Self Image 2016

          Eu já me senti um alien. Isso foi no ensino médio, onde eu era a personificação da chata “diferentona“. Acontece que o meio em que eu estava inserida era, de fato, bastante diferente de mim e isso fazia com que eu me sentisse uma pessoa de outro planeta. Tanto que em uma época, esse foi o nome do meu blog. Na faculdade eu percebi que não era tão diferente assim e comecei a criar raízes com alguns lugares e pessoas, o que foi bastante diferente para o modus operandi de até então. Então mudei o nome do blog para Ancoragem, porque era essa a sensação do momento. Percebi, porém, que o processo de ancorar-se à vida não é tão instantâneo e que eu vou ficar nessa por anos a fio ainda.

          De lá para cá não só meu espaço de escrita mudou de nome e foco, como eu também. E tudo isso foi incrível.

          Em 2016 me encontro recém formada, após ter conseguido terminar a faculdade em quatro anos – o que não é lá tão comum entre as pessoas do meu curso. Prestes a iniciar minha primeira pós graduação, em uma universidade que finalmente terá árvores para que eu fique sentada embaixo lendo. Passei pelo meu primeiro processo seletivo para um emprego incrível, mas tive que recusar por causa do meu tornozelo. Tive minha primeira cirurgia marcada para o próximo mês e consegui engrenar em uma ótima rotina literária.

          Já não consigo andar com a destreza que fazia há algum tempo. Usar salto ou dançar é praticamente impossível. Enquanto há alguns anos meu sonho de vida era ter um motorhome para conhecer o Brasil, a verdade é que agora com quatro horas de carro eu já estou mais enjoada do que o batman em um navio desgrenhado. Enquanto o sonho anterior era trabalhar em um lugar ao ar livre e dinâmico, embora eu continue odiando cubículos, preciso começar a me contentar de que não vou conseguir passar muito tempo da vida em pé e que o melhor é ficar sentada por uns tempos mesmo.

Mas não canso de tentar descobrir.

          Tenho tido dificuldades em expor minha vida particular para o grande público – algo que se reflete neste espaço. Enquanto há alguns anos esse era o palco principal de desabafos, agora eu desabafo apenas em pensamentos ou em conversas com amigos incríveis – que não vão embora com o passar dos anos, ainda bem. Continuo extremamente tagarela e com vontade de descobrir coisas novas, mas ainda tenho muitos pés atrás no universo gastronômico. Embora eu adore explorar coisas novas, preciso ter certeza de onde elas vieram e se estão bem limpinhas.

          Aprendi que sou uma pessoa canina e virei melhor amiga de uma labra-lata incrível. Tenho três tatuagens programadas para fazer assim que tiver dinheiro disponível. Continuo a gastar quase tudo que tenho em livros. Sou viciada em séries, mas já não tenho paciência de fazer download delas. Tenho baixa resistência para com vida social e me canso muito rápido do contato com pessoas.

Coisas em que eu acreditava – e agora não mais.

          No quesito pessoas, inclusive, acho que melhorei bastante. Aprendi a lidar melhor com a minha família, embora ainda ocorram pequenos choques. Em geral, nos damos bem. No quesito amizade, não posso reclamar, afinal sempre que preciso de companhia, sei exatamente a quem recorrer. E raramente elas me decepcionam. Além de tudo, tenho um namorado – algo que eu considerava impossível até uns dois anos. E a gente se supera e cresce a cada dia que passa juntos e eu aprendi a ficar tão feliz pelas conquistas de outra pessoa quanto fico com as minhas próprias. E isso é demais.

          Se antes eu tinha dúvidas sobre Deus, agora eu tenho certezas. Descobri que meu problema era de fato com o Deus cristão e com toda a vivência cristã, que não condiz com a sua teoria e isso realmente me incomoda. Encontrei na Umbanda uma resolução para a maior parte dos meus pés atrás, mas encontrei também vários outros e pude passar um bom tempo estudando e vivenciando esse universo completamente diferente daquele em que eu cresci. E achei sensacional.

          Por essas e outras, acredito estar fazendo um bom trabalho nessa coisa chamada “vida” e espero poder continuar com a oportunidade de seguir em frente neste processo por muitos outros anos. Afinal, o mundo continua grande e cheio de oportunidades. E elas continuam a me fascinar.

Recado para o universo

          A ideia inicial desse post é do Eric, no Youtube. Soube dela através da Milena e decidi que vou fazer isso anualmente.

          Pensando em dar mais vasão a outra das coisas que amo: escrever, decidi criar uma Newsletter. A intenção é tratar de coisas um pouco mais íntimas do que as que aparecem aqui, tudo narrado pela Amy e com uma mistura entre ficção e não-ficção. Será um exercício bacana para mim e os e-mails serão enviados quinzenalmente. É claro que todo mundo pode se inscrever e responder aos textos quando desejarem.

Thanks for all the fish

Há um ano eu estava no Paquistão. Trocando exaustivamente mensagens no whatsapp com um pentelho que tinha deixado no Brasil. Fui num casamento por lá e mandei uma foto para ele com eu vestida com roupa de festa pakistani style e ele postou no mural do meu facebook, com um “eu te amo” escrito em um árabe de google translator. Ri desesperadamente quando vi a coisa e fiz minha amiga que entendia um pouco de árabe me dizer se estava certo, ela disse que sim. Sem jeito, falei que era absurdo sair postando uma foto que foi compartilhada privadamente, ao que ele respondeu “isso que dá ficar mandando foto pro namorado”. Fui no whatsapp perguntar se a gente era namorado, e ele disse “não, mas queria ser”. Achei esquisito, ri, imaginei que ele devia estar me zoando – como em todas as outras vezes que tinha dito que queria ser meu namorado. E respondi “tá”. E nos primeiros dias eu achava que aquilo era pura zoeira, mas com o passar do tempo percebi que tínhamos nos tornados namorados sem que nós mesmos percebêssemos a situação. Afinal, agíamos como namorados, só não tínhamos esse nome. Desde então, não conseguimos oficializar uma data de início da relação, o que sempre foi muito engraçado. Mas resolvi fuçar no whatsapp, a fim de ter um dia para marcar no calendário e olhar quando, sei lá, tivermos velhinhos e esquecendo até de como limpa a bunda. É mais fácil lembrar das coisas quando temos datas associadas a elas. Segundo o whatsapp, a conversa aconteceu em 16 de Janeiro. Pode ser uma data ilusória, simbólica, tanto faz. É WM day. E por mais que homenagens em relação a isso pareçam que a gente tá se vangloriando por ter aturado alguém enchendo nosso saco por um ano, a verdade é que eu realmente gosto de deixar coisas registradas. E não me recordo de ter registrado isso em algum lugar que eu possa ter acesso no futuro. Minha função no casamento do Paquistão era justamente jogar pétalas de rosas no noivo, que simbolizava fertilidade na relação e, tecnicamente, as pessoas que fazem isso recebem felicidade, ao mesmo tempo em que a transmitem para o casal. Pelo jeito as mitologias paquistanesas funcionam, pois agora eu sei que a vida pode estar um tremendo maremoto, mas ainda assim eu terei um sorriso e um olhar que me transmitirão paz. E pra quem achava isso impossível, ver-se presa nessa artimanha com garras fortes o suficiente para não se imaginar longe delas, é mais um fator de que milagres e mitologias funcionam. E que a gente nunca pode dizer nunca, afinal, não sabemos o que os deuses planejam para o nosso futuro – e muito menos qual mapa astral vai encaixar perfeitamente no nosso. Sinto-me absurdamente honrada por ter compartilhado essa parte da minha vida com uma pessoa tão especial e que me enche de orgulho e alegrias em todos os momentos e, hoje, enquanto agradeço a cada segundo, desejo que ele seja multiplicado infinitamente. Obrigada.

Confessionário

Não entendia a dinâmica da confissão. Fazer a lista, sentar ou ajoelhar, falar os pecados para o padre sob a premissa de não cometê-los novamente e ganhar uma penitência como troca pela absolvição. Achava que estava enganando Deus ao fazê-lo acreditar que eu nunca mais mentiria ou desobedeceria meus pais e ao mesmo tempo entendia que aquilo apenas aliviava meu fardo, para que eu pudesse fazer de novo. Mas se eu poderia fazer de novo, qual era o sentido?

Tempos depois, admiti para mim a ideia de que se Jesus é Deus e deus é onisciente e onipresente, quando morreu na cruz e salvou a humanidade de todos os pecados, ele realmente salvou a humanidade inteira, de todos os pecados. Não interessa que eu nasci quase 2000 anos depois que ele, ele já sabia exatamente quais pecados eu iria cometer e já havia me perdoado por todos. Ou talvez ele não soubesse exatamente quais eu cometeria, pois tem a história do livre arbítrio vs onisciência divina, que me faz crer que ele pelo menos tem uma noção do mol de atitudes que eu possa vir a tomar. De qualquer forma, Jesus já tinha me perdoado. Eu posso pecar o quanto quiser e nem preciso me confessar, porque Jesus já me perdoou.

O outro pé atrás com a confissão era justamente que receber o perdão de Deus não gerava em mim a reflexão sobre o quanto aquela atitude era errada e deveria ser repensada. Ao invés de pedir desculpas para as pessoas que eu ofendia, ia lá e pedia desculpa pra Deus, porque, né, já que ele que sabe de tudo, só interessa a ele saber que estou arrependida. As outras pessoas não podiam saber que eu era fraca a ponto de assumir estar errada.

No fim das contas, quem queria ser Deus era eu mesma. Fingindo ser onisciente, onipresente e tudo mais. Só que eu não sou deus. Mesmo que eu tenha o nome de uma deusa canibal. E a demora para a cabeça processar isso foi absurda.

Envolvi-me nos “assuntos de gente grande” da família desde sempre. Meti o bedelho em todos os lugares possíveis. Ignorei a opinião de muitas pessoas e as obriguei a seguir a minha. Fui vil e cruel. Bati em pessoas por puro descontrole emocional. Bati em mim mesma pela culpa que a vida me fez carregar. Nunca pedi desculpas a quem eu realmente ofendi, quando ofendi.

Não que eu não peça desculpas, eu peço. Mas pelos motivos errados, por educação, não em situações que demonstram arrependimento. Com o passar do tempo, passei eu mesma a desconsiderar meus pedidos de desculpas e quando realmente estou arrependida, só uso esta palavra em falta de sinônimos com a mesma conotação. A verdade é que na maioria das vezes meus pedidos de desculpas são apenas desculpas para não aceitar as minhas inúmeras falhas.

Essas coisas começaram a me incomodar mais do que o normal ultimamente. Resolvi revirar a minha memória, tentar lembrar de cada ressentimento, cada culpa guardada aqui dentro que eu não consegui resolver com as pessoas em questão por pura babaquice e decidi colocar a boca no trombone. Decidi fazer do mundo o meu confessionário e ir de pessoa a pessoa falar o que ressinto dela, porque e o que acho que fiz que pode ter causado algum ressentimento a ela e como sou arrependida por isso. Também resolvi agradecer. Agradeci pessoas que foram extremamente importantes pra mim em momentos cruciais e depois foram simplesmente abandonadas pela minha ignorância absurda e decidi que talvez eu odeie tanto as pessoas e o universo e todo o resto simplesmente porque nunca me permiti realmente gostar.

Porque sempre tive medo de como aquilo poderia me afetar negativamente e estive mais preocupada com o quanto eu deveria me proteger. Simplesmente porque pensei mais em mim do que nos outros. Mas em como a atitude era reflexo de outra atitude minha e consequência de uma causa psicológica ou social da qual eu não pude evitar. Ou simplesmente do rompimento com meu amadurecimento e da disparidade entre o meu lado criança e o meu lado adulta. Sempre olhei as coisas sob a perspectiva minha e não pensava em como eu afetava os outros e como eu influía na vida deles e o quanto eu tinha poder de mudança nelas.

Eu sempre fui nada além de uma vadia egoísta que se coloca em primeiro lugar.

Não sei se meu método de confessionário vai ser mais eficaz que o da igreja. Não sei quanto da decepção e amargura que causei podem ser reparadas. Não sei quanto da minha ingratidão pode ser transformada em bons fluídos para outrem. Mas tenho sentido tanta raiva de ser ridícula, mesquinha e infantil quanto sou que certamente cuidarei para minimizar essas atitudes.

Se o meu maior medo é ficar sozinha, cabe dizer que agi a favor da solidão durante a minha vida inteira.

BEDA #18 Medo do Escuro

Não consigo resgatar na memória uma temporalidade para o início destes fatos e tão pouco a razão para que sejam do jeito que foram. Parafraseando o saudoso João Grilo, direi que “num sei, só sei que foi assim”. Tendo isso em mente, vamos ao fato: tenho medo de andar sozinha pela rua depois que escurece. Pra falar bem a verdade, o medo não vai embora quando ando em comboio. Andar. A noite. Na rua. Bom, é apavorante.

Isso é engraçado quando colocado em comparação com os outros locais em que estive. Por exemplo, como Barcelona escurecia muito cedo, andar de noite era plenamente normal e todo mundo fazia. Dava sensação de segurança e era refrescante. Mas, ainda assim, eu evitava o máximo que podia. O mesmo no Paquistão, onde as lojas só fecham depois das 22h e até lá tem gente e mais gente em todos os lugares que você olha – inclusive naquele trânsito com lógica particular.

Aqui no Brasil, independente de ter gente na rua, de ser cidade de interior, capital, escurecer cedo, tarde, tanto faz. Passou das 20h eu abomino andar sozinha. Sabendo disso, meus pais (que talvez sejam mais causa do que resultado do problema), sempre entram em contato quando não estou em casa até essa hora para, no mínimo, me encontrarem no meio do caminho caso ninguém possa me acompanhar até a porta de casa. Já fiz tias se deslocarem das casas delas até a universidade só porque tinha ficado escuro, não tinha ninguém em casa e eu não tinha coragem de andar sozinha.

Corroborando com a minha questão individual, temos o fato de que minha casa fica estrategicamente localizada em uma esquina do Centro da cidade. Uma das ruas é repleta de bares, casas de swing e semelhantes e a outra só passa carro, a ponto de a falta de pedestres ser agoniante. Perigoso passar perto de um monte de gente bêbada mais nóias em geral (odeio falar das pessoas desse jeito, mas preciso usar essa categoria generalizante no momento, porque, enquanto estou na rua e vejo um ser mal apessoado simplesmente ando mais rápido e mando o relativismo pro beleléu).  Perigoso, por outro lado, andar em uma rua sem pedestres (vai que alguém desce de um carro e me rapta? Vai que surge um pedestre do nada e faz algo de malvado? Vai que eu sou atropelada? Vai que eu tropeço, bato a cabeça não tem ninguém na rua pra me socorrer?). Ou seja, muito arriscada essa vida de solidão. Não é pra mim. Preciso de um cão guia, mas ok, isso fica pra outra conversa. A tensão que se instala no momento de voltar para casa de noite é absurda. Tanto que desisti de vez de fazer aula de teatro justamente porque não teria mais alguém para me buscar e sem condições voltar sozinha, a pé, às 22h.

Até que em meados de Junho (suponho) do ano passado, após um dia universitário eufórico, cansativo, gigantesco e que finalmente tinha acabado, o estresse e a ansiedade pela cama se transformaram na minha vontade preferida, a de andar. E de repente eu estava na metade do caminho para a minha casa. Sem me agarrar na bolsa. Sem estar rezando o pai nosso. Sem ter avisado a minha mãe. Simplesmente com meu casaco branco, andando rapidinho enquanto cantarolava alguma diva pop e, perto de casa já, me deparo com minha mãe na calçada “indo ao meu encontro” sem eu ter pedido. Só então percebo que tinha ido até ali sozinha e sem nada do meu medo ridículo. O que só podia significar que, sim: eu posso.

Desde esse dia, andar pela rua sozinha depois que escurece ainda me dá um friozinho na espinha. Ainda tento evitar o máximo que posso e ainda imploro por caronas, companhias ou remanejamentos de horários em compromissos, mas não deixo de fazer as coisas por causa disso. Tenho treinado minhas habilidades no dia da Yoga, que volto lá pelas 21h e até hoje tudo deu certo. Eu olho pra Lua e sorrio. Ando com a chave na mão, apressada e hiper atenta, ou pelo menos o máximo que consigo. E até agora tá tudo bem. No fim, aproximo-me mais da crença de que os medos existem para serem vencidos e tento percebê-los justamente para transformar em novas metas de libertação própria. Um dia, quiçá. estarei livre dos meus grandes monstros e, talvez, passe a ser uma pessoa mais normal, no sentido estrito do termo.

BEDA #15 Diário de Classe

Relatei aqui, assim que comecei a faculdade e me deparei com uma greve imensa, sobre qual era o meu ideal universitário e como ele se diferia da realidade em que me encontrava. Com o passar do tempo e uma bagagem ainda maior de referenciais universitários norte-americanos, a apreciação pelo sistema daqui diminuiu ainda mais. Não tanto pelo método de entrada na universidade (embora não acredite ser o ideal), nem pelo fato de que o ambiente ainda é extremamente elitizado e dificultoso para pessoas de baixa renda e menor qualidade de educação básica. Porque agora não olho mais de fora, como uma estudante que tenta adentrar nesse meio. Olho como alguém de dentro. E, cá entre nós, me sinto mega sortuda por ter conseguido a chance de olhar de dentro. Se tem uma coisa que acredito desde sempre e que não me vejo desacreditando é no ideal iluminista de que a educação é a origem do progresso e por isso a verdadeira salvação do homem. Sou do time que acha que um país com boa educação é o ideal. E sei que o problema no nosso país é generalizado e atinge todos os âmbitos do sistema educacional, sendo por vezes desesperançoso. Mas hoje não fim falar sobre as minhas opiniões, reclamações e sugestões à respeito da educação. Vim falar sobre como é ser aluna.

Uma amiga começou medicina na faculdade particular no começo deste mês. A dinâmica de ser calouro, intensa como todos sabem, soma-se a uma imensa lista de coisas a serem compradas e todas as cosias sendo caríssimas. Como toda boa caloura, comprar tudo, não perder aulas e morrer estudando em casa para memorizar e aprender é a prioridade do momento. Creio ser assim com quase todos. Até que um momento de limbo se instaure, o que, no meu caso, ocorreu no ano passado. Por uma série de questões pessoais e psicológicas, tudo era mais interessante do que ir às aulas ou sentar para ler qualquer um dos textos. Sem lê-los, ir para as aulas era inútil e irrelevante. Tentei convencer minha mãe a trancar um semestre e não consegui e acabei passando em quase todas as matérias, mesmo que hoje não saiba quase nada sobre elas. E eu não acho isso legal. Mesmo porque, neste semestre tudo aquilo que eu não aprendi ou não soube lidar com, acaba aparecendo de algum modo e me falta a base. Eu me prejudiquei e ainda assim passei. O que, para mim, significa falha no sistema avaliacional pré-histórico chamado de “prova”.

Este ano, com a vida em outro contexto e uma consciência maior do quanto a experiência universitária poderia me agregar e do quanto era importante que eu me dedicasse a ela, resolvi abrir mão das minhas frescuras, manias e preconceitos. Comecei a acordar cedo e chegar no horário em todas as aulas, faltar o menos possível e ler o máximo que consegui. Foi rentável, tirei meu primeiro dez em uma disciplina que eu realmente aprendi algumas coisas, treinei bastante a minha escrita e leitura e consegui passar sem esforço, mas dessa vez com a convicção de que algo eu sabia. No semestre atual, decidi pegar a maior quantidade de matérias possível. O objetivo principal é me formar mais rápido, o secundário é melhorar minha disciplina e capacidade de compreensão e aprendizado, o que exige uma melhora na minha concentração. Estudar, portanto, além de exigir muito tempo, esforço e boa vontade, exige também uma melhoria (mesmo que involuntária) do seu eu interior. Ajuda a crescer, amadurecer e ter maior noção das responsabilidades que lhe são apresentadas. Mas o sistema continua a atrapalhar.

Com o tempo aprendi que é muito mais importante estudar em casa do que ir para a aula e que nada adianta acordar cedo e ouvir o professor falar se eu não fizer ideia de sobre o que ele está falando. Por outro lado, aprendi também que alguns professores não estão muito interessados nas nossas leituras sobre os textos e tão pouco no nosso entendimento a respeito deles, ou das conexões mentais que nos suscitaram. Mesmo que, tecnicamente, a universidade sirva para ensinar a gente a pensar, ampliar os nossos horizontes e formas de pensar e agregar informações novas ao nosso cotidiano, ela acaba por nos restringir e adestrar – tanto quanto a escola básica fez antes.

Isso pode ser percebido por dois exemplos um tanto bobos. O primeiro diz respeito a um trabalho que meu irmão fez, para uma matéria de filosofia (curso dele na faculdade), à respeito de etnologia indígena, o que diz respeito à área de antropologia. Ao ler o trabalho, tive a impressão de ser completamente desconexo daquilo que entendo por uma análise de textos antropológicos e imaginei que a nota dele seria muito baixa, porque, para mim, aquela abordagem e apresentação da discussão estava errada. Só que ele tirou nove. Porque a leitura que a filosofia faz da antropologia é diferente daquela que a antropologia faz dela mesma. Ou seja, meu modo de pensar um texto e escrevê-lo tornou-se estritamente limitado aos modos presentes nos textos que estou sempre em contato com. Mesmo que eu tentasse inovar, não conseguiria fazer do mesmo modo que meu irmão o fez. E creio que se fosse o contrário, ou seja, eu escrevendo sobre filosofia, ele teria impressões semelhantes.

O segundo exemplo diz respeito à uma aula recente que participei, na qual era proposta a discussão de determinado texto, porém quando um aluno resolveu associar aquele texto com teorias de outras áreas, que ele havia tido contato anteriormente, seu pensamento foi, mesmo que a professora não tenha percebido, interrompido e olhado com certa pejoratividade. O menino, a quem passei a nutrir admiração, disse que achava que discussões se davam quando argumentos novos eram trazidos, pois discutir um texto por ele mesmo pouco acrescenta ao aluno. Por mais que a professora tenha demonstrado concordar, experiências prévias tanto com ela quanto com todos os outros professores da universidade, me provam que o garoto está absolutamente certo. Ao adentrar em seu objeto de estudo o professor fica tão delimitado que se esquece que há todo um universo logo a seu lado, pronto para lhe ajudar a construir argumentos ainda melhores. Por não conhecer esse universo, acaba barrando a exposição de alunos que tentam agregar com pensamentos mirabolantemente incríveis. Porque universidade e discussão de textos deveria servir para aumentar e reforçar novas conexões mentais e não ideias comuns e já discutidas e rediscutidas interminavelmente. O maior problema que esse silenciamento inicial causa é justamente o silenciamento contínuo. Grande parte desses alunos que tentam agregar e são barrados acabam desistindo e aula volta a ser desestimulante e apenas mais do mesmo. É a coerção do social, visando a garantia de maior coesão, agindo novamente sobre indivíduos que tentam escapar um pouco dos padrões de normalidade. E isso me irrita.

Relevo aqui duas professoras que estou tendo durante este semestre. Elas estimulam a participação dos alunos, a interdisciplinaridade e a formulação de novas conexões mentais, evitando reafirmar ideias que já fazem sentido para a gente e nos ajudando a entender novas e, quem sabe, criar algumas. Para mim, é exatamente esta a função de um professor universitário, principalmente na área de ciências humanas. Sempre questionam os índices de evasão e desperiodização, mas é impossível diminuir esses números sem que os alunos sejam de fato estimulados a agir pelas próprias pernas. Porque essa é uma corrente contrária àquela que lhes foi passada a vida inteira e, sem esse estímulo, ele simplesmente não vai. É muito fácil o aluno xerocar os textos, ter poucas avaliações realmente avaliativas, fazer uma prova que não prova nada, conseguir a nota e os créditos da matéria.

Mas, poxa, a universidade forma profissionais, que tipo de profissionais serão esses? Que tipo de alunos somos nós? Cumprimos nosso papel na transformação educacional necessária de existir? Ou simplesmente pensamos “já que sempre foi assim, que continue” e enchemos linguiça durante todo o tempo de universidade? Estamos, como Gandhi disse, sendo a mudança que queremos ver no mundo? Ou seremos nós mesmos apenas mais do mesmo? Se é isso que você quer ser, conscientemente, ok, vá em frente. Mas se não é, bom, sempre é tempo de mudar. Eu estou tentando. Gostaria de saber que mais pessoas também o fazem.