O tal do “Espírito Olímpico”

De onde vieram e o que são as Olimpíadas?

      A gente ouve muito por aí que as Olimpíadas vieram da Grécia Antiga, mas não entende muito bem. O fato é que desde cerca de 700 anos antes de Cristo, os representantes das cidades-estado gregas se reuniam para realizar competições de esportes diversos. Era uma coisa pequena e restrita ao país, que perdurou até entre 300 e 400 anos depois de Cristo. Depois disso, houve uma tentativa francesa, da época da Revolução, em reinstaurar os jogos, mas fracassou. Somente em 1896 as Olimpíadas tornaram a ocorrer, dessa vez, em proporções bem maiores. em 1890 fora fundado o Comitê Olímpico Internacional, pelo Barão Pierre de Coubertin, que desde então é responsável por organizar os jogos.

    Atualmente, os Jogos Olímpicos possuem vários desdobramentos. O primeiro deles é a divisão entre jogos de inverno e jogos de verão. Os de inverno contam com a participação dos mais diversos esportes que dependem da neve e do tempo frio para sua realização. Já os jogos de verão, contam com esportes que podem ser praticados independente da condição climática, e alguns que dependem do calor – como o vôlei de praia, e esportes aquáticos a céu aberto. Os jogos ocorrem sempre nos anos pares, de forma revezada. Assim sendo, há Olimpíadas de 2 em 2 anos, porém apenas de 4 em 4 ocorrem as da mesma categoria. As Olimpíadas de verão são maiores e mais populares que as de inverno.

      Há também as Paraolimpíadas, realizadas logo após os Jogos tradicionais. Elas contam com diversas categorias esportivas, restritas a atletas que possuem deficiência visual e física – os atletas com deficiência mental ou auditiva não podem competir. Há ainda os Jogos Olímpicos da Juventude, realizados com atletas adolescentes.

      Todas essas categorias são organizadas pelo mesmo comitê, com o auxílio de Comitês Olímpicos Nacionais e comissões organizadoras de cada especificidade dos Jogos Olímpicos.

    Há mais de 13 000 atletas envolvidos com as Olimpíadas e eles disputam em cerca de 33 modalidades diferentes, proporcionando uma média de 400 eventos esportivos. Neste ano, há 207 países participando dos Jogos Olímpicos, que estão sendo realizados no Rio de Janeiro, entre os dias 05 e 21 de agosto. 

Minha relação com os Jogos no Brasil

      Em 2007 foi realizado o primeiro grande evento esportivo no Brasil, o Pan-Americano. Eu tinha 12/13 anos na época e assisti a várias modalidades, torcendo bastante para o Thiago Pereira, na natação. Desde as Olimpíadas de Atenas, em 2004, que eu tinha percebido gostar bastante desses eventos que envolvem vários esportes. Eu nunca fui uma boa esportista, principalmente por causa da artrite, mas gosto bastante de assistir. Não gosto do fato de que o futebol masculino é superestimado e acaba sendo o único esporte que os brasileiros acompanham visceralmente. Principalmente porque eu nunca consegui gostar de futebol – apesar de saber o que é a regra do impedimento. Eu considero o campo muito grande para poucos jogadores e a partida longa demais. Raramente consigo assistir a um jogo inteiro. Então, sempre me deu uma angústia a existência da Copa do mundo e o patriotismo que ela despertava, porque futebol é chato e a Seleção brasileira desvia muita grana dos nossos impostos, pra financiar atletas que já recebem salários exorbitantes de seus próprios clubes. Enfim, não gosto e boicoto futebol há um bom tempo.

      Aí ter acesso a eventos esportivos que ultrapassam as barreiras do futebol é uma coisa bastante emocionante para mim. A partir desse Pan-Americano e da percepção de que eu realmente gostava desse tipo de evento, passei a assistir com mais ênfase às Olimpíadas. A abertura de Pequim, em 2008, foi a coisa mais bonita que eu havia visto até então. Eu não fazia ideia de que existiam tantas etnias na China, tantas tribos e línguas diferentes e ver toda a harmonia daquela apresentação me deixou bastante empolgada. Acompanhei o Brasil nos jogos, aprendi regras de esportes até então desconhecidos e percebi que eu não me importava mais se era o Brasil ou não, porque o esforço dos atletas havia passado a me encantar, independente de onde eles tenham vindo. Em 2012 eu acompanhei com menor ênfase aos jogos, mas achei a cerimônia de abertura bem mais fraca do que a Inglaterra poderia ter feito. Quando vi que teria Olimpíadas no Brasil, quis ser voluntária. Pensei no quão legal seria estar no Rio passando rodo na quadra de Vôlei, ou mantendo a arena de ginástica sempre organizada. Acabei não me atendo aos prazos e perdendo a oportunidade.

      Fiquei bem chateada quando vi que a crise política do país ia afetar as Olimpíadas. Eu entendo perfeitamente que não é o melhor momento para sediarmos os jogos, mas isso foi decidido há anos e não fazia sentido boicotar o evento agora. Não realizar as Olimpíadas seria jogar o esforço de 11 000 atletas no lixo, só porque nós não sabemos administrar o nosso dinheiro e somos péssimos eleitores. Eu fiquei descrente ao ver que a Vila Olímpica foi entregue sem ter sido terminada. Porque não faltou tempo ou dinheiro para que ela fosse. O que faltou foi responsabilidade e honestidade de construtoras irresponsáveis. Quando eu vi o nome da Odebrecht no meio, só fiquei mais chateada. Parece que o Brasil realmente prefere não aprender com os próprios erros.

      Eu torci para que a abertura dos jogos fosse bonita e inspiradora. E me decepcionei um pouco, graças aos inúmeros erros arqueológicos na parte de contar a história do povoamento do país. Fico bastante triste quando reduzem a povoação indígena – que comprovadamente tem mais de 8 000 anos – ao povo tupi guarani que ocupava as terras pré-cabralinas. Também não fico contente quando ouço falar que houve “escravização africana“, sem que fique claro de quais países e para atender quais interesses esses negros vieram. E acho que se a intenção era mostrar que o país é miscigenado, construído por imigrantes e através da supressão da natureza, faltaram vários outros imigrantes. E vários outros fatores. É muito bonito passarem a mensagem de sustentabilidade, mas é absurdamente incoerente com as práticas nacionais. Os últimos governos permitiram o desmatamento, criaram hidrelétricas em locais que destruíram não só etnias indígenas, como rios e vegetações inteiras. As grandes propriedades improdutivas seguem à rodo, a poluição das fábricas, o desastre de Mariana até hoje não foi solucionado. Para a realização das Olimpíadas uma onça foi morta, uma floresta foi desmatada e a Baía de Guanabara sequer foi totalmente limpa, sendo ainda considerada tóxica pela ANVISA. 

     Apesar dessas questões, gostei bastante da abertura. Utilizamos muito bem os recursos que tínhamos e fazer o 14 Bis voar foi incrível. Os jogos de luzes foram muito bem explorados, as atrações bem escolhidas e meu coração se encheu de orgulho ao ver Mc Sophia ao lado de Carol Conká sendo vistas por 5 bilhões de pessoas. Fiquei com bastante orgulho das artes brasileiras e da criatividade. Achei a “gambiarra” um ótimo ponto de partida e bastante bem explorada. Gostei de ver passistas do carnaval participando da festa. Senti falta de Chico Buarque e espero que ele não tenha participado por boicote ao Temer e, inclusive, achei incrível o fato de o presidente não ter sid mencionado em nenhum momento, fazer uma rápida aparição e receber vaias. Porém, eu esperava manifestações maiores em relação a isso. Mas entendo que as Olimpíadas tenham a premissa de serem politicamente neutras.

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      O aspecto de união que as Olimpíadas agregam ficou bastante evidente. Todos os países desfilaram, alguns com roupas tradicionais, outros portando a bandeira brasileira além da própria e todos visivelmente felizes. Há delegações com um ou dois atletas. Há delegações inteiramente femininas e outras inteiramente masculinas. Há pessoas de todas as etnias, religiões, línguas e construções sociais, históricas e políticas. E uma vez a cada quatro anos elas se unem, se abstendo de todas as diferenças, para praticar esportes. Eu acho isso sensacional! Toda vez que tem desfile de abertura, acompanho para ver quantos países eu sei o nome e quantos eu nunca tinha ouvido falar. Fico encantada com as vestimentas, principalmente as africanas, e a vontade de conhecer todos os países do mundo apenas aumenta. Quando a Olimpíada me proporciona histórias como a da equipe de Refugiados, a coisa fica ainda mais bonita. Eu nem sei mais colocar em palavras todo o sentimento que Rio 2016 está me causando. É claro que o desfile também ressalta desigualdades sociais, visto que dificilmente países pobres têm delegações de porte equivalente à dos Estados Unidos ou da China. Mas continua sendo incrível ver que, apesar das baixas condições, os atletas conseguiram a classificação e vieram.

      Certamente as Olimpíadas trazem e ressaltam uma série de problemas sociais, econômicos e políticos – não só do Brasil. Mas, ainda assim, é grandioso e sensacional que elas existam e sigam agregando tantas pessoas diversas em prol de um anseio comum. Esse evento acaba sendo a maior oportunidade de ver o mundo unido e em paz e isso deve, em absoluto, ser mantido, propagado e perpetrado.

     Tenho estado bastante ocupada, mas entre as ocupações arranjo tempo para ver algumas modalidades. Acompanho as notícias todos os dias e torço muito para que um dia a gente deixe de ser apenas o país do futebol e passe a ser o país dos esportes. Porque temos atletas incríveis nas mais diversas modalidades e todos eles precisam do mesmo valor que os jogadores de futebol têm. 

        Eu espero que as Olimpíadas continuem bonitas e emanando coisas boas e mensagens positivas para esse mundo que está cada vez mais nocivo. E espero que em breve eu consiga pensar em outras coisas, para voltar à programação normal por aqui.

Ódio do ócio, ócio do ódio.

Eu descobri com doze anos que odiava as pessoas. Todas elas. Eu não tinha a menor vontade de me misturar, porque todas eram inúteis e só iam servir pra um par de risadas e nada mais que isso. Por mais que eu goste de rir, expandir meu contato social só para obter este sucesso na vida sempre me incomodou. Aí eu comecei a fazer teatro e aprendi que devia tentar ser legal, mesmo que não fosse de verdade. Aprendi que na frente das pessoas eu tinha que colocar uma máscara feliz e divertida e “me jogar”, ser quem elas queriam que eu fosse e ponto final. Aprendi que sempre teria o meu quarto cor-de-rosa (que agora é branco) para abranger as minhas rebeldias sem sentido perante a vida e a não existência de algo que eu possa considerar como vida de fato. Aprendi que meu guarda-roupas estaria sempre bagunçado, mas jamais se compararia com meu chão e que minha estante de livros estaria impecável e catalogada, pois é meu método de tentar organizar a tal vida. Aprendi que eu ia conhecer cerca de meia dúzia de gente que ia me fazer sentir a vontade o suficiente para arrancar a tal máscara e mostrar que ei, eu sou chata pra caramba, ok? E essas pessoas, mesmo com essa ciência, continuariam ali. Porque tem louco pra tudo nessa vida.

Nunca aprendi a sobreviver ao ócio. Aos feriados e às férias. Sempre as passei perto de minha prima, que me aturava durante todas as madrugadas, às quais eu jamais dormia. Porque é muito mais legal ficar acordado e interagir quando todo o mundo está em repouso, quando você não precisa se esforçar, pentear o cabelo ou fazer as olheiras desincharem, simplesmente porque ninguém vai estar vendo. Tudo é mais fácil quando o escuro te protege. A claridade sempre me incomodou. Por isso o blackout do quarto fica fechado o dia inteiro sempre, menos quando eu saio e minha mãe abre pra “entrar um ar”. As noites não dormidas ou dormidas e mal sonhadas ou dormidas e tão bem sonhadas que tornam-se péssimas puramente por serem irreais sempre foram minha parte preferida da existência. E é um absurdo que eu seja obrigada a desperdiçá-la dormindo durante a maior parte da minha vida. É por isso que, amante da madrugada, odiante de pessoas, convivência, intimidade, relacionamentos e claridade, madrugadas de feriados e fins de semana tornaram-se minhas preferidas. Mesmo sem a minha prima. Mesmo sem as conversas sem sentido e sem olhos nos olhos. Porque agora eu canalizo todo o meu ódio em músicas violentas e escrevo coisas absurdas enquanto me imagino socando todas as pessoas que odeio e é incrível como a lista de pessoas e lugares que eu odeio crescem a cada dia. É quase uma função exponencial e pra eu ser capaz de me lembrar o que é uma função exponencial é porque ando muito irritada. É isso. Eu ando irritada. Explosiva. Estressada. Com vontade de pegar uma metralhadora e sair por aí lavando o mundo em sangue. Porque é tudo muito errado. Tudo muito irrelevante. Tudo muito pra nada.

Dezenove anos. Inconstância. Preguiça. Malemolência. Vontade de retornar aos hábitos de cidade de interior e visitar o cemitério só para poder correr e gritar sem parecer maluca. Vontade de pular da janela só pra ver se aprendo a voar. Vontade de fugir. Pra qualquer lugar. Pra fazer qualquer coisa. Algo diferente. Inconstante. Que não me irrite. Porque até chocolate me irrita. Porque até as lágrimas que insistem em aparecer pararam de ser benéficas e se transformaram em odiadoras e malvadas como todo o resto da minha essência. Porque ler me irrita e não ler me irrita mais ainda. Porque eu não consigo ver um filme inteiro sem ter vontade de explodir o idiota que inventou os filmes e não consigo passar dez minutos no computador sem querer explodir o débil mental que inventou essa merda. Porque não consigo respirar de olhos abertos por cinco segundos sem querer explodir o retardado que inventou essa coisa chamada “gente”.

Trilha sonora de Clube da Luta. Textos que eu queria muito poder não ler. Vontade absurda de não ter tendinite só pra poder bater em alguém, qualquer um. Nem que fosse pra sair na rua de pijama e dar um soco e voltar pra dormir tranquila. Busca por uma paz interior que aparentemente está mas que longe. Vontades e anseios que jamais serão realizados. Fuga. Síndrome de Supertramp mais atacada do que nunca. Vontade de achar um babaca qualquer pra me acompanhar em uma viagem de carro para o infinito, só pra eu ter quem xingar enquanto escuto músicas esquisitas e reclamo de cada micro-pedaço de cada micro-coisa que eu encontrar pelo caminho. Porque eu odeio novembro. Porque eu odeio fins de ano. Porque eu odeio fins. E odeio inícios. E odeio tudo. Inclusive você.

Amor

Queria saber quem foi que começou com essa história de que homem é machão e mulher é nada. Quem foi que inventou que homem sente prazer e vontade de copular a cada corpo que vê e mulher só quer saber de casar e ter dois filhos, numa grande chácara. Queria saber quem inventou que o homem deve agir de maneira x ou y para conseguir uma mulher e que a mulher tem a maneira w e z de dizer ao homem o que está querendo com aquilo tudo. Mas eu não sei nada disso.

O que eu sei é que tem muita mulher que sustenta o marido e mil filhos, que tem dois, quatro, seis empregos e que faz o possível e o impossível para se manter satisfeita consigo mesma e com aqueles que ama. O que eu sei é que mulher não é frígida a ponto de andar por aí e não observar corpos masculinos. O que eu sei é que muita mulher acompanha a bunda de homem, tanto quanto eles acompanham as nossas. E os pensamentos são os mesmos. Prazer carnal. O que eu sei é que mulheres passam tantas horas quanto homens conversando sobre aquela pessoa ali e o que ele faz ou deveria fazer. Sei que mulheres, que aprenderam desde criança a sempre ter uma confidente, não escondem nada para essa pessoa. Nem um dos mínimos detalhes. E que dão pitacos na vida alheia. E que quando a coisa é muito absurda é necessário compartilhar com o grupo inteiro, para várias opiniões, muito preparo psicológico e finalmente… o enfrentamento. O que eu sei é que mulheres possuem um órgão chamado clitóris, que já virou até motivo de documentário pelo fato de não condizer com a desculpa científica de que sexo só serve para reprodução. Porque o clitóris só serve pra prazer. E só as mulheres têm um órgão específico para isso. O que eu sei é que, muitas das mulheres que querem casar e ter seus dois filhos, antes deles elas pensam no marido, na vida casada e em fazer tudo isso só depois de ter adquirido certa independência. O que eu sei é que ninguém ensina pra gente com um manual passo a passo como agir ou se fazer entender em determinadas situações, a ponto de que o sexo oposto entenda x ou y. Porque nós não fomos criados como o sexo oposto. Fomos criados como nós. Só entendemos a nós, e muito porcamente.

O fato de haver uma diferença imensa na criação de meninos e meninas gera um turbilhão de problemas que nos assolam por toda a vida. Porque nem nossos pais se entendem por inteiro, por mais felizes que eles pareçam ao mostrar as alianças de sei lá quantos anos de casados. Porque meninos são criados para serem babacas dependentes em alguns quesitos enquanto meninas são criadas para ser babacas dependentes em outros quesitos. A ilusão de completude dá-se pela junção desses quesitos, ou seja, se o homem x é independente bem naquilo que a mulher é babaca, pronto.  Não tem nada a ver com o corpo, intelecto ou qualquer coisa assim. As pessoas se relacionam por puro utilitarismo. Por pura preguiça de tentar entender o outro. Então elas sentam e fingem que estão ouvindo, enquanto na verdade estão pensando que o menino x tem carro pra te levar na balada e que a menina z tem aqueles peitos que dá pra fazer aquela coisa que você viu no filme pornô. Porque meninos veem essas coisas com onze anos, enquanto as meninas estão aprendendo a lavar panelas e passar roupas. Em uma visão puramente racionalista, os relacionamentos são como uma enorme feira de escambo, em que o produto de troca é você. Você por inteiro, não só o seu corpo ou a sua mente. Você.

Só que em algum momento de todo o nosso desenvolvimento enquanto hominídeos, lá em uma das sei lá quantas espécies de australopithecus, talvez antes, talvez depois, nunca saberei quando ou onde, inventamos uma coisa chamada “amor”. Acredito que ele tenha nascido a partir da relação afetiva entre as fêmeas e suas proles, que se sentiam na obrigação de cuidar delas até que elas pudessem viver sozinhas. Quando veio a consciência de que o macho copulador também era responsável pela prole eu não sei. E também não sei como foi consolidada a ideia de família, mas acredito que não tenha tido nada a ver com o amor romântico.

O amor romântico, por sua vez, teria nascido – ou pelo menos tornado-se mitológico/ritualístico/tabu – quando já éramos homo sapiens. Quando já éramos descendentes de Cristo e não mais da Lucy. Porque Cristo é a representação mais tácita do amor, do comprometimento, da compaixão e de tudo que há de mais puro e bondoso no mundo. Não só porque ele era Filho de Deus, mas porque ele era humano. Ele não poderia amar se não fosse humano, vejam bem, o Deus do Antigo Testamento é cruel, maligno, destrói cidades e populações inteiras, basta você desobedecê-lo. Ele não vai te perdoar. Ele vai pisar em você. Jesus não. Jesus vai te acalentar, dizer que está tudo bem e que basta ele ser crucificado e perder todo o sangue por você que você será salvo.

Depois disso, a noção de amor sofre uma mudança drástica. As pessoas começam a achar que talvez os casamentos devam envolver mais do que trocas econômicas ou usuais, começam a pensar que talvez possa vir a existir esse sentimento que Jesus falou em todos nós, em diversos quesitos. E então elas denominam a explosão de hormônios, idealização excessiva, taquicardia e embrulho no estômago de “paixão” e dizem que se duas pessoas sentirem isso concomitantemente, estão condenadas a ser feliz por um tempo, mas que a felicidade eterna só viria caso a idealização sumisse e a aceitação diante dos erros e falhas (representantes da humanidade) aparecesse. E, de repente, não mais que de repente, o amor vira o maior tabu do mundo. O objeto mor de desejo de todas as pessoas.

Poucos ainda se interessam por se relacionar da maneira escambática comum até então. Agora eles têm a chance de amar. De encontrar no outro algo que desperte em você sensações únicas. E passam a vida inteira procurando isso. E constroem casas, carros, prédios, teorias, músicas, poesias, livros, pinturas e todos os outros tipos de arte baseando-se neste ideal. O amor torna-se a principal ilusão do homem. Aquilo que o impulsiona quando nada mais faz sentido. Porque se nada faz sentido, é porque você ainda não amou. Então surge o desespero ardente que não cessa de crescer na mente de todos os indivíduos por uma completude carnal instantânea, porque o amor nunca chega e o corpo precisa se manter vivo. E quando qualquer fagulha de algo que possa ser considerado amor aparece por perto, tudo muda. Tudo faz sentido, a luz no fim do túnel começa a brilhar, a esperança bate à porta e eu, você, nós, ficamos dias e dias esperando que a pessoa amada nos ame e que, se ela nos amar, a gente seja realmente feliz. Porque o único caminho para a felicidade é o amor. Porque o mundo se resume ao amor.

É só uma palavra, disse Mr. Smith para Neo. Uma palavra curta, de quatro letras, que os humanos insistem em encher de significados. Insistem em complicar. Insistem em sofrer por e em delegar a resolução de todos os problemas de suas vidas nisso. Mas nós, que não somos Mr. Smith, nós que somos humanos sabemos que, tendo sido inventado ou não, sendo eficaz ou não, existente ou não, quando qualquer coisa semelhante a isso aparece, nosso chão some, não sabemos como agir, toda gota d’água vira um furacão, nada faz sentido e eu, tu, eles, nós voltamos a buscar o escambo, com a ilusão de um dia talvez transformá-lo no tão adorado sentimento chamado “amor”.

Catálogo

Um rosto sorridente, mil e um status toscos que representam felicidade ou referências ou uma vida repleta de boas companhias e bons momentos. Noites de angústia. Solidão. Vontade de estar cada vez mais perto de todos aqueles com os quais temos contato apenas virtualmente. Vontade de tato. De afeto. De atenção verdadeira e não apenas curtidas em cada um dos seus status, ou tweets favoritados, ou comentários em textos. Atenção de conversa, de olho no olho, de encontros e desencontros, de desabafos, de angústias compartilhadas, de não ter vergonha da podridão contida em cada um de nós.

Foi-se.

Somos de carne e osso, mas nos mostramos como um rol de aura brilhante e purpurinada que sorri e saltita durante as vinte e quatro horas do dia. Enquanto nossos sonhos se esvaem devido à cada vez mais difícil possibilidade de realização. Enquanto nossas fronhas se molham a cada dia um pouco mais antes que a gente pegue no sono e se digne a sonhar novamente. Enquanto lemos ou assistimos qualquer coisa a fim de entrar em contato com uma realidade melhor que a nossa. Enquanto sofremos de uma insatisfação imensa, mas olhamos uns nos olhos dos outros e sorrimos. Sorrimos, fugimos, tentamos parecer que está tudo bem, vamos embora, voltamos e continuamos a ser fotos em redes sociais alheias. Continuamos a ser palavras ditas e não ditas, vontades realizadas e não realizadas, solidão completa e incompleta. Gente que mais parece de catálogo.

Jogados todos os dias a um mar de imagens perfeitas, feitas por gente que acredita que devemos ser perfeitos e estar sempre satisfeitos com tudo, acabamos por engolir todas as referências e tentar, fracassadamente, reproduzi-las. Sem saber lidar com as frustrações, os erros, as angústias e os dias ruins, qualquer coisa vira o fim do mundo. A gota d’água que faltava para o maremoto acontecer. Deprimimo-nos e temos vontade de morrer porque não conseguimos enxergar resoluções. Não temos a quem recorrer para novas perspectivas sobre as tais resoluções. Sofremos calados. Sofremos. O tempo todo. Por qualquer coisa.

E sorrimos nas fotos do Instagram. E fazemos parecer que a vida é cor-de-rosa, mesmo em momentos cinzas.

Porque insatisfação é chato. Porque gente assim é chata. Porque se já não é fácil conviver, imagine se você não tiver o sorriso de catálogo. A aparência que todos esperam. Os sonhos comuns. Os desejos comuns. Imagine como seria se você só quisesse saber de dormir e de reclamar do fato de não conseguir fazer nada além dormir, sonhar, acordar, escrever e reclamar para qualquer um. Porque se sair dos padrões já irrita, reclamar irrita ainda mais e reclamar do fato de reclamar tanto é o mesmo que pedir para ser eternamente sozinho. Porque enquanto você esperneia sobre sua unha quebrada, ou sobre seu câncer terminal, vai ter outra pessoa mais interessante e bonita, sorrindo e dizendo que a vida é linda. E é claro que ela vai ser mais interessante e fácil de lidar. E em um mundo catalogado ninguém escolhe o que é difícil.

Em um mundo catalogado, qualquer sinal de defeito já é motivo para mandar devolver o produto. Sempre haverá algo mais atrativo e barato no catálogo do lado, mesmo que tudo pareça igual, vai ter aquele detalhe diferente e talvez seja justo esse detalhe que faça a coisa funcionar. Ninguém está interessado em comprar peças para reparar os produtos estragados, afinal, os novos são mais arrojados e é mais garantido que funcione. A gente não precisa de coisas eternas, precisa de coisas funcionais. Não precisamos construir nada, já está tudo ali. É só pegar. Só entrar no jogo. Só fingir junto. Só ir.

Ninguém precisa saber que o travesseiro vai estar manchado de lágrimas ou que você gastou uma fortuna em remédios para conseguir lidar com a vida – que nem deve ser difícil, mas está fora do planejado, vira encruzilhada, você não sabe lidar e não vendem vidas novas nos catálogos ainda. Ninguém precisa saber que você vai se olhar no espelho e se achar horrível. Ou que você vai dormir com pelúcias ou que vai ler realidades paralelas para alimentar a vontade de ter uma vida mais lidável em algum momento. Ninguém precisa saber das dificuldades da sua encruzilhada.

É muito mais interessante se você estiver sorrindo e escrevendo sobre como a vida é, ou pode vir a ser, bela.

E quando um corajoso demonstra que está triste, que não sabe mais o que fazer e que gostaria de morar em outro planeta. Quando alguém coloca uma foto chorando ou em alguma situação de vulnerabilidade ou escreve um texto sem medo de reclamar do que estiver afim, causa um estranhamento terrível. E isso causa interação também, porque as pessoas gostam da sensação de que não estão sozinhas no mundo, mesmo se sentindo assim o tempo inteiro. Elas gostam de ver que não são as únicas a sofrer por besteiras e acabam por super-valorizar histórias e pessoas baseando-se nisso. Só que, enquanto a alegria pode permanecer por meses e meses sem nenhum descrédito, a tristeza e o sofrimento têm data de validade. E quando elas vencem, viram produtos abandonados nos tais catálogos, aqueles que ninguém compra ou dá atenção, então caem em desuso e a pessoa se sente coagida a voltar a sorrir e a postar fotos e textos de seu mundo colorido. Cada vez mais catálogo. Cada vez mais comum. Cada vez mais produto de um meio em que pouco se produz, porque tudo é reproduzível. Apenas mais um num álbum de produtos. Eu e você.

Quereres

Queria saber o que há de tão fatídico nesse universo em que se encontra essa pessoa que acabo por chamar de “eu”. Queria saber o que faz com que a grama de todo mundo seja mais verde do que a minha e que até uma formiga consiga apreender um pouco de felicidade maior do que o pouco que eu acato para mim. Queria entender como é que as pessoas se satisfazem com tão pouco ou com nada e como é que algumas se deixam cegar tão fielmente por ideologias baratas. Queria entender como é que tem gente que consegue sair por aí e ser quem tá com vontade e falar com quem quer e ser absolutamente segura de sua existência. Queria ser como essas pessoas que acordam todo dia seguindo um plano utópico de futuro traçado desde que nasceu, no qual vai estudar, trabalhar, casar e depois morrer. Queria conseguir me contentar com todas as coisas que a modernidade diz que a gente tem que se contentar com. Queria ter alguma dessas disfunções modernas que acabam por aumentar sua popularidade, mas é claro que só chego perto das disfunções destrutivas e que afastam pessoas. Queria conseguir não afastar pessoas. Queria conseguir me contentar com elas serem do jeito que são, sem esperar mais do que isso. Queria poder dormir sabendo que todo o amor que distribuo às pessoas que considero aptas a tal, me é retribuído de alguma forma. Porque muito amor mata a gente tanto quanto amor nenhum. Porque amor deveria ser a coisa mais recíproca do universo. Porque deveria ser proibido que eu e tantas outras pessoas fossem dormir após mais uma desilusão, a cada santo dia. Porque o universo é tenebroso, porque a gente não tem planos ou tem, mas eles nunca se cumprem. Porque você vai dormir e quando acordar os professores vão ter apanhado na rua enquanto estavam apenas lutando por um salário melhor, porque trabalham como condenados em uma coisa super importante e recebem menos da metade do que deveriam. E de repente o mundo se infesta de seres humanos pérfidos, cruéis e mesquinhos, que na sua idealização infantil deveriam simplesmente não existir e você começa a assistir ficções científicas e rezar para que, de alguma forma, algum daqueles super heróis apareça ou alguma daquelas distopias vire realidade, porque em um mundo tão cruel, é melhor que o cume da crueldade chegue logo, para que depois as coisas voltem a ficar mais brandas. Eu queria que nossa vida seguisse um roteiro pré-estabelecido, como se fosse um filme. Queria que a gente pudesse errar e não se sentisse absurdamente terrível por isso. Queria que julgássemos menos e fôssemos menos julgados. Queria que soubéssemos respeitar e tolerar. Queria que a gente conseguisse lidar melhor com as coisas que não giram ao nosso redor. E queria que a gente lidasse melhor com as que giram também. Queria que todo mundo tivesse um mar infindável de boas lembranças, a ponto de ser difícil escolher caso seja necessário fazer um patrono. Queria que todas as famílias fossem estáveis e que a gente realmente pudesse recorrer a elas caso nada desse certo. Queria que a lenda do amor fosse real, para que o romantismo também fosse e fizesse um pouco de sentido. Queria que as pessoas fossem mais coerentes com aquilo que acreditam, ao invés de inventar novas crenças somente para se encaixar em padrões alternativos. Queria que as pessoas conseguissem desprender-se umas das outras quando fosse necessário, sem que ficasse um clima de ressentimento pairando no ar. Queria que o mundo fosse bom, que nem na música do John Lennon. Perfeito não, perfeição cansa, mas eu queria que ele fosse lidável. Queria que a gente simplesmente soubesse como contornar com cada uma das situações e sentimentos que nos aparecem e que nunca ocorresse nenhuma injustiça e que ninguém se sentisse tão sozinho e miserável como eu me sinto na maior parte dos meus dias.

Que essa chuva lave um pouco do meu desespero, carência, pedantismo e dramatização. Que se misture com minhas lágrimas que não cansam de esparramar-se e fundem uma pessoa mais bem preparada para encarar esse universo real, que não é perfeito, não é bom, não é lidável, mas é o que temos pra hoje.