VMA 2016 – A Consagração de Beyoncé

      VMA é a sigla de Video Music Awards, evento anual realizado pela emissora de televisão estados-unidense MTV. O intuito da premiação é celebrar, principalmente, a música pop dos EUA. O palco do evento é alvo de performances incríveis ano após ano, que insistem em se reinventar. Os artistas, cada vez melhores, encantam o público e o evento acaba se tornando mais popular pelas apresentações do que pelos prêmios propriamente ditos.

      Isso não significa que os prêmios são menos importantes, pelo contrário. Ganhar troféus no VMA traz bastante prestígio para os artistas. Madonna, considerada a rainha do  pop, havia ganhado a maior quantidade de prêmios, totalizando vinte estatuetas. A cantora ainda é mundialmente conhecida, mesmo tendo 58 anos de idade, segue encantando gerações com sua música e capacidade performática. Ela revolucionou a indústria musical de sua época e inaugurou o pop da forma como conhecemos hoje. 

     Porém, os anos 2000 trouxeram uma nova rainha para o gênero musical. De 1998 a 2001 estimava-se que quem viria a ocupar o mesmo espaço que Madonna, no futuro, seria Britney Spears, que foi, então, apelidada como princesa do pop. No entanto, a cantora acabou passando por momentos turbulentos em sua vida pessoal, que a fizeram se afastar da música por um longo período. Entre vais e vems, Britney Spears acabou perdendo a capacidade de se reinventar, ou simplesmente o “andar da carruagem”, como diria o dito popular.

       Em 2016 ela lançou seu nono álbum, chamado Glory. As músicas e os videoclipes, assim como as apresentações ao vivo, seguem o mesmo padrão das que ela apresentava no auge de sua carreira, quando tinha cerca de dezessete anos. Para o público é maravilhoso ver que a Britney está de volta na indústria da música, que está se sentindo bem e segura de si e disposta a retomar a carreira, no entanto, acostumados com grandes performances, à lá Lady Gaga, Katy Perry, Rihanna e Beyoncé, o público acaba achando um tanto estranho ver que Britney ainda se arrasta no chão semi-nua, exatamente como no clipe de Toxic. Nosso coração segue junto com ela, torcendo para que ela fique bem e continue produzindo músicas dançantes, mas já não é possível compará-la com as outras grandes artistas do pop atual. Infelizmente.

       Quem não cansa de se sobressair, é Beyoncé. Essa sim, chegando ao nível de Madonna. Em 2016, Beyoncé lançou seu primeiro vídeo-álbum, chamado Lemonade. Intenso, magistral e muito bem performado, o vídeo conta a história da traição sofrida por Beyoncé, por parte de seu marido, também músico, Jay-Z. O ditado popular diz para que a gente faça uma limonada dos limões que a vida nos dá, Beyoncé foi lá e fez.

        Ela transformou um momento pessoal possivelmente tenebroso, tortuoso e depressivo em uma obra de arte fenomenal, reinventando o gênero pop e tirando aquela imagem de que música pop é fútil. Beyoncé fez um álbum sobre empoderamento feminino. Depois de já ter emplacado músicas incríveis sobre o assunto, como Flawless, e de ter iniciado sua apresentação no VMA de 2014 recitando um discurso da Chimamanda Ngozi Adichie, sobre como todos deveríamos ser feministas, ela foi lá e mostrou para o mundo inteiro que é possível sentir um baque na vida pessoal e transformar em arte.

       As performances de Lemonade não são incríveis apenas no vídeo álbum oficial, Beyoncé não tem decepcionado nas apresentações ao vivo que faz com as músicas do álbum. Uma prova disso foi sua apresentação de 15 minutos no VMA, que ocorreu ontem. De forma excepcionalmente densa, tanto na coreografia, quanto na qualidade vocal e de performance, Beyoncé mostrou para o mundo que uma traição não necessariamente derruba você. Ela mostrou, principalmente, para o Jay-Z, que ele não tem poder para parar ou acabar com ela, pelo contrário. Ela transformou um momento tenebroso na vida dela em arte libertadora. E ela foi lindamente recompensada por isso, ultrapassando Madonna na quantidade de estatuetas que levou para casa. Agora, Beyoncé já tem 24. 

          Toda vez que vejo alguma performance relacionada a Lemonade, imagino como é que ela se sente. Como é ver o mundo inteiro cantando e ovacionando um álbum que provavelmente foi o mais difícil da carreira dela. Como é ver que todo mundo sabe que ela é a rainha da música pop e que ninguém consegue entender como é que Jay-Z pôde traí-la. Eu queria saber como é para ela reviver cada uma daquelas músicas, embebidas com os sentimentos angustiantes, de revolta e de nascente paz. Queria saber como é que ela consegue cantar tudo aquilo e depois voltar para casa com o marido e levar a vida normalmente. 

           Por outro lado, queria saber como é para o Jay-Z ver que ter traído a esposa não virou apenas manchete em revista de fofoca, não se voltou favorável a ele, mas, pelo contrário, alavancou a carreira dela e gerou o álbum mais bonito já feito. Queria saber como ele se sente, vendo tudo que ela pensou e sentiu por ele, estampado naquelas músicas que agora todo mundo sabe cantar. Como é para ele, dormir com ela depois de uma performance em que é nítido que todo mundo está bravo por ele tê-la traído e, ao mesmo tempo, feliz, pelo fruto que gerou? 

          E a Blue Ivy? Como será que ela processará tudo isso quando for um pouco maior? “Meu pai traiu a minha mãe e ao invés de ela se separar, fez um álbum fenomenal, revolucionou a indústria da música, inspirou milhões de mulheres pelo mundo e mostrou que não necessariamente elas precisam ser oprimidas, e continuou com o meu pai, depois de colocá-lo no devido lugar“? Sério, essa família pós Lemonade deve estar passando por momentos bizarros, tendo que se redescobrir o tempo todo e com os sentimentos postos à prova direto.

          Beyoncé mais uma vez arrasou em uma premiação. Saiu não apenas com estatuetas, mas com a melhor performance da noite e com milhões de fãs no mundo inteiro se sentindo representados. Ela foi lá e fez uma limonada com todos os limões que as mulheres tiveram que engolir. Ela esfregou na cara da sociedade norte-americana o racismo que ela sofreu, mostrou que uma negra pode sim chegar no topo do mundo, pode sim reverter o padrão de opressão estabelecido, pode sim reinar sozinha. Beyoncé honra o termo que ela criou, quando diz “I slay“, porque, sim, colega. Sim. Quando você fala, quando você reina, quando você brilha, a gente só sabe ficar parado e aplaudir. Muito obrigada.

Beyoncé no VMA, acompanhada por mães de jovens negros que foram brutalizados pela polícia dos EUA.
Beyoncé no VMA, acompanhada por mães de jovens negros que foram brutalizados pela polícia dos EUA.

Beyoncé e MC Carol: duas lutas, o mesmo objetivo – o fim da violência policial contra jovens negros.

          Eu não sou a pessoa mais adequada a falar sobre a questão racial/colorista, pelo fato de ser branca. No entanto, senti-me na obrigação de vir falar um pouco sobre o assunto. Caso eu fale alguma coisa errada, peço para que me corrijam através dos comentários.

        O povo europeu e branco colonizou mais da metade do mundo e realizou isso através da supressão da cultura raiz. No Brasil, por exemplo, sabemos pouquíssimo sobre os povos indígenas que aqui habitavam – exceto que a gente se dedique a estudar sobre isso. Não é um conhecimento acessível a todas as pessoas, não é algo que aprendemos na escola. Na escola a gente aprende sobre os vitoriosos, sobre os europeus brancos que colonizaram mais da metade do mundo. E nas aulas de história da escola eles sempre parecem certos, bondosos e amáveis. Mas quando a gente para para pensar no outro lado, nas pessoas que foram oprimidas por esses colonizadores, percebemos que não é bem assim que funciona.

          Os povos colonizadores tinham uma enorme resistência a qualquer coisa que fosse diferente do que eles acreditavam correto. Por essa razão, haviam muitas guerras religiosas e civis, genocídios e ataques. Por essa razão, pessoas fisicamente diferentes do padrão europeu branco, não eram consideradas pessoas. A relação entre os colonizadores e os indígenas brasileiros se deu, primeiramente, a partir disso. Há vários relatos de “testes” para ver se os indígenas eram pessoas. Com os povos africanos, a coisa ocorreu mais ou menos da mesma forma. Por terem a cor de pele diferente da branca europeia, não eram pessoas. Por andarem pelados (em ambos os casos), falarem línguas diferentes e cultuarem a natureza e não um deus criador, não eram humanos. Eram animais. Eram selvagens. Precisavam ser suprimidos, educados, civilizados, consertados. E, na cabeça dos colonizadores, um meio eficaz de realizar esse processo era através do trabalho forçado. 

        Mas, vamos lá, o processo de colonização dos europeus para com mais da metade do mundo ocorreu entre os séculos XV e XVIII, que foi quando a maior parte desses países colonizados começou a lutar pela independência frente aos colonizadores. E, quando essa independência aconteceu e os colonizadores foram embora, não levaram junto essa ideia bizarra de que as pessoas diferentes têm que ter o estatuto de humanidade questionado. 

      No quesito social, já era óbvio que para os brancos europeus da época da colonização as mulheres também não eram iguais aos homens. Elas eram consideradas humanas (o que já é menos pior do que os negros e indígenas), mas não uma humana capaz de realizar atividades importantes para o desenvolvimento da humanidade. A primeira mulher a quebrar com esse paradigma europeu nessa época, que eu me lembre, foi a rainha Elizabeth. Mas, ainda assim, ela passou por inúmeras represálias até atingir o estatuto de rainha mandante.

       Porém, apesar dos pesares, as mulheres eram gente. Agora, após a independência dos países colonizados e quando os indígenas e negros passaram a avançar no estatuto de humanidade e começaram a ser tratados como pessoas, essa diferença entre os homens e as mulheres também prevaleceu. Se, a princípio, o diferente era animalesco, selvagem e a divisão sexual pouco importava, a partir do momento que começou a se considerar os negros e indígenas como humanos, a diferença de tratamento entre gêneros surgiu. E as mulheres negras e indígenas passaram a ocupar um “patamar” inferior ao das mulheres brancas no tratamento e na obtenção de direitos sociais. Por essa razão, eu, enquanto mulher branca, falar qualquer coisa sobre esse assunto é um tanto opressor. Logo, vou parar por aqui a tentativa de dar detalhes e abordar logo o assunto que me interessa. Sugiro que você, caso esteja interessado nessa questão negra, fale com minha amiga Vanessa. Infelizmente ainda não conheço uma historiadora indígena para indicar (mas se você conhecer, me avisa!).

       Enfim, toda essa desigualdade foi perpetuada após a independência, porque o mal já estava feito. A sociedade estabelecida nos países colonizados já estava moldada a pensar nos negros e indígenas como inferiores. E o processo de cura desse mal realizado pelo processo civilizatório europeu imposto a nós, paira até hoje. E faz vítimas até hoje. Infelizmente, não só no Brasil.

          No dia 07 de julho de 2016, a cantora de pop Beyoncé, negra e estados-unidense, publicou em seu site uma carta aberta ao seu público, pedindo para que as mortes de pessoas jovens e negras por parte de policiais cessem em seu país. Segue uma tradução do texto:

“Estamos muito cansados dos assassinatos de jovens negros na nossas comunidades. Depende de nós protestar para que parem de atirar em nós. Não precisamos de simpatia, precisamos que todos respeitem nossas vidas.
Nós vamos nos levantar como uma comunidade e lutar contra qualquer um que acredite que que morte, ou qualquer ato violento, por aqueles que deveriam nos proteger deve ser consistentemente impune.
Estes roubos de vidas faz com que a gente se sinta desguardado e sem esperanças. Mas temos que acreditar que estamos lutando pelas vidas das próximas gerações, dos próximos jovens que acreditam no bem.
Esta é uma luta humana. Não importa a sua raça, gênero ou orientação sexual. Esta é uma luta por todos aqueles que se sentem marginalizados, que lutam por liberdade e por direitos humanos.
Este não é uma provocação aos policiais, mas para todos os humanos que tiram a vida dos outros. A guerra contra as pessoas negras e pertencentes de todas as outras minorias precisa acabar.
Medo não é uma desculpa. O ódio não vai vencer.
Todos temos o poder de transformar nossa raiva e indignação em ação. Precisamos usar a nossa voz para contatar os políticos e legisladores nos nossos estados e demandar mudanças sociais e judiciais.
Enquanto oramos pelas famílias de Alton Sterling e Philando Castile, nós também vamos orar pelo fim desta praga de injustiça em nossa comunidade.
Sua voz vai ser ouvida.
– Beyoncé.”

          A violência policial não é novidade. Também não é novidade que a cor da pele e a classe social influenciam na gravidade dessa violência. E não é novidade que isso ocorre não apenas no Brasil, mas também nos Estados Unidos (e provavelmente em vários outros países). Ano após ano, o povo dos EUA realiza uma série de atividades para tentar diminuir esse genocídio negro, que é feito sem julgamento, sem possibilidade de defesa e sem escrúpulo algum, por parte dos policiais, que são pagos através dos impostos da população, com o intuito de defendê-la

        No Brasil, a violência policial faz vítimas diariamente. Jovens negros são a fatia da população que mais morre anualmente. É de extrema urgência que haja uma conscientização muito básica: não é a cor de pele que torna a pessoa delinquente. Não é porque as pessoas são negras que, automaticamente, são ladras, assassinas, bandidas, imorais e merecedoras de morte à queima roupa. Eu, particularmente, acredito que ninguém merece mortes assim. Eu acredito que todos devem ser julgados pelos seus crimes.

       E, no meio de toda essa discussão, a funkeira carioca MC Carol lançou, no dia 14 de julho de 2016, a música chamada “Delação Premiada“. MC Carol é mulher, nascida na periferia do RJ, negra e gorda. Ela quebra milhares de padrões pelo simples fato de existir. E quebra mais ainda quando se posiciona publicamente para lutar contra o que acredita ser injusto. Inicialmente, Carol ficou conhecida por uma música chamada “meu namorado é mó otário“, onde ela criticava a posição da mulher na sociedade, colocando o namorado para ocupá-la. Posteriormente, ela começou a ser convidada para aparecer em programas de televisão e foi ganhando maior visibilidade no cenário nacional, enquanto cantora e enquanto funkeira. Atualmente, ela é um dos maiores nomes do funk carioca “de raiz”. 

       A nova música de MC Carol é fenomenal. A crítica social imbrincada nela é forte e dolorosa. Para nós, brancos, que perpetuamos o racismo diariamente, as vezes sem nem ter consciência, a dor de ouvir o relato da tortura, os questionamentos levantados e de pensar que por vezes fomos cúmplices de ações pérfidas perante pessoas inocentes, que pagaram por terem cor de pele diferente, é muito grande. Em “Delação premiada“, a crítica maior é em relação ao tratamento de criminosos brancos e ricos e dos negros e pobres. Enquanto os primeiros têm direito a celas separadas nas cadeias e a delações premiadas para diminuir a pena, os segundos são mortos antes de serem julgados. Ficam presos por décadas sem terem sido condenados. Apanham e são torturados pela polícia todos os dias. 

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         É muito necessário que as pessoas em posição de visibilidade se levantem perante as causas que acreditam. Essas pessoas influenciam opiniões, ajudam a formar novas pessoas. Elas conversam não apenas com os que pertencem à sua classe e situação, mas com um público muito mais diverso.

        Quando Beyoncé levanta a voz para falar sobre a posição ruim em que as mulheres negras são colocadas em seu país, ainda hoje. Quando ela se posiciona perante mais uma morte à queima roupa contra um jovem negro em seu país. Quando MC Carol escancara a injustiça realizada pelo sistema policial e judiciário do país. Quando essas mulheres se levantam contra aquilo que as oprime e usam sua posição social para falar por aqueles de sua comunidade que não têm as mesmas condições. Quando isso acontece é que nós vemos o poder dos bons mediadores. É que nós vemos que o ativismo pode sim atingir pessoas para além de uma bolha. É assim que nós vemos que os assuntos complexos e polêmicos podem e devem cair na boca do povo. Que todos devem saber, se indignar e ter vontade de coragem de lutar contra toda e qualquer opressão. São mulheres e atitudes assim que fazem a gente seguir com forças para lutar por um mundo que seja, de fato, mais livre e igual.

          E eu, enquanto mulher, branca e de classe média, só tenho a agradecer. Agradecer a todas as mulheres destemidas e fortes, que dão a cara a tapa e mudam o mundo. Vocês me dão forças para continuar – e, em específico, para me esforçar diariamente para não compactuar com atitudes opressoras. Obrigada.

*A charge que abre esse texto é de 2008 e parece que é de ontem.

Jogador Número 1 – Ernest Cline

Quem escreveu o livro?

          Ernest Cline nasceu no estado de Ohio, nos EUA, no dia 29 de março de 1972. Ele passou a maior parte da carreira escrevendo poemas despretensiosos, até se tornar roteirista. Seu principal filme até o momento é Fanboys, lançado em 2009. Jogador Número 1 foi o primeiro romance escrito pelo autor, que publicou recentemente o livro Armada. Com o título original de Ready Player Number One, o livro foi publicado em 2011 nos EUA e traduzido para o português por Carolina Caires Coelho e publicado pela Editora Leya em 2012. É possível encontrar o autor no twitter, sob o usuário @erniecline.

O que é interessante saber antes de ler?

        O livro se utiliza da cultura nerd/pop para contar a sua história. O recorte narrativo estabelecido é a década de 80. Dessa forma, a maior parte dos conteúdos citados no decorrer do livro foram produzidos no decorrer dos anos oitenta. Porém, há alguns casos em que as produções foram realizadas nas décadas de 60, 70 ou 90. O livro não menciona produções posteriores a isso.

             Apesar do extenso foco em narrativas externas e do fato de elas serem realmente importantes para a resolução do conflito interno, não é necessário ser expert na cultura nerd/pop para que a história faça sentido. A cada obra citada há uma pequena sinopse sobre o que se trata, uma pequena ambientação e contextualização do fato. Dessa forma, mesmo uma pessoa completamente distante do universo nerd consegue entender o fluxo da história. Porém, é claro que para quem já tem noções dessa ambientação a coisa vai ficar mais divertida.

          Outra dica pré-leitura que dou é para que você só comece o livro caso tenha tempo disponível para embarcar na viagem literária. Não é o tipo de livro que a gente consegue ler calmamente e em pequenas doses. Ele é empolgante o suficiente para que você não queira largá-lo, devido aos vários artifícios literários que utiliza e às inúmeras referências. 

          Pra quem gosta de adaptações cinematográficas, vale dizer que o Steven Spielberg está dirigindo o filme baseado no livro, que tem previsão de estreia para Dezembro de 2017. Como Cline é roteirista e o livro tem a cara do cinema, as expectativas para a adaptação são altas!

Ok, mas sobre o que é esse livro afinal?

          O Jogador Número 1 é Wade Owen Watts, um garoto de 16 anos órfão de pai e mãe que habita uma pilha de traillers em uma cidade do interior dos Estados Unidos. A narrativa se passa em 2044, durante uma grande crise no fornecimento e produção de eletricidade na Terra. O local onde Wade mora é considerado uma “favela” para a narrativa, ou seja, um empilhamento de ferros velhos onde é possível viver quando não se tem dinheiro ou oportunidade para uma vida além disso. O mundo continua desigual, poluído, repleto de guerras e complicado. Por sorte, existe o OASIS.

          OASIS é um programa de simulação massiva, produzido pela empresa GSS, que foi criada por James Halliday. O programa é a melhor realidade virtual produzida até então e o acesso é gratuito e livre. Pense em um universo virtual, composto por diversos planetas, onde todas as coisas que existem em filmes, livros, músicas, seriados, desenhos animados e jogos podem se tornar reais. Cada pessoa pode criar um avatar no OASIS, este avatar pode ser de várias espécies e não precisa condizer com a sua aparência física real. Para acessar o programa basta utilizar um óculos simulador (uma versão mais desenvolvida dos óculos que temos atualmente) e, com o auxílio de luvas e roupas, todos os movimentos que você realiza no mundo real se tornam virtualmente reais e você pode viver uma vida fantástica, mesmo morando em uma pilha de traillers. É o que Wade tenta fazer, sob o codinome de Parzival.

          Mas a história não é sobre o Wade. Veja bem, a narrativa é contada sob o ponto de vista dele, que é o protagonista da história. Porém, a história é sobre a caçada ao ovo do Halliday. O que é isso? Bom, o criador do OASIS morreu e não tinha herdeiros. Ele era multibilionário e sua empresa era uma das mais cotadas no mercado da época. Se tinha uma pessoa que todos queriam ser, essa pessoa era James Halliday. Aí, quando ele morreu, deixou um enigma em seu programa, afirmando que quem o solucionasse receberia toda a sua fortuna e teria controle por sobre a empresa. Isso fez com que milhares de pessoas ao redor do mundo começassem a estudar o universo virtual do OASIS e todas as coisas relacionadas a Halliday, com o intuito de conseguir o prêmio. As coisas ficaram mais acirradas quando a empresa concorrente da GSS, a IOI, criou um grupo especializado de caça-ovos, destinados a conseguirem o prêmio antes de qualquer outra pessoa. A empresa tinha a pretensão de, após conquistar os direitos do OASIS, tornar o acesso pago e acrescentar propagandas patrocinadas em tudo que fosse possível. Isso era visto pelos usuários como restrição à sua liberdade e a única coisa em que todos os caça-ovos concordavam era que a IOI não poderia ganhar a caçada. 

          Wade, que foi criado dentro do universo do OASIS e que tinha uma vida muito complicada no mundo real, decidiu entrar de cabeça na caçada e fazer o que fosse necessário para conseguir o ovo. E isso nos é dito no prefácio da obra, então não é um spoiler: ele consegue. Após essa grande revelação, já no prefácio do livro, o decorrer da narrativa se restringe a mostrar como a caçada ocorreu. E é aí que somos apresentados a outros personagens incríveis.

  • Aech melhor amigo de Wade. Ele tem mais dinheiro no OASIS do que Wade e juntos eles jogam coisas antigas e conversam sobre a vida em geral e sobre novas pistas em relação à caçada. Porém, Wade não sabe quem é Aech na vida real, apesar de se conhecerem há um bom tempo. A revelação de sua identidade ocorre apenas no final do livro e é uma das partes mais surpreendentes e maravilhosas da história – seria muito bacana discutir as implicações disso, mas seria spoiler demais!
  • Art3mis – blogueira e caça-ovo, a garota tem um conhecimento acirrado sobre tudo que envolve a caçada e é uma das mais cotadas para conseguir encontrar o ovo. Seu blog é bem famoso no OASIS e Wade nutre uma paixão platônica por ela. Porém, a personagem não está na narrativa para ser uma paixão infantil do protagonista, ela é muito mais esperta do que ele e essencial para que a história se desenrole da forma que é.
  • Daito e Shoto – dois garotos japoneses que surgem no meio da narrativa após terem conquistado uma das três chaves necessárias para acessar o ovo. Apesar de não termos muitos detalhes sobre a vida deles, é bastante interessante o fato de que a partir de sua aparição vários fatores da cultura nerd japonesa tornam-se parte da narrativa também, fazendo com que ela se torne menos americocêntrica.
  • Ogden Morrow – Melhor amigo de Halliday, ajudou a construir o OASIS, mas acabaram brigando e ficando sem se falar. Durante a narrativa, o conhecemos como um avatar idoso e com mais poderes do que qualquer outro. Na vida real, é um idoso recluso, que vive na casa mais legal que já inventaram.

          O que torna a história muito mais legal do que uma simples caçada é, sem dúvida, a quantidade de referências à cultura nerd/pop e aos anos 80. As sacadas que a narrativa têm são bastante surpreendentes e a forma como essas obras aparecem é muito bem explicada e contextualizada, fazendo com que a história seja bastante crível e interessante.

E o que você achou do livro?

          Eu gostei muito da narrativa. É uma ficção científica realizada com uma linguagem jovem-adulta que é capaz de prender o leitor já no prefácio. A quantidade de pontos de virada que oferece mantém o ritmo de leitura e a curiosidade para saber como as coisas se desenrolaram. 

          É muito interessante lidar com um protagonista nerd, gordo e sem vida social. Principalmente porque no nosso mundo essas pessoas costumam ser excluídas e muito deprimidas e autopiedosas. É interessante colocá-las na posição de herói, que é o que elas realmente são, em todos os jogos que jogam durante suas vidas. É muito bacana a opção de trazer essas pessoas excluídas para a posição de “salvadores da humanidade”, porque isso mostra o quanto a nossa sociedade reprime e exclui essas pessoas não sociáveis e que gostam muito de tecnologia. O próprio Halliday do livro é um reflexo disso. Ele criou o maior programa de simulação existente porque aprendeu desde criança a se utilizar de artifícios tecnológicos e ficcionais para fugir de sua realidade nociva, com pais ruins. 

          O fato de uma pessoa que não recebe muitos créditos da sociedade em geral, por ser vista “de fora” como alguém “sem vida”, ser responsável justamente por melhorar a vida de todas as pessoas do mundo, em níveis exponenciais, é fantástico. Mostra que apesar de algumas habilidades não serem bem vistas pela sociedade atual, seguem sendo importantes e podem ser aproveitadas para algo positivo. Mostra que todas as pessoas têm potencialidade de fazer coisas incríveis, independente de onde elas estejam.

          Inclusive, a alegoria do avatar e do universo virtual do OASIS serve justamente para isso: equiparar as pessoas. Uma vez que dentro dessa realidade virtual, não importa quem você é fora dela, todos ali dentro podem ser o que quiserem. Wade, morando em uma pilha de traillers, pode frequentar os mesmos espaços e ter acesso aos mesmos conteúdos que os empresários da IOI, que tinham recursos ilimitados. É uma metáfora incrível sobre como a diferença de oportunidades realmente propaga a desigualdade social e quando a gente fornece as mesmas oportunidades para todos, as chances de sucesso aumentam. 

          Um ponto moralista do livro é o de que apesar de a realidade virtual ser completa, não fornece as vivências físicas que a realidade real é capaz e isso é mostrado como algo nocivo e penoso. Há um grande esforço narrativo para que, no fim das contas, Wade aprenda a viver um pouco no mundo real e não só no OASIS. Isso é um ponto complicado, porque a narrativa inteira mostra o contrário e a quebra de paradigma não é bem desenvolvida, de forma que o OASIS continua sendo bem mais atrativo que a realidade. É compreensível que a necessidade de afeto humano e físico exista e que, caso não suprida, torne a pessoa depressiva, porém, acredito que é uma questão de equilíbrio e que se afastar totalmente do virtual não seria adequado – ou possível. 

          Outro ponto complicado, é o papel de Art3mis, que começa sendo uma personagem fenomenal e de ampla agência e depois acaba sendo apagada. É compreensível que isso ocorra pela narrativa em primeira pessoa fornecida por Wade, mas é um pouco frustrante não saber mais sobre ela, que parece ser incrível. O mesmo pode ser dito sobre Aech, Daito, Shoto e os demais. Apesar disso, a história cumpre muito bem sua função e é notável a quantidade de pesquisa realizada por Cline para a produção do conteúdo. Porém, é igualmente perceptível que todos os personagens sabiam mais coisas do que o próprio autor. Aquele típico caso de quando o personagem ultrapassa a potencialidade do autor, apesar de ele ter feito um bom trabalho.

          Por fim, acredito que a leitura tenha mais pontos positivos do que negativos, e por isso a recomendo. Se alguém souber de uma lista com tudo que foi citado no livro e onde posso encontrar, agradeço!

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