Life is not how they tell to you.

Tive uma aula de sociologia bastante chata hoje, onde o professor passou 50 minutos tentando nos dar lição de moral. Talvez alguns tenham aproveitado tal aula, mas não acrescentou nada à minha humilde vida. Porque ao contrário de muitos eu não busco dinheiro e fama, quero apenas espalhar amor por aí e ter uma vida notável, que seja importante para alguém, quero ser guardada na memória das pessoas, não importa que tipo de memória.

Tenho passado muito tempo a pensar sobre meu modo de ser e agir, concluí que seleciono muito as pessoas… Há aquelas que considero meus amigos e que aceito todos os defeitos e qualidades, aquelas que eu admiro e acho possivelmente interessantes e todo o resto é um bando de idiotas ridículos que não vivem, apenas existem e têm sua existência baseada em ações feitas por antepassados. Pessoas condenadas a viver a partir do que veem na televisão e afins. Não é que eu me ache superior, apenas me acho diferente o suficiente para não encaixá-los em nenhum dos meus esteriótipos, esteriotipando-os assim como meros “idiotas”.

Andei analisando nosso contingente de vida e notei que raramente realmente fazemos algo que nos agracie, vivemos condenados a fazer coisas que os outros consideram necessárias a nós. Coisas como ir para a escola, tomar banho e fazer três refeições diárias, por exemplo. Isso sem falar em escovar os dentes, usar roupas etc e tal. São raras as oportunidades de esteriorizarmos quem realmente gostariamos de ser, de passar para o mundo a mensagem que nos dignamos responsáveis por transmitir.

A minha mensagem é essa.

Sua vida não vai ser aquilo que você imagina. Desde pequeno enfiaram contos de fadas na sua cabeça e você ficou aí, imaginando como seria belo se tudo fosse daquele jeito, achando inútilmente que talvez as coisas realmente possam ser de tal jeito, mas bem… Elas não podem. Você pode ter sonhos lindos e maravilhosos, expectativas perfeitas, desejos imensuráveis, mas isso não significa que os realizará da maneira que os vê em seus sonhos. A vida é limitada. A sociedade nos limita, não que isso seja ruim, pelo contrário, ruim seria viver longe da sociedade, longe do sistema, longe das pessoas e das relações de interessa que elas criam. Mas por estarmos condicionados a viver em sociedade, devemos limitar nossa vida a ela. Não dá para achar que só porque você digna tal coisa certa e importante, você pode fazê-la. É necessário saber se a sociedade aceita isso. Ser contra o sistema é maravilhoso. Ser revolucionário é lindo, ideais são muito bem vindos, mas eles não são tudo. Os ideais podem basear a sua vida, mas você não pode construir sua vida baseando-se somente neles. Não dá pra achar que só porque você vê o mundo de um jeito, este é o jeito certo e você deve coagir o maior número de pessoas possíveis a pensarem da mesma maneira. A diversidade é linda e cabe a nós somente aceitá-la.

Então, talvez você não seja o médico de sucesso que desejaria, talvez você não seja o melhor advogado do país e talvez eu não consiga fixar a minha pessoa na memória de alguns, mas a nossa tentativa é válida, porque só nós podemos fazê-la.

Passar no vestibular não garantirá uma vida plena em feliz, ter uma vida bem sucedida também não. Talvez você estude e trabalhe como um condenado e ainda tenha que se privar de muitas coisas ao longo dos meses, para conseguir se sustentar. A vida não é como um bolo, que basta seguir a receita para dar certo. Não há receita alguma. A vida não é como uma peça de teatro que você ensaia meses antes de apresentá-la, não dá para ensaiar. É tudo no improviso. Cada dia da sua vida é escrito à caneta em uma folha em branco. Num mundo onde não há corretivo! Não existe a opção “testar antes de usar”, não existem opções. Suas escolhas têm consequências diretas. Toda escolha é uma recusa, toda escolha gera uma consequência. Você tem que aprender a lidar com as consequências, encará-las. Frente a frente. Não vai ter um príncipe encantado e um “felizes para sempre” no final. Você é responsável por tudo aquilo que você será. Então, antes de planejar que curso fazer, que emprego aceitar, qual salário ganhar, pense apenas em quem você quer ser, como você quer ser lembrado e gaste seu tempo empenhando-se a ser esse alguém. Fodam-se os rótulos e as pessoas com mentes quadradinhas que nunca aceitarão uma quebra no protocolo. Não deixe se abater. A vida é agora e você pode fazer ela ser a melhor do mundo.

Só não seja muito radical em suas escolhas, pois sua liberdade acaba quando a do outro começa e não dá pra decidir sua vida esquecendo-se a vida de todas as pessoas que são influenciadas por ela.

Ame. Ame muito. Ame pessoas, lugares, cheiros, cores, objetos, apenas ame. É o suficiente. É completamente suficiente. O amor é a resposta para tudo. O amor é suficiente.

E sim, eu sou a garota estranha que é legal com quem quer, grossa com quem quer e ridícula quando quer. Aquela que não é definida por rótulo algum e por todos ao mesmo tempo. Prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Desculpe-me caso isso te ofenda.

Devaneios de uma alienígena.

Eu estudo na escola mais cara dessa cidade. Convivo com filhos de políticos, grandes médicos, advogados, psicólogos entre outras categorias renomadas e super valorizadas pela sociedade atual. Sou obrigada a saber sobre os produtos da apple, porque falam tanto neles, que acaba sendo impossível desconhecê-los. Convivo com problemas de origens extremamente fúteis, como entrar em pânico por não ter conseguido comprar um vestido novo para ir a tal festa ou chorar por não ter conseguido um camarote para o show tal. Enquanto isso, vivo numa família de classe média, com um pai desempregado e uma mãe aposentada, em que meu irmão foi obrigado a trabalhar mais cedo para ajudar no sustento da casa. Por causa da escola cara, somos impedidos de fazer muitas coisas, frequentar muitos lugares e até “organizar” a casa do jeito que minha mãe desejaria. Mas, a educação é importante e sob o ponto de vista dela, é melhor estudar numa boa escola do que ter uma casa bonita. Não discordo. O visual da minha casa não me incomoda nem um pouco, muito pelo contrário, eu ficaria demasiadamente incomodada caso fosse uma casa enfrufruzada e cheia de frescurinhas. Estou tentando dizer que me sinto completamente deslocada naquela escola. Uma alienígena. Completamente estranha. Em um lugar que não me pertence. Não reclamo, porém, porque acredito realmente que a educação seja importante e que infelizmente na atual conjuntura do país, o ensino público é muito inferior e não traria o mesmo alicerce que o pago trás. Infelizmente. No entanto, não estou aqui para reclamar do meu ambiente escolar. Depois de cinco anos naquele lugar, passei a aprender a conviver com aquele tipo de gente, adaptei-me e até entro nos assuntos que considero fúteis. Meu irmão sempre diz que eu deveria estudar na escola pública da esquina, porque não há melhor ensinamento do que a vida e a vida burguesa das escolas particulares é completamente mascarada. Uma realidade fictícia. Um mundo visto sob lentes cor-de-rosa. Talvez ele esteja certo.

É ano de vestibular. Sim, mais uma vez estou aqui falando sobre isso. Não porque me importo com o vestibular, não porque acho que ele vai decidir o meu futuro, não porque estudo desesperadamente para ser aprovada nele. Não. Apenas porque é um assunto que me deixa indignada das mais diversas maneiras possíveis.

É ano de vestibular e as pessoas estão decidindo que caminho seguirão em suas vidas. A preocupação principal é aliar algo que goste de fazer, com algo que lhe proporcione bom retorno financeiro. Todos falam sobre isso. Vi muitos musicistas desistirem de seus sonhos por não o considerarem economicamente satisfatório. Vi muitas pessoas desistirem dos sonhos mais diversos simplesmente por crerem que tal profissão não propocionaria a ele uma vida bem sucedida. Acredito que grande parte desse pensamento seja advinda justamente dessa família bem sucedida. É impossível que um grande empresário aceite que seu filho não quer fazer faculdade, quer virar hippie ou qualquer coisa assim. Eles querem filhos tão bem sucedidos quanto eles. Querem propagar a espécie. É o instinto animal falando alto. Sinto-me completamente alheia a isso. Dinheiro não me apetece. Talvez por viver numa família que não liga muito para isso, talvez por perceber que uma boa conta bancária não significa uma vida plena e feliz. Não sei. Só não consigo sequer pensar em planejar meu futuro baseando-me em “dinheiro”.

Quando eu era criança imaginava-me milionária. Uma super atriz, vencedora de vários prêmios, com uma super mansão em cada uma das cidades legais do mundo, cheia de filhos e que ficava revezando entre as casas, para diversificar a cultura e o modo de analisar as situações. Ultimamente quando paro para imaginar o meu futuro, quando penso onde estarei daqui a 10 anos, imagino-me com uma calça larga, uma camiseta regata justa, um cabelo completamente bizarro, o rosto cheio de rugas causadas pelo Sol, um sapato “de velha”, ao lado de um trailler em um acampamento. Vejo-me com uma banca de livros, vendendo-os para conseguir dinheiro suficiente para alimentar-me e pagar a gasolina. Vejo meus filhos voltando de mais um dia na escola, que eles frequentam na cidade dos avós, onde moram, enquanto eu viajo por aí e os carrego nos finais de semana, férias, feriados. Os filhos mais velhos ao meu lado, lendo filósofos clássicos e estudando sobre as coisas mais diversas possíveis, enquanto os mais novos brincam e correm. Vejo uma grande fogueira com uma grande família ao redor, fazendo mashmellows assados e comendo-os, junto com alguns coelhos que caçamos por aí e outros animais da região. Vejo-nos dormindo empilhados em nosso trailler, como uma família grande e feliz. Vejo-me não como apenas mais uma estudante no mundo, uma pessoa que resolveu fazer da vida um grande objeto de estudo. Vejo-me estudando a sociedade através da minha vida, da minha família. Construindo grandes alicerces, simples, mas profundos. Relações de amor. Não só entre eu e minha família, entre todas as pessoas. Vejo-me fisicamente dilacerada, por doar-me tanto ao serviço da vida. Vejo-me ajudando as pessoas, simplesmente por fazer. Fazendo peças de teatro por aí, ensinando música popular para as crianças, dando reforços de matemática ou qualquer outra coisa. Sem pensar no retorno financeiro de tais ações, apenas concretizando-as.

Não vejo sentido em estudar até os vinte e poucos anos, trabalhar até os sessenta e só então ser livre para viver a vida. Talvez eu faça de cada uma das minhas viagens uma grande pesquisa e me fixe em alguma cidade por algum tempo, para publicar minha pesquisa e tentar mudar o mundo através do sistema também. Não quero ser contra o sistema, longe de mim. Só não consigo me ver presa à terra. Talvez minha infância nômade tenha gerado cicatrizes um pouco mais profundas do que meus pais pensam. Eu gosto dessa ideia. De ser livre por aí. As pessoas pensam em juntar dinheiro para comprar uma casa, um carro, um cachorro e depois gastar muito dinheiro com móveis e apetrechos que enriqueçam a casa. Eu me vejo com um trailler. Só quero dinheiro para isso. Depois dele, posso até viver sedentariamente em algum momento, mas em casas alugadas, para poder mudar-me sempre que tiver vontade. Não vejo sentido algum em acumular bens materiais, em ter várias roupas etc. Não quero viver longe da tecnologia, o que seria de mim sem ela? Preciso ver meus filmes, ler meus e-books, blogs e afins. Preciso de um computador para escrever, porque é escrevendo que consigo transparecer tudo que gostaria, ser quem eu sou, sem medo algum. Só não consigo pensar em dar aula sempre no mesmo lugar, fazer sempre a mesma coisa. Rotinas cansam. Não vejo necessidade delas. Para que dinheiro? Vale mesmo a pena trabalhar a vida inteira para estar velho demais para usufruir tudo que economizou quando tiver disponibilidade para isso? Trabalhar para deixar seus filhos com uma vida boa? Desculpem-me, mas 70% das pessoas da minha escola sofrerão muito quando forem lançadas no mundo real, aquele que não gira em torno delas e que ser filho do fulano não vai adiantar em nada. Mais uma geração de super-protegidos é o que realmente precisamos?

Entristeço-me com essas coisas… Considero tais pensamentos fúteis e superficiais. Metódicos demais, sistemáticos demais, alienados demais. Não me vejo inserida nesse sistema. Não me vejo trabalhando em algo “sério”. Vejo-me fazendo qualquer coisa, menos isso. Talvez meu sonho do trailler não se concretize e eu vire uma atriz frustrada como muitas outras, que mora em uma kitnet porque nunca conseguiu criar relações profundas o suficiente com alguém. Talvez eu vire uma professora chata e frustrada, que cria gatos e bebe para esquecer da vida. Talvez eu seja corrompida das mais diversas maneiras possíveis. Só sei que muitas coisas podem acontecer na minha vida e eu concluí que devo estar aberta a elas, disposta a encará-las, sem preconceitos e julgamentos. Deixar as coisas acontecerem. Acho que com toda minha experiência de vida até agora, posso dizer que sou um camaleão, não porque meu cabelo muda de cor constantemente, porque me adapto às mais diversas situações com uma facilidade incrível. Vivo nos mais diversos meios sem me impressionar muito com eles. Admiro essa qualidade em mim mesma, pretendo explorá-la.

Talvez esse texto não faça o menor sentido e ninguém tenha paciência de lê-lo por inteiro e talvez quem o ler não reflita sobre nada e continue levando sua vidinha normal de sempre, mas eu tentei. Tentei passar a minha ideia de que um salário de vinte mil reais não vai te deixar mais feliz do que o brilho nos olhos de alguém que aprecie o seu trabalho. A nossa meta de vida deve ser encontrar pessoas, amá-las. Amar, como se nada mais fizesse sentido. Dinheiro pode até ser útil, mas é algo secundário. Todos sabemos que ele é necessário, mas é possível viver com pouco e ser mais feliz do que os que vivem com muito. Acredito no amor utópico, embora tente desvencilhar-me dele das maneiras mais diversas possíveis. Acredito que amar é a melhor maneira de viver. Por isso me vejo dilacerada daqui a dez anos. Sugada, como se cada uma das pessoas que eu amo roubasse um pouco do meu sangue, um pedaço do meu coração. Na verdade elas realmente fazem isso. Vejo-me dilacerada porque nem 10% das pessoas que amo retribuem e a não retribuição dos outros 90% é capaz de estraçalhar-me.

Porém, sei que mesmo que eu seja pobre, feia, tosca e chata, terei a minha família. Os meus pais, irmãos, sobrinhos, meus 10 tios, 50 primos e todos os agregados e futuros descendentes que virão. Sei que onde quer que eu vá haverá alguém por mim, que faça tudo valer a pena e que mesmo que os olhos de mais ninguém brilhem ao me ver, os deles brilharão e isso é o suficiente. Pelo menos por enquanto.

Acredito piamente que mesmo tendo uma renda deveras inferior à do resto das pessoas da minha escola, o amor que minha família transmite torna-me infinitamente mais feliz e se a felicidade é o nosso objetivo aqui, isso é o suficiente. O amor é suficiente.

What The Hell.

Então que faz quase um mês que estamos planejando esse feriado. Faríamos nossa primeira festa do pijama, cada uma levaria uma guloseima diferente, estava tudo preparado, as atrações, o local, a data, tudo, detalhadamente programado. Mas o Ser Superior, aquele que projeta os nossos destinos, não quis que tal fato se concretizasse. Então, talvez por prever possíveis desastres decorridos de tal festa, ele fez com que nossa anfitriã ficasse doente e passasse o feriado sofrendo amargamente. Coitada dela, de verdade. Porque sabemos o quanto esse feriado foi esperado, o quanto programamos tal festa e o quanto necessitávamos de um pouco de diversão e relaxamento. Não reclamo tanto por mim, porque ainda tive meus quatro dias de folga, mas a coitada passou os quatro dias sofrendo com crises asmáticas e afins, então nem deve ter descansado, coitada. Espero que melhore, de verdade. Espero que possamos fazer nossa festa algum outro dia, quem sabe e se não der, é porque não era para ser mesmo.

Enfim. Acordei cedo, tudo planejado para ir a tal festa. Foi desmarcada. Tudo bem, ainda teria o meu cinema com meus amigos. Almocei rapidamente e encaminhei-me para o shopping. O plano era assistir a “Quebrando o Tabu”, um documentário que desmestifica a questão das drogas, promete desmestificar, pelo menos. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aparece, junto com alguns ex-presidentes estados unidense e afins, parece realmente interessante. Segundo o site do cinema o filme passaria às 13:50. Chegamos lá. O horário mudou, a primeira sessão seria às 20:10. Ninguém estava afim de ficar até essa hora num shopping. Porque sim, ao contrário do que se espera de jovens da capital, não gostamos muito da ideia de desperdiçar tempo em shoppings. É um tanto leviano demais. Portanto resolvemos assistir a algum outro filme que começasse por perto. “O Homem ao Lado” foi o escolhido. Até aí tudo bem. Estávamos então em um cinema completamente desconhecido, num shopping que eu jamais havia frequentado, “Shopping Novo Batel” era o nome. Compramos nossos ingressos e nos deparamos com uma grande porta marrom, no meio do nada. Lá era a sala de cinema. Um tanto fora do convencional, eu diria, mas tudo bem. Entramos. Estava escuro, não havia nada, exceto uma cortina preta. Senti-me um trem fantasma, desses parques de diversão que frequentamos às vezes. Não sabia como sair dali, para onde seguir, onde estava de fato o cinema. Apalpamos a cortina e encontramos uma abertura, a puxamos, abrimos e adentramos no recinto. Uma sala de cinema enorme, muito grande, talvez a maior que eu já vi. Talvez não seja de fato tão grande, mas meu medo e aflição naquele momento me fizeram visualizar algo extratosférico. Não havia luz. Nem um restício de luz. Nada. Uma escuridão completa e eu, que já não sou a pessoa mais segura do mundo, estava aflita. Muito. Apalpamos muitos lugares, tentamos utilizar o celular para enxergar algo. Em vão. No fim, conseguimos encontrar as cadeiras, nos sentamos. Não havia mais ninguém no cinema. O filme começou. Era um filme argentino, uma história de vizinhos, um filme bizarro, intrigante, engraçado sem ser xulo, cômico sem precisar contar piadas. A realidade transmitida ali com tamanha simplicidade tornava tudo mais engraçado ainda. E o filme não acabava. Tomadas de cenas fantásticas, fotografia impecável, tiragens de câmera que eu jamais pensaria em fazer, diálogos divertidos, coisas inusitadas, personagens caricatos, mas não acabava. Em meio a um de meus devaneios filmísticos, portanto, ouvi um pigarro. Olho para trás. Tinha mais dois homens no cinema. Dois homens estranhos, sentados separados. Nunca entendi quem vai ao cinema sozinho, não consigo ver a graça, não faz sentido. Mas eles estavam lá. Um em cada canto, nós ali no meio e a imensidão da sala vazia. Completamente vazia e escura, completamente escura. E depois de muitas confusões entre Victor e Leonardo, os protagonistas do filme, depois de entendermos que a nossa liberdade termina quando a do outro começa e depois de pegarmos a crítica à burguesia expressa ali, tudo que eu queria era que aquele filme terminasse logo. Sentia aflição, medo, vontade de rir, angústia, tudo ali, misturado. Era como se eu estivesse num lugar de ninguém, perdida, esperando ser encontrada. Ainda não fui encontrada, talvez eu nunca seja. O filme terminou. Saímos daquela sala, vi luz de novo, ela penetrou nos meus olhos, me transmitiu paz e segurança. Senti-me disposta a voltar para casa. Leve. Como se tudo aquilo tivesse sido apenas mais um pesadelo. Uma aventura dessas que parecem fúteis mas te transformam por completo. O que aprendi no final foi muito mais do que aquele filme podia me ensinar. Talvez eu tenha me encontrado ou talvez apenas voltado ao normal.

O que importa é que esse Ser Superior que tem o dom de transformar o meu destino sem nem pedir licença, que muda minha cabeça e a de todas as pessoas a minha volta, esse tal Ser que faz com que eu perca muito tempo da minha vida questionando-me sobre ela, esse Ser louco e insano que eu xingo praticamente todo dia o dia inteiro, hoje fez alguma coisa certa. Porque eu não fui feita para planejar as coisas. Não fui feita para seguir regras, costumes ou boas maneiras. Não fui criada para ter uma casa enfrufrusada, cheia de coisas inúteis que são consideradas bonitas por alguns. Não fui feita para agradar os outros. Fui feita para viver à minha maneira. Do meu jeito. Da maneira que eu considero melhor. Para fazer as coisas intensamente, sem me preocupar com as consequências, sem raciocinar muito obre elas. Fui feita para viver, simplesmente isso. Para sair andando por aí, sem rumo, apreciando o céu, respirando o ar puro e cantarolando. Nasci para apreciar a arte, as pessoas, não para tentar entendê-las, para apreciá-las. Para apreciar a beleza que cada um emana, apreciar os defeitos e qualidades que todos possuem. Fui feita simplesmente para apreciar, ser espectadora. Sou uma ótima espectadora. Talvez eu sirva para fazer alguma coisa, talvez eu possa ser digna de algum tipo de atenção, mas não agora. Talvez, algum dia eu encontre algo que me pertença, um grupo que me encaixe, alguém que me complete, mas não agora. Não. Agora é o momento de apreciar.

Posso apreciar a sua vida também?

É, eu seria como o Victor. Faria uma janela que desse para a tua casa e passaria os dias inteiros lá analisando seu modo fútil de viver. Anotando seus erros para lembrar-me de nunca cometê-los. Analisando, observando. No fim, é o que eu faço de melhor mesmo. Então, é isso… Bom final de semana para vocês.

Deixando de ser Reacionários

Desde a época da ditadura militar, onde os jovens pintaram as caras e saíram às ruas exigindo a redemocratização do país, em movimentos como o das Diretas Já, os jovens tornaram-se passivos em relação à política do país.

Há anos não se houve falar de passeatas, movimentos, marchas, é como se com o passar do tempo os jovens tivessem apenas perdido seus ideais e achassem muito mais fácil aceitar o mundo do jeito que é ao invés de tentar mudá-lo.

Um dia desses tive que fazer uma redação na escola e o texto base era uma entrevista com um cara que dizia que os jovens de hoje não têm mais nada para lutar por e que atualmente o mais próximo de “sagrado” que existe é família, pois muitos até deixaram de acreditar em Deus, que há alguns anos era verdade absoluta.

Ontem ouvi uma frase de Gandhi muito interessante, em que dizia “Tudo que você fizer será insignificante, mas é muito importante que você o faça.”

Com essa frase apresento a vocês a Marcha das Vadias

Lembram do meu último post, sobre a minha indignação perante às atitudes masculinas? Então, essa marcha é mais ou menos com o mesmo propósito. Essa marcha surgiu em Toronto, no Canadá. Em uma universidade teve uma palestra sobre segurança em que o palestrante pedia às meninas para não se vestirem como “vagabundas” para evitar estupros. O termo original é “Slut Walk”, ou seja, “Marcha das Vadias”. O intuito é conscientizar os homens que as mulheres são livres e podem se vestir com quem quiserem, transar com quem quiserem, fazer o que quiserem. Conscientizá-los de que não é porque elas usam minissaias que querem transar com eles e de que elas não se vestem somente para impressioná-los, mas para se sentirem confortáveis e seguirem seus ideais de moda. O objetivo é mostrar que as mulheres são vítimas em casos de estupro e não as causadoras de tal ato. Nenhuma mulher quer ser estuprada. O problema é com os homens que cometem tais atos. Depois de vários protestos ao redor do mundo, chegou a vez do Brasil. Ontem em Belo Horizonte milhares de mulheres se reuniram em prol dessa causa, com cartazes muito bons.

 E comprovam mais uma vez o que eu disse no post anterior, as mulheres não ficam caladas perante a injustiças, elas vão a luta, correm atrás de seus direitos e não deixam passar oportunidades. Isso é apenas mais uma tentativa de garantir o respeito que os homens já deveriam nos dar há um bom tempo. Estamos no século XXI e a ainda temos que fazer coisas desse naipe para podermos nos sentir um pouquinho mais “gente”. Eu teria vergonha de ser homem, meus caros.

Mas a Marcha em Belo Horizonte não foi a única coisa que fez do dia 18/06/2011 um dia histórico. Ocorreu também a Marcha pela Liberdade, essa com proporções muito maiores e em várias cidades brasileiras.

A Primeira Marcha pela Liberdade ocorreu em São Paulo, no dia 28/05/2011 e foi uma reação da população sobre o ocorrido na Marcha pela Maconha, ocorrida dias antes, onde a polícia agiu de forma repressiva sobre os manifestantes, utilizando-se de bombas de efeito e balas de borracha para tentar impedir que aquela manifestação tivesse proporções maiores. A Marcha pela Maconha era apenas uma forma de expressar a vontade do povo, manifestações do tipo não são proíbidas no país e a repressão da polícia foi desnecessária, além de absurda. A Marcha da Liberdade, portanto, surge com o intuito de tornar o cidadão de fato livre para expressar-se sobre o que quer que tenha vontade.

No site oficial do manifesto, há um convite para a sociedade participar do movimento, lá ficam bem claros os ideais pregados e o que se espera dos manifestantes. Segundo o site, eles querem uma sociedade igualitária, com amor e respeito. Convocam todos os tipos de pessoas, de todos os grupos, classes sociais e possíveis “rótulos” para lutar em prol de um bem comum, a liberdade de expressão. O objetivo principal da Marcha é conseguir uma regulamentação que proíba o uso de armamentos pela polícia em manifestações sociais. Eles ainda afirmam ser contra o conservadorismo presente no Estado e no judiciário. Querem realmente ser livres, como nos é de direito.

Essa manifestação passou pela minha rua ontem. Eu até pensei em descer para participar, mas não sabia do que se tratava, foi por isso que resolvi pesquisar e foi isso que motivou esse post. Foi uma manifestação muito linda de ser vista. Muitas pessoas de bicicleta, as mesmas que participam do movimento que me faz acordar cedo em vários domingos, aquele que eu nunca soube do que se tratava, mas sempre me faz ir para a janela e gritar junto um pouco de “Menos carro! Mais bicicleta!”, muitas pessoas com cartazes sobre vários movimentos, bandeiras de arco-íris, bandeiras do PSTU, pessoas entoando a cada minuto um hino diferente, em unissono. Vários ideais sendo propagados, com certeza ideais que não atingiam todo aquele grupo, mas nem por isso eram considerados menos importantes.

Em meio a toda aquela gente o que mais me chamou atenção foi o rapaz que carregava um violão. Sou dessas que se encanta com as coisas mais simples e para mim aquele cara com o violão, parando nos semáforos e indo até os carros tocar algo, provavelmente lindo e significativo, me mostrou que é possível fazer a revolução pacificamente, tornando cada pequena coisa um pouco mais bela. Além do cara do violão, havia também algumas mulheres segurando corações de cartolina, aquele típico clima de “rosas entre guerras”, sabem? Bom, eu sempre vejo imagens do tipo na internet, uma guerra f*dida acontecendo e uma pessoa com uma rosa na mão, algo assim. Essa moça do girassol também é da Marcha da Liberdade, só não sei de qual cidade.

O fato é que foi uma manifestação que simplesmente me encantou, pela simplicidade, organização e depois que eu conheci um pouco melhor o movimento em sí, me encantou pelos ideais e objetivos. Senti um arrependimento amargo por não ter saído da minha zona de conforto e ido junto com eles nessa marcha pela liberdade.

E, bem… Depois de ter convivido apenas com dois tipos de manifestação ao longo da minha vida, um deles sendo a Parada Gay e o outro sendo a tal marcha das bicicletas, citada àcima, do qual pouco sei sobre, senti-me orgulhosa pela minha geração estar tomando jeito e criando coragem de sair às ruas em prol de alguma coisa. É bom saber que os ideais ainda existem, que o cheiro de Revolução ainda encanta algumas pessoas. Dá uma esperança a mais, me faz pensar que realmente o mundo pode tomar jeito algum dia.

Lembrei-me agora da Passeata contra o novo código florestal, que ocorreu aqui em Curitiba há algum tempo, onde os estudantes pintaram a cara de branco e foram à luta em prol de alguma coisa.

Neste exato momento minha rua foi interditada pela polícia, porque hoje é o dia mundial do skate e está tendo uma passeata de skatistas. Eu nunca tinha visto tantos skatistas junto, muito legal! Tirei algumas fotos  para vocês terem uma noção:

 

Eu sei que isso não é bem uma manifestação e que não representa a diminuição da passividade dos jovens, mas achei muito legal e tive que compartilhar.

 

 

 

Mais um pouco da “Marcha da Liberdade”

 

Fico extasiada com coisas assim, talvez tenha nascido para ser militante. Serei eu a futura “Lula” do país ou meus ideais morrerão com o tempo e tornarei-me apenas mais uma, reacionária, como tantas outras? Só o tempo dirá.

Estamos aqui para mostrar que temos vez e voz e não vamos ficar calados perante a injustiça. Estamos deixando de ser reacionários aos poucos, nos aguardem.

Parafraseando Gandhi, talvez meus posts, comentários, pensamentos e atitudes sejam completamente insignificantes, mas é muito importante que eu os faça, porque jamais saberei o resultado de algo se não tentar realizá-lo.

Pra finalizar, uma musiquinha para vocês: 

Mais informações sobre a Marcha das Vadias aqui e sobre a Marcha da Liberdade aqui.

Se nós somos o sexo frágil, eles são o quê?

Me irrito profundamente com os homens que acham que nós mulheres somos apenas pedaços de carne e que nascemos com o único objetivo de causar prazer neles. Como se fôssemos vacas, no sentido literal da palavra, e servíssemos apenas para procriar. Como se não tivéssemos sentimentos, como se não pensássemos, como se não fôssemos tão gente quanto eles dizem ser.

Antigamente os homens utilizavam outros homens para obter prazer. Transavam uns com os outros nos campos de batalha e mantiam uma mulher em casa somente para dar-lhes um filho homem e se fosse filha mulher, a dispensavam e pegavam outra. Como se nós fôssemos animais.

Mas as mulheres cansaram de se submeter a essas idiotices masculinas e fizeram o movimento feminista. Queimaram sutiãs nas ruas e conseguiram direitos iguais. Conseguiram direito de trabalhar e receber salários dignos, direito de ser consideradas cidadãs. As mulheres foram à luta atrás do que queriam. Batalharam por isso.

Elas só podiam usar saias, mas uma delas resolveu que queria usar calças. Queria usar roupas anteriormente consideradas masculinas, foi lá e começou a usar. Hoje em dia todas as mulheres usam calças. Agora eu pergunto, quantos homens usam saias? Sim, porque, tirando os escoceses, os outros utilizam-se de datas como o carnaval para vestirem-se com saias e vestidos e saírem aí pela rua. O sonho deles é se vestir como mulher pelo menos uma vez na vida, mas nunca ouvi falar de um movimento machista. Nunca vi um homem com coragem o suficiente para sair de mini-saia pela rua. E por quê? Ah sim! Porque eles são idiotas o suficiente para acharem que uma pessoa é gay apenas porque usa determinada roupa. Eles são tão ridículos que morrem de medo de serem chamados de gays. Não abraçam uns aos outros com medo disso, não demonstram sentimentos com medo disso.

Mas que jogue a primeira pedra a mulher que nunca ouviu um homem falar sobre seu cabelo estar feio, ou ele estar com gordurinhas a mais, ou sobre a roupa nova que ele comprou ontem quando foi ao shopping. Não, pelo contrário, ultimamente é muito mais fácil você ouvir um homem falando sobre bases fortalecedoras de unhas e maneiras de manter o cabelo hidratado do que mulheres tocarem no assunto. Não, muito pelo contrário. São os homens que passam o dia inteiro falando mal um dos outros, tentando provar que são melhores uns que os outros. E quando percebem que o assunto está ficando “gay” demais, jogam um “que mulher gostosa essa, hein?” para se sentirem um pouco mais másculos.

Mas querem saber de uma coisa? Acho muito mais macho um cara que tem coragem de sair por aí de mão dada com uma garota, que tem coragem de olhar nos olhos dela e dizer o que sente. Que tem coragem de vestir uma saia ou passar o dia inteiro vendo um filme de “mulherzinha” enquanto chora desesperadamente. Por que, querem saber de uma coisa? Nós não somos o sexo frágil, apenas demonstramos tudo o que sentimos ao invés de nos escondermos sob máscaras de ferro, como vocês fazem.

Desculpem-me, mas me irrita profundamente conviver com garotos que têm 17 anos e agem como se tivessem 12. São tão covardes e ridiculos quanto. Há um descompasso ENORME entre os dois sexos, uma menina de 17 anos tem muito mais noção de vida do que um menino. Porque enquanto vocês descobrem o que é masturbação e passam as madrugadas vendo pornôs, nós menstruamos e entendemos o fato de que há coisas muito mais importantes na vida do que o prazer corporal, embora ele seja bem vindo às vezes. Isso não significa que nós não pensamos “uau, que cara gostoso!“, a diferença é que nós apenas pensamos, mas continuamos agindo respeitosamente, ao contrário de vocês, que são descarados e sem educação.

E, querem saber de uma coisa? Eu tenho muito orgulho de ser mulher. Não trocaria por nada. Passo pelas cólicas e dias sangrentos sem o menor remorso. Se é para viver nesse mundo de merda, com essa vida de merda, que seja conscientemente e com atitudes. E para vocês, queridos homens, parem de ser passivos e submissos, estão começando a me fazer pensar que não passam de um bando de otários.

Bom, boa noite.

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