O Legado da Perda – Kiran Desai

Fazia muito tempo que eu procurava um livro de autora indiana para ler, porque sabia que tinha tudo para ser sensacional. Não me decepcionei nem um pouco com essa leitura e fiz um vídeo pra contar pra vocês como foi a minha experiência – e recomendar fortemente a leitura a todos que possam desfrutá-la!

Retrospectiva Literária 2014

2014 foi um ano de muitas leituras e nós resolvemos compartilhá-las com vocês em um vídeo extremamente longo, crítico e com muito blablabla sobre literatura e antropologia, afinal, impossível ignorar nossa leitura acadêmica. Estou falando no plural porque Willian também está no vídeo! Espero que alguém veja e goste! Até mais ver!

 

Relato de Férias

Tirei Dezembro como mês de férias. Bem, tecnicamente minhas férias vão até o final de Fevereiro, mas não posso me dar ao luxo de ser flanêur até lá. Um mês de vida própria há de ser suficiente. A decisão de surrupiar minhas próprias férias não é feita por auto-sabotagem, mas sim uma decisão visionária. Se eu utilizar o tempo de férias para adiantar as obrigações da monografia, talvez sofra com menos intensidade no próximo final de semestre. É um bom objetivo de vida. Um objetivo plausível, pelo menos. Não pretendo passar pelo sufoco agoniante que passei nos últimos meses. É por causa deles que decidi tirar essas férias. Precisava relaxar.

Não vou viajar. Isso me entristece porque nada me apeteceria mais do que um banho de natureza. Um lugar deserto, com água por perto. Cachoeira, lagoa, rio, mar… tanto faz. Só queria uma rede, brisa, bons livros, cachorros, comida e um sol agradável. Ao invés disso tenho meu quarto. E muitos livros não lidos na estante, na escrivaninha, no e-reader e, se quiser, tem mais nas livrarias e bibliotecas por aí. Ao contrário da visão paradisíaca que eu desejava, tenho meu quarto. Ele tem uns cinco metros quadrados, se muito. É inteiramente branco, com uma cama que ocupa mais de um terço do espaço, o que é ótimo. Passo a manhã encalorada dormindo sabiamente. Acordo no meio da tarde, esquento as sobras do almoço e como assistindo um pedaço da Sessão da Tarde do dia. Dou um alô para os outros habitantes da casa e vou, de fininho, para o meu quarto. Passo o resto do dia e grande parte da noite e da madrugada (meus momentos preferidos) no maravilhoso revezamento entre os livros, a internet e os cochilos. Nas horas que a fome aperta, levanto para outros lanchinhos. Em alguns dias vejo pedaços de novelas com a minha mãe. Em outros vejo filmes inteiros no netflix ou alguns episódios de seriados. Outro dia descobri um seriado novo, vi dez episódios em um dia só e decidi que precisava de um tempo. Voltei às leituras. Já estou no sexto ou sétimo livro desde que resolvi me dar férias e tenho achado isso sensacional. A ideia é devorar o máximo de literatura possível, pois não sei quando terei tempo disponível para esse mergulho novamente. Não que seja concebível para mim passar um semestre inteiro sem um livro, porém, não me parece concebível passar um semestre inteiro com tantos livros quanto eu gostaria. Cada momento necessita de escolhas contextuais próprias. Ou pelo menos foi o que resolvi acreditar.

Tenho me sentido muito mais resolvida no quesito vida e existência. Acho que estou tomando jeito. Ou finalmente virando o que minha mãe chama de “menina ajuizada”. Ou simplesmente eu tenha descoberto uma auto-confiança que há muito havia se escondido. Mas é bom não se vangloriar disso ainda, talvez seja cedo demais. A determinação que me faz não parar de ler ou não desistir de fazer o que me dispus a fazer em cada um dos meus dias têm me feito bem e têm sido parte imprescindível nesse crescimento da confiança interna.  Por fim, acho que esse caso de amor de um mês com a minha cama pode me fazer muito mais bem do que eu imaginava quando resolvi me dar essas férias. E do que a minha mãe pensa, em toda vez que reclama porque eu passo tempo demais no quarto, estando um dia tão lindo lá fora.

Eu também sou Malala

Resolvi ler o livro da Malala, embora todos os meus amigos paquistaneses tenham me dito para não fazê-lo. Entendo o medo deles, de que histórias como esta, ao se tornarem públicas, façam com que o medo que o Ocidente tem do país deles aumente. Mas, veja bem, eu já fui lá, já sei que não é uma guerra civil e constante em toda esquina e que o Talibã age em locais localizados e não continuamente. Também aprendi que a violência urbana é a mesma que enfrento aqui o tempo todo. E aprendi que as mulheres não são escravas obrigadas a se cobrirem por inteiro, como muitos de nós insistem em pensar. Então concluí que saber a história da Malala não ia me fazer, repentinamente, odiar o Paquistão. E estava certa.

Com o livro acabei por conhecer mais sobre a história do país, sua trajetória política, a formação do Talibã, como ele ganhou força, quais suas principais atitudes e quem, quando e como começaram a reprimí-lo. A Malala morava justamente no Swat, divisa com o Afeganistão. E era Pashtun, um povo que vive também no Afeganistão. Era o alvo lógico para o Talibã, após ter obtido êxito no Afeganistão. O azar foi Malala ser filha de um dono de escola, adorar estudar e ler e acreditar piamente que sem a educação seu povo e seu país seriam eternamente manipulados pelos políticos corruptos. Azar maior foi o pai dela ter sempre instigado o senso falante dela para que ela não tivesse medo de se expressar e acabasse, assim, sendo a queridinha dos ativistas na região. E, com isso, alvo do Talibã que a indiciava por secularização da juventude, ao tentar introduzir um modelo Ocidental de educação, o que afastaria os jovens – em especial as meninas – das práticas religiosas apoiadas pelo Talibã.

Foi com esse livro que consegui processar algo que tinha ficado na minha cabeça desde que conheci o Paquistão: o quanto somos países parecidos. O quanto o sofrimento das mulheres é parecido. O quanto o feminismo precisa ser regionalizado para atingir as causas contextuais, mas ao mesmo tempo não deve se perder no extremo relativismo, mas sim se ater ao fato de que todas as mulheres do mundo sofrem com esse patriarcalismo que eu, sinceramente, ainda não descobri da onde vem.

No Brasil a gente também espera que a educação faça com que as pessoas parem de eleger políticos corruptos e parem, em primeiro lugar, de serem corruptas elas mesmas. Temos a concepção iluminista-kantiana de que o esclarecimento é a nossa salvação. Sabe-se, porém, a quantidade absurda de problemas que temos neste campo. Desde professores mal pagos, a lugares interioranos onde ninguém sabe ler ou escrever. E, assim como nas vilas do Paquistão, o problema é pior para as mulheres. Porque se a família não tem condições de dar estudos para todos, tende a preferir fornecer o estudo ao homem. A mulher vai se virar cuidando de casa – se não for a casa dela, pode ser a casa de outra mulher.

A mulher no Brasil, assim como no Paquistão, não pode sair de casa sozinha. Não que tenha alguma lei que a proíba disso. Não há. Em ambos os países. Mas sabe-se que é muito mais arriscado para a mulher sair sozinha do que acompanhada por um homem. A solidão feminina tende a ser vista na rua como fragilidade, como potencial para roubos, sequestros ou a temida violência sexual – seja ela verbal ou física.

A mulher no Brasil, assim como no Paquistão, não pode sair de casa com a roupa que estiver com vontade. É claro que, enquanto nossos problemas são sair com shorts curto ao invés de calça jeans, na cabeça delas nem passa a ideia de shorts ou saia. Porém, isso é questão de costume. Independente do tipo de roupa que eu ou elas querem usar, o fato é que antes de sair de casa, inevitavelmente, temos que pensar nos tipos de olhares que aquela roupa pode atrair. Porque, sendo mulher, o tipo de olhar importa muito.

Tanto as mulheres de lá quanto as daqui, vivem com medo. Medo de não poderem se expressar, de terem que viver em funções de homens, de ficarem “para a titia”, de não poderem ter filhos. De não quererem ter filhos e serem chamadas de estéreis ou de desumanas. De não serem femininas o bastante, ou de serem femininas demais. De não terem as mesmas oportunidades de estudo ou de trabalho e de serem vistas primeiro como “mulher” e depois como pessoa. Sendo sempre reconhecidas pela diferença em relação aos homens e não pelas inúmeras igualidades.

Tanto as mulheres de lá quanto as daqui querem ser ouvidas. Acham absurda a marginalização feminina, especialmente das mulheres que vivem nas periferias, no interior, nas vilas, nos sertões e semelhantes.

E, bem, se uma menina de dezesseis anos ganha o prêmio Nobel da Paz justamente por dizer que não aguenta mais essa coisa de que mulheres só servem para cuidar ou educar, significa que nossos problemas não são tão diferentes assim. Como Malala e seu pai sempre diziam, para que mulheres sejam educadas por outras mulheres (o que é bem importante para o Islã – e até para a “filosofia” Talibã), primeiro algumas dessas mulheres precisam ser educadas por homens, para aí se tornarem professoras e ensinarem as outras mulheres.

Sororidade é um termo que diz respeito justamente ao sentimento de irmandade que deve existir entre as mulheres e os diferentes feminismos. Não importa em quais âmbitos, todas as feministas querem a igualdade. Todas querem os mesmos direitos. Civis e humanos. No mundo inteiro. Com a ciência de que uma mulher paquistanesa preza por obter os mesmos direitos que um homem paquistanês, ao passo que uma mulher brasileira, preza pelos mesmos direitos que um homem brasileiro.

Feminismo é um termo que diz respeito à luta feminina pela conquista de direitos iguais, independente do gênero a qual o indivíduo pertença. Não diz respeito a dominar e tão pouco a ser dominada. Diz respeito a co-existir e conviver. Mútua e respeitosamente, no mesmo espaço – seja ele público ou privado. A gente não odeia homens, a gente só detesta a ideia patriarcalista reproduzida por eles – e por nós, afinal, também vivemos aqui – de que só é possível pensar no feminino a partir do masculino. O feminino existe em essência e não depende do masculino para tal. Mas já que ambos estamos no mesmo barco, tá na hora de aprendermos a navegar.

P.S.: Caros Talibãs, por favor, parem de matar crianças em escolas. Eu juro para vocês que elas não vão ser menos islâmicas por isso, pelo contrário, elas vão ficar tão inteligentes que vão entender melhor o que o Profeta falou e vão conseguir colocar mais em prática aquilo que ele disse. Elas vão ser boas pessoas e, se não forem, serão julgadas na hora correta. Só que essa hora não é agora então, por favor, parem. Apenas parem. De alguém extremamente chateada com o ataque a Peshawar.

BEDA #9 Millenium

Costumo fazer vídeos sobre o que leio, embora ultimamente esteja relapsa nesse hábito. Recentemente terminei a leitura da série Millenium e estou protelando desde então a feitura de um vídeo falando sobre. Aproveitando o sábado manso e cinzento de Curitiba, resolvi que nada melhor do que fazer hoje o que pode ser feito hoje, então fiz o vídeo. Está enorme e provavelmente as opiniões não foram densamente expressas ou habilmente ditas. Ah e há quem diga que tenho problemas na dicção, o que nunca percebi!

Ah! Desculpem pela minha mãe interromper no meio do vídeo gerando segundos de constrangimento, pretendo arrumar isso quando o youtube resolver funcionar direito!