Brilho Eterno de uma Mente com Lembranças

Just because I don’t say anything doesn’t mean I don’t like you
I open my mouth and I try and I try, but no words come out.
Nothing Came Out – The Moldy Peaches

Eu sei que você me apagaria se pudesse. Sei que o fato de agir bobamente comigo está intimamente relacionado com isso. A verdade é que por mais que você diga e queira crer que gosta de mim, daria tudo para poder me apagar de sua mente. Isso é até engraçado pois eu sempre achei que seria eu quem iria implorar por uma lobotomia, mas no fim acabou sendo você. A razão eu realmente não compreendo, errei sim, todos erram e eu faço parte desse imenso hall de “todos”. Impossível seria não errar, tendo em vista que até você erra. Todos erram. A questão é que as pessoas costumam entender os erros alheios, ou pelo menos fingem. Tentam seguir em frente e fingir que nada aconteceu para que assim possam seguir alegres e saltitantes por aí, mas você não. Você é sincero e por mais que eu tenha admirado este fato por tanto tempo, nunca abominei-o tanto quanto agora. Queria que você soubesse mentir.

Eu não sou perfeita, mas você também não é. Eu me lembro de todos os meus erros e de todos os meus acertos. Eu me lembro de tudo. Dos seus também. E não tenho vontade de apagá-los. Achava que teria, mas não tenho. Tenho orgulho do meu passado e de cada passo que eu tomei em minha vida, pois foi por fazer exatamente o que eu fiz que parei aqui onde estou hoje e eu adoro o lugar em que me encontro hoje, adoro a pessoa que me tornei. Mas não gosto da que você se tornou. Talvez nossa convivência realmente tenha acabado com a tua vida e isso é terrível porque em nenhum momento foi o que eu quis, eu só queria que você fosse feliz. E assim sendo sinto-me na obrigação de lembrar que te fiz feliz, muitas vezes, incontáveis vezes, pelas mais diversas razões e motivos.

Você fez com que eu me sentisse assim e eu fiz com que você se sentisse assim também. Fui sua Clementine mesmo tendo o cabelo castanho. Mesmo sendo sem graça. Só que você criou a absurda e enfadonha capacidade de me apagar da sua vida, mesmo em um mundo em que lobotomia não é acessível. Provavelmente você se cansou de mim, da mesma maneira que eu me cansei de você tantas vezes por tantos momentos antes, a questão é que mesmo cansada eu continuava ali, com meu sorriso armado escutando pacientemente você me dizer tudo que tinha vontade. É claro que as vezes eu explodia, claro que as vezes tinha crises de honestidade e desabava a falar tudo que sentia vontade, claro que nesses momentos você estava ali, talvez fingindo-se de presente, talvez realmente estando, o fato é que estava e que isso me fazia bem. Fez-me bem por tanto tempo que nem consigo contar.

E quando eu já não podia lembrar da minha vida sem a sua ao meu lado, quando já não conseguia passar um dia inteiro sem pensar em você, algo aconteceu. Algo que até hoje não sei o que foi mas foi fatídico e nos fez viver separadamente por tanto tempo e até hoje, porque a gente conversava tanto e o tempo todo, mas mesmo assim tínhamos uma capacidade incrível de sermos completos desconhecidos um para o outro, como se em meio a tantas palavras, nenhum conteúdo fosse realmente emanado.

Talvez você tenha percebido isso, ou talvez tenha sido eu. Talvez tenhamos sido nós. O fato é que a percepção não agregou uma conversa realmente conversada e sim um afastamento terrível que me martirizou por muito tempo e com certeza te martirizou também.

Em muitos momentos eu cheguei a pensar isso e eu realmente conheci uma pessoa nova, mas nem ela em sua exuberância estupenda foi capaz de me fazer esquecer da sua existência prévia. Hoje começo a pensar que talvez ninguém nunca o faça e eu esteja condenada a viver sob sua sombra para sempre, como se todos os futuros seres que possam despertar em mim algum tipo de sentimento fossem na hora encobertos pela sombra da sua perfeição. Sei muito bem que você dizia que a perfeita era eu, mas a verdade é que sempre foi o contrário e eu em meio a todo meu amor por mim mesma não fui capaz de perceber.

Não sei se é por conta do cabelo de Clementine ou pela idade avançada chegando, o fato é que estou cansada de toda essa coisa de destino. De toda essa coisa que sempre insiste em acontecer com a minha pessoa. Será que as coisas não poderiam dar certo uma vez pelo menos? Será que eu não poderia ser feliz pelo menos por uma semana inteira? Eu queria ter nascido desprovida da capacidade de pensar, assim muito sofrimento seria evitado pela minha parte. Queria ter nascido desprovida da capacidade de sentir, como Effy que precisa parar no meio de uma rua e gritar para ser atropelada porque quer sentir algo, eu queria ter nascido simplesmente com algum mecanismo que justificasse o fato de eu ser capaz de estragar todos os momentos, até os que eram para ser bons! É como se o Deus da Carnificina não parasse de rondar a minha pessoa nunca e quer saber? Isso cansa. Cansa demais.

Queria ter coragem e meio de fazer com que você não me apagasse da sua mente. Lembrasse de mim para sempre. Não que eu queira continuar de onde paramos, não que eu queira algo relacionado à sua pessoa. Não que eu não queira também. Minha vontade é unicamente de fazer com que você lembre-se de mim da mesma maneira que eu insisto em lembrar da sua pessoa. Que você sinta por mim a mesma coisa que eu sinto por você. A mesma vontade tremenda de fazer uma lobotomia ao mesmo tempo que prefere uma penseira e ao mesmo tempo que prefere nada, apenas a liberdade para poder continuar pensando no que quiser quando quiser, sabendo do que aconteceu e porque aconteceu. Hoje eu queria ter razões para acreditar no amor novamente. Porque eu acredito, com todas as minhas forças, em todos os momentos, mas hoje, particularmente hoje, está difícil. Hoje eu sonhei com você. Hoje eu reli nossas conversas. Hoje eu assisti a um dos meus filmes preferidos debulhando-me em lágrimas. Hoje eu soube que um dos amores que jurei serem eternos acabou. Hoje quis com todas as minhas forças incorporar a Clementine, entrar na sua cabeça e implorar para que continue a lembrar de tudo para sempre, como eu. Para que tenhamos pelo menos isso em comum. Creio que é só o que nos resta. Lembranças. Pode parecer ruim, mas não é. Não é a melhor coisa do mundo, isso é fato, mas também não é a pior. Seria pior se as lembranças não existissem, por isso a urgência em fazer com que você as mantenha vivas. Mesmo hoje eu ainda quero que você fique bem, que você esteja bem e que você seja absurdamente feliz. Enquanto rogo aos céus, ao destino e a sorte para que eu também siga pelo caminho da luz e possa sair emanando sorrisos belos mundo a fora.

É tudo que eu peço.

Seja meu Joel para que eu possa de fato ser sua Clementine. Quem quer que seja você.

P.S.: Esse texto faz parte de um meme em que eu deveria reciclar o título de outra blogueira. Quem será ela?

Sai de mim Rory Gilmore.

Minha meta desse semestre é terminar de assistir Gilmore Girls. Tenho mais trinta dias para duas temporadas, acho que consigo. Eu vi essa série pela primeira vez quando era criança e passava no SBT sob o nome “Tal mãe, tal filha”, mas nunca me imaginei acompanhando a dita cuja. Até que minha internet pifou e eu não consigo mais baixar nenhum episódio de nenhum seriado e, coecidentemente, a namorada do meu irmão aparece com todos os episódios de Gilmore Girls disponíveis. Isso aconteceu quando eu estava de férias e assim sendo, sem nada melhora pra fazer. Assisti e parei quando as aulas começaram, afinal eu estava morrendo com toda aquela quantidade de leitura e mudança radical no meu estilo de vida, porque depois de 17 anos eu realmente precisei estudar para algo e como não o fiz fui super mal em todas as primeiras provas e ou tomo jeito, ou terei que refazer todas as matérias, o que não é muito bom, convenhamos.

Enfim, estamos em greve e meus pais não estão em casa, estou sozinha aqui o dia inteiro e de noite meu irmão junta-se à mim, para dormir. Cada um em seu respectivo quarto, obviamente. Nos primeiros dias eu fiquei que nem louca tentando manter a casa nos eixos, tentando substituir a minha mãe com todos os afazeres domésticos e tal, mas eu não nasci pra isso. Eu preciso de descanso depois de uma hora de trabalho pesado e quando eu vi que se continuasse trabalhando que nem louca não teria fim, desisti. Larguei de mão. Só tenho lavado a roupa e estendido, o resto que se dane. Enfim, acumulando-se greve com solidão e preguiça, o resultado não poderia ser diferente: voltei a assistir gilmore girls.

O detalhe é que a série é água com açúcar, sem as cenas tensas que eu sou acostumada por causa de Skins, ela é leve e ultimamente tem me irritado muito. Porque eu passei até a quinta temporada querendo ser igual à Rory. Eu até quase desisti da minha faculdade, pra ser jornalista, embora eu ache que deve ser um saco ser jornalista, só porque ela fazia parecer que era legal ser jornalista. Mas desde que a Rory entrou na faculdade, ela virou um pé no saco. E aí entra o meu problema: se nem a Rory conseguiu ser boa depois da faculdade, como é que eu posso achar que vou conseguir?

Só sei que estou passando por uma terrível crise existencial, resultado dos muitos momentos sozinha. Tenho repensado minha vida inteira, desde minha cor favorita, ao que eu realmente penso sobre física. Tenho reconsiderado absolutamente tudo. Tranquei todos os meus cursos e agora eu só tenho o teatro e, veja só, estou a um fio de desistir dele também. A sorte é que eu não posso desistir até o fim do mês, porque preciso terminar o semestre, mas do jeito que as coisas estão, duvido que eu continue depois do fim do semestre. Fora isso, eu sinto falta de sentar com alguém e jogar conversa fora, sem nenhum objetivo, sabe? Como a gente fazia no ensino médio, que parecíamos idiotas e ficavamos cantando e falando bobeiras o dia inteiro. A vida era boa e eu odiava. Eu sempre acabo por odiar.

Outro dia meu irmão mais velho estava aqui em casa e me disse algo que realmente me fez pensar, é o seguinte:  a gente SEMPRE acha que o passado foi melhor e que não o aproveitamos da maneira que deveríamos e assim que pensamos isso, automaticamente nos vem a ideia de que no futuro nós podemos consertar nosso modo de ser e passar a aproveitar as coisas, mas a gente nunca pensa no presente. Absolutamente nunca! Minha professora de teatro tem tentado fazer com que eu vivesse o presente desde fevereiro e por mais que eu tenha lutado muito para conseguir, vejo agora que ela não obteve nenhum resultado. Essa deve ser a maior falha humana, sabe. A gente não devia ser completamente insatisfeito, a gente não devia se convencer de que nào temos o bastante. Não deveríamos ficar falando e falando e falando sem termos absolutamente nada para dizer.

Eu tenho sentido tantas coisas, visto tantas coisas, pensado em tantas coisas e a falta de coragem para realmente fazer algo, somado à extrema frustração por nào ter ninguém interessado no meu “algo” e ao fato de eu raramente poder usar a minha voz de verdade para falar de verdade o que eu penso, ainda acabarão por me deixar completamente LOUCA. E eu não quero ser louca. Eu não posso. Eu não posso ser como a Rory. Eu não posso decepcionar a minha mãe como ela fez. Não posso ser tão idiota. Eu não posso continuar me espelhando em todos esses personagens que são perfeitos, mas ao mesmo tempo, sempre frustram alguém de algum modo. Eu não quero ser a Mia Thermopolis, nem a Gracie Blood e muito menos a Rory Gilmore. Eu quero ser a Herminone Granger, sabe? Aquela que não só tem cara de esperta, mas de fato é. Aquela que não fala que faz coisas, a que realmente faz. Aquela que lê, estuda e torna-se importante na vida dos outros. Eu quero ser importante na vida de alguém.

Mas eu não consigo, porque tenho na minha mente exatamente o que todos nós, pessoas comuns, normais e sem nada especial temos: chiliques que nos fazem querer acordar para a vida e em trinta segundos apenas voltamos a ser idiotas que assistem uma propaganda e querem comprar algo. Eu não quero acabar como o meu irmão. Eu não quero ser uma dessas pessoas que sai por aí comprando um monte de coisa que não precisa. Não quero ser uma das pessoas que eu sempre odiei. Estou cansada dessa coisa de me achar especial e importante, por que raios todos nós temos isso na cabeça? Essa coisa de que somos todos iguais mas temos algo que nos faz especial? Somos simplesmente todos iguais. Todos. Por isso que o mundo está perdido, com toda essa porcaria ambulante correndo à solta. Só por isso.

Eu não queria que o mês mais importante do ano começasse assim.

Por favor, me digam que o Renato Russo está chegando aqui em casa, vai me abraçar, dizer as palavras mais bonitas do mundo, que só ele conhece e no fim das contas tudo ficará bem e eu não precisarei recorrer ao meu chocolate.

Ok, vou comer chocolate, mas esse foi um bom sonho.

(Daqui)

Espanca-me

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há cerca de um ano ouvi o nome dessa nobre moça pela primeira vez. Confesso com pesar que nunca li um livro dela, porém já passei madrugadas inteiras lendo-a e relendo-a na internet. Ela tem o nome mais poético do mundo, um nome paradoxal que ao mesmo tempo é bom e ruim, porque ela é flor, ela é bela e ela espanca. E eu gosto de gente assim, paradoxal, de lua, que cada dia pensa e faz uma coisa diferente, sem medo de ser feliz, sem vergonha alguma de ser apenas o que se é.

Meu poema preferido dela chama-se “Amar” e é ele que está sendo recitado ao longo deste texto. A questão é que eu jamais havia encontrado um texto sobre amor que dissesse tanto do que eu penso. Porque tem dias que eu acordo e tudo que gostaria de fazer era amar. Eu acordo à procura de algo para amar, de algo que me transmita amor, que me dê borboletas no estômago e, infelizmente, são raras as vezes que concretizo a minha busca. As vezes sinto que nada sente necessidade de ser amado, nada nem ninguém, pelo menos nada nem ninguém dentre as pessoas que me cercam e isso é muito triste.

Eu queria amar alguém profundamente e queria ter vontade de fazer coisas motivada por essa pessoa. Queria não ter vergonha e simplesmente amá-la, independente do que isso viesse a significar. Queria viver todas aquelas coisas que pessoas apaixonadas dizem sentir e queria que essas coisas fizessem parte da minha vida cotidiana. Queria amar porque tenho o sonho infantil que me faz crer que somente isso me faria feliz. Porque nada sou além de uma garota que foi e é diariamente completamente enfeitiçada  pelos contos de fada, tanto os clássicos quanto pelos modernos. Porque passo os dias assistindo a programas que me mostram pessoas que se completam amando, mesmo que seja amando um animal de estimação. Resolvo ler um livro e sempre, absolutamente sempre, envolve amor. Para abster-me deste mundo, só vivendo no universo acadêmico o tempo todo, porque lá sim, lá não há amor. Pelo menos não explicitamente. A questão é que não consigo, sou humana e gosto de suspirar com a história alheia.

Mas eu queria ter a minha história. Queria suspirar com ela. Queria suspirar pelos meus feitos, minhas alegrias, pela minha vida, que vista de fora é brilhantemente perfeita, mas se é tão perfeita, porque continuo tão triste, tão alheia, desmotivada e ansiosa por um amor? Por que vivo tão necessitada de um belo espancamento só para recordar-me de que eu fui sim criada para sentir algo? Por quê? Perguntas e mais perguntas, que mais uma vez encontram-se se resposta alguma, jogadas ao infinito, num infindável buraco negro que insiste em sugar não só a minha alegria, mas todo o sentido que eu achava ter encontrado para a minha vida.

Falavam-me que estudando eu obteria mais conhecimento e assim entenderia melhor as coisas, mas a verdade é que quanto mais estudo, mais alheia ao resto eu fico, mais boba. Menos humana, menos gente. Porque pensar o mundo como uma incógnita certamente não me é mais apreciável, agora eu quero saber as respostas, quero buscá-las e encontrá-las e em meio a tantas procuras, acabo por me perder. Será isso bom, será que não é, será o certo ou será errado? São só mais perguntas, daquelas que talvez fiquem sem resposta. Que posso eu fazer? Nada.

Resta-me suportar as pancadas, quedas e deficiências que a vida prova ter. Resta-me submeter-me ao espancamento constante, que talvez, quem sabe, porventura, um dia ele chegue a valer a pena. Talvez um dia eu finalmente encontre o meu amor. E se não o fizer, dignar-me-ei a apenas ler. É a única fonte de felicidade que gera decepções não muito dolorosas.

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

Florbela Espanca

(Daqui)

Que eu saiba me perder para me encontrar.

Pedidos de Páscoa

Vejo filmes de drama porque eles são a desculpa perfeita para que eu chore. Eu não posso deixar ninguém morrer e com isso acabo matando a mim mesma. Sempre carregando o mundo inteiro nas costas. Sempre se sentindo responsável por todas as coisas. Causa e consequência de tudo. Não por egocentrismo, mas sim para poupar os outros. Entre ver alguém sofrendo e sofrer, fico com a segunda opção. Desde que me entendo por gente escolho a segunda opção. Odeio simplesmente não poder fazer nada. Nunca desmorono, sempre pareço forte. Sempre sorrindo, fazendo piadas e falando friamente das coisas. Sempre me mantendo longe dos sentimentos, sempre racionalizando e falando. Na verdade sou um neném. Daqueles pequenos e inocentes que não sabem o que fazer senão dormir depois de se cansarem chorando. Só consigo dormir depois que choro. Vi isso em Clube da Luta e não entendi, agora faz sentido. Chorar cura a insônia. Quero ter o direito de fazer isso. Quero ter o direito de consertar as coisas, todas elas. Fazer com que todos se sintam felizes e confortáveis. Um mundo ideal seria aquele sem nenhum problema, sem nenhuma doença. O paraíso resumiria-se em um lugar onde a saúde pairasse. Esse foi o principal motivo para que eu gostasse tanto de “Admirável Mundo Novo”. Ninguém morria de doenças por lá, elas não existiam. Odeio como o ser humano só valoriza as coisas quando perde ou está prestes a perder. Odeio o fato de por mais que eu deseje ser um alien, eu seja apenas uma garota. Uma garota tola que acha que consegue segurar todas as barreiras em suas tortas costas. Não aguento mais vê-los sofrer. Não faço nada direito por causa disso. Tento fugir, espairecer, desencanar, mas não dá. Não dá pra simplesmente fingir que está tudo normal. Nada está normal. O normal não existe. E fico a confabular, a tentar me encaixar nos problemas de garotas comuns, mas eu sei que na verdade pouco me importo com garotos e o que quer que eles tenham ou façam. Pouco me importo com picuinhas de amigos ou com shows perdidos e séries canceladas. Minha vida agora gira em torno de vocês. Passo o dia pensando em maneiras de ajudá-los e como nada me vem em mente eu simplesmente sento e obedeço cada uma das coisas que me pedem. Abraço e tento fazer com que saibam o quanto os amo. Dentre todas as dores que já senti – e não foram poucas – essa é a pior. Ver a coisa mais importante para você esvaindo-se é a pior coisa do mundo. Sei que não posso fraquejar e estou me esforçando para isso. Espero conseguir. Espero não decepcioná-los. Não agora. Não mais. Desde já peço perdão pelas minhas falhas, por não ter poder suficiente para fazer com que tudo volte ao normal, mas prometo tentar. Prometo. Porque eu amo vocês e o amor consegue ser maior do que toda a dor que sinto agora. Do que todo esse aperto que consome o meu peito profundamente e me faz ter vontade de agarrá-los e fugir para um deserto, na tentativa – talvez frustrada – de salvá-los da perdição que está cada vez mais próxima. Eu só queria abraçá-los e garantir que tudo ficará bem. Só quero que tudo fique bem.

Por isso escrevo hoje, no dia da Páscoa. A Páscoa que durante meus dez primeiros anos foi o meu feriado favorito, onde eu ganhava grandiosos quilos do meu alimento preferido e pulava de felicidade. A Páscoa que no meu décimo ano representou o dia mais triste da minha infância. A Páscoa em que minha avó morreu enquanto me levava um pedaço de chocolate. A Páscoa que Jesus renasce que Moisés foge com seu povo do Egito, abrindo os mares e tudo! A Páscoa da libertação, vitória, renascimento. A Páscoa que fez com que minha avó se tornasse um anjo de verdade, guiando-me em todos os tortuosos momentos que vieram depois. Escrevo hoje porque a esperança é a última que morre e assim sendo eu ainda espero que haja alguma salvação. Espero que isso sirva para que nos libertemos, renasçamos e saiamos vitoriosos dessa batalha. Escrevo hoje porque talvez eu não acredite mais nos Entes sobrenaturais que nos guiam, mas acredito nos meus avós que estão em algum lugar fazendo o melhor por nós. Escrevo porque sei que eles estão vendo. Eles vão me ajudar ou pelo menos me mostrar o que vai acontecer ou o que eu posso fazer. Escrevo porque nessa páscoa, pela primeira vez na vida, estou trocando todas as toneladas de chocolate do universo – por mais que eu as queira – pela certeza de que continuaremos a ser unidos e venceremos.

É… Feliz Páscoa!

As lágrimas…

Chorar é algo natural do ser humano, instintivo. A primeira coisa que fazemos assim que saímos das barrigas de nossas mães. É nossa maneira de dizer que estamos com fome, dor, sono ou avisar que sujamos a fralda e precisamos que ela seja trocada. Depois que aprendemos a falar, tal artíficio perde várias de suas principais funções, mas vai adquirindo outras ao longo da vida. Chorar é natural. É humano.

Nossas glândulas lacrimais funcionam 24 horas por dia, lubrificando nossos olhos para que consigamos enxergar perfeitamente o mundo ao nosso redor. Perfeitamente, lógico, é apenas um modo de dizer, tendo em vista que grande parte das pessoas possui problemas de visão, porém eles seriam piores caso suas glândulas lacrimais deixassem de funcionar.

O fato é que a gente cresce e o choro continua presente, seja para exigirmos que nossos pais nos deem tal coisa, ou para contar que nosso irmão nos bateu. Choramos quando nos machucamos, quando brigamos, estamos bravos, felizes, apaixonados ou simplesmente tristes, mesmo que não tenhamos motivos concretos para tal, choramos.

Só que com o passar do tempo o choro deixa de ser simples e natural e passa a ser um encargo, um peso em nossa vida, algo vergonhoso e que não deve ser feito na frente de qualquer um. Tendemos a tentar controlar nossas glândulas lacrimais, a ponto de ficar com os olhos lotados de água e esforçar-nos ao máximo para mantê-las exatamente onde estão, tudo porque ser visto chorando não seria socialmente adequado.

Velórios são engraçados por causa disso. É o único lugar em que todos podem chorar o quanto quiserem e jamais serão julgados. Alguns o fazem por estarem sentindo falta do falecido, estarem realmente tristes com aquilo, outros simplesmente porque precisavam chorar e sabiam que ali ninguém os perguntaria suas razões. Em velórios todos choram abraçados e não têm vergonha disso. Um limpa as lágrimas dos outros e se afoga em lágrimas no meio de tentativas fracassadas de consolos, sem o menor medo.

Em um de meus filmes favoritos (Clube da Luta), o personagem principal começa a frequentar grupos de apoio a pessoas com câncer, viciados em álcool e portadores de várias doenças, mesmo sem possuir nenhum desses problemas, apenas para ter um bom motivo para chorar. Ele queria chorar, mas não conseguia, então ia a esses lugares e acabava chorando desesperadamente.

Esse é o nível em que chegamos!

Algo antes tão natural e simples, torna-se objeto de vergonha quando crescemos um pouco. Temos necessidade de chorar, é algo natural e necessário, mas temos vergonha de fazê-lo. Chorar por aí agrega muitas perguntas indesejadas, explicações e momentos desagradáveis. Sim, porque ninguém vai te consolar e te abraçar se não souber exatamente porque você está chorando e se você disser que é simplesmente porque teve vontade, vão te chamar de fresco e dramático e vão te deixar ali, sozinho, afogando-se em suas próprias lágrimas.

A verdade é que muitas vezes choramos só para chamar atenção mesmo, para que nos notem, olhem para nós diferentemente, nos abracem e digam que somos especiais. As vezes choramos simplesmente para nos sentirmos amados e não há nada de errado nisso. Somos humanos. Precisamos nos sentir amados. É uma de nossas necessidades básicas e é completamente normal nos sentirmos sozinhos, abandonados e desabarmos a chorar, mas esses momentos passam, mesmo que pareçam ser eternos.

Tentamos controlar nossos reflexos naturais, nossos traços animais, inutilmente.

Essa coisa de chorar apenas em ambientes fechados e quando se está sozinho apenas piora as coisas. Mas eu, por exemplo, já não consigo chorar na frente dos outros com a mesma facilidade de alguns anos atrás. Não me acho digna de requerer tamanha atenção. Não acho correto sensibilizar os outros com coisas que muitas vezes são inúteis. Não gosto de preocupar terceiros por simplesmente suprir uma necessidade natural do meu corpo. Tenho vergonha de chorar na frente dos outros. Quando isso acontece, é seguido de vários pedidos de desculpas. Morro de vergonha. Não gosto de ser frágil e sensível, acho que isso me torna menos respeitável. Criei uma máscara de ferro sobre minha face. Procuro sorrir e ser feliz o tempo todo. As pessoas já têm muito com o que se preocupar em suas próprias vidas, não é correto roubar um pouco dessa atenção. Sou completamente fria e insensível por fora, mas meu interior é exatamente o oposto. Então quando eu fujo ou fico um pouco calada é porque o encargo da máscara está pesado demais, está difícil de carregar. Afasto-me porque sei que se ficar perto de qualquer um não conseguirei me controlar mais e eu não posso ser vulnerável. Sou forte. Sempre fui e sempre serei.

Sou apenas mais um resultado dessa sociedade banal, desse mundo tosco em que vivemos. Deixo de agir de acordo com o que sinto, simplesmente porque penso que assim estarei tornando a vida alheia um pouco mais fácil. Ser verdadeiro é difícil e incompreensível demais. Todos estão tão acostumados com futilidades e mentiras, que um mínimo pedaço de verdade já é capaz de derrubá-los por completo. Não quero ser a causa da queda de ninguém. Não sou cruel o suficiente.

Por isso digo que ninguém me conhece de verdade. Os que conhecem melhor são aqueles com quem falo via internet, porque aqui eu posso chorar o quanto quiser, ninguém vai estar vendo, ouvindo ou sequer sabendo disso. É seguro.

Saiba que se você já me viu chorando é porque eu realmente gosto de você. É o meu jeito de demonstrar isso.

(Sei que prometi para mim mesma parar de escrever minhas vulnerabilidades por aqui, mas torna-se inevitável. Depois que constato algo novo a meu respeito preciso contar ao mundo, na esperança de que algum interessado em minha existência aproveite as informações. Sei lá, só estou tentando ser menos arredia, estou tentando ser aquilo que meu rosto demonstra. Talvez eu consiga um dia, quem sabe.)