Abrindo o Fecho

Eu sempre fui péssima em abrir fechos de sutiãs. Sempre fui péssima em tudo que envolve sutiãs, diga-se de passagem.

Eu tinha sete anos e ia na casa das minhas amigas ouvir Britney Spears escondida enquanto tentávamos dançar como ela. Uma das meninas sempre pegava os sutiãs da mãe, colocava e distribuia pras outras, porque “a Britney tem peitos, também temos que ter!” e eu nunca colocava o sutiã. E dizia “eu não quero ter peitos” e elas diziam “mas toda menina tem que querer ter peitos!” e eu ficava emburrada e ia pra casa desolada imaginando que um dia talvez eu tivesse peitos.

A minha relação com os peitos foi muito proveitosa, não há como negar. Mamãe tinha muito leite e eu mamei abundantemente até dois anos de idade, então enjoei e comecei a fazer birra e ela parou de me dar leite e começou a doar pro resto do mundo. Depois disso, perdi o contato com aquele punhado de pele da mamãe, tendo-o visto nela e em todas as outras mulheres da família inúmeras vezes porque eu detestava tomar banho sozinha. Não tinha a noção de que um dia aquilo faria parte de mim e quando eu descobri isso, fiquei chocada.

Lembro de me olhar no espelho, me imaginar com peitos e começar a chorar. Pensando que se algum dia aquilo acontecesse comigo, seria terrível. Não é que eu ache feio qualquer pessoa ter peito, eu não me importo com os peitos alheios, só não os queria em mim. A simples ideia de que isso pudesse ocorrer me atormentava horrores e quando eu cheguei na puberdade tudo que conseguia pensar era “por favor, que eu não tenha peitos” e, bem, meu desejo foi realizado e eu sou absurdamente feliz com isso.

Só que não ter peitos não faz com que você se liberte do fecho do sutiã. Porque usar sutiã não tem nada a ver com ter peitos, pelo menos não na cultura brasileira a qual estou inserida. Aqui as pessoas usam sutiã para disfarçar o mamilo, porque mamilo aparecendo é tão chocante quanto andar de saia sem calcinha. É absurdamente deplorável, julgável e reprovável. Então, a partir do momento em que os mamilos das meninas começam a se desenvolver, elas são coagidas a usar sutiã.

“Vamos comprar sutiã, filha!” “Pra que, mãe?” “Todas as meninas da sua idade usam… é pra não aparecer os peitinhos no uniforme”

E todas nós caímos nessa conversa. E ganhamos sutiãs bonitinhos, fofinhos, aparentemente confortáveis e podemos ir pra escola nos sentindo mais mulheres, porque sutiã é coisa de mulher de verdade e a partir disso é como se a gente de fato tivesse crescido. E nunca mais paramos de usar sutiã. Os seios crescem um pouquinho e lá vamos nós comprar de um número maior, uma cor diferente, estampa mais bonitinha e acabamos gostando da coisa, ela se torna tão natural quanto usar calcinha e ninguém nunca pensa em qual sua funcionalidade, simplesmente compra e usa.

Só que quando você não tem peitos, comprar sutiã é altamente torturante. Porque não existe um que seja do tamanho perfeito, sempre vai ficar faltando pano nas costas ou sobrando bojo e não importa o quão coloridos e versáteis eles pareçam, eles sempre vão te machucar. Usar sutiã, caros colegas, é uma tortura. É aquela coisa terrível de se sentir presa o dia inteiro por uma coisa que você não faz ideia do motivo para usar, porque pra quem tem peitos ele é super útil! Ele levanta, deixa no lugar e ajuda a distribuir o peso, fazendo com que as costas não doam, é altamente necessário! Pra quem não tem peitos, não serve pra nada. Não tem nada pra levantar, não tem peso nenhum. Por favor, deixem meus mamilos em paz.

E daí cá estou eu, dezenove anos na cara, mais de dez sutiãs na gaveta. Cada um com um modelo e cor e tamanho diferentes, nenhum sendo confortável o bastante para me fazer querer usar o dia inteiro. Sem saber como lavar aquela coisa de um jeito que não estrague e que limpe de verdade e sempre tendo que pedir ajuda pra mãe. Sem habilidade para abrir ou fechar o maldito fecho, sendo obrigada a colocar a coisa do mesmo jeito que a minha vó colocava, ou seja, abrindo e fechando com ele virado pra frente e tendo como única habilidade no quesito “sutiã” o ato de tirá-lo. Porque é a única coisa que eu faço. Porque eu chego em casa e antes de tirar as meias e o sapato vou logo tirando o sutiã daquele jeito que não precisa tirar a roupa primeiro, ou no máximo eu abro ele e deixo ali só pra constar. Porque machuca, dói, aperta, prende, é aquela coisa que eu nunca esqueço que estou usando, não é orgânica à minha pessoa e, AI. Cansei.

Cansei. É isso. Simples assim.

Eu conheço gente que não usa cueca pelos mesmos motivos que eu detesto usar sutiã, só que, por favor, não usar cueca é muito mais problemático, mas como os terceiros não percebem a falta da cueca, ninguém reclama. Só que todo mundo percebe a falta do sutiã, então todo mundo automaticamente julga, cochicha, reclama, intervém e eu decidi lutar contra isso. Romper esses grilhões, rasgar essas amarras e abrir esse fecho. Eternamente. Decidi que só vou usar sutiã quando eu me sentir altamente desconfortável em alguma roupa sem ele – o que acontece as vezes, porque há roupas com costuras no peito que coçam e nesses casos até sutiãs são mais confortáveis – e em todas as outras ocasiões ficarei sem.

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E se você for dizer “Ai, mas é sensual e você já não tem peitos, se não tiver sutiã ninguém vai querer você” eu vou responder que “se a pessoa me quiser ou não baseando-se nas roupas que eu uso ou não, é um babaca tão grande que prefiro manter distância”.

Estátua

Eu sempre gostei de frio. Talvez por ter passado minha infância morando em Curitiba ou pelo trauma eterno de todos os meus verões infantis passados no calor infernal da caatinga Maranhense. O fato é que o frio sempre me encantou. Sempre gostei de andar pela rua com fumacinha saindo pela boca e minha brincadeira favorita do inverno era competir com os coleguinhas a quantidade de roupas que usaríamos. Eu sempre ganhava, porque era magra e meus casacos eram enormes, então cabia várias camadas de roupa por baixo. A única vez que perdi foi porque uma menina conseguiu colocar catorze blusas. Eu nem tinha catorze blusas.

Era 2009 e eu faria quinze anos. Ao contrário do esperado queria viajar, pois concluí que uma festa era desperdício de dinheiro, ainda mais porque ser anfitriã é um saco. Todas as minhas amigas iam para a Disney em Julho e o plano era eu ir junto, só que o dólar estava muito caro e eu fiquei com pena da minha mãe e abstraí a ideia. Por sorte, minha tia resolveu salvar meu ano e me deu de presente uma viagem para Nova York. Eu passaria o natal e o ano novo na cidade mais famosa do mundo e uma das únicas que, na época, eu tinha cogitado conhecer, porque aparecia em quase todos os meus filmes preferidos.

Peguei várias roupas de frio emprestadas dos outros familiares que já conheciam o exterior e fui.

Passei dias adoráveis, com aquele frio que me permitia colocar meia de lã, calça jeans, bota, segunda pele, blusa de lã, dois casacos, luva de couro, cachecol e chapéu e ir tirando coisas ao longo do dia conforme andávamos, porque se existe algo melhor do que se vestir para o inverno é andar horrores no inverno. A gente não sua e andar fica tão agradável que quando vemos atravessamos a cidade inteira. E nós, de fato, atravessamos a cidade inteira um dia. E foi super divertido.

Então chegou o dia da visita turística mais esperada pela maioria das pessoas e que para mim parecia ser um saco, mas eu precisava ir para cumprir o ritual: conhecer a “Estátua da Liberdade”. Lá fomos nós. No dia anterior tinha nevado, então estava bem frio, mas dane-se. Fomos mesmo assim. Eu sabia que a estátua ficava no meio do rio e que para chegarmos até lá precisaríamos pegar um barco, o que eu não sabia é que haveria uma fila descomunal para chegar até esse barco e que tal fila encontrava-se sob céu aberto.  Já que estávamos lá, encaramos. Ficamos em pé por cerca de três horas, revezando para que uma ficasse sob o Sol enquanto a outra ficava na fila por um tempo esperando. Vimos turistas de diversos países e estávamos absurdamente tranquilas. Então aconteceu.

Faltava pouco mais de dez pessoas para que chegasse a nossa vez, mas eu não aguentei. De repente parei de sentir os meus pés e minhas pernas e tinha a sensação de que ia cair a qualquer momento. Quando tinha que dar um passo, eu simplesmente não conseguia e ficava parada. Minhas mãos pararam de se mexer, minha boca tremia a ponto de eu não conseguir falar e saíam muitas lágrimas dos meus olhos. A fila andou, mas eu não consegui e enquanto minha tia ficava falando “anda Mayra, vai logo” eu não conseguia pensar em nada além de “estou morrendo” e, após um enorme esforço, consegui virar meu tronco para trás, tentando balbuciar que estava morrendo, inutilmente.

Minha tia desesperou-se. O motivo para ela ter me dado a viagem era justamente porque ela queria ir a NY e não sabia falar inglês e eu sabia, só que naquele momento eu não sabia nem falar “oi”. Na minha cabeça eu via tudo como que sob uma imensa neblina e em meio às minhas lágrimas lembrei-me da minha mãe do outro lado do continente e de toda a minha vida e ficava pensando que era aquele o momento de enxergar o filme da minha vida, mas eu não conseguia, porque ficava com pena do desespero da minha tia e sabia que precisava ajudá-la. Por sorte ela sabia gritar “help” e foi o que fez. Até que uma segurança veio até nós e nos levou para dentro da cabana.

Porque antes de pegar o barco, era necessário passar por uma cabana em que havia um detector de metais e um raio x para as bolsas, a fim de evitar ataques terroristas na Estátua. Não faço ideia de como estava a minha cara naquele momento, mas devia estar assustadora, porque a mulher do raio x arregalou os olhos ao me ver. Eu tive que tirar o casaco. Eu não consegui tirar meu casaco, foi minha tia quem o fez. E após passar por todas aquelas coisas fui logo procurar um banco para me sentar e ficar lá. Na minha cabeça era só eu ficar quieta e respirar que logo conseguiria me mexer normalmente de novo.

Sentei-me e em pouco tempo uma segurança veio perguntar se eu estava bem. Minha tia não entendia o que ela falava e eu não conseguia responder. Tudo que fiz foi balançar a cabeça com aquele tradicional sinal que significa “não” e ela entendeu. Me pegou praticamente no colo e me levou para a frente de um aquecedor, que estava cheio de gente em volta. Ela fez todo mundo sair, colocou uma cadeira, me fez sentar e falou pra minha tia tirar a minha roupa e friccionar minha pele, para estimular a circulação, porque eu estava com hipotermia. Sabe-se lá como, minha tia entendeu o que era pra fazer e as duas juntas salvaram a minha vida.

Quando eu olhei para as minhas mãos e consegui movimentar meus dedos voltei a chorar, mas dessa vez era de felicidade. Na minha cabeça meu futuro era o mesmo que o daquele pirata que tira o próprio dedo congelado em “Piratas do Caribe: No Fim do Mundo”, mas, por sorte, não precisei fazer isso. Eu, inteira, desejando ardentemente voltar para casa e me esquentar e nunca mais sentir frio na vida e a moça dizendo para minha tia em qual lugar deveríamos ficar no barco para que eu não voltasse a ter aqueles sintomas. Recuperada, olhei para ela e falei “Moça, por favor, nos tire daqui. Não quero ir na Estátua, preciso me esquentar.” e ela respondeu afirmativamente, dizendo que eu não deveria ir à Estátua, mas ela não queria falar isso e tal. Enquanto nos levava para fora, ensinou-nos onde ficava a cafeteria mais próxima e nos disse para ir até lá, pedir um café e ficar lá dentro até eu me sentir bem o suficiente para continuar o passeio.

Fomos à cafeteria e depois descobrimos estar perto de onde eram as “torres gêmeas”, mas nenhuma das duas conseguiu foto nenhuma naquele dia, porque não estávamos em condições de tirar as luvas. E quando voltamos pra casa, depois das 22h, após uma aventura bizarríssima em um restaurante esquisito, tudo que conseguimos dizer uma para a outra foi “ufa! estamos vivas”.

Não conheci a Estátua da Liberdade, quase virei uma estátua. Achei que nunca mais sentiria tamanho frio e de fato não senti em nenhum dos outros dias que lá estive, tão pouco quando fui a Londres, local que todos me falaram ser mais frio que NY. Nesta manhã, porém, acordei com dois graus negativos e sem as roupas super potentes que meus familiares me emprestaram. E, se em 2009 jurei a mim mesma que nunca mais reclamaria de frio, retiro o juramento e digo que hoje eu tenho todo o direito de fazer isso pelo simples fato de minha boca estar azul sem eu precisar colocar meu batom, mesmo eu estando dentro de casa.

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Inverno, eu te amo. Frio, te amo mais ainda.

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Se minha vida tem um lema é o do não sufocamento. Nem é algo que inventei ou que me forcei a crer em, simplesmente aconteceu. Morar em quatro cidades diferentes até os dez anos e estudar em oito escolas diferentes até os doze fez de mim uma pessoa efêmera. Daquelas que passa pela vida das pessoas, mas raramente permanece.

Não sou de estabelecer laços fortes com os outros, sempre que vejo que me entreguei demais vou logo me afastando. A ideia de que alguém além de mim vai ter mais controle sobre a minha vida ou o meu ser do que eu mesma me angustia. E sim, eu sei que não tenho controle sob muitos aspectos da minha vida, seja porque devo obedecer à uma constituição, ou pelo simples fato de ter pais e morar com eles. Sempre gpstei de pensar como quiser e de poder agir por conta própria.

Minhas amizades mais duradouras contam agora sete anos e eu realmente não sei como ainda sou amiga de tais pessoas, a gente cresceu tanto, mudou tanto, mas passou por tanto junto que alcançamos um status quo de conhecimento mútuo e compreensão incapaz de desaparecer. Só que uma não manda na outra, não influi em nada na vida da outra, a gente conversa sobre o que quer quando quer e se vê quando dá, sabendo sempre que quando precisarmos a outra estará ali, sabendo que a gente se ama.

Acho que essa é a diferença: saber que se ama.

Porque quando a gente sabe que ama alguém não precisa ficar dizendo isso toda hora ou marcando presença na vida da pessoa o tempo inteiro, quando a gente tem uma importância mútua a relação torna-se tão necessária que o rompimento é praticamente impensável.

Eu sinto falta de me importar com pessoas novas. De conseguir imaginar um futuro distante em que nós estaremos comprando sabão em pó no supermercado e discutindo qual marca é mais eficaz.

Meus laços afetivos andam muito fracos. Não consigo mais criar um elo duradouro e eficaz. Começo tudo prevendo como será o fim e encaminho as ações para que esse fim de fato ocorra.

Por mais feliz e realizada que eu esteja com o efêmero, sinto falta da sensação de eternidade, do preenchimento que ela causa. Tudo anda muito superficial e eu me conheço o suficiente pra saber que uma hora o raso me cansa e quando não consigo mergulhar, simplesmente procuro outras águas. Sei que, querendo ou não, a história termina com eu reclamando por não saber me relacionar com pessoas.

Não consigo ser sincera ou permissiva. Não consigo abrir-me e permitir que os outros conheçam o meu todo. Apresento pequenas partes de mim para as pessoas e ninguém consegue juntar minhas peças. Sou um quebra-cabeça insolúvel. E sustentar todas essas máscaras me cansa as vezes. E eu queria que alguém me solucionasse e mostrasse a saída para este grande labirinto em que me encontro.

Outras vezes eu penso no quão legal deve ser a normalidade. Os anseios comuns. O desejar um namorado que vire seu marido e te dê filhos, um emprego de sucesso e uma casa de campo com cachorros no quintal e um belo jardim. Mas não consigo me imaginar presa a pessoas, empregos ou qualquer coisa. Sou aquele filho que cresce, vira pássaro, quer voar e não se contenta com uma gaiola, mesmo que seja grande.

Não quero uma vida comum, não quero ter pensar na minha vida, planejá-la, quero apenas deixá-la acontecer, dia após dia, como uma grande odisseia.

Prevejo anos de anseios, angústias, questionamentos, decepções, buscas, aceitações e peças e mais peças espalhadas em lugares indevidos à espera de alguém que se digne a juntá-las sem que se assuste demasiadamente.

Por que é que as pessoas não simplesmente dançam?

Cansada dessa vida repleta de gente séria demais que não sabe aproveitar a efemeridade das coisas.

Não Preciso Disso pra Ser Feliz.

Nem pra me sentir completa.

Isso tudo é uma piada. A vida é uma grande piada, contada, diversas vezes, por péssimos piadistas que nos fazem rir só porque chorar na frente deles seria deplorável. A verdade é que o mundo só caminha quando passamos a dotar a ele algum tipo de sentido, não importa qual seja. Tem gente que quer ser feliz, outros querem mudar o mundo, outros querem apenas existir sem que ninguém os incomode, outros não querem nada, mas todos perdem tempo pensando em qual sentido esperam que o mundo e a vida em geral tenha para eles. E eu não me importo com o que as pessoas querem, só fico triste quando percebo que o que as motiva a querer as coisas são coisas com as quais não concordo. E eu sei que eu não deveria me importar que eu não deveria ficar indignada com as diferenças, mas sim aceitá-las, mas, bem, isso é difícil.

Porque desde que eu nasci me disseram que eu deveria viver em busca de uma coisa chamada “felicidade” e eu nunca soube ao certo o que é isso, mas todas as vezes em que senti meu estômago borboletear após algo bom ter acontecido em minha vida, denominei que tive um momento de felicidade. Aos poucos percebi que viver na felicidade é algo que não existe, aprendi que é apenas uma palavra, como todas as outras, uma palavra que tenta simbolizar um sentimento irreal. Ou real por apenas poucos segundos. E isso foi terrível. Porque ver sentido na música de natal que diz “papai Noel, vê se você tem a felicidade pra você me dar/ já faz tempo que eu pedi, mas o meu papai Noel não vem, com certeza já morreu ou então felicidade é brinquedo que não tem” é algo absurdamente absurdo. E todas as vezes que me pego refletindo abruptamente sobre temas que ninguém se importa lembro-me de meu primo assistindo a Clube da Luta e comentando só e unicamente “as cenas de ação são massa, mas esse cara é muito pilhado” e penso que, bem, eu sou muito “pilhada”, o que quer que isso queira dizer. Porque eu simplesmente não consigo engolir determinadas situações sem que isso gere em mim uma reação em cadeia de pensamentos terríveis que, na maioria das vezes, resultam ou em textos chatos, ou em eu descontando minhas neuras em gente nada a ver. Já descontei as neuras hoje, mas não foi suficiente. Precisava fazer um texto.

Eu tinha cinco anos quando disseram que eu tinha casado. Estava sendo daminha do casamento do meu primo, junto com o irmão da esposa dele e disseram que a gente se casou junto com eles. Acreditamos e passamos a noite dançando junto, como os noivos estavam fazendo e depois saímos dizendo que nos amávamos, pois era o que os noivos fizeram. Com seis anos todas as meninas da sala se reuniram e disseram que gostavam cada uma de um fulano, eu tive que arranjar o meu, caso contrário ficaria sem amigas. Com oito anos, os pretendentes eram outros e tínhamos passado a ser mais seletivas. Perdi-me no tempo e consegui sobreviver sem adentrar-me nesse meio torturante em que eu tinha que fingir interesse por um menino idiota só por ser bonito para ter amigas e de repente estava com catorze anos, todas as minhas novas amigas já tinham beijado algum garoto e as conversas em suma maioria eram sobre eles. E eu adentrava mesmo sem ter nenhuma experiência, só porque sempre gostei de meter o bedelho na vida alheia. E eu completei quinze anos e não ganhava mais tantos presentes de aniversário, a maioria das pessoas terminava o cumprimento com “um bom namorado”. Com dezesseis terminavam o cumprimento com “e muitos gatinhos”. Com dezessete davam três beijinhos que era “pra casar” e com dezoito faziam tudo ou diziam “nem adianta desejar essas coisas mais, né?” e eu nunca soube o que fazer nessas situações, na verdade, nunca sequer compreendi as razões para que elas existam.

Atualmente toda semana eu tenho que escutar alguém elencando motivos para que eu arranje um namorado, explicando seriamente sobre o quão a vida melhora quando isso acontece “você se frustra menos”, “beijar é bom”, “é bom ser amado” e tudo que eu consigo pensar é que eu consigo todo o amor que necessito com a minha mãe e meu pai e não estou interessada em procurar mais um ser para esse fim. E tudo que eu consigo pensar é em dizer, ”Por favor, vá cuidar da sua vida”, mas sei que meus pais ficariam chateados com a “falta de educação” e então fico calada. Porque a coisa é tão absurda que a falta de educação não é em meter o bedelho na vida alheia, mas sim em reclamar que estejam fazendo isso, porque “eles falam para o seu bem”. Quem foi o burro que disse um dia que isso seria para o meu bem?

Tenho apenas dezoito anos, mas já estou morta de cansada de rir das piadas engraçadas da vida e de fingir que estou rindo das tristes. Estou morta de cansada dessa gente que tira não sei da onde que a vida ideal é morar numa casa com quintal, ter cachorros, um marido rico e bonito e mil filhos. Não que tenha algo errado em pensar assim, o errado, sob o meu ponto de vista, consta no fato de a pessoa achar seu pensamento tão certo a ponto de tentar implantá-lo na vida de todos os outros seres que encontra. Porque eu não concordo com nada disso, mas só tenho coragem de abrir a boca em situações como esta quando sei que o interlocutor vai entender e não vai apenas dizer “ai, essa aí é uma louca que ainda acredita que pode mudar o mundo” porque, eu não acredito que eu vá mudar o mundo, minha gente! Eu só não concordo com as linhas de pensamento tradicionais e prezo pelo meu direito a ser livre para pensar e agir de acordo com o que eu bem entender! Porque eu nunca cheguei pra uma garota e disse “pare de se sujeitar a essa teoria abrupta de que você precisa estar apaixonada e ter um namorado lindo aos 15 anos para ter um futuro perfeito” eu simplesmente deixei de acreditar nisso e comecei a viver melhor comigo mesma.

Porque não há nada de errado em não querer que sua vida dependa da vida de outra pessoa. Em não querer ter um namorado só porque a sociedade lhe impõe que é o certo a fazer. Em acreditar no amor em pleno século XXI. Em tentar descobrir maneiras cada vez melhores de viver e aproveitar bem a vida, independentemente de qual linha filosófica você tenha que seguir para isso. Não há nada de errado em ser quem se é, independente se é loiro, moreno, careca, cabeludo, rei, ladrão, polícia ou capitão! Todos têm as mesmas chances e probabilidades de conseguirem o que querem da vida e até mesmo de decidirem que não querem nada! E eu não luto pela minha felicidade e os outros que se danem e não luto pela felicidade dos outros e eu que me dane, eu não luto por nada! Apenas tenho o singelo desejo de que possamos respeitar, de fato, uns aos outros e parar com essa babaquice de acreditar que a vida fácil, ou que é passada para nós como fácil, como tradicional e, diversas vezes, como certa, seja de fato a mais fácil, tradicional e certa. Meu desejo é apenas que cada um tenha a capacidade de descobrir o que é melhor para si mesmo, sem tentar impor isso a nenhum outro. É que deixem as garotas que não querem namorar ou que anseiam desesperadamente por isso, mas por algum motivo não conseguem, em paz e ao mesmo tempo em que deixem em paz a que começou a namorar aos onze anos. Eu só queria que todo mundo vivesse a vida em paz. Tanto consigo quanto com os outros. Sem essas pressões abruptas e toscas que uma sociedade e uma cultura de loucos vive nos impondo!

Eu só queria poder morrer virgem aos 110 anos sem ter que ouvir toda semana algum panaca me dizendo que eu deveria estar namorando. Porque, mesmo que a felicidade esteja em falta, seja rara e uma palavra infeliz, é possível alcançá-la sem ter um homem nas costas – ou em qualquer outro lugar do corpo.

Desculpem-me, eu precisava desabafar.

Cabelos Coloridos

Desde que pintei o cabelo muita gente tem se surpreendido como fato de eles continuarem brilhantes e sedosos como se jamais tivessem sido descoloridos, além disso venho sido frequentemente surpreendida com perguntas sobre manutenção e outros tipos de dicas, assim sendo, resolvi fazer um manual de dicas para cuidados com cabelos coloridos, e por coloridos digo cabelos previamente descoloridos, ou seja, o tipo mais danificado. Com esse manual pretendo ensiná-las a manter os cabelos lindos, não importa a cor que eles sejam. Ah e sintam-se honrados, caros leitores, pois eu nunca contei nada disso para ninguém! Não saiam por aí espalhando meus segredos hein!

Passo 1 – Lavagem dos Fios

Como o normal, inicie o processo com um shampoo. Eu utilizo o da foto, mas creio que qualquer outro para cabelos danificados seja capaz de obter o mesmo resultado.

Coloque uma quantidade razoável do produto nas mãos e massageie os fios, dando ênfase ao coro cabeludo. Se considerar necessário, reaplique o produto. É normal que saia tinta na água neste momento.

Passo 2 – Condicionando

Condicionar cabelos coloridos é o passo mais importante da lavagem e uma dica importantíssima é misturar um pouco de condicionador com tinta em um outro recipiente. Por exemplo, esse é o condicionador que eu uso.

       Mas misturei-o com a tinta da cor que está no cabelo no momento dentro desse pote de vidro e uso o conteúdo deste pote somente. A tinta no condicionador vai ajudar a manter o tom e tintar coloridas têm um algo poder de hidratação, então pode ficar tranquila que esse processo não estragará seu cabelo.

Lembre-se de aplicá-lo em todo o comprimento dos fios e em quantidade suficiente para que todos fiquem macios. Aproveite pra desembaraçar o cabelo, pois ele provavelmente estará bem mais fino que o normal.

Passo 3 – Para Pentear

Após enxugar os cabelos com uma toalha macia, sem torcê-los  ou esfregá-los demasiadamente e antes de pentear sugiro que aplique um leave in. É isso que garante o brilho e a maciez.

Mas cuidado! Leave in não é creme para pentear, então não lambuze o cabelo com ele. O ideal é usar uma pequena quantia da metade para baixo do cabelo, para selar as pontas e impedir pontas duplas ou semelhantes.

Após a aplicação deve-se pentear o cabelo de preferência com um pente de madeira e segurando os fios para não propiciar a quebra.

Certo, esses passos devem ser cumpridos durante todas as lavagens, mas não são suficientes. Sabe-se que será necessário fazer um retoque na cor, em média quinzenalmente. Para isso utilizaremos:

1 – Luvas

 A preferência é por luvas de vinil, mas caso não as encontre utilize de plástico mesmo. Elas são importantes porque a tinta demora um pouco para sair da pele. E veja bem, isso já é uma dica para não sair manchando as orelhas e afins!

2 – Pote Plástico e Pincel

Eu usava um pote de margarina, mas um dia surgiu esse transparente e achei melhor porque dá pra ter certeza da cor da tinta, mas o pote não importa muito. Pincel para pintar cabelos pode ser comprado em qualquer loja de cosméticos e em algumas farmácias também.

3 – Pente

O pente fino é usado nessa etapa para separar as mechas de cabelo, o que facilita bastante na hora do retoque.

4 – Touca de Banho

A touca de banho serve para ser colocada no cabelo após a aplicação da tinta, pois se abafada a cabeça a tinta funciona mais rápido e com maior eficácia.

5 – Tinta

Eu uso Tec Italy porque a duração é boa, a cor é bonita, o cabelo fica bom e é a tinta mais barata que eu encontrei, acreditem se quiser! Se você for de Curitiba ela é vendida na Halfi Cosméticos da rua XV. Pretendo testar outras marcas ainda, mas no momento essa é  a que eu considero melhor e recomendo.

Com todos esses produtos você vai vestir a luva, colocar a tinta no pote, separar mechas de cabelo com o pente, aplicar a tinta com o pincel e depois prender o cabelo e colocar dentro da touca. Há tintas que são mais eficazes com o cabelo molhado e outras com o cabelo solto. A tinta que eu uso teoricamente é melhor com o cabelo seco, mas eu prefiro passar o shampoo e depois aplicar a tinta, antes do condicionador. E depois eu nem volto pro condicionador, porque sempre que retoco eu hidrato o cabelo e esse é o próximo passo.

A hidratação é o que mantem os cabelos bonitos de fato, o que dá a vivacidade aos fios e a recomendação é que ela seja feita uma vez por semana com o produto de sua preferência. Eu uso o creme da foto.

Esse creme é muito bom pois possui  óleo de argan que é uma especiaria do Oriente Árabe capaz de maravilhas com relação a hidratação dos fios. Toda vez que aplico o creme sinto como se meus cabelos tivessem acabado de nascer.

Quando eu faço hidratação após o retoque espero uma hora enquanto a tinta age e então enxáguo o cabelo e passo o creme depois coloco-o novamente sob a touca de banho e então uso uma touca térmica como essa  por cerca de quinze minutos e então eu enxáguo o cabelo novamente e seco-o com a toalha, passo o leave in e penteio.

Quando faço a hidratação sem o retoque simplesmente aplico o creme sobre os fios após lavados e condicionados e fico com a touca térmica por cerca de 15 minutos e depois enxáguo normalmente.

É importante ressaltar que cada touca térmica vem com um manual de instruções e ele deve ser cumprido. Eu sempre deixo a tinta por mais tempo do que o recomendado, mas caso você não se sinta seguro para tal não o faça. Sempre descolora o cabelo no cabeleireiro pois é ele quem sabe o produto adequado para os seus fios, o tempo certo de permanência e, principalmente, ele é capaz de evitar que seu cabelo acabe ficando ressecado e quebradiço demais.

O meu salão é esse para quem quiser saber e a minha cabeleireira é a Ju.

Vale ressaltar também que é recomendável cortar as pontas no máximo de seis em seis meses e que cabelos coloridos são bonitos, mas dão trabalho e se você não cuidar direito eles podem se tornar a coisa mais feia que você já fez na vida.

Espero que essas dicas tenham ajudado alguém e quem não se interessou por nada disso corra para assistir minha vídeo resenha sobre “A Culpa é das Estrelas“.