Stranger Things – Série de 2016 |Combo resenha + revisão

poster stranger things

Quem faz a série?

     Stranger Things é mais uma série original da rede de streaming de vídeos Netflix,  teve sua estreia mundial realizada no dia 16 de julho de 2016, contando com oito episódios de 50 minutos, em média, cada. A segunda temporada está prevista para estreia em 2017.

     Criada por Matt e Ross Duffer (conhecidos como The Duffer Brothers), a série conta com um grande elenco. Winona Ryder é Joyce Byers, David Harbour é o Chief Jim Hopper, Finn Wolfhard é Mike Wheeler, Millie Bobby Brown é Eleven, Gaten Matarazzo é Dustin Henderson, Caleb McLaughlin é Lucas Sinclair e Noah Schnapp é Will Byers.

Sobre o que se trata?

      A história se passa na pacata cidade de Hawkings, nos EUA, em algum ano da década de 80. Nessa época, as crianças se reuniam para brincar de jogos de tabuleiro, como Dungeons & Dragons. As músicas eram ouvidas em LPs ou fitas k7, nas quais eram realizadas diversas mixtapes. As câmeras fotográficas se utilizavam de filmes, que necessitavam ser revelados para serem vistos. As roupas e cabelos eram bastante diferentes dos nossos, assim como os carros, cinemas e outros espaços da cidade. A Netflix conseguiu captar muito bem todo o ar da década de 80 e transpor para essa série, que conta a história do desaparecimento de Will Byers e da busca de sua mãe Joyce, seu irmão Jonathan e seus três melhores amigos (Mike, Dustin e Lucas) por ele, sempre auxiliados pelo Xerife da cidade.

     O que poderia ser uma simples história de suspense e procura, acaba se misturando com artifícios fantásticos, a partir da inserção da personagem Eleven. Ela, uma garota estranha, de poucas palavras e um tanto deslocada, tem poderes telepáticos, sendo capaz de mover algumas coisas e destruir outras, fazendo uso da mente. Eleven é encontrada por Mike, que lhe dá abrigo e insere ela no grupo que buscava por Will. Surpreendentemente, ela demonstra ter informações privilegiadas sobre o desaparecimento do garoto e formas de encontrá-lo. 

       A série conta também com um núcleo adolescente, composto por Nancy, irmã de Mike, seu namorado e amigos. 

O que eu achei dela?

     A série cumpre muito bem sua proposta de homenagear os anos 80. Músicas populares na época, estilo de vestimenta, objetos bastante utilizados, mas, principalmente, referências. Filmes e livros são o mote da série, que homenageia diversas das grandes obras populares na década de 80, com foco para as de Stephen King. No decorrer da narrativa, diversas dessas referências aparecem e outras são mencionadas pelos personagens. O personagem com mais insights nesse aspecto é Dustin.

      Não achei a série revolucionária, inovadora ou transformadora de vidas, como li em algumas resenhas que seria. Acabei me decepcionando com ela, por causa da extrema expectativa que o hype me fez criar. No fim das contas, Stranger Things não é tudo isso. É legal, cumpre bem sua função, mas não gerou em mim um efeito catártico a ponto de fazer com que eu aguarde ansiosamente pela próxima temporada. Assistirei quando estrear, mas não vou contar os dias para tal. E não gostei dessa sensação, visto que morro de vontade de participar de todos os hypes possíveis. Esse não foi para mim.

      Apesar disso, gostei bastante do núcleo infantil da série. Acredito que ela poderia se resumir apenas a ele. O núcleo adolescente foi cansativo, chato e irritante para mim. Não consegui engolir a existência de Nancy e suas atitudes completamente sem noção. Não consegui digerir a existência do Steve e muito menos a forma positiva como sua história termina ao fim da temporada. Jonathan me encheu de dó e é o único que entendo a razão e importância para a série. Enquanto Nancy e Mike eram a dupla de irmãos chata que todos sabem que existe, Jonathan era o irmão mais velho mais legal do mundo e a dor em perder o irmão, não ter pai, a mãe estar “ficando maluca” e ele não ser socialmente aceito é grande e identificável demais. Ele está ali para representar, junto com a Eleven, todos os outsiders incompreendidos e acho que o ator fez um ótimo trabalho, começando pela caracterização. Porém, o núcleo segue sendo meu menos preferido. 

      Outra coisa muito ruim na série são os adultos. Com exceção de Joyce e Jim, todos os outros que aparecem são verdadeiros inúteis e que deveriam ter o certificado de pais confiscado. A gente vê que Karen, a mãe de Mike e Nancy, se esforça para estar próxima dos filhos. Porém, ela é bastante repressiva para com eles e tem o hábito de entrar no quarto deles sem eles permitirem. Ainda assim, ela não sabe sobre muita das coisas dos filhos e é incapaz de perceber que há uma criança extra morando em seu porão. O marido dela, Ted Wheeler, é ainda mais displicente. É provável que ele desconheça a data de aniversário dos próprios filhos, quanto mais saber outras coisas sobre eles. Nem Ted nem Karen se importam de verdade com o desaparecimento do Will. Não se oferecem para ajudar Joyce, apenas se preocupam com os próprios filhos e não querem que o mesmo ocorra com eles. Ou seja, além de péssimos pais, são péssimos amigos.

      O desenho da narrativa da série é muito bom. A construção do desenrolar do problema é bem elaborada. No entanto, fiquei irritada com a falta de comunicação entre os núcleos. Se as crianças e Jonathan tivessem conversado com Joyce e ela tivesse trabalhado em conjunto com Jim desde o começo, as coisas seriam potencialmente mais diferentes, fáceis e indolores. Não gostei desse senso de orgulho entre os personagens, que queriam resolver tudo sozinhos para proteger uns aos outros e acabavam se colocando em riscos ainda maiores. 

Eleven sendo lacradora
Eleven sendo lacradora

      Eleven acaba sendo o grande nome da série, a meu ver. A personagem é complexa, tem muito a ser explorada, é muito bem interpretada e tem um enorme potencial narrativo. Inocente, mas ao mesmo tempo conhecedora de coisas que os outros não têm acesso, leal, corajosa e determinada, Eleven é a grande heroína da série, sem nem mesmo conhecer Will Byers e apesar de estar sendo perseguida por órgãos governamentais. Junto com ela, a personagem que mais me chamou a atenção na temporada foi Joyce, que passa de maluca desacreditada para a primeira a ter percebido o que realmente estava acontecendo. A parceria Joyce e Eleven merece mais detalhes e eu torço para que elas ainda sejam grandes amigas.

      Afinal de eu não ter ficado com vontade de contar os dias para a próxima temporada, é possível delinear alguns traços narrativos que ainda necessitam ser abordados. Acredito que o foco da próxima temporada será no retorno de Will e Eleven e prevejo que mais elementos da literatura de horror e fantasia serão inseridos. Espero que a Netflix e os irmãos Duffer sigam com o bom trabalho.

Grace & Frankie – Série de 2015

Quem faz a série?

      A série é produzida pela Netflix e criada por Marta Kauffman e Howard J. Morris. Mistura comédia e drama, em episódios que duram no máximo 30 minutos. Até o momento foram ao ar 22 episódios, distribuídos em 2 temporadas. A terceira temporada já foi confirmada pela produtora e tem estreia prevista para maio de 2017.

       O elenco é composto por Jane Fonda, Lily Tomlin, Martin Sheen, Sam Waterston, June Diane Raphael, Craig T. Nelson, Timothy V. Murphy, Ethan Embry, Christine Lahti e Baron Vaughn.

Sobre o que se trata?

      A série conta a história de Grace e Frankie, duas idosas que, logo no primeiro episódio, recebem um pedido de divórcio por parte de seus maridos, visto que eles decidiram formar um casal. A partir disso, Sol e Robert moram juntos, na casa em que Grace vivia, fazendo com que ela e Frankie acabem por dividir uma outra casa que pertencia a ambas as famílias, na praia. 

    Grace e Frankie são mulheres muito diferentes. Enquanto a primeira é sofisticada e conservadora, a segunda é hippie e holística. A princípio elas não se dão bem juntas e conforme os episódios passam, elas desenvolvem uma grande amizade. 

        Para além da amizade das duas e do relacionamento homossexual de seus ex-maridos, também idosos, a série aborda a vida familiar dessas pessoas, como um todo. Grace é mãe de duas filhas e fez a vida em uma empresa de cosméticos, criada e gerida por ela. Após ter decidido se aposentar, deixou a empresa sob os cuidados de sua filha mais velha, Briana. Sua outra filha, Lydia, é casada e mãe, mas tem uma história amorosa passada com Coyote, um dos filhos adotivos de Frankie, que teve problemas com drogas e álcool. O outro filho adotivo de Frankie, Bud, é um advogado de sucesso.

      Assim, cada uma dessas relações e personagens vai sendo desenvolvido no decorrer da narrativa, que tem como pano de fundo Grace e Frankie tentando encarar a vida de solteiras – e uma amizade forçada – após estarem na terceira idade.

O que eu achei dela?

     A série me ganhou pelo elenco acima da idade comum das contratações de Hollywood. Em um mundo que Meryl Streep precisa se pronunciar avisando que as mulheres de Hollywood deixam de ser convidadas para papéis bacanas depois de atingirem certa idade, é bastante louvável ver uma produtora crescente como a Netflix investindo nesse tipo de produção. Ter duas mulheres com mais de 60 anos no pôster da série foi o que me fez assistir o primeiro episódio, mas foi a qualidade da atuação e a curiosidade por trás da história e de como a narrativa seria desenrolada que me mantiveram ali.

      Frankie é uma personagem excepcionalmente cativante. Ao mesmo tempo, ela é maluca demais e acaba tendo uma série de defeitos – ainda mais ressaltados ao lado de Grace. Eu assisti a todos os episódios muito rapidamente, porque as duas me fizeram continuar a ver sem parar. 

     A segunda temporada, a meu ver, é melhor do que a primeira. Enquanto a primeira aborda mais o coração partido das duas e a necessidade de se reinventarem, a segunda mostra a amizade que já floresceu e o quanto ela foi positiva para ambas. O cuidado que nasce na relação delas é muito bonito de se ver, por ser inesperado e por surgir com motivações frustrantes para ambas as partes. Querendo ou não, Grace é a única que pode entender a dor de Frankie e vice-e-versa. 

   O último episódio da segunda temporada é um show de empoderamento feminino e me fez perceber o quanto essa série é importante por abordar um campo bastante inexplorado: a importância do empoderamento e da amizade na terceira idade. Enquanto o senso comum imagina idosos solitários e improdutivos, a série consegue mostrar que a idade não carrega inutilidade consigo e que é possível passar dos 60 anos e ainda conseguir se redescobrir, aprender e contribuir com o mundo. 

    Apesar de ser uma série leve, a história é bem contada e consegue ser empolgante. Não posso dizer que é uma das minhas séries preferidas, mas guardo ela no coração com carinho, recomendo sempre que posso e tenho certeza que assistirei à próxima temporada num piscar de olhos.

Unbreakable Kimmy Schmidt – Série de 2015

Quem faz a série?

         A série é produzida pela Netflix e foi criada por Robert Carlock e Tina Fey em 2015. A série já teve duas temporadas e foi renovada para a terceira. A média de episódios por temporada é de 13 e eles têm duração entre 22 e 30 minutos. O gênero da produção é comédia e a narrativa se passa em Nova York

      A ideia da série surgiu após a finalização de 30 Rock, série que era produzida e estrelada por Tina Fey e teve grande sucesso, acontecendo por 7 temporadas. Com o fechamento dessa narrativa, Fey acabou com outro contrato e outra ideia de série para ser produzida. Junto com Carlock, criaram Kimmy Schmidt e seu seriado.

        Unbreakable Kimmy Schmidt não tem um nome em português ainda, mas seria algo como “A inquebrável Kimmy Schmidt“. O nome original pode ser de difícil pronúncia para brasileiros leigos em inglês, mas a produção tem legendas e dublagem em português. As duas temporadas estão disponíveis na Netflix.

      A série é estrelada por Ellie Kemper (Kimmy Schmidt), Tituss Burgess (Titus Andromedon), Carol Kane (Lilian Kaushtupper), Jane Krakowski (Jacqueline White), Dylan Gelula (Xanthippe Lannister), Ki Hong Lee (Dong guyen) e vários outros, com aparições menores. Incluindo a própria Tina Fey.

Sobre o que se trata?

         Kimmy foi sequestrada por um chefe de seita e ficou 15 anos presa em uma caverna, junto com outras três mulheres e o sequestrador. O chefe da seita convenceu as 4 garotas de que o fim do mundo estaria chegando e elas seriam as últimas pessoas da Terra. Viver na caverna era complicado, porque a energia era gerada pelos exercícios físicos delas e havia constante racionamento de energia e alimentação. 

       Em 2015 conseguiram descobrir o esconderijo e salvar as 4 meninas. Kimmy foi a única que decidiu que precisava recuperar o tempo perdido e, para isso, resolveu se aventurar em Nova York, cidade desconhecida para ela até então. Logo no primeiro episódio ela, incrivelmente, encontra onde morar e um emprego. E já fica claro que seus colegas de casa e de emprego serão amigos e personagens importantes para o decorrer da série.

     As meninas que foram raptadas com ela não desaparecem da narrativa, fazendo aparições pontuais e mostrando um desenrolar próprio para cada uma de suas histórias. O responsável pelo sequestro foi preso no momento do resgate e aguarda julgamento, o processo e o julgamento dele também são retratados na série.


O que eu achei dela?

        Eu não sou muito boa em assistir séries de comédia. Nunca consegui ver Friends ou How I Met Your Mother por conta disso. Em geral, acho séries de comédia fracas e sem graça. As exceções são as séries que eu via durante a infância, vide Maluco no Pedaço e Todo mundo odeia o Chris. Resolvi dar uma chance pra Kimmy Schmidt por causa do possível viés religioso da narrativa. Mas a série acabou me fisgando, apesar de o viés religioso não ser o mais importante para o enredo.

        Em geral, é uma série sobre independência e descobertas e a Kimmy se demonstra realmente forte e inquebrável e é muito bacana ter contato com personagens assim. As coisas pelas quais ela passa as vezes parecem muito irreais e fantasiosas e é isso que deixa a série engraçada, de forma cativante. Além disso, a narrativa aborda assuntos pertinentes para a sociedade atual, como o fanatismo religioso, relacionamentos homossexuais e diferenças étnicas. Inclusive, diversidade é uma coisa bastante abordada na série, que conta com um negro homossexual como um dos protagonistas, uma descendente de indígenas e um oriental como personagens secundários e importantes. 

       Além de tudo, uma das coisas engraçadas da série é o saudosismo constante. Como Kimmy ficou 15 anos presa e afastada de todo o desenvolvimento tecnológico e social, ela é bastante inocente e considera coisas que para nós já são banais como absurdamente fantásticas. Ela parou de acompanhar o mundo no momento em que walkman ainda era usado, então há uma série de filmes, músicas, questões políticas e sociais e tecnologias que ela simplesmente desconhece. Acompanhar esses “primeiros contatos” dela é bastante interessante e divertido. A personagem também está atrasada no quesito moda, utilizando roupas extravagantes demais e combinações que não seriam feitas por pessoas que não foram raptadas por 15 anos. O papel de Titus na vida da Kimmy e nesse contato com as coisas é muito relevante e bacana.

        Eu, particularmente, gosto muito do núcleo da Jacqueline e acho que ele foi muito bem desenvolvido na segunda temporada, tendo desencadeamentos bastante interessantes e proveitosos. Torço bastante por ela enquanto personagem e acho a história dela realmente interessante, apesar de parecer exagerada e irreal demais.

           É uma série leve, despretensiosa e muito bacana de passar um tempo assistindo. O excessivo otimismo de Kimmy é, as vezes, irritante. É bem engraçado que conforme você vê a série, acaba pegando algumas manias idiotas dela (ou pelo menos eu peguei). A música de abertura é daquelas que gruda na sua cabeça e nunca mais sai. E, claro, as aparições da Tina Fey não são de deixar ninguém com dúvidas sobre o talento dela. A última temporada saiu no primeiro semestre desse ano e teve uma aparição muito legal no último episódio – que eu espero que siga aparecendo nas próximas temporadas. 

          A terceira temporada já está confirmada e prevista para estrear no primeiro semestre de 2017, sempre na Netflix.

[REVIEW] Gilmore Girls – 1ª Temporada

         No dia 01 de julho, a Netflix colocou as sete temporadas de Gilmore Girls em seu catálogo de streaming. A decisão é parte de um grande projeto de marketing, que visa agarinhar maior público para o revival da série, que está previsto para ocorrer ainda esse ano – mas não sabemos a data. Gilmore Girls foi exibida originalmente entre 2000 e 2007, produzida pela Warner e dirigida por Amy Sherman-Palladino. Porém, ao chegar na sexta temporada a diretora afirmou precisar de mais duas para concluir a história e a Warner não concedeu, dizendo que a série teria que encerrar após a sétima temporada. Por essa razão, Palladino abandonou o roteiro, direção e produção executiva da série. David S. Rosenthal assumiu a produção da sétima temporada que não agradou a maior parte dos fãs. Grande parte das coisas que o público aguardava acontecer desde a primeira temporada aconteceram de forma inexplicada e pouco crível e o final não foi nada parecido com o esperado. 

        Felizmente, a Netflix anunciou no final de 2015 que estava reunindo o elenco original da série, junto com sua criadora (Amy Sherman-Palladino) para fazer uma oitava temporada, que seria o fechamento da série. A dita temporada, que estreia ainda esse ano, terá 4 episódios e cada um se passará em uma estação do ano. A ansiedade é muito grande e, com todas as temporadas anteriores disponíveis na Netflix, os fãs da série começaram a re-assistir as sete temporadas já produzidas, enquanto a oitava ainda não estreia. Eu sou uma dessas fãs e já falei sobre a série aqui em momentos passados, mas decidi que dessa vez iria fazer revisões detalhadas de cada uma das temporadas, conforme eu for re-assistindo.

         A decisão de fazer esses textos veio da percepção de que, atualmente, a série tem significações bastante diferentes para mim do que na primeira vez em que assisti. Consigo perceber e relacionar uma série de coisas que não conseguia antes, consigo entender mais das piadas e acompanhar melhor os diálogos – que seguem sendo muito rápidos, mas meu inglês está um pouquinho melhor.

      Nesse texto, portanto, vou falar detalhadamente sobre a primeira temporada da série, destacando alguns pontos que achei bastante relevantes ao re-assistir. É claro que, se você não assistiu Gilmore Girls, não recomendo prosseguir na leitura, pois ela será repleta de spoilers.

Temporalidade

         Quando a gente assiste uma série inteira, de forma rápida e consecutiva, acaba se perdendo no desenrolar dos fatos. Ao recomeçar a primeira temporada, eu tinha a impressão de que a maior parte dos acontecimentos que se desenrolavam nela eram parte de outras temporadas. Eu lembrava a história da série passando de forma muito mais devagar. Não recordava, por exemplo, de que já na primeira temporada Sookie e Jackson começam a se relacionar e Rory e Dean têm o primeiro rompimento. Eu acreditava que essas coisas aconteciam na metade da segunda temporada, por aí. Levei um susto ao ver tudo se desenrolando da forma que foi.

Os casais

Rory e Dean

        Eu lembrava do relacionamento deles de uma forma muito diferente. Na minha cabeça, o primeiro encontro tinha sido quando Rory derrubava livros e Dean pegava um dos títulos e esboçava um diálogo sobre ele, como alguém que o conhecia e tinha lido. Nada disso. Revendo a primeira temporada, percebi que Dean não era um leitor, não era estudioso, não tinha pretensões na vida. Basicamente, ele e Rory não têm nada a ver um com o outro e, embora o início do relacionamento seja bastante fofo, o é apenas por causa do nervosismo de Rory e do fato de ela não saber lidar com os próprios sentimentos. Porém, o relacionamento deles não é apresentado ao espectador de forma densa ou intensa. Dean vive na casa de Rory e acaba aprendendo sobre seus hábitos e manias e conhecendo bastante sobre Lorelai, mas Rory nunca foi na casa dele ou conheceu os pais dele e isso é bastante esquisito

        Também é estranho que Dean, recém chegado na cidade, tenha que encontrar um emprego como primeira coisa a ser feita. Rory, Lane e as outras meninas da idade dela apresentadas na história não precisaram procurar um emprego. Mas Dean, assim que chega em Stars Hollow, precisa trabalhar em algo. Fiquei pensando se isso seria por ele ser homem ou algo do tipo. É perceptível nessa primeira temporada que os dois são desalinhados ideologicamente. O episódio da Dona Reed evidencia muito isso. Primeiro, Dean não entende a devoção de Rory e Lorelai por uma série de TV e depois não entende o problema que era o modo de vida de Dona Reed, fazendo com que Rory entenda que é isso que ele espera dela – o que é totalmente diferente daquilo que ela gostaria de ser. Eles são péssimos em se comunicar e brigam em qualquer desentendimento – e como eles se desentendem em quase todas as conversas, o ideal seria que não falassem um com o outro.

        Para completar, Dean é extremamente ciumento e já no nono episódio da série, ele se envolve em uma briga física com outro garoto por causa da Rory. Quem já viu a série sabe que esse padrão se repete e a gente só consegue olhar pra tudo isso e pensar “Por que Dean, por quê?”. Enfim, compreendo que para um relacionamento de 16 anos e o primeiro de Rory, não tinha como esperar muito mais do que isso. Mas é visível, desde o começo, que a coisa está fadada a terminar e o fato de ela hesitar ao dizer que o ama é apenas uma prova disso. Rory não estava repetindo padrões de Lorelai, ela estava sendo esperta. Pena que o coração adolescente acabou vencendo essa…

Lorelai e Max

         É completamente bizarro que a temporada termine com Max fazendo um pedido de casamento para Lorelai. Eles ficaram juntos por um total de oito episódios na temporada. Sendo que o primeiro é um encontro casual em um café, o segundo é Lorelai esquecendo que ia se encontrar com ele, o terceiro é um encontro de fato, o quarto é um beijo na escola e os outros quatro são já no final da temporada, quando Lorelai resolve retomar o relacionamento. Aí me pergunto: que relacionamento ela queria retomar? Como pode eles quererem se casar?

       Convenhamos, eles tinham acabado de se conhecer. Assim como Rory e Dean, não tinham nada a ver. E, se tinham, o desenvolvimento romântico do relacionamento não foi mostrado ao espectador. Eu não faço ideia do porque eles estavam juntos e porque eles achavam que era o suficiente para que se casassem. Max visivelmente não se encaixaria no estilo de vida de Lorelai, e vice-e-versa. Eles eram fofos? Sim, claro. Mas é de fofura que se faz um casamento? Eu acho que não.

       Se for parar para pensar, Luke estava com Lorelai em um número bem maior de cenas, incluindo em cenas importantes para ela e a família dela – como o dia em que Richard foi parar no hospital. E Lorelai não pensou em casar com o Luke, então porque pensou em casar com o Max? Não consigo entender!

Sookie e Jackson

        Esse relacionamento é muito engraçado, porque eles flertam conversando sobre safras de frutas e qualidade de vegetais. Mas é completamente fofo e inocente, porque Jackson consegue entender e alegrar Sookie mesmo em momentos que ninguém mais consegue e eles se encantam um pelo outro de forma que nenhum outro casal da série conseguiu fazer até o momento. Se tem um casal que surge na primeira temporada e dá pra gente torcer por, são esses dois. Visivelmente as brigas que surgem são apenas forma de gerar assunto e eles não ficam magoados, quando acontece alguma mágoa, eles conseguem conversar sobre ela e seguir adiante. 

Luke e Rachel

        Mais um casal que a gente não sabe muito sobre. Rachel fica poucos episódios no seriado e tudo que sabemos é que eles têm um background e Luke tem dificuldade em confiar nela novamente. Mas não sabemos muito sobre ela, o que eles têm em comum, porque se relacionar é uma boa ideia no caso deles, quais seriam os motivos para não dar certo etc etc etc. Rachel aparece com a mesma facilidade que some da série e nós só temos uma certeza após tudo isso: Luke está realmente interessado em Lorelai e ela insiste em não ver – ou em ver e ignorar.

Lorelai e Christopher

     Coloquei esse casal aqui porque ele é a “sombra” de toda a série. Não sei muito bem o que acontece ali. Lorelai se sente visivelmente mais segura ao lado de Christopher, porque eles cresceram juntos e ela acha que nenhum outro cara vai conhecê-la e entendê-la tão bem quanto o pai de sua filha, mas ela não consegue se relacionar com ele, porque acha que ele ainda não amadureceu o suficiente e ainda é um garoto que anda de moto e sonha em um dia ser independente. Ela é independente desde que teve sua filha e fica incomodada com o fato de Christopher não ser. Além disso, a ideia de ficar com ele e agradar seus pais é ruim para ela, que sempre desconsidera. Mas Christopher segue sendo a fonte segura para quem Lorelai recorre quando está com problemas. Ou ao menos quando está com problemas que Luke não consegue resolver.

As amizades

Lane e Rory

         Eu fico com muita dó da Lane na primeira temporada. Enquanto a vida da Rory dá um salto e ela tem namorado, escola boa, uma boa relação com a mãe etc, Lane segue sendo a mesma pessoa reprimida e forever alone. É muito triste que Rory abandone ela por algum tempo e a relação entre as duas acaba sendo unilateral, porque Lane deixa de pedir ajuda e considerar Rory em determinadas situações, após perceber que ficaria sozinha de qualquer jeito. 

         O fato de Lane ir para a Coreia sem data para voltar nem causa um alvoroço muito grande em Rory. Ela não tenta fazer nada para impedir, não bola planos de fuga, nada. Ela segue sua vida normal e Lane aparece eventualmente comentando “ei, não sei quando volto” e bola um plano B sozinha, apenas comunica ele para Rory. No caso do Henry é a mesma coisa, Rory não tenta ajudar com conselhos ou ideias para que eles se encontrem, ela apenas ajuda na questão do telefone – o que é quase nada. Parece que a Lane está muito mais disponível e disposta a ser amiga da Rory do que o contrário e isso é bastante chato.

Lorelai e Sookie

          Lorelai também é a protagonista da relação com Sookie e as vezes o egoísmo dela atrapalha as coisas. Ela tende a achar que a Sookie está ali sempre disponível para servir ela e é ótimo que Jackson comece a se relacionar com Sookie, porque Lorelai acaba perdendo esse pensamento. Elas são boas amigas, que sempre se ajudam, dão suporte e ficam realmente felizes e empolgadas pelas conquistas uma da outra. Sookie comemora as vitórias de Lorelai e Rory como se fossem sua própria família e isso é maravilhoso de ver e acompanhar.

Rory e Paris

           Paris pretensamente é amiga de Madeline e Louise, mas é bem óbvio que as três andam juntas por comodidade e não por sentimentos reais. Tudo fica bem evidente no episódio Concert Interrupts, o décimo terceiro da série. É nele que a gente vê Rory e Paris minimamente mais próximas e percebe que a segunda é muito mais infeliz e solitária do que aparenta ser. Rory percebe algumas das vulnerabilidades de Paris e tenta ajudá-la, partindo do princípio que as duas vão ter que continuar se vendo frequentemente até o fim do ensino médio. Paris reluta em aceitar a ajuda de Rory e se sente inferior por precisar dela, preferindo continuar emburrada e sozinha. Mas, pelo menos para mim, foi possível ver faíscas que possivelmente desencadeariam em um relacionamento bacana.

Percepções gerais da temporada

  1. Richard ter ficado doente acabou aproximando um pouco mais Lorelai, mas também fez ele perceber que o modo de vida que levava não era lá essas coisas. Emily percebe que não consegue se imaginar sem Richard, o que é bem interessante, porque a relação dos dois não é de dependência mútua. Rory, por sua vez, percebe que o avô já ocupa um lugar bacana em seu coração e que ficaria realmente chateada se ele piorasse ou chegasse a morrer.
  2. A evolução do relacionamento entre Rory, Emily e Richard é o que chama mais atenção na temporada. Apesar de Lorelai exercer forte “alienação parental“, fazendo com que Rory tenha uma visão bastante deplorável de seus avós, como se eles fossem extremamente fúteis, malvados e manipuladores, a menina vence o ideal construído pela mãe e resolve tentar conhecer os avós por conta própria. O episódio em que ela vai ao clube com Richard e, depois, quando Emily vai conhecer Stars Hollow e acaba por dar a Rory o quarto perfeito, são a mais perfeita prova disso. 
  3. Lorelai é extremamente egoísta e quer que Rory seja exatamente o que ela não conseguiu ser e ao mesmo tempo tenha todas as coisas que ela considera como qualidade próprias. Ela tem muitas dificuldades em tentar entender o ponto de vista de seus pais – ou de qualquer outra pessoa além de Rory, e as vezes até da Rory. Tem horas que dá vontade de pedir para ela simplesmente baixar a bola e deixar a menina se virar.
  4. Rory leva muito em conta os pensamentos e vontades de Lorelai e acaba tomando decisões se baseando nisso e não no que ela realmente queria. A pressão para que ela não engravide, seja uma boa aluna e vá para Harvard é doentia em alguns aspectos e tem horas que dá vontade de pedir para ela relaxar, fazer o que quiser e largar mão de ficar pensando tanto nas vontades da mãe.
  5. Paris é a personagem mais interessante da temporada, ao menos para mim. Inserida no mundo dos ricos e populares, ela é extremamente impopular por levar a escola a sério demais. Nutre fobia social, não consegue compreender outras pessoas e vive fechada em sua própria bolha, onde tudo que importa é conseguir entrar em Harvard. Ela é uma pessoa que precisa relaxar urgentemente e viver um pouco mais, por outro lado, é a personagem com quem eu mais me identifiquei. Principalmente no episódio 17, onde ela não vê a hora de ir embora da festa dada por Madeline.
  6. Tristan é um garoto tão insuportável, que faz com que Dean realmente pareça bacana e o mocinho da história. É muito bom que Chad Michael Murray (o ator que o interpreta) tenha sido selecionado para ser protagonista de One Three Hill e tenha largado a série, porque seria bastante insuportável ter que acompanhar seu pretenso desenvolvimento durante as próximas temporadas. De todos os garotos que Dean bate, esse é o único que considero merecedor. 
  7. Nos primeiros episódios, Richard e Emily mencionam Lorelai the First durante o jantar semanal das sextas, utilizando o tempo verbal pretérito. Isso faz com que o espectador entenda que a bisavó de Rory já faleceu e agora as Lorelai Gilmore existentes são apenas ela e sua mãe. Porém, no 18º episódio da temporada, a família Gilmore recebe a visita de Trixie, a mãe de Richard. Isso é um erro narrativo bastante confuso e que pode passar despercebido em um primeiro olhar.

          Essas foram minhas impressões gerais dos primeiros 21 episódios da série. Assisti a eles em seis dias e, se continuar nesse ritmo, termino a série inteira em breve. Assim que uma temporada for concluída, vou fazer um texto parecido com esse contando as minhas impressões. Como eu sei que tem bastante gente assistindo/re-assistindo a série, seria bem legal poder ouvir/ler as impressões de vocês! Para isso, é só comentar aqui ou conversar comigo em algum outro lugar! 

       Se você não assina Netflix, mas quer assistir a série, fique tranquilo! Há diversos torrents e outros arquivos com todos os episódios espalhados por aí. Mas, tome cuidado, elas falam muito rápido e talvez você não acompanhe o ritmo sem antes tomar bastante café!

Orange is the new black: razões para assistir

O que é OINTB?

         Orange Is The New Black é uma série estados-unidense produzida pela Netflix desde 2013, sendo uma das primeiras produções próprias da grande rede de streaming. A série foi um marco por ter sido uma das primeiras a se tornarem extremamente populares no modelo oferecido pela Netflix: temporadas com no máximo 13 episódios de cerca de 45min a uma hora, que vão ao ar no mesmo dia e apenas uma vez ao ano. Dessa forma, desde a primeira temporada é sabido pelos fãs que em algum momento da segunda quinzena de junho uma nova temporada irá ao ar. Devido ao nome da série ser grande, ela é conhecida por suas siglas e chamada de OINTB.

         O enredo principal gira em torno de Piper Chapman, uma moça branca de classe média que é presa por ser cúmplice em tráfico de drogas. A primeira temporada é sobre a adaptação de Piper na cadeia, com direito a encontros, reencontros e muitas reviravoltas em sua história. A série se demonstrou importante já aí, pelo imensa representatividade que ela trazia. Veja bem, não é comum que presidiárias ou ex-presidiárias se vejam retratadas na televisão, ainda mais em um retrato que engloba diferentes sexualidades, gêneros, etnias e em uma narrativa que não tem medo de explorar os lados podres e bons das ações dos guardas penitenciários e demais responsáveis pelo setor administrativo.

Como é a narrativa da série?

         Desde a primeira temporada, o espectador é levado para dentro da história das detentas. O foco narrativo que a princípio acontece com Piper, acaba sendo difuso e atingindo uma pluralidade de detentas. Nas temporadas subsequentes isso é visível pelo fato de que em cada episódio a história de uma detenta ser contatada em flashbacks. Esse aporte narrativo facilita a criação de empatia com a personagem, por parte do espectador. Ao invés de ver as detentas como prisioneiras malvadas, os flaschbacks possibilitam que o espectador perceba que até a mais malvada dentro da cadeia, teve outras vivências em sua vida de liberta. Isso faz com que a que, para mim, é a principal proeza da série, seja feita com eficácia. Ou seja, através dessa percepção de outras vivências, o espectador é levado a entender que todas as pessoas que estão ali, presas, são humanas. São apenas pessoas que cometeram erros, tentaram fazer o melhor com as oportunidades que tiveram e tomaram decisões erradas. Essa é uma sacada muito importante do seriado e é onde reside sua potência, considerando o nosso contexto atual, onde inúmeras pessoas acreditam que bandido bom é bandido morto e que todo mundo que comete crime é porque nasceu safado.

         A cadeia de OINTB é formada por três grandes grupos: as negras, as hispânicas (latinas) e as brancas. Em todo o seriado essa divisão está implícita. Seja nos dormitórios, que são organizados pelos agentes penitenciários já com essa separação, seja pelas filas do banheiro, que acabam ocorrendo seguindo esses grupos ou ainda pelas amizades construídas que, por causa do sistema, acaba sendo étnico-direcionada. Dessa forma, é muito difícil que uma detenta negra converse, se dê bem e seja amiga de uma latina, por exemplo. Há algumas exceções, mas é esse o panorama geral. Na quarta temporada essas fronteiras ficam ainda mais demarcadas, o que é preocupante. Além disso, a cadeia está super lotada e a quantidade de latinas superou a das outras etnias, fazendo com que elas achassem que isso lhes garantia algum tipo de poder. Além disso, na quarta temporada temos também uma celebridade dividindo a mesma cadeia que todas essas outras. Mas, o que mais chama atenção é a forma como Litchfield (o nome da cadeia) está sendo administrada.

Por que eu defendo a série?

         Bom, é comum ouvir dizer que a série transmite a ideia de que a cadeia é um parque de diversões. Eu discordo. Na realidade, a organização de Litchfield é a ideal em se tratando de cadeias, pois lá as detentas são tratadas como gente, têm espaço, um tanto de privacidade e todas elas trabalham na própria penitenciária. Algumas são responsáveis pela comida, outras pela limpeza, outras pela jardinagem, biblioteca, eletricismo e diversas outras atividades. Inclusive, o foco da terceira temporada é a inauguração de uma fábrica de calcinhas na prisão, onde as detentas trabalham e recebem por isso. Todas elas recebem alguns centavos por hora de trabalho e depois podem usar esse dinheiro para comprar mantimentos, remédios, cosméticos e afins na lojinha da prisão. Ao ser liberta, a detenta recebe todo dinheiro que tinha em sua conta e ainda não havia gasto. Essa é uma das razões para que Litchfield seja o paraíso das prisões, um mundo encantado demais e irreal demais, principalmente para nós, brasileiros. Mas, antes de criticar essa formação, é importante lembrarmos de algumas coisas:

  • Litchfield é uma prisão de segurança mínima, feminina e destinada para mulheres que não são consideradas perigosas.
  • Litchfield não é uma cadeia pública, mas sim compartilhada. Parte dos investimentos realizados nela é privado, por isso é tão difícil conseguir melhorias para as detentas. No entanto, a privatização foi necessária para manter o nível da prisão – a questão é bem complexa e a série destrincha bem ela.
  • Nenhuma cadeia é colônia de férias, por melhor que pareça. E se alguém assiste ao seriado e segue pensando isso, é porque a pessoa em questão tem problemas. Digo isso pela quantidade de encrencas e perrengues vividos pelas personagens. Apesar de ser uma prisão boa, ainda têm abuso de poder, gangues e brigas constantes.

         Tendo isso em mente, é necessário que a gente pare de achar:

  1. Que o sistema carcerário do EUA é maravilhoso e as prisioneiras vivem no paraíso.
  2. Que todas as cadeias dos EUA são desse jeito.
  3. Que as cadeias do Brasil são desse jeito.

         Vamos lá, se até em Litchfield tem corrupção, superlotação e dificuldade orçamentária de conseguir coisas básicas como absorvente, o que leva as pessoas a crer que alguma cadeia, em algum lugar, é um paraíso? Não é. E essa não é a intenção da série, mas sim lembrar a sociedade da existência de mulheres na cadeia e de que elas são importantes. A série é baseada em uma história real, vivida por Piper Kerman e publicada em um livro homônimo. Recentemente, Alex Vause, outra personagem da série, que na vida real se chama Catherine Wolters, lançou um outro livro relatando uma nova perspectiva sobre a história de Kerman. Atualmente, a série já tem liberdade narrativa e não segue apenas o que foi vivido pela Piper de verdade, mas ela continua sendo uma das principais produtoras do seriado. Esse parênteses se faz importante por duas razões:

  1. Realmente uma branca de classe média foi presa, se indignou com as coisas que aconteciam na prisão e resolveu contar em um livro.
  2. Não é porque ela escreveu o livro que a visão dela sobre a prisão é a correta ou a única que existe, visto que Wolters narra os fatos de formas diferentes.

         Essa mudança de perspectiva é uma das grandes destrezas da série. Como cada episódio tenta se focar mais em um núcleo específico, o espectador é levado a comprar perspectivas específicas, que nos próximos episódios podem ser destroçadas ou reforçadas. Outro ponto interessante é que o espectador tem contato com todos os núcleos da série por igual, conhecendo profundamente algumas das detentas de cada grupo. Porém, não é porque o espectador tem essa noção que os outros personagens da série o tem. As vezes o espectador tem uma conexão, identificação ou empatia muito fortes com personagem x e outro personagem da série vai lá e xinga, bate, briga etc. O espectador fica revoltado e pensa como você fez isso, ela é super legal, mas a verdade é que quem bateu, xingou, brigou não conhece a outra pessoa tanto quanto o espectador. Não teve acesso aos flashbacks, não acompanhou o desenvolvimento narrativo, nada disso. Essas coisas são disponíveis apenas para o espectador, não para os outros personagens da série que, entre si, têm segredos e desavenças que para o espectador já foram resolvidas.

A quarta temporada

         Na última sexta-feira a Netflix liberou a quarta temporada da série, eu assisti tudo até sábado e fiquei pasma. Para mim essa foi a melhor temporada do seriado e eu continuo a recomendá-lo e a defendê-lo. O mar de reflexões e percepções que ele nos traz sobre a desigualdade social, a indiferença, a marginalização e a importância de oportunidades e de perdoar, são grandes. As meninas de Lietchfield deixam de ser detentas e se tornam suas melhores amigas. E isso me faz pensar em todas as melhores amigas que eu tenho nas cadeias da minha cidade, em todas as mulheres que precisam de absorvente e não têm, nas que não podem ver seus filhos, nas que não conseguem desenvolver relacionamentos amorosos, nas que não veem perspectiva em sair da prisão, nas que ficam malucas lá e até nas que melhoram minimamente. Essas pessoas existem, elas estão aqui. E não adianta nada a gente ver séries como essas e não olhar ao nosso redor e tentar fazer algo ser diferente.

         A quarta temporada tem 13 episódios muito intensos, com direito a superlotação, desigualdade de privilégios internos, neo-nazis, guardas que são ex-soldados que batalharam no Afeganistão, mais cortes nos orçamentos, mais injustiças, mais mortes, muita ênfase no passado das latinas, uma máquina do tempo, cenas fortes na solitária/segurança máxima e na ala de psiquiatria e um final tão tenso, mas tão tenso, que o único desejo possível é de que a próxima temporada saia amanhã. Ah sim, as piadas seguem, mas, para mim isso nunca foi o foco.