Kriptonita

Eu nunca fui uma pessoa estudiosa e isso sempre atormentou a minha mãe, que tinha na cabeça que eu era a criança mais inteligente do mundo e se estudasse seria uma adulta de extrema importância para o universo. Nunca vi necessidade em estudar, sempre consegui acompanhar a escola sem o menor esforço. Sempre fui uma das mais bagunceiras da sala, que ia pra diretoria quase toda semana por ter feito alguma arte, mas que nunca levava suspensões ou afins porque todas as notas eram em torno de nove.

Aí eu cresci e a gente veio morar em Curitiba e minha tia resolveu que precisava investir na minha inteligência e ia pagar uma escola particular. E eu continuei sem estudar e indo bem, mas detestava a escola porque as pessoas eram péssimas e eu era inocente e boazinha demais pra ficar naquele mar de meninas malvadas. Então rebelei-me e bati na minha “melhor amiga” e fui pra diretoria e minha mãe nunca soube, porque consegui contornar a diretora, mas meu coração ficou em pedaços, porque eu podia ser a pessoa mais pra frentex do mundo, mas estava fora de cogitação essa coisa de decepcionar minha mãe. Então pedi pra mudar de escola e voltei pra escola pública. E voltei a ser inteligente, a não precisar me esforçar e a ter coleguinhas que me compreendiam e não despertavam em mim meu espírito rebelde maligno.

Só que minha família não tem jeito mesmo e resolveram que iam realizar meu sonho, que era estudar na escola aparentemente mais legal da cidade – e consequentemente mais cara. Minha tia entrou em ação novamente como benfeitora e lá fui eu, morrendo de medo de finalmente ter que começar a estudar pra acompanhar algo. E eu não precisei. Nos primeiros anos minhas notas mantiveram-se acima de nove, exceto pelo 8,5 em geografia, que na oitava série era minha matéria mais odiada. Então chegou o ensino médio e eu estava cansada de ter que rever tudo aquilo que já tinha estudado e desencanei e as notas despencaram, mas continuei sem me esforçar e ainda assim passei em tudo.

Minha filosofia de vida sempre foi a de que a gente não deve “estudar para prova”, porque a prova serve pra testar se a gente aprendeu algo, então se a gente tiver aprendido, na hora da prova vai saber! Só que, claro, esse método só funciona se a gente não dormir nas aulas e se esforçar ao máximo pra prestar atenção. E eu sempre fiz isso, muito bem por sinal. Sempre fui aquela aluna que senta nas primeiras carteiras e que acena com a cabeça a cada frase compreendida, enquanto faz anotações que só a mim fazem sentido e faço comentários sobre a matéria em voz alta, mas na intensidade mais baixa possível, e sempre acabava sendo ouvida pelos professores e passando vergonha. E eu sempre me ferrei na vida por aprender somente aquilo considerado inútil para o grande povo.

É claro que eu não queria saber como funcionava um circuito elétrico, mas era tão interessante entender como faz pra acender duas lâmpadas com um só interruptor que bastava eu olhar a matéria sob esta perspectiva que ela acabava por fazer sentido para mim. E eis que eu, sem nunca ter pego em nenhuma das apostilas de exercício que no terceiro ano custaram cerca de mil reais para o bolso da minha pobre mãe que sempre sonhou com uma filha esforçada e inteligente, acabei por passar no curso que eu quis, do jeito que eu quis e acabei comprovando que minha filosofia de vida de fato funciona.

Faz dois anos que não encosto em um livro de matemática, física, química, geografia ou numa gramática ou um livro de história literária. Eu ainda sei a fórmula de baskhara e diversas outras formas de geometria de sólidos, além de saber usá-las, claro. Sei também muita coisa de álgebra e os conceitos daquelas chatíssimas funções, essas eu não sei usar  – e por isso quase reprovei em estatística – mas sei sua fórmula base e sei a diferença entre uma função exponencial e uma de segundo grau, por exemplo. Sei muita coisa sobre circuitos elétricos e sobre espelhos e óptica, mas não ousem me perguntar algo sobre mecânica, porque eu nunca vi sentido em alguém se pesar dentro de um elevador. Sei várias peculiaridades dos prótons, neutrons e elétrons, mas gosto mesmo é da química orgânica, com seus etanóis e afins que por mais que eu não lembre como escrevê-los, se me derem uma fórmula as chances de eu saber nomeá-la são muitas. Geografia tornou-se uma das minhas matérias preferidas no ensino médio e é claro que eu sei sobre o relevo e sobre a localização dos países, estados e capitais, além de saber um pouco sobre as pirâmides etárias e as rotações planetárias, já até tentei fazer um calendário para Marte! Até hoje recordo-me também dos períodos da literatura e quando escuto o nome de algum dos autores que meu professor trabalhava, sei de qual período faz parte e sua principal obra. Ainda sou apaixonada pelos ultra-românticos e nunca esquecer-me-ei da morte demoradíssima do sr. Werther. De biologia, confesso, só lembro das aulas de sistema reprodutor, o resto é um borrão em minha cabeça e a parte menos inebriada é a que consta a lei de mendel, porque por causa dela eu quase reprovei o segundo ano.

No entanto, minha mais amada é e sempre foi a gramática. O livro mágico que entrei em contato pela primeira vez com seis anos, quando mamãe dava aula de reforço para eu e minhas coleguinhas, na cozinha da nossa casa. A gramática apresentou a mim um mundo mágico em que há diversas regras para uma coisa simples, como escrever. E eu sou eternamente apaixonada por ela. Enquanto todas as pessoas  a desconsideravam porque “não cai no vestibular”, era uma das poucas matérias que me fazia chegar em casa e ter vontade de fazer o dever. De decorar todos os pronomes do mundo e suas utilizações. De fazer inúmeras tabelas coloridas para que eu nunca esquecesse as formas de orações subordinadas existentes e seus usos. É claro que tudo isso é culpa do professor da oitava série, que dava bombons pros melhores alunos e também do professor do ensino médio, que era completamente assustador e que eu adorava surpreender com minha tradicional nota máxima em sua prova, enquanto todo mundo errava uma ou outra coisa e enquanto ele duvidava da minha capacidade, porque tudo que eu fazia era conversar. Eu sei que cometo muitos erros gramaticais e que hoje não tenho todas as regras claras em minha mente. Sei que nunca consegui aprender quando uso “mal” ou “mau” e sempre tenho que parar e pensar por uns trinta segundos antes de me decidir. Sei que não sei usar pontuações, que escrevo repetitivamente e que meus textos acadêmicos são deploráveis, mas… Ai como eu amo a gramática. Ai como dói o coração e a alma ler coisas com erros grotescos. Ai como dá orgulho em terminar de ler algo e não ter me deparado com nenhum erro. Gramática é aquela coisa que eu tenho vontade de morder, comer, engolir, carregar em mim pra sempre e nunca esquecer da existência.

Eis que eu, com 19 anos e depois de dois de faculdade, muito mal aproveitados porque lá não se esforçar não funciona, mas eu meio que desisti de tentar me esforçar, porque não faz parte de mim. Eis que depois de ter tirado as maiores notas no meu curso em matérias de história ao invés de matérias do meu próprio curso, porque supostamente história é e sempre foi a matéria da minha vida, descubro que mesmo eu sabendo detalhes sórdidos sobre a história mundial e do Brasil, mesmo lembrando como se fosse ontem das frases de efeito que meus professores não cansavam de usar e mesmo sabendo que eu queria muito poder viajar no tempo para ver com meus próprios olhos como o mundo funcionava em seus diferentes períodos… Eis que eu tenho uma epifania surgida do além e descubro que a matéria da minha vida é gramática. Que nada nunca vai me excitar mais do que fazer uma análise sintática, uma conjugação verbal ou simplesmente relembrar a época em que eu estudava as formações de palavras, suas desinências linguísticas, a formação de frases e ai. Gramática. Aí está minha kriptonita do universo nerd.

{É claro que continuo te amando, antropologia linda.}

“Ai, por que você não estuda letras então, se ama a gramática tanto assim?” Tem coisas que a gente deixa só no hobby, se não estraga.

Eu escolhi esperar.

Quando envolve religião, a internet vira a coisa mais engraçada do universo.

É um tal de “Igreja opressora” pra cá “papa eu te amo” pra lá e gente que não tá nem aí com nada disso ali no meio, sem saber pra que lado olhar. Eu escolhi rir.

Rir porque sim, eu acho a Igreja opressora e concordo que ela atrasa o caminhar do mundo e que a gente poderia ter alcançado muito mais se não tivesse que ficar preso a dogmas e a uma moral que nunca foi reinventada e só dá dor de cabeça. Só que, ei, eu já fui católica. Por muito tempo. E eu com certeza teria ido pra JMJ se ainda fosse católica, porque eu gostava daquelas músicas e porque, como já diziam os Engenheiros do Havaí “o papa é pop”. Se eu paguei por um ingresso pro RIR pra um show que nem me interessa muito, nem faz sentido pensar que eu perderia um evento com o supra sumo da popularidade DE GRAÇA, no MEU PAÍS. Era muita gente, de muitos lugares. Era minha família ali, rindo, festejando e colocando mil e uma fotos na internet dizendo “por que você não veio?” e, bem, eu sei porque eu não fui. Eu tenho todos os meus motivos para isso. Mas passar um final de semana inteiro ouvindo um velhinho falar em uma língua arrastada na televisão da minha casa enquanto mamãe anotava cada palavra em seu caderninho e ficava gritando “tá vendo Mayra, o papa falou!” me fez lembrar de como era divertido ser católica. De como era legal essa coisa de nascer achando que a vida já tem um plano a ser seguida, que obrigatoriamente a gente vai casar e ter filhos e nunca mais vai fazer sexo, porque ele só serve pra procriação, quem é que ia querer fazer por outros motivos? É nojento. Essa coisa de nunca ver novela ou ouvir Britney Spears, porque não pode entrar em contato com coisas do “mundo”. Lembrei de como eu me arrependo horrores por ter queimado todos os meus brinquedos e filmes da Disney enquanto era criança, mas que na época eu me achei um máximo por ter me livrado do “demônio”. Lembrei-me também de como mais da metade do meu cérebro é ocupada por músicas de Igreja, que basta eu ouvir a primeira palavra que já sei a letra inteira e, na maioria das vezes, sei quem inventou a música e em quais momentos ela é geralmente utilizada. Eu gostava de ser católica. De ir à missa ao domingo e passar o dia inteiro fazendo tapete pra Corpus Christi. De chorar em toda sexta-feira santa e de passar 4h na missa de sábado, porque era divertido, porque era o certo, porque era assim que a vida devia ser.

Eu queria conseguir explicar pra minha mãe o que aconteceu pra que eu parasse de pensar assim. Recentemente resolvi colocar a culpa na quinta série, porque foi lá que eu aprendi pela primeira vez que a bíblia estava errada e que o mundo tinha surgido a partir de uma explosão e não da vontade de Deus e que se a bíblia podia estar errada nisso, também poderia estar errada no resto. Mas eu acho que o que me fez perder a “pira” na coisa foi a preguiça mesmo. Essa coisa de ter que acordar de manhã no domingo pra ouvir um velho falar um monte de coisa magistralmente escrita, mas pessimamente explicada e em seguida um monte de gente repetindo tudo, como se fosse um bando de robô que não precisa pensar porque tá tudo ali e ai. Era tudo tão chato e cansativo. Os mesmos argumentos sendo repetidos o tempo inteiro. A mesma coisa, sempre. E quando eu conseguia ficar acordada e prestar atenção no que o padre falava eu me irritava tanto com a quantidade de coisas sem sentido ou puramente desinteressantes que achava mais estressante ir até aquele lugar do que ficar em casa.

De repente eu parei de acreditar, parei de achar que aquele pedaço de pão era Jesus e passei a questionar a existência de Jesus. Ressignifiquei o livro chamado bíblia e decidi que eu não precisava de nada daquilo pra entender o mundo de um jeito produtivo, porque, no fim das contas, aquelas coisas eram apenas parte de uma cultura tão intrínseca à mim que eu jamais cheguei a questionar. Um dia eu sentei no meu quarto, peguei minha bíblia e toda a minha história e fui questionar cada parte que me lembrava e não encontrei sentido nenhum, em nada. Então eu desisti. Passei a ficar longe de todas as coisas que envolvam Igreja e religião porque sei o quanto machuca a minha família o fato de eu não ser nem um pouco interessada nessa coisa toda, nunca os questionei e me esforço ao máximo para não falar nada que os irrite, tentando respeitá-los, porque sei que não posso exigir isso deles.

Eis que hoje resolvi ser tolerante e passei dez minutos vendo o papa falando para os jovens e, enquanto mamãe concordava com a cabeça, minha tia dizia que ele era lindo e que estava certíssimo e minha prima de 12 anos concordava com tudo, sofri para conseguir prender meu riso. Porque nós, os humanos, chegamos ao cúmulo de um papa (que é chamado de “santo padre” desde que vira papa, mas depois que morre precisa passar pelo processo de santificação como qualquer outro, caso venha a de fato ser santo) ter que olhar pra cara dos jovens e dizer “eu acredito em vocês. Vocês precisam mostrar pro mundo que o amor ainda existe e que o casamento não está fora de moda. Vocês precisam mostrar ao mundo que ainda dá pra amar de verdade.”

É isso? Nos tornamos criancinhas o suficiente pra ter que ouvir de um papa – um velhinho extremamente ocupado com coisas mais importantes, como ser contra o uso de contraceptivos e o aborto – que somos capazes de amar? Só porque resolvemos aproveitar nossa solteirice e juventude antes de planejar casar, ter filhos e viver a vida chata que toda criança católica nasce se imaginando em? Por favor, senhor papa, isso não tem nada a ver com não saber amar. Pelo contrário, tem a ver a saber amar TANTO que escolhemos esperar estar maduros e independentes o suficiente pra conseguir levar isso adiante. Significa que amamos tanto a nós mesmos que não precisamos ficar procurando a outra metade da laranja para dividir a vida pra ver se ela faz sentido, porque ela faz sentido pelo simples fato de existir. Desculpe-me, eu sei que você é um velho fofinho que fala “xófens” de um jeito encantador, mas eu escolhi esperar – por um momento que, com fé, não vai chegar –  e enquanto isso aproveito a vida sem medo de ser feliz.

Desilusões

“Qual seu maior sonho?”

“Ficar em recuperação.”

“Sério? Eu fico todo bimestre desde a segunda série e não tem nada de legal nisso”

“Ah, eu nunca fiquei, parece divertido!”

“Então não estude e fique!”

“Mas eu não estudo e mesmo assim não fico.”

Acordar às 10h para ir à aula que começaria às 13h. Não, não era pra fazer tarefa de casa ou estudar para a prova, era pra ver os desenhos legais que passavam naquela hora. Almoçar, ir pra escola, prestar atenção nas aulas, conversar como se esse fosse o intuito principal do ato de “estudar”. Voltar pra casa, ler livros aleatórios, fazer a tarefa de inglês do meu irmão, brincar de barbie, tomar banho, arrumar as unhas, assistir novelas mexicanas, fazer as tarefas de casa e dormir.

Estudar de manhã. Tomar banho e café da manhã antes da aula, o que requeria acordar duas horas antes da mesma iniciar porque lerdeza matinal sempre foi um de meus nomes do meio. Ir pra escola e não entender nada porque não era mais uma escola católica e eu tinha que entender que o mundo foi o resultado de uma grande explosão e que eu na verdade fui um macaco. Mudar tudo que fui ensinada a acreditar com o intuito de ser capaz de passar de ano. Fazer péssimas amizades. Espancar pessoas. Manipular a diretora. Voltar pra casa e dormir a tarde inteira, acordar e assistir filmes ou conversar no MSN. Brincar de Barbie, escondida porque já não era mais criança.

Estudar de manhã, desistir do banho e ficar só com o café da manhã. Pegar ônibus com o irmão e frequentar a escola mais fácil da vida. Não prestar atenção em nada, ficar conversando e lendo coisas aleatórias. Ir bem sem fazer a menor ideia de como. Teatro, natação e aula de inglês. Novelas mexicanas, músicas e unhas pintadas cada dia com uma cor diferente.

Estudar de manhã em uma escola difícil, chegar atrasada quase todos os dias e conseguir ir bem contra tudo o que esperavam. Passar de ano com notas fenomenais sem nunca ter encostado em um livro, sabe-se lá como. Passar as tardes absurdamente encantada com o universo teatral e escrevendo mil e uma histórias, enquanto lia meus mais de cinquenta livros anuais e imaginava um mundo em que eu pudesse apenas fazer isso ao longo de todos os dias.

Estudar de manhã e ter preguiça de tomar café e de estudar e de prestar atenção. Dormir na aula pela primeira vez na vida e em seguida faltar aulas e mais aulas para ir a uma praça perto da escola acompanhar os “amigos errados”. Conseguir, finalmente, a primeira recuperação da vida, na matéria que sempre foi a mais odiada por não fazer nenhum sentido, afinal, qual a utilidade de saber de que uma célula é formada? Passar por essa recuperação e virar freguesa das mesmas, que me acompanharam por todos os bimestres ao longo do ensino médio inteiro. Pegar duas recuperações finais por causa de um décimo e ter vinte dias a menos de férias por isso, sendo motivo de piada do professor que jamais acreditou que era eu naquela situação. “Você desistiu de estudar?” “Não! Eu nunca estudei!”

Ter 14 anos e trocar e-mails com sua melhor amiga, no auge da revolta falar que “tô tão puta que nem vou estudar pra essa coisa de vestibular e aposto que mesmo assim eu passo!” e receber bronca e uma resposta “quero ver você falar isso daqui a três anos” e eu não falei. Mas também não estudei. Eram oitenta perguntas e eu precisava acertar trinta pra passar, era impossível que eu fosse tão burra assim. Não estudei e passei em uma boa posição, porque ENEM – essa prova linda – existe e porque eu escrevo mil e uma histórias e afins desde que tinha por volta de onze anos.

Faculdade. 120 páginas em textos para serem lidos em dois dias na primeira semana, sendo um dos textos de Focault, aquele filósofo que eu nunca entendi. Continuei sem entender e não entendo até hoje, diga-se de passagem. Li todos os textos e fiz todas as provas após estudar um monte. Greve. Quatro meses longe daquele universo. Quando voltei nada mais foi o mesmo. Nunca mais consegui ler um texto x para a aula de amanhã. Passei a acumular tudo para supostamente ler na véspera da prova e quando a véspera da prova chegava eu olhava pras quase mil páginas acumuladas, chorava, lia meu caderno e tentava encarnar alguma pessoa inteligente que saberia responder àquelas perguntas.

E eu passei. Em todas as matérias. Fiz vários trabalhos durante a madrugada porque tinha esquecido da existência, demorei meses a fazer outros porque queria que fossem perfeitos, esqueci de fazer alguns, fiz outros baseando-me em resumos dos textos que encontrei na internet. Tudo mal feito. Tudo nas coxas. Tudo vergonhoso. Tudo pra fazer a pessoa que fui aos treze anos morrer de vergonha.

Aí eu reprovei.

É isso.

Oi, eu tenho dezenove anos e acabo de reprovar em uma das matérias mais fáceis que já tive a oportunidade de fazer porque sou incompetente e ao invés de prestar atenção nas aulas eu dormi. Dormi, saí para passear, fui para o laboratório de informática, fiquei na cantina, no pátio, na biblioteca, em centros acadêmicos que nem eram do meu curso, em casa, ou lá mesmo, mas com a cabeça em qualquer outro lugar. Reprovei porque a primeira prova da matéria foi no mesmo dia que a prova da matéria que envolve matemática e, dado meu histórico de ensino médio nada confiável neste quesito, resolvi que iria estudar para esta. No fim, a prova que envolvia matemática era mais fácil que a outra porque a matéria teria 5 avaliações, enquanto que a outra teria apenas duas. E daí eu fui pessimamente mal na primeira prova e fiquei com preguiça de estudar para a segunda, porque minha procrastinação e preguiça são agudas o suficiente para eu surtar ao ler a primeira frase de um texto de uma matéria que eu sei que nada sei e que não vou passar mesmo que eu tente, então, bem, pra que tentar? E daí eu nào tentei. Não estudei. Fiz a prova de qualquer jeito. A matéria é importante demais para que eu passe sem saber nada, pensei, melhor fazer de qualquer jeito e refazê-la decentemente algum dia. Mamãe concordou com minha linha de raciocínio. Eu deveria estar aliviada. Tudo deu certo. Eu realizei meu sonho. Eu reprovei. Eu. A pessoa que tentou suicídio por ter tirado 6,8 numa prova que valia 7 porque isso faria com que eu não ficasse com 10 na média. Eu. Atingi o nível de desprendimento para com notas que sempre almejei e simplesmente reprovei. Porque eu quis. Porque eu não quis. Porque tive que. Reprovei. É isso. Pronto. Satisfeitos?

Podem rir da minha cara agora. Ou não.

Enquanto passa pela cabeça dos que me conhecem que eu devo estar absurdamente destruída e que “ah, agora ela vai levar a vida a sério”, não. Eu passei a tarde dormindo, depois de ter comido um monte de chocolate e estou prestes a ir comer de novo e a terminar de ler um livro legal para, quem sabe, durante a madrugada terminar algum dos mil e um trabalhos que tenho que entregar na semana que vem. Ok. Reprovei em uma matéria, não quero reprovar em todas, mas não preciso ser super nerd. Não preciso ler todos os textos, saber todas as coisas e ter notas impecáveis. Eu não preciso provar pra ninguém que sou capaz de alguma coisa, eu prefiro a ilusão de que talvez se eu me esforçasse eu seria a melhor aluna do mundo, mas como não me esforço devo contentar-me com o comum. Qual o problema no comum?

Sim. Estou chateadíssima por ter reprovado, porque eu sempre quis reprovar, mas tinha que ser numa matéria difícil pelo menos. Duvido que eu consiga me concentrar para fazer decentemente algum dos meus outros trabalhos porque isso vai ficar martelando na minha cabeça ad infinitum e eu vou me deprimir e vou chorar e me entupir de chocolate e agir como se nada tivesse acontecido enquanto dou risinhos nervosos.

Cadê os abraços e as palavras amigas?

Ao Avesso

Acordei cedo hoje, ainda não eram nem 18h.

Tomei meu banho, comi uma coisa e fui conferir a quantas anda minha vida internética.

Não, eu não estou de férias. Apenas decidi viver um dia às avessas. Um desses anseios toscos que invadem nosso peito às vezes.

Então eu acordei e percebi que estava faltando cerca de uma hora para começar a escurecer. Ri sozinha enquanto ouvia as reclamações da minha mãe dizendo “você faltou aula para dormir de novo!” “mas dormir é bom!” “mas a gente tem que dormir de noite!” e ai… quem foi que inventou isso?

Não que eu tenha algo contra o dia, longe de mim. Ele é bonito as vezes, tem seu charme. O céu azul me encanta, ainda mais quando está surrupiado por cumulus-nimbus, porque sim eu tive minha fase de decorar as nuvens e as constelações e passar horas e horas tentando identificá-las. Eu gosto do Sol brilhando enquanto o vento bagunça meu cabelo e gosto de quando tudo resolve ficar cinza e a chuva me banha de graça enquanto ando pela rua. Mas a noite também precisa ser valorizada.

Tudo começa com o pôr-do-Sol, que é bem mais bonito que o nascer do mesmo. A partir daí começa uma abundância de maravilhas que se concretizam quando há uma coisa branca sorrindo pra você lá em cima. Porque a Lua simplesmente sorri. Ela é o Cheeshire cat de Alice que fica sorrindo pra gente o tempo inteiro e a cada dia ela sorri com mais ênfase, até que atinge seu ápice e começa a murchar de novo e daí eu me esforço horrores pra fazer a vida ser divertida o suficiente para que ela volte a sorrir de novo, porque eu gosto do meu cheeshire, eu gosto da Lua.

As vezes as estrelas aparecem também e começam a dançar com ela e com as nuvens e com as luzes dos aviões que passam pelo meio do caminho e com a névoa que aparece e deixa tudo laranja, mesmo estando no meio daquilo que as pessoas chamam de “noite”.

Quem foi o animal que decidiu que a noite seria noite e o dia seria dia? Quem foi que inventou que a gente tem que acordar super cedo e ir dormir na hora em que o céu e o kosmos estão mais sorridentes, bonitos e amistosos? Porque é que não pode ser ao contrário?

Hoje foi tudo ao contrário. Não fui à aula, não almocei, tomei meu café da manhã pouco antes das 18h. O almoço dar-se-á por volta de 22h, porque sou gulosa e a partir daí fartar-me-ei em meio a doces, misturas e ceias que permearam toda a minha noite, que hoje eu elegi para ser meu dia.

Em um mundo perfeito estaria encaminhando-me à universidade por agora e voltaria à meia noite, só então faria todas as outras coisas que faço naquele período que chamam de “tarde” e na hora que o Sol nascesse eu ia tomar meu banho e dormir o dia inteiro. Nem é porque é legal ser do contra ou porque dormir de dia é mais descansante do que dormir à noite. Quer dizer, eu realmente descanso mais quando durmo de dia e eu realmente gosto de ser do contra, mas o que posso fazer se a noite me encanta muito mais? Se quando o dia fica escuro é como se algo aqui dentro se iluminasse e dissesse “uhul, está na hora da gente viver”? O que posso fazer se na verdade a convenção social eleita como correta para o geral não me contempla? O que fazer se o dia não me representa?

Sinto-me defronte a mais uma de minhas propostas de revoluções que jamais serão colocadas em prática. Mas as férias existem, os dias de greve geral de mim mesma para com o resto do mundo também e ainda bem que eles existem porque só em momentos assim eu vejo que ainda vale apena existir.

Afinal, qual a graça de sentar numa cadeira para estudar durante o dia, enquanto ele está lindo maravilhoso e convidativo para um sorvete no parque com gente querida? Não dá. É impossível. Sempre me rendo ao sorvete. Só que de noite ninguém faz nada, de noite o silêncio reina e quem o quebra são as caixas de som dos carros das ruas que passam com músicas hilárias, que só servem para me animar ainda mais a fazer aquilo que eu deveria. Porque de noite nem dá vontade de tomar sorvete, de noite a gente pode tomar litros e mais litros de café, com todas as misturas possíveis e fechar com um bom bolo de caneca enquanto vemos aquele filme que nos dá sono na hora em que resolvemos dormir.

Se algum dia eu resolver fazer algo da vida, será uma escola/universidade/emprego que fucione a noite para que pelo menos alguns felizardos possam aproveitar os dias da maneira como devem.

Paradoxos

Sem face.

Eu queria que todos os seres humanos fossem rostos inebriados que passam por nossas vidas. Queria que todos eles fossem uma tábula rasa, prontos para que nós déssemos o significado que temos vontade.

Com face.

Queria que todos os seres humanos tivessem apenas rostos, fossem rostos andantes que se cruzam por aí e despertam anseios distintos em cada um que encontram. Queria que todos fossem apenas rostos.

Nada.

Talvez pudéssemos apenas ser um nada. Um amontoado de células vivas que respiram e agem de acordo com o que foram programadas a fazer, ingenuamente achando terem escolhas próprias.

Tudo.

Eu e você sendo tudo o que quisemos ser, com face ou sem, tudo ou nada, nessa simples metamorfose ambulante e no eterno equilíbrio entre o real e o imaginário, pendendo sempre para o segundo.

Seres perambulantes que em nada influem, mesmo achando que influem em tudo.

Apenas rostos. Sem nome. Sem história. Cada um cumprindo seu papel para o funcionamento do mundo e deixando todo o resto seguir da maneira que deve. Naturalmente. Mesmo que o natural há muito não exista.