E aí você entrou em minha vida…

Lembro-me de estar no final de Março encantada com as propagandas da nova novela das 18h que seria exibida pela Globo. Nunca gostei de novelas. Há muito tempo não gosto da Globo. Mas Cordel Encantado era diferente.

Acostumada com novelas realistas, que narram coisas não tão impossíveis de se acontecer, de uma maneira chata, superficial e banal,  surpreendi-me com as propagandas dessa que seria minha companheira por cerca de cinco meses.

Ao contrário das tradicionais novelas sobre empresários, que possuem problemas familiares que acabam levando-os à falência, que a mulher sempre trai o marido (ou vice-e-versa), que o galã está comprometido, mas conhece a mocinha, separa-se da anterior e acaba ficando com a mocinha, que é cheia de triângulos amorosos mau contados (e mau resolvidos), de casais sem a menor química e de famílias mau estruturadas (ou bem estruturadas demais) que acabam por entristecer os telespectadores que voltam à realidade percebendo que sua vida é simplesmente inferior a mostrada, novelas em que os atores nem são tão bons, mas por serem bonitos (ou malvados, ou justiceiros) acabam sendo idolatrados por milhões de pessoas país a fora. Novelas que vem sempre com os mesmos atores, diretores, roteiristas e estão sempre agregadas a um cd nacional e um internacional, de uma trilha sonora nada condizente com a história, que a embala somente por estar nas mais altas “paradas de sucesso” no momento, Cordel Encantado surge com uma temática completamente diferente. Repleta de atores jovens, não tão bonitos (e uns estrondosamente bonitos), atores novatos, que trabalhavam apenas no teatro, atores antigos, mas reinventados, cenários graciosos e angustiantes, músicas condizentes com todos os momentos, desconhecidas pela maioria, mas perfeitas para a ambientação do enredo. Enredo muito bem elaborado, repleto de histórias entrelaçadas, muito bem adaptadas e reinventadas. Figurino magnífico, com roupas lindas da corte e outras lindas do sertão. Uma novela antiga, de época, mas que consegue ser atual e bonita. Eis que surge Cordel Encantado para mudar toda a minha ideia a respeito das novelas, porque se fosse para fazer uma novela como essa eu iria para a Globo.

A história se passa no Sertão Nordestino, na época do Cangaço. Em um reino distante, um rei tem uma filha chamada Aurora. Seu reino estava em guerra e para selar a paz ficou prometido que Aurora se casaria com Felipe (príncipe do reino vizinho), assim que virassem adultos. O reino entra em crise e o rei descobre que há um tesouro escondido no Brasil e ele deve ir até lá procurar o tesouro, vai e leva toda sua família junto. No sertão nordestino aparecem os cangaceiros, que ficam sabendo do tesouro e querem pegá-lo para sí. Junto com isso há a “duquesa má“, que veio do reino distante para matar a esposa e a herdeira do rei, fazendo assim com que sua filha fosse a próxima no trono. A duquesa consegue matar a mãe de Aurora, mas ela deixa a menina com uma família de sertanejos que prometem cuidar dela para sempre. Enquanto isso o chefe dos cangaceiros também tem um filho e, impossibilitado de cuidar dele, o deixa com o grande coronel da cidade, que seria seu padrinho e o criaria da melhor maneira possível. O rei não encontra o tesouro e acaba voltando ao seu reino, sem sua esposa e filha.

Isso foi contado no primeiro capítulo.

O segundo mostra Aurora, criada no Brasil sob o nome de Assussena, já adulta, apaixonada e prestes a casar com Jesuíno, o filho do cangaceiro. O rei acaba sabendo que sua filha está viva e volta para o Brasil para procurá-la.

Em meio a encontros, desencontros, pessoas loucas, corruptas, endiabradas, bondosas e proféticas a história vai se desenrolando, repleta de personagens notórios e núcleos muito bem especificados.

Uma das autoras foi entrevistada e disse que a novela era baseada na história de vários contos de fada, adaptados e entrelaçados. Aurora era a Bela Adormecida, Antônia a Rapunzel, Maria Cesária virou a Cinderella e Doralice incorporou Diadorim (personagem principal de “Grande Sertão Veredas”, importante livro da literatura brasileira escrito por Guimarães Rosa), a obra de Guimarães Rosa influenciou muito na escrita também, assim como noções básicas de história e fatos como a chegada do cinema ao país.  Úrsula, a duquesa má, era a personificação de todas as vilãs que conhecemos muito bem dos contos de fada. Era egoísta e maníaca, com traços de bruxa, capaz de enganar a todos com sua implacável cara de santa.

Então chega no capítulo do baile. Não me recordo mais dos motivos para que tal baile ocorresse, mas eles não são importantes. Isso é importante: 

Depois que eu vi esse episódio tive uma crise romântica muito grande. Debulhei-me em lágrimas ao perceber que no mundo real jamais existiria alguém tão principesco quanto o Inácio. Jamais alguém falaria coisas como essas para mim e jamais alguém se submeteria ao que ele se submeteu em amor a Antônia. Inácio tornou-se meu personagem preferido. Meus olhos brilhavam e meu estômago se contorcia a cada vez que ele aparecia. Eu sonhava com alguém como ele. Pela primeira vez na minha vida tive o sonho burguês de constituir uma família, ter filhos e criá-los numa casa com um quintal bem dotado. Queria realizar esse sonho, desde que fosse com alguém como o Inácio. A novela foi passando e a cada dia ele ganhava mais um pouco de meu coração. Ele abandonou tudo, toda sua riqueza e até a Antônia para ajudar os outros na Vila da Cruz. Ele foi um “São Francisco” do sertão e quando Antônia aceitou tornar-se sua “Clara de Assis”, seu filho até falava com pássaros.

Então, em meio aos meus encantamentos pelo príncipe em questão, surge o justiceiro do sertão. Jesuíno. Eu não gostava da Assussena, tanto que nem sei a grafia correta de seu nome. Ela era muito chata e por muito tempo eu torci para que Jesuíno ficasse com Doralice, ela o amava e o Príncipe Felipe sonhava com a Aurora dele desde que se entendia por gente, merecia ficar com ela. Mas o Jesuíno também. Ele era o melhor homem que poderia exsitir. Não digo isso unicamente pelo fato de ele ser interpretado pelo Cauã Reymmond, o que já o faz um grande personagem, mas a essência daquele ser era linda, pura e justa. Seu lema de vida era “Pelo Justo e Pelo Certo!” e ele fazia tudo que era possível para manter o sertão nordestino justo e correto. Lutava com quem fosse preciso e em determinado momento até passou por uma fase “Hobin Hood“, ato extremamente louvável de sua parte.

O fato é que enquanto Inácio era bonzinho e encantava por ser encantador, Jesuíno encantava por ser batalhador e justiceiro. Todas as vezes que algo ruim acontecia, ele vinha e salvava e ele amava muito a Assussena. Tanto que até dava inveja. A menina era chata, birrenta e exigente e ele nem se importava, bastava vê-la correndo um fiapo de perigo para arriscar sua própria vida em prol da dela. Ele supre todos os esteriótipos que a grande massa faz de seu futuro amor, ele era o amor de todas. Por cinco meses meu principal assunto com as minhas amigas era Jesuíno. Porque é completamente impossível que exista alguém com tanta substância quanto ele, é impossível que exista alguém meramente semelhante a ele e a utopia nos prende, nos apaixona. Éramos um grupo de meninas suspirando por um personagem de novela e não tínhamos a menor vergonha disso.

A questão é que mesmo eu idolatrando perder uma hora do meu dia assistindo a essa novela, mesmo eu amando cada um daqueles personagens e suas histórias de vida, mesmo que eu gostasse muito de tudo aquilo, não tive paciência o suficiente para assistir a novela inteira. No segundo mês eu já havia desistido. Continuava sabendo tudo que acontecia, porque todos falavam. Continuava gostando da história e surpreendendo-me a cada vez que resolvia assistir a um episódio, que geralmente era feito para agradar minha mãe, sedenta por companhia.

Depois de Cordel Encantado, nossas aulas de história do Brasil nunca mais foram as mesmas. Sabíamos tudo sobre o cangaço. Acredito que se cair uma questão a respeito no vestibular eu certamente acertarei. Em nosso simulado do ENEM perguntaram em qual história era baseado o romance de Jesuíno e Doralice. Ri desesperadamente ao ler tal questão. Realmente estavam perguntando aquilo para mim?

Então eu começo a ver na televisão propagandas de uma nova novela. Achando que substituiria a pacata novela das 19h, nem liguei. Semanas passaram e descobri que a tal nova novela viria para substituir a minha novela. Em poucos dias eu não teria mais uma novela para assistir. Dito e feito.

Essa foi a última semana de Cordel Encantado e eu não pude ver todos os episódios, porque agora faço aula de teatro e tenho que sair de casa bem na hora que a novela começa, então eu só sabia o que acontecia porque me contavam. Chegou quinta-feira e eu já estava lamentando terrivelmente o fato de estar findando-se aquilo que me acompanhou pelo ano mais tortuoso de minha existência. Estava lamentando por ter que abandonar meu idolatrado Inácio e eu não pude ver o último capítulo, nem na sexta e nem no sábado. No auge do meu desespero, corri para o youtube, procurando meu último capítulo. Não podia deixar que minha novela terminasse sem que eu soubesse como. Estava enfeitiçada pela coisa. Então encontrei na internet o último episódio.

Encontrei e quando ele terminou nada eu podia fazer, além de debulhar-me em lágrimas.

Senti dor semelhante à sentida quando tive que me despedir de Harry, Hermione e Rony, meses atrás. Foi terrível. Agradeço por ter minhas aulas de teatro, porque se eu tivesse que ficar em casa na hora da minha novela e não tivesse mais a minha novela, não sei o que faria. Surtaria. No mínimo.

Então cá estou eu, nessa fatídica tarde de domingo, jurando novamente para mim mesma que não assistirei mais novelas. Porque se demorei 13 anos para superar o fim de Chiquititas, não consigo prever quanto demorarei para superar o fim de Cordel e não posso iniciar toda essa babaquice de novo.

Só queria agradecer a todos os meus personagens amados por terem aparecido em minha vida no exato momento em que eu precisava. Principalmente, queria agradecer ao Inácio por ter feito com que eu ansiasse por um príncipe e tempos depois percebesse que não quero um príncipe, quero apenas alguém que me ame e saiba demonstrar isso. No fim, é o que todos querem.

Então é isso… Adeus meu Cordel Encantado.

Aventuras Juvenis de um Final de Semana Épico – Parte 1

Insegurança é o meu nome do meio, como já disse aqui diversas vezes. A ela agrega-se uma tremenda covardia e medo de experimentar coisas novas, no entanto, consigo ser paradoxal o suficiente para mesmo em meio a tantas adversidades amar a adrenalina liberada quando somos expostos a grandes aventuras ou momentos de tensão. Situações de quase-morte sempre me agradaram, porque passar com ela me faz ter uma consciência muito maior de vida.

Então convenço-me a participar de um acampamento. Sempre quis ir a um acampamento de verdade, onde barracas e sacos de dormir fossem utilizados e essa era a ocasião perfeita, portanto convidei-me para ir junto com uma amiga que iria de qualquer maneira. Fomos. Foi o final de semana mais impossível de ser descrito em toda a minha pequena vida.

Achei que ficaríamos numa barraca, teríamos algumas atividades ao longo do dia e dormiríamos cedo, o máximo que poderia acontecer seria um mashmellow na fogueira. Não esperava mais do que isso.

Ok, eu esperava momentos de oração e reflexão, tendo em vista que era um acampamento católico, mas não esperava que eles tomassem todo o tempo e nem que fossem escassos demais, esperava que fossem curtos e profundos o suficiente para fazerem a diferença. Tais momentos ocorreram, mas a intensidade não mudou nada em mim. O que me mudou foram coisas muito diferentes.

Já no primeiro dia, fizemos um tour pela mata da chácara em que o acampamento em questão ocorreria. Essa mata tinha alguns córregos e a terra estava molhada, formando alguns centímetros de lama que já ali no começo incomodaram um bocado, mas eu nem liguei tanto assim, eram só alguns centímetros de barro na calça, nada demais.

No segundo dia cada equipe tinha que cumprir cinco desafios que ocorreriam naquela mata. O primeiro deles consistia em apoiar-se em dois troncos finos que estavam caídos no chão, formando algo parecido com a letra V. A intenção era usar o peso da pessoa do tronco da frente para se sustentar e depois que conseguimos nos disseram que a próxima etapa seria fazer com que as filas ficassem em ordem alfabética. Deveríamos mudar de lugar sem sair do tronco. Foi difícil, mas não muito, logo conseguimos, conversamos sobre a experiência e partimos para o próximo desafio. Esse consistia em cair de um tronco com cerca de 1,5m de altura, sem olhar para trás, simplesmente se jogar e acreditar que sua equipe te seguraria. Por ser a menor e a mais leve, fui a primeira a ser mandada nessa experiência e a sensação de queda foi maravilhosa, mas só porque me seguraram, caso contrário seria deveras traumatizante. Depois que todos cumpriram essa prova, fomos para a próxima.

Essa consistia em um triângulo de cordas bambas em que cada vértice era uma árvore, onde as cordas estavam amarradas. Todos os integrantes da equipe deveriam subir naquela corda. O detalhe é que nossos tamanhos e pesos eram os mais variáveis possíveis e cada um que subia me transmitia uma sensação terrível de desequilíbrio e eu tinha plena certeza de que uma hora todos desmoronariam. Sabia que se eu subisse ali todos desmoronariam, então relutei a subir. Fui a última, na esperança de que tivesse que subir e descer rapidamente, sem precisar servir de apoio para ninguém. No grau de medo que eu estava, sequer conseguindo apoiar a mim mesma, sentia impossível cogitar a hipótese de segurar outros, mas aí o monitor da prova nos disse que deveríamos girar pelo triângulo, até que a primeira pessoa que entrou pudesse sair, pela mesma vértice e depois dela, o segundo, o terceiro e assim sucessivamente. Eu seria a última a sair daquela corda. Ficaria lá sozinha no final, teria que apoiar a todos e certificar-me de não permitir que nenhum caísse. Foi terrível. Mas algo fez com que eu conseguisse. Meu desequilíbrio passou e em alguns momentos eu até apreciei a diversão da brincadeira. Quando finalmente pude descer daquelas cordas, demorei cerca de cinco minutos para voltar a respirar normalmente, tamanho era o desespero em que me encontrava.

Mas, tudo bem, faltavam só duas provas. A quarta delas consistia em ultrapassar um paredão liso de 3m de altura. Não teríamos como escalá-lo e eu não me recordo de como a primeira pessoa conseguiu tal feito, só lembro  que a partir da segunda o esquema começou a funcionar direito. Ficavam três pessoas embaixo, fazendo “pézinho” e empurrando os outros para cima, enquanto duas ficavam em cima do paredão puxando as que deveriam subir. Funcionou perfeitamente, eu fui empurrada por todas as mãos possíveis e cheguei lá sem grandes problemas, mas o último a passar por tal etapa sofreu, principalmente por ter 2,05m de altura, não saber pular e ser pesado o suficiente para que os que deveriam puxá-lo não obtivessem tanto sucesso assim. Demoramos muito e quando finalmente conseguimos fazer todos passarem pelo paredão demos gritos histéricos e felizes, foi legal. A próxima prova foi a que eu menos participei… Havia um poste com mais de 4m de altura e dois pneus em sua base, o objetivo era trocar os pneus de ordem sem jogá-los ou deixá-los cair no chão. Fizemos uma pirâmide humana, em que uma menina de 1,8m subiu nas costas do menino de 2m e ainda assim sofreu horrores para conseguir retirar os pneus do bendito poste. Ver a cara de sofrimento dos meninos que estavam servindo como base para as duas meninas partiu meu coração, mas não havia nada que eu pudesse fazer para ajudá-los.

Antes desses desafios, porém, houve algo muito pior. Era hora do almoço e chegou a notícia de que nós deveríamos fazer nossos próprios almoços. Recebemos portanto uma vasilha de inox com dois pacotes de miojo, dois ovos, um pouco de sal e uma mimosa, além de varas de pesca e minhocas. Para o preparo da comida seria fornecido apenas uma pequena porção de água quente e deveríamos prepará-la e comê-la em meia hora.

Enquanto metade do grupo foi pescar, a outra metade tratou de montar uma fogueira. Foi extremamente difícil fazer aquele fogo pegar e só conseguimos porque uma das integrantes do grupo possuía um isqueiro. Depois que conseguimos acender o fogo, fizemos apoios para a vasilha de inox e colocamos os miojos na água ali para cozinharem, minutos depois colocamos os ovos e acidentalmente o sal foi junto. Enquanto abanávamos a fogueira, várias cinzas, pedaços de folhas secas e até restícios de terra iam caindo em nossa comida, mas nem ligamos. O grupo dividiu entre si a mimosa, a qual eu recusei porque só se estivesse realmente morta de fome aceitaria. O peixe não pôde ser trazido a nós a tempo, devido ao fato de não ter tido tempo suficiente para limpá-lo e prepará-lo. O miojo, por sua vez, ficou delicioso. Tratamos de repartir o papel de seu pacote e utilizá-lo como prato e todos comeram daquele miojo maravilhoso (que mesmo que estivesse horrível, para nós, famintos, seria maravilhoso), quanto ao ovo, não cozinhou direito, mas um dos meninos da equipe (sem medo algum de pegar salmonela) o comeu mesmo assim. Quebrou-o e comeu-o, mesmo sem sal. Não sei até agora como eu tive coragem de comer aquele miojo, mas não me arrependo de tê-lo feito. Da mesma maneira como não me arrependo de ter deixado minha roupa extremamente fétida devido ao terrível cheiro de queimado que aquela fogueira dispersava. Aprendi a fazer uma fogueira e isso foi um conhecimento muito útil, mesmo em tempos de vidas modernas, pois nunca é possível que saibamos o que nos aguarda pela frente.

A noite chegou e nos mandaram colocar uma roupa que pudesse sujar. Eu fiquei com medo, mas coloquei. Junto com ela o meu all-star xadrez lindo que me acompanha desde meados de 2007 e fui até o local indicado, na hora indicada. Essa prova seria individual e eu até agora não fui capaz de compreender seu objetivo, embora acredite que tenha sido algo como “confie em si mesmo” ou “sempre há alguém para te ajudar“, mas sem tanta certeza disso. O fato é que estávamos na frente de uma mata até então inexplorada, sendo “convidados(na verdade, não havia outra escolha) a ser vendados e entrar ali, no meio da noite, sem uma lanterna, sem destino, apenas seguindo uma trilha de cordas e dispostos a encontrar qualquer tipo de perigo florestal por ali. Nossa única segurança eram os tais monitores, que prometeram estar sempre rondando a mata. Eu demorei muito para ser escolhida para tal trilha e quando finalmente cheogou a minha vez, estava empolgada. Havia imaginado uma trilha feita pelos organizadores, com alguns caminhos tortuosos, mas algo reto e sem perigos em sua grande maioria. Ledo engano. Em menos de 10 minutos eu já tinha tido a capacidade de me perder e quando fui encontrada estava voltando pela trilha, ao invés de andar pelo lugar certo. Enviaram-me para o lugar correto e minutos depois eu tropecei numa poça de lama, tentei levantar e caí nela novamente. Rindo desesperadamente, levantei-me de novo e segui em frente, cantando nos pensamentos e extremamente tranquila. Continuei pelo caminho que até então estava reto, com alguns galhos por aqui, espinhos por ali, muros e grades acolá, mas sem grandes problemas. Tempo depois comecei a ficar desesperada pelo fato de não ouvir nenhum ruído sequer e achar que realmente estava sozinha por ali, largada às traças, pronta para ser devorada pelos urubus que rodeavam a região. Continuei andando, tentando abstrair as sensações, fingir que estava tudo absolutamente normal. Trombei em alguém. Não estava sozinha. Isso foi de grande alívio. Continuei no caminho e ele parecia sem fim. Sentia minhas mãos sendo levemente machucadas e minhas pernas ganhando novos hematomas a cada tronco que eu esbarrava, batia, debatia ou tentava fracassadamente desviar. A cada curva que surgia, eu tinha a sensação de estar andando em círculos e comecei a ficar realmente desesperada. Em certa altura estava até cogitando a hipótese de desistir, mas logo repensava e concluía que não havia sentido em desistir, pois para sair da mata eu deveria passar por praticamente os mesmos lugares, então não ia valer a pena.

De repente, comecei a ouvir gritos histéricos vindos do meio da mata e fiquei mais desesperada ainda. Passos adiante ouvia barulhos de água e como já estava morrendo de frio por causa da lama do começo, comecei a surtar com a hipótese de ter que atravessar um riacho ou qualquer coisa do gênero. Não era esse o caso. Passos a frente eu perceberia que era apenas um barranco enlamaçado que nos levava a mais lama. Foi aí que o desespero começou de vez. Senti-me em um mar de lama, que as vezes parecia areia movediça, algo que ia me comer e eu ia padecer por ali. Comecei a imaginar a reação da minha amiga quando ela terminasse seu banho e soubesse que eu ainda não havia voltado do percurso. Imaginei a cara da minha mãe quando ligassem contando a ela que eu havia me perdido ali no meio da mata, no meio da noite, sem nada por perto. Desesparada, comecei a tentar andar mais rápido, tentar cair menos. Precisava sair dali. Então caí num buraco. O buraco não tinha um chão, comecei a bater os pés dentro da lama, tentando fracassadamente locomover-me. Não adiantou. Parei para pensar numa nova estratégia e quando cheguei a uma conclusão, não conseguia mais sair dali. Estava entalada na lama, no meio de uma mata fechada, num lugar bem longe da minha casa, de noite, sem uma lanterna ou um conhecido por perto. Estava pensando em todas as pessoas importantes para mim e na reação que elas teriam quando soubessem que eu havia padecido e resolvi que não era hora de morrer, então comecei a pedir por ajuda. “Socorro! Entalei aqui! Alguém me ajuda, por favor!” e eis que apareceu alguém! Gostaria muito de estar sem minha venda nesse momento, para gravar bem o rosto dessa pessoa e poder agradecer-lhe eternamente, mas não sei quem foi. Só sei que ele me puxava com toda a sua força e eu sequer mudava de posição. Ele disse que precisaria usar mais força e pediu para que eu gritasse caso ele estivesse me machucando. Eu já não sentia mais as minhas pernas e estava desesparada o suficiente para sequer perceber que ele estava usando força sobre mim. Eis que ele consegue me desentalar, mas meu tênis (meu querido all star xadrez que me acompanhava desde 2007) ficou preso na lama. Então eu disse “Meu tênis! Meu tênis ficou na lama!” e ele começou a procurá-lo. Minutos depois me disse “Olha, não consigo achar o seu tênis, você vai querer mesmo ele?” e eu respondia quase chorando “Quero sim! Posso tirar minha venda para procurá-lo?” e ele disse que se eu tirasse a minha venda ia querer sair correndo dali e ia ficar traumatizada. Respirei fundo e perguntei se ainda faltava muito para a trilha terminar, ele disse que não, eu acreditei e informei-lhe que terminaria sem o meu tênis. O que um tênis importava naquela altura? Eu tinha minhas pernas novamente, eu estava bem. Precisava sair dali. Só isso importava. Abandonei meu tênis e gritei “Muito obrigada a você, quem quer que você seja! Salvou minha vida! Obrigada!” e ele respondeu ironicamente “Obrigado você por ter sujado o meu casaco…” eu ri. Comecei a imaginar como estaria aparentando naquela altura, como estaria o meu casaco branco, minha calça agora enlamaçada e meu tênis, tanto o perdido quanto o que ainda estava em meu pé. Continuei andando e a lama continuou constante. Eram rios de lama, nojentos o suficiente para fazerem “BLEHK BLEHK BLEHK” a cada passo que as pessoas da minha frente davam. Minutos depois lá estava eu numa árvore que tinha uns cinco fios enrolados, sem saber para onde seguir. Tenho certeza de que fiquei girando por ali algumas vezes, até que um monitor segurou a minha mão e direcionou-a ao fio correto. Segui em frente. Cheguei num ponto da lama que não tinha condições de ficar em pé, não dava para descer sentada e a única conclusão chegada pela minha pessoa foi “Vou precisar me arrastar por aqui“. Agora aquilo havia deixado de ser apenas um passeio pela mata escura, era uma luta pela sobrevivência e era questão de honra que eu completasse o percurso, chegasse ao fim da trilha orgulhosa de mim mesma. Ignorei portanto o cheiro terrível que aquela lama emanava, deitei-me e comecei a rastejar. Nessa altura do campeonato, meu tênis remanescente já havia sido tirado de meu pé e estava sendo levado em minha mão, até que (mais uma vez) um monitor viu, pegou ele da minha mão e me mandou continuar rastejando para onde o fio levava. Eu fui, não queria mais saber de nada.

Eis que uma tora de lama espirra em minha boca. Ela estava fechada, graças a Deus, mas depois disso o desespero aumentou ainda mais, porque agora se eu atolasse novamente não teria condições de gritar. Por falar em atolamento, depois daquela vez houveram mais no mínimo três, porém não tão desesperadoras. Eu já não tinha medo de nada. Se tivesse que lutar com um leão para desvencilhar-me daquela mata, certamente lutaria. Eu precisava sair dali. Precisava tirar aquelas roupas molhadas, tomar um banho e deitar em algum lugar. Precisava ver o estrago que havia sido feito em meu corpo. Queria saber o que aquela experiência acarretaria em minha vida e, depois de mais vários minutos eternos de desespero, chego em um tronco onde o fio acabava. Tentei mensurar a posição da lama em minha boca, para ver o quanto poderia abrí-la sem correr o risco de engolir aquele barro nojento. Abri o máximo que eu pude e exclamei “Socorro! O fio acabou! Pra onde eu vou agora??” e uma voz plácida metros adiante me disse “Pode tirar sua venda, a trilha acabou.

Tirei aquela venda no maior estilo Brad Pitt, com um olhar de “Like a Boss” na cara e uma tremenda sensação de “Sou Foda.“, saí da mata e percebi que estava num lugar completamente diferente daquele por onde havia começado a brincadeira e que eu deveria ter andado por no mínimo 3h e que devia ter sido por no mínimo uns 2km (na verdade andei por 1:30h num percurso de cerca de 1km – ou menos), estava realmente cansada e saindo daquela mata já não conseguia fechar meus braços, ou sentir firmemente as minhas pernas. Andava com braços e pernas abertos, sem a menor noção de movimento. Cheguei próximo a nossa barraca e encontrei minha amiga, ela também estava suja e, o principal, também estava viva.

Tiramos algumas fotos enlamaçadas (embora eu não saiba se algum dia terei acesso a elas)  e descobrimos que antes de tomar banho, deveríamos passar pelo lago gelado onde os peixes haviam sido pescados mais cedo. Havia uma corda lá, deveríamos montar nela e puxá-la com a maior agilidade possível. Devo ter demorado uns 30 segundos naquela travessia, mas chegando ao banheiro fui obrigada a esperar por mais 30min (no mínimo) até que um deles ficasse disponível e eu pudesse finalmente voltar a ter minha cor normal.

Meu casaco, previamente branco, agora encontrava-se completamente marrom, assim como a camiseta e, acreditem se quiser, até a calcinha. No banho, cada parte nova que era limpa possuía um novo hematoma. Desde então nunca mais consegui encontrar uma posição confortável em meu corpo ou um lugar grande sem hematoma algum, exceto as costas, que pareceram intocadas, mesmo depois de tamanha aventura.

O fato é que tudo isso me fez perceber que eu não sou tão medrosa quanto sempre acreditei ser e que quando realmente há necessidade, faço o que for possível para manter-me viva. Foi a experiência de quase morte e a carga de adrenalina mais bem vindas que eu já tive. A sorte é que eu estava realmente precisando de uma boa dose dessas e tenho a absoluta certeza de que depois que os hematomas sararem só lembrarei de coisas boas aprendidas ali, no meio da floresta. No entanto, sobre tais coisas não comentarei aqui, tendo em vista que assim como a regra número um do clube da luta é não falar sobre o clube da luta, a regra do acampamento é não falar sobre o que ocorre na mata, porque o que ocorre na mata, deve ficar na mata e lá ficará. Todo o meu medo, insegurança e grande parte de meu nojo também. Ainda não consigo olhar para a minha cara e acreditar que fui capaz de passar por aquilo. Quem me conhece sabe que sou a típica pessoa que dá gritinhos de nojo quando vê um pombo morto na rua e que faz cara feia e sai de perto quando alguém abre uma mimosa ao seu redor, ou resolve comer/fazer alguma coisa fedida.

O fato é que eu me descobri ali e depois de tudo pelo qual passei, vai ser difícil sentir-me muito fisicamente ameaçada novamente.

Posso continuar com o meu metro e cinquenta e cinco e meio de altura, mas nesse final de semana eu cresci. Espero que isso tenha sido bom.

Agora sinto-me física e mentalmente preparada para meu tour pelo Brasil. Se eu sobrevivi a isso, não vou morrer em uma viagem sociológica por aí. Não vou morrer tão fácil.

 É assim que pequenas coisas causam tão grandes transformações. 

*Em breve mais coisas aprendidas nesse tal acampamento.


Sei lá… A vida é uma grande ilusão.

Eu quero escrever, só não sei sobre o quê. Não digo que estou com falta de ideias, porque ideias nunca faltam nessa minha cabeça pensante. O problema tem sido passá-las para o “papel”. Se antes eu pensava em uma coisa e vinha direto escrever a respeito, agora fico pensando muito antes de realmente concretizar o ato da escrita. Tudo devido ao fato de que não faço ideia de quem são as pessoas que leem isso aqui e há coisas que eu realmente não gostaria que fossem lidas por pessoas que me conhecem apenas superficialmente, tendo em vista que elas logo me julgarão baseando-se no que leem, sendo que várias vezes eu escrevo coisas que penso, mas que não ajo de acordo e isso não faz de mim hipócrita, apenas sem vontade de ser algo decente mesmo. Tenho preguiça de tentar ser alguém decente nesse mundo de gente indecente, porque uma pessoa boa não vai fazer grandes mudanças. Como li recentemente “Uma pessoa boa em um lugar mau tende a tornar-se mau também”, sei que essa frase não é de todo verdadeira, mas faz bastante sentido.

No fim, resolvi vir escrever, mesmo sem fazer a menor ideia sobre o quê. Cansei de ficar inventando teorias, histórias, contando coisas pelas quais ninguém se interessa, apenas pela necessidade constante de contá-las. Resolvi retornar ao bom e velho papel com caneta. Meus diários estavam bastante abandonados e recentemente fui obrigada a preencher um deles com alguns fatos notáveis que não devem ser espalhados pelos quatro cantos da terra, então resolvi ler coisas que escrevi há algum tempo e deparei-me com textos extremamente divertidos, fofos, havia também os deprimentes, os chatos e eu concluí que diários são partes importantes da minha vida e não posso abandoná-los. Percebi que escrevi pouquíssimo no decorrer do Ensino Médio e isso foi muito triste, porque agora pego meu “eu” do presente e não faço ideia de como vim parar aqui. Lógico, eu fiz uns 5 blogs no decorrer desse tempo, escrevia horrores lá e depois os deletava e mandava todos os textos para o ar e agora não faço ideia do que se passava pela minha cabeça em determinados momentos e isso é realmente triste. Aliás, o principal motivo para eu nunca ter deletado esse blog é que criei essa consciência e acho completamente desonroso da minha parte abandonar pensamentos que pareceram tão certos nos momentos em que foram delatados.

O que ocorre no momento portanto, meus caros leitores, é que decidi compartilhar convosco somente pensamentos de fato relevantes, coisas que de fato sirvam para algo. O resto estará em meus diários, para leituras futuras de minha parte. Dignarei esse espaço portanto somente a textos e teorias que não se relacionem exatamente a mim. Não mais o utilizarei para divagar a respeito de pessoas que me irritam e afins, não acredito que alguém se interesse por ler coisas do tipo e não acho justo ficar aqui escrevendo e divagando sobre pessoas que muitas vezes nem lerão. Guardarei minha ignorância, tagarelice e afins para mim e meus descendentes que serão os únicos a ter acesso aos meus diários.

Pretendo escrever mais do que sempre escrevo, ter um relato detalhado ao meu respeito, porque acho isso bastante importante e interessante. Não que eu queira ser uma Mia Termopholis da vida, mesmo porque eu jamais conseguiria ser como ela, mas acho importante escrever a respeito do que penso e do que sinto, para refletir melhor sobre as coisas e assim tornar-me uma pessoa mais sensata. Espero que funcione.

Acho que depois de 17 anos cansei de apanhar dos meus próprios sentimentos e resolvi tentar entendê-los um pouco melhor, para assim entender-me melhor e entender o mundo ao meu redor melhor. Cansei também de confiar em pessoas que não se importam e delatam meus “segredos” por aí e de pessoas que olham para mim e logo começam uma série de julgamentos. Cansei também de ser xingada, mau tratada e pisada por tanta gente, resolvi dar-me ao respeito, dar-me valor, o meu devido valor. Sim, porque debaixo de toda essa carinha fofa, existe uma pessoa que é completamente confusa e acaba agindo equivocadamente o tempo todo em busca de um pouco de sentido, mas bem… Talvez as coisas não existam para serem compreendidas mesmo, talvez elas sirvam apenas para serem vividas. Só descobrirei isso tentando ser diferente, lógico e é exatamente isso que tentarei fazer.

Meu blog continuará aqui, sempre. Ele, que foi um dos poucos que me ouviu quando eu precisei gritar. Ele e todos os seus bélissimos comentários que tanto me ajudaram, animaram e fizeram rir. Continuará aqui porque tenho a absoluta certeza que dentre o emaranhado de coisas que podem ser descobertas a meu respeito, os pensamentos a respeito do mundo em que vivemos continuarão existindo, as tentativas frustradas de poemas também e as desventuras que me ocorrem também, eu acabarei querendo falar sobre elas para alguém e não será meu diário, quererei sentir novamente a bela sensação de “estou escrevendo e há gente lendo!” e voltarei para cá e escreverei tudo o que eu quiser.

Meu blog continuará aqui, eu continuarei aqui. Talvez a mesma pessoa, talvez não, não há como saber. O que importa é que eu finalmente percebi que era inútil demais continuar vivendo parcialmente, como eu estava. Decidi ser quem eu sempre quis, mesmo que isso me canse ainda mais e tome algumas das minhas amadas horas de sono. É necessário fazer sacrifícios para atingir objetivos. Não posso ser tola o suficiente para crer que acordarei um dia e estarei tendo a vida exata que sempre quis. Preciso buscá-la e acho que está passando da hora de começar essa busca.

Perdoe-me se lhe decepcionei, mas já não sinto que escrever para um público “desconhecido” seja o que eu preciso no momento. Estou é necessitada de alguém que eu possa conversar de verdade, olho no olho e sem medo de ser rechaçada ou qualquer coisa assim. Não que eu esteja me sentindo sozinha, só estou precisando de uma boa discussão, cheia de argumentos e reflexões. Isso e uma boa dose de amor próprio, talvez. Ok, eu realmente preciso falar tudo que quero para alguém que queira ouvir e como essa não é uma opção, prefiro a ideia de falar tudo que quero para mim mesma, só assim posso prever as reações exatas, ler com as intenções corretas e relacionar os textos com os momentos e pessoas que merecem. Está na hora de ser um pouco mais reservada. Essa coisa de ser um “livro aberto” não trouxe boas consequências. Fato.

Enfim, até o próximo momento divagante da minha pessoa saltitante, sonolenta e sedenta por doces.

Eu gosto é de bolacha.

Sabe-se que sou uma nômade nata, pelo menos é o que dá para notar pelo fato de eu ter mudado de cidade 5 vezes até os 10 anos de idade, para quatro cidades diferentes, em três estados diferentes. O fato recém percebido, no entanto não foi que isso fez com que eu me adaptasse muito rápido a novos lugares e situações, me desapegasse rápido das pessoas (tão rápido quanto me apego) ou aprendesse a apreciar estilos de comida diferente, não. O fato notado é que essas mudanças fizeram uma completa bagunça no meu modo de falar.

Imaginem comigo uma maranhense do interior, uma cidade muito pequena que nem asfalto tem direito. Agora imaginem um paranaense do interior, de uma cidade muito pequena que nem aparece nos mapas. Imaginem agora Brasília, a capital do país, onde essas duas pessoas estavam morando por motivos distintos e imaginem que essas pessoas se conheceram de uma maneira muito não convencional e se casaram e tiveram dois filhos, que nasceram ali mesmo, na capital do país. Pronto, vocês acabaram de imaginar a minha família, pelo menos o básico dela.

O problema é que eu comecei a aprender a falar enquanto morava em Brasília, então fui jogada em Curitiba, um lugar completamente diferente e aqui eu aprendi a falar de verdade, aprendi a ler e escrever e com três anos era a melhor aluna da classe de espanhol, mas daí eu fui pro interior e descobri que por lá as pessoas não sabiam o que era penal, Deus sabe o quanto isso me impressionou. Lembro até hoje que todos os alunos tinham que deixar o estojo na escola, me falaram isso milhões de vezes mas eu não fazia a menor ideia do que diabos era um estojo, então fiquei esperando que todos os outros alunos deixassem o estojo na prateleira indicada, fui até lá, descobri que eram penais, peguei o meu penal, deixei lá e voltei para casa indignada perguntando para a minha mãe por que diabos todas as pessoas daquela cidade falavam errado, porque penal se chamava penal e não estojo. Minha mãe apenas riu e me explicou que algumas palavras podem mudar de acordo com a região do país que você vive. Tarde demais. A confusão já tinha começado.

Sei que até hoje eu não faço a menor ideia de qual é o meu sotaque. Tenho para mim que não tenho sotaque algum, mas várias pessoas dizem que tenho sotaque de sulista (absurdo), outros que tenho sotaque de interior mesmo, porque falo o “r” igual caipira, porém quando eu converso com meus primos nordestinos ou até mesmo quando meu avô morava aqui, falavam que eu tinha sotaque nordestino. Do mesmo jeito quando eu vou para Brasília, três dias lá e já me pego falando “velho“, sei que é uma confusão tão grande que me irrita completamente. Por ter sido criada em meio a tantas misturas, acabo nem sabendo quais palavras são meros regionalismos e quais são usadas em todos os lugares do país.

Se tem duas palavras “curitibanas” que eu certamente nunca me sentirei à vontade para falar são as famosas “piá(que seria “garoto”, “menino” e afins) e “vina(que seria salsicha), porque… Bem, que diabos é piá? Quem foi que inventou isso? O que tem a ver? Nunca vou me conformar com o fato de as pessoas falarem isso e vina? Os meninos chamados “Vinícius” que estudaram comigo em todas as outras cidades eram apelidados de vina, não é agradável sequer imaginar a frase “Comerei vina hoje”, não engulo isso. Mesmo. Outra coisa que me irrita é o tal do “Leite quente dá dor de dente“, essa frase era falada por toda a minha família curitibana desde sempre para me mostrar o “Jeito curitibano de falar as coisas“, só que gente… Como me irrita essas pessoas que falam assim. Sério. Pior que quem nunca ouviu essa frase no bom tom curitibano nem vai entender minha indignação, mas ah, é chato. Eu odeio o sotaque curitibano e isso é desde sempre, tanto que quando fiquei sabendo que voltaria a morar aqui a primeira coisa pensada foi “Eu nunca posso deixar de falar porrrrrta. Nunca posso falar vina e nunca posso chamar alguém de piá.”, mas outro dia eu descobri que as vezes chamo as pessoas de “Piá” e gente, isso é total perda de identidade. Sério.

Então eu comecei a pensar sobre sotaques e concluí que todos são irritantes, o menos pior é o mineiro e em segundo lugar o gaúcho, quanto ao resto todos possuem peculiaridades extremamente irritantes. O que ocupa o topo da irritação ao meu ver, porém, é o sotaque paulista e isso é terrível considerando o fato de que eu sonho desde sempre que vou morar em São Paulo quando for adulta. Como poderei sobreviver em um lugar que as pessoas falam de maneira tão irritante, escrota, chata e impossível de ouvir o dia inteiro? Tal indagação tirou várias noites de sono minha, pode ter certeza.

Outro dia estava conversando sobre o assunto com uma prima que é curitibana, não gosta do sotaque dela, mas não mudaria por nenhum outro e estava eu contando que não gosto de sotaques, não quero ter apenas um só, gosto dessa minha capacidade de mudar o modo de falar dependendo do interlocutor e gosto principalmente de usar palavras que as pessoas “comuns” desconhecem, é ótimo usar regionalismos maranhenses perto desses curitibanos que acham que eu estou falando grego, é incrível ver a cara deles. Adoro isso. Então estava contando para a minha prima que a única coisa que aprendi aqui e vou levar para a vida inteira é a palavra “Penal“, porque nunca vou engolir o fato de olhar para aquilo e dizer “Estojo“, penal faz muito mais sentido, sendo que era usado para guardar penas na época que as penas eram as canetas, estojo é muito amplo, sabem? Pode ser estojo de maquiagem, estojo de esmaltes, estojo de ferramentas, estojo de muitas coisas. Estojo é uma palavra que necessita de complemento, já penal não. É explícito que quando você fala “Penal” você não está pedindo por uma caixa de ferramentas, você está pedindo por uma bolsinha que tenha canetas, lápis e afins. Auto-Explicativo. Depois de meia hora expondo minhas opiniões acerca dos artifícios linguísticos e da nossa maneira de falar as coisas, minha prima olha fixamente e me faz a seguinte pergunta “Passatempo para você é o quê?“, eu olho imediatamente e respondo “Bolacha, uai!” e isso faz com que ela ria um monte, então eu fico indignada e digo “Não creio! Nos outros estados tem outro nome para isso?” e ela me conta que todo mundo chama de “biscoito recheado” e não “bolacha recheada” e é exatamente isso que está escrito no pacote. Isso desestruturou todo o meu modo linguístico de ver a vida. Descobri que bolacha não é uma palavra digna, então fiquei naquele grande impasse “Será que agora vou ter que parar de falar bolacha??“, mas logo concluí que não. Afinal, bolacha é bolacha e sempre será bolacha. Quem chama de biscoito é porque é bobo. Qual a graça de falar biscoito? É uma palavra chata. Bolacha é tão mais legal. Só de pensar nessa palavra já imagino um pacote de Passatempo chamando para que eu coma, como é que eu posso mudar agora o nome da comida que me acompanhou a vida inteira? De jeito nenhum. Eu gosto é de bolacha e os biscoiteros de plantão que se danem.

Eis porém que toda essa discussão culmina na aula de Teoria da Voz que tenho no curso de teatro. Para quem não sabe, existe toda uma teoria complexa sobre como manter as cordas vocais em bom estado, como preservar a voz e até como falar certo. Para se dar bem nessa matéria você precisa mudar seus hábitos alimentares, fazer exercícios diários de respiração e vários exercícios de alongamento e aquecimento dos órgãos fonoarticulatórios (boca, língua, bochechas e toda a musculatura envolvida) e esses exercícios dóem. Jamais imaginei que dava para sentir dor de cansaço na região bucal, mas é possível e não é agradável.

Enfim, durante as aulas de Teoria da Voz, além de todos os exercícios, dietas e recomendações, a gente aprende a falar corretamente e eis que a querida professora olha para a minha cara e diz que eu pronuncio errado palavras como “Pente“, “Sapo” e “Dia“. Tudo bem que pode ser por causa do aparelho dentário – que eu infelizmente uso – , pode ser também por ter a mandíbula torta ou algo assim, mas a explicação que eu concordo mais é a de que fiquei tão perdida sobre como pronunciar as coisas enquanto estava aprendendo a falar que isso desestruturou completamente minha capacidade de adaptação lingual. Fora isso, tem o fato de desde sempre eu achar super legal ver a Britney Spears cantando com a língua toda para fora enquanto pronuncia palavras com a letra “L” ou com “Th” e ficar tentando imitá-la o tempo todo. A professora disse que a Britney é o pior exemplo de dicção existente e que ela tem arrepios ao vê-la falar. Ainda não me conformei com o fato de ter feito tudo errado a vida inteira. Agora preciso fortalecer a minha língua e tentar condicioná-la a ficar dentro dos dentes em todas as palavras que eu pronunciar, mas isso é extremamente complicado! Ainda não acredito que normalmente as pessoas falam todas as palavras sem que a língua ultrapasse seus dentes, é impossível para mim! Sorte que estou disposta a tentar, isso é um grande avanço considerando quem estamos falando.

Bem, no fim das contas cá estou eu, repleta de problemas de identidade linguística e agora com problemas para pronunciar as palavras. No dia que eu for para alguma aula e descobrir que sou boa em algo vai chover tanto que as pessoas vão morrer e ninguém vai ficar feliz comigo por ter feito algo certo.  Enquanto esse dia não chega, limito-me a perceber que mesmo após 17 anos de tratamento intensivo para sobreviver à vida em sociedade, estou pouquíssimo preparada. Pelo menos ainda há tempo de tentar reverter a situação. Tomara que eu me mantenha disposta a tentar por bastante tempo ainda!

 

Adendo: Eu adoro sotaques, mas não gosto da ideia de ter apenas um. Gosto de vê-los nos outros, em mim eles devem estar misturados. Os únicos que realmente desgosto são os de paulista e carioca, esses são péssimos em qualquer um.

Por favor, não goste de arroz.

Podes gostar de massas, carnes bovinas, suínas, aviárias e até piscianas, além disso, goste muito de doces, todos os tipos de sobremesas, além de pão de queijo e um pouquinho de café, mas por favor, caro futuro marido, não goste de arroz.

Ínicio de texto um pouco estranho, eu sei, mas era exatamente assim que deveria ser.

Há uma semana meus pais viajaram e deixaram-me sozinha com o meu irmão em casa, com o detalhe que ele almoça fora e eu devo fazer minha própria comida, somente para mim. Nos primeiros dias, alimentei-me de uma comida deixada pela mamãe prontinha na geladeira, esperando apenas para ser esquentada, porém tal comida acabou ficando ruim e enjoativa, fazendo assim com que eu tivesse que explorar meus dons culinários que, bem… Não são tão memoráveis assim. Saí-me muito bem fazendo meus nuggets, isso porque deveria apenas colocá-los para assar, então me deparei com o grande desafio: o arroz. Na teoria era tudo muito fácil, já havia ouvido várias vezes todos os passos para o preparo do mesmo então sem maiores problemas, coloquei os ingredientes na panela e comecei a esperar que ficasse pronto, o detalhe é que eu gosto de mexer as coisas, quer dizer… A primeira comida que aprendi a fazer foi mingau e em resumo, eu deveria colocar as coisas na panela e ficar mexendo eternamente, depois disso veio o brigadeiro, minha especialidade. O segredo do brigadeiro está em mexê-lo direitinho, logo virei craque no preparo do mesmo, então me deparo com o bendito arroz. Aquele grãozinho branco que ficaria de molho na água até amolecer, mas meu instinto “mexa as coisas” não permitiu que eu o deixasse ali intacto, então decidi começar a mexer o arroz. Parei em pouco tempo, pois cheguei à conclusão de que aquilo não era necessário, tarde demais. A água do arroz secou e então concluí que estava pronto, coloquei no meu prato e comecei a comer, o detalhe é que aquilo não era arroz, era como um mingau de arroz, com todos os grãos grudadinhos ali, se eu fosse descendente de japonês, até o apreciaria, mas eu não sou e assim que terminei meu almoço cheguei à conclusão de que precisava me desfazer daquela pequena quantidade de gosma antes de ter que ingerí-la de novo, isso significa que meu lixo está lotado de arroz no momento. A lição aprendida com essa peripécia foi de que não sirvo para fazer arroz, então espero que nunca necessite ser extremamente hábil nesse preparo.

Hoje as coisas foram um pouco melhores, resolvi fazer macarrão. Essa foi a primeira comida que eu resolvi tentar fazer, então já peguei o jeito de fazê-la. Além do macarrão ainda fiz um molho branco que ficou delicioso, foi um almoço memorável e é uma pena que ninguém tenha estado por aqui para prová-lo. A lição aprendida com esse fato e com toda essa coisa de “semana sem pais” foi de que eu não tenho a menor vocação para guiar a minha vida sozinha e isso foi um tremendo baque, porque desde os 13 anos planejo minunciosamente o dia em que abandonarei meu lar, em busca a uma vida autônoma. Percebi que eu tenho 17 anos e sou incapaz de manter toda a louça lavada, a casa limpa, tudo organizado e até de fazer a própria comida. Fiquei com muita vergonha disso, tendo em vista que enquanto estou aqui sendo super-protegida, há pessoas com a mesma idade casadas e com um par de filhos nas costas. Percebi que apesar de tudo sou extrema e realmente ligada à minha família, principalmente à minha mãe. Quando eu viajo e tenho que deixá-la aqui não há grandes problemas, mas quando é o contrário que ocorre, dói um bocado. Mamãe parou de trabalhar quando eu tinha apenas três anos e desde então ela fica comigo o dia inteiro, me ajudando a fazer todas as coisas e fazendo companhia em todos os momentos que estou nessa casa, é extremamente sem graça voltar da escola e não ter ela para conversar comigo, ouvir todas as minhas histórias e deixar minhas pregas vocais trabalharem. O problema é que além de toda essa carência que a falta dela automaticamente acarreta, há ainda todos esses trabalhos domésticos a serem feitos. Mamãe sempre diz trabalhar muito nessa casa e sempre está super cansada, as vezes até estressada e durante a minha vida inteira eu apenas olhava e dizia “Pare de ser tão dramática” e agora que estou aqui sozinha, teoricamente tendo que fazer todas as coisas que ela faz todos os dias e eu sequer percebo, descobri que são realmente trabalhos muito cansativos, chatos e até mesmo estressantes. Finalmente entendi que a vida dela não é tão fácil assim e isso fez até com que eu começasse a cogitar a hipótese de ser um pouco menos cruel. Ao mesmo tempo, fico irritada com isso, porque se eu não sei fazer arroz, ou fico cansada só por ter que lavar a louça três vezes ao dia, arrumar as camas, manter a sala em ordem e cuidar das roupas é porque ela nunca realmente permitiu que eu fizesse tais coisas. Quer dizer, desde sempre ela tem um cuidado extremo comigo, porque tenho várias doenças “de velho” e isso significa que não posso fazer esforços físicos e tal, mas ainda acho que ela tinha que ter deixado as minhas roupas no chão ao invés de guardá-las no guarda-roupas, assim eu seria obrigada a fazer isso e a valorizaria um pouco mais. Sei lá, toda essa coisa de ficar uma semana jogada ao relento me fez repensar grande parte do meu modo de comportamento dentro dessa casa, me fez dar valor à minha mãe, muito mais do que eu sempre dei, se é que isso é possível.

Então, o que fica para o futuro é que não posso me casar com alguém que goste muito de arroz e que não posso super-proteger meus filhos demais e para o futuro próximo fica o fato de que se eu não passar no vestibular no final desse ano, preciso de um semestre num intercâmbio, nem que seja na casa de um parente, só para aumentar um pouco a minha noção de vida e realidade, porque se (Deus me livre) alguma coisa ruim acontecer à minha mãe, ficarei completamente perdida no mundo e isso certamente não é bom.

Quanto a você, se gostas de bolos e brigadeiro, seja bem vindo ao meu universo gastronômico e, se for corajoso, ofereça-se para provar alguma de minhas “delícias“.