Abrindo o Fecho

Eu sempre fui péssima em abrir fechos de sutiãs. Sempre fui péssima em tudo que envolve sutiãs, diga-se de passagem.

Eu tinha sete anos e ia na casa das minhas amigas ouvir Britney Spears escondida enquanto tentávamos dançar como ela. Uma das meninas sempre pegava os sutiãs da mãe, colocava e distribuia pras outras, porque “a Britney tem peitos, também temos que ter!” e eu nunca colocava o sutiã. E dizia “eu não quero ter peitos” e elas diziam “mas toda menina tem que querer ter peitos!” e eu ficava emburrada e ia pra casa desolada imaginando que um dia talvez eu tivesse peitos.

A minha relação com os peitos foi muito proveitosa, não há como negar. Mamãe tinha muito leite e eu mamei abundantemente até dois anos de idade, então enjoei e comecei a fazer birra e ela parou de me dar leite e começou a doar pro resto do mundo. Depois disso, perdi o contato com aquele punhado de pele da mamãe, tendo-o visto nela e em todas as outras mulheres da família inúmeras vezes porque eu detestava tomar banho sozinha. Não tinha a noção de que um dia aquilo faria parte de mim e quando eu descobri isso, fiquei chocada.

Lembro de me olhar no espelho, me imaginar com peitos e começar a chorar. Pensando que se algum dia aquilo acontecesse comigo, seria terrível. Não é que eu ache feio qualquer pessoa ter peito, eu não me importo com os peitos alheios, só não os queria em mim. A simples ideia de que isso pudesse ocorrer me atormentava horrores e quando eu cheguei na puberdade tudo que conseguia pensar era “por favor, que eu não tenha peitos” e, bem, meu desejo foi realizado e eu sou absurdamente feliz com isso.

Só que não ter peitos não faz com que você se liberte do fecho do sutiã. Porque usar sutiã não tem nada a ver com ter peitos, pelo menos não na cultura brasileira a qual estou inserida. Aqui as pessoas usam sutiã para disfarçar o mamilo, porque mamilo aparecendo é tão chocante quanto andar de saia sem calcinha. É absurdamente deplorável, julgável e reprovável. Então, a partir do momento em que os mamilos das meninas começam a se desenvolver, elas são coagidas a usar sutiã.

“Vamos comprar sutiã, filha!” “Pra que, mãe?” “Todas as meninas da sua idade usam… é pra não aparecer os peitinhos no uniforme”

E todas nós caímos nessa conversa. E ganhamos sutiãs bonitinhos, fofinhos, aparentemente confortáveis e podemos ir pra escola nos sentindo mais mulheres, porque sutiã é coisa de mulher de verdade e a partir disso é como se a gente de fato tivesse crescido. E nunca mais paramos de usar sutiã. Os seios crescem um pouquinho e lá vamos nós comprar de um número maior, uma cor diferente, estampa mais bonitinha e acabamos gostando da coisa, ela se torna tão natural quanto usar calcinha e ninguém nunca pensa em qual sua funcionalidade, simplesmente compra e usa.

Só que quando você não tem peitos, comprar sutiã é altamente torturante. Porque não existe um que seja do tamanho perfeito, sempre vai ficar faltando pano nas costas ou sobrando bojo e não importa o quão coloridos e versáteis eles pareçam, eles sempre vão te machucar. Usar sutiã, caros colegas, é uma tortura. É aquela coisa terrível de se sentir presa o dia inteiro por uma coisa que você não faz ideia do motivo para usar, porque pra quem tem peitos ele é super útil! Ele levanta, deixa no lugar e ajuda a distribuir o peso, fazendo com que as costas não doam, é altamente necessário! Pra quem não tem peitos, não serve pra nada. Não tem nada pra levantar, não tem peso nenhum. Por favor, deixem meus mamilos em paz.

E daí cá estou eu, dezenove anos na cara, mais de dez sutiãs na gaveta. Cada um com um modelo e cor e tamanho diferentes, nenhum sendo confortável o bastante para me fazer querer usar o dia inteiro. Sem saber como lavar aquela coisa de um jeito que não estrague e que limpe de verdade e sempre tendo que pedir ajuda pra mãe. Sem habilidade para abrir ou fechar o maldito fecho, sendo obrigada a colocar a coisa do mesmo jeito que a minha vó colocava, ou seja, abrindo e fechando com ele virado pra frente e tendo como única habilidade no quesito “sutiã” o ato de tirá-lo. Porque é a única coisa que eu faço. Porque eu chego em casa e antes de tirar as meias e o sapato vou logo tirando o sutiã daquele jeito que não precisa tirar a roupa primeiro, ou no máximo eu abro ele e deixo ali só pra constar. Porque machuca, dói, aperta, prende, é aquela coisa que eu nunca esqueço que estou usando, não é orgânica à minha pessoa e, AI. Cansei.

Cansei. É isso. Simples assim.

Eu conheço gente que não usa cueca pelos mesmos motivos que eu detesto usar sutiã, só que, por favor, não usar cueca é muito mais problemático, mas como os terceiros não percebem a falta da cueca, ninguém reclama. Só que todo mundo percebe a falta do sutiã, então todo mundo automaticamente julga, cochicha, reclama, intervém e eu decidi lutar contra isso. Romper esses grilhões, rasgar essas amarras e abrir esse fecho. Eternamente. Decidi que só vou usar sutiã quando eu me sentir altamente desconfortável em alguma roupa sem ele – o que acontece as vezes, porque há roupas com costuras no peito que coçam e nesses casos até sutiãs são mais confortáveis – e em todas as outras ocasiões ficarei sem.

Stich aproves this post

E se você for dizer “Ai, mas é sensual e você já não tem peitos, se não tiver sutiã ninguém vai querer você” eu vou responder que “se a pessoa me quiser ou não baseando-se nas roupas que eu uso ou não, é um babaca tão grande que prefiro manter distância”.

Fui Enganada!!!

Todos que leem meu blog há um tempo sabem que, em linhas gerais,  eu odiei o meu tempo no ensino médio e o ódio piorou ainda mais quando cheguei no dito terceiro ano. “O terceiro ano é o mais legal!” só se você achar cair dentro dum vulcão ou levar uma rajada de ácido sulfúrico na cara legais. Não digo que aprender é ruim, que as matérias sejam desnecessárias (embora algumas realmente sejam) e que eu preferiria ter passado o meu tempo integralmente em casa porque isso é uma tremenda mentira. O irritante de verdade do tal terceiro ano está muito além do fato de quererem que você decore o mundo ou toda a pressão que colocam, dizendo que se você não souber que a redondeta da parafuseta não é redonda, mas octagonal, você passará mais um ano da sua vida sofrendo a mesma tortura para conseguir entrar na universidade. Não. O pior é a maneira como eles retratam o paraíso que é a universidade. Como se todos os seus anos de estudo desembocassem naquilo, o seu futuro. O local onde você aprende a profissão que exercerá pelo resto de sua vida. Bullshit. Mas ninguém conta isso pra gente na hora. Eu, que nunca sonhei em ir pra universidade, sim, porque na minha cabeça as coisas migravam automaticamente do ensino médio para Hollywood, sem nada pelo meio do caminho, senti-me O alien naquele universo. Porque aquilo não tinha nada a ver comigo. Porque eu não ia me obrigar a lembrar que a redondeta da parafuseta é octagonal. Eu sabia que era inútil. E enquanto todos perderam um ano estudando absurdamente pra passar pela dita prova, eu via quatro filmes por semana (no mínimo), acompanhava todas as séries que queria, lia todos os livros que tinha paciência para ler, dedicava-me exaustivamente ao teatro e ia pra escola só pra não reprovar por falta e pra ver se aprendia pelo menos o básico de física (o que não ocorreu). Terminei o ano me achando fodástica. Altamente superior. A sensação aumentou quando eu descobri que passei no vestibular e um monte das pessoas que perderam o ano inteiro estudando não haviam passado e precisariam passar por todo o processo de novo, enquanto eu estaria no paraíso. Porque a universidade seria o paraíso. Os professores sempre falavam isso! “Comam cebolas para depois comerem mel” e “Esse ano vocês estudam, ano que vem é só festa” e “Faculdade só é complicada no fim do semestre” e “Ciências Sociais? Pff… Tranquilo“. Eu sabia que não seria tranquilo, sabia que ia ser exaustivo e que só falavam isso porque nem sabiam direito do que se tratava o curso, sabia que nõa ia participar das festas, mas eu realmente achava que ia comer mel. Achava que ia me empanturrar de mel, que ia continuar tendo a minha vida amazing de ver cinco filmes por semana e acompanhar todos os meu seriados enquanto tirava notas boas em todas as matérias interessantes. Agora eu só teria matérias interessantes, tinha tudo pra ir fantasticamente bem em todas elas. Aham, claro. Termino esse texto dizendo que embora o meu material do terceiro ano pese cerca de 50kg e eu não tenha preenchido sequer uma apostila completa, em uma semana de faculdade eu tive que ler 200 e poucas páginas, isso sem contar que no fim de semana – em que eu esperava poder pelo menos dormir – acabarei tendo que ler mais um texto de 120 páginas, um livro de 60 e pelo menos metade de outro de 200. Isso sem contar todas as outras coisas que eu preciso fazer. Ou seja, meu projeto de leitura desse ano provavelmente será ultrapassado, mas somente com livros técnicos e teóricos que, embora sejam super legais, não são alienantes e eu queria muito ter tempo para me alienar um pouco (acho que é isso que estou fazendo agora, no tal computador). Se ano passado eu não consegui terminar nem 10 livros, nem quero pensar em quantos lerei esse ano. E eu nunca estudei na minha vida. E eu achava que ia ter um emaranhado infinito de matérias legais e não ia precisar fazer nada além de ir na escola. E eu não conheci nem um paraíso ainda. E eu agradeço a mim mesma todos os dias por ter aproveitado ao máximo o ano passado, porque se eu tivesse perdido ele inteirinho estudando e de repente soubesse que teria que estudar o triplo, por quatro anos (no mínimo), eu ia ter um chilique MUITO grande. Não chiliquei. Não me acostumei ainda, lógico, mas não chiliquei. Darei conta, afinal os textos são enfadonhamente legais e construtivos, só sinto falta dos meus filmes, seriados, chocolates e minhas tardes de soninho, mas fazer o que né? Agora que já entrei no barco não posso deixar ele afundar.

Por fim, eu só queria dizer que se você está no terceiro ano e acha que precisa decorar todas as coisas possíveis e chora quando não consegue resolver um exercício de matemática ou da matéria que tem mais dificuldade, relaxe. Aproveite. Divirta-se. Uma hora ou outra você vai passar no vestibular. Faculdade é fantastica sim, um mundo completamente diferente, sim, mas é bem mais difícil do que o terceiro ano. Mantenham isso em mente e não extrapolem seus limites. Não exijam tanto assim de você, afinal é apenas uma prova, você já fez muitas na vida, não vai ser essa que vai te atrapalhar.

London: My big disappointing.

Talvez seja por causa do inverno, mas mesmo assim…

Você sonha com Londres. Vê todas aquelas fotos fantásticas e cria um lugar perfeito em sua cabeça. Onde o céu é bonito, assim como as construções, as pessoas e o sotaque. Você imagina a cidade perfeita. O país com a família real mais famosa do mundo. Os estádios de futebol mais bonitos. O lugar onde viveu Shakeaspere, Beatles e até Harry Potter. Imagina chegar lá e ter grandes aventuras, se apaixonar, sentir-se em casa e quem sabe até continuar por lá e acabar sendo como um dos grandes sucessos que tiveram a cidade como berço.

Eu fui assim. Sonhei com Londres. Ansiei por ela. Programei detalhadamente cada um dos meus passos para que pudesse apreciar o máximo possível daquela que tinha tudo para ser a cidade perfeita. Porque New York é ótima, mas não tem a história de Londres. Londres tem história. Eu amo história.

Chego lá e encontro ruas não retangulares/quadradas, becos feios, ruas que desembocam em becos feios. Encontro faixas de pedestres e semáforos que funcionam diferente daqui. Pessoas que em suma maioria são indianas ou estrangeiras de qualquer outro lugar. Casas iguais, tanto as velhas como as novas. Todas construídas com tijolos expostos que necessariamente seguem o mesmo padrão de cores. Comidas terríveis. TERRÍVEIS, em letras garrafais mesmo. Um céu mais feio que o de Curitiba. Porque o céu cinza de Curitiba é lindo. O céu sem sol daqui, aquele que paira durante o inverno quase que todo, ainda resplandece um pouco de sol em alguns momentos, em alguns dias o sol mostra a cara, a gente sabe que o sol existe. Em Londres não. Passei oito dias lá e só vi o Sol uma vez e foi quando estava se pondo, fiquei tão impressionada que até fotografei. Ao contrário do que possam pensar, eu não deixei de ver o Sol porque sou desatenta, ele que não apareceu mesmo.

Você entra no famoso ônibus turístico e, mesmo passeando por todas as linhas, só escuta falar sobre os reis e rainhas, principalmente a Rainha Vitória e o Rei Henrique VIII. É interessante, porém, o fato de que mesmo os becos mais enfadonhos por onde o ônibus passa possuem uma história interessante. Passei pela Rua Fleet, aquela do Sweeney Todd e também pela do Jack Stripador, além de outras com histórias muitas vezes alarmantes, mas das quais não me recordo totalmente. A história é bela sim. Rica sim. Interessante sim. Fazer o River Cruise é uma experiência e tanto. Ver a cidade pelo rio, imaginar-se séculos atrás, quando ainda não haviam todas aquelas pontes e o lado do Parlamento e afins era Londres e o outro era a região metropolitana pobre. É legal ir lá e se imaginar vivendo em 1800 no máximo, mas imaginar-se vivendo hoje, no mundo de hoje, é um tanto quanto complicado. Não estou dizendo que a cidade é terrível, não. Há quem goste. E como há. Mas não fez meu estilo. Estava contando os dias para ir embora. Já não aguentava mais as ruas com sentido errado, a direção contrária dos carros, o café terrívelmente forte, a carne de carneiro que insistia em aparecer em todos os pratos ordenados e aquelas pessoas que não sabem falar inglês direito. É certo que o Parlamento e o Big Ben são lindos, que andar no segundo andar do ônibus é divertido, que os metrôs são muito bem estruturados e que há um hall muito diverso de atrações, mas eu não gosto dessa coisa de não conseguir conhecer a cidade toda a pé. De ter uma atração muito longe da outra e em locais escondidos que nos causam certo receio em andar por perto.

Andar na London Eye foi a maior decepção da minha vida. Você vê aquela roda gigante em todos os lugares e imagina que deve ser fantástica a vista da cidade por ali, que deve ser até divertido e você chega lá e tem que pagar quase 20 libras pra entrar numa roda gigante que demora meia hora pra rodar e que não é alta o suficiente para te fazer enxergar a cidade inteira. Poderia ter gasto o dinheiro com muitas coisas mais úteis, sem dúvida. Outra grande decepção são os palácios. Tem um monte por lá mas você não pode visitar nenhum! Minto, o Kensignton você pode, mas estava em reforma, então eu não pude. E o ônibus de turismo ainda fala que a rainha não mora em nenhum e só os usa para comemorações. Então por que eles não são abertos pra visita? Deve ser tão rico em conhecimento histórico um castelo real de verdade, em funcionamento! Em um patamar um pouco maior, já que só são usados para comemorações poderiam virar dormitórios dos sem teto ou com tetos não confortáveis. Nem que só os quartos de empregados fossem destinados a isso. Se um andar de um castelo real fosse destinado a isso grande parte dos moradores sem teto teriam um teto.

Senti-me MUITO mau naquele lugar. Em níveis extremos. Via toda aquela riqueza sendo esbanjada nas construções reais, Igrejas e afins e ao mesmo tempo bairros paupérrimos. Visitei um bairro onde grande parte dos habitantes é brasileiro, tenho primos lá, fiquei impressionada. Se no Brasil existem favelas feias e amontoadas em morros, lá as coisas são um pouco mais evoluídas, mas tão tristes quanto. Eles têm uma casa grande onde cada um mora num quarto e dividem a cozinha e o banheiro, isso os que conseguem trabalhar e têm renda suficiente para pagar o aluguel que não é tão barato quanto a gente pensa. Na favela pelo menos você tem a possibilidade de construir a sua própria casa, que não é uma maravilha, mas é sua casa. Lá não. E com a crise europeia o índice de desemprego da cidade está aumentando, como o governo privilegia os britânicos de nascença, a tendência é que os imigrantes fiquem cada vez em piores condições. Enquanto isso a rainha tem um monte de palácios. Fechados.

Visitar Londres me fez realmente ver que sou contra monarquias. Sempre achei que monarquia parlamentar era uma boa forma de governo, mas depois dessa visita eu concluí que isso só aumenta a desigualdade social e cria ídolos para o povo, que cegos de amor pela rainha e o governo não são capazes de enxergar seus problemas sociais. Aqui os políticos são ladrões, mas pelo menos a gente sabe disso. A gente que colocou eles no poder então a culpa é nossa. Lá não. Se a Família Real fizer uma lavagem monstra de dinheiro a população não vai ficar sabendo e se ficar vai achar bonito, porque nasceram e cresceram aprendendo a amar e respeitar a dita cuja. Enquanto isso o país fica um tanto Conservador e… Sei lá. Mesmo que a Democracia não funcione plenamente, a simples ideia de viver em um lugar onde a Democracia não existe já me dá náuseas. Como é que o povo consegue sobreviver lá, sem poder gritar, ou gritando sem a menor chance de ser ouvido? É por isso que quando há revoltas populares em Londres elas tomam proporções gigantes. Se fossem minúsculas ninguém ia ficar sabendo, ninguém se importaria. Mas se eles queimarem os ônibus, invadirem locais públicos e fizerem todas as coisas que os jornais repassam como sendo “vandalismo”, o governo será obrigado a atendê-los para que eles parem. Isso porque, ao contrário daqui, se a polícia for chamada e agredir os manifestantes, o resto da população não deixa barato.

No fim das contas, tento manter apenas as lembranças positivas dessa visita. Sendo elas King’s Cross Station, Shakeaspere Globe Theatre, Abbey Road e Baker Street. De resto, acho que o V (do V de Vingança) tinha que ter sido ainda mais radical pra dar jeito naquele lugar que só consigo definir como sendo bizarro.

Sou muito mais o Brasil.

E a partir de agora nada mais de fantasear cidades baseando-se em fotos vistas no weheartit.

É o que acontece quando você tenta ser honesto.

Essa frase entrou na minha vida dias atrás, assim que terminei de assistir ao filme “Era Uma Vez…”. Desde então comecei a refletir sobre ela e a conclusão chegada é simples: é mais difícil ser honesto do que ser desonesto.

Minha família é enorme e isso significa que é repleta de problemas, os principais dele são o tabagismo e o alcoolismo, tendo casos de drogadição e mendigagem como consequências dos mesmos. Não tenho vergonha de falar isso, porque é verdade. Tendo em vista tais problemas dentro de minha própria família, é de se imaginar que procuro distância de quem os possui e não faz parte dela. É assim que me distancio de várias pessoas, não pelo fato de fazer dezenas de discursos moralistas, anti-tabagismo, anti-álcool ou anti-drogas, a questão é que como eu não concordo com tais atitudes, as pessoas acabam me excluindo de seu círculo de convívio assim que iniciam-se no uso de tais substâncias.

O que pode-se observar, porém, é que mesmo em meio a tanta “perdição“, continuo sendo honesta, por mais difícil que isso seja às vezes. Não digo que nunca tive vontade de fumar ou beber, porque estaria mentindo. Ter vontade é natural e humano, ceder-se a essa vontade é o que te torna honesto ou não. No caso, uso a palavra honestidade pelo fato de eu ser menor de idade, o que torna o uso de qualquer uma dessas substâncias automaticamente ilegal, tendo em vista que mesmo as legalizadas pelo Estado são proibidas para menores de dezoito anos. Talvez eu beba algum dia, quando for mais velha e estiver numa festa de casamento por exemplo, ou talvez eu passe a ver sentido na coisa e vire uma bêbada perdida da vida, digna de pena dos meus familiares e causadora de mais sofrimento para eles, realmente espero que não, mas não posso prometer nada, não mando no futuro. Tudo que posso dizer é que até hoje eu nunca fiz nenhuma dessas coisas, simplesmente porque as considero erradas e bobas. Não entendo quem necessita de tais substâncias para ter momentos de alegria, felicidade ou êxtase. Não somente porque consigo tais momentos ingerindo um bom pedaço de chocolate, mas porque não vejo como possa valer a pena fazer uso de tais dejetos.

Sou completamente convicta de minha honestidade, nunca tendo roubado ou feito qualquer coisa considerada ilegal.

Respeito a liberdade individual de cada um, portanto não tento interferir nas escolhas feitas por meus conhecidos. Cada um age conforme suas crenças e eu nada posso fazer além de respeitar as decisões e opiniões de todas as pessoas, mesmo que discorde da maioria delas.

Depois de muitos anos tentando impedir que algumas das pessoas que eu amo perdessem suas vidas para os malditos vícios, resolvi fingir que não me importo, deixar para lá, liberar-me de tal peso e fazer com que cada um tenha consciência de sua própria escolha.

Tenho dezessete anos e nunca coloquei uma gota de refrigerante na minha boca. Há uns cinco anos todas as pessoas que me conhecem e sabem de tal fato perdem vários dias tentando me convencer a tomar aquela coisa gasosa e fétida, eu recuso a cada uma das ofertas. As vezes educadamente, as vezes rudemente, depende da quantidade de vezes que ela já foi feita pela mesma pessoa. Nunca cedi e nem pretendo. Não deixo de fazer o que acho coerente, certo e o que me é natural apenas para agradar terceiros. Enquanto não beber refrigerante me fizer feliz, não beberei. Se algum dia sentir vontade de beber, porém, beberei. Sou dona de minha própria vontade e tenho consciência dela. Não cedo fácil, em nenhum sentido.

Acho que de todas as coisas que eu sou a que eu menos sou é “influenciável“. Eu sou influenciadora, manipuladora, dissipadora de ideias, mas são pouquíssimas as pessoas que já conseguiram me influenciar, manipular ou que me fizessem acatar suas ideias (não que eu tenha absoluta consciência de todas as vezes que já fui levada a crer em algo e das vezes que o fiz por livre e espontânea vontade). A questão é que eu influencio, manipulo e dissipo ideias boas, construtivas, reflexivas e renovadoras. A pior coisa que eu posso fazer é levar alguém a crer que o chocolate é a melhor coisa que existe. No resto tudo que eu faço é recomendar boas músicas, filmes, livros, pensamentos, ideias etc e tal. Não consigo me imaginar tentando influenciar alguém para algo ilegal, mesmo porque a maior ilegalidade que eu já cometi foi sentar fora do lugar do ensalamento.

Então deparo-me com gente que diz que eu estraguei algumas pessoas. Gente que diz que pelo fato de eu querer fazer faculdade de Ciências Sociais sou automaticamente uma má influência. Gente que acha que assim que eu pisar na reitoria me transformarei numa bicho grilo que veste saia longa, usa dread e fuma maconha para conseguir resolver provas. Gente que pensa que outras pessoas começaram a usar substâncias nocivas a elas sob a minha influência. Não admito essas coisas. Sou a pessoa que espera o sinal ficar verde para atravessar a rua, mesmo que tenha como atravessá-la enquanto ele está vermelho. Sou a pessoa que devolve o troco quando recebe a mais e que abomina gente que fica bêbado o tempo todo. No dia em que alguém começar a fumar, beber ou se drogar sob a minha influência, o mundo estará realmente perdido.

Porque eu posso confiar em pouquíssimas pessoas, mas confio em mim mesma e sei que jamais faria isso.

Então se alguém ao seu redor começou a agir de uma maneira que você não concorda, não saia colocando a culpa nos últimos que ele conheceu. Não coloque a culpa em ninguém, a não ser nele mesmo. Quem é bem resolvido consigo mesmo não cai nesses papos furados de “amigos”. E lembre sempre que se seu amigo passa a agir de uma forma que você não concorda, cabe a você tentar alertá-lo dos males que está causando para si próprio, expondo os fatos da maneira que ocorrem. Sem tentar influenciá-lo a “voltar ao caminho da luz

E se você me conhece e realmente acredita que eu seja capaz de influenciar alguém a alguma coisa errada, saiba que não é porque as pessoas ao meu redor agem de certo jeito que eu concordo com isso, mas não é porque discordo que devo me afastar. Cada um escolhe ser o que quer, eu só posso respeitar as diferenças que nos cercam e continuar seguindo minhas crenças, da maneira que acho coerente.

Eis que o Silêncio grita.

Nunca havia visto o silêncio falar tão alto. Ultimamente venho notado que o ser humano tem uma necessidade incessável de falar e ser ouvido, precisa de atenção, as vezes muito mais do que realmente consegue obter, a verdade é que todos nós gostamos de ter alguém por perto que esteja ali simplesmente por querer estar ali, sem se importar com rótulos e afins.

O silêncio grita porque ele não existe. São poucas as pessoas que se sentem confortáveis em ambientes silenciosos, poucas sentem-se confortáveis consigo mesmas, poucas tentam entender seus pensamentos, poucas tentam realmente ser algo, enquanto a maioria está preocupada em ter coisas.

Vivemos acostumados a submeter as nossas vidas a tudo e todos que tentam mandar em nós, não digo isso apenas por experiência própria, é o que tenho visto. Poucos são os que são autênticos o suficiente para chutar tudo aquilo que fazem por obrigação e fazem somente aquilo que realmente lhes fornece prazer. Certo é que a maioria diz que nem tudo são flores, que para se chegar ao céu é preciso passar pelo inferno, no fim, precisamos do desequilíbrio para que valorizemos o equilíbrio.

Tenho sentido inveja dos animais considerados “irracionais”, porque eles sim valorizam a vida, fazem tudo instintivamente, sem grandes intenções por trás, sem esperar grandes coisas, sem se decepcionar, fazem tudo que é necessário como é necessário, não sentem essa insatisfação que não nos abandona nunca, não, para eles está tudo bom, tudo sempre bem, é uma vida fácil e boa. Queria ser um pássaro, deve ser legal sair voando por aí, sem lenço nem documento.

Mas eu sou humana e vivo num mundo cheio de gente que finge que ser o que não é e tem vergonha de quem gostaria ser. O humano almeija a perfeição e quanto mais próximo chega dela, mais ele almeija, estando assim eternamente insatisfeito. Testam seus limites, mesmo que ninguém os peça para fazer isso, estão sempre em alguma competição, mesmo que seja contra eles mesmos.

Enquanto isso o silêncio está apenas lá, sozinho, esperando que nos aproximemos dele e sintamos seu sabor.

Certamente sou insatisfeita, nada nunca me satisfaz, porque não sei o que eu busco. Felicidade é algo extremamente lindo e necessário, mas fútil demais para ser o ideal máximo de vida. Amor é maravilhoso, mas difícil de ser encontrado em meio a tanto ódio e tanta superficialidade. A arte é o que me prende aqui, o que ainda consegue me surpreender um pouco e me fazer respirar, sentir algo. As vezes eu só queria sentir algo.

Realmente espero que todas as pessoas que conheço atinjam seus ideais de vida, quanto a mim, continuarei a pensar e escrever sobre isso, dinheiro não é assim tão necessário, pelo menos não em grandes quantidades e enquanto eu não achar algo pelo qual valha a pena lutar, continuarei sem lutar por nada, vivendo passivamente e banalmente. Chata, como sempre fui. Fútil, ridícula e mimada. Super-protegida e insatisfeita, eternamente.

Se algum dia algo muito bom acontecer por aqui, bom o suficiente para me fazer levantar da cama com um sorriso no rosto e vontade de lutar, a vida perderá seu sentido, porque ela só faz sentido enquanto não descobrimos o nosso real ideal, depois que fizermos isso, de nada mais adiantará continuar aqui.

Eu amo muita coisa, meu coração acelera a cada vez que presencio muitas coisas, muitas coisas despertam bons sentimentos em mim, mas a felicidade só é real quando compartilhada e enquanto estiver aqui sozinha, somente o silêncio poderá me compreender – se algum dia eu conseguir ouví-lo – a verdade é que sem a minha mãe por perto (o único e supremo referencial de amor que possuo) fico assim, abobada e desesperada por algo que seja ao menos real.