Beyoncé e MC Carol: duas lutas, o mesmo objetivo – o fim da violência policial contra jovens negros.

          Eu não sou a pessoa mais adequada a falar sobre a questão racial/colorista, pelo fato de ser branca. No entanto, senti-me na obrigação de vir falar um pouco sobre o assunto. Caso eu fale alguma coisa errada, peço para que me corrijam através dos comentários.

        O povo europeu e branco colonizou mais da metade do mundo e realizou isso através da supressão da cultura raiz. No Brasil, por exemplo, sabemos pouquíssimo sobre os povos indígenas que aqui habitavam – exceto que a gente se dedique a estudar sobre isso. Não é um conhecimento acessível a todas as pessoas, não é algo que aprendemos na escola. Na escola a gente aprende sobre os vitoriosos, sobre os europeus brancos que colonizaram mais da metade do mundo. E nas aulas de história da escola eles sempre parecem certos, bondosos e amáveis. Mas quando a gente para para pensar no outro lado, nas pessoas que foram oprimidas por esses colonizadores, percebemos que não é bem assim que funciona.

          Os povos colonizadores tinham uma enorme resistência a qualquer coisa que fosse diferente do que eles acreditavam correto. Por essa razão, haviam muitas guerras religiosas e civis, genocídios e ataques. Por essa razão, pessoas fisicamente diferentes do padrão europeu branco, não eram consideradas pessoas. A relação entre os colonizadores e os indígenas brasileiros se deu, primeiramente, a partir disso. Há vários relatos de “testes” para ver se os indígenas eram pessoas. Com os povos africanos, a coisa ocorreu mais ou menos da mesma forma. Por terem a cor de pele diferente da branca europeia, não eram pessoas. Por andarem pelados (em ambos os casos), falarem línguas diferentes e cultuarem a natureza e não um deus criador, não eram humanos. Eram animais. Eram selvagens. Precisavam ser suprimidos, educados, civilizados, consertados. E, na cabeça dos colonizadores, um meio eficaz de realizar esse processo era através do trabalho forçado. 

        Mas, vamos lá, o processo de colonização dos europeus para com mais da metade do mundo ocorreu entre os séculos XV e XVIII, que foi quando a maior parte desses países colonizados começou a lutar pela independência frente aos colonizadores. E, quando essa independência aconteceu e os colonizadores foram embora, não levaram junto essa ideia bizarra de que as pessoas diferentes têm que ter o estatuto de humanidade questionado. 

      No quesito social, já era óbvio que para os brancos europeus da época da colonização as mulheres também não eram iguais aos homens. Elas eram consideradas humanas (o que já é menos pior do que os negros e indígenas), mas não uma humana capaz de realizar atividades importantes para o desenvolvimento da humanidade. A primeira mulher a quebrar com esse paradigma europeu nessa época, que eu me lembre, foi a rainha Elizabeth. Mas, ainda assim, ela passou por inúmeras represálias até atingir o estatuto de rainha mandante.

       Porém, apesar dos pesares, as mulheres eram gente. Agora, após a independência dos países colonizados e quando os indígenas e negros passaram a avançar no estatuto de humanidade e começaram a ser tratados como pessoas, essa diferença entre os homens e as mulheres também prevaleceu. Se, a princípio, o diferente era animalesco, selvagem e a divisão sexual pouco importava, a partir do momento que começou a se considerar os negros e indígenas como humanos, a diferença de tratamento entre gêneros surgiu. E as mulheres negras e indígenas passaram a ocupar um “patamar” inferior ao das mulheres brancas no tratamento e na obtenção de direitos sociais. Por essa razão, eu, enquanto mulher branca, falar qualquer coisa sobre esse assunto é um tanto opressor. Logo, vou parar por aqui a tentativa de dar detalhes e abordar logo o assunto que me interessa. Sugiro que você, caso esteja interessado nessa questão negra, fale com minha amiga Vanessa. Infelizmente ainda não conheço uma historiadora indígena para indicar (mas se você conhecer, me avisa!).

       Enfim, toda essa desigualdade foi perpetuada após a independência, porque o mal já estava feito. A sociedade estabelecida nos países colonizados já estava moldada a pensar nos negros e indígenas como inferiores. E o processo de cura desse mal realizado pelo processo civilizatório europeu imposto a nós, paira até hoje. E faz vítimas até hoje. Infelizmente, não só no Brasil.

          No dia 07 de julho de 2016, a cantora de pop Beyoncé, negra e estados-unidense, publicou em seu site uma carta aberta ao seu público, pedindo para que as mortes de pessoas jovens e negras por parte de policiais cessem em seu país. Segue uma tradução do texto:

“Estamos muito cansados dos assassinatos de jovens negros na nossas comunidades. Depende de nós protestar para que parem de atirar em nós. Não precisamos de simpatia, precisamos que todos respeitem nossas vidas.
Nós vamos nos levantar como uma comunidade e lutar contra qualquer um que acredite que que morte, ou qualquer ato violento, por aqueles que deveriam nos proteger deve ser consistentemente impune.
Estes roubos de vidas faz com que a gente se sinta desguardado e sem esperanças. Mas temos que acreditar que estamos lutando pelas vidas das próximas gerações, dos próximos jovens que acreditam no bem.
Esta é uma luta humana. Não importa a sua raça, gênero ou orientação sexual. Esta é uma luta por todos aqueles que se sentem marginalizados, que lutam por liberdade e por direitos humanos.
Este não é uma provocação aos policiais, mas para todos os humanos que tiram a vida dos outros. A guerra contra as pessoas negras e pertencentes de todas as outras minorias precisa acabar.
Medo não é uma desculpa. O ódio não vai vencer.
Todos temos o poder de transformar nossa raiva e indignação em ação. Precisamos usar a nossa voz para contatar os políticos e legisladores nos nossos estados e demandar mudanças sociais e judiciais.
Enquanto oramos pelas famílias de Alton Sterling e Philando Castile, nós também vamos orar pelo fim desta praga de injustiça em nossa comunidade.
Sua voz vai ser ouvida.
– Beyoncé.”

          A violência policial não é novidade. Também não é novidade que a cor da pele e a classe social influenciam na gravidade dessa violência. E não é novidade que isso ocorre não apenas no Brasil, mas também nos Estados Unidos (e provavelmente em vários outros países). Ano após ano, o povo dos EUA realiza uma série de atividades para tentar diminuir esse genocídio negro, que é feito sem julgamento, sem possibilidade de defesa e sem escrúpulo algum, por parte dos policiais, que são pagos através dos impostos da população, com o intuito de defendê-la

        No Brasil, a violência policial faz vítimas diariamente. Jovens negros são a fatia da população que mais morre anualmente. É de extrema urgência que haja uma conscientização muito básica: não é a cor de pele que torna a pessoa delinquente. Não é porque as pessoas são negras que, automaticamente, são ladras, assassinas, bandidas, imorais e merecedoras de morte à queima roupa. Eu, particularmente, acredito que ninguém merece mortes assim. Eu acredito que todos devem ser julgados pelos seus crimes.

       E, no meio de toda essa discussão, a funkeira carioca MC Carol lançou, no dia 14 de julho de 2016, a música chamada “Delação Premiada“. MC Carol é mulher, nascida na periferia do RJ, negra e gorda. Ela quebra milhares de padrões pelo simples fato de existir. E quebra mais ainda quando se posiciona publicamente para lutar contra o que acredita ser injusto. Inicialmente, Carol ficou conhecida por uma música chamada “meu namorado é mó otário“, onde ela criticava a posição da mulher na sociedade, colocando o namorado para ocupá-la. Posteriormente, ela começou a ser convidada para aparecer em programas de televisão e foi ganhando maior visibilidade no cenário nacional, enquanto cantora e enquanto funkeira. Atualmente, ela é um dos maiores nomes do funk carioca “de raiz”. 

       A nova música de MC Carol é fenomenal. A crítica social imbrincada nela é forte e dolorosa. Para nós, brancos, que perpetuamos o racismo diariamente, as vezes sem nem ter consciência, a dor de ouvir o relato da tortura, os questionamentos levantados e de pensar que por vezes fomos cúmplices de ações pérfidas perante pessoas inocentes, que pagaram por terem cor de pele diferente, é muito grande. Em “Delação premiada“, a crítica maior é em relação ao tratamento de criminosos brancos e ricos e dos negros e pobres. Enquanto os primeiros têm direito a celas separadas nas cadeias e a delações premiadas para diminuir a pena, os segundos são mortos antes de serem julgados. Ficam presos por décadas sem terem sido condenados. Apanham e são torturados pela polícia todos os dias. 

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         É muito necessário que as pessoas em posição de visibilidade se levantem perante as causas que acreditam. Essas pessoas influenciam opiniões, ajudam a formar novas pessoas. Elas conversam não apenas com os que pertencem à sua classe e situação, mas com um público muito mais diverso.

        Quando Beyoncé levanta a voz para falar sobre a posição ruim em que as mulheres negras são colocadas em seu país, ainda hoje. Quando ela se posiciona perante mais uma morte à queima roupa contra um jovem negro em seu país. Quando MC Carol escancara a injustiça realizada pelo sistema policial e judiciário do país. Quando essas mulheres se levantam contra aquilo que as oprime e usam sua posição social para falar por aqueles de sua comunidade que não têm as mesmas condições. Quando isso acontece é que nós vemos o poder dos bons mediadores. É que nós vemos que o ativismo pode sim atingir pessoas para além de uma bolha. É assim que nós vemos que os assuntos complexos e polêmicos podem e devem cair na boca do povo. Que todos devem saber, se indignar e ter vontade de coragem de lutar contra toda e qualquer opressão. São mulheres e atitudes assim que fazem a gente seguir com forças para lutar por um mundo que seja, de fato, mais livre e igual.

          E eu, enquanto mulher, branca e de classe média, só tenho a agradecer. Agradecer a todas as mulheres destemidas e fortes, que dão a cara a tapa e mudam o mundo. Vocês me dão forças para continuar – e, em específico, para me esforçar diariamente para não compactuar com atitudes opressoras. Obrigada.

*A charge que abre esse texto é de 2008 e parece que é de ontem.

Reflexões Carnavalescas

Hoje é sexta-feira 13, mas as pessoas mal lembraram disso, porque é fim de semana de carnaval. Sendo fim de semana de carnaval, a sexta-feira 13 passa de “maldita” pra “sexta de carnaval”, o que, tecnicamente é uma grande evolução. Principalmente por ser a sexta-feira que precede um dos feriados mais longos do ano e que costuma ser sucesso entre a galera. Eu nunca fui a uma festa de carnaval, mas simplesmente porque não gosto de multidão, sol, bebedeira, batuques e afins. Nada contra a comemoração em si. Até que outro dia aconteceu algo que me fez refletir e começar a ter pés atrás com o carnaval.

Não estou falando do fato de as mulheres se vestirem com poucas roupas e dançarem se exibindo. Isso não é problema. O problema está em achar que é um problema. E em achar que por dançarem assim, elas estão disponíveis. Ou, pior, por decidirem expor seu corpo são vadias e víboras. Por mais lindas, torneadas, bem maquiadas e com fantasias incríveis que essas mulheres estejam, elas continuam a ser mulheres. Tão gente quanto qualquer outra. Nem melhor nem pior. Elas provavelmente só querem se divertir e, bom, é chato pra caramba ter que ficar aguentando gente colocando regra na nossa vida quando tudo que a gente quer é dançar horrores.

As mulheres que não vão para dançar, mas sim para beber com os amigos e amigas, se fantasiar, gritar as músicas e semelhantes, também merecem respeito. Independente do grau de sobriedade delas, ainda continuam sendo mulheres. Pessoas. Como todas as outras. E, como pessoas, elas continuam tendo direitos básicos como o de, por exemplo, negar um beijo ou um apelo sexual. Não é porque a mulher está no carnaval que ela está disponível. Não é porque ela está bêbada e dançando ao seu lado que tem a obrigação de ficar com você. Não continua sendo não. E sempre vai ser não. Se insistir demais, vira nunca. Nenhuma mulher é obrigada a agradar outrem caso não queira.

Mas, bom, essas coisas são óbvias. Tão óbvias que é até chato ficar pensando que é realmente necessário lembrar e conscientizar as pessoas. É ruim pensar que há uma considerável quantidade de meninas que são estupradas, mal tratadas e desrespeitadas durante festas como o carnaval, simplesmente por perderem seu estatuto de “pessoa” ao resolverem se divertir tanto quanto e como homens.  O que me fez querer escrever este texto, foi refletir sobre outras práticas carnavalescas que são tão absurdas quanto o desrespeito às mulheres, mas passam ainda mais desapercebido e são ainda mais naturalizadas.

Como é o caso de se travestir. Essa semana eu tive que lidar com inúmeros machões postando fotos em suas redes sociais com roupas femininas. As legendas eram pejorativas e falavam deles mesmos como se fossem mulheres. Eu não sei de onde essa prática foi tirada, mas grande parte das fantasias masculinas de carnaval tende a ser vestir-se de mulher. Por quê? Inicialmente pensei isso como um problema para as mulheres, no sentido de que poderia significar que é engraçado ser mulher, ou que os homens são tão superiores, que quando vão se fingir de outra pessoa, precisa ser uma mulher. Pra poder rir. Como se ser mulher fosse palhaçada. Mas depois eu percebi que o problema nem é com as mulheres. Parei para pensar em como devem se sentir as pessoas travestis e transsexuais em época de carnaval. Como deve ser ver a sua luta de todo dia banalizada e ridicularizada por machões que em todos os outros dias do ano as criticam e depredam. Como deve ser horrível ter que lidar com gente achando que é engraçado e que é palhaçada se vestir de outro sexo, quando aquilo é a sua vida. Isso ultrapassa o nível de pejorativo e passa a ser ofensivo. Absurdamente ofensivo.

O fato de eu nunca ter parado para pensar nisso, me deixou ainda mais chateada. Perceber que involuntariamente omito a luta de uma classe inteira. Se o viés do travestir-se fosse no sentido de empoderar as pessoas trans, seria sensacional. Se todos os homens se travestissem com a consciência de que existem pessoas que fazem isso porque não se identificam com o gênero que seu órgão sexual propõe, o movimento ganharia uma enorme visibilidade. O travestir-se seria sinônimo de respeito. Seria aquela coisa de “não sou travesti, mas fiz isso por um dia, percebi o perrengue e vou te ajudar na luta por uma vida com direitos humanos garantidos”. Mas não. Claro que não. Isso só aconteceria no mundo utópico da Mayra. No mundo real, as pessoas não entendem porque travestis e transsexuais precisam de auxílio financeiro do governo. Não entendem que são tão pessoas quanto eu, você e qualquer outro. Não entendem que merecem tanto respeito quanto qualquer um de nós e que o fato de serem um pouco diferentes não os desmerece, pelo contrário, os valoriza. Montar-se de drag queen é uma arte. É sensacional. As pessoas que fazem isso e que têm peito para sair nas ruas e enfrentar tudo que uma mudança de sexo demanda, são fenômenos de coragem. Nós, cis e héteros, não temos noção da dimensão da situação. Não temos direito de sair por aí banalizando como se fosse palhaçada. Como diz o ditado: você acha que travesti é bagunça? Bom, não é.

Outra questão, que me deixou tão indignada quanto, foi o fato de eu saber que existe um bloco de carnaval intitulado “bloco das empregadas domésticas”, onde as pessoas colocam aquela tosca malha de náylon marrom escura, para se fingirem de negros, vestem-se de domésticos e saem por aí “festejando”. Sério, que tipo de festa é isso? Como se não bastasse, blocos de carnaval colocam em seus trios elétricos pessoas com a mesma malha de náylon marrom. E isso em diversas cidades do Brasil. Uma valorização à negritude? Reconhecimento de que o samba deve muito aos batuques afro? Não. Racismo e depredação de classe. Desde quando virou engraçado e divertido ser negro? Por acaso você, branco, cis, hétero, pessoa do trio elétrico ou do bloco de carnaval, se vestiria com essa mesma roupa no dia-a-dia para tentar fazer alguma das suas atividades? Ou você se esquivaria das filas, ônibus e avenidas quando visse um negro por perto? Você esconderia sua bolsa e fecharia o vidro do seu carro? Falaria que as cotas raciais são uma prática tosca e que “o brasileiro é racista, mas eu não”? Ah, faça-me o favor.  Ser negro não é engraçado. Não é triste. Não é diferente de ser branco, amarelo ou vermelho. É apenas uma cor de pele. Ela não define caráter e não define classe social. E se define, é justamente por causa dessa cultura racista que insiste em ser disseminada. Li um texto muito interessante sobre esse assunto, de alguém que sabe argumentar muito melhor do que eu, embora isso não diminua a minha indignação.

Enfim… Com toda a questão social que o carnaval levanta, todo o poder que a festa poderia ter e que é dispensado e trocado por letras tão opressivas quanto aquelas que a gente escuta no resto do ano inteiro, lamento que a propaganda de conscientização de maior sucesso seja a que previne o xixi na rua. Não que eu concorde com xixi na rua, mas acho que sexo desprotegido, violência à mulher, reprodução de preconceitos e estímulo à opressão são um pouquinho piores.