O Dilema da Prática

Fazer Ciências Sociais é ter que conviver achando o universo errado o tempo inteiro e se sentir impotente e retardado ao perceber que saber os erros do universo não te torna apto a consertá-los. Foi isso que meu amigo resolveu falar pra mim através de um vídeo enviado pelo Whatsapp, na ocasião em questão ele estava chateadíssimo por ter gastado o resto do seu salário em um livro que ele não ia poder ler naquele momento e que foi caro e que ele não precisaria ter comprado. A indignação consistia no fato de a gente estudar o fetichismo da mercadoria  e ainda assim ser atingido por ela, diariamente, o tempo todo.

Compadeci-me com a causa e embarcamos em uma imensa conversa filosófica para concluirmos o que eu disse na primeira frase desse texto: saber que a coisa existe não nos torna aptos a lidar com ela. Esse é um conceito aplicável às mais diversas áreas da vida e que tem me atormentado horrores. Nossa conversa, porém, me fez tentar agir contra o fetichismo da mercadoria, esforçando-me para comprar só o que acho estritamente necessário e sem ficar com frescuras.

Aí fomos comprar absorvente. Eu e meu irmão, no mercado. Legal como sou, falo “não precisa ir junto, você vai se sentir desconfortável”, sendo que quem se sente desconfortável com essas coisas sou eu, porque nada nunca será mais íntimo que meus absorventes e ter essa intimidade quebrada por alguém que não entende o funcionamento da coisa não me agrada. Encarando a prateleira imensa com diversas marcas, cores, funcionalidades e opções, fui procurar aquele que eu sempre uso. Porque, pra quem não sabe, assim que a mulher menstrua ela passa pela busca por seu absorvente ideal e depois que encontra não quer saber de mais nenhum. E eu lá, procurando e procurando e procurando e lendo as embalagens das novidades e pegando um pacote pra cada ocasião e meu irmão solta “pega esse, vem 32 pelo preço de 28, bem mais barato, pega e vamos”.

Só que não é assim que funciona. Não é. E eu desisti dessa coisa de tentar colocar em prática todas as teorias que eu aprendo, porque isso vai me deixar mais maluca do que eu já sou e porque, pelo amor de Jesus Cristo – se é que ele existiu – se eu não puder escolher nem o meu absorvente mais, o que eu vou poder fazer nessa vida? Falei pra ele que não é assim que funciona e que eu não queria aquele tipo de absorvente, então peguei o que eu queria – meu amado absorvente interno – e ele solta um “mas por que esse? é mais caro” “hm… porque não precisa trocar com tanta frequência, não incomoda, você nem percebe que tá menstruada e não suja de sangue quando vai fazer xixi” “ah e qual a graça de estar menstruada então?”… era pra ser engraçado?

Engraçado é eu encarar algo que acontece com todas as mulheres do mundo como se fosse “assunto proibido” para meninos, porque fui ensinada a nunca conversar sobre isso com ninguém a não ser minha mãe e minhas melhores amigas. Engraçado é eu aprender que há toda uma indústria querendo nos conduzir a comprar coisas fulas que aparentemente nos completarão e na verdade não farão diferença alguma para nosso vazio interior. Engraçado é existir uma prateleira imensa com produtos semelhantes, mas com micro diferenças que só quem os usa percebe e com nomes bizarros e todo tipo de “chamariz” para compra possível. Engraçado é saber que talvez o que era “32 pelo preço de 28” fizesse o mesmo efeito que o que eu gosto, mas não pude me dispor a tentar. Porque era muito mais legal ter um pacote pra cada ocasião, com cores, nomes e funcionalidades distintas. Porque hoje em dia até menstruar me deixa neurótica e insana pensando no quão capitalista, alienada e enganada eu sou. E ao mesmo tempo me faz mandar um “foda-se” e continuar comprando o que estou afim. Tio Marx que me perdoe, mas acho que sou um caso perdido.

E eu que só deixei meu pai saber que menstruei quando tive dezesseis anos, acabo de descobrir que essa é uma palavra muito divertida e estou com vontade de fazer que nem a Summer de “500 Dias com Ela” e sair gritando isso num parque.

Abrindo o Fecho

Eu sempre fui péssima em abrir fechos de sutiãs. Sempre fui péssima em tudo que envolve sutiãs, diga-se de passagem.

Eu tinha sete anos e ia na casa das minhas amigas ouvir Britney Spears escondida enquanto tentávamos dançar como ela. Uma das meninas sempre pegava os sutiãs da mãe, colocava e distribuia pras outras, porque “a Britney tem peitos, também temos que ter!” e eu nunca colocava o sutiã. E dizia “eu não quero ter peitos” e elas diziam “mas toda menina tem que querer ter peitos!” e eu ficava emburrada e ia pra casa desolada imaginando que um dia talvez eu tivesse peitos.

A minha relação com os peitos foi muito proveitosa, não há como negar. Mamãe tinha muito leite e eu mamei abundantemente até dois anos de idade, então enjoei e comecei a fazer birra e ela parou de me dar leite e começou a doar pro resto do mundo. Depois disso, perdi o contato com aquele punhado de pele da mamãe, tendo-o visto nela e em todas as outras mulheres da família inúmeras vezes porque eu detestava tomar banho sozinha. Não tinha a noção de que um dia aquilo faria parte de mim e quando eu descobri isso, fiquei chocada.

Lembro de me olhar no espelho, me imaginar com peitos e começar a chorar. Pensando que se algum dia aquilo acontecesse comigo, seria terrível. Não é que eu ache feio qualquer pessoa ter peito, eu não me importo com os peitos alheios, só não os queria em mim. A simples ideia de que isso pudesse ocorrer me atormentava horrores e quando eu cheguei na puberdade tudo que conseguia pensar era “por favor, que eu não tenha peitos” e, bem, meu desejo foi realizado e eu sou absurdamente feliz com isso.

Só que não ter peitos não faz com que você se liberte do fecho do sutiã. Porque usar sutiã não tem nada a ver com ter peitos, pelo menos não na cultura brasileira a qual estou inserida. Aqui as pessoas usam sutiã para disfarçar o mamilo, porque mamilo aparecendo é tão chocante quanto andar de saia sem calcinha. É absurdamente deplorável, julgável e reprovável. Então, a partir do momento em que os mamilos das meninas começam a se desenvolver, elas são coagidas a usar sutiã.

“Vamos comprar sutiã, filha!” “Pra que, mãe?” “Todas as meninas da sua idade usam… é pra não aparecer os peitinhos no uniforme”

E todas nós caímos nessa conversa. E ganhamos sutiãs bonitinhos, fofinhos, aparentemente confortáveis e podemos ir pra escola nos sentindo mais mulheres, porque sutiã é coisa de mulher de verdade e a partir disso é como se a gente de fato tivesse crescido. E nunca mais paramos de usar sutiã. Os seios crescem um pouquinho e lá vamos nós comprar de um número maior, uma cor diferente, estampa mais bonitinha e acabamos gostando da coisa, ela se torna tão natural quanto usar calcinha e ninguém nunca pensa em qual sua funcionalidade, simplesmente compra e usa.

Só que quando você não tem peitos, comprar sutiã é altamente torturante. Porque não existe um que seja do tamanho perfeito, sempre vai ficar faltando pano nas costas ou sobrando bojo e não importa o quão coloridos e versáteis eles pareçam, eles sempre vão te machucar. Usar sutiã, caros colegas, é uma tortura. É aquela coisa terrível de se sentir presa o dia inteiro por uma coisa que você não faz ideia do motivo para usar, porque pra quem tem peitos ele é super útil! Ele levanta, deixa no lugar e ajuda a distribuir o peso, fazendo com que as costas não doam, é altamente necessário! Pra quem não tem peitos, não serve pra nada. Não tem nada pra levantar, não tem peso nenhum. Por favor, deixem meus mamilos em paz.

E daí cá estou eu, dezenove anos na cara, mais de dez sutiãs na gaveta. Cada um com um modelo e cor e tamanho diferentes, nenhum sendo confortável o bastante para me fazer querer usar o dia inteiro. Sem saber como lavar aquela coisa de um jeito que não estrague e que limpe de verdade e sempre tendo que pedir ajuda pra mãe. Sem habilidade para abrir ou fechar o maldito fecho, sendo obrigada a colocar a coisa do mesmo jeito que a minha vó colocava, ou seja, abrindo e fechando com ele virado pra frente e tendo como única habilidade no quesito “sutiã” o ato de tirá-lo. Porque é a única coisa que eu faço. Porque eu chego em casa e antes de tirar as meias e o sapato vou logo tirando o sutiã daquele jeito que não precisa tirar a roupa primeiro, ou no máximo eu abro ele e deixo ali só pra constar. Porque machuca, dói, aperta, prende, é aquela coisa que eu nunca esqueço que estou usando, não é orgânica à minha pessoa e, AI. Cansei.

Cansei. É isso. Simples assim.

Eu conheço gente que não usa cueca pelos mesmos motivos que eu detesto usar sutiã, só que, por favor, não usar cueca é muito mais problemático, mas como os terceiros não percebem a falta da cueca, ninguém reclama. Só que todo mundo percebe a falta do sutiã, então todo mundo automaticamente julga, cochicha, reclama, intervém e eu decidi lutar contra isso. Romper esses grilhões, rasgar essas amarras e abrir esse fecho. Eternamente. Decidi que só vou usar sutiã quando eu me sentir altamente desconfortável em alguma roupa sem ele – o que acontece as vezes, porque há roupas com costuras no peito que coçam e nesses casos até sutiãs são mais confortáveis – e em todas as outras ocasiões ficarei sem.

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E se você for dizer “Ai, mas é sensual e você já não tem peitos, se não tiver sutiã ninguém vai querer você” eu vou responder que “se a pessoa me quiser ou não baseando-se nas roupas que eu uso ou não, é um babaca tão grande que prefiro manter distância”.

Puzzle

Se minha vida tem um lema é o do não sufocamento. Nem é algo que inventei ou que me forcei a crer em, simplesmente aconteceu. Morar em quatro cidades diferentes até os dez anos e estudar em oito escolas diferentes até os doze fez de mim uma pessoa efêmera. Daquelas que passa pela vida das pessoas, mas raramente permanece.

Não sou de estabelecer laços fortes com os outros, sempre que vejo que me entreguei demais vou logo me afastando. A ideia de que alguém além de mim vai ter mais controle sobre a minha vida ou o meu ser do que eu mesma me angustia. E sim, eu sei que não tenho controle sob muitos aspectos da minha vida, seja porque devo obedecer à uma constituição, ou pelo simples fato de ter pais e morar com eles. Sempre gpstei de pensar como quiser e de poder agir por conta própria.

Minhas amizades mais duradouras contam agora sete anos e eu realmente não sei como ainda sou amiga de tais pessoas, a gente cresceu tanto, mudou tanto, mas passou por tanto junto que alcançamos um status quo de conhecimento mútuo e compreensão incapaz de desaparecer. Só que uma não manda na outra, não influi em nada na vida da outra, a gente conversa sobre o que quer quando quer e se vê quando dá, sabendo sempre que quando precisarmos a outra estará ali, sabendo que a gente se ama.

Acho que essa é a diferença: saber que se ama.

Porque quando a gente sabe que ama alguém não precisa ficar dizendo isso toda hora ou marcando presença na vida da pessoa o tempo inteiro, quando a gente tem uma importância mútua a relação torna-se tão necessária que o rompimento é praticamente impensável.

Eu sinto falta de me importar com pessoas novas. De conseguir imaginar um futuro distante em que nós estaremos comprando sabão em pó no supermercado e discutindo qual marca é mais eficaz.

Meus laços afetivos andam muito fracos. Não consigo mais criar um elo duradouro e eficaz. Começo tudo prevendo como será o fim e encaminho as ações para que esse fim de fato ocorra.

Por mais feliz e realizada que eu esteja com o efêmero, sinto falta da sensação de eternidade, do preenchimento que ela causa. Tudo anda muito superficial e eu me conheço o suficiente pra saber que uma hora o raso me cansa e quando não consigo mergulhar, simplesmente procuro outras águas. Sei que, querendo ou não, a história termina com eu reclamando por não saber me relacionar com pessoas.

Não consigo ser sincera ou permissiva. Não consigo abrir-me e permitir que os outros conheçam o meu todo. Apresento pequenas partes de mim para as pessoas e ninguém consegue juntar minhas peças. Sou um quebra-cabeça insolúvel. E sustentar todas essas máscaras me cansa as vezes. E eu queria que alguém me solucionasse e mostrasse a saída para este grande labirinto em que me encontro.

Outras vezes eu penso no quão legal deve ser a normalidade. Os anseios comuns. O desejar um namorado que vire seu marido e te dê filhos, um emprego de sucesso e uma casa de campo com cachorros no quintal e um belo jardim. Mas não consigo me imaginar presa a pessoas, empregos ou qualquer coisa. Sou aquele filho que cresce, vira pássaro, quer voar e não se contenta com uma gaiola, mesmo que seja grande.

Não quero uma vida comum, não quero ter pensar na minha vida, planejá-la, quero apenas deixá-la acontecer, dia após dia, como uma grande odisseia.

Prevejo anos de anseios, angústias, questionamentos, decepções, buscas, aceitações e peças e mais peças espalhadas em lugares indevidos à espera de alguém que se digne a juntá-las sem que se assuste demasiadamente.

Por que é que as pessoas não simplesmente dançam?

Cansada dessa vida repleta de gente séria demais que não sabe aproveitar a efemeridade das coisas.

Rehab.

A vida humana é um vício” foi o que eu li por aí outro dia e me fez perceber que, de fato, todos nós somos cercados por vícios. Eu, por exemplo, já tive a fase de vício por esmaltes, na qual cheguei a passar um mês almoçando bolacha recheada para sobrar mais dinheiro para comprar mais vidrinhos. Tenho uma coleção enorme até hoje que quase não os uso e juro que algum dia eles vão vencer e estragar e eu vou olhar e ficar chateada por ter gasto tanto tempo e dinheiro com uma coisa tão banal. Quero dizer, sim, tenho vidros raros, tenho cores bonitas, tenho habilidade, mas não sinto mais o que eu sentia antes. Pintar a unha virou tão banal quanto tomar banho.

Aliás, isto me lembra da época em que eu era viciada em tomar banho. E me lembra também que depois que o vício fica muito intenso e a gente perde o tesão pela coisa ela fica tão banal e sem graça que dá até vontade de não ter que fazer. E me lembra também de todas as vezes que eu simplesmente não tomo banho. Por preguiça, por frio, por falta de vontade. Porque não me parece mais divertido. É a mesma razão para eu passar várias semanas sem cortar ou pintar as unhas. Se me dissessem anos atrás que isso me ocorreria eu jamais acreditaria.

Eu tenho um bom controle sobre a maioria dos meus vícios. Um bom auto controle, acredito. Quero dizer, quando vejo que algo está ficando intenso demais pulo fora. Quando vejo que estou me tornando dependente e que o nível de vontade aumenta em cada vez que entro em contato com a coisa, simplesmente paro de fazê-la. Foi assim que eu consegui parar de jogar Candy Crush Saga antes de chegar na fase 100. Claro que o fato de eu ter empacado influenciou bastante, mas chegou num ponto em que eu simplesmente não aguentava mais rir das minhas desventuras naquele jogo e eu comecei a pensar em todo o tempo desperdiçado ali e simplesmente parei. Nem bloqueei, as vezes apareço lá para dar vidas aos amigos, mas saí antes que ficasse muito dependente.

Então surge o vício em pessoas, que na verdade é chamado por alguns de “amor”. Eu deixei de acreditar em “amor” porque vivi algo semelhante ao que todos dizem ser isso e foi tão drástico e destruidor que decidi que jamais sentiria de novo. Por isso, toda vez que sinto algo semelhante vou logo chamando de vício. Mentira, nem chamo. Minha saída – e tem funcionado muito bem – foi justamente parar de dar nome às coisas. Sentimento a gente sente, não tem motivos para nomeá-los. É por isso que eu não tenho vergonha de sair dizendo que amo todo mundo, porque me transmitiu algo de positivo, já amo. É assim que funciona. Com o vício é diferente. Porque o vício nem sempre é bom. É aquela coisa arrebatadora e ardente que faz o coração pular e as veias ferverem e que nos deixa simplesmente com vontade. Vontade de fazer coisas que talvez nem achassemos ser capazes de. E eu vou lá e faço. Sem medo ou vergonha. Só que depois o vício aumenta e atinge o nível que eu sei que tornar-me-ei dependente por um bom tempo. Eu, que odeio sentir-me presa aos outros, afasto-me. E a abstinência é terrível.

Por isso existe o chocolate. Aquela substância criada pela divindade mais superior do universo das divindades, que é capaz de te acalmar, alegrar e compreender. Que está sempre do seu lado e que te consola dizendo que sim, você é forte o bastante pra desvincilhar-se de teus outros vícios. Só que mesmo assim, você precisa de mim. Do chocolate, no caso. Porque por mais livre que a gente queira ser, por mais que a gente batalhe por esse direito de poder fazer o que a gente quiser, sempre haverá algo que mensurará esta nossa liberdade de alguma forma. No meu caso é o chocolate. Porque até do Spotted e do Facebook eu consigo ficar livre. Até longe das minhas mais de 100 sms’s diárias, mas eu nunca, jamais, consigo ficar longe dele. Não importa a forma ou intensidade que se apresente, o que importa é que esteja lá. E ele sempre está. Porque o chocolate é onipresente, onisciente, oni tudo. É aquela coisa deliciosa que faz tua boca tremer, as bochechas formigarem, o cérebro surtar, coração disparar, calor aparecer e de repente você está lá, largado no mundo. Sofrendo com aquela efusão de maravilhas que nada além de cacau e açúcar poderiam te proporcionar. Você, ali, independente de sua idade, deitado na cama, com cara de morto, mas com a cabeça a mil por hora. Você ali, com vontade de sair pulando, cantando e dançando, sem nem lembrar do dia terrível que acabou de ter. Você ali agradecendo a todas as entidades cósmicas do universo por terem te proporcionado aquele momento maravilhoso de cacau derretendo na sua boca e molhando sua língua enquanto você a movimenta e saboreia e entra em êxtase. Você ali, entregue. Naquele momento em que toda sua existência resumir-se-ia a um pedaço de chocolate em sua língua. Naquele momento em que nada mais seria suficiente. Em que nada mais importa. Em que todas as pessoas, jogos, esmaltes, sites e cores que você tanto lutou para esquecer parecem meras sombras de uma realidade que não te pertece mais. Porque naquele momento, caros leitores, você não se sente infinita. Naquele momento você se sente única, realizada, feliz. Extremamente. Naqueles segundos de desejo extremo sendo realizado é como se sua vida de fato fizesse sentido e a partir dali você quer mais. Mais chocolate. Mais vida. Mais vícios. Mais alegrias. Mais momentos como aquele. Porque depois que você encontra o paraíso, é impossível contentar-se com o comum.

São dezoito anos viciada em algo que eu nem sei como é feito. Dezoito anos em que eu como muito. Dezoito anos em que desenvolvi habilidades incríveis de aproveitar as sensações chocólatras por uma quantidade de tempo prolongado e com uma intensidade mais bem rentável. Foram anos e anos de luta externa para me desvincilhar de tudo isso. Anos e anos de luta interna também. Foram influências de diversos lugares da minha mente dizendo para que eu parasse. Para que eu conseguisse comprar uma barra de chocolate e fazê-la durar por mais de dez minutos. E eu consegui. Enfiei-me em minha própria reabilitação, batalhei com minhas próprias patas e fiquei uma semana sem comer nada que contivesse cacau. E eu quase morri. A tristeza inundou o meu ser, a vida ficou tão sem graça. Eu pensava em comer e logo desistia porque qual é a graça de comer salgado quando não tem nada que envolva chocolate para te alegrar no final? Emagreci tudo que engordei a vida inteira com meus quilos e quilos da melhor substância do mundo. Irritei-me. Desisti.

Porque na vida a gente pode se privar de muitas coisas, mas a gente sempre lutou pra ser livre. Eu sempre lutei pra ser livre. E é com a minha liberdade de escolha que decido ficar com o chocolate. O melhor dos meus vícios já experimentados até agora. O único que nunca me decepcionou. Bem vindo à minha vida novamente e, por favor, desta vez não permita que eu te expulse. Porque se eu preciso de algo para apoiar a minha existência em, que eu possa escolher uma coisa gostosa.

Mais Calor no Mundo

Calor. Uma sensação que eu usualmente detesto, mas que aprendi a gostar desde que te conheci.

Calor porque você é sempre quente, mesmo que esteja gelada, afinal, bons corações nunca se gelam.

Calor porque é o que eu sinto sempre que te dou um dos abraços mais gostosos do mundo ou te encho de carinhos. Porque é o que emana de mim sempre que consigo conversar sobre o que eu quiser.

Calor porque é uma sensação boa quando passada na dose certa, pela pessoa certa. Porque eu encontrei a pessoa certa. Tão casualmente que eu nem acredito.

Calor porque o Sol é tão bonito que nunca fica  feio, que nem você.

Calor porque ninguém é igual a ninguém, mas é tão bom quando a gente encontra gente que é um pouquinho parecido e que no que se difere ainda é capaz de respeitar e entender a diferença. Porque é tão bom a gente poder conversar o que der na telha com a certeza de que não será um problema. Porque é tão lindo continuar a ler literatura mesmo em meio à tantos textos acadêmicos e porque desenhos e joguinhos na aula são tão necessários quanto prestar atenção.

Calor porque rima com amor e eu nunca vou conhecer alguém que emane imensamente tanto amor quanto calor tão bem quanto você. Porque até o trabalho e a matéria mais chata do mundo fica melhor com você por perto. Porque o mundo inteiro fica melhor com um de seus sorrisos, ou um pedaço do seu lanche.

Calor porque eu estou sentindo tanto frio sem você por perto de mim todo dia, como costumava ser. Porque por mais que haja outras fontes de calor no mundo, nenhuma delas a carrega no nome, como você faz.

Calor porque eu sei que tive sorte, muita sorte, de em meio a tanta gente estar justo na tua frente na fila do xerox no primeiro dia de aula. Porque eu sei que tive muita sorte de poder te chamar de amiga. De poder te considerar a melhor amiga de faculdade que qualquer pessoa possa vir a ter. Calor porque eu tenho certeza de que não importa o tempo e a distância eu sempre vou poder contar com os seus olhinhos brilhantes, com a sua maravilhosa companhia para todos os sambas da vida e com o seu imenso coração, disponível para se unir ao meu. Porque eu sempre vou ter o seu cabelo para fazer carinho e os seus braços para abraçar. Porque apesar de você estar iniciando uma nova etapa na sua vida, fazendo com que o meu amanhã seja um dia completamente diferente, eu sei que a gente não precisa estar junto pra estar perto. Porque você é quente e calor a gente sente de longe.

Hoje a gente aprendeu que quando deixa de gostar das pessoas elas morrem aos pouquinhos, olha, você nunca vai morrer pra mim. Nunquinha. Porque sempre que eu sentir calor eu vou lembrar de você. Assim como sempre que eu ver lancy, pão de queijo, palavras cruzadas e roupas bonitas.

Calor porque muita gente tem amigos e eu tenho poneis, oompa loompas, unicornios, flores, peixes e diversas outras coisas, mas também tenho o mais essencial, o calor.

Então é isso, mais calor pro mundo porque é isso que o mundo precisa: manter-se aquecido. Por dentro e por fora. Porque se tem uma coisa essencial que você me ensinou é que além de quentura calor também é sobre fofura.

Muito obrigada por existir, desculpa o texto aleatório e por favor tire uma foto comigo algum dia, eu sei que a nossa beleza junta é demais pro mundo, mas você sabe que eu adoro desafios!