Abrindo o Fecho

Eu sempre fui péssima em abrir fechos de sutiãs. Sempre fui péssima em tudo que envolve sutiãs, diga-se de passagem.

Eu tinha sete anos e ia na casa das minhas amigas ouvir Britney Spears escondida enquanto tentávamos dançar como ela. Uma das meninas sempre pegava os sutiãs da mãe, colocava e distribuia pras outras, porque “a Britney tem peitos, também temos que ter!” e eu nunca colocava o sutiã. E dizia “eu não quero ter peitos” e elas diziam “mas toda menina tem que querer ter peitos!” e eu ficava emburrada e ia pra casa desolada imaginando que um dia talvez eu tivesse peitos.

A minha relação com os peitos foi muito proveitosa, não há como negar. Mamãe tinha muito leite e eu mamei abundantemente até dois anos de idade, então enjoei e comecei a fazer birra e ela parou de me dar leite e começou a doar pro resto do mundo. Depois disso, perdi o contato com aquele punhado de pele da mamãe, tendo-o visto nela e em todas as outras mulheres da família inúmeras vezes porque eu detestava tomar banho sozinha. Não tinha a noção de que um dia aquilo faria parte de mim e quando eu descobri isso, fiquei chocada.

Lembro de me olhar no espelho, me imaginar com peitos e começar a chorar. Pensando que se algum dia aquilo acontecesse comigo, seria terrível. Não é que eu ache feio qualquer pessoa ter peito, eu não me importo com os peitos alheios, só não os queria em mim. A simples ideia de que isso pudesse ocorrer me atormentava horrores e quando eu cheguei na puberdade tudo que conseguia pensar era “por favor, que eu não tenha peitos” e, bem, meu desejo foi realizado e eu sou absurdamente feliz com isso.

Só que não ter peitos não faz com que você se liberte do fecho do sutiã. Porque usar sutiã não tem nada a ver com ter peitos, pelo menos não na cultura brasileira a qual estou inserida. Aqui as pessoas usam sutiã para disfarçar o mamilo, porque mamilo aparecendo é tão chocante quanto andar de saia sem calcinha. É absurdamente deplorável, julgável e reprovável. Então, a partir do momento em que os mamilos das meninas começam a se desenvolver, elas são coagidas a usar sutiã.

“Vamos comprar sutiã, filha!” “Pra que, mãe?” “Todas as meninas da sua idade usam… é pra não aparecer os peitinhos no uniforme”

E todas nós caímos nessa conversa. E ganhamos sutiãs bonitinhos, fofinhos, aparentemente confortáveis e podemos ir pra escola nos sentindo mais mulheres, porque sutiã é coisa de mulher de verdade e a partir disso é como se a gente de fato tivesse crescido. E nunca mais paramos de usar sutiã. Os seios crescem um pouquinho e lá vamos nós comprar de um número maior, uma cor diferente, estampa mais bonitinha e acabamos gostando da coisa, ela se torna tão natural quanto usar calcinha e ninguém nunca pensa em qual sua funcionalidade, simplesmente compra e usa.

Só que quando você não tem peitos, comprar sutiã é altamente torturante. Porque não existe um que seja do tamanho perfeito, sempre vai ficar faltando pano nas costas ou sobrando bojo e não importa o quão coloridos e versáteis eles pareçam, eles sempre vão te machucar. Usar sutiã, caros colegas, é uma tortura. É aquela coisa terrível de se sentir presa o dia inteiro por uma coisa que você não faz ideia do motivo para usar, porque pra quem tem peitos ele é super útil! Ele levanta, deixa no lugar e ajuda a distribuir o peso, fazendo com que as costas não doam, é altamente necessário! Pra quem não tem peitos, não serve pra nada. Não tem nada pra levantar, não tem peso nenhum. Por favor, deixem meus mamilos em paz.

E daí cá estou eu, dezenove anos na cara, mais de dez sutiãs na gaveta. Cada um com um modelo e cor e tamanho diferentes, nenhum sendo confortável o bastante para me fazer querer usar o dia inteiro. Sem saber como lavar aquela coisa de um jeito que não estrague e que limpe de verdade e sempre tendo que pedir ajuda pra mãe. Sem habilidade para abrir ou fechar o maldito fecho, sendo obrigada a colocar a coisa do mesmo jeito que a minha vó colocava, ou seja, abrindo e fechando com ele virado pra frente e tendo como única habilidade no quesito “sutiã” o ato de tirá-lo. Porque é a única coisa que eu faço. Porque eu chego em casa e antes de tirar as meias e o sapato vou logo tirando o sutiã daquele jeito que não precisa tirar a roupa primeiro, ou no máximo eu abro ele e deixo ali só pra constar. Porque machuca, dói, aperta, prende, é aquela coisa que eu nunca esqueço que estou usando, não é orgânica à minha pessoa e, AI. Cansei.

Cansei. É isso. Simples assim.

Eu conheço gente que não usa cueca pelos mesmos motivos que eu detesto usar sutiã, só que, por favor, não usar cueca é muito mais problemático, mas como os terceiros não percebem a falta da cueca, ninguém reclama. Só que todo mundo percebe a falta do sutiã, então todo mundo automaticamente julga, cochicha, reclama, intervém e eu decidi lutar contra isso. Romper esses grilhões, rasgar essas amarras e abrir esse fecho. Eternamente. Decidi que só vou usar sutiã quando eu me sentir altamente desconfortável em alguma roupa sem ele – o que acontece as vezes, porque há roupas com costuras no peito que coçam e nesses casos até sutiãs são mais confortáveis – e em todas as outras ocasiões ficarei sem.

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E se você for dizer “Ai, mas é sensual e você já não tem peitos, se não tiver sutiã ninguém vai querer você” eu vou responder que “se a pessoa me quiser ou não baseando-se nas roupas que eu uso ou não, é um babaca tão grande que prefiro manter distância”.

Cabelos Coloridos

Desde que pintei o cabelo muita gente tem se surpreendido como fato de eles continuarem brilhantes e sedosos como se jamais tivessem sido descoloridos, além disso venho sido frequentemente surpreendida com perguntas sobre manutenção e outros tipos de dicas, assim sendo, resolvi fazer um manual de dicas para cuidados com cabelos coloridos, e por coloridos digo cabelos previamente descoloridos, ou seja, o tipo mais danificado. Com esse manual pretendo ensiná-las a manter os cabelos lindos, não importa a cor que eles sejam. Ah e sintam-se honrados, caros leitores, pois eu nunca contei nada disso para ninguém! Não saiam por aí espalhando meus segredos hein!

Passo 1 – Lavagem dos Fios

Como o normal, inicie o processo com um shampoo. Eu utilizo o da foto, mas creio que qualquer outro para cabelos danificados seja capaz de obter o mesmo resultado.

Coloque uma quantidade razoável do produto nas mãos e massageie os fios, dando ênfase ao coro cabeludo. Se considerar necessário, reaplique o produto. É normal que saia tinta na água neste momento.

Passo 2 – Condicionando

Condicionar cabelos coloridos é o passo mais importante da lavagem e uma dica importantíssima é misturar um pouco de condicionador com tinta em um outro recipiente. Por exemplo, esse é o condicionador que eu uso.

       Mas misturei-o com a tinta da cor que está no cabelo no momento dentro desse pote de vidro e uso o conteúdo deste pote somente. A tinta no condicionador vai ajudar a manter o tom e tintar coloridas têm um algo poder de hidratação, então pode ficar tranquila que esse processo não estragará seu cabelo.

Lembre-se de aplicá-lo em todo o comprimento dos fios e em quantidade suficiente para que todos fiquem macios. Aproveite pra desembaraçar o cabelo, pois ele provavelmente estará bem mais fino que o normal.

Passo 3 – Para Pentear

Após enxugar os cabelos com uma toalha macia, sem torcê-los  ou esfregá-los demasiadamente e antes de pentear sugiro que aplique um leave in. É isso que garante o brilho e a maciez.

Mas cuidado! Leave in não é creme para pentear, então não lambuze o cabelo com ele. O ideal é usar uma pequena quantia da metade para baixo do cabelo, para selar as pontas e impedir pontas duplas ou semelhantes.

Após a aplicação deve-se pentear o cabelo de preferência com um pente de madeira e segurando os fios para não propiciar a quebra.

Certo, esses passos devem ser cumpridos durante todas as lavagens, mas não são suficientes. Sabe-se que será necessário fazer um retoque na cor, em média quinzenalmente. Para isso utilizaremos:

1 – Luvas

 A preferência é por luvas de vinil, mas caso não as encontre utilize de plástico mesmo. Elas são importantes porque a tinta demora um pouco para sair da pele. E veja bem, isso já é uma dica para não sair manchando as orelhas e afins!

2 – Pote Plástico e Pincel

Eu usava um pote de margarina, mas um dia surgiu esse transparente e achei melhor porque dá pra ter certeza da cor da tinta, mas o pote não importa muito. Pincel para pintar cabelos pode ser comprado em qualquer loja de cosméticos e em algumas farmácias também.

3 – Pente

O pente fino é usado nessa etapa para separar as mechas de cabelo, o que facilita bastante na hora do retoque.

4 – Touca de Banho

A touca de banho serve para ser colocada no cabelo após a aplicação da tinta, pois se abafada a cabeça a tinta funciona mais rápido e com maior eficácia.

5 – Tinta

Eu uso Tec Italy porque a duração é boa, a cor é bonita, o cabelo fica bom e é a tinta mais barata que eu encontrei, acreditem se quiser! Se você for de Curitiba ela é vendida na Halfi Cosméticos da rua XV. Pretendo testar outras marcas ainda, mas no momento essa é  a que eu considero melhor e recomendo.

Com todos esses produtos você vai vestir a luva, colocar a tinta no pote, separar mechas de cabelo com o pente, aplicar a tinta com o pincel e depois prender o cabelo e colocar dentro da touca. Há tintas que são mais eficazes com o cabelo molhado e outras com o cabelo solto. A tinta que eu uso teoricamente é melhor com o cabelo seco, mas eu prefiro passar o shampoo e depois aplicar a tinta, antes do condicionador. E depois eu nem volto pro condicionador, porque sempre que retoco eu hidrato o cabelo e esse é o próximo passo.

A hidratação é o que mantem os cabelos bonitos de fato, o que dá a vivacidade aos fios e a recomendação é que ela seja feita uma vez por semana com o produto de sua preferência. Eu uso o creme da foto.

Esse creme é muito bom pois possui  óleo de argan que é uma especiaria do Oriente Árabe capaz de maravilhas com relação a hidratação dos fios. Toda vez que aplico o creme sinto como se meus cabelos tivessem acabado de nascer.

Quando eu faço hidratação após o retoque espero uma hora enquanto a tinta age e então enxáguo o cabelo e passo o creme depois coloco-o novamente sob a touca de banho e então uso uma touca térmica como essa  por cerca de quinze minutos e então eu enxáguo o cabelo novamente e seco-o com a toalha, passo o leave in e penteio.

Quando faço a hidratação sem o retoque simplesmente aplico o creme sobre os fios após lavados e condicionados e fico com a touca térmica por cerca de 15 minutos e depois enxáguo normalmente.

É importante ressaltar que cada touca térmica vem com um manual de instruções e ele deve ser cumprido. Eu sempre deixo a tinta por mais tempo do que o recomendado, mas caso você não se sinta seguro para tal não o faça. Sempre descolora o cabelo no cabeleireiro pois é ele quem sabe o produto adequado para os seus fios, o tempo certo de permanência e, principalmente, ele é capaz de evitar que seu cabelo acabe ficando ressecado e quebradiço demais.

O meu salão é esse para quem quiser saber e a minha cabeleireira é a Ju.

Vale ressaltar também que é recomendável cortar as pontas no máximo de seis em seis meses e que cabelos coloridos são bonitos, mas dão trabalho e se você não cuidar direito eles podem se tornar a coisa mais feia que você já fez na vida.

Espero que essas dicas tenham ajudado alguém e quem não se interessou por nada disso corra para assistir minha vídeo resenha sobre “A Culpa é das Estrelas“.

Gente como a Gente

Logo no início do semestre a turma foi informada de que participaria de uma aula em campo, eu fiquei empolgada com a ideia, pois acredito ser muito importante ver na prática tudo que estudamos em teoria. No início imaginei que visitaríamos uma indústria, que é o foco principal dos trabalhos de Marx, mas fiquei satisfeita quando fomos informados de que iríamos a um assentamento. Meu irmão já tinha ido até lá e me disse que eu iria gostar. Esperava encontrar um lugar pequeno e mal organizado, repleto de gente que não estudou por acreditar que a vida camponesa é que é a correta. Acreditava que eles moravam em barracões e que os banheiros seriam sujos. Hoje vejo que tudo que eu achava previamente sobre o movimento, todos os meus pré-julgamentos e pré-conceitos eram condizentes com a imagem que nos é passada pela mídia a respeito daquelas pessoas tão amáveis e queridas.

A viagem foi demorada, mas não o suficiente para que eu pegasse no sono e foi tanto tempo na estrada de terra que não conseguia parar de pensar em como é que alguém era capaz de viver tão “longe da civilização”. Imaginava que para irem à escola teriam que andar tudo aquilo, se quisessem algo do mercado a mesma coisa e fiquei triste em pensar que provavelmente eles não conseguiam ir ao cinema ou ao teatro, coisas que eu tanto amo e não sou capaz de me imaginar sem. Acho que só pelo fato de termos tido a oportunidade de entrar em contato com algo tão diferente da nossa realidade a visita já teria valido apena. Mas valeu apena por muito mais. Ao descermos do ônibus eu já sabia que estávamos onde realmente ocorreu a Guerra do Contestado, esse fato por si só já era incrível. Quando fomos encaminhados para um grande salão e soubemos que aquele lugar existe desde a época da guerra, para mim foi um momento histórico. Eu gosto dessa coisa de pisar onde grandes fatos ocorreram, é emocionante. Mais emocionante ainda foi a palestra nos dada pelo Capitânio Antônio, Seu José e Dona Maria.

Logo de começo o rapaz do setor de comunicação foi animar o ambiente. Tudo que eu pensava a respeito do movimento já começou a mudar ali: eles tinham um setor de comunicação com músicas de animação de palestras! Participei das danças e fiquei com uma das músicas na cabeça por semanas depois da visita. Ela é assim “Só só sai, só sai reforma agrária com a aliança camponesa e operária” e se a música deles já era legal, a palestra então nem tenho como comentar. Sobre o movimento eu aprendi que surgiu em 1984, atrelado à Teoria da Libertação e à Pastoral da terra, da Igreja Católica, baseando-se no Estatuto da Terra de 1964 que afirma “Se a terra não cumpre a função social torna-se passível de reforma agrária”. No século XXI afastaram-se da Igreja elegendo a laicidade do movimento. Atualmente, porém, a terra deve não cumprir seu papel social e o fazendeiro deve ser indenizado, ou seja, o governo deve comprar a fazenda do fazendeiro pelo valor de mercado. Assim sendo quando eles sabem de uma terra que se encaixa nos termos necessários, acampam nela até que a situação se resolva e eles possam a vir a ser assentados. A terra não é dada às famílias, elas recebem apenas um direito de uso, passível de troca, mas não de arrendamento ou venda.

O Movimento surgiu simultaneamente nos três estados da região Sul, sendo no PR criado graças à inundação do Rio Iguaçu, devido à construção da usina de Itaipu, que acabou com a terra de muita gente, deixando-os desabrigados. Para se reerguerem decidiram organizar-se em Movimento Social.

O Movimento vê a luta pela Reforma Agrária como uma luta contra a burguesia e acredita que não se trata apenas de terra, mas sim da manutenção da agricultura familiar e da cultura camponesa vivas, mesmo na era tecnológica em que vivemos. Sua organização hierárquica consiste em uma pirâmide. Na base encontra-se o núcleo ou brigada com os representantes de cada assentamento, no meio encontra-se a brigada de representantes estatais e no topo os representantes nacionais. Em todos os cargos há paridade de gênero. Atualmente há cerca de vinte mil famílias assentadas e seis mil acampadas.

Fiquei impressionada ao saber que lá mesmo no assentamento há uma escola para as crianças e ainda uma universidade! Eles nfrentam o latifúndio do conhecimento, reerguendo a educação camponesa, assim surge a pedagogia do movimento, com uma escola libertária que visa emancipar o conhecimento humano através de uma pedagogia revolucionária, baseada na de outros países já revolucionados por camponeses. Constituem uma rede nacional de escolas autônomas e vinculadas ao estado. O sistema trabalha desde os bebês a pós-graduação chegando até ao doutorado.

Criticam a Revolução Verde decidindo-se pela agroecologia, não reproduzindo o padrão tecnológico usado pela primeira. Com o ensino formularam uma prática de resposta, a Escola Latino Americana de Agroecologia. Até 2000 não havia escolas de agroecologia. As primeiras foram criadas no Paraná. Duas escolas vinculadas ao Movimento de Reforma Agrária, sendo uma lá (a primeira de agroecologia do país) e outra na Venezuela, ambas com caráter de ensino superior, sendo o daqui tecnólogo. A carga horária é integral com aulas teóricas, práticas e ensino da cultura camponesa. O curso dura três anos e meio e os alunos estudam por setenta e cinco dias e trabalha por noventa enquanto realiza pesquisas. O IFPR é o responsável pelo reconhecimento formal da graduação. A Escola Latino Americana de Agroecologia é exclusiva para membros dos movimentos camponeses de toda a Via Campesina (junção de todos os movimentos camponeses da América Latina). Os professores são voluntários. Além da faculdade há a Circunda infantil, a Brigada Chico Mendes dentre outros cursos informais.

O jornal faz parecer que aquelas pessoas são tão bobas e loucas por terra que não sabem nada, que quando eu soube de todo o valor que eles dão para a educação, tive vontade de gravar o que falavam e obrigar o jornal a mostrar. Eles valorizam o aprendizado mais do que a nossa sociedade, a meu ver. Antônio, por exemplo, disse uma frase que me marcou muito e que muitas pessoas da cidade não percebem com a clareza que ele percebe, a frase é a seguinte: “O estudo liberta o ser humano e o país, com estudo o povo consegue a mudança.”.

É incrível como há tanto conhecimento escondido em coisas tão simples, em pessoas tão simples. Eles são tão lindos por dentro, têm tanta coisa para ensinar para a gente que desde o dia 14/05 eu não consigo parar de pensar na injustiça que a televisão faz para com eles. E eles têm noção disso, falaram para a gente várias vezes sobre o poder da mídia. Inclusive a compararam com aquela viseira que se colocam em cavalos, para os impedirem de olhar ao redor, falaram que a mídia é como essa viseira, impede as pessoas de enxergarem o que ela não mostra ou pelo menos de terem outros pontos de vista sobre o que ela mostra.

Depois da palestra fomos conhecer a escola do assentamento, que está sendo expandida. Ela tem cerca de quatro salas e não foi construída para ser uma escola, era uma casa que eles transformaram em escola. Ela começou a funcionar como sendo exclusiva dos assentados, com professores voluntários dali mesmo, mas conseguiu reconhecimento do estado e agora funciona como uma escola estadual rural, com professores da rede estadual de ensino e alguns do movimento. Além das matérias tradicionais são ensinados os valores do movimento e sua história, para que desde sempre os membros saibam do que fazem parte e se motivem a continuar ali. Visitamos também a obra de expansão da escola, que está sendo construída com apoio do governo do estado e vai ter mais salas com melhores condições de ensino e a possibilidade de abranger mais assentados.

Então chegou a hora do almoço e todos foram encaminhados ao refeitório. Lá pagamos a quantia requerida para almoçar (R$10) e fomos nos servir. Tudo que eles comem é fruto de suas hortas, livre de agrotóxicos e qualquer outro tipo de química, por isso tem um gosto diferente dos alimentos comprados no mercado, mas diferente para melhor. Tinha bastante salada, arroz, feijão, carne e suco. O feijão era delicioso e a cuia para servi-lo era curiosamente grande. Depois de comer cada um deveria lavar seu prato em uma das pias disponíveis e isso foi interessantíssimo, pois muitos dos alunos nunca haviam lavado um prato ou pelo menos não tem costume de fazê-lo, mas ali fizeram. Em seguida as turmas foram divididas e cada uma foi conhecer um pedaço do local. Minha turma foi para a casa de uma família, conhecer a horta. Tivemos que ir de ônibus porque era longe, o que prova que o terreno é grande e isso é muito bom, pois quanto maior mais famílias, mais comida boa e mais qualidade de vida e gente contente em ser camponês. Dona Maria foi quem nos guiou e explicou que há uma horta para cada três famílias, todas elas em forma de mandala, ou seja, são circulares e alinhadas com os planetas e com os ventos. Isso ajuda num maior crescimento e qualidade das hortaliças. A irrigação é feita por mangueiras ligadas a um pequeno açude em que são criados peixes. Eles também criam outros animais como porcos, vacas e galinhas, porém não podem vendê-los por não possuírem um abatedouro equipado conforme a regulamentação da ANVISA, no entanto eles podem vender as hortaliças e o fazem. Eles participam do PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) em que cada família vende R$4500 por ano para o governo que distribui os alimentos para instituições sociais. Já chegaram a ajudar catorze instituições em um único mês, pois produzem além do que necessitam para subsistir e com isso veem-se na obrigação de fornecer seu alimento puro para a maior quantidade de pessoas possível. Está para ser aprovado também o PNA em que pelo menos 30% da merenda escolar deverá vir da agricultura familiar.

Quando Dona Maria foi questionada sobre a aquisição de medicamentos, respondeu que eles plantam os medicamentos, ou pelo menos grande parte das plantas que dão origem aos medicamentos e que como a comida deles é orgânica e natural, a quantidade de doenças adquiridas é menor, tendo em vista que grande parte das doenças atuais deriva da ingestão dos agrotóxicos.

Segundo ela as mesmas empresas de agrotóxicos são as que produzem os medicamentos para curar as doenças que eles causam. Fomos também à outra casa em que havia um quintal repleto de árvores frutíferas, o que fez com que os alunos comessem mimosas direto do pé, algo inédito para a maioria. Ao invés de voltarmos ao local de partida, fomos ao encontro da outra turma que estava na Cooperativa do Assentamento. É para lá que as famílias enviam os alimentos que ultrapassam sua subsistência e é onde eles são selecionados e enviados para o PAA. Voltamos então para o refeitório, onde alguns moradores estavam expondo seus feitios, desde bandejas de morango a doce de leite e pães. As mulheres estão até tentando construir uma padaria para aperfeiçoarem seus feitos. Os doces, pães e queijos também não são regulamentados pela ANVISA, mas são muito mais gostosos do que os que compramos no mercado. Eles vendem super barato e ao lado da banca de alimentos havia ainda uma mini livraria que além de livros sobre o movimento, também vendia livros sobre a reforma agrária em si, alguns da autoria de Marx e outros sobre a Revolução Cubana. Havia também produtos do movimento, como bolsas e afins. Para terminar a visita fizemos um grande círculo em que cada um deu sua palavra final, sendo a mais triste feita pelo professor que nos informou que aquela provavelmente seria nossa última aula em campo devido ao fato de os outros professores não considerarem eficazes coisas do tipo. Infelizmente.

Dentre as coisas que me chamaram atenção, vale citar o fato de que eles buscam minimizar ao máximo a diferença social entre homem e mulher, fazendo com que os dois tenham em média a mesma carga-horária de trabalho. O fato de ninguém ter férias, nem os estudantes que quando tem uma pausa escolar devem colocar seus estudos em prática trabalhando na terra. O fato de eles serem realmente ligados a terra, podendo se dizer inclusive que eles são a terra, o que produzem ali. O fato de eles respeitarem a diversidade religiosa, possuindo várias Igrejas e de considerarem a Bíblia como um livro histórico, não simplesmente algo a ser seguido. Achei curioso o fato de eles terem tolerância zero para com drogas tanto legais quanto ilegais, sendo chamada atenção de quem ingere bebidas alcoólicas ou faz uso de algum cigarro. Eles preferem manter a polícia longe e por isso tentam resolver tudo dialogando, o que é bastante interessante e mais inteligente do que a repressão. Interessante também foi saber que, ao contrário do que muita gente pensa, o movimento não é ligado a nenhum partido político, tendo gente que vota em todos os partidos e a predominância dos votos para os candidatos que prometem favorecer mais seus interesses. A consciência deles perante a tudo foi o que mais me impressionou. Dona Maria afirmou que “Jornal só dá o que não presta” e que “O posto de saúde não dá nada, tudo é pago pelo imposto”, o que mostra que eles realmente buscam viver de acordo com o que pensam e creem. A ideia de “latifúndio do conhecimento” e de que “os ricos só o são porque escravizam os pobres, não porque trabalham” são coisas que a maioria das pessoas da cidade jamais teria a capacidade de pensar por si só.

Como Dona Maria disse, eles são gente e não monstro. Fiquei feliz em ter descoberto isso, ao mesmo tempo em que triste por saber que a maior parte da população ainda os vê como monstros. No fim é isso. Ciências Sociais é isso.

Há mil fotos lindas desse dia, mas essa sempre vai ser minha preferida

P.S.: Escrevi esse texto há um mês, mas estava TÃO desanimada com toda essa história de greve que acabei protelando a postagem, porém hoje com a notícia de que o governo finalmente se tocou que há um milhão de pessoas em greve, resolvi postá-lo como forma de comemoração. Há mais fotos a respeito aqui.As fotos publicadas neste texto não foram tiradas por mim, mas não sei quem tirou.

A Grande Descoberta!

(9/17)

Descobri o que estava errado comigo! Sei que não é interessante para ninguém essas filosofias e conclusões, mas estou em uma fase da vida em que preciso escrever tudo para ter real consciência das coisas, é como se eu realmente as compreendesse quando escrevo sobre.

O conflito que estava vivendo entre o teatro e eu mesma – ênfase no estava, pois a grandes chances de eu estar melhorando já – residia no fato de eu passar o dia inteiro pensando, entendendo teorias e tentando mensurá-las na realidade, encontrando um modo de talvez torná-las reais. Essa coisa de viver pensando, com a mente cozinhando o dia inteiro, enquanto o rosto transparecia calma, como se nada estivesse acontecendo. Estava cansada justamente de tanto pensar. Eu só pensava. O dia inteiro. Percebi que fazia isso há algum tempo já, desde quando deixei de imaginar. Eu parei de imaginar coisas fantasiosas porque perdia muito tempo imaginando aplicações para as teorias e planejando detalhadamente o que faria no dia seguinte. Sei que isso não era correto, mas nunca havia percebido que estava realmente nesse estado de vida. Agora que eu percebi, resta-me melhorar a situação. E eu sei que vou conseguir. Porque o primeiro passo para transformar algo que não está correto é perceber que não está correto. Os fumantes não param de fumar enquanto continuam pensando que aquilo é legal e não é um vício, quando eles admitem que realmente ficarão doentes e não conseguem mais sobreviver sem a droga, tendem a parar, ou pelo menos sentem-se mal enquanto tragam a nicotina. Esse é o espírito da coisa. Perceber – sentir mal – tentar mudar. Assim que as coisas fluem.

O negócio é que enquanto na faculdade, em casa, na internet e em todos os lugares que eu normalmente frequento, o grande segredo para dar certo é raciocinar, seguir uma lógica, fazer suposições e tentar prová-las, depois de ter pensado MUITO sobre as coisas, no teatro o segredo é justamente não pensar. Meu professor de literatura sempre falava sobre essa coisa de “as melhores artes ocorrem ao acaso” e o fato de tudo que é genial ter surgido do nada e isso é realmente muito lindo de ser ouvido, mas vai tentar passar um minuto sem pensar em nada pra ver o que acontece! É super complicado! Mas é isso que o teatro requer o não comum, o complicado. Aquele estado em que nada faz sentido e por isso é genial, é explorar o novo, deixar as coisas simplesmente acontecerem, mesmo que não façam sentido. Porque nem tudo precisa fazer sentido. Coisas sem sentido são muito mais legais na verdade. E eu super concordo com isso. Adoro coisas geniais e impensadas, que acontecem do nada, mas quando eu é que tenho que ficar sem pensar, gente, é um esforço ENFADONHO. É terrível. Terrível. Pensar em um personagem, com história, corpo, voz, mundo, tudo e ao mesmo tempo fazê-lo sem ficar repassando isso na mente, com naturalidade, fluido, sem nada de você nele… É muito complicado! Muito! Muito! Mas acho que um dia eu consigo!

Hoje eu fiz um queijo. Foi a experiência mais repleta de descobertas da minha vida. Percebi que me escondo atrás de um discurso e se eu tivesse que fazer algo mudo ia ser terrivelmente complicado. Porque por mais que eu admire horrores essa exploração de novos ambientes, sou completamente presa à minha zona de conforto e isso é TERRÍVEL. Percebi tantas coisas erradas em meu comportamento, modo de ser, agir e pensar que nem consigo mensurá-las corretamente no momento, só senti que precisava expressá-las. Gravar em algum lugar que eu percebi que não ajo de uma maneira agradável. Já estou me sentindo mal com a situação e pensando em maneiras de melhorá-la. Espero conseguir. Espero ser menos racional e mais impulsiva, sentimental, instintiva, mesmo sabendo que instinto não existe. Espero conseguir quebrar todas as minhas barreiras, mesmo sabendo que elas foram socialmente construídas e fazem parte de mim e da minha cultura. Não é porque estão intrínsecas a mim que são boas, úteis, agradáveis ou meramente suficientes. Não vou precisar fazer todos os absurdos que a Nina fez para descobrir o lado negro dela, será natural. Puramente simples. Porque as coisas são simples, nossa mente as torna complicadas e se eu conseguir desvencilhar cada micro detalhe ao meu pensamento paranoico, provavelmente evoluirei um bocado!

Desde já gostaria de dizer que vocês devem ir a minha peça do meio do ano, só para analisarem se eu realmente evoluí e me contarem depois, porque garanto que estou me esforçando e quando resolvo me esforçar realmente o faço.

Enfim, tenham uma boa noite e um bom final de semana!

E não vou pedir desculpas pelo texto sem sentido e de última hora, porque coisas não planejadas tendem a ter um gosto melhor.

Viva a espontaneidade!

Fui Enganada!!!

Todos que leem meu blog há um tempo sabem que, em linhas gerais,  eu odiei o meu tempo no ensino médio e o ódio piorou ainda mais quando cheguei no dito terceiro ano. “O terceiro ano é o mais legal!” só se você achar cair dentro dum vulcão ou levar uma rajada de ácido sulfúrico na cara legais. Não digo que aprender é ruim, que as matérias sejam desnecessárias (embora algumas realmente sejam) e que eu preferiria ter passado o meu tempo integralmente em casa porque isso é uma tremenda mentira. O irritante de verdade do tal terceiro ano está muito além do fato de quererem que você decore o mundo ou toda a pressão que colocam, dizendo que se você não souber que a redondeta da parafuseta não é redonda, mas octagonal, você passará mais um ano da sua vida sofrendo a mesma tortura para conseguir entrar na universidade. Não. O pior é a maneira como eles retratam o paraíso que é a universidade. Como se todos os seus anos de estudo desembocassem naquilo, o seu futuro. O local onde você aprende a profissão que exercerá pelo resto de sua vida. Bullshit. Mas ninguém conta isso pra gente na hora. Eu, que nunca sonhei em ir pra universidade, sim, porque na minha cabeça as coisas migravam automaticamente do ensino médio para Hollywood, sem nada pelo meio do caminho, senti-me O alien naquele universo. Porque aquilo não tinha nada a ver comigo. Porque eu não ia me obrigar a lembrar que a redondeta da parafuseta é octagonal. Eu sabia que era inútil. E enquanto todos perderam um ano estudando absurdamente pra passar pela dita prova, eu via quatro filmes por semana (no mínimo), acompanhava todas as séries que queria, lia todos os livros que tinha paciência para ler, dedicava-me exaustivamente ao teatro e ia pra escola só pra não reprovar por falta e pra ver se aprendia pelo menos o básico de física (o que não ocorreu). Terminei o ano me achando fodástica. Altamente superior. A sensação aumentou quando eu descobri que passei no vestibular e um monte das pessoas que perderam o ano inteiro estudando não haviam passado e precisariam passar por todo o processo de novo, enquanto eu estaria no paraíso. Porque a universidade seria o paraíso. Os professores sempre falavam isso! “Comam cebolas para depois comerem mel” e “Esse ano vocês estudam, ano que vem é só festa” e “Faculdade só é complicada no fim do semestre” e “Ciências Sociais? Pff… Tranquilo“. Eu sabia que não seria tranquilo, sabia que ia ser exaustivo e que só falavam isso porque nem sabiam direito do que se tratava o curso, sabia que nõa ia participar das festas, mas eu realmente achava que ia comer mel. Achava que ia me empanturrar de mel, que ia continuar tendo a minha vida amazing de ver cinco filmes por semana e acompanhar todos os meu seriados enquanto tirava notas boas em todas as matérias interessantes. Agora eu só teria matérias interessantes, tinha tudo pra ir fantasticamente bem em todas elas. Aham, claro. Termino esse texto dizendo que embora o meu material do terceiro ano pese cerca de 50kg e eu não tenha preenchido sequer uma apostila completa, em uma semana de faculdade eu tive que ler 200 e poucas páginas, isso sem contar que no fim de semana – em que eu esperava poder pelo menos dormir – acabarei tendo que ler mais um texto de 120 páginas, um livro de 60 e pelo menos metade de outro de 200. Isso sem contar todas as outras coisas que eu preciso fazer. Ou seja, meu projeto de leitura desse ano provavelmente será ultrapassado, mas somente com livros técnicos e teóricos que, embora sejam super legais, não são alienantes e eu queria muito ter tempo para me alienar um pouco (acho que é isso que estou fazendo agora, no tal computador). Se ano passado eu não consegui terminar nem 10 livros, nem quero pensar em quantos lerei esse ano. E eu nunca estudei na minha vida. E eu achava que ia ter um emaranhado infinito de matérias legais e não ia precisar fazer nada além de ir na escola. E eu não conheci nem um paraíso ainda. E eu agradeço a mim mesma todos os dias por ter aproveitado ao máximo o ano passado, porque se eu tivesse perdido ele inteirinho estudando e de repente soubesse que teria que estudar o triplo, por quatro anos (no mínimo), eu ia ter um chilique MUITO grande. Não chiliquei. Não me acostumei ainda, lógico, mas não chiliquei. Darei conta, afinal os textos são enfadonhamente legais e construtivos, só sinto falta dos meus filmes, seriados, chocolates e minhas tardes de soninho, mas fazer o que né? Agora que já entrei no barco não posso deixar ele afundar.

Por fim, eu só queria dizer que se você está no terceiro ano e acha que precisa decorar todas as coisas possíveis e chora quando não consegue resolver um exercício de matemática ou da matéria que tem mais dificuldade, relaxe. Aproveite. Divirta-se. Uma hora ou outra você vai passar no vestibular. Faculdade é fantastica sim, um mundo completamente diferente, sim, mas é bem mais difícil do que o terceiro ano. Mantenham isso em mente e não extrapolem seus limites. Não exijam tanto assim de você, afinal é apenas uma prova, você já fez muitas na vida, não vai ser essa que vai te atrapalhar.