ser família, mas eles não se conheciam de fato.  Morando juntos, a relação dos dois acaba ocorrendo, por vezes de forma forçada. Luke amplia sua casa para que Jess se sinta confortável e isso é um passo muito grande vindo dele. 

      Quando os senhores da cidade apontam que Jess era ranzinza e chato, como o tio, Luke percebe que de fato eles tinham muitas coisas em comum e começa a agir de forma mais sensata com Jess. Ele segue tendo dificuldade em impor limites e em acompanhar o garoto, como é mostrado no momento em que ele leva um susto ao saber que Jess está quase reprovando de ano.

    Luke acaba enfrentando um monte de gente da cidade, incluindo Lorelai, para defender o sobrinho. Jess acaba aprendendo a reconhecer os esforços do tio e a gostar dele. Os dois nunca admitem isso, porque ambos são introspectivos e têm dificuldades de lidar com sentimentos. Enquanto Jess joga na cara de Luke que ele deveria correr atrás de Lorelai, Luke joga na cara de Jess que Rory tem namorado e não vai dar bola pra ele. 

      No fim da temporada a gente percebe a tristeza de Luke ao ficar longe do sobrinho. Seguido por sua alegria ao ver que Jess está de volta – apesar de todos os problemas que ele traz junto.

Lorelai, Rory, Emily e Richard

        Enquanto na primeira temporada Emily passou um dia em Stars Hollow, nessa, a vez foi de Richard. Ele se demonstrou bastante manipulador e malvado com Lorelai nesse dia, mas a relação dos dois acabou melhorando no decorrer da temporada, tendo como auge o dia em que Lorelai foi ajudá-lo a montar o novo escritório e contratar uma secretária.

          Entre Lorelai e Emily as coisas também melhoraram. Primeiramente no desfile que ocorreu no Inn, como parte de uma ação beneficente de um clube de mães do Chilton, onde as duas desfilaram juntas. Emily ainda ajudou Lorelai a conseguir um empréstimo para lidar com os cupins de sua casa, apesar de não ter sido fácil que Lorelai aceitasse. Depois, elas passaram um final de semana agradável juntas em um SPA. É claro que houveram alguns conflitos, mas elas conseguiram resolver e aproveitar o momento de união. Devagar, Lorelai parece estar começando a entender o lado de Emily e a visão que ela e Richard tem por sobre ela. Em sua formatura, quando os dois aparecem e ainda levam uma equipe de filmagem, é possível ver o brilho no olhar dos três. Principalmente no momento da foto.   

       Já com Rory, o relacionamento parece estar deslanchando ainda mais. Emily montou um quarto para ela em sua casa, contendo todas as suas coisas preferidas e Rory até decidiu passar uma noite lá, após ter uma discussão com sua mãe – que ficou bastante preocupada e achando que a filha tinha desaparecido. Com Richard, a relação está ainda melhor agora que ele está aposentado. O avô segue emprestando livros para Rory e tendo boas discussões sobre economia e política. Além disso, eles ficam ainda mais próximos quando ela pede ajuda para seu trabalho de Negócios. 

         É também nessa temporada que Rory se desentende com seus avós pela primeira vez. Richard é o primeiro alvo, já no primeiro episódio da temporada, quando Dean vai a sua casa e ele o enche de perguntas desconfortáveis, tratando-o mal. Outra briga ocorre também por causa de Dean, mas dessa vez tem a ver com o carro que ele deu para Rory, visto que o avô não o considerava seguro. Já com Emily, a briga ocorreu por causa de Jess, no dia em que Rory apareceu com um gesso no braço e explicou a situação. Emily ficou possessa e as duas se desentenderam. Ambos os desentendimentos passaram rápido.

Curiosidades e pontos importantes da temporada

  1. Segundo uma fala de Paris, sua babá é portuguesa. Porém, quando elas conversam a língua falada parece espanhol. É algo para que eu preste atenção nas próximas temporadas.
  2. Luke gosta de Star Trek e era fã durante a infância e adolescência, isso é muito interessante e engraçado de se ter em mente.
  3. Lorelai dorme com Chris mesmo sabendo que ele ainda está comprometido com Sherry, isso é algo para guardarmos para lembrar na posterioridade.
  4. Rory perde a formatura da mãe (que era um BIG DEAL pra Lorelai) por causa de Jess, e é facilmente perdoada.
  5. Rory demonstra não ser um anjo, uma santa intocável e afins, mas a cidade inteira recusa crer nisso e culpa sempre o Jess. Isso também é algo a ser guardado para a posterioridade.
  6. A atriz Brenda Strong, uma das integrantes do clube de mães do Chilton, que aparece no episódio 7, posteriormente interpreta Mary Alice Young, em Desperate Housewives.
  7. A Chuppah que Luke fez para Lorelai é utilizada no casamento de Sookie.
  8. Rory querendo aproveitar seu dia sozinha em casa para lavar roupas e ficando frustrada ao ser interrompida representa demais a minha existência.
  9. O meu episódio preferido da temporada é o 19, por causa da noite de filmes da cidade e da apresentação fenomenal do Kirk, que é um personagem incrível.

 

[REVIEW] Gilmore Girls – 1ª Temporada

         No dia 01 de julho, a Netflix colocou as sete temporadas de Gilmore Girls em seu catálogo de streaming. A decisão é parte de um grande projeto de marketing, que visa agarinhar maior público para o revival da série, que está previsto para ocorrer ainda esse ano – mas não sabemos a data. Gilmore Girls foi exibida originalmente entre 2000 e 2007, produzida pela Warner e dirigida por Amy Sherman-Palladino. Porém, ao chegar na sexta temporada a diretora afirmou precisar de mais duas para concluir a história e a Warner não concedeu, dizendo que a série teria que encerrar após a sétima temporada. Por essa razão, Palladino abandonou o roteiro, direção e produção executiva da série. David S. Rosenthal assumiu a produção da sétima temporada que não agradou a maior parte dos fãs. Grande parte das coisas que o público aguardava acontecer desde a primeira temporada aconteceram de forma inexplicada e pouco crível e o final não foi nada parecido com o esperado. 

        Felizmente, a Netflix anunciou no final de 2015 que estava reunindo o elenco original da série, junto com sua criadora (Amy Sherman-Palladino) para fazer uma oitava temporada, que seria o fechamento da série. A dita temporada, que estreia ainda esse ano, terá 4 episódios e cada um se passará em uma estação do ano. A ansiedade é muito grande e, com todas as temporadas anteriores disponíveis na Netflix, os fãs da série começaram a re-assistir as sete temporadas já produzidas, enquanto a oitava ainda não estreia. Eu sou uma dessas fãs e já falei sobre a série aqui em momentos passados, mas decidi que dessa vez iria fazer revisões detalhadas de cada uma das temporadas, conforme eu for re-assistindo.

         A decisão de fazer esses textos veio da percepção de que, atualmente, a série tem significações bastante diferentes para mim do que na primeira vez em que assisti. Consigo perceber e relacionar uma série de coisas que não conseguia antes, consigo entender mais das piadas e acompanhar melhor os diálogos – que seguem sendo muito rápidos, mas meu inglês está um pouquinho melhor.

      Nesse texto, portanto, vou falar detalhadamente sobre a primeira temporada da série, destacando alguns pontos que achei bastante relevantes ao re-assistir. É claro que, se você não assistiu Gilmore Girls, não recomendo prosseguir na leitura, pois ela será repleta de spoilers.

Temporalidade

         Quando a gente assiste uma série inteira, de forma rápida e consecutiva, acaba se perdendo no desenrolar dos fatos. Ao recomeçar a primeira temporada, eu tinha a impressão de que a maior parte dos acontecimentos que se desenrolavam nela eram parte de outras temporadas. Eu lembrava a história da série passando de forma muito mais devagar. Não recordava, por exemplo, de que já na primeira temporada Sookie e Jackson começam a se relacionar e Rory e Dean têm o primeiro rompimento. Eu acreditava que essas coisas aconteciam na metade da segunda temporada, por aí. Levei um susto ao ver tudo se desenrolando da forma que foi.

Os casais

Rory e Dean

        Eu lembrava do relacionamento deles de uma forma muito diferente. Na minha cabeça, o primeiro encontro tinha sido quando Rory derrubava livros e Dean pegava um dos títulos e esboçava um diálogo sobre ele, como alguém que o conhecia e tinha lido. Nada disso. Revendo a primeira temporada, percebi que Dean não era um leitor, não era estudioso, não tinha pretensões na vida. Basicamente, ele e Rory não têm nada a ver um com o outro e, embora o início do relacionamento seja bastante fofo, o é apenas por causa do nervosismo de Rory e do fato de ela não saber lidar com os próprios sentimentos. Porém, o relacionamento deles não é apresentado ao espectador de forma densa ou intensa. Dean vive na casa de Rory e acaba aprendendo sobre seus hábitos e manias e conhecendo bastante sobre Lorelai, mas Rory nunca foi na casa dele ou conheceu os pais dele e isso é bastante esquisito

        Também é estranho que Dean, recém chegado na cidade, tenha que encontrar um emprego como primeira coisa a ser feita. Rory, Lane e as outras meninas da idade dela apresentadas na história não precisaram procurar um emprego. Mas Dean, assim que chega em Stars Hollow, precisa trabalhar em algo. Fiquei pensando se isso seria por ele ser homem ou algo do tipo. É perceptível nessa primeira temporada que os dois são desalinhados ideologicamente. O episódio da Dona Reed evidencia muito isso. Primeiro, Dean não entende a devoção de Rory e Lorelai por uma série de TV e depois não entende o problema que era o modo de vida de Dona Reed, fazendo com que Rory entenda que é isso que ele espera dela – o que é totalmente diferente daquilo que ela gostaria de ser. Eles são péssimos em se comunicar e brigam em qualquer desentendimento – e como eles se desentendem em quase todas as conversas, o ideal seria que não falassem um com o outro.

        Para completar, Dean é extremamente ciumento e já no nono episódio da série, ele se envolve em uma briga física com outro garoto por causa da Rory. Quem já viu a série sabe que esse padrão se repete e a gente só consegue olhar pra tudo isso e pensar “Por que Dean, por quê?”. Enfim, compreendo que para um relacionamento de 16 anos e o primeiro de Rory, não tinha como esperar muito mais do que isso. Mas é visível, desde o começo, que a coisa está fadada a terminar e o fato de ela hesitar ao dizer que o ama é apenas uma prova disso. Rory não estava repetindo padrões de Lorelai, ela estava sendo esperta. Pena que o coração adolescente acabou vencendo essa…

Lorelai e Max

         É completamente bizarro que a temporada termine com Max fazendo um pedido de casamento para Lorelai. Eles ficaram juntos por um total de oito episódios na temporada. Sendo que o primeiro é um encontro casual em um café, o segundo é Lorelai esquecendo que ia se encontrar com ele, o terceiro é um encontro de fato, o quarto é um beijo na escola e os outros quatro são já no final da temporada, quando Lorelai resolve retomar o relacionamento. Aí me pergunto: que relacionamento ela queria retomar? Como pode eles quererem se casar?

       Convenhamos, eles tinham acabado de se conhecer. Assim como Rory e Dean, não tinham nada a ver. E, se tinham, o desenvolvimento romântico do relacionamento não foi mostrado ao espectador. Eu não faço ideia do porque eles estavam juntos e porque eles achavam que era o suficiente para que se casassem. Max visivelmente não se encaixaria no estilo de vida de Lorelai, e vice-e-versa. Eles eram fofos? Sim, claro. Mas é de fofura que se faz um casamento? Eu acho que não.

       Se for parar para pensar, Luke estava com Lorelai em um número bem maior de cenas, incluindo em cenas importantes para ela e a família dela – como o dia em que Richard foi parar no hospital. E Lorelai não pensou em casar com o Luke, então porque pensou em casar com o Max? Não consigo entender!

Sookie e Jackson

        Esse relacionamento é muito engraçado, porque eles flertam conversando sobre safras de frutas e qualidade de vegetais. Mas é completamente fofo e inocente, porque Jackson consegue entender e alegrar Sookie mesmo em momentos que ninguém mais consegue e eles se encantam um pelo outro de forma que nenhum outro casal da série conseguiu fazer até o momento. Se tem um casal que surge na primeira temporada e dá pra gente torcer por, são esses dois. Visivelmente as brigas que surgem são apenas forma de gerar assunto e eles não ficam magoados, quando acontece alguma mágoa, eles conseguem conversar sobre ela e seguir adiante. 

Luke e Rachel

        Mais um casal que a gente não sabe muito sobre. Rachel fica poucos episódios no seriado e tudo que sabemos é que eles têm um background e Luke tem dificuldade em confiar nela novamente. Mas não sabemos muito sobre ela, o que eles têm em comum, porque se relacionar é uma boa ideia no caso deles, quais seriam os motivos para não dar certo etc etc etc. Rachel aparece com a mesma facilidade que some da série e nós só temos uma certeza após tudo isso: Luke está realmente interessado em Lorelai e ela insiste em não ver – ou em ver e ignorar.

Lorelai e Christopher

     Coloquei esse casal aqui porque ele é a “sombra” de toda a série. Não sei muito bem o que acontece ali. Lorelai se sente visivelmente mais segura ao lado de Christopher, porque eles cresceram juntos e ela acha que nenhum outro cara vai conhecê-la e entendê-la tão bem quanto o pai de sua filha, mas ela não consegue se relacionar com ele, porque acha que ele ainda não amadureceu o suficiente e ainda é um garoto que anda de moto e sonha em um dia ser independente. Ela é independente desde que teve sua filha e fica incomodada com o fato de Christopher não ser. Além disso, a ideia de ficar com ele e agradar seus pais é ruim para ela, que sempre desconsidera. Mas Christopher segue sendo a fonte segura para quem Lorelai recorre quando está com problemas. Ou ao menos quando está com problemas que Luke não consegue resolver.

As amizades

Lane e Rory

         Eu fico com muita dó da Lane na primeira temporada. Enquanto a vida da Rory dá um salto e ela tem namorado, escola boa, uma boa relação com a mãe etc, Lane segue sendo a mesma pessoa reprimida e forever alone. É muito triste que Rory abandone ela por algum tempo e a relação entre as duas acaba sendo unilateral, porque Lane deixa de pedir ajuda e considerar Rory em determinadas situações, após perceber que ficaria sozinha de qualquer jeito. 

         O fato de Lane ir para a Coreia sem data para voltar nem causa um alvoroço muito grande em Rory. Ela não tenta fazer nada para impedir, não bola planos de fuga, nada. Ela segue sua vida normal e Lane aparece eventualmente comentando “ei, não sei quando volto” e bola um plano B sozinha, apenas comunica ele para Rory. No caso do Henry é a mesma coisa, Rory não tenta ajudar com conselhos ou ideias para que eles se encontrem, ela apenas ajuda na questão do telefone – o que é quase nada. Parece que a Lane está muito mais disponível e disposta a ser amiga da Rory do que o contrário e isso é bastante chato.

Lorelai e Sookie

          Lorelai também é a protagonista da relação com Sookie e as vezes o egoísmo dela atrapalha as coisas. Ela tende a achar que a Sookie está ali sempre disponível para servir ela e é ótimo que Jackson comece a se relacionar com Sookie, porque Lorelai acaba perdendo esse pensamento. Elas são boas amigas, que sempre se ajudam, dão suporte e ficam realmente felizes e empolgadas pelas conquistas uma da outra. Sookie comemora as vitórias de Lorelai e Rory como se fossem sua própria família e isso é maravilhoso de ver e acompanhar.

Rory e Paris

           Paris pretensamente é amiga de Madeline e Louise, mas é bem óbvio que as três andam juntas por comodidade e não por sentimentos reais. Tudo fica bem evidente no episódio Concert Interrupts, o décimo terceiro da série. É nele que a gente vê Rory e Paris minimamente mais próximas e percebe que a segunda é muito mais infeliz e solitária do que aparenta ser. Rory percebe algumas das vulnerabilidades de Paris e tenta ajudá-la, partindo do princípio que as duas vão ter que continuar se vendo frequentemente até o fim do ensino médio. Paris reluta em aceitar a ajuda de Rory e se sente inferior por precisar dela, preferindo continuar emburrada e sozinha. Mas, pelo menos para mim, foi possível ver faíscas que possivelmente desencadeariam em um relacionamento bacana.

Percepções gerais da temporada

  1. Richard ter ficado doente acabou aproximando um pouco mais Lorelai, mas também fez ele perceber que o modo de vida que levava não era lá essas coisas. Emily percebe que não consegue se imaginar sem Richard, o que é bem interessante, porque a relação dos dois não é de dependência mútua. Rory, por sua vez, percebe que o avô já ocupa um lugar bacana em seu coração e que ficaria realmente chateada se ele piorasse ou chegasse a morrer.
  2. A evolução do relacionamento entre Rory, Emily e Richard é o que chama mais atenção na temporada. Apesar de Lorelai exercer forte “alienação parental“, fazendo com que Rory tenha uma visão bastante deplorável de seus avós, como se eles fossem extremamente fúteis, malvados e manipuladores, a menina vence o ideal construído pela mãe e resolve tentar conhecer os avós por conta própria. O episódio em que ela vai ao clube com Richard e, depois, quando Emily vai conhecer Stars Hollow e acaba por dar a Rory o quarto perfeito, são a mais perfeita prova disso. 
  3. Lorelai é extremamente egoísta e quer que Rory seja exatamente o que ela não conseguiu ser e ao mesmo tempo tenha todas as coisas que ela considera como qualidade próprias. Ela tem muitas dificuldades em tentar entender o ponto de vista de seus pais – ou de qualquer outra pessoa além de Rory, e as vezes até da Rory. Tem horas que dá vontade de pedir para ela simplesmente baixar a bola e deixar a menina se virar.
  4. Rory leva muito em conta os pensamentos e vontades de Lorelai e acaba tomando decisões se baseando nisso e não no que ela realmente queria. A pressão para que ela não engravide, seja uma boa aluna e vá para Harvard é doentia em alguns aspectos e tem horas que dá vontade de pedir para ela relaxar, fazer o que quiser e largar mão de ficar pensando tanto nas vontades da mãe.
  5. Paris é a personagem mais interessante da temporada, ao menos para mim. Inserida no mundo dos ricos e populares, ela é extremamente impopular por levar a escola a sério demais. Nutre fobia social, não consegue compreender outras pessoas e vive fechada em sua própria bolha, onde tudo que importa é conseguir entrar em Harvard. Ela é uma pessoa que precisa relaxar urgentemente e viver um pouco mais, por outro lado, é a personagem com quem eu mais me identifiquei. Principalmente no episódio 17, onde ela não vê a hora de ir embora da festa dada por Madeline.
  6. Tristan é um garoto tão insuportável, que faz com que Dean realmente pareça bacana e o mocinho da história. É muito bom que Chad Michael Murray (o ator que o interpreta) tenha sido selecionado para ser protagonista de One Three Hill e tenha largado a série, porque seria bastante insuportável ter que acompanhar seu pretenso desenvolvimento durante as próximas temporadas. De todos os garotos que Dean bate, esse é o único que considero merecedor. 
  7. Nos primeiros episódios, Richard e Emily mencionam Lorelai the First durante o jantar semanal das sextas, utilizando o tempo verbal pretérito. Isso faz com que o espectador entenda que a bisavó de Rory já faleceu e agora as Lorelai Gilmore existentes são apenas ela e sua mãe. Porém, no 18º episódio da temporada, a família Gilmore recebe a visita de Trixie, a mãe de Richard. Isso é um erro narrativo bastante confuso e que pode passar despercebido em um primeiro olhar.

          Essas foram minhas impressões gerais dos primeiros 21 episódios da série. Assisti a eles em seis dias e, se continuar nesse ritmo, termino a série inteira em breve. Assim que uma temporada for concluída, vou fazer um texto parecido com esse contando as minhas impressões. Como eu sei que tem bastante gente assistindo/re-assistindo a série, seria bem legal poder ouvir/ler as impressões de vocês! Para isso, é só comentar aqui ou conversar comigo em algum outro lugar! 

       Se você não assina Netflix, mas quer assistir a série, fique tranquilo! Há diversos torrents e outros arquivos com todos os episódios espalhados por aí. Mas, tome cuidado, elas falam muito rápido e talvez você não acompanhe o ritmo sem antes tomar bastante café!

Conflitos Maternos na TV: Norman, Jane e Rory

       Uma coisa muito importante para vocês saberem é que eu sou completamente viciada em assistir séries. Então, quando digo que vivo em um relacionamento sério com a Netflix não é mentira. Tendo isso em mente, vamos para o assunto desse texto: relação mãe-filha(o) em alguns seriados. 

       Eu nunca tinha parado pra perceber que a maior parte dos seriados que assisto gira em torno de uma relação materna. Ao contrário da superação da figura masculina, que é considerada comum e básica para a existência (vide o édipo freudiano), grande parte dos seriados que assisto dizem respeito a uma superação em relação à mãe e não ao pai. Comecei a perceber isso a partir da leitura de Star Wars: Marcas da Guerra. Nesse livro, o foco da história é na relação entre Norra e Temmin e é perceptível a dificuldade da mãe em entender que o filho já é grande o suficiente para agir de forma independente frente a uma série de coisas. Da mesma forma, é difícil para o filho entender que a mãe pode ter uma vida para além dele.

       Devido ao fato de nascermos conectados pelo cordão umbilical para com as nossas mães, o processo de distanciamento é constante e complicado. Dificilmente vidas independentes são geradas a partir do corte deste cordão, mesmo porque, enquanto bebês e crianças, os humanos necessitam do constante cuidado e atenção de um adulto e as mães acabam cumprindo esse papel, primeiro pela relação de lactação e depois pelo laço afetivo que acaba sendo construído. É claro que em um mundo ideal esse laço não seria criado apenas com as mães, mas também com os pais e outros membros da família. Porém, no que diz respeito aos seriados que vou abordar, por exemplo, as mães não são casadas e criam os filhos sozinho. Mais ou menos da mesma forma que Norra que, apesar de ser casada, tem seu marido desaparecido e a responsabilidade de criar o filho recai por sobre ela.

       É muito interessante que essa relação de rompimento (e a dificuldade de sua existência) seja o foco narrativo dessas obras. Principalmente porque são obras que geracionalmente tendem a ser acessadas pelos filhos e não pelos pais. Então o que elas falam e a forma como elas falam podem vir a refletir em diversas relações familiares, de pessoas que se baseiam no contato com as obras em questão. Eu sou dessas que acredita muito na influência de séries, filmes, livros e músicas perante as relações sociais e a forma em que elas são construídas, então achei que seria válido parar para pensar um pouco no significado de tudo isso. Aviso de antemão que não vou falar detalhadamente sobre cada série, isso fica para os textos exclusivos sobre elas – que virão em breve. Então se você não conhece ou assistiu a elas, sugiro que não prossiga no texto, para evitar spoilers, mas retorne a ele quando tiver assistido a alguma delas. As séries que escolhi foram: Bates Motel, Jane the Virgin e Gilmore Girls.

Bates Motel

       Nesse seriado vemos a relação constante entre Norma e seus dois filhos, Norman e Dylan. O primeiro, constantemente mimado e criado nas barras da saia da mãe e o segundo, abandonado e rejeitado por Norma – que por si só é uma personagem bastante complicada e com sua própria relação com a mãe para superar. 

       Norman é visivelmente doente. Ele tem problemas mentais (psicológicos e neurológicos) que fazem com que ele não se lembre de algumas situações de sua vida. Norma, porém, sabe o que ocorreu nessas situações e protege o filho, não revelando a ninguém o que ocorreu de fato. Em um primeiro olhar, podemos considerar que isso ocorre simplesmente por proteção, mas olhando atentamente a série, vemos o quão doentia a relação entre eles é.

       Norman tem desejos sexuais por sua mãe e, apesar de ele já ter passado da puberdade, eles ainda se cumprimentam dando selinhos vez ou outra. Norma tem uma enorme dificuldade em enxergá-lo como alguém independente e adulto e utiliza o fato de ele ser doente para protegê-lo ainda mais – e tem o péssimo hábito de fazer isso mentindo para ele. A relação parece conflituosa e péssima, mas os dois gostam de estar em contato um com o outro e aproveitam bem seu tempo juntos. Norman não sabe lidar com a ausência da mãe e ela acaba se tornando um alter-ego dele próprio, o que é pra lá de doentio. O pior de tudo é que Norma, apesar de ver tudo isso acontecer, não tem coragem de colocar o filho em um tratamento e fica prorrogando todos os cuidados possíveis perante ele, ficando em um estado de negação constante

       Ou seja: a relação estabelecida entre eles é de dependência mútua, dificuldade de aceitação de que o outro não é perfeito (extrema idealização) e uma luta por conquistar o próprio espaço que acaba sendo reprimida pela dependência mútua. 

       Apesar de todos os agravantes da série, essa relação me fez refletir muito sobre a condição em que mães e filhos se colocam em caso de doenças. Tanto a mãe quanto o filho, se um dos dois estiver doente, isso gera uma relação de dependência mútua de difícil superação depois. E quando o filho já nasce com alguma doença, o rompimento dessa relação de dependência é ainda mais dificultado. A mãe fica em constante estado de negação, recusando-se a acreditar que o filho vai sofrer para sempre e o filho fica em constante tentativa de mostrar para a mãe que apesar de ele ter doença x, é capaz de fazer uma série de outras coisas. A confiança fica abalada e difícil de manter e o equilíbrio é difícil de ser encontrado, fazendo com que a relação tenda para o sufocamento. Claro que, na vida real, dificilmente se atinge o nível de Norma/Norman, mas as coisas seguem bastante preocupantes.

Jane the Virgin

       O próprio título da série diz respeito ao fato de que a Jane foi criada para ser diferente de sua mãe, Xiomara. Ela não poderia cometer os mesmos erros da mãe e deveria se espelhar mais em sua avó, Alba. No decorrer da série, a gente descobre que a avó dela também não é perfeita e que muitos dos valores morais passados a Jane não eram tão impossíveis de ser quebrados quanto pareciam inicialmente. A relação entre sua avó e Xiomara também é complicada e, ao contrário da relação entre Norma e sua mãe, aqui podemos ver como Xiomara e Alba convivem. 

       Apesar da relação inter-geracional ser conflituosa, elas sempre conseguem chegar a consensos e se entender. E é visível o tom apaziguador que a relação acaba tomando. Porém, o conflito mãe e filha segue ali. Só que, dessa vez, ele é inverso. Jane começa a se sair melhor na vida do que a mãe, isso em se tratando dos padrões do que é ter uma boa vida, estabelecidos por sua avó Alba. Assim, Jane passa a ser “a preferida” de Alba, por estar cumprindo uma série de protocolos de moral e bons costumes, que sua filha foi incapaz. Isso faz com que Xiomara se sinta diminuída e fique com ciúmes de Jane – ao mesmo tempo em que morre de orgulho pelo que a filha se tornou.

       A partir do momento que Jane engravida, isso entra em conflito. Xiomara tem o trunfo de que, apesar de ter sido uma pessoa “perfeita” para os padrões morais estabelecidos por Alba, Jane também acabou grávida antes de casar, exatamente como ela. Porém, devido ao fato de Jane ainda ser virgem, mesmo grávida, sua relação boa com a avó não é quebrada pelo fato. Mas o medo de se tornar sua mãe ressurge. E Xiomara sabe que cumpre o papel de “o que eu não quero/devo/posso ser” para a filha, o que a deixa bastante triste com a própria vida. Jane não gosta de ver a mãe assim e tenta apaziguar as coisas, mostrando-se bastante independente e impulsionando a mãe a correr atrás de seus sonhos. Mas Xiomara segue tendo dificuldades e a relação delas acaba sendo um tanto competitiva em alguns pontos. 

       Quando Jane explode e diz que precisava de uma mãe e não de uma amiga de quem ela precisasse cuidar, Xiomara fica mal, mas a atitude de Jane é bastante compreensível e reflete um enorme problema da forma com a qual a maternidade é tratada pela nossa sociedade. Inclusive, a série inteira é uma crítica a isso. 

       No caso, Xiomara teve que abandonar seus sonhos e sua vida aos 16 anos, porque ficou grávida e o rapaz não queria o filho, pedindo que ela abortasse. Uma vez que ela decidiu ter o neném, excluiu o rapaz de sua vida e começou a criar Jane sozinha. Porém, ela não teve tempo para amadurecer seus desejos, melhorar suas habilidades, correr atrás de uma carreira e afins, porque ela era mãe. Isso fez com que ela ficasse reprimida em diversos aspectos e acabasse extravasando isso de forma considerada nociva tanto por Alba quanto por Jane. Ou seja, Xiomara tinha vários relacionamentos que não duravam muito, bebia demais, se portava como se ainda tivesse 16 anos em alguns aspectos, apesar de ser uma ótima mãe. E isso fazia mal para Jane, que não sentia que podia contar com a mãe para repreendê-la, impor limites ou ajudá-la em situações tensas. Xiomara acabava sendo não confiável para sua filha e conforme os erros persistiam, isso só piorava a atitude de Jane em relação à mãe. E o fato de Jane ser mãe começou a fazer ela entender algumas das atitudes de Xiomara, mas ainda assim com vários pés atrás. 

       No fim das contas, é muito claro que a relação das duas também é de dependência. Ambas precisam da opinião da outra para prosseguirem, precisam compartilhar todas as coisas, precisam que a outra concorde com suas decisões, precisam estar perto. Mas Jane vai sair de casa e isso cria uma nova cisão na relação, porque elas não sabem como é manter toda a relação de mútuo afeto sem morar sob o mesmo teto. E essa, que é uma barreira a ser quebrada por todos nós algum dia na vida, é retratada da forma densa e intensa que merece, gerando reflexão e angústia nas pessoas que também são muito dependentes e conectadas com suas mães, apesar dos conflitos inerentes. 

       A série acaba mostrando que esse distanciamento precisa ser construído com o tempo e em doses pequenas. E que não é porque a distância física vai ocorrer, que a distância emocional e afetiva também vai. A relação acaba passando por modificações, mas segue existindo e sendo positiva para ambos os envolvidos, talvez até de forma mais saudável. Mais uma vez, o necessário é buscar o equilíbrio.

Gilmore Girls

       Mais uma série que trata de três gerações femininas. Dessa vez temos Emily, Lorelai e Rory. A relação entre Lorelai e Emily é conflituosa desde antes do seriado, visto que o auge do conflito foi a fuga de casa de Lorelai, após descobrir estar grávida e negar se casar com Christopher. Emily casou-se com Richard, que trabalha demais e é rico, mas não trabalha, ficando em casa o dia inteiro. É claro que ela não é desocupada, participa de vários clubes, tem uma vida social ativa e passa bastante tempo cuidando para que sua casa siga impecável e bem decorada. Ela também planeja viagens, ajuda o marido no que pode e tem uma vontade inerente de retomar o convívio com sua filha e conhecer melhor sua neta. Porém, para ela isso é difícil, porque ela não entende como Lorelai pode ter abandonado a “boa vida” que tinha para ir morar em uma cidade menor, em uma casa que Emily considera ruim e onde ela tem que trabalhar o dia inteiro, sem sequer ter frequentado uma universidade renomada. 

       Lorelai, por sua vez, é uma personagem independente e auto-suficiente, que nos é apresentada como alguém que largou os grilhões da burguesia e foi ser proletária e criar a filha da forma que bem entendia. Mas ela não é feliz por ter tido que abandonar seus sonhos aos 16 anos, após ter engravidado. Ela é feliz pela forma como as coisas se resolveram e pela filha que tem, mas nutre algumas frustrações perante o seu passado. Uma delas, evidente, é o fato de que a gravidez estragou de vez sua relação com seus pais e fez com que ela nunca mais tivesse conseguido conversar com sua mãe sem brigar. Todas as outras frustrações, ela desconta em Rory.

       Rory nos é apresentada como uma garota de 16 anos extremamente nerd, que adora ler, não tem vida social e não sabe como agir quando alguém demonstra gostar dela ou a elogia de alguma forma. Ela começa a construir uma relação com seus avós no decorrer do seriado, pois até então essa relação era pífia. E é também no decorrer do seriado que vemos um amadurecimento dela em relação à forma como tratava sua mãe. É evidente que Lorelai projeta tudo que gostaria de ter sido e não foi em Rory e é notável que a garota não percebe isso até certo ponto e simplesmente segue o fluxo. 

       Porém, já perto do fim da série, Rory rompe com esse padrão comportamental e passa a escolher coisas que a mãe não escolheria e a fazer coisas que a mãe não faria. Ela fica bem chata no decorrer desse processo e faz uma série de coisas burras, mas mostra pra mãe que é uma pessoa independente, com as próprias vontades e opiniões. Tudo isso é bastante interessante, porque o primeiro namorado dela, Dean, comentou logo no começo de sua relação algo como “você faz tudo que sua mãe quer“, demonstrando que faltava opinião própria na garota. Realmente faltava. Ela tinha 16 anos e estava começando a construir isso. No final da série, é perceptível a evolução da Rory enquanto personagem e também a relação entre ela e sua mãe, que após esse rompimento começou a ser mais saudável.

Logo…

       Assim como Xiomara, Lorelai tem seus momentos de imaturidade, onde comete erros estúpidos e acaba sendo mais “filha” de Rory do que mãe. Talvez isso seja um padrão de comportamento de pessoas que foram mães adolescentes, pelo menos na ficção. O fato é que as filhas dessas personagens, Jane e Rory, acabam tendo que criar artifícios para amadurecer antes do que o esperado/previsto. E esses artifícios são exatamente os que são negados a Norman, que não consegue enxergar sua mãe de forma não idealizada, ou seja, como humana. Enquanto Jane e Rory batalham em todos os episódios para construírem as próprias vidas e mostrarem que podem continuar amando suas mães e tendo boas relações com elas, mesmo depois de crescerem e terem suas próprias vidas, Norman se recusa a crescer e quer estar o tempo todo embaixo da barra da saia da mãe, que corrobora para que a situação persista. A diferença principal entre os casos de Jane e Rory, para com Norman, é o fato de que ele sofre o mesmo que o édipo do teatro grego: após matar o pai, quer ficar com a mãe – romanticamente falando. Porém, como essa desejo ainda é inconsciente dele, a parte consciente de sua personalidade desconhece e insiste em acreditar que o maior problema de sua vida é a relação sufocante com a mãe.

       Nos três casos, há diversas complicações. É impossível haver uma relação familiar sem conflitos. Mas é bastante interessante a gente olhar que quando não há uma figura feminina na construção da personalidade desses personagens, os conflitos acabam se voltando para as próprias mães. No caso de Lorelai, apesar de a relação com Emily ser conflituosa, é visível que o ressentimento é ainda maior em relação a Richard. Lorelai segue com birra de Emily mais pelo fato de a mãe ter “ficado do lado do pai” e não “do lado dela” do que pelo fato de a mãe ser malvada. Já Rory, Jane e Norman, não têm a opção de “ficar do lado” de outra pessoa, porque as outras pessoas que fazem parte da vida deles são meros coadjuvantes e o espaço maior em sua formação foi ocupado por suas mães. 

       Eu realmente gostaria de saber um pouco mais de psicologia para analisar melhor esses padrões de comportamentos e esses casos todos. Enquanto leiga, fico com as indagações e os questionamentos que essas três relações me causam. Aceito opiniões a respeito! Ah, claro! Todas as séries aqui mencionadas estão na Netflix e são ótima pedida pras férias!

Reciprocidade

Aí está uma das regras sociais mais irritantes dentre as existentes. É aquela coisa de fazer uma visita e não poder negar a xícara de café, mesmo que você já tenha tomado café. Lembro-me de um episódio de Gilmore Girls, em que era thanksgiving e as Lorelai deveriam comparecer em três ceias. Por mais que elas fossem gulosas e tivessem ficado o dia inteiro sem comer para se preparar, certamente ir em três ceias foi um pé no saco. Mas é o tipo de coisa que a gente não pode dizer não. Do mesmo jeito que não podemos dizer não para o café do fim de visita ou o “onde você mora? eu te dou uma carona”. A tal da falta de educação é uma noção tão horrível, porque, sinceramente, acho que seria de muito melhor grado que eu pudesse dizer “não precisa da carona, vai pra casa, eu vou de ônibus, a pé, camelo, táxi, não importa, você pode ir”, só que não. Sinto-me sempre coagida a dizer “mas não vai sair da sua rota?” e a pessoa responde “de maneira nenhuma” e lá vamos nós, independente se a casa dela é do outro lado da cidade. Por pura convenção social.

No natal a questão da reciprocidade fica mais intensa e eu sempre sou levada a me lembrar de Sheldon Cooper. Não sou uma fã devota de The Big Bang Theory, mas quando ligo a tv e está passando eu assisto. Em um episódio a Penny deu um presente pro Sheldon, um guardanapo com a saliva de um dos ídolos mor dele, ou algo do tipo e ele automaticamente surtou. Porque quando a gente ganha um presente automaticamente estima-se que a gente dê um presente tão bom quanto como forma de agradecimento. É assim que funcionam as festas de aniversário, a páscoa e todas as outras datas comemorativas em que se dá presentes. E é por isso que eu me irrito com eles.

A pressão de ter que escolher um presente para a pessoa x, mas que seja condizente com a última coisa que você ganhou dela, para não gerar nenhum tipo de desconforto é algo que realmente me incomoda. Por diversas vezes eu ando por aí e encontro coisas baratas e que são a cara de alguém que eu conheço, mas não compro, porque sei que se eu comprar a pessoa vai se sentir obrigada a me retribuir de alguma forma e eu realmente não quero isso. Talvez seja coisa da baixa auto estima, mas imaginar que eu gero um anseio de retribuição em alguém me angustia. Raramente eu dou presentes ou faço quaisquer outras coisas pensando no que vou receber com isso e eu não sei se é porque a maioria das pessoas faz tudo pensando no que vai ganhar com aquilo, mas acabo por me sentir desconfortável. É como se parecesse que estou sendo legal e solícita só porque espero ganhar algo legal no dia do meu aniversário ou qualquer coisa do tipo e isso jamais aconteceria, mesmo porque, pra ser sincera, por mais que ganhar presentes caros e pomposos seja legal, eu costumo me lembrar mais daqueles singelos e quase inexistentes do que dos mais relevantes.

Aliás, isso é uma coisa que sempre irrita a minha mãe, pessoa que não sabe ficar sem oferecer comida quando alguém vem em nossa casa, mas que abomina a obrigatoriedade de dar e receber presentes em determinados dias do ano. Mamãe é espontânea, deu vontade de comprar e de presentar, que assim seja. E sempre depois das datas comemorativas, quando ela me pergunta o que eu ganhei de quem, esqueço-me do que ela me deu. E ela sempre fica brava. A obrigatoriedade acaba por demarcar algum tipo de território, você olha pro presente e automaticamente lembra de quem deu, já pensando em como vai retribuir a pessoa como for a hora. Quando o presente é da minha mãe eu não preciso pensar nisso, porque qualquer forma de afeto é retribuição para os padrões dela. Talvez seja a coisa em que nós somos mais parecidas. Talvez eu tenha aprendido isso com ela. Essa coisa de que é muito mais importante fazer-se presente do que distribuir presentes.

É por isso que eu sou contra presentes de natal. Veja bem, adoro brincar de amigo secreto, acho super saudável e super divertido, porque ao invés de você retribuir para quem te presenteou, você retribui para um terceiro, transformando em um círculo de presentes e fazendo todo mundo feliz, sem que seja necessário ficar pensando em como dar um presente à altura daquele outro. Fora isso, presentes de natal são só dor de cabeça. Eles não fazem o menor sentido, primeiro porque quem está nascendo é Jesus e por mais que ele esteja dentro de cada um de nós, isso não me torna hábil a ganhar um presente. Sem contar que ele morreu e, sei lá, minha avó permanece em mim e eu não ganho presente no dia do aniversário dela. São Nicolau, o primeiro “papai noel” entregava presentes para pessoas que não tinham as coisas e nesse caso, acho o natal super legal. Acho que é esse o tal do ~~espírito natalino~~ que as propagandas da coca-cola tanto falam. E, sinceramente, sempre achei mais divertida a parte em que a gente pegava nossos brinquedos que não usávamos e íamos doar para as crianças carentes do que quando algum familiar se vestia de papai noel e me dava alguma coisa. Não que ganhar presentes seja algo ruim, mas me sinto tão idiota em criar um laço de reciprocidade baseando-se em um presente sem sentido que abstenho-me da brincadeira e fico com mandar mensagens, cartas e cartões.

Se são raras as pessoas capazes de me fazer comprar um presente de aniversário sem ser por obrigação causada por “puts, mas eu ganhei presente, tenho que dar”, nem preciso comentar sobre o natal. Um dia, talvez, se eu for rica e desocupada saia por aí a comprar presentes dignos de retribuir cada uma das coisas fantásticas que eu vivo recebendo. Por enquanto, contentem-se com eu ser legal com vocês e se nem isso eu for, bem, acho que vocês estão presenteando a pessoa errada.