O rei das mudanças

          Dia 11 de Janeiro ficará para sempre marcado como um dia triste, pois foi nele em que o rei do Rock Glam deixou o plano terrestre em que habitamos e foi sabe-se lá para onde. Há apenas três dias, David Bowie havia lançado seu 25º álbum, intitulado “Blackstar” e faleceu antes de ter tempo para receber o prestígio adequado pelo trabalho incrível.

          O cantor tinha uma brilhante carreira, que já contava com 47 anos, se contarmos seu início a partir do lançamento de seu primeiro CD (“Space Oddity“). Bowie ficou famoso por seu estilo único, que revolucionou não apenas a música, mas também a moda. Desafiando os limites de gênero desde sempre e trazendo questões existenciais e reflexivas para a cultura pop, o britânico encantou e fez parte da vida de muitas pessoas no decorrer deste período.

          Há dezoito meses, porém, ele lutava contra um câncer, que o venceu nesta madrugada. A doença não era pública e, devido ao lançamento recente do último álbum, sua morte pegou fãs, revistas e sites de notícia de surpresa, fazendo com que todos começassem a segunda-feira um pouco mais tristes.

          Sua música, irreverência e glamour vão deixar saudades e as marcas na nossa sociedade já são visíveis. Nunca esqueceremos dessa pessoa incrível e de sua música que muito nos emociona e impulsiona a sermos pessoas melhores. Para mim, Bowie sempre foi uma inspiração de auto-superação e esteve ao meu lado em todos os momentos difíceis, mostrando que eu conseguia e que tudo que eu buscava estava em mim mesma, bastava que eu me permitisse enxergar isso. Nunca vou esquecer este camarada.

          Como ele mesmo diria “o tempo pode nos mudar, mas nós não podemos enganar o tempo” e é assim que a morte chega, mansa e terna e nos leva para outros caminhos. Resta-nos aceitar e continuar a deixá-lo vivo em nossas mentes e corações, através de sua música transformadora.

          Vá em paz, querido.

*Aqui você pode ouvir as músicas/ver os clipes deste grande mestre da música.

Freddie Mercury.

Tyler Durden pergunta: se você tivesse que escolher qualquer pessoa, viva ou morta, para lutar contra, com quem você lutaria? Gandhi. Resposta mais óbvia possível. Mas a questão é que a pergunta não deveria ser essa e sim com qual pessoa viva ou morta você jantaria. Freddie Mercury, resposta nem tão óbvia e tão pouco desnecessária.

Exite uma grande diferença entre ouvir uma música e ouvir uma música. Quando você ouve a música, mas só escuta o que as letras estão falando ou só está se entretendo com a sincronia da melodia, a coisa não funciona. Músicas são pequenos universos e você precisa entrar dentro deles pra conseguir entender. Porque na música, tá uma alma precisando ser compreendida. E o fato de milhares de pessoas por algum motivo doentio se identificarem com a mesma falta de compreensão almística prova a existência de um inconsciente coletivo (jung you genious).

O fato é, pra música ser um universo ela não pode estar acontecendo apenas na cabeça de quem escuta, mas sim com a certeza de que também estava acontecendo na cabeça de quem a fazia. E é absurdamente impossível ouvir qualquer coisa desse maldito desse Freddie Mercury sem sentir a alma dele fervendo lá dentro.

Há algum tempo eu decidi que minha música preferida da vida era Bohemian Rhapsody. Não porque eu sabia a letra de cor, mas porque a letra ME sabia de cor. Porque aquela música fala de mim mais do que muita gente é capaz de entender e porque eu falo muito mais através daquela música do que tudo que eu quis dizer em todas as vezes que escrevi aqui. Porém, no entanto, todavia, eu precisei que o dia de hoje acontecesse para que eu finalmente viesse a entender que:

Eu não entendo porra nenhuma. E que isso não importa. E que não importa o quante eu tente entender ou racionalizar no mundo. Bohemian Rhapsody pode ser ouvida por todas as pessoas do universo e ser cantada em voz unissona e eu não vou sentir ciúmes. Porque sei que ela ainda vai continuar sendo minha e ninguém nunca vai conseguir roubar.

Porque o que acontece aqui, dentro da minha pressão interna, do meu universo particular e na batalha com os meus fantasmas, caveiras, espíritos e demônios, só eu vou saber. E não tem problema nisso. Porque é assim que tem que ser. Eu precisei chegar aqui pra dizer que descobri o sentido da vida e o sentido é: ela não tem sentido nenhum.

Obrigada Freddynho, não te conheço, mas nunca vou te esquecer.

BEDA #17 Temos uma Música!

Creio que faça sete meses que começamos a namorar. A incerteza em relação a isso se dá pelo fato de que não conseguimos entrar num consenso sobre o dia em que começamos. Quer dizer, o dia em que percebemos e acordamos o relacionamento dá para pesquisar em alguma rede social, mas o dia pouco diria sobre a relação em si. Bom, se não conseguimos saber nem quando começamos a namorar, claro que não tínhamos uma música. Mesmo porque, eu, noob como sempre, não faço ideia de pra que isso serve. Ontem, porém, encontramos uma música que é a nossa cara  (e a gente nunca concorda em musical terms) e agora, tã-dã: temos uma música!

Ódio do ócio, ócio do ódio.

Eu descobri com doze anos que odiava as pessoas. Todas elas. Eu não tinha a menor vontade de me misturar, porque todas eram inúteis e só iam servir pra um par de risadas e nada mais que isso. Por mais que eu goste de rir, expandir meu contato social só para obter este sucesso na vida sempre me incomodou. Aí eu comecei a fazer teatro e aprendi que devia tentar ser legal, mesmo que não fosse de verdade. Aprendi que na frente das pessoas eu tinha que colocar uma máscara feliz e divertida e “me jogar”, ser quem elas queriam que eu fosse e ponto final. Aprendi que sempre teria o meu quarto cor-de-rosa (que agora é branco) para abranger as minhas rebeldias sem sentido perante a vida e a não existência de algo que eu possa considerar como vida de fato. Aprendi que meu guarda-roupas estaria sempre bagunçado, mas jamais se compararia com meu chão e que minha estante de livros estaria impecável e catalogada, pois é meu método de tentar organizar a tal vida. Aprendi que eu ia conhecer cerca de meia dúzia de gente que ia me fazer sentir a vontade o suficiente para arrancar a tal máscara e mostrar que ei, eu sou chata pra caramba, ok? E essas pessoas, mesmo com essa ciência, continuariam ali. Porque tem louco pra tudo nessa vida.

Nunca aprendi a sobreviver ao ócio. Aos feriados e às férias. Sempre as passei perto de minha prima, que me aturava durante todas as madrugadas, às quais eu jamais dormia. Porque é muito mais legal ficar acordado e interagir quando todo o mundo está em repouso, quando você não precisa se esforçar, pentear o cabelo ou fazer as olheiras desincharem, simplesmente porque ninguém vai estar vendo. Tudo é mais fácil quando o escuro te protege. A claridade sempre me incomodou. Por isso o blackout do quarto fica fechado o dia inteiro sempre, menos quando eu saio e minha mãe abre pra “entrar um ar”. As noites não dormidas ou dormidas e mal sonhadas ou dormidas e tão bem sonhadas que tornam-se péssimas puramente por serem irreais sempre foram minha parte preferida da existência. E é um absurdo que eu seja obrigada a desperdiçá-la dormindo durante a maior parte da minha vida. É por isso que, amante da madrugada, odiante de pessoas, convivência, intimidade, relacionamentos e claridade, madrugadas de feriados e fins de semana tornaram-se minhas preferidas. Mesmo sem a minha prima. Mesmo sem as conversas sem sentido e sem olhos nos olhos. Porque agora eu canalizo todo o meu ódio em músicas violentas e escrevo coisas absurdas enquanto me imagino socando todas as pessoas que odeio e é incrível como a lista de pessoas e lugares que eu odeio crescem a cada dia. É quase uma função exponencial e pra eu ser capaz de me lembrar o que é uma função exponencial é porque ando muito irritada. É isso. Eu ando irritada. Explosiva. Estressada. Com vontade de pegar uma metralhadora e sair por aí lavando o mundo em sangue. Porque é tudo muito errado. Tudo muito irrelevante. Tudo muito pra nada.

Dezenove anos. Inconstância. Preguiça. Malemolência. Vontade de retornar aos hábitos de cidade de interior e visitar o cemitério só para poder correr e gritar sem parecer maluca. Vontade de pular da janela só pra ver se aprendo a voar. Vontade de fugir. Pra qualquer lugar. Pra fazer qualquer coisa. Algo diferente. Inconstante. Que não me irrite. Porque até chocolate me irrita. Porque até as lágrimas que insistem em aparecer pararam de ser benéficas e se transformaram em odiadoras e malvadas como todo o resto da minha essência. Porque ler me irrita e não ler me irrita mais ainda. Porque eu não consigo ver um filme inteiro sem ter vontade de explodir o idiota que inventou os filmes e não consigo passar dez minutos no computador sem querer explodir o débil mental que inventou essa merda. Porque não consigo respirar de olhos abertos por cinco segundos sem querer explodir o retardado que inventou essa coisa chamada “gente”.

Trilha sonora de Clube da Luta. Textos que eu queria muito poder não ler. Vontade absurda de não ter tendinite só pra poder bater em alguém, qualquer um. Nem que fosse pra sair na rua de pijama e dar um soco e voltar pra dormir tranquila. Busca por uma paz interior que aparentemente está mas que longe. Vontades e anseios que jamais serão realizados. Fuga. Síndrome de Supertramp mais atacada do que nunca. Vontade de achar um babaca qualquer pra me acompanhar em uma viagem de carro para o infinito, só pra eu ter quem xingar enquanto escuto músicas esquisitas e reclamo de cada micro-pedaço de cada micro-coisa que eu encontrar pelo caminho. Porque eu odeio novembro. Porque eu odeio fins de ano. Porque eu odeio fins. E odeio inícios. E odeio tudo. Inclusive você.

Meu

É interessante analisar a tenuidade existente entre o exterior e o interior, dentro de nós mesmos. Sim, essa frase ficou estranha. O que quero dizer é que em basicamente todos os âmbitos que nos cercam, aquilo que aparentemente é nosso, na verdade não é. O que preenche o nosso interior, na maioria das vezes, é muito mais externo do que poderíamos imaginar.

Os sentimentos existem. A maneira com a qual lidamos com eles nos é socialmente construída e culturalmente ensinada. Acho essa escola muito falha. Nem a ciência, nem Shakeaspere e nem os maravilhosos gregos souberam nos explicar exatamente como agir em cada uma das micro-situações em que nos colocamos. E as vezes as caraminholas de nossas cabeças agem tão mais depressa que o mundo que nos cerca, que a ansiedade nos faz fazer coisas que jamais deveriam ser feitas e tudo que nos resta são lamentações por sobre coisas que ninguém sabe ao certo como conceituar e menos ainda como viver e sair ileso.

Aquilo que é meu nunca o é necessariamente. E mesmo que o casaco seja só meu ou que só eu utilize aquela calcinha, nada impede que um dia eu doe o casaco ou alguém use minha calcinha. O fato de algo parecer meu em algum momento, não o torna eternamente meu. Exclusivamente meu. Meu, de fato.

As histórias que a gente lê e considera nossas foram lidas por muitos outros que também as consideram deles.  E mesmo que uma pessoa jamais consiga ser exatamente a mesma para duas pessoas diferentes, ainda assim ela não é inteiramente diferente, única, só sua. Uma pessoa nunca é inteira e exclusivamente de ninguém.

A única coisa que pode ser nossa, é justamente aquela que mais nos assola e faz com que passemos dias e dias de nossas vidas tentando externá-la, encontrar uma outra solução não intrínseca e ficar apenas livres de. O sentir. Não o ato de sentir, isso todos fazem. Seja pelo tato ou pelo subjetivo, sentir é algo que até os micróbios devem ser capazes de fazer, mesmo que não tenham consciência disso.

A questão é que a leitura que fazemos dos nossos sentimentos é única. Ela depende de nossa vivência e ninguém tem a mesma vivência que outra pessoa, mesmo que seja irmão gêmeo e tenha frequentado os mesmos lugares a vida inteira, a maneira como um enxerga as coisas ainda vai ser um pouco diferente e a razão disso eu não sei, mas é assim que é.

A gente pode escrever páginas, dossiês, linhas, livros, coletâneas e o que mais quiser sobre os nossos sentimentos e ainda assim eles serão incompreensíveis. Tanto para nós quanto para terceiros. Se nem nós conseguimos colocar em palavras tudo que nos assola, como é que podemos mensurar toda a realidade que nos angustia e deixa malucos para uma outra pessoa, que provavelmente vai ouvir a história inteira e ter uma leitura completamente nada a ver sobre o fato vivido?

A gente pode rotular os sentimentos. Dizer que tal coisa é medo e aquela outra coisa é paixão, mas nunca vamos conseguir explicar a forma como o medo e a paixão se mostram para nós. Nunca vamos conseguir transpor em palavras exatas aquilo que tanto nos atormenta e isso vai nos deixar cada vez mais atormentados, porque o fato de não entendermos tudo que se passa com a gente nos deixa ainda mais temerosos, inseguros e atormentados.

A ilusão de posse sobre algo, mesmo que esse algo seja uma ideia de sentimento, uma ideia de pessoa, uma ideia – como na maioria das vezes o é, faz com que a posse se inverta. Enquanto primariamente a ideia é que a gente obtenha o controle sobre aquilo que possuímos, acabamos por nos envolver tanto que nos deixamos possuir. Objetificamo-nos. Perdemos a tão falada autonomia e viramos dependentes de pessoas, coisas, ideias, ideais e leituras idealizadas de sentimentos.

“A felicidade só é real quando se vive para outrem” disse Tolstoi e no decorrer do livro a gente percebe que não é bem assim que a banda toca, porque viver para outrem não necessariamente gera a completude e a dita felicidade que tecnicamente buscamos. E que buscamos, mas suportamos por apenas alguns dias e depois nos irritamos com o ato de estarmos felizes e procuramos defeitos e problemas em lugares completamente aleatórios, só para ter uma desculpa para continuar reclamando, continuar lutando, continuar vivendo. Afinal, qual é o ponto em viver feliz? A constância irrita. Não importa de qual sentimento seja essa constância. Nada importa.

E a cada dia que passa, cada história conhecida, momento vivido, lugar encarado e abraço sentido fazem-me entender menos ainda todo esse caos ambulante na qual estou inserida. Fazem minha vontade de existir diminuir cada vez mais, enquanto o ódio dilacerado pela existência da humanidade me possui, me conforta e me irrita. Ser malvada, assassina, temida, briguenta, um sonho. Hiper-sensibilidade, preocupação extensiva, sonhos bizarros que parecem tão reais que assustam, vontade de fugir, de recolher-se em si e só depois ir em busca a um abraço querido e apaziguador.

Síndrome de Supertramp, talvez. Culpa do Tolstoi, talvez. Ou minha, dessa cabeça impensante que tanto pensa, dessa necessidade abrupta de sentir e ser sentida, mas não se sentir apta para nada disso. Culpa? Por que é que alguém tem que ter culpa? É tudo meu. Minhas leituras sobre o mundo. Meu sentimento. Meu. Mesmo que eu não tenha nada.

Eu não sei pra que lado mas eu vou, tento tanto mas tão tonto perco o tempo e a direção. Percorrendo, assim, eu vou. Persistentemente em frente eu tento insistir em ir. Eu sou um otário! angustiado! A minha meta é vaga, infelizmente não dão vaga para quem vive só sonhando! Flutuando pela ciclovia num mundo de sonho e fantasia…