Ser mulher em tempos de Internet

         Em meados de 2010 um site onde poderiam ser realizadas perguntas para as pessoas, de forma anônima ou não, tornou-se bastante popular entre os jovens brasileiros usuários de internet. Era o formspring.me. Meses depois, o hábito de fazer perguntas anônimas, ou não, e respondê-las, foi passado para outro site de mesmo intuito: o ask.fm.

       A relação criada a partir desses sites tinha a intenção de ser divertida, visto que muitas vezes a gente tem curiosidade de perguntar coisas para as pessoas, mas não tem coragem de fazer presencialmente. Outras vezes, não temos coragem nem de fazer online, então é ótimo poder acessar todas as respostas que a pessoa já realizou, sem precisar fazer as perguntas.

       Essas redes sociais possibilitavam que as pessoas conhecessem coisas mais íntimas e inusitadas umas das outras, sem necessariamente terem que se conhecer ou conversar. As perguntas giravam em torno de vários assuntos e, eu, como pessoa de 16 anos que utilizava essas redes sociais, costumava receber perguntas sobre cabelos, unhas, maquiagens, escola, romances e afins, nada muito invasivo. Na maioria das vezes eu até sabia quem havia feito as questões, então era um ambiente amigável e tranquilo. Porém, essa não foi a experiência de diversas outras garotas.

       Os dois sites caíram em desuso e por, pelo menos, 2 anos a ideia de perguntar anonimamente coisas e responder perguntas anônimas não foi utilizada. Até que, recentemente, uma rede social bastante semelhante, chamada Curious Cat, começou a ganhar popularidade. Principalmente entre os usuários do Twitter (que haviam sido o público alvo dos dois sites anteriormente mencionados). O Curious Cat permite confissões (que não podem ser respondidas) e perguntas. O usuário configura se aceita ou não receber perguntas e confissões anônimas e então aguarda o recebimento delas e começa a responder.

       A maior parte dos usuários opta por autorizar o recebimento de questões anônimas. Isso porque a graça da brincadeira é justamente poder perguntar o que gostaria, sem precisar dar a cara a tapa. E também porque, como o site ainda não é muito popular, essa permissão faz com que mesmo pessoas que não têm conta no Curious Cat possam perguntar e confessar coisas para outras pessoas. Até aí nenhum problema.

       Mas eu comecei a receber perguntas bastante invasivas. Questões sobre minhas preferências, gostos e desejos sexuais (e não falo de “você gosta de homens ou mulheres?“, mas de “você é safada ou santinha?“, “o que prefere na cama?” etc etc). Eu fiquei bastante assustada. Primeiro porque até então as perguntas que havia recebido eram realmente legais, perguntavam sobre o que eu estudava, o que gostava de fazer nas horas vagas, quais meus livros e séries preferidos, como mantenho o cabelo hidratado etc etc etc. Aí, de repente, receber perguntas assim causou um estranhamento. A segunda razão para o susto foi o fato de que eu só divulguei aquele perfil no meu twitter, o que significa que as chances de a pessoa que perguntou me seguir são grandes. O que significa que as chances de eu conhecer essa pessoa são grandes. O que significa que eu não fui simplesmente desrespeitada por um anônimo de internet, que faz comentários toscos no site do G1. Eu fui desrespeitada por alguém que eu pretensamente conheço e que possivelmente não me trata assim quando eu posso ver seu nome. Por fim, e a razão para o susto ter se transformado em raiva, meu namorado tem a mesma rede social, por mais tempo do que eu, e nunca recebeu perguntas semelhantes a essas, mas fui conversar com outras meninas e todas elas disseram ter recebido.

       Então, eu resolvi vir aqui e deixar bem claro: eu e as outras meninas fizemos a rede social pela mesma razão que o meu namorado, que é homem cis-hetero-branco. Ou seja, para receber perguntas interessantes e que nos tirem do tédio corriqueiro. Para que pudéssemos falar sobre nós para outras pessoas, de acordo com o interesse delas. Não é porque somos meninas que fizemos essa rede social para responder perguntas sexuais. Não é porque somos meninas que vamos responder questões anônimas sobre nossas intimidades. Não é porque somos meninas que usuários da internet podem se utilizar do anonimato para nos desrespeitarem e tratarem como objetos sexuais.

“Ah, mas as perguntas não tem nada demais”

       Elas não teriam nada demais. Se tivessem sido perguntadas para mim pelo meu namorado ou pelas minhas amigas próximas. Elas se tornam algo a mais quando perguntadas anonimamente online. Porque não é porque eu estou na internet que sou obrigada a contar absolutamente tudo sobre a minha vida para vocês. Não é porque tenho redes sociais e escrevo em um blog que não tenho vida privada. Até a família Kardashian, que transformou a própria vida em um reality show, têm momentos de privacidade e informações que não liberam publicamente. Então, colegas, não é porque eu sou uma garota de 22 anos que escreve na internet que quero ser desrespeitada e que não posso reter informações para as pessoas que eu conheço. Não é por isso que a minha intimidade tem que ser escrachada para vocês.

“Ah, mas não é para isso que o twitter serve?”

         Mesmo no twitter há um filtro de informações. Eu não twitto sobre como a minha merda estava grande e entupiu a minha privada, assim como não twitto sobre quando meu coletor menstrual fica difícil de tirar e causa cólicas e eu absolutamente não twitto sobre a minha vida sexual ou sobre detalhes dos meus relacionamentos – sejam eles quais forem. Porque isso não diz respeito a ninguém além de mim e as pessoas envolvidas comigo. E não é porque uso a internet que mereço ser desrespeitada e tratada como um “objeto de entretenimento para homens carentes“. Eu não sou isso. Não acho que alguma menina seja isso. É horrível pensar que involuntariamente nos tornamos isso. Não é confortável estar nessa situação e eu e muitas outras abominamos esse fato.

          Eu não sei se vocês sabem, mas pretendo me especializar no estudo de antropologia digital. E um dos meus livros fonte, chamado “How the world changed social media” tem um capítulo exclusivo para a relação entre o gênero e a internet. Eles especificam que gênero é considerado pelos autores como “as diferenças sociais e culturais construídas entre feminilidade e masculinidade, moldada por incontáveis fatores, incluindo o uso da tecnologia e das mídias digitais” e eles apontam que “estudantes do feminismo online enfatizaram o papel que as mídias digitais realizam em prover ferramentas de empoderamento, permitindo tanto às mulheres quanto aos homens liberdade para performar os eus e identidades que eles escolhem para eles online, escapando das normas opressivas de gênero do mundo offline“.

         Donna Haraway é apontada como fonte de um dos melhores argumentos em relação a isso, uma vez que ela “enfatiza o poder da tecnologia para transformar as relações de gênero e identidade. Além disso, como gênero pode potencialmente ser apagado e irrelevante online, isso foi visto como uma evidência de que as noções de gênero são culturalmente construídas, criadas a partir de interações entre o mundo social e a cultura material (e tecnologias)“. O livro ainda enfatiza que alguns “otimistas digitais” consideram que a “internet facilitou a expressão genuína da agência feminina ao invés de algo imposto a elas“. Porque na internet a mulher pode ser a mulher que quiser e não a que a sociedade quer que ela seja.

        Pensar o feminismo online é bastante interessante, porque os gêneros na rede não são necessariamente os mesmos de fora dela. Assim como a relação entre eles é diferenciada. O anonimato pode ser usado de forma positiva e empoderadora na internet, como é o caso do aplicativo Whisper, que foi muito utilizado por mulheres muçulmanas para denunciarem anonimamente injustiças que não poderiam denunciar de forma não-anônima, sem serem repreendidas. A possibilidade de falar anonimamente que seu marido te bateu, proporciona que outras pessoas que passaram por isso se empatizem com você e você acabe descobrindo modos de lidar com isso. Isso também é bastante perceptível em grupos feministas no facebook, onde muitas mulheres não têm coragem de falar com seus próprios nomes sobre determinada situação, e recorrem ao anonimato. Elas são auxiliadas e uma rede de ajuda é criada ali, de forma muito bonita e eficaz. Ainda de acordo com o livro “uma das consequências mais significantes da mídia social talvez seja a de que as mulheres vivendo sob as condições mais restritivas agora podem, pela primeira vez, encontrar maneiras de criar relações interpessoais com pessoas que elas não seriam previamente capazes de encontrar“. Essas possibilidades do anonimato e da internet enquanto empoderadora são sensacionais e devem ser preservadas.

       Mas o próprio livro argumenta que não é em todos os locais e situações que essa igualdade e diminuição das restrições de normas de gênero ocorrem dentro da internet. Como toda a premissa do “How the world changed social media” é mostrar que as mídias sociais são utilizadas de forma diferente, de acordo com o local e contexto de uso, ele também foca nas coisas problemáticas que a internet traz e infelizmente não há um capítulo abordando necessariamente o anonimato. Porém, no capítulo sobre gênero fica claro que uma das possibilidades libertadoras da internet é o fato de cada um poder assumir a identidade que bem entender. Os fakes dizem respeito a isso: você cria um avatar com uma história específica que provavelmente quer dizer muito sobre o que você não pode dizer a respeito de si mesmo utilizando o próprio nome e a própria história. Em se tratando de um mundo desigual no quesito de gêneros, onde os homens ainda se sentem em posição de poder por sobre as mulheres e capazes de fazer o que bem entenderem com elas, assumir uma posição feminina online é algo bastante corajoso. 

       Seria muito mais fácil se eu tivesse um pseudônimo masculino. Se em todas as minhas redes sociais e no meu próprio blog eu escrevesse sob a face de um homem-cis-hetero-branco-classemédia. Dizem que com a identidade feminina se faz muito mais sucesso na internet e alguns homens até têm inveja disso. O que eles desconsideram é que grande parte desse sucesso vem com desrespeito e dúvidas quanto a sua real capacidade – porque ainda tem gente que acha errado ser mulher e ser inteligente.

            Mas eu claramente não sabia disso quando me adentrei no universo online pela primeira vez, aos 10 anos. Eu, inocente, nem tinha parado para pensar que talvez aqui fosse o lugar onde eu pudesse ter todas as regalias masculinas que me são negadas no mundo offline. Eu não pensei em nada disso e vim ser mulher aqui, tanto quanto sou fora daqui. E isso é algo de grelo forte de minha parte, porque não é fácil. Não é fácil receber essas perguntas bizarras de pessoas que se acham no direito de fazê-las e que esperam que eu responda. Não é fácil receber comentários nos meus vídeos no youtube que falam sobre a minha beleza e não sobre o que eu disse. Não é fácil ler coisas como “o vídeo é uma bosta, mas pelo menos ela é bonitinha” e menos fácil ainda ler que eu sou “grossa” e “estúpida” quando me recuso a responder gentilmente perguntas escrotas e quando resolvo fazer textos enormes reclamando de coisas que me incomodam. É menos fácil ainda ler um “é sem educação, mas é gostosinha“. Não é fácil ter todas as minhas atitudes questionadas porque sou mulher. Ter os meus gostos pessoais em relação a séries e livros questionados. Ter que ouvir que “não sou nerd” porque “não sou boa em jogos” ou porque não gosto de super herói X. Na verdade, é um grande pé no saco ter que ficar o tempo todo lidando com posições alheias sobre o que eu sou e como eu deveria ser. E é terrível, nojento e assustador pensar que tem gente que acha tudo isso normal. 

       Tá na hora de vocês, homens que têm essas atitudes bizarras, pararem para pensar que estão estragando o potencial da internet. Que estão estragando essa coisa linda e pacífica que poderia existir. Que estão perpetuando comportamentos offline que remontam a pré-história. Tá na hora de vocês começarem a perceber que podiam fazer as coisas um pouquinho diferentes e que podiam começar aqui na internet. Nós somos gente como vocês.

       Então, que tal ao invés de agir de forma escrota e colocar em questão tudo que a gente fala, como se fôssemos amebas, você, toda vez que for falar com uma menina, pensar antes se falaria daquela forma caso ela fosse um homem? Que tal pararem pra pensar que ao continuar nos tratando dessa forma vocês vão continuar sozinhos, porque cada vez mais nós, mulheres, estamos percebendo que não fomos feitas para servir a vocês e estamos começando a nos rebelar quanto a isso? Se toquem. Cresçam. Respeitem. Vocês tão cagando com o mundo, aprendam a dar descarga ao menos! Somos gente. Que tal começar a me tratar assim?

Not Alone

Tenho acesso à internet desde muito nova, embora nos primeiros três anos ela tenha se resumido a jogar no site da Barbie (que acabei de visitar e descobrir ser bem diferente hoje em dia). Nesta época, a conexão era discada e o acesso complicado, pois usar a internet fazia com que o telefone da casa saísse do ar – e a minha família adora telefonar. Quem se dava bem era meu irmão, que já tinha seu próprio computador e aproveitava para ficar logado de madrugada, quando além de não incomodar o pessoal do telefone, conseguia uma conexão mais rápida.

Foi quando eu tinha onze anos e me mudei para Curitiba que tive meu primeiro acesso à internet banda larga. Na época, wi-fi era impensável, pois não havia dispositivos que pudessem se conectar à internet (além do computador). Como tinha me mudado e abandonado amigos, pude acessar redes sociais pela primeira vez. Tive e-mail, MSN e Orkut, além de visitar ocasionalmente os chats online, como da UOL e outros servidores (sim, para acessar a internet era necessário ter um servidor pago e que te provia um endereço de e-mail grátis, ou algo assim). Comecei então a conversar com muitas pessoas conhecidas e, através das comunidades do Orkut e destes chats, com pessoas desconhecidas também. Nenhum contato duradouro a ponto de eu me lembrar do nome de alguém.

Com catorze anos eu descobri o Neopets, que mudou minha vida online. Nele fiz diversas amizades (como já contei inúmeras vezes neste espaço) que se tornaram reais na vida para além internet. Nessa época também fiz minha conta no Facebook e comecei a escrever em meu primeiro blog. Tudo era muito novo e legal e eu vivia descobrindo novas pessoas que também escreviam sobre as coisas que eu gostava e que passavam pelas mesmas coisas que eu. É  claro que tinha boas e fieis amigas na escola e nos outros locais que habitava, mas a internet começou a se tornar o local onde eu era compreendida. A coisa ficou ainda mais intensa quando eu conheci o Tumblr e isso eu não lembro exatamente a data. É a única rede social que até hoje eu tento não divulgar, porque é onde me sinto à vontade para liberar meu “lado negro”, ou seja, falar sobre coisas e situações que eu não falaria costumeiramente com as pessoas. E compartilhar imagens sensacionais que não seriam compreendidas em qualquer lugar que não ali.

Twitter, blog, youtube, snapchat, instagram, facebook, tumblr… São muitas as redes sociais. São muitos os sites para os quais elas me redirecionam. São muitas as pessoas, vidas e histórias com as quais entro em contato diariamente e: amo muito tudo isso. Não troco as minhas amizades e pessoas queridas do universo não-digital, mas tão pouco consigo me imaginar existindo sem compartilhar as minhas coisas e ter acesso a tudo que as outras pessoas fazem. Existem blogueiras que até hoje eu nunca falei um oi, mas acompanho fielmente e, mesmo sem comentar nos textos, me sinto compreendida. Tem grupos onde eu posso conversar sobre coisas que ninguém mais estaria interessado. Tem sites onde eu descubro sobre coisas que não descobriria em bibliotecas ou conversando com as pessoas que conheço na vida real. E tem pessoas. Pessoas lindas e brilhantes, cada uma com seu universo particular repleto de histórias sensacionais, vitórias pessoais e derrotas frustrantes. E a internet é uma oportunidade de viver tudo isso com todo mundo e compartilhar tudo. Sabe aquela coisa de que a felicidade só é real quando compartilhada? É isso!

Ouvir uma pessoa super feliz e empolgada no snapchat narrando a vitória do seu dia. Poder comentar sobre aquele episódio de seriado ou o filme que você acabou de ver e acha que ninguém gostou e descobrir que existem pessoas que também gostam deles. Falar sobre coisas que te irritam e descobrir que outras pessoas também se irritam com elas. Ficar triste e achar que a vida está acabando e poder conversar com outras pessoas com a mesma sensação, aliviando sua barra. Descobrir que todas as coisas que te disseram que você não podia por ser mulher, por ser pequena, por ter doenças , por quaisquer motivos que sejam, na verdade você pode fazer. E entrar em contato com pessoas que fizeram. A internet é um lugar maravilhoso, porque não importa o momento que se esteja passando, vai ter alguém ali que te entende. E mesmo que a pessoa não acredite em um ser transcendental que tudo guia, não vai se sentir sozinha.

Porque a internet é feita em rede, é uma união de diversos pontinhos interconectados (nós, nossas palavras, gestos, textos, imagens etc). E ela nos faz acreditar que juntos somos mais fortes.

Libertando-se

Em Junho via-se muitas pessoas naquelas passeatas sem sentido, que serviram pra barrar a PEC 37 (que eu nunca soube o que era) e não para fazer meu ônibus de domingo voltar a ser um real, segurarem um cartaz escrito “saímos do facebook” e depois postarem uma foto segurando esse cartaz na tal rede social. Achava engraçado. Segurava cartazes tão toscos quanto na doce ilusão de uma possível revolução, aham, claro.

Em Julho ou Agosto, como minha ótima memória me impede de lembrar, resolvi que ia sair da tal rede social. Aguentei cerca de dois dias e logo tive que voltar porque precisava conversar com as pessoas, precisava dos resumos das provas – que eu não lia os textos porque ficava conversando com as pessoas, precisava ver o spotted, saber qual era a notícia da semana, do que estavam rindo e quanto tempo eu precisaria dar scroll no feed de notícias até chegar na parte em que já tinha lido. Então fui lá e voltei. Depois tentei sair de novo, aguentei uma semana e me rendi novamente. Por pura burrice.

Meu irmão se formou em Outubro e isso fez com que eu entrasse em uma aposta idiota com a minha prima (que eu perdi, claro, e agreguei uma dívida enorme a ser paga em chocolates), me vestisse com o vestido que era dela e eu sempre quis pra mim, pintasse meu cabelo de arco íris, bebesse coisas que nem sabia que existia e dançasse loucamente com pessoas que eu vejo no cotidiano e mal tenho coragem de dizer oi. Em meio a tudo isso, refleti. É engraçado como minhas melhores reflexões sobre a vida vêm em momentos aleatórios e não quando eu termino aquele livro iluminador e penso que “uau, agora minha vida mudou”. As mudanças ocorrem sem que a gente perceba ou pense muito, de uma hora pra outra aquele amor-da-sua-vida passa a ser um mero conhecido e o que você considerava mais essencial pra sua sobrevivência torna-se absurdamente banal. E foi durante a festa, quando minha prima pediu para que eu tirasse foto dela tomando tequila porque ela “tinha que colocar no facebook” que eu relembrei o quanto tudo aquilo me incomodava por todo aquele tempo e decidi que seria a minha gota d’água. Essa e outras milhares de decisões e resoluções que não cabem ser aqui mencionadas, surgiram após dançar Asa de Águia, gritar “evidências” e presenciar minha mãe bebendo e dançando Elvis Presley.

Saí do facebook e não contente, desfiz-me também do twitter. E isso faz quase um mês. E eu não senti a menor falta, a não ser na primeira semana. Passei a rir de quem diz “cadê você pra eu te marcar” e a trocar e-mails lindos com pessoas extremamente importantes que eu simplesmente havia esquecido que existiam e outras que estou começando a descobrir a existência agora. Aflorei amizades via whatsapp e reiniciei as conversas engraçadas via skype com pessoas que não vejo há séculos. Os meios de comunicação “precários” me fizeram retornar aos velhos hábitos, àqueles de quando eu estava no ensino médio e também odiava as pessoas que devia conviver todos os dias e me limitava a conversar apenas o estritamente necessário e passar o resto do tempo lendo. Não é que eu deteste as pessoas que tenho que ver todo dia, é que já não aguento mais pisar naquela faculdade, olhar pra cara deles e ter que ouvir todos os protótipos de revoluções, vidas fracassadas e aventuras em bares ou qualquer outro lugar desinteressante. Já não aguento mais a ideia de frequentar bares ou qualquer outro tipo de atividade social e, embora isso me doa as vezes, tenho me sentido bem com minha solidão. Tanto que até olho pra cara da minha mãe e falo “sai do meu pé, me deixa em paz” e o normal era eu querer passar o tempo inteiro com ela, porque a solidão me matava. Não me sinto tão sozinha, mesmo que agora eu esteja mais. Sinto-me mais livre, respirando um ar mais puro, é difícil explicar e talvez pareça tosco todo esse emaranhado de letras aqui expressas, mas só quem já passou cerca de doze horas diárias presas a um computador e conseguiu se ver livre disso em um momento inesperado pode ter ideia do que ando sentindo. É bom. É claro que a necessidade excessiva de compartilhamento ainda existe, mas está sendo cada dia mais podada. Pelo menos a necessidade de completude esvaiu-se, porque percebi que consigo me sentir completa sem precisar projetar isso em pessoas aleatórias e, em suma maioria, insignificantes. Eu posso escolher com quem conversar, o que conversar e tenho o prazer de repetir a história mil e uma vezes, porque não tem como elas saberem sem ser por fofoca ou por mim.

Lógico que continuo a ser uma estudante desleixada e que não tenho capacidade mental pra ler os textos que ficam chatos depois da segunda página, porque ficar presa a eles enquanto tem toda uma estante com coisas intocadas me esperando é algo que realmente me agoneia. Confesso que estou tentando, sei que não vou ter um futuro profissional brilhante, mas não dá pra desperdiçar quatro anos da vida em uma faculdade se eu não for aprender nada com isso. Minha prima vive dizendo que na faculdade a gente só deve ir em festas e “pegar geral” (palavras dela) e que os estudos vêm depois. Eu acho que não, eu só topei fazer faculdade porque achava que ia aprender algo com ela, então, o mínimo que posso fazer é tentar realizar este anseio.

Divagações à parte, esse texto gigante foi para dizer que: estamos no décimo oitavo dia deste tenebroso novembro e eu já li quatro livros e estou lendo outros dois ao mesmo tempo e quase finalizando um, ou seja, pelo menos SEIS livros garantidos pra esse mês. Pra quem mal estava conseguindo suportar uma obra mensal, estou me sentindo a rainha do universo literário. O mais legal é que só tenho uma matéria da faculdade completamente atrasada, as outras estou só uma ou duas aulas atrás e geralmente eu leio tudo na véspera da prova, quando leio. Acho que finalmente estou virando alguém que algum dia eu possa me orgulhar e tenho pretensões bastante positivas para o próximo ano, o que me deixa mais tranquila e com vontade de manter as expectativas de pessoa nerd. não presa às notas como outrora, mas com a ânsia por sabedoria restaurada, afim de diminuir a escala de ócio e, com isso, o desamor tão presente nesse coração atordoado.

Fiz um vídeo com três livros legais que li recentemente, espero que vocês leiam algum deles, são realmente bons!