Dilúvio de uma gota d’água.

Não sei se vocês sabem, mas eu sou daquelas pessoas que se debulha e se tortura por pura falta de auto estima. Daquelas que deita às 22h e fica chorando até 4h da manhã, jurando a Deus e ao mundo inteiro que não passará dessa noite simplesmente porque não é digna de pisar em chão algum.  Sou dramática mesmo, desde que me entendo por gente. Sempre. Daquelas que transforma qualquer coisa numa calamidade e que ao invés de “cagar e andar” como sabe que deveria fazer, se importa mais do que tudo, com tudo e por isso sofre. Acho que tenho mania de sofrer e sinto como se a vida não fizesse sentido quando eu simplesmente estou leve e sorridente por aí. Sei lá. Tudo que sei sobre a minha pessoa é que eu choro, berro, me machuco interna e externamente, abro a janela do quarto e fico caçando motivos para me jogar e quando acho que tudo isso está passando, logo arranjo um meio de sentir tudo de novo. Como se dependesse disso. Eu sou uma sofredora nata, que tem como profissão e modo de vida o ato de sofrer. Brinco que serei daquelas pessoas contratadas para chorar em velórios, unicamente porque gosto de chorar, mas na verdade é porque gosto de sofrer. Digo que terei uma prateleira só com as cinzas de todos os mortos da minha família, só para me lembrar de sempre sofrer. É esquisito, mas eu me sinto culpada quando estou feliz, culpada porque acho que não tenho esse direito enquanto há milhares de pessoas a beira da morte no mundo todo. Acho que minha sede por justiça e paz é apenas uma maneira de tentar aliviar meu sofrimento, embora eu saiba que quando ele passar, tratarei de sofrer por outra coisa.

O fato é que vivemos em um mundo feliz. Superficial e feliz. Em que as pessoas simplesmente impõem sua felicidade e a mostram com tanta vontade que realmente nos faz crer que elas estão felizes. Sei, no entanto, que não passa de uma grande mentira. Porque ninguém é feliz o tempo inteiro. É impossível. Mas a necessidade de se mostrar bem, o medo de tornar as outras pessoas magoadas e tristes acaba por obrigar a todos, inclusive a mim mesma, a fingir-se feliz. Não há nada pior do que isso. Eu me irrito com as pessoas que andam por aí sob um óculos de sol cor-de-rosa que faz com que o mundo inteiro passe de cinza, para rosa, de triste para feliz e assim levam a vida, falando besteiras e futilidades simplesmente para manter tudo na boa. Porque a verdade é que todo mundo sabe que se forem conversar sinceramente com alguém, acabarão por demonstrar que são fracos e sofredores. Impossível que seja só eu.

A verdade é que eu sou mais trouxa do que todas as outras pessoas, porque eu sei que estou sendo trouxa e mesmo assim continuo sendo. Não há como ser pior. Sou trouxa porque sei que a gente precisa é de complexidade, de profundidade, mas mesmo assim insisto em zilhões de relacionamentos superficiais. Eu sou capaz de sofrer e sorrir por tanto tempo que quando simplesmente canso, acabo por magoar mais gente do que teria magoado se tivesse sido sincera desde o começo. E olha que meio mundo diz que eu sou uma das pessoas mais sinceras que existem. Se sendo sincera continuo sendo trouxa, imagino como seria se eu fosse tão omissa quanto o resto do mundo. Eu não sei conversar sobre a minha pessoa, com ninguém, nunca. Por diversas vezes escrevo o que sinto, seja aqui ou em um diário, ou em um e-mail ou em uma conversa de um chat qualquer, mas absolutamente nunca eu converso olhos nos olhos com alguém sobre a minha pessoa, muito menos sobre a pessoa do outro. Porque ninguém tem essa coragem. E isso é terrível.

Minha mãe me fez ir ao psicólogo por muitos anos e mesmo em um psicólogo eu dava meu jeito de falar trivialidades ao invés de simplesmente dizer tudo que sentia. Eu sofro, mas não gosto que os outros saibam nem do fato e nem das razões. Tem que ser tudo silencioso, exclusivo, meu. Mas eu não aguento mais toda essa babaquice na qual me meti. Não aguento mais ter zilhões de relacionamentos baseados em “legal o seu esmalte” ou “viu que o fulano pegou a beotrana?”, não. É chegado o momento de eu me centrar e de fato ser o que acho certo. De “cagar e andar” somente para o que merece e de dar devido valor a somente o que merece também. É chegado o momento de eu ser sincera quanto ao que sinto, com quem eu sinto. É chegado o momento de eu conseguir conversar com alguém, olhos nos olhos sem desabar a chorar, sem aumenter, sem fingir, sem sofrer. É chegado o momento de eu mostrar ao mundo tudo que se passa por baixo desse cabelo blurple. E eu sei que é triste e dolorido, mas o momento chegou e eu não posso deixar passar a oportunidade de ser o que creio que devo ser. É chegado o momento de uma gota d’água ser apenas uma gota e não algo digno de se chamar a Arca de Noé.

Eu sei que isso decepciona muita gente e de certa forma decepciona a mim mesma, mas é preciso.

Não sei mais o que vou escrever aqui, qual será a frequência, a importância ou o conteúdo. Mas esse lugar existirá para sempre, porque é o meu único refúgio restante e não pode morrer.

Estou velha demais para continuar a chorar por qualquer coisa simplesmente por medo de mostrar a verdade. Estou velha demais para desconfiar do mundo inteiro, inclusive de mim mesma. Estou velha demais para continuar a viver e pensar como criança. Velha demais. Só espero não estar tão louca.

Brilho Eterno de uma Mente com Lembranças

Just because I don’t say anything doesn’t mean I don’t like you
I open my mouth and I try and I try, but no words come out.
Nothing Came Out – The Moldy Peaches

Eu sei que você me apagaria se pudesse. Sei que o fato de agir bobamente comigo está intimamente relacionado com isso. A verdade é que por mais que você diga e queira crer que gosta de mim, daria tudo para poder me apagar de sua mente. Isso é até engraçado pois eu sempre achei que seria eu quem iria implorar por uma lobotomia, mas no fim acabou sendo você. A razão eu realmente não compreendo, errei sim, todos erram e eu faço parte desse imenso hall de “todos”. Impossível seria não errar, tendo em vista que até você erra. Todos erram. A questão é que as pessoas costumam entender os erros alheios, ou pelo menos fingem. Tentam seguir em frente e fingir que nada aconteceu para que assim possam seguir alegres e saltitantes por aí, mas você não. Você é sincero e por mais que eu tenha admirado este fato por tanto tempo, nunca abominei-o tanto quanto agora. Queria que você soubesse mentir.

Eu não sou perfeita, mas você também não é. Eu me lembro de todos os meus erros e de todos os meus acertos. Eu me lembro de tudo. Dos seus também. E não tenho vontade de apagá-los. Achava que teria, mas não tenho. Tenho orgulho do meu passado e de cada passo que eu tomei em minha vida, pois foi por fazer exatamente o que eu fiz que parei aqui onde estou hoje e eu adoro o lugar em que me encontro hoje, adoro a pessoa que me tornei. Mas não gosto da que você se tornou. Talvez nossa convivência realmente tenha acabado com a tua vida e isso é terrível porque em nenhum momento foi o que eu quis, eu só queria que você fosse feliz. E assim sendo sinto-me na obrigação de lembrar que te fiz feliz, muitas vezes, incontáveis vezes, pelas mais diversas razões e motivos.

Você fez com que eu me sentisse assim e eu fiz com que você se sentisse assim também. Fui sua Clementine mesmo tendo o cabelo castanho. Mesmo sendo sem graça. Só que você criou a absurda e enfadonha capacidade de me apagar da sua vida, mesmo em um mundo em que lobotomia não é acessível. Provavelmente você se cansou de mim, da mesma maneira que eu me cansei de você tantas vezes por tantos momentos antes, a questão é que mesmo cansada eu continuava ali, com meu sorriso armado escutando pacientemente você me dizer tudo que tinha vontade. É claro que as vezes eu explodia, claro que as vezes tinha crises de honestidade e desabava a falar tudo que sentia vontade, claro que nesses momentos você estava ali, talvez fingindo-se de presente, talvez realmente estando, o fato é que estava e que isso me fazia bem. Fez-me bem por tanto tempo que nem consigo contar.

E quando eu já não podia lembrar da minha vida sem a sua ao meu lado, quando já não conseguia passar um dia inteiro sem pensar em você, algo aconteceu. Algo que até hoje não sei o que foi mas foi fatídico e nos fez viver separadamente por tanto tempo e até hoje, porque a gente conversava tanto e o tempo todo, mas mesmo assim tínhamos uma capacidade incrível de sermos completos desconhecidos um para o outro, como se em meio a tantas palavras, nenhum conteúdo fosse realmente emanado.

Talvez você tenha percebido isso, ou talvez tenha sido eu. Talvez tenhamos sido nós. O fato é que a percepção não agregou uma conversa realmente conversada e sim um afastamento terrível que me martirizou por muito tempo e com certeza te martirizou também.

Em muitos momentos eu cheguei a pensar isso e eu realmente conheci uma pessoa nova, mas nem ela em sua exuberância estupenda foi capaz de me fazer esquecer da sua existência prévia. Hoje começo a pensar que talvez ninguém nunca o faça e eu esteja condenada a viver sob sua sombra para sempre, como se todos os futuros seres que possam despertar em mim algum tipo de sentimento fossem na hora encobertos pela sombra da sua perfeição. Sei muito bem que você dizia que a perfeita era eu, mas a verdade é que sempre foi o contrário e eu em meio a todo meu amor por mim mesma não fui capaz de perceber.

Não sei se é por conta do cabelo de Clementine ou pela idade avançada chegando, o fato é que estou cansada de toda essa coisa de destino. De toda essa coisa que sempre insiste em acontecer com a minha pessoa. Será que as coisas não poderiam dar certo uma vez pelo menos? Será que eu não poderia ser feliz pelo menos por uma semana inteira? Eu queria ter nascido desprovida da capacidade de pensar, assim muito sofrimento seria evitado pela minha parte. Queria ter nascido desprovida da capacidade de sentir, como Effy que precisa parar no meio de uma rua e gritar para ser atropelada porque quer sentir algo, eu queria ter nascido simplesmente com algum mecanismo que justificasse o fato de eu ser capaz de estragar todos os momentos, até os que eram para ser bons! É como se o Deus da Carnificina não parasse de rondar a minha pessoa nunca e quer saber? Isso cansa. Cansa demais.

Queria ter coragem e meio de fazer com que você não me apagasse da sua mente. Lembrasse de mim para sempre. Não que eu queira continuar de onde paramos, não que eu queira algo relacionado à sua pessoa. Não que eu não queira também. Minha vontade é unicamente de fazer com que você lembre-se de mim da mesma maneira que eu insisto em lembrar da sua pessoa. Que você sinta por mim a mesma coisa que eu sinto por você. A mesma vontade tremenda de fazer uma lobotomia ao mesmo tempo que prefere uma penseira e ao mesmo tempo que prefere nada, apenas a liberdade para poder continuar pensando no que quiser quando quiser, sabendo do que aconteceu e porque aconteceu. Hoje eu queria ter razões para acreditar no amor novamente. Porque eu acredito, com todas as minhas forças, em todos os momentos, mas hoje, particularmente hoje, está difícil. Hoje eu sonhei com você. Hoje eu reli nossas conversas. Hoje eu assisti a um dos meus filmes preferidos debulhando-me em lágrimas. Hoje eu soube que um dos amores que jurei serem eternos acabou. Hoje quis com todas as minhas forças incorporar a Clementine, entrar na sua cabeça e implorar para que continue a lembrar de tudo para sempre, como eu. Para que tenhamos pelo menos isso em comum. Creio que é só o que nos resta. Lembranças. Pode parecer ruim, mas não é. Não é a melhor coisa do mundo, isso é fato, mas também não é a pior. Seria pior se as lembranças não existissem, por isso a urgência em fazer com que você as mantenha vivas. Mesmo hoje eu ainda quero que você fique bem, que você esteja bem e que você seja absurdamente feliz. Enquanto rogo aos céus, ao destino e a sorte para que eu também siga pelo caminho da luz e possa sair emanando sorrisos belos mundo a fora.

É tudo que eu peço.

Seja meu Joel para que eu possa de fato ser sua Clementine. Quem quer que seja você.

P.S.: Esse texto faz parte de um meme em que eu deveria reciclar o título de outra blogueira. Quem será ela?

Envermelhada

Eu faço parte de um grupo de blogueiras e há alguns dias elas decidiram entrar na vibe do batom vermelho, o que significa que começaram a usar e fotografar-se usando o dito cujo, o que me fez lembrar que eu tenho uma história com esse produto.

Estava no segundo ano do Ensino Médio e uma das minhas amigas estava achando que um menino gostava dela, por isso resolveu levar batom vermelho pra escola e passá-lo na frente do fulaninho, só pra ver qual seria a reação dele. Ela passou e nada aconteceu. Quando o professor da outra aula entrou e a viu disse algo como “não é hora para usar um batom vulgar desses”, mas ele disse de um jeito rude que fez parecer que ele estava chamando a menina de meretriz ou algo semelhante. Ela achou um absurdo e eu também, claro. Nessa altura basicamente todos os meninos da sala já tinham ido dizer-lhe alguma coisa e eu não lembro se o que causou tudo disse algo, só sei que a partir daí fiquei embestada com o poder de um simples batom para com os homens. Parece coisa de cachorro que só enxerga uma cor e quando a vê corre atrás. Bizarro.

O fato é que eu achei que a gente não devia deixar barato a falta de respeito do professor e por isso na próxima aula da mesma matéria a maioria das meninas da sala passou batom vermelho. Eu entre elas, obviamente. Quando o professor entrou fez uma cara de surpresa e ficou sem ter o que dizer, eu estava gargalhando por dentro. Quando a aula terminou fomos em fila para o banheiro, tentar tirar o tal batom e foi engraçado porque enquanto uma fila de garotas divas de batom vermelho passavam, todas as outras pessoas que se encontravam no corredor ficaram paradas nos encarando. Como se fosse a coisa mais inusitada que poderia ser feita na escola. Eu sei que foi um momento esquisito da minha vida, daqueles que eu jamais teria imaginado, mas ele aconteceu e eu posso provar. Sim, porque não consegui tirar o batom no banheiro e assim sendo enquanto estava indo embora da escola – frustradamente tentando bolar um jeito de explicar pros meus pais caso chegasse em casa daquele jeito – resolvi limpar o batom nas folhas de Julho (o mês de férias, claro) da minha agenda escolar. Assim sendo, minha agenda de 2010 é repleta de marcas de batom vermelho. Bizarro.

Após lembrar-me dessa história percebi que nunca usei do poder da cor nos meus lábios, pelo menos não da cor vermelha. Sempre fui a pessoa que não gosta de usar maquiagem a não ser que veja extrema necessidade em fazê-lo e ainda assim, opta por coisas básicas e não muito chamativas, por puro complexo. Já contei aqui que usei batom azul em plena Oxford Street em Londres e acho que isso foi um grande passo em meu desenvolvimento pessoal, pois creio que a partir daquele dia, minha vergonha para com as cores e o fato de chamar atenção demasiada diminuiu. Eu não tinha vergonha de nada até meus doze anos, daí eu fui pra escola particular e comecei a ser zoada pelos meus tênis e afins e comecei a ser besta o suficiente para tentar me encaixar em algum padrão, perder um pouco da minha individualidade para ficar bem invisível no meio de todo mundo. Não me arrependo, porque a invisibilidade foi maravilhosa enquanto durou. Ela deu uma aliviada quando eu fiz uma mecha azul no cabelo, mas nada muito escandaloso, porque eu ainda estava na escola. O detalhe é que quando a escola acaba todas essas coisas, frescuras e complexos parecem completamente triviais, é como se você se sentisse de repente apta a ser de fato quem você planejou em sua mente. Foi aí que entrou o batom azul e agora o batom vermelho.

Hoje eu acordei ciente de que iria atrás do vermelho ideal, queria um fosco e bem vivo. Não faço ideia de onde usarei, certamente não para ir à faculdade ou algo do tipo, não por achar desfavorável ao lugar, mas sim por pura preguiça de acordar mais cedo pra tentar ficar bonita. Ainda não entendo porque tem gente que faz isso, não vejo necessidade em se emperequetar para ir estudar, mas enfim. Pretendo usar o meu batom numa ocasião divertida, talvez no meu aniversário ou algo semelhante. O fato é que agora eu cresci, sou mulher e tenho o meu próprio batom vermelho. E como esse é um mês especial – o do meu aniversário de dezoito anos – tentarei fazer o máximo de coisas da minha “to do list” pra tentar começar o ano com menos coisas planejadas e mais coisas imprevisíveis no cardápio.

Enfim, espero que algumas de vocês sigam o meu exemplo e comecem a inovar na vida porque essa é a melhor parte de poder viver.

Espanca-me

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há cerca de um ano ouvi o nome dessa nobre moça pela primeira vez. Confesso com pesar que nunca li um livro dela, porém já passei madrugadas inteiras lendo-a e relendo-a na internet. Ela tem o nome mais poético do mundo, um nome paradoxal que ao mesmo tempo é bom e ruim, porque ela é flor, ela é bela e ela espanca. E eu gosto de gente assim, paradoxal, de lua, que cada dia pensa e faz uma coisa diferente, sem medo de ser feliz, sem vergonha alguma de ser apenas o que se é.

Meu poema preferido dela chama-se “Amar” e é ele que está sendo recitado ao longo deste texto. A questão é que eu jamais havia encontrado um texto sobre amor que dissesse tanto do que eu penso. Porque tem dias que eu acordo e tudo que gostaria de fazer era amar. Eu acordo à procura de algo para amar, de algo que me transmita amor, que me dê borboletas no estômago e, infelizmente, são raras as vezes que concretizo a minha busca. As vezes sinto que nada sente necessidade de ser amado, nada nem ninguém, pelo menos nada nem ninguém dentre as pessoas que me cercam e isso é muito triste.

Eu queria amar alguém profundamente e queria ter vontade de fazer coisas motivada por essa pessoa. Queria não ter vergonha e simplesmente amá-la, independente do que isso viesse a significar. Queria viver todas aquelas coisas que pessoas apaixonadas dizem sentir e queria que essas coisas fizessem parte da minha vida cotidiana. Queria amar porque tenho o sonho infantil que me faz crer que somente isso me faria feliz. Porque nada sou além de uma garota que foi e é diariamente completamente enfeitiçada  pelos contos de fada, tanto os clássicos quanto pelos modernos. Porque passo os dias assistindo a programas que me mostram pessoas que se completam amando, mesmo que seja amando um animal de estimação. Resolvo ler um livro e sempre, absolutamente sempre, envolve amor. Para abster-me deste mundo, só vivendo no universo acadêmico o tempo todo, porque lá sim, lá não há amor. Pelo menos não explicitamente. A questão é que não consigo, sou humana e gosto de suspirar com a história alheia.

Mas eu queria ter a minha história. Queria suspirar com ela. Queria suspirar pelos meus feitos, minhas alegrias, pela minha vida, que vista de fora é brilhantemente perfeita, mas se é tão perfeita, porque continuo tão triste, tão alheia, desmotivada e ansiosa por um amor? Por que vivo tão necessitada de um belo espancamento só para recordar-me de que eu fui sim criada para sentir algo? Por quê? Perguntas e mais perguntas, que mais uma vez encontram-se se resposta alguma, jogadas ao infinito, num infindável buraco negro que insiste em sugar não só a minha alegria, mas todo o sentido que eu achava ter encontrado para a minha vida.

Falavam-me que estudando eu obteria mais conhecimento e assim entenderia melhor as coisas, mas a verdade é que quanto mais estudo, mais alheia ao resto eu fico, mais boba. Menos humana, menos gente. Porque pensar o mundo como uma incógnita certamente não me é mais apreciável, agora eu quero saber as respostas, quero buscá-las e encontrá-las e em meio a tantas procuras, acabo por me perder. Será isso bom, será que não é, será o certo ou será errado? São só mais perguntas, daquelas que talvez fiquem sem resposta. Que posso eu fazer? Nada.

Resta-me suportar as pancadas, quedas e deficiências que a vida prova ter. Resta-me submeter-me ao espancamento constante, que talvez, quem sabe, porventura, um dia ele chegue a valer a pena. Talvez um dia eu finalmente encontre o meu amor. E se não o fizer, dignar-me-ei a apenas ler. É a única fonte de felicidade que gera decepções não muito dolorosas.

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

Florbela Espanca

(Daqui)

Que eu saiba me perder para me encontrar.

Comendo sopa ou soltando uma pipa, vocês que sabem.

Somos internautas e não é novidade as tais leis contra pirataria que os americanos inventaram. Por sorte seus idealizadores caíram na real e resolveram refazer as leis antes de as liberarem para votação, no entanto Megaupload continua fechado.

Talvez você não saiba, então eu explico: Megaupload é um grande site de download em que havia séries, filmes, músicas e qualquer coisa que fosse possível fazer download. Era o maior, o melhor, o mais completo, mais rápido e menos arriscado. Todos já usaram  alguma vez na vida. Daí surgiu essa história de SOPA e PIPA e o FBI começou a caçar os donos desses sites  para tomarem as medidas necessárias. As duas leis propunham o fechamento de todos os sites de download e qualquer outro site que compartilhasse algum produto que deveria render direitos autorais e estava sendo distribuído gratuitamente na internet. Elas foram revogadas, mas disponibilizar conteúdo pirata nunca foi legal e por isso todos os outros servidores de download estão com medo e aos poucos findando seus serviços, pelo menos é o que está escrito aqui. O fato é que a gente mora no Brasil e aqui menos da metade dos filmes lançados passam no cinema, sem a internet nem saberíamos da existência deles, mesmo porque sem publicidade as locadoras não os compram e assim a gente fica sem acesso a milhões de filmes. O mesmo acontece com os cd’s, tendo em vista que não há uma loja só de cd’s por aqui, pelo menos não uma loja enorme, como as livrarias. Isso significa que grande parte dos cd’s produzidos pelo mundo não são vendidos em nossas terras e sem os downloads jamais teríamos acesso a eles. Sei que existem programas que baixam músicas do youtube, mas não é com muita qualidade e do jeito que as coisas estão, não acho que eles irão durar muito. Por último, falaremos dos seriados que no Brasil só passam em televisão paga, quando vão para a aberta é dublado, zilhões de anos depois do lançamento e raramente as televisões compram todas as temporadas, fazendo com que você não saiba o fim da história. Mesmo nas televisões pagas, os seriados demoram para passar, sendo estreados aqui um bom tempo depois do que em seu país de origem, fora que muitos deles sequer passam.

Nós fomos acostumados a conviver com rios de informações, vendo filmes que nunca passarão nos cinemas daqui, ouvindo músicas que brasileiros normais jamais ouviriam e vendo todos os seriados do mundo. De repente acordamos e descobrimos que nossa liberdade está com dias contados e que em breve teremos que voltar a nos alienar somente com a Globo. Lindo.

Essas leis obviamente são reflexos da perda abusiva de dinheiro que as grandes gravadoras e produtoras andam tendo desde que inventaram o download, porém é completamente normal que as pessoas comprem os dvd’s de seus filmes preferidos, assim como os cd’s e os enormes boxes de seriados. Não é poque usufruem do download que deixam de comprar. O governo americano não percebe que acabando com a liberdade internetesca estão despertando um monstro muito maior que o do Lago Ness.

Isso porque há 20 ou 30 anos jovens entre 15 e 35 anos tinham ideais e saíam de sua zona de conforto para irem em busca deles. Hoje não. Atualmente as pessoas respiram alienação e não se importam de onde ela provém, desde que proporcione a incrível sensação de absorver informação sem precisar pensar para processá-la. Ninguém quer saber quanto o governo anda nos roubando, as razões para o euro estar caro e a União Europeia estar quase no fim, ninguém quer saber sobre os movimentos de ocupação que estão ocorrendo nas capitais ou sobre o zeitgeist ou sobre como a coca-cola financia indústrias armamentícias enquanto divulga uma imagem positiva da empresa. Ninguém quer procurar de fato a cura do câncer, ou saber se há vida em outros planetas, não. Está todo mundo pra lá de satisfeito vendo jornais que duram 40min e têm tempo para dar todo o tipo de dicas do universo enquanto resume as notícias do mundo em apenas um minuto. Está todo mundo extremamente feliz com isso. Quer dizer, estava. Agora estão tirando a alienação das pessoas, forçando-as a gastar seu dinheiro para conseguí-la. Acham que isso vai ficar barato? Pelo contrário.

Os jovens podem não ter ideais e não se importar com absolutamente nada, mas quando tirarem sua liberdade online se rebelarão. Não demorará para que os sites das editoras, produtoras e gravadoras sejam hackeados, isso sem contar os próprios sites governamentais. Se já faziam isso sem ter uma razão, imagine agora. Os internautas podem não ter bombas ou centenas de metralhadoras disponíveis, mas eles dominam bem o mundo dos códigos e com certeza não deixarão barato. Não vai demorar muito para o FBI descobrir isso.

No fim das contas o homem apenas regredirá ao que era há décadas, para só depois sentir-se apto a evoluir novamente. O que devemos fazer? Ir às ruas? Chorar por perdermos nossas séries e afins ou procurar um ideal de verdade para lutar a favor? Será que somos tão idiotas assim?

Só espero que os americanos não elejam um trouxa por estarem demasiadamente preocupados com a internet. Espero que os brasileiros acordem e parem de ser tão facilmente enganados e acima de tudo espero que finalmente as pessoas larguem um pouco da tal televisão e internet e vão ler, desenvolver seus intelectos e se preparar para fazer algo sensato assim que possível.

Se nós nunca fomos conhecidos por sermos inteligentes, creio que essa seja uma boa hora para mudar isso.

Deixando claro que sou contra SOPA, PIPA, censura e ditadura, mas acima de tudo sou contra a falta de reflexão e pensamento da população.