BEDA #11 Forty-Two: Don’t Panic.

11 de Agosto é dia do garçom. E também do advogado e, segundo uma fonte aleatória do google, isso desencadeou o fato de ser o dia do Estudante. Parece que é assim por causa da primeira faculdade de direito ter sido inaugurada no Brasil neste dia – e posteriormente a UNE e, claro, nosso querido vestibular. Ao invés de ser feriado ou de ganhar chocolate da escola (saudades do Bom Jesus), hoje foi dia de primeiro dia de aula. Do sexto período da universidade. Isso que eu ainda não consegui entender como foi que passei no vestibular, claro.

A diferença do sexto período é que só há duas matérias obrigatórias, além da monografia – que não é presencial. Isso faz com que a turma, que é dispersa desde sempre, seja ainda mais. Aumentando assim a possibilidade de fazer uma matéria com nenhum conhecido. Em outros tempos isso seria encarado como a sensação do momento, afinal, nada melhor para futuros antropólogos do que novos grupos com dinâmicas próprias de funcionamento prontos para serem infiltrados. Só que a paciência para pessoas, em específico as da faculdade e mais específico ainda os veteranos estilo “deveria estar no mestrado, mas na verdade estou no décimo quinto período de graduação” e os calouros do tipo “estrou no quarto período, mas sei tanto que já era pra ser doutor”. E, bem, isso é o que mais tem. Abstendo então a vontade de comunicação com estranhos e o fato de existirem no máximo seis pessoas do curso inteiro que tenho algum tipo de contato, mas sem fazer ideia da existência de alguma matéria em comum, fui.

A diferença do sexto período é que a ansiedade absurda que me abate em todos os inícios de aula se esvaiu. Acordei como se estivesse acordando naquele horário pelos últimos 20 anos (não que, de certo modo, eu não esteja) e caminhei como se tivesse absoluta certeza do porvir. Nem uma gota de agorafobia. Nada de ansiedade. Nenhuma angústia. Apenas rotina, apenas ir.

A sala da primeira aula, que tecnicamente seria com a minha turma, tinha três conhecidos. Vitória. O professor, que nunca tive aula com, parece fantástico e a ementa me deixou bastante, acreditem se quiser, empolgada. Radiante pra falar a verdade. A possibilidade de ler todas aquelas coisas das quais nunca ouvi falar me deixaram, por algum motivo inexplicável, contente. O preço das coisas da cantina subiu mais uma vez, como descobri na hora do intervalo. A diferença do sexto período, é que finalmente deixei de chamar de “recreio”, como de costume. O professor atrasado para a segunda aula, fez com que eu pudesse vencer mais um capítulo de Oblómov (agora em fase de leitura devagar, porque é divertido demais pra acabar em algum momento) e a turma lotada de calouros se fez presente. O professor, já conhecido por uma incrível capacidade de ser tão pastel quanto eu, motivado com um novo início apresentou ementa e método de avaliação surpreendentes. Que fizeram as faíscas de empolgação aumentarem e a vontade de voltar para casa para começar a organizar o que ler, quando ler e o que fazer com isso, aumentasse exponencialmente. Com o fim, a volta instantânea para casa se fez necessária. O resto do dia passou calmo, brando. Empolgantemente desafiador.

E depois eu descobri que era dia do Estudante. E que eu não tinha ganhado chocolates, como na época do Bom Jesus (sdds, apenas sdds), mas sim 42 novos textos com provável gama de conceitos e conhecimento muito maior do que isso para serem desbravados no período de três meses. 42, justo o número que é a resposta para todas as perguntas. Justo o número que nos diz para não ter pânico. Justo no dia que eu não tive.

2.0 é outra história.

Nas minhas lembranças mais remotas, estava o sonho de fazer 20 anos. Nunca consegui me imaginar mais velha do que isso e a ideia absurda de que essa idade já chegou as vezes me dá calafrios absurdos. O que já fiz da vida? O que não fiz e deveria ter feito? O que virá pela frente? Parece que agora o bicho está começando a pegar. E de maneira bem adversa àquela que a Mayra mirim cria, afinal estou bem longe de ter uma rede de televisão (longe até mesmo de considerar essa hipótese). Assim como não pretendo ter filhos tão cedo e muito menos estou casada e morando em uma casa muito legal. Essas coisas, no fim, só serviram como pano de fundo de boas brincadeiras de barbie (aquelas que, justamente, me fizeram chegar até aqui).

A realidade é bem diferente. Moro com meus pais, estou no terceiro ano da faculdade – decidindo o que fazer na tenebrosa monografia. Divirto-me vendo mil e uma séries, lendo vários livros e rindo com pessoas incríveis, que fazem os meus dias muito melhores. O mundo não é cor de rosa, ainda tenho que tomar remédios desagradáveis, ocorrem coisas estressantes, pessoas mudam e passam a me estressar, eu mudo e passo a estressar os outros, a dinâmica familiar passa a ser estressante em determinados aspectos, mas o rio continua a correr. As terapias semanais estão quase em dia, assim como as aulas de yoga, infelizmente em férias. O IRA está aumentando e a vontade de saber o que pode acontecer daqui para frente também.

Tentando pensar no que já fiz, concluí que já fiz muita coisa. Fui apresentadora de tv quando criança, assim como apresentei uma abertura para mais de 50 mil pessoas e não morri. Foram seis ou sete peças de teatro e várias várias viagens. Tive a chance de conhecer cinco países além do Brasil e 2 continentes além da América. Fiz amigos sensacionais, aproveitei meus avós o máximo que pude, tentei vencer cada obstáculo que impus a mim mesma e mesmo quando tentei, não consegui desistir da ideia genial que é explorar a vida, o universo e tudo mais. A vida é uma viagem e é uma pena eu estar só de passagem, como diria o Leminski.

Acredito estar vivendo um daqueles momentos de ouro, mesmo entre os dias entediantes. Olho-me no espelho e rio. Os cabelos estão normais, o rosto continua o mesmo e a risada aleatória ainda está lá. Ainda sou eu, no fim das contas. Mesmo sendo esse ser completamente incrível e desconhecido. O universo continua sendo muito maior do que eu e cheio de problemas que jamais serei capaz de resolver. As pessoas continuam a me decepcionar e o modo de enxergar a vida passa por transformações absurdas em questões de segundos. Eu estou viva. Eu olho ao redor e tenho a certeza mais absoluta de que aqui estou. E, digam o que quiserem, considero ter feito um trabalho bom até agora, mas com potencialidades expansivas infinitas. E é a elas que me dedicarei, agora que tenho 2.0 no meu motor. Se Raul pedia para parar o mundo porque ele queria descer, informo que pode continuar girando, porque aprendi a seguir o fluxo e aqui vamos nós.

#todossomosdivos
#todossomosdivos

P.S.1: Muito obrigada a todas as pessoas lindas que lembraram de mim ontem e me parabenizaram de alguma forma! Fiquei muito feliz com tudo.

P.S.2: Um obrigado especial para todos que compareceram à comemoração e abrilhantaram o meu dia com suas ilustres presenças, não teria tanta graça sem vocês.

P.S.3: E o agradecimento mais especial de todos para meu grande impulsionador de exploração de potencialidades, Willian.

Estava Errada.

Eu sei que hoje é o dia da copa, mas no meu calendário ainda é dia dos namorados. Afinal, que absurdo é esse de bem no ano em que eu tenho um namorado a data ser simplesmente excluída do universo? Nada disso. Se ela existiu durante todos os anos da minha vida, nada mais justo do que existir nesse também.

É que nesse dia dos namorados eu estou feliz. E não, não vou dizer que mudei de opinião e relegar à morte todos os meus pentelhamentos dos últimos quatro anos sobre como a gente pode (e deve) ser feliz mesmo sem algum enlace amoroso envolvido. Ainda acho que é um absurdo as pessoas mensurarem sua existência à partir do fato de estar ou não com alguém. Só que, do mesmo modo, acho bobo que as pessoas que estão com outras pessoas e se sentem confortáveis com isso coibam a comemoração em prol dos outros. Quero dizer, eu celebro o natal mesmo sabendo que há uma imensidão de pessoas que não acreditam em Cristo, não vejo porque não celebrar o dia dos namorados se isso me agrada. (Do mesmo jeito que acho que se você quer celebrar a copa, vai lá e arrasa.)

Sou do time que acredita que tudo aquilo que nos dispomos a fazer, temos que fazer por inteiro, dando o melhor de nós. Então, uma vez que decidi namorar, o dia dos namorados faz parte. E não é como se fosse um dia automaticamente mágico e romântico e estivesse eu como Simba e Nala navegando em um rio rosa que forma corações ao redor e se explodem e tudo é magia pura. Continua sendo um dia normal, mas potencializado com o fato de que tenho motivos para comemorar!

A comemoração não se dá ao fato de eu ter um namorado, porque, se vocês leem esse espaço há uma certa quantidade de tempo, sabem muito bem que eu sempre fiquei revoltada com as pessoas que ficavam me enchendo o saco por eu não ter um namorado. Porque para mim isso nunca foi um objetivo mor de vida. Mas aconteceu, foi inevitável. E claro que foi difícil colocar na minha cabeça que eu tinha um namorado e não havia nada de errado nisso. Porque o conceito “namorado” sempre me deu agonia e, da maneira que me foi posto a vida inteira, fez parecer que era o princípio para a perca da minha vida em prol de viver a vida de outra pessoa. Sempre me pareceu algo mais aprisionador do que libertador, mais difícil e ruim do que prazeroso e benéfico e, Zeus, como eu estava errada.

Namorar é difícil sim, porque é uma pessoa inicialmente aleatória que DE REPENTE se torna mega importante e você passa a considerar tanto quanto considera a sua família. E todas as decisões da pessoa, tudo que ela sente, tudo pelo qual está passando, tudo que acontece na vida dela, de alguma forma passa a refletir na sua. E ficar longe é automaticamente dolorido, ruim e ineficaz. E não importa quanto tempo você fique perto, vai parecer insuficiente. E é difícil as hell deixar uma pessoa aleatória invadir a sua existência até então pacífica, tranquila e muito-bem-obrigada. Mas é bom. É divertido. É leve. É feliz.

Eu vim fazer um texto de dia dos namorados não porque torço para que todo mundo tenha um namorado logo e condeno os que não querem ter. Vim só porque eu estou feliz, bem, tranquila, minhas notas estão boas, minha vida tá cheia, as crises estão diminuindo e o universo mesmo sendo, frio, sombrio e cinza, parece bonito e iluminado. Então, é isso. Parece que uma hora ou outra até as coisas que a gente nunca viu sentido (a.k.a dia dos namorados!)  passam a transmitir coisas agradáveis. E nem falo isso só porque ganhei um presente bacana, quero dizer, o presente foi ótimo, mas não seria tão bom se o resto fosse uma merda. E me surpreendo comigo mesma todos os dias em saber que não é.

Sendo lindos e divos, pfvr. <3

~~Claro que parte de estar namorando de um jeito divertido corresponde ao fato de a outra pessoa ser tão retardada quanto eu (oi, Willian) e é por isso que a gente ri da nossa cara toda vez que se encontra, postando selfies no nosso tumblr inteiramente dedicado a isso! #fikdik~~

Daqui Ninguém me Tira

Eu voltei. Pro Brasil, pra Curitiba, pra minha casa, pra minha vida.

O Paquistão fez alguma coisa comigo e de repente eu acordo saltitante às seis da manhã e me dou o trabalho de escolher uma roupa para ir até a faculdade. Volto para casa e ao invés de dormir procuro algo para fazer e se não encontro me disponho a ler os textos da aula que vem. Não liguei o computador durante a semana para nada. Tenho uma conta no facebook, mas nunca consegui ficar mais de quinze minutos lá. Quando penso em deitar na minha cama e assistir alguma das séries que estou atrasada fico com sono e angústia porque poderia gastar esse tempo lendo algum dos quarenta e tantos livros não lidos da minha estante. Eu como o prato feito para todo mundo ao invés de comer o que a minha mãe fez de acordo com as minhas frescuras. Eu saio de casa sozinha sem me importar com o meio de transporte ou o que deverá ser feito. Eu me sinto leve, destemida e sumariamente feliz, mesmo mantendo os ataques de raiva costumeiros. Eu tenho um namorado. E eu gosto de carnaval.

Talvez seja o gênio que trouxe na minha lâmpada mágica, a síndrome de Aladdin que não sai nunca, o jet lag que nunca acaba e a falta benéfica de comer chocolates, ou talvez eu simplesmente tenha mudado. Não importa, podem abrir as alas que eu estou passando.

Mosca Morta

Nunca me esforcei pra nada. Minha vida inteira consistiu em pensar, ter ideias legais, falar para a minha mãe e, quando viável, concretizá-las. Nunca precisei correr atrás de algo para conseguir, tudo sempre foi fácil demais e nunca exigiu esforço. Minha família me chama de “mosca morta” no mínimo uma vez por dia. Eles saem e chegam em casa e sabem que se eu estiver por lá estarei em minha cama, lendo, dormindo ou assistindo a algum seriado. A pia pode estar cheia de louça e os lixos do banheiro repletos. A hora da refeição pode ter passado e a do banho também. A sede com certeza foi suprimida pela preguiça de levantar e pegar um copo de água e qualquer pensamento que envolva levantar da cama é seguido por um mar de outros pensamentos que dizem “você pode fazer isso depois, o livro está legal agora”. E enquanto isso sua mãe grita desesperadamente por ajuda para estender as roupas. Seu pai precisa de ajuda para tomar banho. Seu irmão quer ajuda para guardar as compras. Eu só respondo “não posso”. E sim, várias vezes que eles perguntam os motivos eu digo “estou com a mão no bolso”, “tenho que dormir”, “ah, vou estudar agora”. Sou uma vergonha.

Os amigos ligam e marcam programas incríveis com semanas de antecedência, passo um tempão empolgada, mas na hora a cama está muito mais atrativa do que o universo e eu penso “posso vê-los depois, posso ir a esse lugar depois” e simplesmente continuo no meu marasmo costumeiro. Eu sei que, por mais que as pessoas nos amem e digam sentir nossa falta, todo mundo é substituível em absolutamente todos os quesitos e, se nos afazeres domésticos minha mãe me substitui, sei que em todo o resto alguém também irá. Sei que por mais que eu pareça significante, ninguém de fato é. Todo mundo é capaz de sobreviver com a falta do outro, mesmo que no começo pareça impossível. Não vejo motivos para tentar. Não vejo razões para levantar da cama e fazer algo, se ali eu tenho acesso a todos os universos que quiser e ainda posso viver dormindo. Minha vida perfeita consiste em meu quarto com cortinas fechadas, meus edredons, meu computador, minha pilha de livros e um mol de chocolates. Tendo isso eu estou bem. No fim, minha mãe está certa, é muito fácil me agradar.

O psicólogo acha tudo isso um absurdo e ele passa horas, dias, anos tentando me convencer do contrário. Ele diz que é um absurdo que alguém tão inteligente, pensativo, criativo e com um potencial absurdo e um desejo abrupto de conhecer e explorar fique parado a vida inteira porque precisa encontrar um sentido pras coisas antes de fazê-las. Ele diz que eu tenho que parar de me importar com os sentidos e simplesmente ir. Quando eu vejo já pensei. Quando eu vejo já esquematizei tudo, racionalizei tudo, fiz listas, planos impossíveis e já cheguei à conclusão de que não. Não vai compensar levantar da cama hoje. Até que um dia ele me convenceu de que eu precisava ficar um tempo longe de casa. Longe da minha mãe que sempre faz tudo pra mim. A gente concluiu que eu precisava passar por uma experiência que eu dependesse de mim para sobreviver e que eu tivesse que sempre estar provando para mim mesma que eu consigo e que mesmo que não haja sentido nenhum, é muito mais legal ficar fora da cama.

Eu sempre quis acreditar nisso. Todas as viagens que eu fiz e todas as vezes que eu saio de casa com o intuito de fazer algo além da minha obrigação de todo dia, que é ir para a faculdade, é com o intuito de tentar descobrir que o mundo é legal, mesmo cheio de desgraças e que em meio a todo o mar de angústias, pessoas horríveis e coisas bizarras, existem as que valem apena. E existem. Eu sei que sim. Sei porque já vivi coisas incríveis com pessoas incríveis em lugares incríveis, mas tenho uma incrível dificuldade em acreditar que as coisas podem ser incríveis mais de uma vez. Faço a primeira e paro. Continuar parece chato e o simples fato de “parecer” me impede de continuar. Impedia.

Aqui eu não tenho escolha. Continuo a querer estar na minha cama e eu escolhi a pior cama da casa, justamente pra ver se conseguia ficar um pouco longe dela. Não consigo. Por diversas vezes eu invento desculpas e simplesmente fico dormindo. Eu me esforço. Levanto, coloco uma roupa e penteio os cabelos, faço cara de feliz e tento aproveitar e as vezes eu aproveito. Outras, tudo que consigo pensar é na cama que deixei para trás. Aqui eu não tenho muita escolha. Se eu não fizer as coisas por mim, sei que ninguém vai fazer. Procuro lugares para ir e encho o saco para me levarem, mas não sou o Sol nem da minha vida, quanto mais da dos outros. Não me é possível fazer nada sozinha, porque sair nas ruas sem um homem é um inferno, não que alguém faça algo de ruim, mas eles te olham como se você fosse um alien e eu, que já tive cabelos de todas as cores e já passei por muitas situações de gente-desconhecida-encarando e consegui chegar ao nível de não ligar, aqui me sinto um alien. Fico com vontade de me cobrir, me vestir como eles e fingir que sei falar urdu, só para me sentir um pouco mais confortável, só que não sei ser alguém sem ser eu, então sempre desisto da ideia. Quando estou sozinha, permaneço sozinha até que alguém apareça. Não quero atrapalhar as pessoas e, por favor, sozinha sempre há minha cama.

Eu não tenho um sonho definido da vida, algo como querer casar ou ser phD em algo muito emocionante, mas sonho em conseguir sair da minha inércia. Sonho em ter vontade de fazer as coisas. Em acordar empolgada para viver novas experiências. Sonho em continuar em movimento, mas em aprender a lidar comigo enquanto isso, ao invés de ficar enchendo o saco de pessoas que nada tem a ver com o que se passa na minha existência. Os afazeres domésticos são simples, realizo sem nenhum problema. As dores são lidáveis, mesmo que as vezes fortes o suficiente para me fazerem acreditar que não seria capaz de levantar nem se quisesse.

Nesse último mês eu juro que tenho tentado. Acho engraçado olhar as fotos do meu tal tumblr diário e ver a quantidade de vezes que eu saio de casa durante a semana. “Você está aí para isso”. Talvez. Mas para mim cada saída é uma vitória. Cada vez que eu consigo conversar com alguém mais de uma vez e que consigo entender um pouco o jeito que eles pensam sem achar completamente estranho me sinto um pouco melhor. Vários dos dias que eu saio é porque eu tenho vontade e vários dos dias que eu não saio é só porque não encontrei uma companhia, porque a vontade estava ali. Tenho conseguido sentir vontade. Tenho conseguido ser solícita e, de repente eu percebi que talvez não seja a pessoa horrível que sempre coloquei na minha cabeça que eu era e talvez o mundo não seja tão horrível quanto eu sempre achei que era, afinal eu estou no ~~Paquistão~~ há mais de um mês e ainda estou viva. Eu estou viva e mesmo que aqui, neste momento, meus sentimentos e opiniões e vontades não signifiquem muito, eu finalmente descobri que eles existem. Eu finalmente descobri muitas coisas que sempre estiveram ali e eu me recusei a perceber porque sou tão cega quanto qualquer outro terráqueo. E descobri que pessoas podem gostar de mim, mesmo não sendo da minha família, me vendo todos os dias e percebendo cada um dos meus inúmeros defeitos. Percebi que elas não só podem como gostam e que em cada abraço de adeus e em cada abraço de consolo e de permanência é possível sentir que isso é verdade e se isso é verdade é porque não sou o monstro que sempre achei ser. Só preciso descobrir quem eu sou de fato. Ou não preciso, talvez eu possa deixar isso pra lá e simplesmente – finalmente – viver e fazer meu psicólogo engolir o pensamento de “você dormiu tanto que só deve ter vivido por cinco anos”, talvez eu possa não dormir. Talvez eu possa realmente crer que é em mim que devo crer. De repente a mosca começou a mexer as perninhas e está naquele estágio de quase-renascência. Um dia talvez ela voe. Espero que voe. Eu finalmente estou tentando. E dessa vez não pretendo parar.