O amor de Gerda, um texto sobre A Garota Dinamarquesa.

          A gente ouve falar sobre amor basicamente desde que nos entendemos por gente e na maior parte das vezes pensamos nele como uma coisa boa. Ruim é não amar ou não ser amado. O amor, em si, é algo bom, benéfico, feliz. Pessoas que amam são mais plenas, completas, realizadas, leves e tranquilas. E esse pensamento faz com que as pessoas entrem em relacionamentos sem pensar em todas as consequências possíveis. Faz com que uns prometam aos outros que ficarão juntos “na alegria, na tristeza, na saúde e na doença“, sem realmente pensar no que isto significa. E faz com que as pessoas só caiam na real sobre como amar é difícil, complicado e dolorido, quando as situações que colocam o sentimento à prova se fazem presente.

          Como agir quando alguém que você ama é agressivo com outra pessoa? Quando comete um crime? Como agir quando essa pessoa erra de uma forma que você não imaginou possível até então? Quando ela te decepciona? Te machuca física ou psicologicamente, mesmo sem perceber? Como se levantar e dizer “ei, você está ocupando o tempo da minha vida e eu realmente preciso ir embora agora. O mundo é gigante e cheio de coisas pra fazer, você vai encontrar seu caminho e eu o meu, tchau.” quando tudo o que você consegue pensar e sentir é que a outra pessoa está em um momento ruim e precisa de você?

          Será que a gente tem a noção do que é amar, se comprometer em um relacionamento e estar disposto a viver com outra pessoa desde o momento em que aceitamos nos relacionar com ela? Estamos dispostos a abster manias, gostos, desejos, anseios, sonhos, rotinas e criar outras manias, gostos, desejos, anseios, sonhos e rotinas?

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          A gente conseguiria ficar perto um do outro caso tudo fosse diferente? Caso ao invés de você ser mulher e ele homem, ele fosse mulher? Caso um dos dois perdesse todo o dinheiro ou, de repente, ficasse milionário? Conseguiriam ficar juntos caso um dos dois ficasse cego ou perdesse o emprego, mudasse radicalmente de aparência ou tivesse a maior chance profissional da vida, mas em outro país e ambos tivessem que se mudar? Ou não é possível se imaginar em nenhuma dessas situações?

          Eu costumo dizer que quando digo que amo alguém, é porque eu realmente sinto. E que para mim, o amor significa exatamente tudo isso aí: estar do lado da pessoa não importa o que esteja acontecendo. Eu consigo me imaginar largando a minha vida para ajudar alguém que eu ame e esteja precisando de mim. Consigo me imaginar (e as vezes já realizo) essa coisa de abster de minhas próprias vontades em prol das dos outros de vez em quando. Eu realmente me esforço pra entender o que se passa na cabeça das pessoas que eu amo e para me tornar uma pessoa amável, uma boa companhia, alguém legal de se estar perto, minimamente confiável e feliz. É claro que nem sempre eu consigo, é um esforço diário e eu vivo brigando e ficando brava com o universo inteiro, mas insisto em tentar. E tive a graça (ou o desprazer) de ainda não saber qual é o meu limite. Acho que todos nós temos um. Ninguém consegue se submeter e abster a tudo em prol de outra pessoa, ninguém é capaz de se anular tanto assim e continuar saudável e sã.

E é claro que todo esse pensamento insano sobre qual seria o meu limite no quesito amor surgiu após eu assistir a “A Garota Dinamarquesa” (The Danish Girl). O filme de 2015, que ainda não estreou nos cinemas do Brasil, é estrelado pelo Eddie Redmayne e pela Alicia Vikander e conta a história de Lili, uma mulher que nasceu homem e se casou com Gerda, mas depois se descobriu mulher e inicia um processo muito doloroso de transição. Porém, minha empatia maior não foi para com a história dolorosa, conflituosa e difícil de Lili, mas sim com a Gerda. Porque ela se casou com o amor da vida dela e o viu morrer e se transformar na Lili e ao invés de largar ele, ficar brava ou sei lá, ela ajuda a Lili a se entender. Ela continua ali e se transforma na melhor amiga do outro ego do seu marido. Com o tempo, ela consegue até captar que a Lili vai ter uma vida amorosa que não engloba ela e uma vida em geral que não engloba ela e ela tem que passar por todo o processo de entender que seu marido realmente morreu. E ela continua ali, do lado da Lili. E eu nunca tinha visto um amor tão intenso e tão real.

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          No decorrer do filme, fiquei imaginando o que aconteceria se a história fosse o oposto. Se a Gerda de repente se descobrisse Robert, será que o Einar (nome masculino da Lili) ficaria ao lado dela com a mesma presteza e benevolência que ela ficou na situação mostrada no filme? Eu não tenho como afirmar isso concretamente, mas arrisco dizer que sim. Arrisco dizer que a relação daquelas duas pessoas ali era realmente uma junção de almas, que ultrapassava toda a sanidade possível. Elas se aceitaram da forma que vieram ao mundo e lutaram para serem reconhecidas por seus trabalhos e para serem felizes da maneira que podiam.

          E o filme é baseado em uma história real, o que torna tudo ainda mais intenso. O roteiro foi inspirado em diários reais escritos pela Lili e, puxa, se mesmo em um filme contado sob o ponto de vista da Lili a gente consegue ter toda essa empatia pela história da Gerda, imagine como seria se fosse ela contando os fatos. Essas duas mulheres são incríveis e eu estou estasiada ao perceber que uma das melhores histórias de amor que eu vi retratadas no cinema não pertence ao “padrão heterossexual” que é comumente mostrado.

          Esse filme me fez repensar sobre o que eu já rotulei como “algo que senti“, sobre o que já formulei sobre amor e o que já pensei sobre relacionamentos. Foi tão intenso que não consegui chegar aqui e fazer uma resenha mais técnica ou alguma crítica insensível. Pelo contrário. Eu preciso agradecer ao universo por ter feito essa história acontecer e chegar até mim. Preciso agradecer a todas as pessoas que o universo me permitiu (e me permite) amar e preciso admitir que como humana em eterno aprendizado, mais uma vez ficou provado que tenho muito a aprender, crescer e tolerar. E que talvez assim eu consiga aprender a ser mais sincera com meus sentimentos e honesta comigo mesma. A Gerda é mais uma das minhas heroínas, e dessa vez nem é fictícia.

Pronto, falei.

Estou com vontade de me apaixonar.

A gente passa dias e dias da nossa vida concluindo inúmeras coisas distintas impulsionados por um monte de gente aleatória e acabamos por perder a capacidade de pensar por conta própria e concluir coisas por nós mesmos. Há muito tempo eu não paro, centralizo minhas energias e escrevo em algum lugar tudo que estou sentindo, para tentar me compreender. Eu costumava fazer isso muitas vezes ao longo da minha vida, mas perdi essa capacidade. Desisti de mim e aceitei o fato de me importar mais com o que mostrar para os outros sobre mim do que em engrandecer aquilo que de fato me constrói. Eu não sei mais o que me constrói. As vezes eu olho no espelho e fico plenamente irritada por ter cabelos coloridos, porque aquilo não tem nada a ver comigo e porque não faz sentido que eu tenha tido tanta vontade de ser assim. Eu tento lembrar os motivos e simplesmente não consigo, mas não consigo acordar e virar uma pessoa de cabelo preto porque isso falaria menos ainda à respeito de mim e simplesmente não faz sentido que eu me importe tanto com o que eu digo à respeito de mim enquanto não estou falando nada. Mas eu me importo.

Saí do facebook sexta-feira com o intuito de voltar somente quando considerar a rede social dispensável em minha vida. Eu sei que não conseguirei ficar longe por muito tempo, mas espero que seja tempo suficiente para eu aprender a aproveitar o tempo que me resta e torná-lo produtivo. Eu espero poder olhar mais nos olhos das pessoas ao invés de ter que ficar intepretando se suas frases são ou não irônicas, porque eu sou péssima nesse tipo de interpretação quando a gente não consegue ouvir a voz. Eu passei cinco anos naquele ambiente e desperdicei muito tempo da minha vida lá. Eu desaprendi a pensar enquanto estive lá. Desaprendi a ponderar aquilo que seria importante ou útil de ser compartilhado com aquilo que eu achava super legal e queria perpetuar de algum modo. Desaprendi a pensar antes de falar ou agir. Desaprendi a sentir, porque ali era tudo tão simples que a gente nem precisava sentir nada. Bastava clicar um botão que automaticamente éramos amigos, nem havia sentido em tentar sermos de fato. E eu não fui. Nem de um milionésimo das pessoas que estavam ali descritas como meus “amigos”. Porque tornei-me uma pessoa péssima o suficiente para agir futilmente, de acordo com o que as aparências demonstravam. Sendo falsa. Agindo conforme a música que tocava no momento.

Um barco solitário em um oceano completamente desconhecido. Essa fui eu. Ali, contando todos os meus segredos para pessoas que contam todos os seus segredos para outros desconhecidos e que jamais se olham e conversam e jamais sentem e jamais pensam um no outro ou se permitem entrelaçar os laços de algum modo. Todos conectados, mas ninguém interligado. E eu comecei a me sentir sozinha, porque de fato eu estava sozinha. Trancada no meu quarto, a vida inteira. Em meio a quatro paredes, uma garota, seu computador em seu colo e uma cadeira que já tem o formato exato das suas costas e a deixa apenas mais doída a cada dia que passa. E eu não quero ser assim. Eu não fui feita pra ser assim. Eu sou hiperativa, eu pulo, canto, danço, remexo e falo abundantemente e, ai meu Deus! Eu esqueci como se conversa! Eu não sei mais olhar para uma pessoa e passar horas e horas falando porque eu tenho na minha cabeça que já falei tudo que poderia falar em redes sociais e não há mais nada a acrescentar, então eu devia ficar apenas calada e esperar o momento de voltar pra casa para escrever em redes sociais sobre os momentos que eu deveria estar compartilhando ao vivo. Porque aqueles momentos não importavam mais, mas sim os comentários nas fotos e nos status e as curtidas e compartilhamentos e toda a repercussão.

Eu sempre fugi de relacionamentos porque acho que nada deve ser pra sempre e quando duas pessoas começam a compartilhar tempo demais e coisas demais uma sobre a outra, elas acabam por se cansar e ficarem insuportáveis. Fujo de relacionamentos porque os vejo como fadados a terminar e eu sou preguiçosa demais para começar algo que eu ache que vai terminar. Aí eu lembro da minha mãe dizendo todo dia pra mim que eu preciso me apaixonar e das minhas tias desejando muitos “namorados” nos meus aniversários e das minhas amigas que resolveram começar a namorar no mesmo ano, inusitadamente. E olho ao redor e descubro que eu nem tenho chance de conseguir isso algum dia. E nem é só porque passei a vida inteira fugindo e não tenho em mente um conceito positivo de “namoro” formado. Não. É porque eu passei tanto tempo tentando construir um “eu” internético que acabei por esquecer de construir o meu eu real. E eu jamais conseguiria cogitar a hipótese de me relacionar com alguém sabendo que sou uma completa bagunça e que nem sei quem eu sou de fato.

Então eu acordei essa semana em meio ao emaranhado de livros, seriados e filmes que a distância do facebook têm me feito entrar em contato com. Em meio à toda solidão que eu me vi imediatamente dentro, porque sem facebook é como se todos os outros barcos do oceano tivessem afundado e as águas tivessem resolvido ficar tão paradas que é capaz de haver uma inundação de dengue e ainda assim ninguém vai te dizer oi. Em meio às reflexões geradas, às crises de abstinência, à depressão e à vontade de apagar esses cinco anos que eu desperdicei em uma porcaria viciante que me dá vontade de reativar a cada minuto que eu encosto nesse computador, eu descobri que sou muito mais igual ao resto do mundo do que eu imaginava. Descobri que eu tenho vontade de me apaixonar e de ter um namorado pra ir ao cinema comigo e rir dos filmes ruins. Eu tenho vontade de ter alguém com quem eu possa de fato conversar com, olho no olho, sem ter vontade de chorar, só se for de tanto rir. Mesmo que isso me sufoque. Mesmo que depois de duas semanas eu esteja completamente arrependida e querendo voltar às mentiras da rede social azul. Mesmo que eu perceba que nem é grande coisa e que eu não deveria ter pensado nessa hipótese. E eu acho que se demorei tanto tempo da vida pra perceber que tenho essa vontade, demorarei um bom tempo para aceitá-la dentro de mim. No momento estou apenas assustada, me sentindo um lixo solitário largado ao leu e morrendo de uma vontade abrupta de voltar ao facebook para olhar o Spotted e conversar com determinadas pessoas.

{Daqueles textos que dóem a alma e causam arrepios ao ser escritos e que antes de postar você repensa mil vezes porque acha assustador demais sentir algo assim}

AI-CI-TEL

A gente era criança e por algum motivo insano decidimos tropeçar juntas pela vida. Faz sete anos e eu ainda consigo olhar pra você e contar tudo que tenho vontade, enquanto sei que você faz o mesmo. Compartilhamos experiências, primeiras vezes, últimas vezes, fim de ensino fundamental, início e fim de ensino médio, faculdade… Dividimos os melhores entretenimentos possíveis e fizemos coisas divertidíssimas juntas. A gente se encontrou, dentre tantas pessoas existentes, encontramos uma à outra. E não tivemos medo ou vergonha de compartilhar nossos momentos, como fizemos nos últimos sete anos. Outro dia vi no facebook que se a amizade passa dos sete anos ela é eterna e eu realmente espero que a nossa seja.

Eu não sei direito o que te dizer, pensei em fazer um texto só com os melhores vídeos da nossa história, mas ia ser vergonhoso demais. Tem coisas que só uma deve saber da outra. A gente já pagou tanto mico juntas… Nem gosto de pensar sobre. E, por alguma razão que nunca vou entender qual, continuamos amigas. Mesmo sendo tão diferentes, mesmo que um terceiro olhando para nós pense “como é que elas são amigas?”, porque, bem, se fosse por esteriótipos a gente devia se odiar. Você faz ~~publicidade~~ na ~~UP~~ e eu faço ~~Ciências Sociais~~ na ~~Reitoria~~ e, gente, você não come pão! Vai dizer, temos tudo pra ser completamente diferentes e aquele tipo de gente que não entra em sintonia e não se suporta, mas, é exatamente o oposto! As vezes eu sinto como se o fato de sermos diferentes em vários quesitos acabasse por nos completar. Quero dizer, todos os nossos problemas e encruzilhadas são vistos sob pelo menos duas perspectivas diferentes e isso já dá uma baita ajuda na hora de tomar decisões, não concorda? Além do mais, é absurdamente impossível que coisas bobas como faculdade atrapalhe o que a gente tem. E eu me sinto tão gay estabelecendo “eu e você” como um relacionamento, que nem te conto!

A verdade é que você é uma das minhas amigas mais antigas e uma das poucas que eu consigo manter tanto contato hoje quanto tive quando tinha doze anos. Você é aquela pessoa que eu sei que posso atormentar em meus momentos depressivos e que posso morrer de rir quando estiver feliz. Você sempre vai me mandar links e vídeos aleatórios e vai completar as músicas que te mando via sms. Você sempre vai me convidar para eventos legais e vai deixar eu usufruir de seus contatos para entrar de graça em alguns lugares. Você vai me chamar pra passar um feriado inteiro na sua casa e na hora de ir embora ainda vai dizer “minha mãe perguntou se você não quer ficar mais um pouco”, isso depois da gente ter comido um monte de coisa gostosa, ter visto vários filmes, vídeos, seriados, notícias engraçadas, conversas bizarras e ido conversar no bosque. Você é uma daquelas pessoas que eu sei que quando eu achar que só a minha família vai se importar comigo, estarei enganada, porque você também vai. Mesmo que esteja brava. Mesmo que eu tenha sido super grossa e tenha te deixado revoltadíssima.

Eu sei que eu posso te fazer chorar, posso brigar com você e ser completamente insensível em questões que para você são de extrema importância, mas eu acho que você sabe que eu te amo infindavelmente e que a simples hipótese de te perder em algum momento já faz meu coração ficar apertado e angustiado. Eu acho que você sabe que mesmo quando eu te xingo e te dou algum dos meus tapinhas, só estou torcendo para que tudo termine bem e você seja feliz. Acho que você sabe que dia 30 de Julho está marcado na minha história como seu aniversário, mesmo que você esteja há milhas e milhas de distância, comendo coisas super gostosas das quais eu morreria de inveja. Acho que você sabe que eu realmente pretendo ter um empreendimento com você, para que a gente possa exercer nossas profissões quando der vontade, mas conseguir nos manter com algo super divertido e que nos deixe financeiramente independentes. Acho que você sabe que eu não passei sete anos ao teu lado à toa. Você precisa saber que é porque eu espero passar muito mais tempo. Porque sobrevivemos juntas a todas as metamorfoses juvenis possíveis e agora que as coisas estão começando a se estabilizar, é até injusto cogitar que nos separaríamos.

Ei. Você está fazendo dezenove aninhos! Em algum lugar de São Paulo há dezenove anos sua mãe estava torcendo para que você chegasse logo. Até consigo imaginar a cara dos seus pais quando te viram e do teu irmão também, claro. Você parece ter sido aquele tipo de criança que brincava sozinha, mas que tinha várias amigas também. E que sempre inventava coisas para manter a cabeça contente e estava sempre cantando e dançando por aí. Você parece ter sido aquele tipo de criança hiperativa que deixava os pais cansados, mas que quando eles te viam dormindo sorriam e ficavam felizes por você existir. Eu sou muito feliz por você existir.

Fique agora com o vídeo do carinha do dente assim /

Você

Hoje eu lembrei de você. Faz tanto tempo, tanta coisa nesse fluxo contínuo de tempo e espaço ao qual chamamos vida.

Somos apenas um ponto comum que interseccionou duas retas que continuaram a seguir infinitamente e a interseccionar-se ad infinitum com outros alguéns.

Apenas rostos, lembranças, histórias e vida construída passo a passo, lado a lado.

Eu sinto falta de você. Queria que você tivessse ideia do quão difícil é admitir isso depois de todo esse tempo, de todos esses acontecimentos e de toda a mudança que nos ocorreu.

Não sei mais quem és e muito menos sabes quem sou.

Mas eu ainda sinto sua falta.

Eu ainda lembro de você sempre que mencionam relacionamentos, seja porque você foi o mais próximo disso que tive, seja porque graças a você não pretendo ter algo assim tão cedo.

Lembro de você quando conheço gente inteligente, quando penso sobre física, quando vejo coisas sobre a Islândia ou quando passo algum tempo encarando alguém.

Lembro também quando como coxinha e quando tento abrir os sachês de ketchup nos lugares em que vou.

Lembro de você quando pego na mão de alguém, porque sempre fico tentando encontrar a sua, com suas unhas que crescem desreguladamente.

Procuro seu cabelo, seus óculos e seu cheiro de banho tomado que nunca desaparece.

Procuro por suas piadas, seus conselhos e por alguém que aceite conhecer a mim tanto quanto você fez.

Mas eu tenho medo. Você me deixou com medo. Não consigo me imaginar fazendo tudo de novo com outra pessoa, abrindo-me tanto para que depois tudo seja destruído e reste-me apenas lembranças e dias infinitos de choro profundo.

Eu me afastei tanto de mim mesma depois de você que acabei por repelir a todos e nunca mais consegui ser sincera o suficiente com ninguém.

Eu decidi deixar de falar com eles e simplesmente agir, porque eu falei tanto com você e nada nunca deu certo.

A gente só chorou e se machucou e chorou e se machucou e isso nunca teve fim, até que decidissemos nunca mais nos falar e esse rompimento brusco me machucou tanto que mesmo achando que superei eu sei que nunca vou superar. Sempre vou ter você aqui dentro.

Dizendo que estou fazendo tudo errado e que deveria voltar a ser como eu era, ou seja, uma pessoa legal. Dizendo que eu deveria voltar a conversar e ser sincera e falar tudo que penso e sinto, mesmo que isso gere textos enormes e chatíssimos, porque é assim que eu sou.

E ai, como eu sinto falta de você tentando medir meus batimentos cardíacos e dizendo que nenhuma das minhas teorias malucas me levaria a uma prática mais fácil!

Acho que segui esse conselho muito à risca. Eu sinto saudades de pensar. De ser racional. De mandar sms perguntando se posso te abraçar. Sinto saudades de você.

Onde você está? O que a gente fez com a gente? Por que é que a gente teve que ficar tão longe, mesmo querendo estar tão perto? Quem somos nós agora?

Você ainda lembra de mim? Ainda pensa em mim? Ainda perde algum minuto da sua vida chorando por mim, do mesmo jeito que eu faço com você nos dias aleatórios em que lembro da sua existência?

Você.

Queria fazer uma lobotomia de você.

Inevitável.

A gente não consegue viver sozinho. Ou melhor, conseguimos, mas a partir disso a vida perde totalmente a graça. Como o moço do meu layout dizia, “a felicidade só é real quando compartilhada” e a gente quer que ela seja real, então a gente precisa de gente para compartilhar. E desde que nos reconhecemos como indivíduos começamos a procurar por estas pessoas. Pode ser a coleguinha do jardim da infância ou a babá, o fato é que sempre estaremos correndo atrás de alguém que seja capaz de ressignificar a nossa felicidade.

Eu nunca precisei correr atrás de ninguém.

É claro que isso não me impediu de fazê-lo, afinal, conforme a gente cresce começa a perceber que uma pessoa para compartilhar tudo é pouco. A gente quer mais ibope, quer mais festa, mais razões para compartilhamento. Mais alegrias diversificadas. Mais ombros para chorar. A gente sempre quer mais, essa história de “contentamento” é rara e difícil demais para ser verdade.

Felizmente, a vida facilitou as coisas neste quesito para a minha pessoa, fazendo com que eu não precisasse sair alucinada em busca daquele ser iluminado que estivesse disposto a ouvir minhas peripécias. A vida, essa linda – que as vezes fica tenebrosa, como eu bem sei – foi bondosa e me deu a pessoa perfeita antes mesmo de eu saber quem eu era.

Tem gente que luta e passa muito tempo procurando por um confidente, um amigo de verdade, alguém para desabafar, pedir abraços e contar tudo que der na telha e eu não precisei. Tem gente que vai ao psicólogo tentar entender a própria vida e existência e reclamar um pouco da vida e existência do outro e por mais que eu tenha ido a psicólogos por vários momentos da vida, nunca foi por falta de ter com quem conversar. Porque isso eu sempre tive.

A gente não vira tagarela sozinha, a gente não cria essa necessidade insessante de estar perto de alguém o tempo inteiro, para fazer todas as atividades do mundo – incluindo tomar banho – sozinhas. A gente é acostumado a isso. Eu fui acostumada a isso. É claro que nessa altura do campeonato já me contentei com banhos solitários, mas me é torturante pensar em fazer qualquer outra coisa, além de escrever, sem a companhia de alguém. Porque eu preciso conversar, eu preciso andar com o braço entrelaçado no de outra pessoa. Eu preciso cantar por aí e preciso comentar sobre o que observo ou detalhar sobre o meu dia e as pessoas que passam por ele.

Felizmente eu tenho com quem fazer isso. Porque por alguma razão em um momento de 1993 eu fui parar dentro da barriga de uma pessoa, que assim que descobriu a minha existência me amou como jamais conseguiria amar outra coisa ou pessoa e me ama até hoje da mesma maneira. Porque desde que eu nasci eu tenho alguém que é muito mais do que uma mãe, que não só me ensinou a ser tudo que eu sou hoje, mas me ajudou a criar mecanismos de ataque e defesa capazes de me fazerem chegar até o presente momento. Alguém que esteve ao meu lado quando nem eu quis estar, que me abraçou e me deu forças para seguir em frente. Alguém que sempre me liga só para dizer que me ama e que faz com que as 24h do seu dia pareçam segundos. Alguém que está sempre sorridente, sempre fazendo piadas e comidas gostosas. Que está sempre te abraçando, mesmo que contra a própria vontade, e sempre perguntando como você está ou por que diabos você está querendo passar um dia longe dela. Alguém que conta as horas pra poder te ver, que deixa um espaço na própria cama toda noite, sabendo que caso eu não consiga dormir correrei para lá. Alguém que é capaz de parar a própria vida para te ajudar a impulsionar a sua. Alguém que torna todas essas coisas complicadas de relacionamentos absolutamente tranquilas. Com quem eu sei que posso conversar sobre o que quiser, quando quiser, porque mesmo que a gente brigue e fique alguns minutos sem nos falar, logo logo alguma das duas começa a chorar, pede um abraço e volta a tagarelar.

Eu sempre saí em busca de bons amigos, mas sempre tive a certeza de que mesmo se não encontrasse, não ficaria sozinha. Inevitavelmente a gente se amou, desde que nos viu. E eu sei que provavelmente um dia eu vou dizer que amo alguém tanto quanto amo você, provavelmente direi isso para um filho, mas se um dia eu tiver algum dos filhos que pretendo, tenho a absoluta certeza de que tentarei transformar nossa relação em algo tão sincero quanto o que temos. Que inevitavelmente os amarei, como você me ama. E que eles vão me amar como eu te amo. Porque na vida tudo é imprevisível, tudo é discutível e absolutamente tudo é relativo. Mas se temos uma certeza além da morte é a de que um dia alguém nos amou infindavelmente. E eu sou grata por esse dia já ter durado dezoito anos.

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Não consigo imaginar o que seria de mim sem você ao meu lado. Obrigada.