O Brasil antes dos brasileiros: A pré-história do nosso país – André Prous

Quem escreveu o livro?

           André Prous nasceu na França, é arqueólogo e professor do Departamento de Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais. Fez doutorado na Sorbonne e sua tese foi sobre a pré-história do litoral brasileiro. Já ministrou a disciplina Pré-História, para o curso de História da USP. Participou da missão de arqueologia que descobriu o esqueleto mais tarde batizado como Luzia. É especialista em povos caçadores e coletores e também já desenvolveu pesquisas sobre arte rupestre. Publicou cerca de cinco obras sobre o Brasil.

      O livro foi publicado no Brasil pela editora Jorge Zahar, em 2006. Tem 144 páginas, com algumas figuras e um glossário no final. É possível adquiri-lo em versão física ou e-book. 

O que é interessante saber antes de ler?

       Uma coisa bem importante de se ter noção antes de começar a leitura, é sobre o que é o Brasil. Da forma como conhecemos hoje, o Brasil começou a existir a partir de 1500, com a colonização europeia. Porém, antes disso já existiam habitantes nessas terras, os povos indígenas. Como esses indígenas chegaram aqui, quando, como se desenvolveram e porque foram dominados pelos europeus, são algumas das questões básicas abordadas por essa obra.

       Pré-história é tudo que acontece antes de haver registros históricos. Considerando que a história do Brasil começou a ser escrita, construída e divulgada a partir de 1500 e da colonização, tudo que ocorreu antes desse marco é considerado prévio à história, portanto, faz parte da pré-história. Assim sendo, falar sobre a pré-história do Brasil não é necessariamente discutir sobre a existência de neandertais ou homens da caverna, mas pode passar também por isso. O intuito principal é desvendar um pouco sobre a origem do povoamento nessas terras, para além da colonização. 

     Apesar de não aprendermos sobre isso na escola e de ser um estudo basante específico e um conhecimento que acaba pairando apenas sobre os estudantes de ciências humanas, não há amadorismo nas pesquisas arqueológicas realizadas no Brasil. Todos os dados apresentados em livros como esse foram extensamente pesquisados, por pessoas de diversos países e tradições teóricas. Não é possível ter certeza quando se trata de arqueologia, visto que não é uma ciência exata e depende de subjetividades e interpretações, porém, as hipóteses levantadas pela pesquisa arqueológica não surgem aleatoriamente. Dessa forma, a arqueologia é um campo de estudos sério e deve ser tão respeitado quanto os outros.

Esqueleto e reconstrução facial de Luzia, considerada a primeira brasileira. Pertence ao sítio de Lagoa Santa.

 

Ok, mas sobre o que é esse livro afinal?

      O livro conta sobre as descobertas da arqueologia em relação à pré-história brasileira. É um livro com bastante informação técnica, mas escrito de forma branda e possível de ser compreendido por pessoas leigas. A introdução ambienta muito o leitor no campo de estudos da arqueologia e na discussão sobre a pré-história brasileira. A partir daí, o livro é dividido em 7 capítulos, que vão se aprofundando em cada uma das grandes Tradições arqueológicas encontradas no país. São discussões acerca de sítios arqueológicos encontrados em cada uma das regiões do país, com vestígios que datam de 10mil anos atrás. 

     Arte rupestre, desenvolvimento de agricultura, ferramentas, tipos de sepultamento, moradias e outras construções importantes, como os sambaquis, são apresentados. A ideia de natureza é desconstruída, apontando que nem a Amazônia é natural, visto que há muitos séculos pessoas são responsáveis por realocar e trazer novas espécies de vegetação.

Exemplo de ponta de flecha lascada, encontrada no Brasil.

     O livro termina de forma crítica, apontando a necessidade de uma consolidação dos estudos arqueológicos no Brasil. Diversos sítios ainda necessitam ser melhor explorados, principalmente os da Amazônia. Há escassez de formação universitária de arqueólogos, o que diminui a quantidade de pesquisadores e faz com que as grandes pesquisas sejam realizadas por pesquisadores de outros países, o que prejudica o desenvolvimento científico do Brasil.

E o que você achou do livro?

     Primeiramente, é um livro bastante interessante. Por ser um assunto não abordado no ensino básico, torna-se exótico e importante para a consolidação de um pensamento brasileiro. Saber um pouco mais sobre o povoamento e as origens de algumas manifestações culturais que persistem até hoje foi bastante interessante. 

        O viés apresentado pelo autor é muito bacana, porque tenta se limitar aos vestígios encontrados e deixa sempre muito claro o que é hipótese e de onde essas hipóteses surgiram. Dessa forma, o livro consegue dar um bom panorama sobre a área de arqueologia e sobre a origem dos povos indígenas ameríndios. Acompanhar a leitura é ter a oportunidade de mergulhar em um passado mais profundo do que nos é esperado, visto que é possível imaginar como, de fato, as coisas aconteciam por aqui antes da chegada dos portugueses. 

         Mitos como os de que apenas as costas brasileiras eram habitadas ou que os indígenas eram bárbaros, preguiçosos ou simplesmente bonzinhos, vão se tornando cada vez mais irreais. O leitor passa a ter clareza de um percurso histórico e cultural muito importante para entender um pouco mais da atualidade e todas essas coisas, a meu ver, deveriam ser obrigatórias para todos os estudantes. Afinal, já está mais do que na hora de ser um conhecimento comum o de que já existia um Brasil antes de Portugal chegar aqui e uma América antes de Colombo. A colonização acabou sendo extremamente importante para o aumento populacional e inserção de tecnologias mais avançadas, mas não é por isso que devemos ignorar o que veio antes. E esse livro é uma ótima oportunidade de conhecer mais sobre.

Hibisco Roxo – Chimamanda Ngozi Adichie

          Chimamanda Ngozi Adichie é uma autora nigeriana que mora nos Estados Unidos e ganhou popularidade internacional após um discurso (sensacional) realizado no TED Talks. A autora é feminista e tem a intenção de contar histórias sobre seu país, com um olhar nativo, para um universo de pessoas que tem uma ideia fantasiosa do que é a África, geralmente relacionando o continente à uma imensa floresta onde habitam pessoas selvagens. Chimamanda mostra que a África é, de fato, um continente, e suas histórias se passam apenas em um país deste, a Nigéria.

          Hibisco Roxo foi o meu terceiro livro da autora. Minha vídeo resenha sobre Americanah pode ser vista aqui. Já “Sejamos todos feministas“, que é a versão escrita do famoso discurso da autora, eu não resenhei em nenhum lugar, mas recomendo a leitura – ou, pelo menos, que assistam ao vídeo.

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Chimamanda Ngozi Adichie

          Ao contrário de Americanah, que contava a história de uma imigrante nigeriana e sua nova vida nos EUA, Hibisco Roxo foca-se estritamente na vida nigeriana, com os EUA aparecendo apenas enquanto possibilidade de escapar de situações ruins, mas não sendo foco de nenhum dos cenários ou partes da história.

          O livro foi escrito em 2003 e chegou ao Brasil em 2011 pela editora Companhia das Letras. O nome se remete a uma flor, chamada hibisco, que aparece na história na cor roxa. É interessante ressaltar que não existem hibiscos roxos no nosso mundo, e, até no livro, eles são resultados de modificação genética.

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Hibisco, a flor

          A narrativa versa sobre a história de Kambili (narradora e protagonista), que é uma adolescente habitante de Enugu. Ela é filha de um grande benfeitor da região, que teve origem humilde e nasceu seguindo as tradições religiosas e sociais da região, mas acabou tendo a oportunidade de estudar em um colégio católico e foi influenciado por uma congregação em específico, tornando-se um cristão convicto. Isso significa que a família de Kambili era regida por uma ética religiosa cristã absoluta, com disciplina próxima à militar. Ela e seu irmão, Jaja, tinham horários para realizar todas as atividades possíveis, tendo diariamente um horário reservado para a oração.

          O foco da narrativa é duplo. De um lado temos Kambili desabrochando para a vida adulta, tendo contato com pessoas que têm diferentes perspectivas por sobre a vida, sejam elas referentes à religião ou à sociedade nigeriana em si. Isso é enfatizado pela relação que ela desenvolve com seu irmão, mãe e demais familiares, além do padre Amadi, que se torna uma figura importante em sua vida.

          Do outro lado, temos a figura do pai de Kambili, que é, em si, ambígua. Visto por toda a sociedade local como um benfeitor, em casa ele acaba tendo posturas rígidas e opressivas perante sua esposa e filhos. Para piorar, ele renega a figura de seu próprio pai, por este não ter se convertido ao cristianismo e, com isso, ser um “pagão”, o que, para o pai de Kambili, é um sinônimo de “pecador, perdido, que irá ao inferno”.

          A postura repressiva do pai de Kambili faz com que ela tenha uma série de inseguranças e barreiras psicológicas, onde o pai aparece constantemente em seus pensamentos, seja com a sensação de “papai ficaria orgulhoso” ou de “como vou contar isso ao meu pai?“.

          Esses dois pontos da personalidade de Kambili, que acaba sendo explorada e desenvolvida no decorrer da narrativa, junto com a história da própria Nigéria e a de todos os outros personagens que aparecem, faz com que o livro seja brilhante. Ao mesmo tempo em que é informativo por sobre um universo social distinto (e ao mesmo tempo bastante semelhante) ao nosso, é nauseante pela repressão sofrida (tanto estatal quanto familiar) e pela identificação que gera, pelo menos em pessoas que, como eu, foram educadas em família e escola cristãs.

          A libertação de Kambili e o seu desabrochar é um exemplo sensacional do empoderamento feminino esperado de se conquistar com movimentos como o feminismo, visto que de uma garota oprimida e submissa ao pai, Kambili se torna uma adulta com consciência própria e responsabilidades distintas àquelas ansiadas pelo seu progenitor.

          O livro, que tem pouco mais de 300 páginas, é lido de forma rápida devido à curiosidade que gera, a qualidade da narrativa e desencadeamento dos fatos, a qualidade da edição brasileira e a empatia gerada pela história. Mais uma vez, Chimamanda mostrou a que veio. Recomendadíssimo!