O Dilema da Prática

Fazer Ciências Sociais é ter que conviver achando o universo errado o tempo inteiro e se sentir impotente e retardado ao perceber que saber os erros do universo não te torna apto a consertá-los. Foi isso que meu amigo resolveu falar pra mim através de um vídeo enviado pelo Whatsapp, na ocasião em questão ele estava chateadíssimo por ter gastado o resto do seu salário em um livro que ele não ia poder ler naquele momento e que foi caro e que ele não precisaria ter comprado. A indignação consistia no fato de a gente estudar o fetichismo da mercadoria  e ainda assim ser atingido por ela, diariamente, o tempo todo.

Compadeci-me com a causa e embarcamos em uma imensa conversa filosófica para concluirmos o que eu disse na primeira frase desse texto: saber que a coisa existe não nos torna aptos a lidar com ela. Esse é um conceito aplicável às mais diversas áreas da vida e que tem me atormentado horrores. Nossa conversa, porém, me fez tentar agir contra o fetichismo da mercadoria, esforçando-me para comprar só o que acho estritamente necessário e sem ficar com frescuras.

Aí fomos comprar absorvente. Eu e meu irmão, no mercado. Legal como sou, falo “não precisa ir junto, você vai se sentir desconfortável”, sendo que quem se sente desconfortável com essas coisas sou eu, porque nada nunca será mais íntimo que meus absorventes e ter essa intimidade quebrada por alguém que não entende o funcionamento da coisa não me agrada. Encarando a prateleira imensa com diversas marcas, cores, funcionalidades e opções, fui procurar aquele que eu sempre uso. Porque, pra quem não sabe, assim que a mulher menstrua ela passa pela busca por seu absorvente ideal e depois que encontra não quer saber de mais nenhum. E eu lá, procurando e procurando e procurando e lendo as embalagens das novidades e pegando um pacote pra cada ocasião e meu irmão solta “pega esse, vem 32 pelo preço de 28, bem mais barato, pega e vamos”.

Só que não é assim que funciona. Não é. E eu desisti dessa coisa de tentar colocar em prática todas as teorias que eu aprendo, porque isso vai me deixar mais maluca do que eu já sou e porque, pelo amor de Jesus Cristo – se é que ele existiu – se eu não puder escolher nem o meu absorvente mais, o que eu vou poder fazer nessa vida? Falei pra ele que não é assim que funciona e que eu não queria aquele tipo de absorvente, então peguei o que eu queria – meu amado absorvente interno – e ele solta um “mas por que esse? é mais caro” “hm… porque não precisa trocar com tanta frequência, não incomoda, você nem percebe que tá menstruada e não suja de sangue quando vai fazer xixi” “ah e qual a graça de estar menstruada então?”… era pra ser engraçado?

Engraçado é eu encarar algo que acontece com todas as mulheres do mundo como se fosse “assunto proibido” para meninos, porque fui ensinada a nunca conversar sobre isso com ninguém a não ser minha mãe e minhas melhores amigas. Engraçado é eu aprender que há toda uma indústria querendo nos conduzir a comprar coisas fulas que aparentemente nos completarão e na verdade não farão diferença alguma para nosso vazio interior. Engraçado é existir uma prateleira imensa com produtos semelhantes, mas com micro diferenças que só quem os usa percebe e com nomes bizarros e todo tipo de “chamariz” para compra possível. Engraçado é saber que talvez o que era “32 pelo preço de 28” fizesse o mesmo efeito que o que eu gosto, mas não pude me dispor a tentar. Porque era muito mais legal ter um pacote pra cada ocasião, com cores, nomes e funcionalidades distintas. Porque hoje em dia até menstruar me deixa neurótica e insana pensando no quão capitalista, alienada e enganada eu sou. E ao mesmo tempo me faz mandar um “foda-se” e continuar comprando o que estou afim. Tio Marx que me perdoe, mas acho que sou um caso perdido.

E eu que só deixei meu pai saber que menstruei quando tive dezesseis anos, acabo de descobrir que essa é uma palavra muito divertida e estou com vontade de fazer que nem a Summer de “500 Dias com Ela” e sair gritando isso num parque.

Abrindo o Fecho

Eu sempre fui péssima em abrir fechos de sutiãs. Sempre fui péssima em tudo que envolve sutiãs, diga-se de passagem.

Eu tinha sete anos e ia na casa das minhas amigas ouvir Britney Spears escondida enquanto tentávamos dançar como ela. Uma das meninas sempre pegava os sutiãs da mãe, colocava e distribuia pras outras, porque “a Britney tem peitos, também temos que ter!” e eu nunca colocava o sutiã. E dizia “eu não quero ter peitos” e elas diziam “mas toda menina tem que querer ter peitos!” e eu ficava emburrada e ia pra casa desolada imaginando que um dia talvez eu tivesse peitos.

A minha relação com os peitos foi muito proveitosa, não há como negar. Mamãe tinha muito leite e eu mamei abundantemente até dois anos de idade, então enjoei e comecei a fazer birra e ela parou de me dar leite e começou a doar pro resto do mundo. Depois disso, perdi o contato com aquele punhado de pele da mamãe, tendo-o visto nela e em todas as outras mulheres da família inúmeras vezes porque eu detestava tomar banho sozinha. Não tinha a noção de que um dia aquilo faria parte de mim e quando eu descobri isso, fiquei chocada.

Lembro de me olhar no espelho, me imaginar com peitos e começar a chorar. Pensando que se algum dia aquilo acontecesse comigo, seria terrível. Não é que eu ache feio qualquer pessoa ter peito, eu não me importo com os peitos alheios, só não os queria em mim. A simples ideia de que isso pudesse ocorrer me atormentava horrores e quando eu cheguei na puberdade tudo que conseguia pensar era “por favor, que eu não tenha peitos” e, bem, meu desejo foi realizado e eu sou absurdamente feliz com isso.

Só que não ter peitos não faz com que você se liberte do fecho do sutiã. Porque usar sutiã não tem nada a ver com ter peitos, pelo menos não na cultura brasileira a qual estou inserida. Aqui as pessoas usam sutiã para disfarçar o mamilo, porque mamilo aparecendo é tão chocante quanto andar de saia sem calcinha. É absurdamente deplorável, julgável e reprovável. Então, a partir do momento em que os mamilos das meninas começam a se desenvolver, elas são coagidas a usar sutiã.

“Vamos comprar sutiã, filha!” “Pra que, mãe?” “Todas as meninas da sua idade usam… é pra não aparecer os peitinhos no uniforme”

E todas nós caímos nessa conversa. E ganhamos sutiãs bonitinhos, fofinhos, aparentemente confortáveis e podemos ir pra escola nos sentindo mais mulheres, porque sutiã é coisa de mulher de verdade e a partir disso é como se a gente de fato tivesse crescido. E nunca mais paramos de usar sutiã. Os seios crescem um pouquinho e lá vamos nós comprar de um número maior, uma cor diferente, estampa mais bonitinha e acabamos gostando da coisa, ela se torna tão natural quanto usar calcinha e ninguém nunca pensa em qual sua funcionalidade, simplesmente compra e usa.

Só que quando você não tem peitos, comprar sutiã é altamente torturante. Porque não existe um que seja do tamanho perfeito, sempre vai ficar faltando pano nas costas ou sobrando bojo e não importa o quão coloridos e versáteis eles pareçam, eles sempre vão te machucar. Usar sutiã, caros colegas, é uma tortura. É aquela coisa terrível de se sentir presa o dia inteiro por uma coisa que você não faz ideia do motivo para usar, porque pra quem tem peitos ele é super útil! Ele levanta, deixa no lugar e ajuda a distribuir o peso, fazendo com que as costas não doam, é altamente necessário! Pra quem não tem peitos, não serve pra nada. Não tem nada pra levantar, não tem peso nenhum. Por favor, deixem meus mamilos em paz.

E daí cá estou eu, dezenove anos na cara, mais de dez sutiãs na gaveta. Cada um com um modelo e cor e tamanho diferentes, nenhum sendo confortável o bastante para me fazer querer usar o dia inteiro. Sem saber como lavar aquela coisa de um jeito que não estrague e que limpe de verdade e sempre tendo que pedir ajuda pra mãe. Sem habilidade para abrir ou fechar o maldito fecho, sendo obrigada a colocar a coisa do mesmo jeito que a minha vó colocava, ou seja, abrindo e fechando com ele virado pra frente e tendo como única habilidade no quesito “sutiã” o ato de tirá-lo. Porque é a única coisa que eu faço. Porque eu chego em casa e antes de tirar as meias e o sapato vou logo tirando o sutiã daquele jeito que não precisa tirar a roupa primeiro, ou no máximo eu abro ele e deixo ali só pra constar. Porque machuca, dói, aperta, prende, é aquela coisa que eu nunca esqueço que estou usando, não é orgânica à minha pessoa e, AI. Cansei.

Cansei. É isso. Simples assim.

Eu conheço gente que não usa cueca pelos mesmos motivos que eu detesto usar sutiã, só que, por favor, não usar cueca é muito mais problemático, mas como os terceiros não percebem a falta da cueca, ninguém reclama. Só que todo mundo percebe a falta do sutiã, então todo mundo automaticamente julga, cochicha, reclama, intervém e eu decidi lutar contra isso. Romper esses grilhões, rasgar essas amarras e abrir esse fecho. Eternamente. Decidi que só vou usar sutiã quando eu me sentir altamente desconfortável em alguma roupa sem ele – o que acontece as vezes, porque há roupas com costuras no peito que coçam e nesses casos até sutiãs são mais confortáveis – e em todas as outras ocasiões ficarei sem.

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E se você for dizer “Ai, mas é sensual e você já não tem peitos, se não tiver sutiã ninguém vai querer você” eu vou responder que “se a pessoa me quiser ou não baseando-se nas roupas que eu uso ou não, é um babaca tão grande que prefiro manter distância”.

Não Preciso Disso pra Ser Feliz.

Nem pra me sentir completa.

Isso tudo é uma piada. A vida é uma grande piada, contada, diversas vezes, por péssimos piadistas que nos fazem rir só porque chorar na frente deles seria deplorável. A verdade é que o mundo só caminha quando passamos a dotar a ele algum tipo de sentido, não importa qual seja. Tem gente que quer ser feliz, outros querem mudar o mundo, outros querem apenas existir sem que ninguém os incomode, outros não querem nada, mas todos perdem tempo pensando em qual sentido esperam que o mundo e a vida em geral tenha para eles. E eu não me importo com o que as pessoas querem, só fico triste quando percebo que o que as motiva a querer as coisas são coisas com as quais não concordo. E eu sei que eu não deveria me importar que eu não deveria ficar indignada com as diferenças, mas sim aceitá-las, mas, bem, isso é difícil.

Porque desde que eu nasci me disseram que eu deveria viver em busca de uma coisa chamada “felicidade” e eu nunca soube ao certo o que é isso, mas todas as vezes em que senti meu estômago borboletear após algo bom ter acontecido em minha vida, denominei que tive um momento de felicidade. Aos poucos percebi que viver na felicidade é algo que não existe, aprendi que é apenas uma palavra, como todas as outras, uma palavra que tenta simbolizar um sentimento irreal. Ou real por apenas poucos segundos. E isso foi terrível. Porque ver sentido na música de natal que diz “papai Noel, vê se você tem a felicidade pra você me dar/ já faz tempo que eu pedi, mas o meu papai Noel não vem, com certeza já morreu ou então felicidade é brinquedo que não tem” é algo absurdamente absurdo. E todas as vezes que me pego refletindo abruptamente sobre temas que ninguém se importa lembro-me de meu primo assistindo a Clube da Luta e comentando só e unicamente “as cenas de ação são massa, mas esse cara é muito pilhado” e penso que, bem, eu sou muito “pilhada”, o que quer que isso queira dizer. Porque eu simplesmente não consigo engolir determinadas situações sem que isso gere em mim uma reação em cadeia de pensamentos terríveis que, na maioria das vezes, resultam ou em textos chatos, ou em eu descontando minhas neuras em gente nada a ver. Já descontei as neuras hoje, mas não foi suficiente. Precisava fazer um texto.

Eu tinha cinco anos quando disseram que eu tinha casado. Estava sendo daminha do casamento do meu primo, junto com o irmão da esposa dele e disseram que a gente se casou junto com eles. Acreditamos e passamos a noite dançando junto, como os noivos estavam fazendo e depois saímos dizendo que nos amávamos, pois era o que os noivos fizeram. Com seis anos todas as meninas da sala se reuniram e disseram que gostavam cada uma de um fulano, eu tive que arranjar o meu, caso contrário ficaria sem amigas. Com oito anos, os pretendentes eram outros e tínhamos passado a ser mais seletivas. Perdi-me no tempo e consegui sobreviver sem adentrar-me nesse meio torturante em que eu tinha que fingir interesse por um menino idiota só por ser bonito para ter amigas e de repente estava com catorze anos, todas as minhas novas amigas já tinham beijado algum garoto e as conversas em suma maioria eram sobre eles. E eu adentrava mesmo sem ter nenhuma experiência, só porque sempre gostei de meter o bedelho na vida alheia. E eu completei quinze anos e não ganhava mais tantos presentes de aniversário, a maioria das pessoas terminava o cumprimento com “um bom namorado”. Com dezesseis terminavam o cumprimento com “e muitos gatinhos”. Com dezessete davam três beijinhos que era “pra casar” e com dezoito faziam tudo ou diziam “nem adianta desejar essas coisas mais, né?” e eu nunca soube o que fazer nessas situações, na verdade, nunca sequer compreendi as razões para que elas existam.

Atualmente toda semana eu tenho que escutar alguém elencando motivos para que eu arranje um namorado, explicando seriamente sobre o quão a vida melhora quando isso acontece “você se frustra menos”, “beijar é bom”, “é bom ser amado” e tudo que eu consigo pensar é que eu consigo todo o amor que necessito com a minha mãe e meu pai e não estou interessada em procurar mais um ser para esse fim. E tudo que eu consigo pensar é em dizer, ”Por favor, vá cuidar da sua vida”, mas sei que meus pais ficariam chateados com a “falta de educação” e então fico calada. Porque a coisa é tão absurda que a falta de educação não é em meter o bedelho na vida alheia, mas sim em reclamar que estejam fazendo isso, porque “eles falam para o seu bem”. Quem foi o burro que disse um dia que isso seria para o meu bem?

Tenho apenas dezoito anos, mas já estou morta de cansada de rir das piadas engraçadas da vida e de fingir que estou rindo das tristes. Estou morta de cansada dessa gente que tira não sei da onde que a vida ideal é morar numa casa com quintal, ter cachorros, um marido rico e bonito e mil filhos. Não que tenha algo errado em pensar assim, o errado, sob o meu ponto de vista, consta no fato de a pessoa achar seu pensamento tão certo a ponto de tentar implantá-lo na vida de todos os outros seres que encontra. Porque eu não concordo com nada disso, mas só tenho coragem de abrir a boca em situações como esta quando sei que o interlocutor vai entender e não vai apenas dizer “ai, essa aí é uma louca que ainda acredita que pode mudar o mundo” porque, eu não acredito que eu vá mudar o mundo, minha gente! Eu só não concordo com as linhas de pensamento tradicionais e prezo pelo meu direito a ser livre para pensar e agir de acordo com o que eu bem entender! Porque eu nunca cheguei pra uma garota e disse “pare de se sujeitar a essa teoria abrupta de que você precisa estar apaixonada e ter um namorado lindo aos 15 anos para ter um futuro perfeito” eu simplesmente deixei de acreditar nisso e comecei a viver melhor comigo mesma.

Porque não há nada de errado em não querer que sua vida dependa da vida de outra pessoa. Em não querer ter um namorado só porque a sociedade lhe impõe que é o certo a fazer. Em acreditar no amor em pleno século XXI. Em tentar descobrir maneiras cada vez melhores de viver e aproveitar bem a vida, independentemente de qual linha filosófica você tenha que seguir para isso. Não há nada de errado em ser quem se é, independente se é loiro, moreno, careca, cabeludo, rei, ladrão, polícia ou capitão! Todos têm as mesmas chances e probabilidades de conseguirem o que querem da vida e até mesmo de decidirem que não querem nada! E eu não luto pela minha felicidade e os outros que se danem e não luto pela felicidade dos outros e eu que me dane, eu não luto por nada! Apenas tenho o singelo desejo de que possamos respeitar, de fato, uns aos outros e parar com essa babaquice de acreditar que a vida fácil, ou que é passada para nós como fácil, como tradicional e, diversas vezes, como certa, seja de fato a mais fácil, tradicional e certa. Meu desejo é apenas que cada um tenha a capacidade de descobrir o que é melhor para si mesmo, sem tentar impor isso a nenhum outro. É que deixem as garotas que não querem namorar ou que anseiam desesperadamente por isso, mas por algum motivo não conseguem, em paz e ao mesmo tempo em que deixem em paz a que começou a namorar aos onze anos. Eu só queria que todo mundo vivesse a vida em paz. Tanto consigo quanto com os outros. Sem essas pressões abruptas e toscas que uma sociedade e uma cultura de loucos vive nos impondo!

Eu só queria poder morrer virgem aos 110 anos sem ter que ouvir toda semana algum panaca me dizendo que eu deveria estar namorando. Porque, mesmo que a felicidade esteja em falta, seja rara e uma palavra infeliz, é possível alcançá-la sem ter um homem nas costas – ou em qualquer outro lugar do corpo.

Desculpem-me, eu precisava desabafar.

Coração Apertado.

Tenho andado com o coração pra lá de apertado. Não. Não tem nada a ver com o “dia dos mortos”. Eu não acredito nessas coisas. Acho que é esse o problema, eu não acredito mais em nada. Parece que a cada texto que eu leio, a cada aula que assisto, ao invés de clarear as coisas em minha mente elas ficam cada vez mais turvas e eu cada vez entendo menos sobre o mundo ao meu redor, ao mesmo tempo que o entendo infinitamente. A cada dia que passa eu descubro centenas de novas coisas e de razões para que as coisas atuais sejam da maneira que são e ao invés de pensar em algo para melhorá-las eu simplesmente fico com o coração apertado, como chocolates, muitos chocolates e tenho vontade de abster-me da humanidade, de fugir pra minha natureza selvagem logo. Eu ando cansada. Cansada de toda essa humanidade. De ter que sorrir por aí como se tudo estivesse perfeitamente nos conformes, de ter que conversar com pessoas que eu não gostaria e de não poder conversar com as que eu gostaria. Estou cansada de todo esse encargo cultural que a sociedade nos impõe, de todos esses impedimentos, essas barreiras, de todos os muros que construímos ao redor de nós mesmos e que acabam por nos sufocar. E no meio de tudo isso questiono a mim mesma, as minhas escolhas e atitudes. Questiono sobre tudo que eu fui o que sou e o que pretendo ser. E decepciono-me ao ver que a cada passo que eu dou decepciono mais pessoas, cada vez mais.

Porque eu não quero vencer na vida. Eu não quero ser alguém. Eu não quero ser milionária. E nem é porque eu não queira, se eu fosse milionária certamente não reclamaria, mas eu sei que não quero tentar ser uma. Não quero condenar-me a trabalhar horas a fio como uma otária, aguentando todo tipo de imbecilidade para acumular bens materiais. Eu morreria de preguiça muito antes de conseguir. Sim, eu sou muito preguiçosa. Talvez a pessoa mais preguiçosa que já pisou nessas terras. Na verdade, acredito que se existe um Deus que cria as pessoas, quando ele foi me criar pensou em uma pessoa que acumulasse todos os defeitos que ninguém quer ter e todas as qualidades que ninguém quer ter e daí nasceu eu. Eu. A pessoa que sempre foi “a esquisita” não importa onde ela estivesse, mesmo que fosse um lugar esquisito. Porque consegue ser mais esquisita que os lugares esquisitos. Eu sempre fui aquela que as pessoas gostam de conversar sobre assuntos polêmicos só para argumentar e que gostam de conversar sobre coisas fúteis só para rirem da minha risada. Nunca fui a pessoa que as pessoas conversam quando simplesmente precisam conversar com alguém. E, ao contrário, eu não costumo puxar assuntos polêmicos ou fúteis, eu geralmente inicio conversas para saber essencialmente sobre o outro e para ter uma oportunidade de falar sobre mim. Eu gosto de falar sobre mim porque tenho esperança de que fazendo isso acabarei por lembrar-me mais sobre mim e tenho esperança de um dia descobrir da onde eu vim e porque estou aqui. A verdade é que mesmo dizendo que não, eu sempre quis ser aceita. Todos querem. Eu sempre quis sentir que pertencia a algum lugar e eu fui capaz de sentir isso várias vezes, mas sempre dura pouco. Pouco demais. Tão pouco que nem vale apena. Eu sempre quis mais do que eu tive. Não no quesito material, na intensidade mesmo. Sempre quis coisas mais intensas. Que eu pudesse por à prova  e ter certeza de que sempre continuariam ali. Mas nada sempre continua ali, só meus pais mesmo e eu nunca entendi o que acontece com os pais para que suportem tantas barbaridades feitas por seus filhos. Sei que escrevendo assim pareço uma rebelde revoltada que daria tudo para sair em um ônibus esquisito, com roupas rasgadas e delineador tocando guitarra e cantando músicas revolucionárias, mas, bem, essa não sou eu. Eu não sei quem eu sou, mas certamente não sou essa. Estou muito mais para a garota que passa os dias com o coração espremido dentro de si, morrendo de vontade de viver tudo intensamente, mas que se sente incapaz de fazer toda e qualquer coisa. Estou mais praquela que queria ser capaz de ler tudo que a universidade manda, mas que não há santo que a faça conseguir. Que gostaria de ver todos os filmes de sua lista, mas que dorme no meio deles e que só consegue embarcar em livros quando os percebe muito distantes de sua realidade. Estou mais pra garota esquisita, que sempre será a garota esquisita, não importa onde esteja, por razões diferentes, claro, mas sempre a garota esquisita. Eu devia simplesmente acostumar-me com isso, mas é difícil. Às vezes eu queria ser mais normal, queria conseguir ir bem em matemática pra fazer engenharia e não precisar pensar sobre nada, apenas agir mecanicamente. Queria ter vontade de vencer na vida, casar de branco em uma Igreja e fazer um chá de bebê convencional. Queria ter coragem de fazer uma tatuagem num lugar super visível, olhar pra ela a vida inteira e nunca enjoar. Só queria aceitar coisas não efêmeras, mas me parece absolutamente impossível. Tudo me parece impossível, inclusive viver. A verdade é que eu sempre chorei quando meus pais vieram me contar que a gente ia se mudar, mas faz dois anos que peço quase todo dia para eles para a gente ir embora daqui, porque eu não aguento mais. Porque estou aqui há tempo demais. Porque não me identifico mais. Porque eu quero nascer de novo, outra vez. Porque eu as vezes tenho a vontade insana de deletar todas as minhas fontes de comunicação internetescas e desaparecer por décadas, para quando reaparecer só as pessoas realmente importantes ainda lembrarem-se de mim. Porque eu tenho mania de viver testando as pessoas e pior, viver testando a mim mesma. De viver analisando a todos, observando de longe, sem conseguir participar, por mais que eu morra de vontade de participar. Não aguento mais essa imprecisão, não sei como lidar com ela. E a cada dia eu entendo mais as razões pelas quais Peter Pan escolheu nunca crescer. Tudo que eu queria era ir à Terra do Nunca. Para nunca perder a capacidade de sonhar sempre e de acreditar que todos os meus sonhos são passiveis de ser real algum dia, desde que eu me esforce para isso. Sou apenas um emaranhado de palavras de apoio moral muito bonitas que não se encaixam para ninguém, nem para mim mesma.

“Quantas chances desperdicei quando o que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém? Me fiz em mil pedaços, só pra você juntar.” Quase Sem Querer – Legião Urbana

Brilho Eterno de uma Mente com Lembranças

Just because I don’t say anything doesn’t mean I don’t like you
I open my mouth and I try and I try, but no words come out.
Nothing Came Out – The Moldy Peaches

Eu sei que você me apagaria se pudesse. Sei que o fato de agir bobamente comigo está intimamente relacionado com isso. A verdade é que por mais que você diga e queira crer que gosta de mim, daria tudo para poder me apagar de sua mente. Isso é até engraçado pois eu sempre achei que seria eu quem iria implorar por uma lobotomia, mas no fim acabou sendo você. A razão eu realmente não compreendo, errei sim, todos erram e eu faço parte desse imenso hall de “todos”. Impossível seria não errar, tendo em vista que até você erra. Todos erram. A questão é que as pessoas costumam entender os erros alheios, ou pelo menos fingem. Tentam seguir em frente e fingir que nada aconteceu para que assim possam seguir alegres e saltitantes por aí, mas você não. Você é sincero e por mais que eu tenha admirado este fato por tanto tempo, nunca abominei-o tanto quanto agora. Queria que você soubesse mentir.

Eu não sou perfeita, mas você também não é. Eu me lembro de todos os meus erros e de todos os meus acertos. Eu me lembro de tudo. Dos seus também. E não tenho vontade de apagá-los. Achava que teria, mas não tenho. Tenho orgulho do meu passado e de cada passo que eu tomei em minha vida, pois foi por fazer exatamente o que eu fiz que parei aqui onde estou hoje e eu adoro o lugar em que me encontro hoje, adoro a pessoa que me tornei. Mas não gosto da que você se tornou. Talvez nossa convivência realmente tenha acabado com a tua vida e isso é terrível porque em nenhum momento foi o que eu quis, eu só queria que você fosse feliz. E assim sendo sinto-me na obrigação de lembrar que te fiz feliz, muitas vezes, incontáveis vezes, pelas mais diversas razões e motivos.

Você fez com que eu me sentisse assim e eu fiz com que você se sentisse assim também. Fui sua Clementine mesmo tendo o cabelo castanho. Mesmo sendo sem graça. Só que você criou a absurda e enfadonha capacidade de me apagar da sua vida, mesmo em um mundo em que lobotomia não é acessível. Provavelmente você se cansou de mim, da mesma maneira que eu me cansei de você tantas vezes por tantos momentos antes, a questão é que mesmo cansada eu continuava ali, com meu sorriso armado escutando pacientemente você me dizer tudo que tinha vontade. É claro que as vezes eu explodia, claro que as vezes tinha crises de honestidade e desabava a falar tudo que sentia vontade, claro que nesses momentos você estava ali, talvez fingindo-se de presente, talvez realmente estando, o fato é que estava e que isso me fazia bem. Fez-me bem por tanto tempo que nem consigo contar.

E quando eu já não podia lembrar da minha vida sem a sua ao meu lado, quando já não conseguia passar um dia inteiro sem pensar em você, algo aconteceu. Algo que até hoje não sei o que foi mas foi fatídico e nos fez viver separadamente por tanto tempo e até hoje, porque a gente conversava tanto e o tempo todo, mas mesmo assim tínhamos uma capacidade incrível de sermos completos desconhecidos um para o outro, como se em meio a tantas palavras, nenhum conteúdo fosse realmente emanado.

Talvez você tenha percebido isso, ou talvez tenha sido eu. Talvez tenhamos sido nós. O fato é que a percepção não agregou uma conversa realmente conversada e sim um afastamento terrível que me martirizou por muito tempo e com certeza te martirizou também.

Em muitos momentos eu cheguei a pensar isso e eu realmente conheci uma pessoa nova, mas nem ela em sua exuberância estupenda foi capaz de me fazer esquecer da sua existência prévia. Hoje começo a pensar que talvez ninguém nunca o faça e eu esteja condenada a viver sob sua sombra para sempre, como se todos os futuros seres que possam despertar em mim algum tipo de sentimento fossem na hora encobertos pela sombra da sua perfeição. Sei muito bem que você dizia que a perfeita era eu, mas a verdade é que sempre foi o contrário e eu em meio a todo meu amor por mim mesma não fui capaz de perceber.

Não sei se é por conta do cabelo de Clementine ou pela idade avançada chegando, o fato é que estou cansada de toda essa coisa de destino. De toda essa coisa que sempre insiste em acontecer com a minha pessoa. Será que as coisas não poderiam dar certo uma vez pelo menos? Será que eu não poderia ser feliz pelo menos por uma semana inteira? Eu queria ter nascido desprovida da capacidade de pensar, assim muito sofrimento seria evitado pela minha parte. Queria ter nascido desprovida da capacidade de sentir, como Effy que precisa parar no meio de uma rua e gritar para ser atropelada porque quer sentir algo, eu queria ter nascido simplesmente com algum mecanismo que justificasse o fato de eu ser capaz de estragar todos os momentos, até os que eram para ser bons! É como se o Deus da Carnificina não parasse de rondar a minha pessoa nunca e quer saber? Isso cansa. Cansa demais.

Queria ter coragem e meio de fazer com que você não me apagasse da sua mente. Lembrasse de mim para sempre. Não que eu queira continuar de onde paramos, não que eu queira algo relacionado à sua pessoa. Não que eu não queira também. Minha vontade é unicamente de fazer com que você lembre-se de mim da mesma maneira que eu insisto em lembrar da sua pessoa. Que você sinta por mim a mesma coisa que eu sinto por você. A mesma vontade tremenda de fazer uma lobotomia ao mesmo tempo que prefere uma penseira e ao mesmo tempo que prefere nada, apenas a liberdade para poder continuar pensando no que quiser quando quiser, sabendo do que aconteceu e porque aconteceu. Hoje eu queria ter razões para acreditar no amor novamente. Porque eu acredito, com todas as minhas forças, em todos os momentos, mas hoje, particularmente hoje, está difícil. Hoje eu sonhei com você. Hoje eu reli nossas conversas. Hoje eu assisti a um dos meus filmes preferidos debulhando-me em lágrimas. Hoje eu soube que um dos amores que jurei serem eternos acabou. Hoje quis com todas as minhas forças incorporar a Clementine, entrar na sua cabeça e implorar para que continue a lembrar de tudo para sempre, como eu. Para que tenhamos pelo menos isso em comum. Creio que é só o que nos resta. Lembranças. Pode parecer ruim, mas não é. Não é a melhor coisa do mundo, isso é fato, mas também não é a pior. Seria pior se as lembranças não existissem, por isso a urgência em fazer com que você as mantenha vivas. Mesmo hoje eu ainda quero que você fique bem, que você esteja bem e que você seja absurdamente feliz. Enquanto rogo aos céus, ao destino e a sorte para que eu também siga pelo caminho da luz e possa sair emanando sorrisos belos mundo a fora.

É tudo que eu peço.

Seja meu Joel para que eu possa de fato ser sua Clementine. Quem quer que seja você.

P.S.: Esse texto faz parte de um meme em que eu deveria reciclar o título de outra blogueira. Quem será ela?