Ódio do ócio, ócio do ódio.

Eu descobri com doze anos que odiava as pessoas. Todas elas. Eu não tinha a menor vontade de me misturar, porque todas eram inúteis e só iam servir pra um par de risadas e nada mais que isso. Por mais que eu goste de rir, expandir meu contato social só para obter este sucesso na vida sempre me incomodou. Aí eu comecei a fazer teatro e aprendi que devia tentar ser legal, mesmo que não fosse de verdade. Aprendi que na frente das pessoas eu tinha que colocar uma máscara feliz e divertida e “me jogar”, ser quem elas queriam que eu fosse e ponto final. Aprendi que sempre teria o meu quarto cor-de-rosa (que agora é branco) para abranger as minhas rebeldias sem sentido perante a vida e a não existência de algo que eu possa considerar como vida de fato. Aprendi que meu guarda-roupas estaria sempre bagunçado, mas jamais se compararia com meu chão e que minha estante de livros estaria impecável e catalogada, pois é meu método de tentar organizar a tal vida. Aprendi que eu ia conhecer cerca de meia dúzia de gente que ia me fazer sentir a vontade o suficiente para arrancar a tal máscara e mostrar que ei, eu sou chata pra caramba, ok? E essas pessoas, mesmo com essa ciência, continuariam ali. Porque tem louco pra tudo nessa vida.

Nunca aprendi a sobreviver ao ócio. Aos feriados e às férias. Sempre as passei perto de minha prima, que me aturava durante todas as madrugadas, às quais eu jamais dormia. Porque é muito mais legal ficar acordado e interagir quando todo o mundo está em repouso, quando você não precisa se esforçar, pentear o cabelo ou fazer as olheiras desincharem, simplesmente porque ninguém vai estar vendo. Tudo é mais fácil quando o escuro te protege. A claridade sempre me incomodou. Por isso o blackout do quarto fica fechado o dia inteiro sempre, menos quando eu saio e minha mãe abre pra “entrar um ar”. As noites não dormidas ou dormidas e mal sonhadas ou dormidas e tão bem sonhadas que tornam-se péssimas puramente por serem irreais sempre foram minha parte preferida da existência. E é um absurdo que eu seja obrigada a desperdiçá-la dormindo durante a maior parte da minha vida. É por isso que, amante da madrugada, odiante de pessoas, convivência, intimidade, relacionamentos e claridade, madrugadas de feriados e fins de semana tornaram-se minhas preferidas. Mesmo sem a minha prima. Mesmo sem as conversas sem sentido e sem olhos nos olhos. Porque agora eu canalizo todo o meu ódio em músicas violentas e escrevo coisas absurdas enquanto me imagino socando todas as pessoas que odeio e é incrível como a lista de pessoas e lugares que eu odeio crescem a cada dia. É quase uma função exponencial e pra eu ser capaz de me lembrar o que é uma função exponencial é porque ando muito irritada. É isso. Eu ando irritada. Explosiva. Estressada. Com vontade de pegar uma metralhadora e sair por aí lavando o mundo em sangue. Porque é tudo muito errado. Tudo muito irrelevante. Tudo muito pra nada.

Dezenove anos. Inconstância. Preguiça. Malemolência. Vontade de retornar aos hábitos de cidade de interior e visitar o cemitério só para poder correr e gritar sem parecer maluca. Vontade de pular da janela só pra ver se aprendo a voar. Vontade de fugir. Pra qualquer lugar. Pra fazer qualquer coisa. Algo diferente. Inconstante. Que não me irrite. Porque até chocolate me irrita. Porque até as lágrimas que insistem em aparecer pararam de ser benéficas e se transformaram em odiadoras e malvadas como todo o resto da minha essência. Porque ler me irrita e não ler me irrita mais ainda. Porque eu não consigo ver um filme inteiro sem ter vontade de explodir o idiota que inventou os filmes e não consigo passar dez minutos no computador sem querer explodir o débil mental que inventou essa merda. Porque não consigo respirar de olhos abertos por cinco segundos sem querer explodir o retardado que inventou essa coisa chamada “gente”.

Trilha sonora de Clube da Luta. Textos que eu queria muito poder não ler. Vontade absurda de não ter tendinite só pra poder bater em alguém, qualquer um. Nem que fosse pra sair na rua de pijama e dar um soco e voltar pra dormir tranquila. Busca por uma paz interior que aparentemente está mas que longe. Vontades e anseios que jamais serão realizados. Fuga. Síndrome de Supertramp mais atacada do que nunca. Vontade de achar um babaca qualquer pra me acompanhar em uma viagem de carro para o infinito, só pra eu ter quem xingar enquanto escuto músicas esquisitas e reclamo de cada micro-pedaço de cada micro-coisa que eu encontrar pelo caminho. Porque eu odeio novembro. Porque eu odeio fins de ano. Porque eu odeio fins. E odeio inícios. E odeio tudo. Inclusive você.

Angústia

Eu entendo as razões para a existência do feminismo. Entendo que as mulheres são tratadas como inferiores em quesitos que realmente não são e que por causa de tamanha desvalorização elas acabam objetificadas e tratadas como nada. Eu entendo que por causa dessa cultura massificada que ensina os homens desde sempre que mulheres possuem ótimos buracos e que peitos são a oitava maravilha do mundo, muitas mulheres sejam estupradas, abusadas, violentadas de maneiras absurdas e mortas todos os dias. E entendo que muitas delas não tenham coragem de contar nada disso, por medo da revolta do agressor. Por medo de sofrer mais pelo simples fato de ser mulher. Eu entendo tudo isso. E acho uma palhaçada. Assim como acho uma palhaçada que todas essas coisas aconteçam com negros, indígenas, mendigos, homossexuais e quaisquer outra subdivisão considerada inferior e mais fraca por algum modo. E é por isso que defendo o direito de todas essas pessoas a irem à luta, por igualdade e por respeito. Coisas que deveriam nos ser garantidas, tendo em vista que fazem parte da “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, mais precisamente do artigo II que diz “Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidas nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento ou qualquer outra condição”.

A questão é que a Declaração de Direitos Humanos é só uma proposta de acordo de paz, como muitos outros, que servem como aparatos para algumas coisas, mas não como bases reais de fundamentos para atitudes humanas. A maioria das pessoas nunca leu essa Declaração e, convenhamos, ninguém nunca foi perguntado se concordava com ela ou não. A gente simplesmente nasceu. Aqui, num universo repleto de regras e convenções às quais tivemos que aprender a lidar, até que isso nos sufocasse o suficiente para que, os que não aprenderam a lidar, se revoltassem e começassem suas revoluções em prol das minorias.

Descobri-me uma pessoa revoltada para com o feminismo. Eu sempre achei que gostava dele, porque eu concordo com vários de seus preceitos e porque adoro o fato de eu poder ter voz e poder tomar decisões sobre a minha vida, coisas que jamais teriam acontecido sem ele. Só que uma das linhas do feminismo é a da “teoria queer”, que pretende uma igualdade social total entre os gêneros e isso me incomoda de um tanto que nem consigo expressar. Não a teoria em si, se ela se tornasse realidade ok, eu até conseguiria me acostumar, eu acho, a questão é que vejo essa e algumas outras linhas do feminismo tão utópicas quanto o lindo comunismo marxista. E isso me irrita. Porque é impossível que a classe oprimida se reconheça como oprimida e se una em prol de uma revolta de paradigmas. A gente nunca vai conseguir uma revolta comunista, porque ao mesmo tempo que detestamos a desigualdade social e todo o mal que ela trás para a humanidade, adoramos o fato de podermos comprar o celular que a gente quer e todos os outros privilégios de “classe média” e, ok,  a ideia não é empobrecer as pessoas, é tornar todo mundo igual em um patamar econômico mediano, suficiente para todos serem felizes com seu dinheirinho e tal, mas eu não consigo ver uma aplicação prática disso. Não consigo imaginar um mundo sem desigualdade e se eu conseguisse, não sei se ia querer viver nele. Pode parecer ridículo e talvez seja, mas é a verdade. O mesmo acontece com o feminismo. A intenção não é tornar o mundo uma enorme supremacia feminina, é apenas promover a igualdade entre os sexos/gêneros, visando o respeito. Tecnicamente é uma coisa bem simples, o problema é que até as pessoas que lutam por isso foram criadas sob preceitos machistas e até elas vão reproduzir o machismo em algum momento, não é como se fôssemos capaz de extirpar uma cultura da gente, só porque de repente a vemos como errada.  Por mais feministas que sejam, as mulheres vão continuar em busca de um parceirx para a vida. Vão continuar sabendo menos sobre fios elétricos e mais sobre pregar botões e para mudar isso teriam que mudar toda a mentalidade de uma geração que está sendo formada, mas como mudar essa mentalidade, se os próprios formadores de opinião não sabem direito o que expressar?

Vivo em um mundo muito ativo politicamente, vivo rodeada de militantes das mais diversas coisas e, ao mesmo tempo, vivo em uma família ultra-conservadora que odeia tudo isso. Para ser diferente da minha família, forcei-me a acreditar cegamente em todos os padrões militantes sem nem pensar sobre eles, porque eram diferentes dos da minha família, então deviam ser bons. Só que eu me sinto tão oprimida pelas pessoas que pregam o libertarismo, o feminismo e a igualdade, quanto pelos que pregam a opressão, o conservadorismo e a supremacia. Consigo verificar pontos negativos e positivos das duas posições e me é impossível decidir de qual lado eu quero ficar. Sou uma completa indecisa e em cima do muro, em todos os quesitos, porque eu nunca vou conseguir discordar completamente de alguém e, ao mesmo tempo que isso me irrita, eu acho fantástico. Porque eu realmente me acharia uma babaca se estivesse comendo kinder bueno enquanto saía gritando por uma igualdade econômica ou se tivesse indo gritar pela liberdade feminina após ter pedido permissão para o meu pai para isso.

Meu pai nunca se importou com o que eu faço ou deixo de fazer, então eu simplesmente faço. Mas eu sei que isso decepciona tanto a ele quanto à minha mãe. Saber que eu tento pensar e que não quis ser um robô programado para seguir preceitos da moral cristã os assusta, tendo em vista que foi para isso que eles me criaram e eu acho divertido esse embate familiar que tenho que lidar todos os dias, acho que é um ponto forte do feminismo existente em mim. Isso e o fato de eu ser uma maluca por quebrar convenções sociais que impõem que eu tenha um cabelo comportado, use roupas bonitinhas, coma salada e tenha planos para casar. Mas acho que é só isso. Eu prezo muito pela liberdade perante o meu próprio corpo e pelo direito de poder estudar e trabalhar e receber a mesma remuneração que um homem no mesmo cargo. Eu detesto as cantadas dos pedreiros que sou obrigada a ouvir todos os dias e me enojo ao ver as crianças brincando de ser mães, porque elas poderiam estar brincando de uma série de outras coisas, mas não pelo fato de “estarem treinando para ser mães”. Acho legal a noção de que uma mulher não PRECISA ser mãe, mas ao mesmo tempo, acho legal quem respeita aquelas que querem. Aquelas que acreditam no casamento, numa vida comportada e conservadora.

Se Doctor Who aparecesse na minha vida hoje e me perguntasse em qual época e lugar eu gostaria de ser largada, pediria para estar na Inglaterra do século XVIII, para ter a chance de viver um dos romances da Jane Austen. Porque eles são lindos, eles são românticos, mas são a representação perfeita de como uma sociedade machista funciona e de como uma mulher acaba por se render a ela quando encontra o amor, porque só o amor salva. Eu nem sei se ainda acredito no amor, mas queria ter a chance de viver naquela época, porque lá eu acreditaria, lá eu não precisaria pensar, lá eu não teria que viver essa eterna angústia de pessoa insatisfeita com a própria insatisfação. Lá eu poderia apenas reproduzir o que minha mãe me ensinaria, poderia bordar em paz (como eu tenho saudades de ter tempo para bordar!) e poderia criar um monte de pirralhos, do jeito que eu sempre quis.

No mundo atual eu me vejo cada vez mais obrigada a aperfeiçoar o meu intelecto, a conviver com pessoas que acreditam em coisas que acho duvidosas, a olhar para as crianças às quais dou aula com pena, porque sei que um dia elas vão ter que encarar o mundo e vão se decepcionar. Mas não consigo deixar de ter um pingo de esperança e fico com vontade de mudar a vida deles de algum modo, de fazer eles pensarem, talvez se todo mundo tiver senso crítico as utopias se tornem reais. Talvez o que falte seja a gente acreditar. O Chapeleiro Maluco de Once Upon a Time disse que o problema dos humanos é que eles querem sempre uma solução mágica, mas não acreditam nela. Eu realmente não acredito. As vezes eu acho que não acredito em nada. Se não consigo acreditar nem em mim, como serei capaz de acreditar em qualquer uma dessas milhares de teorias fenomenais com as quais vivo entrando em contato? Como serei capaz de achar que um dia seremos iguais, mas ainda assim haverá um jeito do romantismo existir? A visão que eu tenho é a de que o romantismo é tão antiquado e dominativo, que em uma sociedade igualitária simplesmente desapareceria e a gente ia se relacionar com as pessoas só para suprir a ânsia de não sermos sozinhos. E eu já cansei disso, de tentar tampar o Sol com uma peneira e continuar queimada pelos raios UV que passam por cada buraquinho. Eu já cansei de me ver obrigada a sorrir e concordar com as coisas só para não parecer uma conservadora-reprodutora-de-senso-comum mesmo estudando antropologia. Porque tem uma assim no meu curso e ela é deplorável e eu não quero ser ela e eu não acho que eu seja. Mas também não sou aquela que vai sair por aí gritando que quer que o mundo seja perfeito, porque eu odeio coisas perfeitas, porque eu preciso dos meus problemas imaginários e dos motivos para passar o dia inteiro angustiada e sofrendo e comendo mil e um doces e ficando com peso na consciência porque vou sair do padrão de beleza implantado na minha mente!

Eu jamais lutaria contra o padrão de beleza, inclusive, porque eu adoro ele. Por mais opressivo e exclusivo que seja, eu gosto da ideia de que as pessoas tem que se depilar, ter dentes brancos e não tortos, cabelos ajeitados, unhas bonitas, roupas não grotescas e um peso que condiga com sua estrutura óssea. Acho triste as pessoas que se submetem a mil plásticas porque querem ser a barbie, mas nisso eu enxergo apenas um exagero e não uma razão para acabarem com as barbies, mesmo porque, elas são bonecas simples, que proporcionam que as crianças continuem criativas e continuem a inventar histórias e qual é graça de ser criança se você não pode inventar histórias? Se você não pode achar que um dia vai ser uma princesa, como as da Disney, ou até mesmo como a Mia Thermopolis? Eu odeio a robotização infantil que vem sendo pregada constantemente, se elas não puderem inventar histórias, não vão conseguir desenvolver seu raciocínio a ponto de se tornarem bons pensadores e sem bons pensadores a humanidade acaba. As indagações acabam, a arte acaba, a literatura, música, cinema… tudo vira reprodução do que já foi, repetição do que já foi dito. E é isso que me incomoda. E não o fato de uma mulher pedir para um homem trocar uma lâmpada ou fazer a bateria do carro funcionar, não são coisas que interessam muitas delas. Assim como pregar botões e fazer cachecóis não interessa muitos dos homens. E eu não sei qual é o problema disso. Não sei qual é o problema em cumprirmos alguns papéis diferentes. Não sei qual é o problema em sermos diferentes e ao mesmo tempo tão intensamente dependentes uns dos outros.

As vezes eu acho que todos esses movimentos sociais apenas ampliam o individualismo e o enfraquecimento de laços sociais, enquanto acreditam estar fazendo o exato contrário. E isso me irrita, me incomoda, me deixa enfurecida. Porque eu odeio ser sozinha, porque eu sou uma pessoa absurdamente dependente. Porque um dia minha mãe vai morrer e eu vou precisar de alguém que me dê liberdade o suficiente para eu chorar no colo, dormir abraçada e pedir para pentear meu cabelo nos dias que meu braço resolve não funcionar. E eu não me vejo conseguindo nada disso em um universo em que as pessoas vivem pregando que não precisam umas das outras, exceto no momento da revolução. Porque eu odeio as pessoas, mas eu preciso delas. O tempo inteiro.

Coerção Social

Nunca fui do tipo maníaca por encontrar um namorado e nunca entendi as perguntas do tipo “mas você não tem vontade?”, “já tá na idade, não?” ou os desejos de “e muitos namorados” que minhas primas começaram a fazer nos meus aniversários desde os quinze anos. Nunca me imaginei tendo um namorado, isso porque tenho aquele problema de não conseguir imaginar como chegar ao fim, mas conseguir imaginar o fim. Nas poucas vezes que me vi velha (e por velha entendam trinta e pouco anos, não que isso seja velha, mas nunca consegui me imaginar mais velha que isso – síndrome de Marla Singer de viver esperando que a morte chegue logo e ficar decepcionada porque ela demora) conseguia imaginar minha casa com um lindo ateliê de arte e uma máquina de escrever antiga e paredes repletas de livros – a maioria lidos e eu preparando o lanche para os meus filhos levarem para a escola e fazendo o nó na gravata do pai dos filhos e depois indo para o meu lindo trabalho sofisticado e sem horário pré-estabelecido, que permitiria pausas esporádicas para lanchinhos e sonecas.

Veja que eu digo “pai dos meus filhos”, isso porque como nunca me imaginei casando não me sinto apta a chamar esse indivíduo de “marido”. Assim como acho que vou demorar anos pra conseguir chamar alguém de “namorado”, mesmo que o resto do mundo chame. Mesmo que eu ache que talvez a gente seja. Porque na minha cabeça, estar em um relacionamento significa que você finalmente admitiu sua vulnerabilidade e resolveu compartilhar de verdade a existência para com outra pessoa. A partir disso você passa o tempo inteiro conversando com ela, e continua a sempre ter assunto simplesmente porque se sente apta a falar sobre o que quiser.  E você tem certeza de que não importa o que fale estará sendo ouvida, a pessoa estará interessada e no final vai te falar o que você precisa ouvir e vocês vão sorrir e dormir tranquilos. E eu não consigo me imaginar nessa posição.

Alguma coisa no meu cérebro bloqueia o quesito “relacionamentos amorosos” e toda vez que eu acho que estou finalmente gostando de alguém e a minha família finalmente vai tirar a imagem de 19-anos-nunca-beijou-na-boca que têm de mim na cabeça, pronto. Tudo volta. Eu me sinto a pior pessoa do universo por considerar a hipótese de gostar de alguém e empatar a vida da pessoa e, ai Deus, 7 bilhões de pessoas no mundo, não posso condenar o pobre coitado a gostar de mim e exigir exclusividade ainda! Porque, né, quem seria o burro que ia se condenar a ficar ~~comigo~~? Aí eu desisto de todos os meus possíveis pensamentos românticos, sento no meu canto comento meu chocolate e vendo meus filmes reflexivos, tento entender porque isso acontece, tento pensar que talvez eu mereça ser amada por alguém, talvez todos mereçam, choro um pouquinho e durmo. Acho que a cultura emo de 2007 realmente se enraizou em meu coraçãozinho e decidiu nunca mais me deixar em paz.

Até aí tudo bem, o problema é quando eu resolvo assistir as comédias românticas. Porque eu odeio as comédias românticas, mas as amo tão intensamente! Elas são insuportáveis porque mostram gente comum, triste e solitária que encontra o amor da vida na fila do supermercado e passa por altas aventuras enquanto tenta consolidar que de fato eles são o amor da vida um do outro e no final todos ficam bem e felizes e ao mesmo tempo que eu rio da história e choro com a desilusão por nada daquilo ser real, uma sementinha no fundo do meu cérebro me faz pensar que talvez essas coisas aconteçam com alguém. Talvez eu só precise me abrir mais. Talvez o problema esteja comigo (no fim sempre concluo que o problema está comigo, claro.)

Só que eu sempre soube lidar bem com essas coisas. Eu sempre consegui dormir depois dos meus choros-chocolates-filmes. Sempre consegui sorrir no outro dia e ignorar minhas tias dizendo que eu preciso parar de ter nojo de beijo na boca, porque é bom. Só porque  com 14 anos eu falei que achava super nojento e nunca fiz isso na frente delas e elas sub-entenderam que eu nunca fiz isso em lugar nenhum. E estava tudo bem, tudo tranquilo. Eu conseguia ouvir minhas amigas falando sobre os possíveis amores e sobre os reais amores, sobre o que fizeram e o que gostariam de fazer, sobre qualquer coisa relacionada a garotos e manter-me longe o suficiente para jamais me envolver com as conversas. Um dos principais motivos para eu me sentir um alien durante a escola era justamente o fato de que as meninas só falavam sobre garotos e, poxa, tinha tanta coisa a mais no mundo para ser dita e elas se limitavam a tão pouco! Nada fazia sentido.

Eu nunca vi sentido em encontrar um namorado aos quinze anos e estar noiva aos 21. Nunca vi sentido nessa história de amor da vida, alma gêmea ou qualquer coisa assim. Pra mim sempre foi clara a ideia de pessoas que se encontram, se gostam, tornam-se dependentes da existência uma da outra, sentem-se aptas a compartilhá-las e o fazem. Simples assim.

E daí minhas amigas começaram a ter namorados. E daí as pessoas que estudavam comigo no ensino fundamental casaram e tiveram filhos. E aí algumas outras amigas ficaram noivas e outras não namoram porque preferem ir para as baladas e “passar o rodo” e várias outras fazem como eu e passam as noites fugindo da realidade enquanto encaram realidades paralelas em filmes, livros e séries e imaginam o quão bom seriam se aquela fosse a realidade delas. E eu não consigo entender porque essas coisas acontecem ou como acontecem, mas chega um ponto na vida em que tudo ao seu redor coage para a ideia de que você precisa de um relacionamento romântico monogâmico para ser feliz. Que você precisa encontrar um homem-hetero-solteiro que more na sua cidade e pareça minimamente confiável e interessante. Que sua vida nunca vai ser completa ou fazer sentido se você não tiver isso. Que você vai ser excluída socialmente, porque todas as amigas-que-namoram vão sair com os namorados e você vai ficar sozinha em casa. E que um dia de fato todas as suas amigas vão ter namorados e você não, logo, você será uma velha cheia de gatos e livros não lidos numa estante gigante.

E essas ideias são aterrorizantes. Porque ninguém quer ser sozinho. Ninguém que imaginar um futuro distante em que está sozinho. E eu sei que tem toda essa gente que acredita que mulher não nasceu para casar e ser mãe e ok, ela não NASCEU pra isso, mas, assim como os homens, ela vai sentir vontade de fazer isso em algum momento. E não importa se é porque a cultura em que ela está inserida a faz sentir mais segura quando acompanhada, não importa se é porque colocaram na cabeça dela que a solidão é a pior coisa do mundo, não importa se é porque ela acredita piamente que só vai ser feliz com um homem do lado, nada disso importa. O fato é que vai chegar um ponto na vida em que a mulher vai se sentir obrigada a encontrar um homem para compartilhar as coisas. Vai chegar um momento que tudo ao redor dela vai levar para isso. Vai chegar um momento em que ela vai se desesperar e ansiar amargamente que essas coisas aconteçam com ela.

E é exatamente nesse momento que os filmes de comédia romântica nos diriam que a gente não vai encontrar, porque estaremos tão desesperadas procurando nosso padrão que acabaremos sozinhas. E é nesse momento que vamos começar a ler Marian Keys, achar Nicholas Sparks fofo e morrer chorando com músicas da Taylor Swift. E que vamos fazer playlists para dor de cotovelo (porque todas as pessoas minimamente interessantes não cumprem o padrão básico hetero-solteiro-quemorenamesmacidade) e que vamos baixar aplicativos que transformam pessoas em catálogos ou mandar spotteds pra qualquer um que demonstre-se disponível de algum modo. É nesse momento que dormimos esperando o cara-lindo-dos-filmes apareça e ele nunca aparece. E os eventos familiares se aproximam, e seus primos sempre estão acompanhados, e os que não estão são chamados de “espertos” e “pegadores”, enquanto as primas acompanhadas são super aclamadas, as não acompanhadas, mas com mais de 25 anos são rechaçadas e dizem que “vão ficar para a titia” e as um pouco mais novas, mas que nunca demonstraram algum tipo de habilidade no quesito romântico viram piada.

E mesmo que nada nesse universo faça sentido, você torce para encontrar logo um namorado, colocar isso no facebook (pra evitar ter que falar pra todo mundo, porque isso me faria admitir que tenho um namorado e seria estranho e símbolo de fraqueza imenso) e conseguir dormir em paz à noite. Depois de ver um filme compartilhando pipoca, cobertor e a cama.

E esse é só mais um dos motivos pela qual a sociedade me irrita.

Pressure

Recentemente entrei em contato com uma personagem genial que tinha como lema de vida o pensamento de que “tudo é mais feio quando visto de perto” e por alguns momentos acreditei nisso, mas logo a ideia se esvaiu em minha mente. Afinal, o que é “feio”? É ter algum defeito? Não cumprir aquele papel de perfeição que o mundo nos faz esperar de toda e qualquer coisa? É gerar alguma decepção e frustração? Se for assim é verdade. Tudo é feio quando visto de perto. De perto todas as nossas máscaras caem e a gente prova que não somos os super heróis ou super heroínas que demonstramos na maior parte do tempo. Eu sempre tive a filosofia de que não existe o “normal” porque ninguém realmente segue um padrão específico e semelhante, por mais que de longe todos nós possamos ser classificados pelas mais diversas categorias, quando vistos de perto somos apenas um reflexo de tudo aquilo que passamos em nossas vidas. Somos o que o mundo construiu, enquanto nós construíamos nosso próprio mundo.  Então sim. Todos nós somos feios vistos de perto. Todos somos anormais. E é por isso que somos tão belos e é por isso que ainda há algum sentido nessa coisa de “viver”.

Querendo ou não, a gente gosta de desvendar os universos alheios, de tentar entender como é que os outros enxergam o mundo. A gente vive julgando pessoas baseando-se em nossos próprios preceitos, mas com um pouquinho de esperteza que surge do além estamos nós percebendo que dentro da realidade daquela pessoa tudo que ela fez faz sentido pra ela e então a gente simplesmente perde os parâmetros para julgar e se vê obrigado a cuidar da própria vida, sem desmerecer a de ninguém, mesmo que não concordemos com muitas das coisas que os outros fazem. E isso nos torna mais lindos. Mesmo que sejamos feios quando visto de perto. Mesmo que sejamos feitos de papel.

Eu acredito que de fato temos uma imagem feita de papel, todos nós. A gente se constrói em uma via de mão dupla, sendo a primeira mão aquela que a gente mostra para toda e qualquer pessoa e a segunda aquela que a gente é no nosso íntimo e que só quem se aventura na arte de nos conhecer chega um pouco perto de desvendar, embora nem nós mesmos consigamos de fato perceber essa face da nossa própria construção.  A questão é saber aparar as arestas dessas duas vias e tentar interseccioná-las para que não viremos completos babacas duas caras que não são nada enquanto tentam ser absolutamente tudo.

A gente vive em um mundo onde o ethos social tem muito mais importância do que aquilo que realmente somos ou queremos ser. Vivemos em um universo em que ninguém se importa de fato com o que a gente pensa, ou poucas gentes o fazem. Lidamos diariamente com um punhado de gente que só está interessada em saber da nossa vida para que em seguida possa falar de sua própria, a fim de provar para si mesmo que sua vida não é assim tão ruim e ter a ilusão de estar sendo ouvida. Mal sabem as pessoas que pouquíssimos são os que de fato querem ouvi-las. Os outros só estão ali porque têm medo do silêncio. Porque não querem se sentir sozinhos. Porque acreditam na ilusão de que serem iludidos com verdades alheias que por muitas vezes são falsárias é melhor do que viver a própria vida. E nós ficamos aqui. Perdidos. Transformamo-nos em Manequins largados em vitrines de loja, prontos para sermos exibidos, mostrados, compartilhados e com barreiras infinitas para a arte de sermos ouvidos, compreendidos ou amados.

“We accept the love we think we deserve” disse Charlie em “The Perks of being a Wallflower” e depois de muito procurar por aí e de muito refletir eu finalmente descobri qual é o amor que eu acredito merecer. É aquele que não me super-estima ou sufoca, que entende minhas limitações físicas e psicológicas. Que sabe que reagirei abruptamente mal a elogios e coisas fofas porque me sinto inapta a ser amada, porque acredito que não sou uma boa pessoa, que não mereço tempo alheio desperdiçado comigo, que vou morrer logo e que deveria ser usada apenas para um par de risadas e nada mais. Eu acho que não mereço amor. E é por isso que me encanto por pessoas que não demonstram gostar de mim, mesmo eu sabendo que elas gostam. E é por isso que considero como incógnitas todas aquelas que eu gosto e vivem dizendo que por mim sentem apreço. E é por isso que eu surto. É por isso que eu nada sei.

Se sou tão papel assim, como é que consigo ter um pouco de senso de carne e osso de vez em quando? Como é que posso ser um objeto passível de receber sentimentos bons de terceiros se é sempre essa luta tão infernal para conseguir um pouco de apreço próprio?

tpobaw