Puzzle

Se minha vida tem um lema é o do não sufocamento. Nem é algo que inventei ou que me forcei a crer em, simplesmente aconteceu. Morar em quatro cidades diferentes até os dez anos e estudar em oito escolas diferentes até os doze fez de mim uma pessoa efêmera. Daquelas que passa pela vida das pessoas, mas raramente permanece.

Não sou de estabelecer laços fortes com os outros, sempre que vejo que me entreguei demais vou logo me afastando. A ideia de que alguém além de mim vai ter mais controle sobre a minha vida ou o meu ser do que eu mesma me angustia. E sim, eu sei que não tenho controle sob muitos aspectos da minha vida, seja porque devo obedecer à uma constituição, ou pelo simples fato de ter pais e morar com eles. Sempre gpstei de pensar como quiser e de poder agir por conta própria.

Minhas amizades mais duradouras contam agora sete anos e eu realmente não sei como ainda sou amiga de tais pessoas, a gente cresceu tanto, mudou tanto, mas passou por tanto junto que alcançamos um status quo de conhecimento mútuo e compreensão incapaz de desaparecer. Só que uma não manda na outra, não influi em nada na vida da outra, a gente conversa sobre o que quer quando quer e se vê quando dá, sabendo sempre que quando precisarmos a outra estará ali, sabendo que a gente se ama.

Acho que essa é a diferença: saber que se ama.

Porque quando a gente sabe que ama alguém não precisa ficar dizendo isso toda hora ou marcando presença na vida da pessoa o tempo inteiro, quando a gente tem uma importância mútua a relação torna-se tão necessária que o rompimento é praticamente impensável.

Eu sinto falta de me importar com pessoas novas. De conseguir imaginar um futuro distante em que nós estaremos comprando sabão em pó no supermercado e discutindo qual marca é mais eficaz.

Meus laços afetivos andam muito fracos. Não consigo mais criar um elo duradouro e eficaz. Começo tudo prevendo como será o fim e encaminho as ações para que esse fim de fato ocorra.

Por mais feliz e realizada que eu esteja com o efêmero, sinto falta da sensação de eternidade, do preenchimento que ela causa. Tudo anda muito superficial e eu me conheço o suficiente pra saber que uma hora o raso me cansa e quando não consigo mergulhar, simplesmente procuro outras águas. Sei que, querendo ou não, a história termina com eu reclamando por não saber me relacionar com pessoas.

Não consigo ser sincera ou permissiva. Não consigo abrir-me e permitir que os outros conheçam o meu todo. Apresento pequenas partes de mim para as pessoas e ninguém consegue juntar minhas peças. Sou um quebra-cabeça insolúvel. E sustentar todas essas máscaras me cansa as vezes. E eu queria que alguém me solucionasse e mostrasse a saída para este grande labirinto em que me encontro.

Outras vezes eu penso no quão legal deve ser a normalidade. Os anseios comuns. O desejar um namorado que vire seu marido e te dê filhos, um emprego de sucesso e uma casa de campo com cachorros no quintal e um belo jardim. Mas não consigo me imaginar presa a pessoas, empregos ou qualquer coisa. Sou aquele filho que cresce, vira pássaro, quer voar e não se contenta com uma gaiola, mesmo que seja grande.

Não quero uma vida comum, não quero ter pensar na minha vida, planejá-la, quero apenas deixá-la acontecer, dia após dia, como uma grande odisseia.

Prevejo anos de anseios, angústias, questionamentos, decepções, buscas, aceitações e peças e mais peças espalhadas em lugares indevidos à espera de alguém que se digne a juntá-las sem que se assuste demasiadamente.

Por que é que as pessoas não simplesmente dançam?

Cansada dessa vida repleta de gente séria demais que não sabe aproveitar a efemeridade das coisas.

Não.

Eu não quero falar com você agora. Não é nada contra a sua pessoa, é apenas uma característica minha. Eu não gosto de conversar com as pessoas quando eu sei que não teremos algo útil a falar sobre. Não gosto de conversas que terminam depois do “tudo bem?”. Eu odeio que me perguntem se está “tudo bem”. Nunca vou entender o que a pessoa que inventou esse bordão tinha na cabeça. Se as pessoas não se importam com como você de fato está, para quê perguntar? Para quê tornar fútil uma pergunta que deveria ser útil?

Não gosto dessa coisa de me sentir obrigada a conversar com fulano ou ciclano ou beotrano quando eu sei que não tenho sobre o que dizer, mas deveria porque supostamente somos amigos e deveríamos ter assunto. Não é assim que as coisas funcionam. Irrito-me quando sobe em meu facebook a janela de uma pessoa completamente aleatória, que nunca falou comigo antes e já vem querendo saber como eu estou. É falsidade demais para a minha cabeça e olha que minha cabeça sabe muito bem como ser falsa. Quando uma pessoa dessas vem falar comigo eu tenho que abusar do meu auto controle para não soltar um “fala logo o que você quer” ao invés do esperado “tudo sim, e você?”.

Eu não consigo fingir que está tudo bem quando simplesmente não está. Não me sinto confortável dizendo pra pessoa que estou “ótima” quando na verdade passei a tarde chorando por algum motivo grave. Sempre fui do tipo que deixa  a máscara da tristeza mais visível que a da felicidade, embora saiba valorizar muito bem as alegrias quando as mesmas aparecem.

Com o passar do tempo, porém, minha angústia inaugurou em mim uma nova maneira de enxergar as coisas e eu percebi que consigo fazer a conversa ficar interessante a partir do “tudo bem”, basta dar uma resposta inesperada. Há pessoas que vão querer parar para ler todas as desgraças da sua vida, há outras que vão mudar de assunto ou fingir que você respondeu que “tudo está bem” e há outras que vão tentar entender a razão pela qual você simplesmente respondeu “sobrevivendo” à pergunta de “como você está?” quando o esperado é “bem, e você?”. A resposta inesperada gera um diálogo muito mais farto do que a esperada, afinal raramente as pessoas sabem o que dizer após o tal “tudo bem”. A não ser que, de fato, haja um motivo real para a conversa, algo extremamente raro nos dias atuais.

Entendo perfeitamente que em diversos momentos a gente se sente só e tudo que quer é sentar e conversar, independente do assunto. Entendo que faz parte de um contrato social assinado imaginariamente e involuntariamente por nós várias dessas regras completamente bestas quando paramos para pensar sobre. Entendo que, de fato, é divertido ficar horas e horas falando sobre nada. O que eu não entendo, caros colegas, é porque diabos as pessoas insistem nessa pergunta idiota quando elas não estão interessadas em saber como você está. É injusto perguntar isso. Ainda mais para pessoas como eu, que tiveram um imenso trabalho cerebral para compreender que nem sempre o que se diz tem significado literal.

Eu queria que todo mundo entendesse o meu jeitinho aleatório de chegar com um link de algo que vi por aí e me remeteu à pessoa e a partir disso fazer um gancho para uma conversa e só perguntar se está tudo bem quando realmente for relevante e usar o velho “o que você almoçou hoje?” para casos de falta de assunto. Eu queria poder chegar na janela facebookiana de quem me desse vontade e dizer “oi gatinh@ quer tc?” e ver a pessoa rir e embarcar na brincadeira comigo. Eu queria poder chegar na janela de alguém muito importante e dizer “ei, faz tempo que a gente não conversa! Conte-me sobre a sua vida.” e poder passar horas  e horas apenas lendo sobre as desventuras alheias. Eu queria que as conversas internéticas fossem fluidas como um dia foram, que a gente tivesse a liberdade de outrora. Eu queria que houvessem gifs dos emotcons que usávamos há alguns anos, só pra gente ficar se enviando e rindo. Eu só queria um mundo mais leve, mais sincero e menos falso e repleto de frivolidades. Eu sei que talvez isso nunca exista e é por isso que reservo-me no direito de manter conversas diretas apenas com aqueles que já entendem o meu jeitinho. Eu juro que não é nada contra vocês, é contra o querido sistema mesmo.

No fim é isso que acontece com quase todos nós, quase sempre.

Hoje

Ah… O oito de Março… Aquele dia lindo em que todas as mulheres acordam, recebem flores, são respeitadas e parabenizadas por serem mulheres, para que todas as ofensas dos outros 364 dias do ano sejam explicáveis porque “ah, vocês tem um dia só de vocês”.

Só que não. Hoje não é um dia para remediar os outros 364, hoje é um dia para fazermos os outros 364 serem dias melhores. Mais igualitários e, acima de tudo, mais justos. Oito de Março não é pra gente ficar comendo bombom e sendo paparicada, mas sim para lembrarmos que por milênios às mulheres foram atribuídos somente os trabalhos domésticos, enquanto os homens iam “caçar” e depois “trabalhar”. É para lembrarmos que para uma divorciada conseguir respeito e emprego foram décadas de lutas, que as artes sempre foram vistas como “mar de orgia” porque toda artista é “um pouco puta”. É para lembrarmos que houve uma época em que as mulheres não podiam usar calças e muito menos se movimentar durante uma relação sexual, na verdade, elas não podiam sequer tirar suas roupas. É para que a gente lembre que diariamente milhões de mulheres são espancadas, estupradas e mortas, simplesmente por andarem na rua com a roupa que quiserem ou fazerem o que quiserem quando quiserem. É pra gente lembrar que graças ao domínio da sociedade patriarcal fomos deixadas de lado por MUITOS anos, até que finalmente conseguíssemos um pouquinho mais de dignidade.

Este foi o primeiro ano da minha vida que eu vi um grande número de pessoas compartilhando nas redes sociais frases como “não dê bombons, dê respeito” e fiquei feliz com isso. Acreditei que as pessoas estavam começando a perceber que as injustiças ainda existem. Então eu percebi que o número de gente que não entende ou concorda com a frase em questão ou com qualquer outra do tipo ainda é muito maior. Que a maioria das pessoas não ficou indignada com o fato do HC daqui oferecer um “curso de etiqueta” no dia da mulher, para trabalhadoras que recebem menos que os homens, são assediadas e mereciam ao menos uma conversa à respeito disso. Percebi que a maioria das mulheres ainda quer bombom, que são poucas as que não sofreram algum tipo de abuso e lutam pelas que sofreram e que são menos ainda as que percebem que foram abusadas. Eu percebi que eu não vivo no mundo que eu sonho em viver algum dia e eu me revoltei com isso. Eu me revolto com isso na maior parte dos dias da minha vida, claro, mas o dia de hoje me revolta mais enfaticamente. Porque eu não admito ver alguém  chamando uma mulher  de “vadia” pelo simples fato de ela estar com calor e estar usando um shorts. “Ah, ninguém manda usar shorts apertado”, na verdade a gente não tem culpa de o padrão da moda ser esse e temos menos culpa ainda com o fato de as pessoas acharem que isso é “pedir para ser violentada” ou qualquer coisa do tipo.

Eu fiquei revoltada e fui à luta. Levantei a bunda do chão da minha casa, larguei a argumentação internetesca e fui ao Ato do Dia Internacional da Mulher, que todos os anos ocorre aqui em Curitiba. Havia participado ano passado e foi lindo, mulheres trabalhadoras rurais vieram participar e tinha tanta gente, tantos cartazes, tanto barulho que eu fiquei com orgulho por morar aqui. Esse ano fui de novo, não pude ficar o tempo todo, mas eu fui. E foi lindo. Havia muita imprensa, muita gente de vários coletivos, de vários cursos universitários e gente que não participa de movimento nenhum. Havia gente de todos os gêneros, idades e estaturas. De todas as vontades, ideologias ou religiões. Todos com um único objetivo: a igualdade.

Igualdade. Uma palavra tão simples, mas que gera tantas lutas. Tantas. Basta relembrarmos a luta que foi para tentar conseguir a igualdade entre as  “raças” humanas, algo que até hoje não foi inteiramente conquistado, a luta tremenda que todos os lgbt’s enfrentam em sua vida corriqueira, a igualdade social, econômica e, claro, a igualdade de gênero. Não, a luta não é para o fim da diferenciação de gênero. Não é para que as mulheres mandem no mundo. Não. A gente só quer poder andar na rua com a roupa que bem entender sem ter que ouvir coisas absurdas. Quer ter o direito de dizer “não” e ser correspondida todas as vezes que alguém chega tentando nos agarrar em uma balada ou quando não estamos afim de fazer algo sexual. A gente quer ser vista como gente e não como mercadoria, como algo que tem que estar lindo, como um objeto em uma vitrine e prontas para ser usadas quando quisermos. A gente não luta pela força física das mulheres, a gente não acha que elas sejam frágeis. Mulher não é frágil. Mulher é mulher. Simples assim.

Hoje eu lutei, eu ouvi coisas ruins e coisas boas, eu tive a oportunidade de perceber que ainda existe gente que compartilha destas opiniões comigo e tive mais esperança de que um dia de fato possamos dizer que somos iguais. Hoje eu ganhei mais forças para batalhar por um mundo em que eu receba o mesmo tanto que um homem na mesma posição, que eu saia de shorts na rua sem passar por algum constrangimento. Que ao andar na rua e ser congratulada pelo dia da mulher eu receba coragem para seguir em frente e não um cartão de lavanderia. Que as mulheres tenham coragem de reportar todos os abusos que passam, que o número de espancamentos, estupros e mortes por motivos toscos como fim de relacionamento ou suposição de traição sejam quase zero, ou quiçá zero. Um mundo em que quando eu contar que “minha tia foi assassinada por seu marido, porque ele achou que ela estava o traindo” pareça apenas uma história fictícia. Hoje eu não ganhei flores, nem bombons e, infelizmente, não ganhei respeito. Mas espero que um dia a gente ganhe.

Para quem não acredita, aí estão algumas manifestações que ocorreram hoje ao redor do mundo.

Grão de Areia

(Daqueles textos que ninguém deveria perder tempo lendo)

Pela primeira vez eu realmente pensei em apagar este espaço. Não consigo. No momento é a única coisa da minha vida virtual que eu não me desvencilharia de maneira alguma. A questão é que não é por eu achá-lo espetacular, por acreditar ser ele capaz de mudar algo em alguém, por gostar das minhas palavras ou sequer pela necessidade de continuar em escrevê-las, é simplesmente pelo fato de que foi a única coisa por mim feita capaz de me causar algum tipo de orgulho em algum momento.

Estamos em época de Olimpíadas e eu sempre digo para os meus pais que tenho sorte de ter nascido brasileira, pois se eu fosse chinesa já teria me matado. Simplesmente pelo fato de que eu não suportaria tanta pressão. Pressão para ser o melhor, sempre, em todos os quesitos e em todos os âmbitos. Não que eu não saiba lidar com a pressão, é que eu não preciso dela. Sou uma pessoa que naturalmente se cobra muito em relação a tudo, daquelas que tudo que faz acha que poderia ter sido melhor e que nunca fez o suficiente, que sempre pode melhorar, se eu fosse criada na China seria insuportável, não que eu brasileira seja muito melhor que isso, pelo menos tenho aprendido a me controlar… Tenho tentado mudar muitas coisas na minha pessoa, mudar para melhor, melhorar.  a principal delas é a dependência à internet.  Achava que seria um esforço enfadonho ficar menos tempo online, mas estou me saindo bem… A internet tem perdido a graça para mim, nunca achei que chegaria a esse ponto da minha vida, mas acho que cheguei. Pensei em apagar o espaço principalmente pelo fato de ele ser online e de eu ter preguiça de ligar o computador e ficar loucamente correndo meus dedos por teclas e mais teclas para dizer palavras repetidas e sem sentido. De fato, se eu fosse uma exímia escritora não haveria o menor problema, mas nem isso tenho conseguido ser. Na verdade, creio jamais ter sido, apenas sonhei que fui, como sempre.

Sofri muito na escola, principalmente no Ensino Médio, o velho bullying de todo dia nem era o pior, o pior era a tortura psicológica que eu fazia em mim mesma, dia após dia, até que, sabe-se lá porque, a tortura esvaiu-se de meu ser e virei a retardada que vos fala. A principal conclusão dos últimos dias foi essa: sou retardada e quanto a isso recuso discussões. Enfim. Em minha retardadice sempre fui mestre em fazer as pessoas me odiarem, creio que além dos que considero amigos – que são poucos – todos os outros com os quais estudei não gostam de mim. Não os culpo, logicamente, mas enfim. Meu principal desafeto ensinomediano certa vez olhou aos meus olhos no ápice de uma discussão e me acusou de ser uma “retardada que não vai ser ninguém na vida porque vive no mundo dos sonhos e não se preocupa com a realidade”, após ouvir essas palavras meus olhos se encheram de lágrimas e eu corri para chorar no banheiro. Foi a única vez na minha vida que fiz isso e fiquei tão brava comigo mesma por ter deixado as palavras daquele ser me atingirem que não sei se chorei pelas palavras ou por minha braveza mesmo. Não esqueci a frase e sempre que estou revoltada com algo me lembro da cena e começo a matutar em cima do que me foi dito. Porque quando verdades são ditas elas doem e a gente nem percebe a razão, simplesmente sente. Não me conformo com o fato de ter deixado as coisas chegarem a esse ponto. Sim eu sempre sonhei. Sim eu sempre vi vários filmes. Sim eu sempre me imaginei vivendo todos, mas eu também sempre estudei e batalhei para conseguir resultados reais capazes de fazer com que pessoas reais se orgulhassem de mim, não consigo lembrar onde foi que eu desisti dessa segunda parte.

Voltei pra fisioterapia recentemente depois de dois anos e meio de abstinência, eu estava indo bem, mas viciei-me no maldito computador e ele danificou os tendões do meu braço mais do que o lápis previamente havia feito. Mais uma razão para tentar me afastar. Com a volta da fisioterapia obriguei-me a relembrar minha primeira tendinite: catorze anos, overdose de escrita. Eu tinha seis cadernos com textos, mais uma carta quilométrica em processo de criação, meu diário e as redações da escola feitas dez vezes antes da versão definitiva para ter certeza de que tudo ia bem. Ai que saudades das redações escolares, acho que eram a única maneira de me fazer escrever algo útil. Hoje eu pego um lápis para tentar escrever uma carta e só sai futilidade atrás de futilidade acrescida de uma terrível letra que a cada ano piora um pouco mais – enquanto, obviamente, a velocidade de digitação aumenta. Eu penso em todos os blogs que eu tive, em todos que eu tenho, penso no fato de ter conseguido fazer um sobreviver por mais de dois anos sem grandes espaços de tempo ausente de atualizações e isso me é de muito orgulho, só por isso ainda não desisti.

Porque eu sou uma desistente. Sou aquela que começou curso de todas as coisas legais possíveis, entrou em todos os projetos legais possíveis, prometeu todas as coisas que conseguiu mas sempre absolutamente sempre sentiu-se sufocada e pediu para sair. Nunca concluí algo na minha vida, aliás, o teatro vem sido a minha mais forte esperança – falta só um ano! Eu desisti da natação quando tinha oito anos, resolvi mudar pra hidroterapia, desisti da hidroterapia com dez e voltei pra natação, desisti dela de novo e voltei pra hidro, então voltei pra natação e desisti de vez aos treze anos. Desisti do inglês, desisti da guitarra, desisti do espanhol, da Avon, das… Quantas mesmo? Ah sim! SETE escolas, desisti dos meus amigos, dos meus amores, dos meus pretendentes, de odiar e de amar, de experimentar coisas novas, de comer coisas diferentes, de abandonar o chocolate e enfim de fazer absolutamente tudo que tive vontade, não por duvidar da vontade, mas sim por não ter certeza de que seria o correto. Porque eu não quero desperdiçar tempo e energia fazendo algo para  só depois de terminar descobrir que não era para mim. Hoje além de desistente sou indecisa, pois além de tudo e pior que tudo, não faço ideia de quem sou como estou ou para onde pretendo ir. Não tenho mais meta ou sequer uma direção. Não sei se vou ser cantora ou prostituta, esposa ou amante, delegada ou parteira, não tenho sabido mais de nada. Tenho andado mais insuportável do que música de político, a ponto de nem eu me aguentar mais, tenho falhado em absolutamente tudo e deixado de ter vontade de fazer absolutamente tudo, tenho simplesmente existido e nada mais. Estamos em época de Olimpíadas e ao invés de eu sentar e curtir calmamente sento e curto morrendo de inveja de cada uma daquelas pessoas por terem tido força para lutar por seus objetivos e antes disso, sapiência para saber quais eram eles.

Eu sou apenas um reles mortal, uma metamorfose ambulante, uma das que queria ser heroína, mas não faz ideia de qual é o problema ou como consertá-lo. Sou apenas um grão de areia, daqueles que sozinho não serve pra nada, que é igual a todos os outros e que a multidão nem se dá conta da existência. Sou apenas mais uma sonhadora sem espaço nesse mundo de realidades infames. Ou não.

 

 

 

Brilho Eterno de uma Mente com Lembranças

Just because I don’t say anything doesn’t mean I don’t like you
I open my mouth and I try and I try, but no words come out.
Nothing Came Out – The Moldy Peaches

Eu sei que você me apagaria se pudesse. Sei que o fato de agir bobamente comigo está intimamente relacionado com isso. A verdade é que por mais que você diga e queira crer que gosta de mim, daria tudo para poder me apagar de sua mente. Isso é até engraçado pois eu sempre achei que seria eu quem iria implorar por uma lobotomia, mas no fim acabou sendo você. A razão eu realmente não compreendo, errei sim, todos erram e eu faço parte desse imenso hall de “todos”. Impossível seria não errar, tendo em vista que até você erra. Todos erram. A questão é que as pessoas costumam entender os erros alheios, ou pelo menos fingem. Tentam seguir em frente e fingir que nada aconteceu para que assim possam seguir alegres e saltitantes por aí, mas você não. Você é sincero e por mais que eu tenha admirado este fato por tanto tempo, nunca abominei-o tanto quanto agora. Queria que você soubesse mentir.

Eu não sou perfeita, mas você também não é. Eu me lembro de todos os meus erros e de todos os meus acertos. Eu me lembro de tudo. Dos seus também. E não tenho vontade de apagá-los. Achava que teria, mas não tenho. Tenho orgulho do meu passado e de cada passo que eu tomei em minha vida, pois foi por fazer exatamente o que eu fiz que parei aqui onde estou hoje e eu adoro o lugar em que me encontro hoje, adoro a pessoa que me tornei. Mas não gosto da que você se tornou. Talvez nossa convivência realmente tenha acabado com a tua vida e isso é terrível porque em nenhum momento foi o que eu quis, eu só queria que você fosse feliz. E assim sendo sinto-me na obrigação de lembrar que te fiz feliz, muitas vezes, incontáveis vezes, pelas mais diversas razões e motivos.

Você fez com que eu me sentisse assim e eu fiz com que você se sentisse assim também. Fui sua Clementine mesmo tendo o cabelo castanho. Mesmo sendo sem graça. Só que você criou a absurda e enfadonha capacidade de me apagar da sua vida, mesmo em um mundo em que lobotomia não é acessível. Provavelmente você se cansou de mim, da mesma maneira que eu me cansei de você tantas vezes por tantos momentos antes, a questão é que mesmo cansada eu continuava ali, com meu sorriso armado escutando pacientemente você me dizer tudo que tinha vontade. É claro que as vezes eu explodia, claro que as vezes tinha crises de honestidade e desabava a falar tudo que sentia vontade, claro que nesses momentos você estava ali, talvez fingindo-se de presente, talvez realmente estando, o fato é que estava e que isso me fazia bem. Fez-me bem por tanto tempo que nem consigo contar.

E quando eu já não podia lembrar da minha vida sem a sua ao meu lado, quando já não conseguia passar um dia inteiro sem pensar em você, algo aconteceu. Algo que até hoje não sei o que foi mas foi fatídico e nos fez viver separadamente por tanto tempo e até hoje, porque a gente conversava tanto e o tempo todo, mas mesmo assim tínhamos uma capacidade incrível de sermos completos desconhecidos um para o outro, como se em meio a tantas palavras, nenhum conteúdo fosse realmente emanado.

Talvez você tenha percebido isso, ou talvez tenha sido eu. Talvez tenhamos sido nós. O fato é que a percepção não agregou uma conversa realmente conversada e sim um afastamento terrível que me martirizou por muito tempo e com certeza te martirizou também.

Em muitos momentos eu cheguei a pensar isso e eu realmente conheci uma pessoa nova, mas nem ela em sua exuberância estupenda foi capaz de me fazer esquecer da sua existência prévia. Hoje começo a pensar que talvez ninguém nunca o faça e eu esteja condenada a viver sob sua sombra para sempre, como se todos os futuros seres que possam despertar em mim algum tipo de sentimento fossem na hora encobertos pela sombra da sua perfeição. Sei muito bem que você dizia que a perfeita era eu, mas a verdade é que sempre foi o contrário e eu em meio a todo meu amor por mim mesma não fui capaz de perceber.

Não sei se é por conta do cabelo de Clementine ou pela idade avançada chegando, o fato é que estou cansada de toda essa coisa de destino. De toda essa coisa que sempre insiste em acontecer com a minha pessoa. Será que as coisas não poderiam dar certo uma vez pelo menos? Será que eu não poderia ser feliz pelo menos por uma semana inteira? Eu queria ter nascido desprovida da capacidade de pensar, assim muito sofrimento seria evitado pela minha parte. Queria ter nascido desprovida da capacidade de sentir, como Effy que precisa parar no meio de uma rua e gritar para ser atropelada porque quer sentir algo, eu queria ter nascido simplesmente com algum mecanismo que justificasse o fato de eu ser capaz de estragar todos os momentos, até os que eram para ser bons! É como se o Deus da Carnificina não parasse de rondar a minha pessoa nunca e quer saber? Isso cansa. Cansa demais.

Queria ter coragem e meio de fazer com que você não me apagasse da sua mente. Lembrasse de mim para sempre. Não que eu queira continuar de onde paramos, não que eu queira algo relacionado à sua pessoa. Não que eu não queira também. Minha vontade é unicamente de fazer com que você lembre-se de mim da mesma maneira que eu insisto em lembrar da sua pessoa. Que você sinta por mim a mesma coisa que eu sinto por você. A mesma vontade tremenda de fazer uma lobotomia ao mesmo tempo que prefere uma penseira e ao mesmo tempo que prefere nada, apenas a liberdade para poder continuar pensando no que quiser quando quiser, sabendo do que aconteceu e porque aconteceu. Hoje eu queria ter razões para acreditar no amor novamente. Porque eu acredito, com todas as minhas forças, em todos os momentos, mas hoje, particularmente hoje, está difícil. Hoje eu sonhei com você. Hoje eu reli nossas conversas. Hoje eu assisti a um dos meus filmes preferidos debulhando-me em lágrimas. Hoje eu soube que um dos amores que jurei serem eternos acabou. Hoje quis com todas as minhas forças incorporar a Clementine, entrar na sua cabeça e implorar para que continue a lembrar de tudo para sempre, como eu. Para que tenhamos pelo menos isso em comum. Creio que é só o que nos resta. Lembranças. Pode parecer ruim, mas não é. Não é a melhor coisa do mundo, isso é fato, mas também não é a pior. Seria pior se as lembranças não existissem, por isso a urgência em fazer com que você as mantenha vivas. Mesmo hoje eu ainda quero que você fique bem, que você esteja bem e que você seja absurdamente feliz. Enquanto rogo aos céus, ao destino e a sorte para que eu também siga pelo caminho da luz e possa sair emanando sorrisos belos mundo a fora.

É tudo que eu peço.

Seja meu Joel para que eu possa de fato ser sua Clementine. Quem quer que seja você.

P.S.: Esse texto faz parte de um meme em que eu deveria reciclar o título de outra blogueira. Quem será ela?