Absurdamente Extraordinário

É incrível como só o tempo é capaz de nos moldar e preparar para o que está por vir. Há quatro meses eu era um neném chorão que não fazia ideia de como chegaria onde estou hoje. Não posso rasgar seda e dizer que tudo foi maravilhoso porque não foi, porque no período que se decorreu eu tive que me desmontar e remontar tantas vezes que nem sou capaz de tentar contá-las. Eu cresci. É como se algo tivesse saltado aqui dentro, mudado, despertado para uma coisa tão nova, tão maravilhosa e que esteve aqui por tanto tempo, que esteve aqui desde sempre e eu só não tive discernimento para percebê-la. Desde o nosso nascimento construímos nossa jornada, estamos fazendo tudo desde que nascemos, desde sempre.

Não consigo lembrar-me da minha pessoa antes de imaginar ser uma atriz esplêndida que na celebração de recebimento do Oscar diria simplesmente “gostaria de agradecer à minha mãe, minha avó e a todos os meus professores e colegas de aula de teatro”, sabe, daquele tipo que ama fazer cinema, mas tem um infarto ao pensar que pisará em um palco. Não há nada mais esplendoroso que isso. Nem a celebração do Oscar. Porém eu tremia ao ouvir dizer que teria que fazer uma peça infantil. Minhas pernas bambeavam com a simples ideia. Hoje posso dizer que não passava de uma tremenda besteira mascarada por um receio de decepcionar as pessoas que mais venero desde que me entendo por gente. É que eu amo crianças, eu sonho em ter doze filhos, meus priminhos me idolatram e eu brinco de cabana, Barbie, esconde-esconde e o que mais quiserem brincar até hoje sem a menor vergonha disso. Eu sou fã nata do Peter Pan queria ir para Neverland e ser criança para sempre. Eu abomino a ideia de estar crescendo, de ter que encarar meu adulto interior, gosto da criança, não quero que ela morra, só que todos dizem que ela já morreu, que eu sou mais adulta do que pareço, mais madura que muitos na minha idade e isso sempre me magoou muito porque eu não quero ser adulta, nem madura, nem nada, eu quero ter sempre a liberdade de fazer o que quiser e dar uma desculpa esfarrapada para a possível bronca recebida depois. Não que eu queira ser irresponsável, irresponsabilidade e pensamento de criança são coisas completamente diferentes. Para piorar a situação justamente no semestre mais temido pela minha pessoa, pego a professora mais mistificada do colégio. Não que ela seja um monstro, pelo contrário, ela é doce, gentil, sorridente e amorosa a questão é que ela fala o que a gente precisa ouvir, como o oráculo de Matrix. Coisas que a gente precisa ouvir, mas não sabia, que realmente nos transformam e que batem tão fundo em nosso ser que são capazes de nos desmontar, nos fazer chorar por noites a fio repensando todo o fato de nossa existência. A questão, caros leitores, é que isso é bom, é enfadonhamente bom. Redescobrir-se é fantástico. Ouvir o que você sempre precisou, mas ninguém nunca teve coragem de dizer é mais fantástico ainda! Desde a primeira aula anoto mentalmente cada passo da filosofia da dita professora, faço tudo que ela pede e me esforço com o fundo do coração para conseguir fazer algo decente, mas talvez a criança já tenha ido embora ou talvez ela esteja tão abafada pelo meu medo incontrolável que não se sentiu livre o suficiente para bailar por aí. E em meio aos trancos e barrancos, às quedas e reerguidas eu cheguei onde deveria. No dia vinte e três de Junho, o primeiro da nossa jornada.

Nossa peça é diferente de todos os infantis que eu já tinha visto na vida, morro de vontade de assisti-la, mas não posso porque tenho que atuar. Eu não estou satisfeita com meu rendimento e aproveitamento, mas tenho a mais absoluta certeza que estou dando o máximo de mim, o máximo do que eu posso. Quando paro para pensar no “eu” de quatro meses atrás e comparo-o com o de agora mal posso crer na quantidade de mudanças que ocorreram. Sinceramente eu não sei como foi que consegui manter-me em pé. Tantas coisas aconteceram. Tantas. Em todos os âmbitos que vocês possam imaginar eu mudei, eu mudei interna e talvez externamente, me doei, sangrei, sofri. Mas estou aqui. E sei que isso é repetitivo, mas vocês jamais conseguirão imaginar a felicidade que se encontra na minha pessoa neste momento. Felicidade que não está contida no peito de maneira nenhuma está saltitando pelas teclas do Jackie, correndo para contar a vocês ansiosamente que eu sobrevivi, eu consegui, eu não errei, eu gostei do que eu fiz.  É tudo tão grande, tão maior, mas ao mesmo tempo tão certo e tão pequenino. Escrevemos essa peça desde que nascemos. Escrevemos para que pudéssemos colocá-la em prática algum dia e hoje foi esse dia.

A Maravilhosa História dos Seres Extraordinários e sua Jornada ao Magnífico País dos Avessos” estreou nesta manhã, estávamos completamente inseguros porque nosso ensaio no teatro havia sido desastroso e não fazíamos ideia do espaço que deveríamos ocupar, de como a coisa prosseguiria e tomaria forma, de quantas pessoas iriam nos ver, se alguma criança iria nos ver, se conseguiríamos, se o som e a luz funcionariam ao mesmo tempo em que as nossas vozes e todas as outras coisas que você possa imaginar. Chegamos duas horas e meia antes e ainda tivemos a capacidade de atrasar o espetáculo por dez minutos tamanha a nossa ansiedade e felicidade porque hoje era o nosso dia. Eu nunca tinha ficado tão feliz em ver crianças. Nunca tinha ficado tão feliz em ver meus colegas de turma. Nunca tinha me divertido tanto estando em cena. Nunca tinha aproveitado cada segundo e ao mesmo tempo morrido de vontade de abraçar a todos e de sofrimento antecipado porque faltam apenas mais três apresentações. Nunca os sentimentos haviam sido tão misturados, tão intensos e tão juntos. Nunca. Foi intenso, foi lindo, foi mágico! Obviamente não foi perfeito, mas com certeza vivemos cada segundo como se fosse nosso último e fizemos tudo da maneira mais precisa que conseguimos, pensando somente no aqui e agora, porque naquele momento nada mais importava. Como poderia importar? Naqueles minutos todo o nosso trabalho semestral, todo o nosso sofrimento e as nossas alegrias, todos os Gurdjieffs e os exercícios, tudo que ouvimos, vivemos e passamos tudo aquilo era possível de ser visto de fora, era a prova de que realmente aconteceu. Nossa prova final. O último teste. Eu jamais imaginaria dizer isso algum dia, mas ontem enquanto cada um expunha um pouco do que sentiu durante nosso tempo juntos tive a coragem de dizer que eu não gostaria de estar em nenhum outro lugar do mundo que não aquele com aquelas pessoas, naquele momento, fazendo aquela peça. Porque é a melhor peça do mundo. A melhor do que qualquer outra seria. É a NOSSA peça. Construída com NOSSAS personagens, NOSSAS improvisações, coletivamente pensada em cada milésimo de segundo única e exclusivamente para nós pessoas e nós atores. Era nosso momento de fazer tudo valer a pena e olha, eu acho que a gente conseguiu. Não efusivamente, mas iniciamos o processo. Nosso neném nasceu. Agora é só criá-lo com sapiência o suficiente. O palco é onde somos capazes de perceber que todas as indagações ocorridas durante o processo a respeito da nossa capacidade e de termos ou não nascido para fazer aquilo morrem e percebemos que não existiríamos sem aquele singelo momento. Como um certo amigo engenheiro disse uma vez, você pode conhecer todas as formas de energia do mundo, mas a que mora no teatro é inexplicável. Só estando lá para senti-la.

Eu realmente não sei como fui capaz de chegar até aqui, mas agora de onde estou sou capaz de dizer que esse lugar é maravilhoso e que gostaria de viver aqui o máximo possível. Com a mais absoluta certeza de que nada teria sido possível sem as pessoas que me acompanham no palco, a loirinha linda que me acompanha fora dele e a sábia e com o melhor colo do mundo mamãe.

Está valendo apena.

Puta Revolts.

Seguinte galera: Estou revoltada. Revoltada MESMO. Porque desde criança fui criada diferentemente do meu irmão, eu ganhava vassoura e ele ganhava um boneco mutante cheio de coisas legais. Eu sonhava em ter um fogão de brinquedo, pra fazer comidinha e ele tinha bicicleta, patins, patinete, videogame, gameboy e todas essas outras coisas. E eu com as vassouras, rodinhos, aprendendo a lavar louça, tendo que lavar minhas roupas íntimas e tentando aprender a fazer comida. Lembro que enquanto estava aprendendo a fazer gelatina, ele nem sabia amarrar o cadarço do tênis.

Ao contrário do que vocês possam pensar, meu irmão não é burro, pelo contrário, ele é extremamente inteligente, sempre ia bem na escola e sempre pôde fazer tudo o que bem entendesse, sabendo que chegaria em casa e tudo estaria em ordem. Comigo foi mais ou menos a mesma coisa, nunca precisei me preocupar com a organização do meu quarto, tanto que até hoje só o arrumo quando a bagunça começa a me atrapalhar e para que isso ocorra, caros terráquios, o chão chega a ficar impisável. Eu não faço minha comida, não lavo minha louça, não faço nada dessas coisas. Não mesmo. Mas sempre tenho que ouvir minha mãe reclamando e mandando eu ajudá-la. Enquanto isso meu irmão tá sentado no sofá, ou dormindo, ou dizendo que está “cansado porque trabalha o dia inteiro”. A questão é que antes de trabalhar ele era “cansado porque faz duas faculdades federais” e antes disso era cansado porque tinha várias atividades extracurriculares e assim vai. O negócio é que quando eu tento usar essas desculpas não cola, porque eu sou menina.

Meu pai lava a louça, arruma a cama, lava a roupa, limpa a casa, faz absolutamente tudo que a minha mãe diz que é necessário fazer, ajuda de verdade, ele vê a necessidade e faz, mas eu tenho consciência de que ele é uma exceção. Na Semana Acadêmica do meu curso tivemos uma palestra sobre as relações de gênero, foi uma professora de sociologia do ensino médio que explicou como ela lida com isso na escola, pra tentar mostrar que a origem da desigualdade de gênero dá-se nas famílias. Ela mostrou um vídeo (que eu não consegui encontrar pra linkar) espanhol em que uma mãe trabalhava o dia inteiro, cuidava dos filhos e quando chegava tinha que cuidar da casa e ainda ouvir o marido reclamar que ela não estava levando a cerveja dele. Depois mostrava como seria a rotina da família caso o marido também fizesse algo e sobrava tempo para que a mãe sentasse com ele vendo televisão e bebendo cerveja, bem melhor, não?

Pois é. Sou completamente indignada com essas palhaçadas. Completamente. E estou tão cansada de ter lavado toneladas de roupa, ter passado um monte, ter lavado toda a louça, feito a comida que nem estou pensando ao escrever isso, provavelmente resultará num texto enfadonho, mal estruturado e que desvalorizará a seriedade do assunto, mas assim: a coisa é muito séria minha gente. Seríssima. Porque se na própria casa há desigualdade entre gêneros, como é que a gente pode querer lutar por um salário equiparado? Por respeito? Por uma melhor visualização de nós como pessoas? Como? Sem ser hipócrita não há jeito. O esquema é tentar mudar o mal pela raíz, é criar os garotos o mais parecido que com as garotas, mas sem perder as individualidades de sexo, porém respeitando a liberdade de cada indivíduo, em que uma menininha pode querer brincar com carro de corrida e um menininho pode querer brincar de boneca, sem que isso seja mal visto ou como um início de homossexualidade, porque não tem nada a ver!!!!! NA-DA. Um menino pode gostar de rosa do mesmo jeito que uma menina pode gostar de azul, ora bolas. Qual o problema disso?

Só acho uma palhaçada que nós, as mulheres, tenhamos que carregar um bando de cara encorpado nas costas. Não somos melhores nem piores, não temos mais aptidões para os afazeres domésticos, não temos menos capacidade encefálica, não temos nada além de uma diferença puramente sexual. Então pra que agregar a diferença a todo o resto?

Repito novamente que eu não me digo feminista, nunca li sobre a filosofia nem nada, mas concordo com o pensamento de que as mulheres precisam sim se organizar em um movimento social para serem melhor valorizadas na sociedade, buscando a igualdade entre os sexos e depois disso o movimento seria exterminado, já que o objetivo já haveria sido atingido. E acho sim que devem fazer quantas marchas das vadias, de dia das mulheres e do escambal a quatro o quanto acharem necessário para que atinjam o objetivo. Por que, sinceramente? Eu prefiro morrer solteira e amorosamente infeliz do que me relacionar com um homem folgado que jogue todas as responsabilidades nas minhas costas.

Afinal…

(Daqui)

Espero que vocês tenham captado o espírito da coisa.

Espanca-me

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há cerca de um ano ouvi o nome dessa nobre moça pela primeira vez. Confesso com pesar que nunca li um livro dela, porém já passei madrugadas inteiras lendo-a e relendo-a na internet. Ela tem o nome mais poético do mundo, um nome paradoxal que ao mesmo tempo é bom e ruim, porque ela é flor, ela é bela e ela espanca. E eu gosto de gente assim, paradoxal, de lua, que cada dia pensa e faz uma coisa diferente, sem medo de ser feliz, sem vergonha alguma de ser apenas o que se é.

Meu poema preferido dela chama-se “Amar” e é ele que está sendo recitado ao longo deste texto. A questão é que eu jamais havia encontrado um texto sobre amor que dissesse tanto do que eu penso. Porque tem dias que eu acordo e tudo que gostaria de fazer era amar. Eu acordo à procura de algo para amar, de algo que me transmita amor, que me dê borboletas no estômago e, infelizmente, são raras as vezes que concretizo a minha busca. As vezes sinto que nada sente necessidade de ser amado, nada nem ninguém, pelo menos nada nem ninguém dentre as pessoas que me cercam e isso é muito triste.

Eu queria amar alguém profundamente e queria ter vontade de fazer coisas motivada por essa pessoa. Queria não ter vergonha e simplesmente amá-la, independente do que isso viesse a significar. Queria viver todas aquelas coisas que pessoas apaixonadas dizem sentir e queria que essas coisas fizessem parte da minha vida cotidiana. Queria amar porque tenho o sonho infantil que me faz crer que somente isso me faria feliz. Porque nada sou além de uma garota que foi e é diariamente completamente enfeitiçada  pelos contos de fada, tanto os clássicos quanto pelos modernos. Porque passo os dias assistindo a programas que me mostram pessoas que se completam amando, mesmo que seja amando um animal de estimação. Resolvo ler um livro e sempre, absolutamente sempre, envolve amor. Para abster-me deste mundo, só vivendo no universo acadêmico o tempo todo, porque lá sim, lá não há amor. Pelo menos não explicitamente. A questão é que não consigo, sou humana e gosto de suspirar com a história alheia.

Mas eu queria ter a minha história. Queria suspirar com ela. Queria suspirar pelos meus feitos, minhas alegrias, pela minha vida, que vista de fora é brilhantemente perfeita, mas se é tão perfeita, porque continuo tão triste, tão alheia, desmotivada e ansiosa por um amor? Por que vivo tão necessitada de um belo espancamento só para recordar-me de que eu fui sim criada para sentir algo? Por quê? Perguntas e mais perguntas, que mais uma vez encontram-se se resposta alguma, jogadas ao infinito, num infindável buraco negro que insiste em sugar não só a minha alegria, mas todo o sentido que eu achava ter encontrado para a minha vida.

Falavam-me que estudando eu obteria mais conhecimento e assim entenderia melhor as coisas, mas a verdade é que quanto mais estudo, mais alheia ao resto eu fico, mais boba. Menos humana, menos gente. Porque pensar o mundo como uma incógnita certamente não me é mais apreciável, agora eu quero saber as respostas, quero buscá-las e encontrá-las e em meio a tantas procuras, acabo por me perder. Será isso bom, será que não é, será o certo ou será errado? São só mais perguntas, daquelas que talvez fiquem sem resposta. Que posso eu fazer? Nada.

Resta-me suportar as pancadas, quedas e deficiências que a vida prova ter. Resta-me submeter-me ao espancamento constante, que talvez, quem sabe, porventura, um dia ele chegue a valer a pena. Talvez um dia eu finalmente encontre o meu amor. E se não o fizer, dignar-me-ei a apenas ler. É a única fonte de felicidade que gera decepções não muito dolorosas.

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

Florbela Espanca

(Daqui)

Que eu saiba me perder para me encontrar.

Cápsula do Tempo

Há algum tempo surgiu uma ideia de escrever um e-mail ou carta para que eu mesma leia daqui a cinco ou dez anos. Muitas pessoas toparam a ideia e escreveram no mesmo dia um texto para seu eu do futuro, eu rejeitei. Não é que eu não sonhe, pelo contrário, eu sonho com tantas coisas que é difícil escolher uma delas para ser o principal e único jeito que pretendo me encontrar daqui algum tempo. Eu sonho com muitas coisas, mas nunca fico planejando detalhadamente como chegarei a elas, sonho com os fins, sem pensar nos meios. Resolvi registrar a ideia mor do meu futuro. Não sei quanto tempo demorarei para concretizá-la ou SE concretizá-la-ei, mas considero de extrema importância registrar esse meu plano específico, para que caso eu resolva cumpri-lo algum dia, lembre-me detalhadamente do que exatamente devo tentar cumprir.

A ideia consiste em viajar pelo Brasil inteiro em um trailer ou algo semelhante, passando cerca de uma semana em cada cidade, sendo duas cidades por região de cada um dos estados, buscando fazer uma visita completa mesmo. Não irei sozinha, deverei estar acompanhada por no mínimo um médico, um advogado, um professor de alguma matéria exata, algum músico ou qualquer outro tipo de artista. O objetivo da expedição será fazer um estudo antropológico do Brasil. Pesquisando as diferenças de cultura especificamente. Mas não só isso, também pretendo levar cultura, disseminá-la. Levando músicas nacionais, peças de teatro e outras coisas do tipo. Haverá um esquema de escambo, onde livros de todos os tipos serão trocados seja por outros livros ou por outras coisas que auxiliem em nosso sustento itinerante. O médico irá conosco não só para nos socorrer caso algo aconteça a nós, mas para analisar quais doenças atacam mais cada região e pensar em maneiras de melhorá-las. O advogado irá para fazer um levantamento do índice de violência e para ajudar na remediação dos danos causados por qualquer coisa. O professor de alguma matéria exata servirá para mostrar a importância das mesmas na vida das pessoas, para assim difundir nas crianças e jovens a ideia da necessidade de se ter um ensino básico, fazendo assim com que mais gente queira frequentar a escola. Eu terei o papel de antropóloga, socióloga e pesquisadora de opinião, além de ser atriz e ajudar na feitoria de peças de teatro educativas ou mesmo clássicas. Pretendo levar também um projetor, para fazer uma sessão de cinema em cada cidade.

(Daqui)

Precisaremos de um patrocínio, obivamente, e essa provavelmente será a parte mais difícil da expedição, tendo em vista que não consigo imaginar uma empresa que invista em uma trupe de loucos que pretende desbravar o Brasil e torná-lo mais unido, mas talvez haja uma empresa assim e a gente consiga dinheiro suficiente para atingir nossos objetivos. Não poderemos brigar entre nós e talvez essa seja a parte mais complicada, pois somos humanos e é difícil que humanos não briguem por motivos na maioria das vezes bobos. Não podemos ser um grupo muito grande, quinze pessoas no máximo. Isso porque espera-se que durante o trajeto mais pessoas queiram juntar-se a nós, como antigamente, quando pessoas fugiam com o circo em busca de uma vida aventureira. Teremos uma vida aventureira, mas essa viagem não será seu cerne principal. Será apenas uma viagem, uma grande pesquisa. Nossa maior pesquisa talvez, o alvo de nossos principais livros e documentários, algo bombástico, que talvez mude o curso da história do país, mas nossa vida não acabará aí. Depois da viagem publicaremos nosso livro sobre ela, assim como nosso documentário e faremos trocentos relatos sobre seu curso. Durante ela teremos um blog diário onde cada um dos envolvidos deverá escrever um pequeno texto sobre como está sendo a experiência, nem que seja uma vez por semana, para resumir como foi a experiência na última cidade. E assim viveremos, assim seguiremos nossa história. Quando voltarmos para nossa cidade talvez estejamos completamente diferentes e mudemos totalmente o curso de nossas histórias, não há como prever. Mas é esse o meu plano de vida, fazer uma expedição que rasgue o Brasil de Norte a Sul, de Leste a Oeste, experienciando de verdade cada centímetro desse lugar tão maravilhoso e repleto de história e riquezas. Eu pretendo redescobrir o Brasil, mostrando que mesmo tendo regiões distintas somos todos unidos de alguma forma, somos todos iguais, somos todos brasileiros. Esse é meu plano. Se alguém se interessar – saibam que estou realmente falando sério – em participar da mais fantástica expedição, venha falar comigo, vamos unir forças e transformar esse belíssimo sonho em realidade. Garanto que a gente consegue. Basta tentar.

Sexta-feira fui ao cinema. Pela primeira vez na minha vida fui ao cinema acompanhada dos meus pais. É de praxe ir ao meu lugar favorito do mundo inteiro acompanhada pela minha mãe, mas meu pai não gosta muito de todo aquele universo e por isso nunca tinha ido comigo. Convenci-o pois assistiríamos a “Xingu”. Meu pai é tão interessado por essas expedições de descoberta e redescoberta de novos lugares e culturas quanto eu e assim fomos felizes e saltitantes. Foi a melhor ida de cinema da minha vida. Desculpem-me todos os outros que porventura me acompanharam em algum momento, mas vocês não eram o meu pai, nem a minha mãe, nem os dois juntos. Xingu trata da história dos fabulosos irmãos Villas-Bôas, citados aqui no último texto.

(Daqui)

Conta a história de como eles ingressarem pelo universo indígena em um tempo que eles eram realmente selvagens e não haviam sido contatados por branco em nenhum momento. Eles adentraram no universo, se envolveram com aquilo e se dispuseram a mudar e até melhorar a vida daqueles cidadãos que eram completamente desprezados pelo poder público, que os utilizavam ainda naquela época, como escravos. Escravos que recebiam salário, sim, mas escravos, porque o salário mal dava para sustentá-los. Então Cláudio, Orlando e Leonardo adentram naquele universo e o mudam completamente. Eles conseguem um pedaço de terra do tamanho da Bélgica para ser exclusivamente indígena, livre de toda a exploração seringueira e da ganância dos fazendeiros latifundiários exploradores de uma figa. É certo que há tribos rivais que tiveram que ser unidas no mesmo pedaço de terra e que ainda hoje elas brigam, mas é melhor que as tribos dividam terra com os inimigos do que que elas percam suas terras e com isso sua liberdade como etnia e cultura. Graças aos irmãos Villas-Bôas ainda hoje existe o Parque Nacional do Xingu, estritamente preservado. O filme mostra toda essa história de uma maneira tão fantástica e maravilhosa que reforça a minha opinião amadurecida de que o cinema brasileiro muito se desenvolveu nos últimos tempos e de que filmes brasileiros sobre sua história são maravilhosos e surpreendentes. Assim foi com a Olga e muitos outros.

(Daqui)

Citei os Villas-Bôas novamente porque sinto mais ou menos a mesma vontade desbravadora que eles, a mesma necessidade de conhecer o meu país que eles sentiram. A necessidade de proteger e defender os que infelizmente não são capazes, por não terem acesso às mesmas informações que nós. Eles lutaram pelos índios, eu não pretendo lutar somente pelos índios, mas também pelos brancos, pardos, amarelos e todas as outras cores e classes sociais existentes, em busca de um país no mínimo justo, em que todos os cidadãos tenham acesso aos direitos a eles previstos pela constituição. Um país em que todos nós sejamos realmente gente, não importando nada. Talvez eu morra ou me perca no meio do caminho e é por isso que resolvi registrar a sementinha dessa ideia em um local que jamais será esquecido, para que sempre que for possível eu me lembre da ideia inicial da coisa. Da minha vontade inicial. Parece utópico e grandioso demais, eu sei. Mas de que adianta sonhar se for sonhar em passar em um concurso público e viver uma vidinha normal até morrer? Isso não é sonho, é constatação de uma realidade sem graça. Minha vida não será sem graça. Sei disso.

You may say
I’m a dreamer
But I’m not the only one
I hope some day
You’ll join us
And the world will be as one

Imagine – John Lennon

Que hoje eu passei batom azul…

Sherlock Holmes Museum – 221b Baker Street, London

(1/17)

Que eu sou dessas pessoas determinadas e que gosta de quebrar paradigmas creio que a maioria sabe. O negócio é que desde sempre eu gostei de ser diferente de algum modo, enquanto todo mundo lutava pra ser igual e seguir um padrão, lá estava eu. De bermuda masculina na primeira série, mochila de rodinhas na sexta, esmaltes fluorescentes aos oito anos, altamente purpurinados aos quinze, coloridérrimos dos treze aos quinze, antes de isso ser normal entre as pessoas. Com o cabelo comprido e a franja de dois dedos, com o cabelo Chanel e a franja ornando, com o cabelo repicado, o cabelo com mechas vermelhas, o cabelo com mechas roxas – que depois viraram loiras e em seguida uma lambança – o cabelo comprido e tradicional again, o radicalmente curto de novo, a Velma, o cabelo bonitinho, a mecha azul, que depois foi verde e roxa e laranja ( e futuramente azul-verde-laranja-roxa), o cabelo afrancesado e o cabelo curto de novo. Os óculos redondos nerdianos, os retangulares avassaladores, os Velmescos, os escuros da moda, os escuros grandes demais pro meu rosto e os pequenos demais também. As roupas multicoloridas, as pretas, as brancas. A época dos vestidos, a dos jeans, a das calças palhaço (que são dificílimas de serem encontradas), das leggings, das saias, dos shorts e das capris, das camisetas lisas, das estampadas, das feitas por mim. Dos All Stars diferentosos, da havaiana, da melissa, da sandália mais barata da loja, da sandália de velho, da sandália dos anos 90, das botas nada a ver comigo. Enfim, lá estava eu. Um dia, porém, contudo, todavia, um clique bateu na população e eles começaram a ser iguais a mim. Com as roupas que não combinam com quem se é ou a época em que se vive, assim como os cabelos, sapatos e afins. Os esmaltes coloridos viraram ultra moda e quem não aderiu a eles foi considerado bobo. As coisas antes esquisitas passaram a ser normal, não por minha causa, obviamente, mas para mim foi por minha causa. Tudo por minha causa. Como se eu fosse a melhor ditadora de moda do universo. Sendo que eu abomino a moda e por isso vivo a tentar fugir dela. Em uma das minhas complexas buscas pela individualidade, percebi que as mulheres só usam batons das mesmas cores: vermelhos, corais, beges, marrons, rosas. Algumas apostam numa coisa mais arroxeada e quando se vê uma de preto por aí é absurdo. Gosto de batons coloridos, desde sempre. Uma das minhas coisas preferidas nos palhaços, aliás, é justamente o fato de eles terem a boca colorida. Queria ter a minha boca colorida. Destinei-me a comprar, portanto, um batom colorido. Foram meses de odisseia, em que os únicos encontrados eram de marcas desconhecidas que poderiam ressecar meus lábios e certamente esse não era o intuito. Daí eu fui pra Londres e embora não tenha visto grandes coisas naquela cidade, visitei um bairro digno. Camden Town, o lugar em que – segundo uma das minhas leitoras – Amy Winehouse morou. O lugar mais legal da cidade, repleto de feiras populares com todas as coisas possíveis e todo tipo de gente possível e uma loja que vendia batons coloridos. Entre os laranjas, amarelos, roxos e verdes, optei pelo azul. Azul porque laranja parece com coral, amarelo ia me deixar com cara de hepática, roxo eu já vi por aqui, verde podia até ter sido, mas azul é mais legal. Saí da loja radiante com meu batom azul em mãos e o passei no outro dia, super empolgada. As pessoas olhavam para mim o tempo todo, rindo, tirando fotos e eu morria de rir delas, porque é engraçado ser ridículo. É engraçado imaginar que talvez daqui uns três anos os batons azuis sejam normais, assim como os esmaltes fluorescentes foram. Então eu não ligava. Senti-me radiante, eu e meu batom azul. Não deu outra, nas imediações da Faculdade de Moda de Londres dois estudantes me pararam, com uma câmera na mão pedindo uma entrevista para um trabalho e lá fui eu explicar porque raios estava usando um batom azul e um gorro de macaco. Porque eu tinha essa incrível necessidade em me sentir única e especial. Obviamente não consegui dizer isso, disse apenas as razões para ter usado aquilo naquele dia e desejei uma boa apresentação de trabalho. Tive que dar uma voltinha, deixar fazerem close e explicar exatamente o que era um macaco e onde ele vivia. Foi legal. Não me acho superior a ninguém por ter um batom azul, nem tive coragem de usá-lo por aqui ainda! Estou esperando uma oportunidade decente, na verdade, porque não dá pra desperdiçar uma oportunidade dessas indo pra faculdade. Não sou diferente de ninguém, nenhum de nós somos. Somos constituídos da mesma maneira, mas por possuirmos culturas diferentes nos achamos individuais e muitas vezes melhores que os outros. Apenas um bando bobo de humanos.

Então me deparo com uma boa música diversas vezes em dois dias seguidos. Não consigo tirar essa música da minha cabeça e fico me indagando qual seria a razão. Boba eu. Completamente. A razão é simplesmente porque eu sou assim, eu não ligo. Podem falar, eu não me importo, porque o que eu tenho de torta eu tenho de feliz. Porque eu não ligo para a roupa, o cabelo, a maquiagem ou a arrumação das unhas das pessoas. Não ligo nem pras minhas. Visto-me e arrumo-me da maneira que acho que convém, sem ficar pensando no que vão dizer de ruim, as vezes só quero que digam. Às vezes nem isso. E dá pra perceber nitidamente qual é a situação. Quando visto o casaco de arco-íris é porque quero chamar atenção e quando visto o preto é porque estou muito feliz com a minha invisibilidade costumeira. Em ambas as situações eu vou adorar um abraço bem dado e um sorriso sem razões óbvias. Em ambas as situações eu continuarei sendo exatamente a mesma pessoa, apenas com uma aparência diferente e no fim, as aparências realmente importam? Pra cantora dessa música provavelmente sim. Porque Mallu passou da garota com roupas esquisitas e cabelo curto pra hipster fofa com voz rouca que canta alegremente enquanto saltita e talvez isso tenha acarretado um grande salto em sua carreira, mas o fato é que se ela era capaz de fazer boas músicas antes, também o será agora e se cantava agradavelmente antes, o mesmo fará agora. Porque as aparências não mudam as pessoas, pelo menos em nada além do que nas aparências. E eu estaria mentindo descaradamente se dissesse que em cada canto eu vejo um lado bom, ou que tenho a alegria como um dom, porque no fim das contas eu sou só uma garota que nem sabe de nada e age simplesmente da maneira que tem vontade no dia em que tem e se eu acordo sem vontade de caçar por coisas boas, não as enxergarei em lugar algum e vice-versa. Não tenho a alegria como um dom, mas sou velha e louca. Sou destemida na maioria dos assuntos. Faço o que eu quero porque aprendi com a minha família que é tudo da lei. Não fui criada numa sociedade totalmente alternativa, mas sempre pude ser o que quisesse ser e por muito tempo aproveitei essa qualidade ao máximo. Quando fingia ser uma pessoa diferente a cada dia, igual ao amigo da Sam em “A Nova Cinderela”. Há tempos decidi ser apenas eu mesma, encaixando todas as minhas multiplicidades em uma única pessoa. As vezes falho. Muitas vezes falho. Mas quem não falha? Sobrecarrego-me e me perco enquanto acho que preciso dar conta do mundo inteiro, quando sequer consigo dar conta do meu próprio nariz, mas essa sou eu tentando. Sou eu vivendo. Um dia eu chego em algum lugar, ou não, mas isso será problema meu e somente meu.

Pode falar não me importa, o que eu tenho de torta eu tenho de feliz. Eu vou cambaleando, de perna bamba e solta. Nem vem tirar meu sorriso com algum conselho, porque hoje eu passei batom azul vermelho. – Velha e Louca, Mallu Magalhães