Estátua

Eu sempre gostei de frio. Talvez por ter passado minha infância morando em Curitiba ou pelo trauma eterno de todos os meus verões infantis passados no calor infernal da caatinga Maranhense. O fato é que o frio sempre me encantou. Sempre gostei de andar pela rua com fumacinha saindo pela boca e minha brincadeira favorita do inverno era competir com os coleguinhas a quantidade de roupas que usaríamos. Eu sempre ganhava, porque era magra e meus casacos eram enormes, então cabia várias camadas de roupa por baixo. A única vez que perdi foi porque uma menina conseguiu colocar catorze blusas. Eu nem tinha catorze blusas.

Era 2009 e eu faria quinze anos. Ao contrário do esperado queria viajar, pois concluí que uma festa era desperdício de dinheiro, ainda mais porque ser anfitriã é um saco. Todas as minhas amigas iam para a Disney em Julho e o plano era eu ir junto, só que o dólar estava muito caro e eu fiquei com pena da minha mãe e abstraí a ideia. Por sorte, minha tia resolveu salvar meu ano e me deu de presente uma viagem para Nova York. Eu passaria o natal e o ano novo na cidade mais famosa do mundo e uma das únicas que, na época, eu tinha cogitado conhecer, porque aparecia em quase todos os meus filmes preferidos.

Peguei várias roupas de frio emprestadas dos outros familiares que já conheciam o exterior e fui.

Passei dias adoráveis, com aquele frio que me permitia colocar meia de lã, calça jeans, bota, segunda pele, blusa de lã, dois casacos, luva de couro, cachecol e chapéu e ir tirando coisas ao longo do dia conforme andávamos, porque se existe algo melhor do que se vestir para o inverno é andar horrores no inverno. A gente não sua e andar fica tão agradável que quando vemos atravessamos a cidade inteira. E nós, de fato, atravessamos a cidade inteira um dia. E foi super divertido.

Então chegou o dia da visita turística mais esperada pela maioria das pessoas e que para mim parecia ser um saco, mas eu precisava ir para cumprir o ritual: conhecer a “Estátua da Liberdade”. Lá fomos nós. No dia anterior tinha nevado, então estava bem frio, mas dane-se. Fomos mesmo assim. Eu sabia que a estátua ficava no meio do rio e que para chegarmos até lá precisaríamos pegar um barco, o que eu não sabia é que haveria uma fila descomunal para chegar até esse barco e que tal fila encontrava-se sob céu aberto.  Já que estávamos lá, encaramos. Ficamos em pé por cerca de três horas, revezando para que uma ficasse sob o Sol enquanto a outra ficava na fila por um tempo esperando. Vimos turistas de diversos países e estávamos absurdamente tranquilas. Então aconteceu.

Faltava pouco mais de dez pessoas para que chegasse a nossa vez, mas eu não aguentei. De repente parei de sentir os meus pés e minhas pernas e tinha a sensação de que ia cair a qualquer momento. Quando tinha que dar um passo, eu simplesmente não conseguia e ficava parada. Minhas mãos pararam de se mexer, minha boca tremia a ponto de eu não conseguir falar e saíam muitas lágrimas dos meus olhos. A fila andou, mas eu não consegui e enquanto minha tia ficava falando “anda Mayra, vai logo” eu não conseguia pensar em nada além de “estou morrendo” e, após um enorme esforço, consegui virar meu tronco para trás, tentando balbuciar que estava morrendo, inutilmente.

Minha tia desesperou-se. O motivo para ela ter me dado a viagem era justamente porque ela queria ir a NY e não sabia falar inglês e eu sabia, só que naquele momento eu não sabia nem falar “oi”. Na minha cabeça eu via tudo como que sob uma imensa neblina e em meio às minhas lágrimas lembrei-me da minha mãe do outro lado do continente e de toda a minha vida e ficava pensando que era aquele o momento de enxergar o filme da minha vida, mas eu não conseguia, porque ficava com pena do desespero da minha tia e sabia que precisava ajudá-la. Por sorte ela sabia gritar “help” e foi o que fez. Até que uma segurança veio até nós e nos levou para dentro da cabana.

Porque antes de pegar o barco, era necessário passar por uma cabana em que havia um detector de metais e um raio x para as bolsas, a fim de evitar ataques terroristas na Estátua. Não faço ideia de como estava a minha cara naquele momento, mas devia estar assustadora, porque a mulher do raio x arregalou os olhos ao me ver. Eu tive que tirar o casaco. Eu não consegui tirar meu casaco, foi minha tia quem o fez. E após passar por todas aquelas coisas fui logo procurar um banco para me sentar e ficar lá. Na minha cabeça era só eu ficar quieta e respirar que logo conseguiria me mexer normalmente de novo.

Sentei-me e em pouco tempo uma segurança veio perguntar se eu estava bem. Minha tia não entendia o que ela falava e eu não conseguia responder. Tudo que fiz foi balançar a cabeça com aquele tradicional sinal que significa “não” e ela entendeu. Me pegou praticamente no colo e me levou para a frente de um aquecedor, que estava cheio de gente em volta. Ela fez todo mundo sair, colocou uma cadeira, me fez sentar e falou pra minha tia tirar a minha roupa e friccionar minha pele, para estimular a circulação, porque eu estava com hipotermia. Sabe-se lá como, minha tia entendeu o que era pra fazer e as duas juntas salvaram a minha vida.

Quando eu olhei para as minhas mãos e consegui movimentar meus dedos voltei a chorar, mas dessa vez era de felicidade. Na minha cabeça meu futuro era o mesmo que o daquele pirata que tira o próprio dedo congelado em “Piratas do Caribe: No Fim do Mundo”, mas, por sorte, não precisei fazer isso. Eu, inteira, desejando ardentemente voltar para casa e me esquentar e nunca mais sentir frio na vida e a moça dizendo para minha tia em qual lugar deveríamos ficar no barco para que eu não voltasse a ter aqueles sintomas. Recuperada, olhei para ela e falei “Moça, por favor, nos tire daqui. Não quero ir na Estátua, preciso me esquentar.” e ela respondeu afirmativamente, dizendo que eu não deveria ir à Estátua, mas ela não queria falar isso e tal. Enquanto nos levava para fora, ensinou-nos onde ficava a cafeteria mais próxima e nos disse para ir até lá, pedir um café e ficar lá dentro até eu me sentir bem o suficiente para continuar o passeio.

Fomos à cafeteria e depois descobrimos estar perto de onde eram as “torres gêmeas”, mas nenhuma das duas conseguiu foto nenhuma naquele dia, porque não estávamos em condições de tirar as luvas. E quando voltamos pra casa, depois das 22h, após uma aventura bizarríssima em um restaurante esquisito, tudo que conseguimos dizer uma para a outra foi “ufa! estamos vivas”.

Não conheci a Estátua da Liberdade, quase virei uma estátua. Achei que nunca mais sentiria tamanho frio e de fato não senti em nenhum dos outros dias que lá estive, tão pouco quando fui a Londres, local que todos me falaram ser mais frio que NY. Nesta manhã, porém, acordei com dois graus negativos e sem as roupas super potentes que meus familiares me emprestaram. E, se em 2009 jurei a mim mesma que nunca mais reclamaria de frio, retiro o juramento e digo que hoje eu tenho todo o direito de fazer isso pelo simples fato de minha boca estar azul sem eu precisar colocar meu batom, mesmo eu estando dentro de casa.

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Inverno, eu te amo. Frio, te amo mais ainda.

A gente colhe o que a gente planta.

Não sou anti-Estados Unidos, longe de mim. Aliás acho a cultura deles muito legal, assim como as músicas e as artes em geral que eles produzem, embora eu discorde horrores com a quantidade de bobeiras que eles andam produzindo, coisas que vem degradado a cultura de massas de uma maneira estupenda nos últimos anos, mas bem… Os estados unidense não são pessoas más.

Hoje é dia onze de Setembro e eu me lembro de estar dormindo há 10 anos, quando fui acordada com gritos e fui correndo até a sala ver o que tinha acontecido, eram dois prédios que tinham sido atingidos por aviões lá num país bem longe. Eu achei aquela cena de destruição bonita, porque eu adoro cenas de destruição. Ver tsunamis, terrremotos, furacões e grandes tempestades pela televisão sempre foi algo que me atraiu muito. Acho inclusive que se eu tivesse nascido entre os séculos XV e XVIII seria sempre uma das primeiras na plateia durante os espetáculos de enforcamento e degolamento, assim como seria uma das mais exautadas na plateia do coliseu durante as lutas dos gladiadores lá na Roma Antiga. Eu gosto de ver desgraça. Aqueles dois prédios caindo instantaneamente foram lindos de se ver.

Fui crescendo e aprendendo um pouco mais sobre aquele país, sobre toda a história que gerou o tal “ataque terrorista” e eu nunca me importei muito com isso, não tinha acontecido comigo mesmo, foi apenas mais uma cena que vi na televisão, nada demais. Então eu fui para New York há algum tempo e acabei passando no lugar onde um dia houve dois prédios e aquilo foi realmente triste. Fizeram um memorial no lugar, uma parede de cobre com o rosto de várias vítimas e uma cena de bombeiros tentando salvá-las. O nome de todos ali e eu fiquei realmente triste vendo aquilo, nunca tinha pensado nas pessoas que estavam naquele lugar, só tinha pensado num prédio caindo. Acabei vendo vários documentários sobre o assunto e até um filme, o tal “Remember Me“, que me chamou atenção só porque era o Robert Pattinson fazendo um personagem que não tinha nenhum tipo de poder e eu queria saber se ele seria capaz de chamar atenção sendo apenas uma pessoa normal. Aquele filme mexeu muito comigo. Deixou-me reflexiva por semanas. Nunca esqueci de várias frases que aprendi ali, de várias ideias que aquilo trouxe à minha cabeça. Eram pessoas lá dentro.

Então aproxima-se o dia onze de Setembro de 2011, dez anos depois do “terrível atentado”. Todo mundo volta a falar e especular sobre o assunto, Bin Laden já foi morto, o Fantástico passa um documentário com os sobreviventes ao atentado, o Tumblr fica repleto de gente super pesarosa pelo ocorrido, no dia dez e no dia onze o assunto chega a ficar chato. Aquela típica coisa que você não aguenta mais ouvir falar sobre. Tudo bem, eu entendo que estejam lamentando pelos mortos, eram pessoas inocentes que estavam apenas trabalhando. Eram pessoas inocentes que estavam apenas voltando para casa de avião. Eram milhares de pessoas. Inocentes. Tudo bem, eu entendo que isso seja triste, pesaroso etc e tal, mas de que adianta ficar relembrando essas coisas? Vai mudar algo?

Se for assim deveríamos ficar em luto a cada dia que fosse o final de uma guerra, deveríamos ficar em luto pelos mortos em enxurradas, terremotos, tsunamis, enxentes e furacões. Se fosse assim deveríamos viver de luto, pois cada dia do ano certamente pode ser relacionado a um dia repleto de desgraças.

Mas nós não vivemos em luto.

O dia do holocausto dificilmente é lembrado, o dia dos ataques às bombas de Hiroshima e Nagasaki muito menos.

Toda essa mobilização em prol do 11 de Setembro ocorre somente porque aquilo aconteceu nos Estados Unidos, se fosse em outro país certamente já haveria sido esquecido. É que os EUA são a grande potência do momento, estão no topo da cadeia alimentar, são os reis da cocada preta. Nós somos apenas brasileiros. Um povo eternamente colonizado que deve ficar calado e chorar por todas as desgraças alheias ao invés de cuidar das nossas, chorar pelas nossas e tentar melhorar as nossas. Nós não significamos nada para o mundo. Então, pra que tentar acabar com a fome no Nordeste se podemos chorar pelo 11/09? Pra que ensinar sobre os problemas sociais locais para a população se podemos passar documentários sobre as desgraças alheias? Por que devemos cuidar da nossa grama se a do vizinho é mais atraente? Não vejo sentido algum nisso.

Isso sem contar em todas as desgraças para o mundo que os EUA já agregaram. Alguém aí já ficou em luto ou com pena das vítimas das guerras do Afeganistão ou do Iraque? Alguém já parou pra pensar nas pessoas da Palestina, no quanto elas sofrem? Sequer já pararam pra pensar que se os EUA não treinassem os muçulmanos, talvez nada tivesse acontecido com eles? Sim, porque se não tivessem treinado o Bin Laden, talvez ele nunca tivesse feito nada contra os EUA.

Então quando eu falo que acho ridículo darem tanta importância para o 11 de Setembro não é porque odeio os americanos. Odeio o modo imperialista do governo deles ser, como se fossem os donos do mundo e odeio mais ainda a importância que os outros países dão a eles, como se realmente fossem os donos do mundo. Odeio o fato de ficar todo mundo lamentando horrores por algo que matou bem menos gente do que as guerras no mundo árabe, que eles fizeram como “revanche”.

Inclusive há teorias de que o atentado de 11 de Setembro foi mandado por americanos, como uma desculpa para poderem invadir o Oriente Médio em busca do petróleo lá existente. Eu não duvido dessa teoria. Prepotentes e dinheiristas como são, é capaz de terem pensado que alguns milhares de habitantes mortos não significariam nada perto da gigante fortuna que poderiam conseguir com o petróleo.

É triste isso, mas eu deixei de acreditar na bondade do mundo e por mais que eu goste de muitas coisas provenientes dos EUA, me recuso a aceitar que o pensamento deles domine a minha mente, recuso-me a permanecer colonizada eternamente e recuso-me a aceitar que eles me digam o que é certo ou errado.

Então é isso, foi muito triste o que aconteceu em 11 de Setembro, milhares de inocentes morreram e não há nada que possamos fazer para consertar isso. Não há necessidade alguma de bajular os EUA por algo que eles mesmos buscaram.

A gente colhe o que a gente planta, já dizia a minha avó.

Eles fodem o mundo inteiro desde que se entendem por gente e ninguém faz nada. Acontece uma desgraça com eles e passam 10 anos lamentando. Não acho certo.

Nem tudo é o que parece ser.

Todos sabem que sou cinéfila e passaria todos os dias assistindo filmes se fosse possível, certo?

Hoje tive um acesso de luz e percebi uma característica muito ruim que foi herdada pela minha pessoa através dos filmes, seriados e desenhos animados.

No mundo dos cinemas, as relações entre as pessoas são muito mais intensas. Quando alguém está sozinho em casa e triste, liga para um amigo e três segundos depois esse amigo já está lá. Vivem um na casa do outro, é como se os amigos pertencessem à mesma família. O mesmo acontece com os namorados, que estão sempre juntos, não importa o que aconteça e há também os pais que não se importam com seus filhos e nunca perguntam onde eles estão indo ou a que horas chegarão em casa.

Nos desenhos animados é a mesma coisa! Em “Scooby-Doo” o grupo de amigos tem uma vã e passeiam por aí desvendando mistérios, em “Três Espiãs Demais”, elas moram juntas. Em “Pokemón”, eles nem têm família, porque estão sempre juntos e andando por aí. Em A “Turma do Bairro”, eles tem uma casa na árvore só para eles e ficam lá o dia inteiro! Enfim, não há um desenho sequer que haja alguma dificuldade de comunicação entre os membros do grupo de amigos.

Em “Gossip Girl”, por exemplo, eles moram em Nova York, que nós sabemos ser uma cidade consideravelmente grande, no entanto sempre estão um na casa do outro. Em vários casos os amigos passam a morar uns com os outros. Quando eles resolvem começar a namorar, ficam juntos o dia INTEIRO. Sempre assim.

Agora imaginem eu –  uma menina que mudou de cidade quatro vezes até os 10 anos, com uma quantidade imensa de relacionamentos interrompidos pela distância, com pais que só permitem que eu saia se eles conhecerem a companhia e o lugar para onde vou e se puderem me levar/buscar –  vendo uma coisa dessas. Fui intoxicada.

É por isso que nunca acho os relacionamentos que eu tenho suficientes. Quer dizer, eu moro em Curitiba, tenho vários amigos, mas cada um mora num canto diferente da cidade, então não dá para nos vermos com certa frequência. Há amigos que eu passo vários meses sem ver e é para isso que servem as redes sociais, para nos manter unidos mesmo com toda essa distância. Só que relacionamentos assim não são mais suficientes para mim. Quero poder ligar para alguém na hora em que eu acordar e dizer “Me encontra em 10 minutos no lugar tal”, ir ao lugar tal e a pessoa estar lá. Quero poder visitar as pessoas sem ser convidada, “invadir” casas alheias quando me sinto sozinha, quero poder sair da minha casa e visitar qualquer um dos meus amigos, onde quer que eles morem, na hora em que eu quiser ir. Quero poder pegar o celular e mandar uma sms dizendo “preciso de você aqui” e tã dã, 10 minutos depois a pessoa está na minha casa! Sério, quem não quer isso? Não parece o MÁXIMO? Mas nada disso é real. Para sair com alguém é necessário planejar muito antes. É necessário haver um local para ir e algo para fazer. Ninguém mais sai de casa apenas para andar na rua e conversar. Acho que só faço isso com uma das minhas amigas, que não mora aqui, mas sempre que vem para cá passa as tardes comigo andando por aí enquanto conversamos sobre todas as coisas possíveis. É tão maravilhosa essa sensação. Mas ninguém quer fazer isso. Redes Sociais são mais cômodas, mais fáceis de manipular e de mentir. Não dá para ver os olhos, ouvir a voz, não dá para se ter certeza de nada. Tudo que vivemos aqui pode ser uma grande falsidade.

Eis que  os filmes terminam e eu sou jogada nesse mundo real. Não é mais suficiente. Os relacionamentos não são como eu gostaria que fossem, nada é o que parece, nada é o que deveria. Ter amigos resume-se a conversar com muita gente na escola ou no msn, twitter etc e tal, só que eu não queria isso. Queria poder conversar com as pessoas de verdade, em todos os momentos que sinto tal necessidade. Queria tornar as coisas mais pessoais e intensas, só que, não tem como eu fazer isso.

E é assim que acabamos sozinhos, cada um em nosso apartamento, enquanto está um dia super ensolarado e agradável lá fora. Sozinhos, tentando fracassadamente encontrar um meio de não nos sentirmos assim.

Por isso sou frustrada. Culpa dos filmes. Malditos.

Depois de ler isso, que tal sairmos sem rumo para conversarmos um pouco? 

Bons tempos em Liverpool

Quem nunca ouviu uma música dos Beatles certamente vive em um mundo paralelo onde não se escuta músicas. Mesmo que você não goste do estilo deles, odeie inglês, não entenda ou simplesmente ache ridículo gostar de algo que todos gostam, você já ouviu uma música deles. É praticamente impossível viver alheio a esses quatro garotos.

John, Paul, Ringo e George modificaram a música para sempre. Existe um mundo antes de beatles e outro depois de beatles.

E quem sou eu para falar deles?

Sou uma recém apaixonada pela banda.

E por quê?

Não porque sou grunge ou qualquer coisa do tipo, simplesmente porque eles mexem comigo, lá dentro. Suas músicas possuem letras lindas, melodias maravilhosas, as vozes deles são impecáveis e a mensagem que seu universo nos passa é simplesmente linda demais para ser deixada de lado.

Músicas como Imagine, All You Need is Love, Hey Jude e Strawberry Fields Forever simplesmente me levam para um universo paralelo onde tudo é lindo, possível, onde a revolução do amor vence o resto do mundo, eles me levam a um estado de extase, onde eu simplesmente sei que tudo pode ser bom.

E uma das merdas de eu ter nascido no fim da década de 90 é jamais poder presenciar um show deles. Vivo imaginando a magnitude de um show desses quatro caras, acho que eu ficaria feliz pelo resto da minha vida se pudesse vê-los, ouví-los pessoalmente e gritar suas músicas como se fossem minha própria alma.

Beatles para mim é vida. Eles me ensinaram muitas coisas, dentre elas a acreditar no amor. E a cada vez que penso em desistir do amor, que penso em me render ao mundo cruel e penso em virar uma maldita igual a todo o resto, basta eu ouvir a voz do Lennon me dizendo que tudo que eu preciso é amor para eu perceber que realmente, se tivermos amor não precisamos de mais nada.

E se você nunca teve a oportunidade de se apaixonar por Beatles, nunca sonhou em ir a NY só para ver o prédio em que John Lennon morreu, nunca tirou fotos no memorial dele, nunca viu suas estátuas de cera e se sentiu o máximo, nunca sonhou em frequentar seu show, nunca ficou puta por não terem deixado você ir no show de McCartney, assista a “Across The Universe”. E, se mesmo depois desse filme você ainda não gostar deles, não haverá problema algum, afinal cada um é cada um, mas pelo menos você terá visto como eles são belos.

Meu atual sonho é poder conhecer Liverpool, tirar uma foto na famosa faixa de pedestres e visitar os lugares por onde eles passaram e tocaram. Preciso me sentir perto dos Beatles. Preciso achar que estão vivos. Só assim ainda consigo idealizar um mundo melhor.

Para mim, não gostar de Beatles é como viver sem chocolate: impossível e desgostoso.

Nacionalismo.

Eu tinha 10 anos e aprendi a falar “lóve, mather, father, brother e sister”, sabia que “pink” era rosa e que “orange” era laranja.

Assistia a vários filmes, achava as paisagens e os lugares lindos, mas nunca cogitava a possibilidade de conhecê-los algum dia.

Participava de desfiles no dia 7 de Setembro, sempre achei um absurdo dia 22 de Abril não ser feriado e uma das primeiras coisas que aprendi a desenhar foi a Bandeira do Brasil.

Com 10 anos eu sabia o Hino Nacional e o da Independência de cor.

Sempre fui apaixonada por história e isso fez com que eu soubesse todos os presidentes do Brasil em ordem cronológica.

Com 10 anos eu imaginava meu futuro em uma casa grande, com todos os meus filhos, no Brasil.

Claro que passei pela fase “Vou ser atriz e morar em HollyWood” e também pela fase “Aprenderei francês e morarei em Paris”, mas depois que tive a oportunidade de ir aos Estados Unidos, percebi que jamais conseguiria me afastar do Brasil por muito tempo.

Lógico que tenho uma imensa vontade de conhecer o mundo inteiro, pesquisar culturas e analisar pessoas, comportamentos, fatos sociais e coisas do tipo, mas quando paro para pensar na minha casa, penso no Brasil.

Hoje olho para crianças de 10 anos e elas não sabem quem foi Monteiro Lobato ou que o Brasil tem um Hino Nacional. Não sabem o que significa dia 7 de Setembro e muitas desconhecem que houve 20 anos de Ditadura Militar por aqui. Em compensação essas crianças sabem quais são as novas músicas do Justin Bieber, quem é Stephanie Meyer, como Mc Donalds é gostoso e que 4 de Julho é o dia da Independência dos Estados Unidos. Com 10 anos as crianças sonham em completar 15 só para conhecerem a Disney e acreditam sinceramente que qualquer país é melhor que o nosso.

Sinto que os brasileiros possuem certa vergonha de pertencerem à esta nação, mas nunca entendi porque.

Temos a floresta que o mundo inteiro deseja, a boa vontade, o acolhimento e a reciprocidade que falta em todo o resto do mundo. Temos uma diversidade enorme de alimentos e fontes abundantes de água. Além das riquezas naturais, estamos crescendo na economia, merecendo o respeito de diversos países que há alguns anos nem sabiam de nossa existência. Estamos melhorando no cinema e exportamos músicas de altíssima qualidade. Nossos autores clássicos são maravilhosos e viver aqui é o sonho de qualquer turista que venha nos conhecer. Não só pelas lindas praias, o carnaval, futebol e as lindas bundas que as mulheres brasileiras possuem, estamos sendo valorizados porque merecemos isso.

Claro que temos diversos problemas sociais, mas todos os países têm, a diferença é que não moramos nos outros países, portanto só conseguimos enxergar as coisas boas que eles possuem.

E quanto a nós? Garanto que vários de vocês conhecem 3 ou 4 países diferentes, mas já passou pela sua cabeça conhecer a Amazônia?O Nordeste? O Cerrado? E quanto a Nova York? Los Angeles? Las Vegas?

Por que os brasileiros têm tanta necessidade de sair daqui para buscarem sua felicidade enquanto a felicidade pode estar em qualquer lugar, desde que você esteja disposto a encontrá-la?

Sabem… Eu amo o Brasil. Eu realmente amo esse país. Se tivesse uma guerra eu entraria no exército e lutaria pelo Brasil, não importa contra o que a guerra fosse, porque, no fim das contas, aqui é a minha casa, é daqui que eu vim. Dessas terras lindas, com índios maravilhosos e portugueses malvados. E se você não sabe porra nenhuma sobre a história do seu país ou nunca se interessou por aprender sequer a letra do seu hino nacional, você não merece habitar nessas terras. Você é um mau brasileiro e deveria mudar-se para os EUA, virar um obeso e morrer de pressão alta. Parem de odiar o meu lindo e amado país.

“O chão onde país se elevou
A mão de Deus abençoou
Mulher que nasce aqui
Tem muito mais amor

O Céu do meu Brasil tem mais estrelas
O sol do meu país, mais esplendor
A mão de Deus abençoou
Em terras brasileiras vou plantar amor

Eu te amo, meu Brasil, eu te amo
Meu coração é verde, amarelo, branco, azul-anil
Eu te amo, meu Brasil, eu te amo
Ninguém segura a juventude do Brasil

As tardes do Brasil são mais douradas
Mulatas brotam cheias de calor
A mão de Deus abençoou
Eu vou ficar aqui, porque existe amor”

Eu te amo meu Brasil – Os Incríveis