Thanks for all the fish

Há um ano eu estava no Paquistão. Trocando exaustivamente mensagens no whatsapp com um pentelho que tinha deixado no Brasil. Fui num casamento por lá e mandei uma foto para ele com eu vestida com roupa de festa pakistani style e ele postou no mural do meu facebook, com um “eu te amo” escrito em um árabe de google translator. Ri desesperadamente quando vi a coisa e fiz minha amiga que entendia um pouco de árabe me dizer se estava certo, ela disse que sim. Sem jeito, falei que era absurdo sair postando uma foto que foi compartilhada privadamente, ao que ele respondeu “isso que dá ficar mandando foto pro namorado”. Fui no whatsapp perguntar se a gente era namorado, e ele disse “não, mas queria ser”. Achei esquisito, ri, imaginei que ele devia estar me zoando – como em todas as outras vezes que tinha dito que queria ser meu namorado. E respondi “tá”. E nos primeiros dias eu achava que aquilo era pura zoeira, mas com o passar do tempo percebi que tínhamos nos tornados namorados sem que nós mesmos percebêssemos a situação. Afinal, agíamos como namorados, só não tínhamos esse nome. Desde então, não conseguimos oficializar uma data de início da relação, o que sempre foi muito engraçado. Mas resolvi fuçar no whatsapp, a fim de ter um dia para marcar no calendário e olhar quando, sei lá, tivermos velhinhos e esquecendo até de como limpa a bunda. É mais fácil lembrar das coisas quando temos datas associadas a elas. Segundo o whatsapp, a conversa aconteceu em 16 de Janeiro. Pode ser uma data ilusória, simbólica, tanto faz. É WM day. E por mais que homenagens em relação a isso pareçam que a gente tá se vangloriando por ter aturado alguém enchendo nosso saco por um ano, a verdade é que eu realmente gosto de deixar coisas registradas. E não me recordo de ter registrado isso em algum lugar que eu possa ter acesso no futuro. Minha função no casamento do Paquistão era justamente jogar pétalas de rosas no noivo, que simbolizava fertilidade na relação e, tecnicamente, as pessoas que fazem isso recebem felicidade, ao mesmo tempo em que a transmitem para o casal. Pelo jeito as mitologias paquistanesas funcionam, pois agora eu sei que a vida pode estar um tremendo maremoto, mas ainda assim eu terei um sorriso e um olhar que me transmitirão paz. E pra quem achava isso impossível, ver-se presa nessa artimanha com garras fortes o suficiente para não se imaginar longe delas, é mais um fator de que milagres e mitologias funcionam. E que a gente nunca pode dizer nunca, afinal, não sabemos o que os deuses planejam para o nosso futuro – e muito menos qual mapa astral vai encaixar perfeitamente no nosso. Sinto-me absurdamente honrada por ter compartilhado essa parte da minha vida com uma pessoa tão especial e que me enche de orgulho e alegrias em todos os momentos e, hoje, enquanto agradeço a cada segundo, desejo que ele seja multiplicado infinitamente. Obrigada.

Eu também sou Malala

Resolvi ler o livro da Malala, embora todos os meus amigos paquistaneses tenham me dito para não fazê-lo. Entendo o medo deles, de que histórias como esta, ao se tornarem públicas, façam com que o medo que o Ocidente tem do país deles aumente. Mas, veja bem, eu já fui lá, já sei que não é uma guerra civil e constante em toda esquina e que o Talibã age em locais localizados e não continuamente. Também aprendi que a violência urbana é a mesma que enfrento aqui o tempo todo. E aprendi que as mulheres não são escravas obrigadas a se cobrirem por inteiro, como muitos de nós insistem em pensar. Então concluí que saber a história da Malala não ia me fazer, repentinamente, odiar o Paquistão. E estava certa.

Com o livro acabei por conhecer mais sobre a história do país, sua trajetória política, a formação do Talibã, como ele ganhou força, quais suas principais atitudes e quem, quando e como começaram a reprimí-lo. A Malala morava justamente no Swat, divisa com o Afeganistão. E era Pashtun, um povo que vive também no Afeganistão. Era o alvo lógico para o Talibã, após ter obtido êxito no Afeganistão. O azar foi Malala ser filha de um dono de escola, adorar estudar e ler e acreditar piamente que sem a educação seu povo e seu país seriam eternamente manipulados pelos políticos corruptos. Azar maior foi o pai dela ter sempre instigado o senso falante dela para que ela não tivesse medo de se expressar e acabasse, assim, sendo a queridinha dos ativistas na região. E, com isso, alvo do Talibã que a indiciava por secularização da juventude, ao tentar introduzir um modelo Ocidental de educação, o que afastaria os jovens – em especial as meninas – das práticas religiosas apoiadas pelo Talibã.

Foi com esse livro que consegui processar algo que tinha ficado na minha cabeça desde que conheci o Paquistão: o quanto somos países parecidos. O quanto o sofrimento das mulheres é parecido. O quanto o feminismo precisa ser regionalizado para atingir as causas contextuais, mas ao mesmo tempo não deve se perder no extremo relativismo, mas sim se ater ao fato de que todas as mulheres do mundo sofrem com esse patriarcalismo que eu, sinceramente, ainda não descobri da onde vem.

No Brasil a gente também espera que a educação faça com que as pessoas parem de eleger políticos corruptos e parem, em primeiro lugar, de serem corruptas elas mesmas. Temos a concepção iluminista-kantiana de que o esclarecimento é a nossa salvação. Sabe-se, porém, a quantidade absurda de problemas que temos neste campo. Desde professores mal pagos, a lugares interioranos onde ninguém sabe ler ou escrever. E, assim como nas vilas do Paquistão, o problema é pior para as mulheres. Porque se a família não tem condições de dar estudos para todos, tende a preferir fornecer o estudo ao homem. A mulher vai se virar cuidando de casa – se não for a casa dela, pode ser a casa de outra mulher.

A mulher no Brasil, assim como no Paquistão, não pode sair de casa sozinha. Não que tenha alguma lei que a proíba disso. Não há. Em ambos os países. Mas sabe-se que é muito mais arriscado para a mulher sair sozinha do que acompanhada por um homem. A solidão feminina tende a ser vista na rua como fragilidade, como potencial para roubos, sequestros ou a temida violência sexual – seja ela verbal ou física.

A mulher no Brasil, assim como no Paquistão, não pode sair de casa com a roupa que estiver com vontade. É claro que, enquanto nossos problemas são sair com shorts curto ao invés de calça jeans, na cabeça delas nem passa a ideia de shorts ou saia. Porém, isso é questão de costume. Independente do tipo de roupa que eu ou elas querem usar, o fato é que antes de sair de casa, inevitavelmente, temos que pensar nos tipos de olhares que aquela roupa pode atrair. Porque, sendo mulher, o tipo de olhar importa muito.

Tanto as mulheres de lá quanto as daqui, vivem com medo. Medo de não poderem se expressar, de terem que viver em funções de homens, de ficarem “para a titia”, de não poderem ter filhos. De não quererem ter filhos e serem chamadas de estéreis ou de desumanas. De não serem femininas o bastante, ou de serem femininas demais. De não terem as mesmas oportunidades de estudo ou de trabalho e de serem vistas primeiro como “mulher” e depois como pessoa. Sendo sempre reconhecidas pela diferença em relação aos homens e não pelas inúmeras igualidades.

Tanto as mulheres de lá quanto as daqui querem ser ouvidas. Acham absurda a marginalização feminina, especialmente das mulheres que vivem nas periferias, no interior, nas vilas, nos sertões e semelhantes.

E, bem, se uma menina de dezesseis anos ganha o prêmio Nobel da Paz justamente por dizer que não aguenta mais essa coisa de que mulheres só servem para cuidar ou educar, significa que nossos problemas não são tão diferentes assim. Como Malala e seu pai sempre diziam, para que mulheres sejam educadas por outras mulheres (o que é bem importante para o Islã – e até para a “filosofia” Talibã), primeiro algumas dessas mulheres precisam ser educadas por homens, para aí se tornarem professoras e ensinarem as outras mulheres.

Sororidade é um termo que diz respeito justamente ao sentimento de irmandade que deve existir entre as mulheres e os diferentes feminismos. Não importa em quais âmbitos, todas as feministas querem a igualdade. Todas querem os mesmos direitos. Civis e humanos. No mundo inteiro. Com a ciência de que uma mulher paquistanesa preza por obter os mesmos direitos que um homem paquistanês, ao passo que uma mulher brasileira, preza pelos mesmos direitos que um homem brasileiro.

Feminismo é um termo que diz respeito à luta feminina pela conquista de direitos iguais, independente do gênero a qual o indivíduo pertença. Não diz respeito a dominar e tão pouco a ser dominada. Diz respeito a co-existir e conviver. Mútua e respeitosamente, no mesmo espaço – seja ele público ou privado. A gente não odeia homens, a gente só detesta a ideia patriarcalista reproduzida por eles – e por nós, afinal, também vivemos aqui – de que só é possível pensar no feminino a partir do masculino. O feminino existe em essência e não depende do masculino para tal. Mas já que ambos estamos no mesmo barco, tá na hora de aprendermos a navegar.

P.S.: Caros Talibãs, por favor, parem de matar crianças em escolas. Eu juro para vocês que elas não vão ser menos islâmicas por isso, pelo contrário, elas vão ficar tão inteligentes que vão entender melhor o que o Profeta falou e vão conseguir colocar mais em prática aquilo que ele disse. Elas vão ser boas pessoas e, se não forem, serão julgadas na hora correta. Só que essa hora não é agora então, por favor, parem. Apenas parem. De alguém extremamente chateada com o ataque a Peshawar.

BEDA #21 A pacífica atemporalidade

Tenho esquecido de escrever para o desafio, no entanto, não consigo deixar de postar alguma coisa aleatória. Sinto meu pedantismo subir exponencialmente e recuso-me a crer que há alguém ainda acompanhando/lendo isso diariamente. Mas acho que faz parte. A vida ainda não está 100% organizada, a exaustão continua a mil por hora, junto com a falta de foco e a imensa quantidade de coisas a serem feitas em um curto espaço de tempo. Como a professora de yoga sempre fala, cada dia que passa estamos mais atarefados, tanto que precisamos marcar um horário na nossa agenda para simplesmente ouvirmos o silêncio.

Pensar nisso me angustia, pra falar bem a verdade. Pensar que passo minha vida correndo, como se fosse um hamster numa gaiola e que não chego a lugar nenhum, nada produzo, nada acontece, ao mesmo tempo que acontecem tantas coisas. Voltando pra yoga, isso se dá pela ansiedade que faz com que eu viva sempre o momento próximo e esqueça o presente, ou seja, deixe de ouvir o meu próprio silêncio, porque a mente nunca para, mesmo quando o corpo parado está. Só que, é tão difícil ficar em silêncio. É tão difícil ouvir o nada ou, sei lá, ouvir os pássaros embalarem o meu pensamento no nada. Ou ouvir um universo e não me envolver com ele devido ao meu grande grau de concentração.

Aí eu lembro do Paquistão. Do dia que a gente tava empilhado numa vã, completamente desconfortável e quase querendo pedir aborto da vida, até que passamos por um campo enorme, lavoura de alguma fazenda, e lá no meio estava um velhinho. No meio do nada, sentado na posição de yoga (que não sei escrever o nome, ainda), com um turbante enorme na cabeça e visivelmente concentrado. Ele estava perto da estrada, ou seja, de carros e afins e também perto da fazenda, onde provavelmente haviam outros barulhos. E nada parecia incomodá-lo. Nunca senti tanta inveja de uma pessoa quanto senti daquele velhinho naquele momento. Ele parecia estar em paz, sabe? Uma paz enormemente boa.

E é aí que entramos na minha experiência com o Islamismo. Lá as pessoas são calmas. Infinitamente calmas. Elas deixam a ansiedade com Allah e vivem a vida do jeito que a vida acontecer. E se não acontecer, foi simplesmente porque Allah não quis. A posição de prece deles, por exemplo, é uma das que a gente faz na Yoga justamente pra relaxar. Agora imagino, se eles fazem no mínimo 5 vezes por dia, claro que isso colabora pra eles serem tão plácidos. Eles te levam em lugares absurdamente lindos e enquanto todos os turistas tiram fotos e fazem turistagem, eles sentam e ficam em silêncio. E sim, eu sei que yoga é hindu e que não tem nada a ver com Islã. Só que, como o Paquistão era parte da Índia, o Islam deles é um tanto “indianisado” e, com isso, eles sabem o que é yoga, muitos realmente praticam e a maioria deles acredita em meditação piamente. E isso me parece sensacional. Pensar que aquelas pessoas vivem naquele trânsito insano e lidam com aquele imenso aglomerado de pessoas circulando pra lá e pra cá e não se estressam com isso. Não ficam pensando que precisam estar em casa pra dar leite pras crianças. Agora faz todo sentido eles não fazerem planos. A lógica de tempo deles é diferente, o tempo não é um regulador da vida, ele tá ali, mas a vida flui do jeito que tiver que e independe dele.

Queria poder ser assim algum dia.