Desgostar de Gostar

Cersei, de Game of Thrones, disse para seu filho malvado e insuportável nunca amar alguém. “O amor enfraquece”, ela disse. “Mas você me ama”, ele respondeu. “Você é minha fraqueza”, ela replicou. E eu achei um absurdo. Fiquei boladona, em plena madrugada. Que tipo de mãe diz ao filho que o amor enfraquece? Meu mundo só não caiu porque eu lembrei de Harry Potter, a história bonitinha em que tudo dá certo só porque Lily e James amavam seu neném. O amor pode ser a força também, foi o que aprendi com Dumbledore e sua turma. Só que com o passar do tempo eu comecei a entender a Cersei. Amar pode nos fazer lutar por algo, mas não faz com que a gente seja sensato quanto aos motivos para lutar. Amar deixa a gente bocó. Faz com que abdiquemos o nosso próprio bem estar em prol do outro e no contexto do jovem rei insuportável que eu não lembro o nome e estou com preguiça de procurar (Joffrey?) é plenamente compreensível que isso não seja aceitável.

As vezes eu me identifico com essa linha de raciocínio. Eu sempre tive uma dificuldade absurda em me conectar com as pessoas e sempre detestei que isso ocorresse, porque sempre acarretou em noites irreparáveis de choro ou tortura mental, baseados em descobrir se o amor era recíproco ou não. Se recíproco, a tortura limitava-se ao fato de que eu jamais seria digna de ser amada por qualquer pessoa sem ser da minha família, então tinha que dar um jeito de parar de gostar da pessoa, pra ela parar de gostar de mim e a vida voltar a ser normal. Se não recíproco, a tortura consistia em lamentar o fato de que eu realmente sou inamável.

Não sei lidar com quem gosta de mim porque acho tudo falso e bonitinho demais para ser verdade. Eu recebo e-mails dizendo que “EU TE AMO TANTO QUE NÃO SEI COMO É POSSÍVEL O RESTO DO MUNDO NÃO DE AMAR COM A MESMA INTENSIDADE PORQUE VOCÊ É MARAVILHOSA.” e morro de rir, automaticamente desconsiderando. Ou a pessoa é lunática, ou ela está simplesmente feliz por algo que acabei de fazer por ela. Vai passar. Ninguém é capaz de tornar o ato de amar a mim um estado perpétuo. Sempre é efêmero. E a dualidade que isso causa em mim já é parte da angústia existencial que aprendi a chamar de “vida”.

Só que quando eu passo a gostar da pessoa, a me sentir conectada a ela e a querer estar perto dela a maior parte de tempo da minha vida, imaginar que há 1% de chances de frases como a de cima serem sinceras, faz com que eu durma feliz. E a existência do resto da humanidade faz com que eu fique triste no mesmo segundo. É que quando eu gosto de alguém eu sou bem brega. Cafona mesmo. Eu mando músicas do Wando e do Bruno e Marrone e de Chitãozinho e Xororó e digo que simbolizam o nosso relacionamento. Eu escrevo cartas completamente sem sentido, porque nunca consegui dizer “eu te amo” pra alguém que não fosse da minha casa, sem ser em momentos de euforia e aí me rendo a cartas que poderiam ser resumidas em “eu amo você, por favor se esforce para ser feliz e estar sempre bem porque o seu sorriso é a melhor coisa da minha vida”, mas que nunca são resumidas. Eu escrevo e-mails enorme narrando micro-detalhes da minha existência e todas as minhas crises existenciais, na vã esperança de que a pessoa se importe pelo menos um pouco, porque o pouco dela já me faz transbordar de felicidade.

E eu fico com ciúmes. Eu vejo que as bandas e seriados e vídeos que nós tanto conversamos sobre, na verdade não são só nossos. Vejo que existem outros amigos. Outras pessoas importantes. Tento ponderar “veja bem, ela também não é a única na minha vida”, mas a sensação temerosa de que qualquer um possa vir a ser mais legal e digno de amor do que eu faz com que o medo de perder apareça e a partir daí o desespero começa a tomar conta. De repente estou tentando descobrir quem são as outras pessoas que rodeiam a minha e o que elas têm de mais legal do que eu e deito na minha cama me sentindo a pior e mais possessiva pessoa da face da Terra. Sinto-me o próprio Smeagol gritando “my precious” pra algo que nem é meu, porque é uma pessoa e não um objeto e pessoas não são passíveis de serem possuídas, a escravidão foi abolida e tal.

Aí eu estava vendo The L Word e de repente a Alice, que era super centrada, se torna a pessoa mais maníaca do universo. Ela finalmente consegue fazer com que o amor de sua vida a ame e não sabe lidar com a ideia de talvez perdê-la, então passa a sufocar a pessoa de todas as maneiras possíveis e acaba se tornando insuportável. Alice fica com ciúmes de amigas, ex-namoradas e chega ao cúmulo de pedir para morar junto com a pessoa por pura falta de segurança. Logicamente o relacionamento termina e isso rende uma epopeia de acontecimentos terríveis para Alice, que ficou obsessiva, criou um mural com fotos e todas as lembranças possíveis e passou a perseguir a ex em todos os lugares imagináveis, perdendo a hipótese de ter sua própria vida.

Eu não gosto de gostar de pessoas porque eu tenho medo de virar a Alice. Eu tenho medo de me tornar obsessiva compulsiva a ponto de nunca mais conseguir fazer nada não relacionado a tal pessoa. Essa ideia me atormenta tanto que eu nunca me permiti ser fã de nada, a ideia de ser obsessiva compulsiva por alguém sempre me deu uma aflição terrível. Se eu nunca consegui gostar de verdade de mim mesma, o que me torna apta a ser um peso na vida de outra pessoa? A me introduzir tanto assim em sua existência? A viver mais a vida dela do que a minha? Nada disso faz sentido. Nada disso está certo.

Desgosto do que gosto porque sei que gosto e as vezes acho que o saber é que é o problema. O auto conhecimento é que é o vilão. A ignorância perante si mesmo parece muito mais fácil de ser vivida. Não identificar os problemas é bem mais tranquilo do que tentar lidar com eles. O que os olhos não veem o coração não sente, não é? Eu queria ser cega perante essas coisas. Não perder tempo pensando nelas. Ou aprender magicamente a lidar com elas, porque a vida humana gira em torno da construção de laços sociais e afetivos. Da completude. Do fazer-se bem quisto. E eu não sei se quero ser bem quista. Não sei se sei lidar com isso. Não sei se quero despertar sentimentos tão doentios nas pessoas quanto elas despertam em mim. Não sei se quero me sentir ainda mais vulnerável enquanto busco ser um pouco mais forte.

Desgosto com gosto do gosto de gostar. Essa é a conclusão do dia.

Consider me a satellite, forever orbiting…

Acho que nunca vou encontrar um personagem que me capte tanto quanto Christopher McCandless. É quase uma obsessão. Já perdi a conta das madrugadas não dormidas às quais se fez necessária mais uma vista ao filme sobre sua história, enquanto o coração morria dentro do peito por pensar que eu deveria saber pelo menos esse livro de cor. E não sei. Não sei quantas noites passei chorando por ele ou pelo que ele desperta em mim ou por tudo que eu sinto, sonho e reflito a cada vez que lembro que um dia o universo foi habitado por um ser humano de tamanha magnetude. É uma saudade imbatível de algo que eu nunca vi ou vivi e nunca verei ou viverei. Uma dor absurda ao olhar ao redor e perceber que, infelizmente, o mundo não é feito desse tipo de loucos maníacos, dispostos a abandonar a sociedade e viver sua própria vida. A história de McCandless pra mim é  impossível de ser descrita ou explicada. E eu decidi que vou passar minha vida inteira procurando alguém com quem eu ache que deva compartilhar a felicidade. Porque eu decidi que ia tentar entender o Chris e eu decidi isso quando eu tinha catorze anos e nunca tinha lido sequer “O chamado da floresta” e não fazia ideia de quem era Thoreau. E acho que estou conseguindo.

Todas as vezes que acabo em algum canto repleto de natureza, pedras e pouco sinal de civilização, não resisto em subir nas pedras, abrir os braços e sentir o infinito que a Sam, lá no livro do Charlie (que eu sempre esqueço o nome) vivia se referindo a. E eu descobri que não tem a menor graça se sentir infinito sozinho. Não porque seja impossível aproveitar uma felicidade instantânea enquanto estamos solitários, mas porque não é tão infinito se não há alguém do seu lado, sentindo a mesma coisa e rindo da mesma coisa com você. E as vezes a pessoa em si não é significante, o importante é ter alguém. E é por isso que a gente abraça o primeiro estranho que está ao nosso lado quando estamos no meio de uma praça e descobrimos que passamos no vestibular, por exemplo, porque a gente precisa compartilhar. Fomos ensinados que é assim que se vive. E por mais que Mc Candless tenha lutado arduamente para tentar romper com a construção cultural que o cercou, ele modificou a frase do Tolstoi e decidiu que a felicidade só seria real quando compartilhada.

Enquanto Tolstoi propõe que a gente só é feliz quando vive pra outrem, Chris propõe que a gente é feliz e ponto. Que a gente consegue atingir um nível de introspecção benéfica e auto conhecimento que se tornam mais imprescindíveis para nossa existência do que a existência de qualquer outra pessoa. Não que a gente deva virar narcisista e passar o dia inteiro se achando o máximo, mas Chris enxerga que há um ponto de “máximo” em todo mundo e que a gente nunca percebe, porque estamos sempre atordoados com mil e uma preocupações, pressões e problemas inventados para suprir nossa ociosidade e é justamente isso que causa nossa sensação terrível de solidão e de falta de afeto e de laços duradouros, porque a gente passa tanto tempo sendo levado a crer que precisa achar um “outrem” para mirar nossa felicidade em que acaba por esquecer de nós mesmos. E o Chris nunca soube quem ele era e ele precisou de uma epopeia tenebrosa pra descobrir isso e mostrar pra mim que eu posso e que eu consigo. Mesmo que meus pais a vida inteira tenham dito que não, que eu jamais conseguiria andar muito ou ir muito longe e que eu tinha que aprender a dirigir logo, pros meus pés não doerem e que shoppings eram muito melhores que parques, porque eu não me sentiria tentada a andar de bicicleta ou pular corda ou fazer qualquer uma das outras coisas que eu “não posso”.

Se um cara aleatório encheu uma mochila com livros, um saco de arroz, uma troca de roupa, um sapato de chuva e uma arma de caça e foi pro meio do nada, absolutamente sozinho e ainda assim sobreviveu por um bom tempo, escreveu um diário incrível e conheceu pessoas tão maravilhosas que fizeram com que o ato de sair de casa, largar os pais sem dar notícia, queimar todo o dinheiro e abandonar o carro valessem a pena, quem é que disse que eu não posso? Por que eu não poderia? Se há limites na vida, é para serem explorados. Se há perigos, é para serem desafiados e se há desafios é para serem enfrentados. Mesmo que a gente perca. Mesmo que a gente nunca encontre alguém para compartilhar a nossa felicidade. Mesmo que a gente tenha que se contentar com nós mesmos e nossa magnetude eternamente invisível perante os nossos olhos. Mesmo que a gente chore no fim da noite se sentindo um fracasso. Porque viver é sobre tentar. Viver é sobre se sentir infinito. Viver é sobre compartilhar. Viver é sobre estar absurdamente cansado e não conseguir dormir por não conseguir parar de pensar e de chorar pelo simples fato de se… viver.

Jamais conseguirei agradecer meu Supertramp à altura e já me conformei com o fato de essa ser a maior frustração da minha vida, junto com minha maior paixão não realizada e a maior decepção por um abraço que jamais poderá ser dado. E eu nunca vou cansar de falar sobre ele, de lembrar dele e de aprender com ele. Mais uma vez, obrigada Chris.

…I knew all the rules, but the rules did not know me… Guaranteed.

Ódio do ócio, ócio do ódio.

Eu descobri com doze anos que odiava as pessoas. Todas elas. Eu não tinha a menor vontade de me misturar, porque todas eram inúteis e só iam servir pra um par de risadas e nada mais que isso. Por mais que eu goste de rir, expandir meu contato social só para obter este sucesso na vida sempre me incomodou. Aí eu comecei a fazer teatro e aprendi que devia tentar ser legal, mesmo que não fosse de verdade. Aprendi que na frente das pessoas eu tinha que colocar uma máscara feliz e divertida e “me jogar”, ser quem elas queriam que eu fosse e ponto final. Aprendi que sempre teria o meu quarto cor-de-rosa (que agora é branco) para abranger as minhas rebeldias sem sentido perante a vida e a não existência de algo que eu possa considerar como vida de fato. Aprendi que meu guarda-roupas estaria sempre bagunçado, mas jamais se compararia com meu chão e que minha estante de livros estaria impecável e catalogada, pois é meu método de tentar organizar a tal vida. Aprendi que eu ia conhecer cerca de meia dúzia de gente que ia me fazer sentir a vontade o suficiente para arrancar a tal máscara e mostrar que ei, eu sou chata pra caramba, ok? E essas pessoas, mesmo com essa ciência, continuariam ali. Porque tem louco pra tudo nessa vida.

Nunca aprendi a sobreviver ao ócio. Aos feriados e às férias. Sempre as passei perto de minha prima, que me aturava durante todas as madrugadas, às quais eu jamais dormia. Porque é muito mais legal ficar acordado e interagir quando todo o mundo está em repouso, quando você não precisa se esforçar, pentear o cabelo ou fazer as olheiras desincharem, simplesmente porque ninguém vai estar vendo. Tudo é mais fácil quando o escuro te protege. A claridade sempre me incomodou. Por isso o blackout do quarto fica fechado o dia inteiro sempre, menos quando eu saio e minha mãe abre pra “entrar um ar”. As noites não dormidas ou dormidas e mal sonhadas ou dormidas e tão bem sonhadas que tornam-se péssimas puramente por serem irreais sempre foram minha parte preferida da existência. E é um absurdo que eu seja obrigada a desperdiçá-la dormindo durante a maior parte da minha vida. É por isso que, amante da madrugada, odiante de pessoas, convivência, intimidade, relacionamentos e claridade, madrugadas de feriados e fins de semana tornaram-se minhas preferidas. Mesmo sem a minha prima. Mesmo sem as conversas sem sentido e sem olhos nos olhos. Porque agora eu canalizo todo o meu ódio em músicas violentas e escrevo coisas absurdas enquanto me imagino socando todas as pessoas que odeio e é incrível como a lista de pessoas e lugares que eu odeio crescem a cada dia. É quase uma função exponencial e pra eu ser capaz de me lembrar o que é uma função exponencial é porque ando muito irritada. É isso. Eu ando irritada. Explosiva. Estressada. Com vontade de pegar uma metralhadora e sair por aí lavando o mundo em sangue. Porque é tudo muito errado. Tudo muito irrelevante. Tudo muito pra nada.

Dezenove anos. Inconstância. Preguiça. Malemolência. Vontade de retornar aos hábitos de cidade de interior e visitar o cemitério só para poder correr e gritar sem parecer maluca. Vontade de pular da janela só pra ver se aprendo a voar. Vontade de fugir. Pra qualquer lugar. Pra fazer qualquer coisa. Algo diferente. Inconstante. Que não me irrite. Porque até chocolate me irrita. Porque até as lágrimas que insistem em aparecer pararam de ser benéficas e se transformaram em odiadoras e malvadas como todo o resto da minha essência. Porque ler me irrita e não ler me irrita mais ainda. Porque eu não consigo ver um filme inteiro sem ter vontade de explodir o idiota que inventou os filmes e não consigo passar dez minutos no computador sem querer explodir o débil mental que inventou essa merda. Porque não consigo respirar de olhos abertos por cinco segundos sem querer explodir o retardado que inventou essa coisa chamada “gente”.

Trilha sonora de Clube da Luta. Textos que eu queria muito poder não ler. Vontade absurda de não ter tendinite só pra poder bater em alguém, qualquer um. Nem que fosse pra sair na rua de pijama e dar um soco e voltar pra dormir tranquila. Busca por uma paz interior que aparentemente está mas que longe. Vontades e anseios que jamais serão realizados. Fuga. Síndrome de Supertramp mais atacada do que nunca. Vontade de achar um babaca qualquer pra me acompanhar em uma viagem de carro para o infinito, só pra eu ter quem xingar enquanto escuto músicas esquisitas e reclamo de cada micro-pedaço de cada micro-coisa que eu encontrar pelo caminho. Porque eu odeio novembro. Porque eu odeio fins de ano. Porque eu odeio fins. E odeio inícios. E odeio tudo. Inclusive você.

Meu

É interessante analisar a tenuidade existente entre o exterior e o interior, dentro de nós mesmos. Sim, essa frase ficou estranha. O que quero dizer é que em basicamente todos os âmbitos que nos cercam, aquilo que aparentemente é nosso, na verdade não é. O que preenche o nosso interior, na maioria das vezes, é muito mais externo do que poderíamos imaginar.

Os sentimentos existem. A maneira com a qual lidamos com eles nos é socialmente construída e culturalmente ensinada. Acho essa escola muito falha. Nem a ciência, nem Shakeaspere e nem os maravilhosos gregos souberam nos explicar exatamente como agir em cada uma das micro-situações em que nos colocamos. E as vezes as caraminholas de nossas cabeças agem tão mais depressa que o mundo que nos cerca, que a ansiedade nos faz fazer coisas que jamais deveriam ser feitas e tudo que nos resta são lamentações por sobre coisas que ninguém sabe ao certo como conceituar e menos ainda como viver e sair ileso.

Aquilo que é meu nunca o é necessariamente. E mesmo que o casaco seja só meu ou que só eu utilize aquela calcinha, nada impede que um dia eu doe o casaco ou alguém use minha calcinha. O fato de algo parecer meu em algum momento, não o torna eternamente meu. Exclusivamente meu. Meu, de fato.

As histórias que a gente lê e considera nossas foram lidas por muitos outros que também as consideram deles.  E mesmo que uma pessoa jamais consiga ser exatamente a mesma para duas pessoas diferentes, ainda assim ela não é inteiramente diferente, única, só sua. Uma pessoa nunca é inteira e exclusivamente de ninguém.

A única coisa que pode ser nossa, é justamente aquela que mais nos assola e faz com que passemos dias e dias de nossas vidas tentando externá-la, encontrar uma outra solução não intrínseca e ficar apenas livres de. O sentir. Não o ato de sentir, isso todos fazem. Seja pelo tato ou pelo subjetivo, sentir é algo que até os micróbios devem ser capazes de fazer, mesmo que não tenham consciência disso.

A questão é que a leitura que fazemos dos nossos sentimentos é única. Ela depende de nossa vivência e ninguém tem a mesma vivência que outra pessoa, mesmo que seja irmão gêmeo e tenha frequentado os mesmos lugares a vida inteira, a maneira como um enxerga as coisas ainda vai ser um pouco diferente e a razão disso eu não sei, mas é assim que é.

A gente pode escrever páginas, dossiês, linhas, livros, coletâneas e o que mais quiser sobre os nossos sentimentos e ainda assim eles serão incompreensíveis. Tanto para nós quanto para terceiros. Se nem nós conseguimos colocar em palavras tudo que nos assola, como é que podemos mensurar toda a realidade que nos angustia e deixa malucos para uma outra pessoa, que provavelmente vai ouvir a história inteira e ter uma leitura completamente nada a ver sobre o fato vivido?

A gente pode rotular os sentimentos. Dizer que tal coisa é medo e aquela outra coisa é paixão, mas nunca vamos conseguir explicar a forma como o medo e a paixão se mostram para nós. Nunca vamos conseguir transpor em palavras exatas aquilo que tanto nos atormenta e isso vai nos deixar cada vez mais atormentados, porque o fato de não entendermos tudo que se passa com a gente nos deixa ainda mais temerosos, inseguros e atormentados.

A ilusão de posse sobre algo, mesmo que esse algo seja uma ideia de sentimento, uma ideia de pessoa, uma ideia – como na maioria das vezes o é, faz com que a posse se inverta. Enquanto primariamente a ideia é que a gente obtenha o controle sobre aquilo que possuímos, acabamos por nos envolver tanto que nos deixamos possuir. Objetificamo-nos. Perdemos a tão falada autonomia e viramos dependentes de pessoas, coisas, ideias, ideais e leituras idealizadas de sentimentos.

“A felicidade só é real quando se vive para outrem” disse Tolstoi e no decorrer do livro a gente percebe que não é bem assim que a banda toca, porque viver para outrem não necessariamente gera a completude e a dita felicidade que tecnicamente buscamos. E que buscamos, mas suportamos por apenas alguns dias e depois nos irritamos com o ato de estarmos felizes e procuramos defeitos e problemas em lugares completamente aleatórios, só para ter uma desculpa para continuar reclamando, continuar lutando, continuar vivendo. Afinal, qual é o ponto em viver feliz? A constância irrita. Não importa de qual sentimento seja essa constância. Nada importa.

E a cada dia que passa, cada história conhecida, momento vivido, lugar encarado e abraço sentido fazem-me entender menos ainda todo esse caos ambulante na qual estou inserida. Fazem minha vontade de existir diminuir cada vez mais, enquanto o ódio dilacerado pela existência da humanidade me possui, me conforta e me irrita. Ser malvada, assassina, temida, briguenta, um sonho. Hiper-sensibilidade, preocupação extensiva, sonhos bizarros que parecem tão reais que assustam, vontade de fugir, de recolher-se em si e só depois ir em busca a um abraço querido e apaziguador.

Síndrome de Supertramp, talvez. Culpa do Tolstoi, talvez. Ou minha, dessa cabeça impensante que tanto pensa, dessa necessidade abrupta de sentir e ser sentida, mas não se sentir apta para nada disso. Culpa? Por que é que alguém tem que ter culpa? É tudo meu. Minhas leituras sobre o mundo. Meu sentimento. Meu. Mesmo que eu não tenha nada.

Eu não sei pra que lado mas eu vou, tento tanto mas tão tonto perco o tempo e a direção. Percorrendo, assim, eu vou. Persistentemente em frente eu tento insistir em ir. Eu sou um otário! angustiado! A minha meta é vaga, infelizmente não dão vaga para quem vive só sonhando! Flutuando pela ciclovia num mundo de sonho e fantasia…

 

Amor

Queria saber quem foi que começou com essa história de que homem é machão e mulher é nada. Quem foi que inventou que homem sente prazer e vontade de copular a cada corpo que vê e mulher só quer saber de casar e ter dois filhos, numa grande chácara. Queria saber quem inventou que o homem deve agir de maneira x ou y para conseguir uma mulher e que a mulher tem a maneira w e z de dizer ao homem o que está querendo com aquilo tudo. Mas eu não sei nada disso.

O que eu sei é que tem muita mulher que sustenta o marido e mil filhos, que tem dois, quatro, seis empregos e que faz o possível e o impossível para se manter satisfeita consigo mesma e com aqueles que ama. O que eu sei é que mulher não é frígida a ponto de andar por aí e não observar corpos masculinos. O que eu sei é que muita mulher acompanha a bunda de homem, tanto quanto eles acompanham as nossas. E os pensamentos são os mesmos. Prazer carnal. O que eu sei é que mulheres passam tantas horas quanto homens conversando sobre aquela pessoa ali e o que ele faz ou deveria fazer. Sei que mulheres, que aprenderam desde criança a sempre ter uma confidente, não escondem nada para essa pessoa. Nem um dos mínimos detalhes. E que dão pitacos na vida alheia. E que quando a coisa é muito absurda é necessário compartilhar com o grupo inteiro, para várias opiniões, muito preparo psicológico e finalmente… o enfrentamento. O que eu sei é que mulheres possuem um órgão chamado clitóris, que já virou até motivo de documentário pelo fato de não condizer com a desculpa científica de que sexo só serve para reprodução. Porque o clitóris só serve pra prazer. E só as mulheres têm um órgão específico para isso. O que eu sei é que, muitas das mulheres que querem casar e ter seus dois filhos, antes deles elas pensam no marido, na vida casada e em fazer tudo isso só depois de ter adquirido certa independência. O que eu sei é que ninguém ensina pra gente com um manual passo a passo como agir ou se fazer entender em determinadas situações, a ponto de que o sexo oposto entenda x ou y. Porque nós não fomos criados como o sexo oposto. Fomos criados como nós. Só entendemos a nós, e muito porcamente.

O fato de haver uma diferença imensa na criação de meninos e meninas gera um turbilhão de problemas que nos assolam por toda a vida. Porque nem nossos pais se entendem por inteiro, por mais felizes que eles pareçam ao mostrar as alianças de sei lá quantos anos de casados. Porque meninos são criados para serem babacas dependentes em alguns quesitos enquanto meninas são criadas para ser babacas dependentes em outros quesitos. A ilusão de completude dá-se pela junção desses quesitos, ou seja, se o homem x é independente bem naquilo que a mulher é babaca, pronto.  Não tem nada a ver com o corpo, intelecto ou qualquer coisa assim. As pessoas se relacionam por puro utilitarismo. Por pura preguiça de tentar entender o outro. Então elas sentam e fingem que estão ouvindo, enquanto na verdade estão pensando que o menino x tem carro pra te levar na balada e que a menina z tem aqueles peitos que dá pra fazer aquela coisa que você viu no filme pornô. Porque meninos veem essas coisas com onze anos, enquanto as meninas estão aprendendo a lavar panelas e passar roupas. Em uma visão puramente racionalista, os relacionamentos são como uma enorme feira de escambo, em que o produto de troca é você. Você por inteiro, não só o seu corpo ou a sua mente. Você.

Só que em algum momento de todo o nosso desenvolvimento enquanto hominídeos, lá em uma das sei lá quantas espécies de australopithecus, talvez antes, talvez depois, nunca saberei quando ou onde, inventamos uma coisa chamada “amor”. Acredito que ele tenha nascido a partir da relação afetiva entre as fêmeas e suas proles, que se sentiam na obrigação de cuidar delas até que elas pudessem viver sozinhas. Quando veio a consciência de que o macho copulador também era responsável pela prole eu não sei. E também não sei como foi consolidada a ideia de família, mas acredito que não tenha tido nada a ver com o amor romântico.

O amor romântico, por sua vez, teria nascido – ou pelo menos tornado-se mitológico/ritualístico/tabu – quando já éramos homo sapiens. Quando já éramos descendentes de Cristo e não mais da Lucy. Porque Cristo é a representação mais tácita do amor, do comprometimento, da compaixão e de tudo que há de mais puro e bondoso no mundo. Não só porque ele era Filho de Deus, mas porque ele era humano. Ele não poderia amar se não fosse humano, vejam bem, o Deus do Antigo Testamento é cruel, maligno, destrói cidades e populações inteiras, basta você desobedecê-lo. Ele não vai te perdoar. Ele vai pisar em você. Jesus não. Jesus vai te acalentar, dizer que está tudo bem e que basta ele ser crucificado e perder todo o sangue por você que você será salvo.

Depois disso, a noção de amor sofre uma mudança drástica. As pessoas começam a achar que talvez os casamentos devam envolver mais do que trocas econômicas ou usuais, começam a pensar que talvez possa vir a existir esse sentimento que Jesus falou em todos nós, em diversos quesitos. E então elas denominam a explosão de hormônios, idealização excessiva, taquicardia e embrulho no estômago de “paixão” e dizem que se duas pessoas sentirem isso concomitantemente, estão condenadas a ser feliz por um tempo, mas que a felicidade eterna só viria caso a idealização sumisse e a aceitação diante dos erros e falhas (representantes da humanidade) aparecesse. E, de repente, não mais que de repente, o amor vira o maior tabu do mundo. O objeto mor de desejo de todas as pessoas.

Poucos ainda se interessam por se relacionar da maneira escambática comum até então. Agora eles têm a chance de amar. De encontrar no outro algo que desperte em você sensações únicas. E passam a vida inteira procurando isso. E constroem casas, carros, prédios, teorias, músicas, poesias, livros, pinturas e todos os outros tipos de arte baseando-se neste ideal. O amor torna-se a principal ilusão do homem. Aquilo que o impulsiona quando nada mais faz sentido. Porque se nada faz sentido, é porque você ainda não amou. Então surge o desespero ardente que não cessa de crescer na mente de todos os indivíduos por uma completude carnal instantânea, porque o amor nunca chega e o corpo precisa se manter vivo. E quando qualquer fagulha de algo que possa ser considerado amor aparece por perto, tudo muda. Tudo faz sentido, a luz no fim do túnel começa a brilhar, a esperança bate à porta e eu, você, nós, ficamos dias e dias esperando que a pessoa amada nos ame e que, se ela nos amar, a gente seja realmente feliz. Porque o único caminho para a felicidade é o amor. Porque o mundo se resume ao amor.

É só uma palavra, disse Mr. Smith para Neo. Uma palavra curta, de quatro letras, que os humanos insistem em encher de significados. Insistem em complicar. Insistem em sofrer por e em delegar a resolução de todos os problemas de suas vidas nisso. Mas nós, que não somos Mr. Smith, nós que somos humanos sabemos que, tendo sido inventado ou não, sendo eficaz ou não, existente ou não, quando qualquer coisa semelhante a isso aparece, nosso chão some, não sabemos como agir, toda gota d’água vira um furacão, nada faz sentido e eu, tu, eles, nós voltamos a buscar o escambo, com a ilusão de um dia talvez transformá-lo no tão adorado sentimento chamado “amor”.